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História

O abismo da falta de informação

Sinopse

Carlos Magno Gomes de Souza nasceu na cidade de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, onde surgiu uma paixão pelo futebol que ele cultiva até os dias atuais. Aos 18 anos, mudou-se para São Bernardo do Campo, em São Paulo, cidade na qual ainda vive. Em 2008, Carlos descobriu que estava com diabetes tipo 2 e, apesar de ser uma doença bastante divulgada, ele relata diversas situações em que a falta de conhecimento ainda se mostra presente no dia a dia das pessoas.

História completa

Meu nome é Carlos Magno de Souza, eu sou nascido e criado em Volta Redonda, Estado do Rio de Janeiro, no dia três de janeiro de 1969. O nome do meu pai, Davi Alves de Souza e mãe, Terezinha Gomes de Souza e tenho duas irmãs, a mais velha é Adriana Maria Gomes Ferreira, eu sou o do meio e a mais nova que é a Simone.  Minha mãe é nascida em Ervália, Estado de Minas Gerais e vieram para Volta Redonda, e meu pai era de Quatis, Estado do Rio de Janeiro, também saiu da região de Quatis. Chegando em Volta Redonda, minha mãe era funcionária da Lojas Americanas e o meu pai saía da Siderúrgica para paquerar a minha mãe na Lojas Americanas. Os dois se encontraram, se conheceram e dali pra frente, surgiu a família Souza. Minha mãe faz aniversario em julho, uma pessoa calma, bonifica, mas eu a conheci muito pouco tempo. Quando eu tinha 11 anos, ela teve um AVC e faleceu. Meu pai era uma pessoa mais nervosa, mas eu acredito que era por causa do seu trabalho como mestre em caldeiraria pesada.

 

A nossa família sempre foi uma família muito humilde, pai metalúrgico, minha mãe não trabalhava depois que ela conheceu o meu pai e casou, ficava em casa pra cuidar dos três filhos. A nossa infância foi recheada de brincadeiras como escorregar nos barrancos da vida, tomar banho de enxurrada de chuva, jogar bolinha, pião, pipa, coisa que hoje em dia você não vê mais fazer isso. Nós também viajávamos muito para a roça, tinha um irmão da minha mãe que tinha sitio, então nós sempre íamos para o sitio dele e lá, ficava final de semana, quando não íamos para o sitio, nós íamos para Angra dos Reis, porque Volta Redonda é muito próxima do Rio de Janeiro e de vez em quando, a gente ia para o Rio de Janeiro também, porque tinha uma parte da família que permanecia na cidade do Rio de Janeiro.  Dentre essas viagens teve uma muito especial , que nós fizemos com sete anos de idade para Angra dos Reis de trem. Foi a primeira vez que eu andei de trem. O trem saía de Volta Redonda, descia a serra de Angra dos Reis e chegava no centro de Angra dos Reis que chama Praia das Gordas e Praia Jardim. Essa viagem foi uma emoção danada, porque andar de trem e ver aquela paisagem, a serra, naquela época era magnífico. É uma passagem da minha vida que me emociona até hoje.

 

Volta Redonda era uma área de segurança nacional e devido a isso eu estudava em escola militar. Isso tudo em época de ditadura militar aqui no Brasil. Volta Redonda na época da ditadura tinha mais ou menos 120 mil habitantes, era uma cidade referência naquela época, muito em ordem, porque os militares tomavam conta, assim, era muito austera em relação a questão de responsabilidade, limpeza e o bem estar da população. Era uma ótima cidade para morar. Dou graças a Deus de ter estudado nas escolas militares de Volta redonda, que o emblema lá era FEVRE – Fundação e Educação de Volta Redonda e o qual, você estudava e na escola, você tinha uma parte dos estudos chamava Artes Industriais, você tinha que entrar na oficina e se formar ou em marceneiro, ou tapeceiro ou eletricista. Você já se formava no segundo grau, naquela época era o ensino básico e já saía com uma pré formação da escola, já podendo ingressar numa profissão externa à escola.

 

Eu gosto de futebol até hoje e desenvolvi essa paixão na época da escola. Eu e meus amigos íamos a um campo de Várzea que tinha no fundo da escola, um terreno, campo de futebol de terra magnifico vermelho, quando chovia, melhor ainda, chegava em casa, já olhavam pra você: “Cara, da onde você veio?” “Vim da lama”. Aquilo era sensacional. Quando não era jogar bola, era empinar pipa, era muito bom. Aos 15 anos, eu comecei a trabalhar numa serralheria que existe até hoje em Volta Redonda, chama B. Guimarães. Uma serralheria de esquadria de ferro e alumínio. Eu entrei como auxiliar e permaneci lá até os 17 anos. Nessa época era uma vida corrida porque eu fazia um curso de técnico de edificações na Fundação Getúlio Vargas e sai para trabalhar de casa as seis horas da manhã e só voltava para descansar  meia noite e meia ou uma hora da manhã.  Depois da serralheria, com 17 anos ainda, eu prestei um processo seletivo em uma empresa de engenharia chamada CR Couto Engenharia em Barra Mansa. Barra Mansa e Volta Redonda é muito próximo e eu fui trabalhar como auxiliar de desenho e mexia com construção civil.

 

Com 18 para 19 anos, eu vim embora para São Paulo porque não gostava do sistema carioca de trabalhar. Eu sou uma pessoa um pouco agitada, capricorniano e gosto de trabalhar. E os cariocas são um pouco mais lerdos, mais tranquilos, trabalhavam menos e eu não gostava disso. E teve um tio por parte de mãe que morava aqui em São Bernardo do Campo, o Antônio Gomes , me chamou para vir, que tinha uma empresa de engenharia que estava precisando de pessoas para trabalhar e eu vim para São Bernardo do Campo com 18 pra 19 anos. O nome da empresa era BWS Engenharia e fiquei trabalhando com ele durante dois anos aqui em São Bernardo do Campo. E quando eu cheguei eu fui morar com o meu tio, ele tinha uma loja que consertava eletrodomésticos, tudo que faz parte de eletrodomésticos e fazia manutenção de eletricidade. Então, durante a semana, eu trabalhava na BWS Engenharia e de sábado e domingo, eu trabalhava com ele fazendo manutenções em apartamentos, lojas, comércios. A minha adaptação foi boa. Eu gostava da cidade, gosto da cidade até hoje e São Bernardo do Campo tem um atrativo também que me chamou muito a atenção que é a Represa Billings, eu ia pescar muito lá. Pescaria também é um dos meus hobbies.

 

E foi trabalhando na empresa BWS Engenharia que eu conheci a minha esposa. O meu sogro estava fechando um negócio com a BWS, comprou um terreno e ia construir a casa. Eu conheci o meu sogro, porque fiquei responsável pela obra da casa dele e começamos uma amizade e quando tinha construção de final de semana uma vez ele falou “Vamos comer uma feijoada?”, aí foi quando eu conheci minha esposa. Ele me apresentou a filha dele, a patrícia e daí pra frente começamos  a namorar e namoramos durante quatro anos, pedi ela em casamento e casei em 21 de dezembro de 1996. Ficamos quatro anos sem ter filho pra gente aproveitar, se conhecer, viajar. Depois ela engravidou do meu primeiro filho que é o Pedro, hoje ele tem 15 anos. Depois de um ano e pouquinho, veio a Sarah, e a minha caçula, Lívia, agora em 2013.

 

Em 2008 teve um episódio de estresse com um funcionário de uma empresa na qual eu trabalhava e depois da discussão eu senti uma dor abdominal muito forte, tive algumas fases de vômitos e aí, desmaiei. Fiquei 48 horas em coma e quando eu acordei, eu estava dentro do hospital. Eu tive uma pancreatite aguda, grave e os meus anticorpos combateram minha insulina como se fosse maligna, por causa do nervoso. Eu já tinha princípio de diabetes, mas eu controlava apenas com medicação via oral. Porém após esse acontecimento, meu pâncreas parou de produzir insulina e eu virei diabético. E eu não sou uma pessoa muito melancólica não, sou mais de encarar a realidade do jeito que ela é. Se é diabetes, eu sou diabético. Se vou ter que passar por isso, eu vou passar por isso. A Adaptação demorou um ano e meio, Para eu cair na real, mesmo, do que eu podia fazer e do que eu não podia fazer. O corpo pede. Eu estava acostumado a comer carne de porco, pernil, leitão a pururuca. Então é uma fase de adaptação normal do corpo. Hoje eu enxergo que o controle da diabetes depende muito de você. Se for uma pessoa muito relaxada, não faz o controle, não coloca insulina, o corpo vai se minando e os problemas virão. Mas se você for uma pessoa que acompanha e segue as recomendações você terá uma vida normal, como qualquer outra pessoa. E acho extremamente importante a disseminação de informações referente a diabetes, porque muitas dúvidas surgem para nós e não temos a informação exata e a falta de informação leva uma pessoa na beira do abismo e só falta alguém falar assim: “Cai”. Se tivesse informação, essa pessoa ficaria a uns dez passos do abismo e tinha como fazer um viaduto para ele atravessar para o outro lado.

 

Hoje sou engenheiro formado, trabalho em uma empresa familiar e tenho como sonhos acompanhar a minha família, saber curtir meus filhos e fazer as coisas que gosto como viajar, pescar, ir a praia e viver da melhor forma possível, sem muita extravagancia, sem muito espetáculo e continuar com os meus trabalhos, porque amo trabalhar. 27/07/2016

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Publicado em 08/11/2016 por

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P/1 – Eu vou começar Carlos, pedindo para você nos dizer o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R – Meu nome é Carlos Magno de Souza, eu sou nascido e criado em Volta Redonda, Estado do Rio de Janeiro, sou nascido dia três de janeiro de 1969.

P/1 – Carlos, e o nome dos seus pais?

R – Nome de pai, Davi Alves de Souza e mãe, Terezinha Gomes de Souza.

P/1 – Você tem irmãos?

R – Tenho. Tenho duas irmãs.

P/1 – Fala o nome pra mim.

R – A mais velha é Adriana Maria Gomes Ferreira, casada, três filhos, eu sou o do meio e a mais nova que é a Simone, que é solteira.

P/1 – Seus pais são vivos ainda?

R – Mãe falecida. Pai ainda vivo. Pai tem 83 anos.

P/1 – Fala um pouquinho deles, a história deles, onde eles se conheceram…

R – Minha mãe é nascida em Ervália, Estado de Minas Gerais e vieram para Volta Redonda, onde tem a Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, que era um distrito de Barra Mansa, depois feita a emancipação. Essa história eu conto porque meu pai era de Quatis, Estado do Rio de Janeiro, também saiu da região de Quatis, que é uma parte do município de Barra mansa e todos foram para Volta Redonda. Chegando em Volta Redonda, minha mãe era funcionária da Lojas Americanas e o meu pai saía da Siderúrgica para paquerar a minha mãe na Lojas Americanas. Os dois se encontraram, se conheceram e dali pra frente, surgiu a família Souza.

P/1 – Fala um pouquinho deles, assim, como é que é a personalidade do seu pai, como é que era a sua mãe, conta um pouquinho deles.

R – Minha mãe faz aniversario em julho, uma pessoa calma, bonifica, mas eu conheci ela muito pouco tempo. Quando eu tinha 11 anos, ela teve um AVC e faleceu. Mas sempre foi uma pessoa muito proativa, sabia resolver uma porção de coisas, cuidar muito bem dos filhos, fazia uma boa comida e meu pai era metalúrgico. Era mestre em caldeiraria pesada, mexia boa parte com materiais de aço na CSN. Pessoa muito nervosa (risos), faz aniversario dia 21 de abril, leonino, muito nervoso, mas depois que eu fui fazer alguns testes de técnica dentro da Companhia, eu entendi porquê que o meu pai era muito nervoso. Porque o setor SOM que era o emblema da área dele, acima de 90 decibéis de barulho o dia inteiro e barulho, cheiro de gás, e por isso irritava muito ele. Não tinha muita calma com os filhos, era uma pessoa muito boa, mas isso atrapalhava um pouco o convívio. Mas até hoje, tem 83 anos, fez 83 agora dia 21 de abril de 2016 e ele tem problema de diabetes, que é um caso da família dos dois lados, tanto de mãe, como de pai.

P/1 – Vamos chegar nisso aí daqui a pouquinho. Antes, eu queria só retomar o episódio da morte da sua mãe. Uma época muito nova pra você, né? Você se lembra disso?

R – Foi em 1980. Volta Redonda era uma área de segurança nacional por causa da Companhia Siderúrgica Nacional e no dia do acontecimento, houve uma inauguração do fórum de Volta Redonda. Como a nossa escola era uma escola militar, nós tínhamos que…

PAUSA

P/1 – A história do falecimento da sua mãe.

R – Então, no dia do acontecimento, houve a inauguração do fórum, estudava em escola militar porque Volta redonda era uma área de segurança nacional, era época da ditadura militar e nós tínhamos que representar a escola no município e fazer as honras militares, Coronel ia fazer a inauguração do fórum e na parte da manhã até a hora do almoço, eu permaneci no centro da cidade e depois, fui pra casa. Na nossa casa existia uma área grande e eu sempre gostei de criação, nós somos acostumados com criação em roça, essas coisas assim e eu tinha feito um galinheiro há pouco tempo, fiz um banco no galinheiro para jogar milho para as galinhas e no dia, ela estava um pouco calma, não entendia porquê, porque ela não era daquele jeito, ela… eu fui dar milho às galinhas, quando eu sentei na madeira, ela veio e sentou do meu lado e daqui a pouco, ela veio e me encostou, ela se debruçou, como se tivesse caído de lado assim, eu falei: “Mãe, você tá pesada, não dá pra ficar jogando milho pra galinha e a senhora encostada”, e ela não saía, quando eu percebi, ela tinha desmaiado. Naquele momento tinha acontecido um AVC, tinha saído um pouco de sangue do nariz, aí eu coloquei ela no banco e fui chamar os vizinhos, a rua onde eu morava eram famílias antigas, aí eu chamei o vizinho, eles pegaram, colocaram ela no carro e levaram para o hospital mais próximo que era o Hospital São José e dali pra frente, não vi mais, porque eu não fui no velório, não queria ver a outra parte. Onze anos de idade, a gente não entende muito bem o que é, mas teve um AVC fulminante. Já saiu de casa morta, já.

P/1 – Eu vou te perguntar agora da sua infância, depois de um episódio desse, perde um pouco a importância, né, mas antes da morte da sua mãe, como é que era a sua infância lá em Volta redonda?

R – A nossa família sempre foi uma família muito humilde, né, pai metalúrgico, minha mãe não trabalhava depois que ela conheceu o meu pai e casou, ela não trabalhava mais, ficava em casa pra cuidar das crianças, três filhos já tá de bom tamanho já, para administrar uma empresa chamada Lar. Então, eles se casaram, moraram um tempo na casa da minha avó. A casa da minha avó era em um terreno grande que tinham mais cinco casas, uma das casas foi cedida para eles e nesse trajeto, meu pai estava construindo a casa nova e a casa nova… foi quando nós mudamos pra lá em 76 e até 80 foi legal, foi quando ela faleceu em 80. A infância nossa é uma infância normal de escorregar nos barrancos da vida, tomar banho de enxurrada de chuva, jogar bolinha, pião, pipa, coisa que hoje em dia você não vê mais fazer isso. Não tinha muita tecnologia naquela época. Você transformava um pedaço de pau em carrinhos, pegava champinhas, champinhas tinha uma rolha no meio, não sei se vocês lembram disso, mas eu lembro, você pegava as rolhinhas, batia num pedaço de pau e transformava em carrinhos, transformava em caminhão. A gente inventava as coisas porque não tinha dinheiro para comprar. Mas foi uma infância bem regada à imaginações e aos devaneios da vida.

P/1 – Com quem que você mais brincava? Você era próximo das suas irmãs? Seu pai era presente nesses momentos? Ou tinha um amigo mais próximo?

R – Sim. Meus pais sempre foram presentes e nesse trajeto até 1980, nós viajávamos muito para a roça, tinha um irmão da minha mãe que tinha sitio, então nós sempre íamos para o sitio dele e lá, ficava final de semana, quando não ia final de semana pro sitio, nós íamos para Angra dos Reis, que eu trouxe a fotografia e aproveitava, porque Volta Redonda é muito próxima do Rio de Janeiro e de vez em quando, a gente ia para o Rio de Janeiro também, porque tinha uma parte da família que permanecia na cidade do Rio de Janeiro. Os irmãos tinham, as minhas irmãs, praticamente, nós somos um colado no outro, não deu tempo nem prazo muito grande entre nós, tinha uma boa convivência, tinham as brigas normais que um irmão pega com outro e aí, tem ciúmes da Coca-Cola de um que quer tomar a Coca-Cola do outro, coisas normais que no período eu vejo hoje meus filhos, é normal. Mas foi muito boa a infância, não tenho questões de alguma coisa que eu posso falar assim que me atrapalhou.

P/1 – E essas viagens, seja para o Rio, para Angra ou para o sitio, tem alguma que tenha sido mais marcante pra você?

R – Tem. Tem essa que nós fizemos com sete anos de idade para Angra dos Reis de trem. Foi a primeira vez que eu andei de trem (risos). O trem saía de Volta Redonda, descia a serra de Angra dos Reis e chegava no centro de Angra dos Reis que chama Praia das Gordas e Praia Jardim, era uma emendada na outra. Aquilo ali foi uma emoção danada, porque andar de trem e ver aquela paisagem, a serra, naquela época era magnífico, então foi uma parte que me marcou bastante, tanto que eu trouxe a fotografia, nem sabia que vocês iam me perguntar isso, mas eu trouxe, porque é uma coisa que me emociona até hoje.

P/1 – E no sitio, o quê que você aprontava no sitio?

R – No sitio, tanto pegar cana pra transformar em garapa, caldo de cana, como pegar milho, laranja e a fruta da época que tinha no momento. Tinha muita ameixa, goiaba, manga, caqui, tudo que era fruta da época. Chegava final de semana, tinha banana. Banana tinha à vontade e o ano inteiro, mas era sempre a questão de você entrar no mato, colher, trazer e comer a fruta sem nenhum agrotóxico, sem nada. Transformar as comidas, fogão à lenha que tem um sabor magnifico, isso é muito legal.

P/1 – Volta Redonda, como é que era Volta redonda nos anos 70, no período da ditadura, como você disse, uma área estratégica do governo, como é que era?

R – Volta Redonda na época da ditadura tinha mais ou menos 120 mil habitantes, era uma referência da cidade do Rio de Janeiro, era uma cidade referência naquela época, muito em ordem, porque os militares tomavam muito, assim, era muito austera em relação a questão de responsabilidade, limpeza e o bem estar da população. Não tenho o que falar nada da época dos militares lá. Lá não existia bagunça. Existia uma segurança formidável, como um bom carioca, gostava de pular carnaval, matinê e você poderia sair a hora que fosse na rua que ninguém te incomodava em momento algum. Era uma ótima cidade para morar. Saúde funcionava, as escolas funcionavam, assim, magnificamente, dou graças a Deus de ter estudado nas escolas militares de Volta redonda, que o emblema lá era FEVRE – Fundação e Educação de Volta Redonda e o qual, você estudava e na escola, você tinha uma parte dos estudos chamava Artes Industriais, você tinha que entrar na oficina e se formar ou em marceneiro, ou tapeceiro ou eletricista. Eles ensinavam isso para você, você já se formava no segundo grau, naquela época era o ensino básico, é diferente de hoje, mas você já saía com uma pré formação da escola, já podendo ingressar numa profissão externa à escola.

P/1 – O quê que você queria ser quando você estudava na escola? Qual que era o seu sonho profissional da sua vida?

R – Ser engenheiro.

P/1 – Queria ser engenheiro?

R – Ser engenheiro.

P/1 – E o quê que era mais marcante pra você nesse ambiente escolar? Algum professor?

R – Os professores era algo, assim, vamos falar que 40% nós adorávamos, 60% nós queríamos matá-los (risos), cada um tem uma personalidade. É um jeito e uma maneira de ensinar você, depende de como você absorve isso, tem pessoas que gostavam e outras que repudiavam, porque não gostavam do professor. Mas o intuito que eles tinham que passar pra gente era ensinar e você tem que sair de lá sabendo que eles estavam dando a informação.

P/1 – Qual que é a recordação mais forte que você tem do período da escola?

R – Professor Jair Guerra de Química. Aquilo era o terror! Química, eu detestava Química, tabela periódica, quando eu via, chegava a arrepiar aquele troço. Igualzinho tabuada em Matemática, tinha isso aí na ponta da língua, enquanto não aprendi a tabela periódica, não deixava passar de ano (risos), mas eu consegui passar de ano. Nós aprendemos, eu consegui memorizar e consegui fazer todos os trâmites normais de Química naquele período.

P/1 – E a turma de amigos ali na escola? Você era um cara de turma, era mais isolado? Como é que era?

R – Eu tinha uma turma de amizade, mas era muito mais amizade restrita, não gostava muito de bagunça, não gostava de muita agitação. Tem os bardeneiros e tem os amigos legais, que faziam pequenas bagunças, assim. Então, eu sou da parte mais restrita. Nunca fui muito de andar em bando. Amizade dava pra contar no dedo.

P/1 – Mas o quê que vocês costumavam fazer?

R – Jogar bola. Tinha um campo de várzea perto da escola, no fundo da escola, a escola que eu estudava de quinta à oitava série chama João Vinte e Três. No fundo da escola, existia um terreno, campo de futebol de terra magnifico vermelho, quando chovia, melhor ainda, chegava em casa, já olhavam pra você: “Cara, da onde você veio?” “Vim da lama”. Era bola. Era jogar bola. Aquilo era sensacional. Quando não era jogar bola, era empinar pipa, era muito bom. Foi um período muito bom.

P/1 – Aí, você saiu da escola, você foi fazer cursinho mais pra frente? Como é que foi? Você começou a trabalhar ainda no período da escola?

R – Aos 15 anos, eu comecei a trabalhar numa serralheria que existe até hoje em Volta Redonda, chama B. Guimarães. Uma serralheria de esquadria de ferro e alumínio. Eu entrei como auxiliar e permaneci lá até os 17 anos.

P/1 – Como é que era o seu trabalho? Seu dia a dia de trabalho nessa época?

R – Eu levantava às seis horas da manhã, chegava na empresa às seis e meia, ia de bicicleta, era muito próxima da minha casa e trabalhava até às cinco e meia da tarde. Às cinco e meia da tarde, pegava a bicicleta, seis e quarenta e cinco deveria estar entrando em casa, seis e cinquenta e cinco, deveria estar… já tinha tomado banho, era tudo cronometrado, se falhasse um minuto, eu perdia o ônibus para voltar para a Fundação Getúlio Vargas, na qual eu fiz o Técnico em Edificações, eu tinha que ir correndo para a escola. Então, chegava na escola às sete horas, ia até às 11 e meia da noite, chegava em casa entre meia-noite e meia e uma hora da manhã, dormia, levantava às seis e isso aí de segunda a sábado. Domingo, a gente soltava um pouco a vontade de dormir, dormia até mas oito horas, depois pegava a turma e ia jogar bola (risos). Essa era a nossa rotina.

P/1 – E depois da serralheria, trabalhou onde?

R – Depois da serralheria, que foi dos 15 até os 17 anos, com 17 anos, eu prestei vamos falar assim, um pré vestibular em uma empresa de engenharia chamada CR Couto Engenharia em Barra Mansa. Barra Mansa e Volta Redonda é muito próximo de São Paulo a São Bernardo do Campo, você passa assim sem notar que você passou da cidade. Então, eu fui trabalhar em Barra Mansa, na CR Couto Engenharia, era auxiliar de desenho e mexia com construção civil. Então, mexia com projetos de edifícios residenciais e casas de dois, três pavimentos de acordo com o que tinha lá no momento. Então se fazia desenhos de civil. Naquela época, existiam as pranchetas, o papel vegetal, nanquim, o normógrafo, eu guardei todo esse material para mostrar para meus filhos como as coisas eram duras antigamente. Hoje, você entra no AutoCAD, você compra um programa, você só coloca as áreas, ele transforma pra você o que você quer. Naquela época não, você tinha que demonstrar que você sabia desenhar. Então, tinha todo esse material, eu guardei até hoje e eu fazia desenho, era responsável, depois fui para a parte responsável de desenho e com 18 para 19 anos, eu vim embora para São Paulo.

P/1 – Antes da mudança, esse tempo todo você morava com o seu pai…

R – Meu pai.

P/1 – E como o seu pai tocou a vida dele depois da morte da sua mãe? Ele teve outro relacionamento? Como é que era?

R – Em 1980, meu pai, assim que a minha mãe faleceu, meu pai chamou a mãe dele e as duas irmãs dele que estavam solteiras para morar com a gente em casa. Nossa casa era grande. Então, minha avó paterna veio morar com a gente e as outras minhas duas tias, a Teresa e a Cidinha vieram morar com a gente pra cuidar da gente, né, porque a gente era muito pequeno. A minha irmã mais nova tinha oito, eu tinha 11 e a minha irmã mais velha tinha 13. Então, vieram morar com a gente e daí, ficou, minha vó faleceu e as minhas duas tias ainda permanecem junto com o meu pai na minha casa. Meu pai não casou mais, nunca mais.

P/1 – E ele mora lá em Volta Redonda ainda?

R – É.

P/1 – Com as irmãs?

R – Com as irmãs.

P/1 – Esse tempo todo. Que interessante. E a sua vinda para São Paulo? Por quê que você veio para São Paulo?

R – Não gostava do sistema carioca de trabalhar (risos). Eu sou uma pessoa que durmo muito pouco, acho que dormir é uma parte desnecessária da nossa vida, acho que dormir a gente perde tempo, sou uma pessoa um pouco agitada, sou capricorniano e gosto de trabalhar, eu gosto de ter o meu dinheiro, gosto de desenvolver as coisas, se eu vejo algum detalhe que dá pra aprimorar, a gente aprimora, por isso que eu gosto de engenharia. E esse jeito agitado me define porque os cariocas são um pouco mais lerdos, mais tranquilos, oito horas, trabalhar menos, não precisa e isso eu fiquei indignado (risos). E aí, teve um tio por parte de mãe que morava aqui em São Bernardo do Campo, o Antônio Gomes me chamou para vir, que tinha uma empresa de engenharia que estava precisando de pessoas para trabalhar e tudo mais e vim pra cá, para São Bernardo do Campo com 18 pra 19 anos. Fiz o teste novamente, passei, o nome da empresa era BWS Engenharia, passei e fiquei trabalhando com ele durante dois anos aqui em São Bernardo do Campo.

P/1 – Quando você veio, você foi morar onde? Com o seu tio? Como é que foi essa chegada aqui em São Bernardo?

R – Fui morar com o meu tio, meu tio morava em São Bernardo do campo, na Avenida Senador Vergueiro, no Jardim do Mar, no ponto mais conhecido de vocês aqui, é próximo da Cidade das Crianças, que é um ponto muito conhecido em São Bernardo do campo. E ele tinha uma loja de eletrodomésticos, consertava eletrodomésticos, tudo que faz parte de eletrodomésticos e fazia manutenção de eletricidade. Então, durante a semana, eu trabalhava na BWS Engenharia e de sábado e domingo, eu trabalhava com ele fazendo manutenções em apartamentos, lojas, comércios. Ou senão, consertava ferro elétrico, liquidificador, batedeira, que são as coisas que também me interessava, por quê que não funciona? Por quê que a catraca não roda? Tem o rolamento… então, aprendi bastante coisa com ele e ele era o meu segundo pai aqui em São Paulo. Nós se dávamos muito bem. É interessante que na época de solteiro, ele e minha mãe se davam muito bem, eu não sabia, depois que fiquei sabendo. Ele se dava muito bem com a minha mãe, era dos irmãos assim que a minha mãe tinha 14 irmãos. Então ele se dava muito bem com a minha mãe e depois com o tempo, que eu vim para São Paulo, aí eu fiquei sabendo, que me contaram a história que ele se dava muito bem com a minha mãe e se dava muito bem comigo. E eu fazia esse bem bolado com ele no final de semana ou finalzinho da tarde, quando eu chegava do escritório: “Tem manutenção na fábrica, vamos?” “Vamos! Tô dentro”, gostava muito… gosto muito de trabalhar.

P/1 – E São Bernardo nos anos 80, como é que foi ficando assim, de Volta Redonda pra cá?

R – Foi um pouco difícil, porque era muito frio. Carioca no gelo é meio complicado. Eu lembro que na época tinha o Jumbo Eletro, ficava ali no Shopping Metrópole em São Bernardo do Campo, eu entrei no Jumbo Eletro e fui atrás de um aquecedor. Aí, eu comprei um aquecedor elétrico lá, porque senão, não dava para dormir. Colocava ele bem próximo da minha cama e até me acostumar. A pele se acostuma no ambiente em que você quer morar. Isso eu aprendi na vida, porque o troço era feio. Usar gorro, usar cachecol, coisa que eu não gosto muito de roupa, mas tive que colocar porque senão, você não trabalhava. A adaptação foi boa. Eu gostava da cidade, gosto da cidade até hoje, né, e São Bernardo do Campo tem um atrativo também que me chamou muito a atenção que é a Represa Billings, eu ia pescar muito lá, pegava tilápia lá. Isso me chamou muito a atenção. Pescaria também é um dos meus hobbies e isso me chamava a atenção que no final de semana, quando tinha um gás, nós íamos pescar na represa e já pegava, já fritava lá mesmo. Então, tem esse atrativo. Gostei muito de São Bernardo do Campo.

P/1 – Você ia com o seu tio?

R – Meu tio e mais dois, três amigos que também frequentavam a loja que ele tinha. A loja chamava “Cheguei, comércio de material elétrico”. Cheguei mesmo, com C, H. Era interessante que tomo mundo lembrava: “Cheguei”.

P/1 – E teve alguma pescaria mais curiosa que a outra, assim, alguma mais marcante?

R – Teve. Teve. Em 1989, nós conseguimos uma tarrafa e tinha um morador do Riacho Grande, seu Aníbal chamou, falou: “Seu Antônio, vem esse final de semana aqui que tá dando muita tilápia”, ele falou: “Cara, não vou perder minha viagem, não” “Não, pode vim que na minha casa tem um píer que entra praticamente 20 metros dentro da lagoa, do umbigo da represa, vem pra cá que você vai comer peixe”. Aí, ele me telefonou: “Onde você tá?” “Eu tô chegando do Guarujá”, porque a empresa tinha uma obra no Guarujá, na Praia do Tombo, o Edifício Orla, eu tava terminando o edifício, ele: “Sobe então, que a gente vai ter uma pescaria hoje à noite” “Mas hoje à noite?” “É, hoje à noite, de tarrafa”. Então juntou eu, meu tio Antônio, seu Aníbal, o Marcelo, meu primo Fabio, meu primo Mário e mais o Eduardo, fomos em seis e jogava a tarrafa e trazia peixe, jogava a tarrafa e trazia peixe. Então, cuidamos, um limpava, outro já empanava o bicho e já comia por lá, mesmo. Aquele foi o dia. À noite estava maravilhosa, uma lua que estava refletindo na represa. Comi peixe muito bem (risos), ainda deu pra levar pra casa.

P/1 – Nessa época, você era solteiro?

R – Era solteiro.

P/1 – E você voltou a estudar aqui, ou você terminou lá e veio para cá e…?

R – Voltei a estudar, me formei em Engenharia…

P/1 – Mas calma lá! Como é que foi? Você voltou a estudar nessa época lá em São Bernardo? Como é que foi?

R – Isso. Em São Bernardo do Campo. Assim que eu cheguei em São Bernardo do Campo, naquela época, não tinha muito acesso as universidades, faculdades, porque você tinha que pagar a maior parte das faculdades eram pagas, né, não tem essa facilidade de hoje em dia e aí, eu fui fazer a faculdade Santa Cecilia, que hoje é a Unisanta, né? Em Santos. E me formei em Engenharia Civil.

P/1 – Como é que foi esse período de faculdade? Como é que você foi como universitário, assim?

R – Não com muitos amigos, porque eu sempre fui restrito a esse universo de muita gente. Eu não bebo, nunca bebi na minha vida, nunca fumei na minha vida, então eu era uma pessoa que não era muito social, porque social naquela época tinha que tomar uma cerveja e eu não bebo porque meu pai tem problema de alcoolismo. Na época… alguns anos atrás, a família inteira tem problema com álcool e isso, a maior parte dos meus tios morreu de cirrose hepática e aí, vendo a situação de pessoas alcoolizadas é meio complicado. Então, eu resolvi… eu, minhas irmãs e alguns primos resolvemos não adquirir o álcool na vida, porque era muito, eu aborrecia demais. Porque quando a pessoa bebe demais e extrapola o negócio, atrapalha a vida e então, resolvemos não beber e eu nunca bebi na vida (risos). E nunca fumei também, não.

P/1 – Mas você se formou e foi trabalhar onde? Continuou trabalhando na mesma empresa?

R – Eu sai da BWS, junto com o meu tio, eu montei uma empresa “Construções e Reformas Maglimitada”, que prestava serviços de administração técnica e administração de obra. Isso se deu até 2005 e depois, em 2005, eu fiquei mais três anos numa empresa de construção civil em São Bernardo do Campo, a Jaci e depois, eu ingressei em 2008. Tem um período, de 2005 pra 2008, antes do acontecido, que apareceu o diabetes na minha vida, eu fui trabalhar na CPI Engenharia, uma empresa de pré-moldados. Isso permaneceu até o ano passado, novembro do ano passado. E de novembro do ano passado pra cá, eu estou na Suprimed, uma empresa distribuidora de produtos hospitalares da Johnson & Johnson do Brasil e hoje, nós estamos adquirindo também os produtos da Covidien e a Medtronic e eu sou o gerente de logística e distribuição dos produtos e a empresa é do meu tio, Nelson Pescara Filho.

P/1 –Só um pouquinho, que agora você deu uma adiantada. Vou voltar um pouquinho.

R – É que tem que adiantar um pouquinho, pra gente voltar pra você entender.

P/1 – Aí, você se formou, você trabalhava. E o seu relacionamento, assim? Você conheceu sua esposa quando?

R – Conheci minha esposa em 92, construindo a casa dela (risos).

P/1 – Como é que é essa história? Conta pra mim.

R – Eu trabalhava na BWS Engenharia, e o meu sogro estava fechando um negócio com a BWS, comprou um terreno e ia construir a casa, o arquiteto, um dos donos da empresa, que BWS significa Battistini, que é do Adalberto, o arquiteto, W que era Wellington, que é o calculista e Mauro Spadafora que era o outro calculista. E aí, meu sogro conhecia eles, comprou um terreno e queria construir uma casa e aí, quando eles foram lá, ele foi se apresentar foi quando eu fiquei conhecendo o Claudio, meu sogro. E aí: “Vamos começar a construção dele e você vai tocar a obra dele” “Perfeito”, foi quando eu o conheci e começamos uma amizade, da amizade, a construção, final de semana: “Vamos comer uma feijoada?”, aí foi quando eu conheci minha esposa (risos), ele me apresentou a filha dele, a patrícia e daí pra frente, aquele olhar, você sabe que o magnetismo é esquisito, não tem como te falar isso, mas existe alguma coisa que atrai e aí, quando começou a dar certo, aí eu pedi em namoro a filha dele: “Quero namorar a sua filha, você já me conhece, você sabe que não sou baderneiro” “Não, faço muito gosto”. E aí, comecei a namorar e namoramos durante quatro anos, namoro e noivado, quatro anos e casei em 1996, 21 de dezembro de 1996.

P/1 – E os filhos?

R – Os filhos, o primeiro nasceu em 2001, eu fiquei quatro anos para não ter filho pra gente aproveitar, se conhecer, viajar. Depois de quatro anos, ela engravidou do meu primeiro filho que é o Pedro, hoje ele tem 15 anos. Depois de um ano e pouquinho, veio a Sarah, que eu não queria muita distancia entre os dois, veio a Sarah em 2003 e a rapa do tacho veio agora em 2013 (risos).

P/1 – Passou um pouquinho?

R – Dez anos só.

P/1 – E qual que é o nome da…?

R – Lívia.

P/1 – Da caçula. E nesse período antes dos filhos, falou que queria aproveitar, viajar…

R – Viajamos muito. Aproveitava praia, gostava. Os lugares que eu mais frequentava era Angra dos Reis, litoral paulista, litoral norte paulista, viajava muito para Botucatu, sitio que eu trouxe as fotos para ela. Botucatu, roça, Rio de Janeiro, cidade do Rio de Janeiro, Visconde de Mauá, parque Nacional de Itatiaia, Campos do Jordão, Caldas Novas, aí você viaja pelo Brasil inteiro.

P/1 – Você em 2008 foi quando…

R – Em 2008, houve uma disfunção porque eu sai de uma empresa, fiquei um tempo parado e fui trabalhar na CPI. Mas antes de entrar na CPI, na saída da empresa na qual eu trabalhava, eu me estressei com um funcionário, fiquei muito nervoso, uma coisa assim, que nunca pensei que ia acontecer. O funcionário me desacatou e tudo mais, eu passei um nervoso danado, depois do desacato, da desavença momentânea, demorou quase uma hora essa discussão e tudo mais, passados uns 15 minutos, eu senti uma dor abdominal muito forte, uma dor mais ou menos parecida quando você leva um soco na boca do estomago, se fecha, você não consegue respirar e começa a envergar e eu cai no chão. Tive algumas fases de vômitos e aí, desmaiei, me levaram para o hospital, eu entrei em coma, fiquei 48 horas em coma e quando eu acordei, eu estava dentro do hospital.

P/1 – E o quê que foi isso?

R – Isso foi uma pancreatite aguda, grave e os meus anticorpos combateram minha insulina como se fosse maligna, por causa do nervoso e eu entendo hoje que diabetes tem tudo a ver com o seu emocional. Por mais que você controle a insulina, os remédios, se você altera de um minuto para cinco minutos qualquer coisa nervoso, o pico da diabetes passa de 300.

P/1 – Mas você teve essa crise, essa pancreatite decorrente do…

R – Nervoso, mal estar momentâneo.

P/1 – Não era algo que você…

R – Não. Antes, eu tinha um principio de diabetes que era controlado com uma metformina de 300 mg, tomava 300 mg e ficava por ali, sempre era controlado dessa forma. Nunca nada, nada, nada. Nada de diferente na minha vida, nada.

P/1 – E aí, você teve esse episódio aí do estresse com o funcionário…

R – Como os funcionários me falaram: “Não te reconhecia. Você é um cara calmo, educado. Aquele dia tu era um leão, era… você queria matar o cara de qualquer jeito”, eu falei: “Eu queria, se não me segurassem, eu ia pegar ele”, aí esse nervoso todo, depois, eu senti uma dor muito forte abdominal que não sei da onde veio. Aí, eu cai no chão, vomitei, desmaiei. Fui para o hospital, do hospital, quando eu acordei de 48 horas em coma, da minha cintura pra baixo, eu não sentia nada, não se movia nada. E os meus braços, eu só conseguia levantar mais ou menos nessa altura, nada mais do que isso. Os músculos se transformaram em geleia, você não conseguia fazer nada, tudo que era músculo no seu corpo, você balançava assim, era geleia. Aquilo me assustou.

P/1 – E os médicos falaram o quê pra você?

R – Ficavam na cabeceira da minha cama discutindo se iria ter um transplante de pâncreas, se ia dar certo, combinações de medicamentos. Eu lembro que depois que eu acordei, cada 30 minutos vinham, picava o meu dedo, batia raio X e colhia a minha urina. Isso a cada 30 minutos, eu não dormia, estava estressado. Vendo o que estava acontecendo. Eles mal falavam qual era o procedimento, eles não falam, ficava na cabeceira da cama entre três médicos, discutindo qual ia ser a providência. Nisso, eu fiquei oito dias na UTI, até que no oitavo dia, eles falaram: “Você teve uma pancreatite, aconteceu isso, aquele tratamento já melhorou, você vai para o quarto, no quarto você vai acompanhar mais oito dias até você ficar apto a sair. não vai ser necessário o transplante do pâncreas, tá ok, mas ele não fabrica mais insulina e você vai tomar insulina e nós vamos passar uma relação de coisas que você pode comer e o que você tem que fazer. Se você obedecer o cardápio, você vive. Se você não obedecer o cardápio, você morre. Você que escolhe.” “Perfeito. Me dá que vou seguir a risca”. Tô aqui vivo (risos).

P/1 – Mas e aí? Nesses oito dias depois no hospital, aí você foi, imagino, se inteirando da situação que afinal de contas, você tinha acabado de sair do período de coma…

R – Foi.

P/1 – Como é que foi receber esse diagnóstico do diabetes?

R – Olha, eu não sou uma pessoa muito assim, melancólica: “Aí, estou doente…”, não, não sou muito assim, não. Sou mais de encarar a realidade do jeito que ela é. Se é diabetes, eu sou diabético. Se vai ter que passar por isso, eu vou passar por isso, se tem que aplicar insulina, eu mesmo aplico insulina. Eu conheço pessoas que não gostam de aplicar insulina, convidam outras pessoas, vai na farmácia, mas eu sempre apliquei a minha insulina, aplico na parte abdominal, na perna ou dentro da perna, onde é indicado. Existem alguns demonstrativos onde você pode aplicar insulina. Sempre apliquei minhas insulinas, faço minhas medições, os dedos estão tudo furados (risos), faço minha medições e faço o controle. Durante sete dias, um dia eu exagero na comida, faço o que bem me entende, que ninguém aguenta e durante o restante, a gente controla com verduras, arroz integral e tudo mais.

P/1 – É isso que eu queria perguntar pra você, como é que foi a mudança na sua vida, depois que você saiu do hospital?

R – Adaptação demorou um ano e meio, pra você cair na real, mesmo, do que você podia fazer e do que você não podia fazer. O corpo pede. O corpo pede. Eu estava acostumado a comer carne de porco, pernil, leitão a pururuca. Nada disso pode, porque o diabetes acompanha o triglicérides e o colesterol, tudo que desregula aqui, desregula. Então, é um conjunto. É um grupo. Então, se um deles altera é você que é o prejudicado. Triglicérides leva à morte, colesterol também te leva à morte, diabetes também te leva à morte, Então, se você controlar tudo, tem vezes que você consegue controlar e outras vezes que você não consegue controlar. E assim vem desde 2008 fazendo todos os acompanhamentos, médicos, endócrinos e…

P/1 – O quê que foi mais difícil nesse primeiro momento de adaptação?

R – Adaptação, primeiro foi alimentação, segundo foi a questão de exercícios físicos, eu em 2000, eu joguei bola e arrebentei o meu cruzado anterior e posterior jogando futebol de salão, um desembargador de São Bernardo do Campo me atropelou e acabou com o meu joelho e eu vejo que a falta de atividade, de um futebol, isso me atrapalhou um pouco, porque eu era uma pessoa ativa, jogava bola terça, quinta e sábado. Quando eu parei, porque não podia mais jogar porque eu tenho a prótese na cabeça do fêmur e tenho parafuso de titânio por aqui fora, tudo, se jogar bola, eu perco a perna. Isso já foi avisado. Então isso é uma atividade física que me faz falta. Eu adoro futebol. Então quando cortou, eu senti mais do que a diabetes (risos), mas só que o diabetes, eu vejo que me prejudicou por falta dessa atividade física que eu tinha, porque se eu não tivesse cortado, eu estaria ainda apto, sem problema da diabetes. Então, foi um acúmulo, porque escritório de engenharia, você não faz atividade física no total que você deveria, você tem que ficar acompanhando obra, você sobe uma escada, tudo mais, você faz, você anda. Se você colocar um velocímetro em você, você andava, praticamente, dez a 15 quilômetros por dia dentro de uma obra, você sobe escada, desce, vai ali, então você roda o dia inteiro, mas tem o problema de você sentar, aquela vida sedentária que você fica, você se alimenta e de vez em quando, não dá para você fazer as atividades. E isso te atrapalha. O diabético, ele tem que tomar o medicamento e tem que fazer atividade física, nem que se for 30 minutos, uma caminhada, alguma coisa pra você ajudar a queimar, isso já é provado, que eu faço vários testes, de vez em quando, antes, depois da insulina, você faz as atividades, você relacionar atividade física é muito importante, não tem jeito.

P/1 – Agora, você disse que foi difícil primeiro a questão da alimentação, depois que você não poderia mais jogar bola. Agora, um momento específico que você se viu numa dificuldade ou num desafio a vencer ou um momento que te deixou mais pra baixo.

R – Reforçar a musculatura do corpo, porque aquilo que tinha transformado em gelatina, você tinha que voltar a ter sua energia, novamente. E o teste que eu fazia era quando levantava, pegava um saco de açúcar de um quilo, você não conseguia passar disso aqui, você fazia uma forca desgraçada e você não conseguia. Então, você tinha que fazer atividades, você tinha que fazer algum tipo de flexão e tudo mais, aí saber que você conseguia levantar um centímetro. Passada mais uma semana, mais um centímetro até que você conseguia levantar o braço com peso na mão. Isso aí foi a melhor fase que eu consegui, eu pensei que não ia conseguir.

P/1 – E a sua família?

R – Assustada! Quando a pessoa gosta de você. A família gosta de você, você faz parte do grupo, então a preocupação: “E aí, como é que tá? Você tá controlando a diabetes? Tá tomando insulina?”, qualquer um que passa por você é como se fosse uma gravação: “E aí? Tá controlando a diabetes? Tá tomando insulina?” “Tá tudo controlado”. Todos. Todos. Não tinha um que mão perguntava e quando não ligava, né? De vez em quando, até congestionava a telefonia lá em casa, porque todo mundo perguntava.

P/1 – Você falou das mudanças práticas na sua vida: alimentação, atividade física. E a mudança de ver a vida, de pensar a vida ou pensar o futuro. O quê que mudou?

R – Com o acontecimento de 2008, eu já tinha dois filhos. Você começa a dar assim, a ter primeiro, um pouco de medo do que estava acontecendo e que poderia falar assim: “Puta, será que eu consigo passar, quer dizer, cria-los e passar por esse momento e fazer eles se formarem? Acompanhar e tudo mais?”, você fica com aquela interrogação. Isso é um pouco que você faz a pergunta pra si próprio. Graças a Deus, como frequento uma igreja católica, qualquer uma, mas a minha é católica, então você escuta coisas boas e aquilo ali te alimenta a alma e tudo mais, mas então é assim, você escutava de cima, pra mim era Deus que falava assim: “É o seguinte, para você melhorar é você mesmo. Eu te dou o caminho, mas você que vai ter que andar”. É assim que eu entendo a vida. É você que faz, você que escreve. É você que desenha, ninguém pode pegar a sua mão e falar assim: “Eu vou desenhar, vou fazer por você”. Isso não existe. É você que tem que fazer, então a força de vontade está em você. Então isso ascendia o fogo que eu tenho e agora tá melhor ainda, mais quente ainda de mostrar para você que você tem capacidade para isso. Você tem que vencer a barreira e desafio é comigo mesmo. Eu acho que todo ser humano que gosta de desafio é nessa parte aqui também, então, você tem possibilidades? Tenho. Tem como conseguir? Tenho. Tem força de vontade? Tenho. Então, não falta nada, então é você que tem que colocar em prática, porque falar é bom, mas tem que colocar em prática. E tá dando certo até hoje.

P/1 – Nessa sua convivência desde 2008 com a diabetes, qual passagem te deixou mais gratificado no sentido assim, eu estou conseguindo fazer isso?

R – Esse momento da questão da musculatura. A musculatura, reação do corpo é algo assim, magnifico. De 2008 até mais ou menos 2009, a dificuldade de você fazer certos tipos de exercícios te atrapalha. A questão de ereção, a questão de mobilidade, isso te atrapalha. Tudo que envolve músculos do corpo desaparece. Então, atividade física, eu notava que quanto mais atividade física, pelo menos três vezes por semana com mais ou menos 40 minutos, o corpo dá uma reação melhor no outro dia, você se sentia mais forte, você sente isso. Então, isso pra mim foi muito gratificante. Isso aí me deixou bem contente.

P/1 – E nesses sete, oito anos, oito anos, né, com diabetes, teve algum episódio, provavelmente teve. Conta pra gente algum episódio de crise de hipoglicemia.

R – Hipoglicemia dá para contar no dedo. Eu tive hipoglicemia acho que umas nove vezes. Em oito anos, eu tive nove vezes. E aconteceu durante a madrugada e também não foi aqui em casa, foi quando eu estava fazendo a obra da Fiat lá em Goiânia, em Pernambuco, essa nova fábrica da Fiat que tá fazendo esse Jeep Renegade, é porque eu injetei uma quantidade de insulina, uma unidade a mais do que deveria e eu acordei de madrugada, estava 71 e eu tenho muita facilidade de acordar, não tenho sono pesado, você se sente zonzo, você se sente meio bobo, aí você sabe que você tá com hipoglicemia. Então, eu sempre deixo barra de chocolate, bebidas, sucos na geladeira com açúcar, você toma, é igualzinho o Popeye, dez minutos, você comeu espinafre, cara, você sente um herói (risos) e acontecia isso mesmo, tinha uma baixa muito grande, você se sentia meio mole, de vez em quando era difícil caminhar até a geladeira ou pegar o chocolate, você come, você conta dez minutos, você reativa novamente, você sente energia no corpo novamente. Aí volta tudo normal. É como se a bateria tivesse descarregado.

P/1 – Essa foi a última crise que você teve, essa que você tá…?

R – Foi.

P/1 – E qual foi a mais, assim, grave que temais te surpreendeu?

R – Todas foram mais ou menos nesse padrão, não teve nenhuma que assim, eu não consegui chegar até a geladeira ou pegar alguma coisa, ou cair no chão, não, não teve esse episódio. Mas todas elas foram essa mesma coisa, você se sente esquisito. Dormindo, você se sente meio bambo e é difícil de você levantar, você consegue caminhar até você pegar, dá uma tremedeira, isso também é reativo do momento, e você não consegue controlar e depois quando você bebe alguma coisa ou pega açucar e tudo mais, aí você daqui a pouco, você volta ao normal. Geralmente, eu sentava na sala ou sentava na cama, mantinha o corpo em pé, aqui assim, aí voltava ao normal.

P/1 – E o monitoramento do nível de glicose?

R – Seis horas da manhã, meio-dia, 18 horas e 21 horas. Quatro vezes todo dia.

P/1 – Você acha que te incomoda a picada? Não incomoda?

R – No inicio incomodava, porque quando pega na ponta do dedo e o desgraçado do dedo começa a vazar sangue, de vez em quando, você acerta e sai um pouquinho de sangue, mas de vez em quando, não sei o que acontece, você pega na ponta do dedo, que você aperta assim, mas injeta em você, injeta na sua roupa. Eu passei por dificuldades em plena mesa de reunião, eu estava fazendo o teste ao meio-dia, porque eu estava em reunião, tinha que clicar, então ficava: “Clica aí o dedo, senão você vai passar mal”, clicava, mas quando apertava assim, bicho, vazou na mesa de reunião tudo. Isso é um transtorno. Você não sabe onde você vai pegar no dedo, você tem dez dedos, você utiliza os dez, aí de vez em quando, pega num negócio, quando você aperta assim, mas sai, mas espirra mesmo. O negócio é impressionante, sem você saber, né, porque geralmente, eu coloco a canetinha número quatro, bem leve, mas pega e quando espirra, mas espirra em todo mundo, cara.

P/1 – Então, você contou esse exemplo da reunião e parece que as pessoas que estavam ali são pessoas que te conheciam. Mas você teve algum momento, por exemplo, que você estava fazendo o teste e que a pessoa do lado se sentiu desconfortável ou te olhou de um jeito assim: “O quê que tá acontecendo?”?

R – Vira a cara. Vira a cara, sai da sala porque não pode ver sangue, não pode ver picada, não pode ver agulha. Você encontra o universo de pessoas que têm vários problemas de visualizar o problema que você tem. Desde você levantar a blusa e injetar a seringa, como você pegar a seringa e tirar do frasco a insulina, não pode ver seringa, não pode ver sangue, não pode ver aparelho, tem fissura. Teve um que quase desmaiou na minha sala, porque não sabia qual que era a reação dele, mas só que na minha sala sempre tem um frigobar e minha insulina tá lá dentro, eu tiro e já aplico, acabou. Quando ele viu, o cara quase desmaiou, ele bambeou as pernas e puf, sentou, quase que foi no chão por ver essa cena. Tem pessoas que têm medo, né? Eu acredito que teve algum problema do passado, infância que têm medo dessas coisas, então não pode ver sangue, não pode ver seringa, não pode ver nada que direcione a essa parte médica.

P/1 – E especificamente, ao que diz respeito ao monitoramento da glicose, outras passagens como essa, por exemplo, da reunião. Você lembra de alguma para descrever que tenha acontecido algo curioso ou desagradável ou mesmo engraçado ou que te chateou, enfim…

R – Engraçado foi que teve uma reunião que tinha 22 pessoas dentro da sala, as 22 queriam fazer o teste pra saber se estavam com diabetes. Aquilo foi hilário, porque eu sempre ando com o meu aparelho. Eu coloquei em cima da mesa, falei: “Dá licença, que eu vou…”, aí todo mundo: “O que você vai fazer?” “Medir diabetes” “Você pode medir a minha?’ “Você pode medir a minha?”, os 22 mediram o diabetes e descobrimos que tinham três que estavam com 400 de glicose e em cima, e não sabiam que estavam com esse problema e foram encaminhados para o departamento médico da obra e da obra, foram para o hospital e ficaram sabendo que eram diabéticos e tinham que começar a tomar uma metformina da vida. Aquilo foi legal, né, porque assim, eu ando com os meus apetrechos de diabetes, eu chamo meu estojo de primeiros socorros. Então, eu sempre ando com aquilo e engraçado foi isso, na reunião, os 22 que estavam na sala, comigo era 23, os 22 quiseram clicar o dedo para descobrir se tinha diabetes e três estavam com diabetes totalmente alterada.

P/1 – Qual que você acha que é um dos ou o principal desafio que você tem pela frente convivendo com o diabetes?

R – O principal desafio é querer saber até onde eu vou. São as perguntas sem resposta. E a resposta é o que eu falei agora há pouco, depende de você. Tudo depende de você. Se for um cara muito relaxado, não faz o controle, não coloca insulina, o corpo vai se minando e vai apodrecendo aos poucos. É assim que eu penso. Se você for um cara que acompanha, faz as coisas direitinho, faz todo medicamento, faz acompanhamento, eu acredito que permaneço bastante tempo aqui. Tive contato com outras pessoas que já tem mais ou menos há 22 anos, 26 anos com esse problema com insulina e tudo mais, vive uma vida normal, muito boa e não falam nada que é só controlar e saber levar a vida. Então é isso que eu faço.

P/1 – Pra você, o que é viver plenamente?

R – Viver plenamente é ter uma boa família, saber curtir meus filhos, minha família, não a núcleo, a família total. Gosto de viajar, gosto de pescar, gosto de ir na praia, gosto de sitio e viver da melhor forma possível, sem muita extravagancia, sem muito espetáculo, não gosto disso, sou um cara meio recatado, e gosto de conviver com as pessoas, gosto de fazer amizades. Gosto de fazer amizades, gosto de fazer meus trabalhos tanto na parte de engenharia, como na parte da distribuidora. Isso eu gosto. Amo fazer, trabalhar.

P/1 – Qual que é o seu sonho hoje ou os seus sonhos?

R – Meu sonho é mais ou menos o que eu já descrevi. É ter essa vida que eu desenho e tento leva-la, por que eu falo assim? Porque você não consegue controlar filhos, você não consegue controlar outras pessoas, mas se você mostra que as coisas que você faz são boas e que você mostra são coisas boas, e eles trilham o mesmo caminho, isso me dá animo porque demonstração, as coisas que a gente faz, isso me deixa muito grato e aí, eu convivo com eles, a gente fica se acostumando, a gente vê as coisas, o filho vai crescendo, ele começa a ter umas manias que você não sabia, você vê a pequena crescendo, aí você vê que os neurônios dela começaram a nascer, que ela já falava errado e agora, já não fala mais. E isso acontece num período de 15 dias, 30 dias, vai nascendo neurônio, vai pegando outras formas, adoro isso.

P/1 – Como é que é a relação com seus filhos, hoje? Tem a mais novinha, tem os outros dois que já são jovens. O quê que você gosta de fazer com eles? Como é que é a convivência com eles?

R – Esse mês é mês de férias na escola. Nós temos uma casa em Bertioga, num condomínio fechado, porque a nossa casa aqui em São Bernardo do Campo não dá para andar com bicicleta na rua que os cara leva (risos), infelizmente. Então nós temos uma casa num condomínio fechado lá, eles vão passar férias e quando chega lá, é bicicleta, andar nA praia, ir para praia, sentar em frente ao mar, aí a pequenininha mexe com areia, faz castelo de areia, aí você faz junto castelo de areia, joga areia pra cima, aí você come areia, as coisas habituais de uma família. É isso que eu gosto, é esse âmbito que eu gosto.

P/1 – Legal. Tem alguma coisa que eu não te perguntei e que você gostaria de contar pra gente?

R – Relativo a expectativa da entrevista, acho que as piores já falamos, que é a questão do que eu passei, como que o corpo absorveu esse problema, falta de musculatura e tudo mais, medicamentos, a questão do uso dos equipamentos, como é que é perante as pessoas e você próprio e a vida cotidiana. A minha vida não é muito assim, diferente, mas é uma vida tranquila.

P/1 – O quê que você achou de contar a sua história pra gente aqui?

R – Eu acho bom, quando eu fui convidado, nós nos conhecemos pelo e-mail, né? Eu pensei que você era mais velha (risos), eu tinha conversado com ela que eu acho interessante porque é bom divulgar o que a gente tem. A gente tem uma falta muito grande sobre a questão do quê que é diabetes. Existem três tipos de diabetes, o diabetes, o diabetes um e o diabetes dois. Cada um tem um grau de vamos falar assim, de tratamento, né? E é bom que vocês façam isso porque é bom esclarecer, existem muitas informações, mas as informações exatas nós não temos (risos) e olha que eu pesquiso. Entro em sites, eu entro em um monte de lugar, meu pai recolhe. Meu pai gosta muito de ler, meu pai é da época das revistas Seleções, não sei se você sabe. Seleções é uma revista muito antiga, então meu pai lê muito, então o meu pai pega revista de 1963, 65 me apresenta, tem coisa de 63 que já eram descritas que hoje já são coisas resolvidas, mas ele traz pra gente ler e tudo mais. Então, isso é muito importante para difundir e mostrar o que é real, o que não é fictício, tem que ser real. Porque a gente precisa de apoio, nós precisamos de apoio, porque quanto mais apoio, descrever o que é a doença, o quê que a gente pode fazer, como é que nós podemos resolver, como é que nós podemos fazer um bom tratamento, isso é muito válido.

P/1 – Você falando nos mostra, sugere uma pessoa que lida muito bem com a situação. Você contou episódios aí do seus monitoramentos ou mesmo da aplicação de insulina que mostra uma pessoa que lida bem com isso. Outras pessoas que a gente já entrevistou aqui têm relações com mais constrangimento ou menos bem resolvidas, digamos assim, que às vezes esconde, às vezes prefere não falar. Você nessa situação mais bem resolvida, você já encarou algum tipo ou percebeu algum tipo de preconceito. Você falou dessa coisa da pessoa não poder ver agulha, tal, mas alguma coisa assim que tenha causado desconforto assim, de alguém se preocupar demais ou de alguém te tratar diferente por causa do diabetes?

R – Diferença por ter diabetes nunca aconteceu, mas preocupação eu tenho. Eu tenho três tias que é algo assim, como me conhecem desde pequeno, nascido, têm uma preocupação assim, horrenda. Aí, no inicio, era telefonar para mim quase o dia inteiro, todo dia, todo momento até mostrar, você mostrar a elas que tá tudo bem, que tá controlado e a vida segue, porque praticamente, ela queria ficar do seu lado praticamente 24 horas para te ajudar a aplicar, para fazer medição, não, não precisa disso. Tá tudo bem. Preocupação existe sim. Pessoa quando ama, vamos falar assim, a palavra amor é muito lindo escrito. Mas depois que você convive, você sabe, existem vários tipos de amor, amor com a esposa, amor com os filhos, tudo mais, quando você sabe o todo, o grande o quê que é amor, o amor contamina. Então quando a pessoa ama você, ela praticamente, arranca a roupa do corpo, dá a sua vida para você. Então tem pessoas que são assim, almas que são gêmeas, então são suas tias, sua esposa, pode ser um amigo seu e ele identifica a alma muito paralela a sua, então ele se preocupa com você. Então, entendo dessa parte. É assim que eu descrevo e alimento o meu pensamento e dá tudo certo no final.

P/2 – Posso só te perguntar uma coisa com relação ao controle assim, com médico…

R – Sim.

P/2 – Você sempre teve bons médicos que te ajudaram nesse controle ou você passou em algum momento por algum médico que você achou que não…

R – Boa! Eu já tô no meu 15º médico. Esse é o que eu tive mais segurança. Marcio Krakauer. É o que eu tive mais segurança.

P/1 – O quê que foram os problemas que você encontrou nos outros?

R – É que a maior parte dos médicos não é que não se interessam pelo seu problema, é que quando eu verifico assim, eu sou engenheiro, mexo com muita gente, a gente começa assim, eu ficar perto de vocês aqui, eu já começo a desenhar a sua personalidade, o que você gosta, o que você gosta de falar, quais são os assuntos, você a mesma coisa e ele a mesma coisa. Eu tenho essa facilidade (risos), por estar 24 horas ligado. Como a gente não bebe, a gente não sai fora do ar, então a gente fica 24 horas ligado. Isso eu acho legal. Então assim, a característica do médico é a seguinte, ele pegava os exames: “Você tem problema de diabetes, tudo mais…”, alguns nem olhavam para a sua cara, “Então você vai tomar tanto de insulina, vai tomar isso aqui. Muito obrigado, boa tarde, pode ir embora”. Eu relaciono isso porque logico que o plano de saúde paga tão mal para eles, eles não têm o interesse de mostrar o que é direito, o que é dever dele. É como Engenharia, se eu fizer um calculo estrutural inadequado, as pessoas que entrarem dentro dessa sala, a laje pode cair na cabeça de vocês, então há um desrespeito quando a gente faz o juramento em qualquer faculdade, você ser leal aquilo em que você se formou. Se você se formou é porque você estava apto a faze-lo de acordo com as normas, com as leis com as quais você se formou. Noto que os médicos, hoje em dia, não dão muita importância a isso, por quê? Ou por causa do recebimento, ou por causa de um aborrecimento, eu não sei. Eu não posso entrar na cabeça, no mundo dele e adivinhar, mas o que ele passa pra mim é que ele tá me maltratando, porque a partir do momento que passa uma coisa, não olhou na minha cara, não fez muita coisa, não fez muita pergunta e nem nada, muito obrigado, volto nunca mais.

P/1 – Além dessa questão da desatenção, você ao longo desses 14 médicos, afinal de contas, são 14, teve algum problema do tipo de algum tratamento equivocado, de alguma orientação errada?

R – Teve. Teve um em Recife. Como eu estava fazendo a obra em Pernambuco, eu tive que morar em Recife, então, onde eu vou trabalhar, a empresa é obrigada a me dar um médico endócrino para tratar do meu problema, eu só viajo nessas circunstâncias e lá, eu conheci o Armando Barroso, o cara me colocou uma quantidade de insulina lá, que eu falei: “Cara, se eu tomar esse monte de insulina aqui, eu vou morrer de madrugada” “Não, o senhor tem que tomar isso aqui, porque isso aqui pelo seu histórico, pelo teu exame, tu tem que tomar isso aqui”, eu falei: “Cara, você tem certeza?” “Toma, toma, que tu vai gostar…”, tô falando igualzinho ele porque era desse jeito que ele falava: “Toma, toma, que o senhor vai gostar”. Primeira noite, foi o que eu te falei, sai bambo da cama, quase que nem cheguei na geladeira par tomar nada, quase desmaiei”. A gente também tem noção, a gente depois de várias passagens em médicos, a quantidade de insulina, você consegue se aprimorar no seu estado em que você tem que fazer. Então, eu voltei nele novamente e falei: “Muito obrigado, mas o seu tratamento deu errado”. Eu voltei, para falar dessa forma porque eu me senti no direito de dar uma resposta para ele e mostrar para ele que ele estava errado. Depois voltando, voltei de Recife pra cá, voltei para um médico indicado e o último foi esse Marcio Krakauer que também foi uma indicação e foi ele que para mim, foi o mais perfeito, de tanto os pedidos dos exames, de todos os parâmetros, cada detalhe, primeira consulta foi quase duas horas de consulta de todas as perguntas possíveis e passiveis, acompanhamento do meu medidor de glicose e tudo. Então, pra mim, é o que chegou nas condições, como engenheiro, eu acho que é uma boa análise.

P/1 – Tenho uma última pergunta para te fazer, você tem mais alguma?

P/2 – Não.

P/1 – Você disse um pouco antes que já teve contato com outros diabéticos, que já têm diabetes há 22, 26 anos e que eles estão bem, etc. Você contando isso, nos sugere o bem que essas pessoas, que a experiência de vida dessas pessoas trouxe para você…

R – Você sabe onde você encontra essas pessoas? No supermercado. Ou senão, na farmácia de diabetes. Existe uma farmácia ali em São Bernardo do Campo, próximo da Padaria Cidade das Crianças, que é uma farmácia voltada só para diabetes. Quando você chega lá, o que você encontra? Diabéticos. Ou quando você vai no supermercado, nas gôndolas que tem lá light, sem açúcar, você encontra com os seus parceiros lá. Geralmente, nós somos muito de conversar, diabético gosta muito de expor: “Você é diabético?” “Sou e você?” “Também sou” e aí, já começa a conversar, de ficar uma hora em pé do lado da gondola conversando. Por quê que a gente fala isso? Porque é o que eu tinha te falado, as informações que nós procuramos nos sites e tudo mais foi alguém que escreveu, mas geralmente, são algumas pessoas que não têm diabetes. Escreveram porque fizeram uma pesquisa e colocaram no site. Eu verifico muito isso. Mas conversar com pessoas que têm diabetes e sentem na pele o quê que é ser diabético é diferente, pois existem esses três tipos de diabetes. Então cada pessoa vai descrever da forma que você tem a doença e conversando com as pessoas ao vivo e a cores, o que ela faz, o que acontece, tudo mais, não tem coisa melhor do que essa parte de informação pessoalmente.

P/1 – O quê que foi a história mais impressionante ou mais emocionante ou que mais te acrescentou alguma coisa que você já ouviu nesses conversas aí em supermercado?

R – Foi uma senhora, Dona Adalgiza, 78 anos, na gondola do Carrefour (risos): “Nossa, você toma coisa zero? De vez em quando, não gosto de coisa zero, gosto de tomar coisa com açúcar, porque não aguento esse gosto esquisito” “Mas que gosto?” “É que o gosto é diferente das que têm açúcar e tem aspartame ou sucralose, tem gosto diferente”, falei: “Você sabe que a gente não distingue mais? O paladar nosso acostuma?”, e realmente acostuma. Diferenciar um adoçante de um açúcar, hoje quando eu tomo alguma coisa com açúcar, eu acho o açúcar ruim, eu já não acho que o sucralose seja ruim. Você acostuma e nada mais é do que você tem o sentido do sabor na língua e o seu cérebro começa a manipular. Nossa HD aqui em cima é formidável, quando ele começa, a absorver, opa, é isso aqui, é isso aqui, então é esse aqui que eu gosto. Ele começa a transformar. A mente humana é algo assim, espetacular e eu gosto de analisar essas coisas, sou meio fuinha desse lado, eu gosto de analisar essas coisas e o que ela falava assim, que gostava de tomar suco, mas não gostava do gosto mais, eu falei: “Então, a diabetes da senhora tá sempre alta” “Menino, chega a 300, taca insulina, baixa” “Mas quantas vezes você aplica?” “Quantas vezes for necessário, mas eu quero matar a minha vontade”, 77 anos, 78 anos, não morreu até hoje, cara, eu vou passar isso aqui com o pé nas costas, isso que a gente faz na balança, que dá certo.

P/1 – Agora e o contrario? Uma experiência que você interagiu com alguém que era, digamos assim, mais novato nessa vida ou que via em você aquele que tinha mais experiência.

R – O novato tem medo de morrer. Novato, você começa a conversar com ele: “Bicho!” “O quê que foi?” “É normal? Não tem ereção” “É normal. Você tem que tomar uma providência. A providência é que você tem que fazer atividade física, você tem que voltar ao normal, é como se você tivesse fraco e tem que tomar um fortificante, vai, um espinafre para o Popeye e ser o cara. É o que acontece com o diabético”. Para o diabético toda parte muscular vai pro saco, o diabetes come o músculo da pessoa, tanto que urina muito quando você tá com problema de diabetes você urina demais e começa a emagrecer, porque a proteína do seu corpo não existe, ele pega, descarrega tudo e sobrecarrega o rim e mija toda hora, o cara vai emagrecendo, emagrecendo até secar. Você perde a visão. Outra coisa que eu achei engraçado é que eu nunca perdi a visão. Vou no médico a cada três meses em três meses, e eu chego lá, o cara: “Tá melhor do que eu”, e eu pensei que eu ia perder a visão cedo, por causa da diabetes e eu não perdi a visão. Faço todos os testes de cada três em três meses e ele já perdeu a visão, já teve que usar óculos, então tem medo de morrer, por isso que eu falo, a falta de informação leva o cara na beira do abismo e só falta alguém falar assim: “Cai”. Se tivesse informação, ele ficava a uns dez passos do abismo e tinha como fazer um viaduto para ele atravessar para o outro lado. É isso que eu tenho certeza que acontece, porque a gente não tem informação exata e não tem pessoas que esclareça. Eu penso que esclarecimento sobre diabetes, qualquer tipo de doença, me parece que vai custar uma fortuna porque se o cara falar tudo, aí o cara… tipo assim, passei informação e você não vai voltar mais aqui, não, passa a informação e a gente vai virar brother, vou permanecer com você aqui. É a falta de informação. A maior parte da nossa vida se chama falta de comunicação.

P/1 – Alguma pergunta? Queria te agradecer por ter compartilhado as suas informações.

R – Obrigado vocês.

P/1 – Com a gente, a sua história. Foi muito enriquecedor.

R – Obrigado vocês. Que façam mais, tragam outras pessoas. Isso aqui é muito válido. A gente passa. A história descrita fica. Beleza?

P/1 – Obrigado, viu!

R – Muito bom.

P/1 – Muito legal.


FINAL DA ENTREVISTA



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