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História

Zeneida, e a perseverança de um futuro melhor para todos ao redor

História de: Zeneida Alves de Faria
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância vivida em um barraquinho coberto de sapê, pau-a-pique na roça. Aos 16 anos foi trabalhar em uma pensão operária com sua irmã. Trabalhou como lavradora e ajudante de cozinheira. Ajuda voluntária em escola. Família unida.

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História completa

Projeto Instituto Camargo Corrêa

Entrevistada por Fernanda Prado

Depoimento de Zeneida Alves de Faria

Código: CC_HV001

Realização Museu da Pessoa

Transcrito por Rosângela Maria Nunes Henriques

Revisado por Valéria Almeida de Almeida

 

P/1 – Dona Zeneida, boa tarde! 

R – Boa tarde!

 

P/1 – Eu queria pedir para senhora falar para a gente, por favor, seu nome completo.

 

R – Zeneida Alves de Faria.

 

P/1 – O lugar onde a senhora nasceu.

 

R – Eu nasci em Tunas município de Bocaiuva do Sul, que hoje é... Naquele tempo era município, não sei se até hoje ainda... Não sei explicar bem, viu. 

 

P/1 – E que dia que a senhora nasceu?

 

R – Dia 14 de abril de 1945.

 

P/1 – Certo. E a senhora se lembra do nome dos seus pais?

 

R – Lembro.

 

P/1 – E qual que é o nome deles?

 

R – O nome do meu pai é Antonio José de Farias. 

 

P/1 – E da sua mãe?

 

R – Januária Alves de França.

 

P/1 – E o que é que eles faziam Dona Zeneida?

 

R – Nós trabalhávamos na roça. Meu pai era lavrador e minha mãe também. Família da roça.

 

P/1 – E como é que era essa casa, na roça?

 

R – A casa da roça, naqueles tempos?

 

P/1 – É.

 

R – Era um barraquinho coberto de sapê, pau-a-pique, era assim.

 

P/1 – E que atividades que vocês faziam lá?

 

R – Nós plantávamos milho, plantava feijão, arroz e outras plantinhas como mandioca.  

 

P/1 – E a senhora tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Quantos irmãos?

 

R – Tenho nove irmãos vivos e um morto.

 

P/1 – E Dona Zeneida, como é que era o dia-a-dia na roça com os seus pais? As crianças ajudavam? Como é que era dividido? Os meninos faziam uma coisa e as meninas faziam outra?

 

R – Não. Nós acompanhávamos meu pai para a roça, e todos trabalhavam, com ele, o pouquinho que a gente podia fazer, estava ajudando meu pai.

 

P/1 – E o que é que era que vocês faziam?

 

R – Nós plantávamos, assim, o feijão, nós carpíamos, colhia, malhava.  

 

P/1 – E tinha tempo de brincar?

 

R – Tinha. Nós brincávamos, assim, os finais de semana.

 

P/1 – Do quê?

 

R – Fazia casinha, brincava, assim, como toda criança, casinha. Inventava brincadeira de correr em roda de casa, como toda criança faz, é isso.

 

P/1 – E tinha alguma festa que vocês celebravam? Ou que a família ficava junta, reunida e comemorava?

 

R – Olha. Esse tempo, do tempo que eu era criança? É que nós moramos em vários lugares, esse tempo que eu estou falando era o tempo que eu era bem criança mesmo, que eu morava num lugar chamado Poço Grande, o nome do lugar, foi o primeiro lugar que... Foi onde eu nasci só que nós andamos bastante, mudamos, trabalhamos em outros lugares. 

 

P/1 – E por onde foi que vocês andaram?

 

R – Se eu for contar para você [risos].

 

P/1 – Fala de um lugar assim que a senhora se lembre bem. 

 

R – De lá de Tunas eu vim trabalhar em Adrianópolis, Paraná também, para lá da Ribeira, não sei se a você conhece.

 

P/1 – E a senhora veio com quantos anos?

 

R – Dezesseis anos.

 

P/1 – E a senhora foi sozinha?

 

R – Vim eu e a minha irmã, nós viemos trabalhar ali. Não, veio uma pessoa trazer nós ali, daí, nós ficamos trabalhando.  

 

P/1 – Vocês trabalharam de quê?

 

R – Eu trabalhava em uma pensão operária. Trabalhei nove meses nessa pensão e depois desses nove meses, daí, eu me casei.

 

P/1 – Então conta como é que era esse trabalho na pensão operária. O que é que a senhora fazia? Eram operários de quê?

 

R – Eu fazia o mesmo que nós estávamos fazendo ali na escolinha ali. Trabalhando na cozinha, lavando louça, eu era ajudante de cozinheira.

 

P/1 – E a senhora sabe da onde que eram esses operários? O que é que eles faziam?

 

R – Eles trabalhavam na mina, mina de ouro, prata, chumbo, operário trabalhador da mina.

 

P/1 – E o que vocês costumavam cozinhar para eles?

 

R – Nós cozinhávamos arroz, macarrão, carne, salada.

 

P/1 – E aí a senhora trabalhava de dia nessa pensão e morava onde? Como é que foi ficar longe da família?

 

R – Longe da família. Meus pais ficaram para lá, lá em Tunas. E Nós como, eu tinha um primo, através de um primo ele arrumou um serviço para nós ali, para mim e minha irmã, nós duas. Ela ficou trabalhando numa casa de família e eu trabalhava na pensão operária.

 

P/1 – E como é que foi que a senhora conheceu seu marido?

 

R – Ele trabalhava lá também.

 

P/1 – Ele trabalhava na pensão?

 

R – Sim.

 

P/1 – E como é que foram as conversas? Como que começou o namoro?

 

R – [Risos] As conversas... As conversas eu nem me lembro, qual foi a primeira conversa [risos], não me lembro.

 

P/1 – E como é que era a cidade?

 

R – A cidade era uma cidadezinha operária. O pessoal que trabalhava tudo morava lá, tinha o gerente da mina. Hoje não existe mais essa firma.

 

P/1 – E para a senhora foi muito diferente mudar para essa cidade? A senhora que vinha da roça, de outros lugares?

 

R – Foi um pouco difícil, né, porque já não tinha conhecimento, não conhecia a cidade, mas graças a Deus foi tudo bem, aprendi a trabalhar, aprendi viver enfim. Eu trabalhei um pouquinho lá... Eu trabalhei nove meses, daí, eu me casei e daí viemos para a roça trabalhar.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho, a senhora me contou que chegou a estudar primeira série, que período que foi esse? Como é que era ir para a escola a senhora se lembra?

 

R – Era tão longe a escola que nós íamos. Nossa! Vocês estavam achando longe essa subida aqui, né? Nossa! Precisa ver. Eu acho que dava uns oito quilômetros nós viajávamos para ir para a escola. 

 

P/1 – Nossa! E aí iam todos os irmãos juntos?

 

R – Ia eu e um irmão meu.

 

P/1 – E aí como é que era a escola? A senhora se lembra?

 

R – Era uma escolinha pequena, escolinha bem simplesinha. Eu me lembro da escola, eu me lembro da professora. 

 

P/1 – E como é que era essa professora?

 

R – Era muito legal, ela era alta, era magra, era uma professora muito legal, eu queria tão bem ela, era uma mãe. 

 

P/1 – E a senhora chegou a estudar a primeira série lá?

 

R – É primeira série.

 

P/1 – Um ano inteirinho?

 

R – Rum, rum. Um ano inteirinho.

 

P/1 – Aí foi que vocês começaram a mudar, foi isso?

 

R – É isso, isso mesmo, porque quando eu fui para a escola eu já era grande, eu já estava acho com uns 14, 15 anos.

 

P/1 – E aí estudava de noite?

 

R – Não, era de dia.

 

P/1 – Aí, foi mais ou menos depois que a senhora fez esse um ano que a senhora se mudou para essa casa para trabalhar de pensão, na pensão de operário?

 

R – É, foi depois disso. 

 

P/1 – E como é que foi o casamento da senhora?

 

R – Meu casamento foi um casamento simples, teve um bailinho, teve bebidas, teve um bolo, foi muito bonito. 

 

P/1 – Onde é que foi?

 

R – Foi em Adrianópolis.

 

P/1 – E a senhora teve filhos?

 

R – Tive. 12 filhos.

 

P/1 – 12 filhos?

 

R – Duas filhas e dez filhos.

 

P/1 – E qual que é o nome deles? Assim o primeiro, o segundo...

 

R – O primeiro Edson, o segundo Luís Carlos, terceiro João... Eu não sei vou lembrar direito, Jorge, Rosimar, Daniel...

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – É difícil a gente falar, eu não estou lembrando bem, mas acho que é o Claudemir, daí o Reginaldo, Romildo e o Edmar. Assim, não deu certo, certinho assim, a conta.

 

P/1 – Não precisa estar certinho, a gente vai conversando e a senhora vai lembrando. Aí vocês casaram e vieram para esse lado do rio para São Paulo, para Itaoca?

 

R – É depois que nós, daí, nós viemos para cá. 

 

P/1 – E como que era o lugar, para onde vocês foram para Itaoca mesmo, lá no centro urbano ou já vieram para cá?

 

R – Nós moramos no Caraça, nós mudamos bastante do Caraça mudamos para o Santo Antônio para lá de Itaoca. Mudança nós tivemos bastante, bastantes mudanças, plantamos tomate, plantamos várias lavouras.

 

P/1 – E a senhora sabe me dizer por que tantas mudanças? Porque que elas aconteciam?

 

R – Aquela história sabe? Jeito de melhora, porque a gente sempre procurava o melhor, mas sempre era muito sofrido. 

 

P/1 – E conta para mim, Dona Zeneida, como é que foi ser mãe? A senhora lembra quando começou a ter seus filhos? Como que eram as atividades? Mudou alguma coisa? 

 

R – Dificilmente. A vida do pobre, já viu é só... É dificuldade.

 

P/1 – Conta para a gente como que é que a senhora veio para cá? Para essa casa que a senhora está hoje?

 

R – Nós fomos plantar uma lavoura de tomate lá no Lageado de Araçaíba, nós ficamos seis anos lá, e lá nós conseguimos, graças a Deus, ganhar um dinheirinho e conseguimos fazer essa casa.

 

P/1 – E Dona Zeneida, o que é que é mais difícil de fazer na roça? Qual é o trabalho mais difícil que tem?

 

R – Olha o trabalho da roça, para a gente que sabe, não tem nada difícil, plantar, carpir, daí colher, malhar até trazer para dentro de casa, não é difícil, para a gente não é difícil pra gente que se criou num serviço desses, não tem nada difícil, eu não acho.   

 

P/1 – E tem alguma espécie, assim, que demora mais a crescer ou que tem que ter mais cuidado, tipo tomate ou mexerica?

 

R – Tem. Tomate mesmo é longo o prazo dele, demora mais a dar colheita, agora a mexerica, assim, todo ano dá é só a gente zelar dos pés dela, que todo ano ela dá fruta.

 

P/1 – E como a senhora fez para criar seus filhos, eles ajudam vocês na roça?

 

R – Ajudavam. Nossa, as crianças trabalharam muito, todos trabalhavam, eram todos nós reunidos trabalhando na roça, e assim, graças a Deus, conseguimos. 

 

P/1 – E como era o dia-a-dia? Acordava cedo?

 

R – Acordava cedo, às vezes as coisas apertavam meu esposo precisava sair arrumar um jeito de ganhar. Quando às vezes a lavoura não dava, nossa lavoura de feijão, que era o que a gente plantava para vender para comprar outras coisas, vender um pouco de feijão e comprar outras coisas. Então quando apurava, aí, ele tinha que sair trabalhar fora e eu com as minhas crianças ficávamos trabalhando, colhendo arroz, colhendo feijão na roça, era assim.   

 

P/1 – E vocês tinham algum bicho também? 

 

R – Algum o quê?

 

P/1 – Algum animal.

 

R – Nós tínhamos porcos e tinha galinha, só.

 

P/1 – E eles precisavam de algum cuidado especial?

 

R – Precisavam. Precisavam do milho, da mandioca, precisava a gente tratar deles para se criar gordinho. 

 

P/1 – E o milho e a mandioca eram vocês mesmos que plantavam?

 

R – Sim.

 

P/1 – E como faziam para preparar esse milho e essa mandioca para dar para os animais?

 

R – Era só descascar o milho e jogar lá para os porcos comer no terreiro, para as galinhas a gente debulha, que isso até hoje nós fazemos aqui. Até hoje nós plantamos lavoura, eu quase não posso trabalhar na roça mais, como tive contado para você, mas ele está com 74 anos e nós temos ali, temos arroz, milho, feijão, tudo colheita dele.  

 

P/1 – Aí vocês vendem ou consomem aqui?

 

R – É só para o consumo da casa, antigamente a gente plantava bastante, mas agora é pouco, agora é só para o consumo da casa, para a gente comer.

 

P/1 – Dona Zeneide, conta um pouquinho, os seus filhos conseguiram estudar?

 

R – Olha! Terminar os estudos sabe? Nenhum deles... É tem algum que terminou, tem uma filha, tem um filho, mas por causa do apuro do serviço, lavoura de tomate, que era a gente precisa estar mudando, sabe? É difícil para eles terminarem o estudo, porque às vezes a gente estava morando num lugar e precisava mudar para outro, porque ali aquela lavoura terminava daí a gente tinha que ir para outro lugar para plantar outra lavoura.  

 

P/1 – E como é que era essa mudança? O que a senhora sentia na hora de mudar?

 

R – Eu tenho pavor de mudança de tanto que eu me mudei.

 

P/1 – E como é que era? Vocês arrumavam as coisas? 

 

R – Arrumava as coisinhas que nós tínhamos em cima de um carro e as crianças e ia embora.

 

P/1 – E agora que a senhora está aqui paradinha no seu cantinho o que a senhora acha?

 

R – Eu agradeço tanto a Deus por hoje, ter essa casinha, graças a Deus. 

 

P/1 – E falando aqui da vizinhança, como é que foi para a senhora chegar a aqui e ver a região, como ela era, se ela sempre foi assim, se a senhora vê alguma mudança? 

 

R – Está mudando aos pouquinhos, porque quando nós chegamos aqui, tinha dois vizinhos só ali, tinha duas casinhas só ali e a escolinha tinha também, porque ela é muito antiga era só, era só, agora depois que está crescidinho, devagar.

 

P/1 – E como é que era essa escolinha?

 

R – A escolinha antigamente teve... As crianças estudavam, sabe aquelas escolinhas do mato, depois acabou e aí só estudava na cidade, fechou essas escolinhas do mato, porque meus filhos estudavam numa escolinha lá naquele matão, lá para cima. Eles estudaram né, minhas crianças, estudaram aqui também, mas era tão difícil, nós morávamos... Ah, eu não contei para você, que nós moramos seis anos ali em cima, bem lá para cima, perto do sertão lá em cima, de lá eles vinham aqui estudar aqui, vinham estudar aqui, né Jorge? Estudaram lá em cima numa escolinha que tinha lá no meio do mato e também estudaram lá um pouco.

 

P/1 – E como que era essa escolinha aqui, quando eles vinham, a senhora chegou a vir alguma vez com eles?

 

R – Eu não vinha com eles, eles vinham, eles já eram grandinhos já, né, eles vinham. Só que eram um lugar muito difícil, o rio enchia, tinha bastante passo de rio, quando enchia o rio eu passava era nervoso de pensar que eles tinham que voltar, vir embora.

 

P/1 – E como é que faziam para atravessar o rio?

 

R – Às vezes tinham que pousar para cá, às vezes eles pousavam na casa de um vizinho, foi sofrido, eles não conseguiram terminar bem, alguns terminaram, outros não. 

 

P/1 – E agora como é ver essa escolinha como ela está agora, que nem hoje quando estudam suas netas?

 

R – Que beleza! A gente nem tem palavras para falar sobre essa beleza, maravilha que está, está maravilhoso.

 

P/1 – Por que desses 12 filhos a senhora tem netos, não tem?

 

R – Tenho. Eu tenho, se eu não me engano, 16 netos.

 

P/1 – Aí tem alguns que estudam lá?

 

R – Tenho, tenho uns netinhos que estudam ali, um já saiu que é o João Victor já saiu, já está para Itaoca, agora tem a Ana Lara que é a filha da minha nora.

 

P/1 – Qual que é a importância dessa melhora na escola, a senhora acha que é importante? 

 

R – Nossa! Muitíssimo importante.

 

P/1 – Mas por quê?

 

R – Uma beleza! Nossa, porque do jeito que era e agora bonito que está daquele jeito, é uma maravilha a gente passar na estrada e olhar lá.

 

P/1 – O que é que tem de diferente, conta para alguém que não conhece?

 

R – De diferente?

 

P/1 – É.

 

R – Porque era uma escolinha feia ali, agora está bonita daquele jeito, tão linda.

 

P/1 – O que é que tem nela que a fez ficar bonita?

 

R – Aqueles trabalhos ali de mutirão agora, através do pessoal da Camargo Corrêa, né.

 

P/1 – E o que é que aconteceu nessa reforma, como é que foi que ela aconteceu?

 

R – Através da Marina, eu acho que correu atrás e conseguiu.

 

P/1 – E como é que foi isso? Como é que foi acontecendo essa reforma? Era aos pouquinhos? Como que o pessoal da comunidade ajudou?

 

R – O pessoal trabalhou bem.

 

P/1 – E o que eles fizeram?

 

R – Todos... Uns faziam uma coisa, outros faziam outras e assim, uns trabalhavam na cozinha e outros trabalhando naqueles outros serviços ali, foi muito bonito.

 

P/1 – Vamos imaginar que a gente está contando para uma pessoa que não conhece Itaoca e que vai ouvir isso depois para entender como é o projeto, o que as pessoas fizeram nessa obra? Ou como a comunidade ajudou? O que foi feito na escola para melhorar?

 

R – Foi feito aquele trabalho todo... Porque as crianças... E a professora dava aula ali e a preocupação, porque aquele rio que passa por lá é um perigo para as crianças, as crianças podia sair, como que... Ela já andou correndo atrás de um aluno, um menininho que fugiu de lá da escola e estava indo embora para casa, uma criancinha, então agora, graças a Deus, está lá bem cercado, não tem perigo mais, agora é uma felicidade para todos nós aqui do bairro. 

 

P/1 – E como é que foram esses mutirões? Parece que foram cinco finais de semana.

 

R – Quantos finais de semana eu não lembro.

 

P/1 – Mas que foram alguns né?

 

R – É.

 

P/1 – E a senhora ajudou?

 

R – Ajudei, só faltei um mutirão só porque fui à igreja.

 

P/1 – E o que a senhora fez?

 

R – Ajudei na cozinha, cortar salada, cortar cebola, alho, lavar louça, ajudei enfim em todo serviço da cozinha.

 

P/1 – E porque é importante esse serviço da cozinha na hora do mutirão?

 

R – Fazia comida para o pessoal, todo mundo trabalhando e chegando a hora do almoço nós tínhamos que se virar [risos].

 

P/1 – E Dona Zeneida, como que foi acompanhar enquanto a senhora estava na cozinha à senhora via movimentação das pessoas cercando, pintando como é que era? Ir para lá de manhã ver a escola de um jeito e sair ela está de outro?

 

R – É isso aí mesmo. A gente ia de manhã estava de um jeito e quando era a tarde estava de outro jeito, mais bonita, e assim cada dia ficando mais bonita.

 

P/1 – E como à senhora vê essa melhoria para sua neta, o que você acha que é importante? Fora a cerca que vai deixar a escola melhor para ela?

 

R – Que ela estuda né? As crianças que estudam ali, eu acho que é tão importante, porque estão aprendendo as coisas boas da vida, aprendendo a ler, escrever. 

 

P/1 – E o que a senhora acha que precisa melhorar ainda mais, o que podia ter que não tem?

 

R – Ali um parquinho para as crianças, um telefone, porque aqui nós não temos.

 

P/1 – E como é que vocês fazem quando precisam telefonar para alguém?

 

R – Alguém tem um celular, né, mas é tão difícil pegar celular aqui, não dá área, dificilmente a gente consegue uma ligação.

 

P/1 – E o que a senhora acha que está bem bacana na escola, que ficou bem legal graças à ajuda da comunidade?

 

R – Graças ao pessoal da Camargo, o pessoal todo, né. Olha, eu acho que está bonito, eu para mim está uma maravilha, e a gente vai fazer uma limpeza e deixa bonitinho ali e vai ficando cada dia melhor.

 

P/1 – Dona Zeneida, o que é que a senhora faz hoje de atividade?

 

R – Hoje eu cuido aqui da minha casa, é a casa hoje.

 

P/1 – A senhora chegou acompanhar algum dia a sua neta a escola ou algum dos netos? 

 

R – Já, eu sempre cuido dos meus netos aqui. Sempre [risos] minha casa tem bastante neto. Às vezes eles se reúnem aqui eu fico cuidando. 

 

P/1 – E como é que é levar eles para escola, ver que eles estão estudando?

 

R – Ver é a gente nota, muito bom.

 

P/1 – O que a senhora sente quando vê isso?

 

R – Ah, eu me sinto muito feliz, eu gosto de ver as crianças indo para a escola, eu quero ver minhas crianças estudarem e serem quando tiverem grande terem um estudo para eles viverem melhor e não passar o que a gente passou isso que a gente pensa.

 

P/1 – A senhora me contou que voltou a estudar, quando que começou isso? O que fez a senhora voltar?

 

R – A professora veio, conversou comigo, que ela arrumou essas aulas da noite, que é o núcleo e no começo eu estava meio pensando meio achando que era bobagem, porque a gente já está de idade, né? Daí depois eu resolvi estudar, gostei, para mim é uma coisa muito importante para a gente passar uns momentos mais bem, né, conversa com a professora, a professora é muito boa, eu gosto muito dela, daí eu continuei estudando. 

 

P/1 – E que professora foi essa que veio convidar a senhora para voltar a estudar?

 

R – A Sandra aquela que estava ali, ela estava com nós ali. Uma professora muito boa que eu quero bem ela como uma mãe. 

 

P/1 – E é lá embaixo as aulas?

 

R – É.

 

P/1 – Quer dizer que a senhora está ajudando a melhorar a sua escola também?

 

R – Isso mesmo.

 

P/1 – E como a senhora se sente fazer parte disso?

 

R – Eu me sinto tão bem que não tenho palavra para falar o tanto que a gente se sente, eu digo me sinto tão bem, tão feliz.

 

P/1 – Porque daí na próxima aula a senhora vai chegar à escola ela vai estar pintada

 

R – Imagine! Já não é aquela escolinha, aquela escolinha feia que estava lá, já uma benção. 

 

P/1 – E como é que são as cadeiras, como foi voltar para dentro da escola, levar material, fazer lição de casa, como foi para a senhora isso?

 

R – É a professora arrumou lá umas cadeiras lá e arruma material, traz material para nós, agora esse ano nós não estamos tendo aula, eu nem sei se vou ter, eu não conversei com ela ainda.

 

P/1 – Mas a senhora quer continuar?

 

R – Quero.

 

P/1 – Qual que é matéria que a senhora está gostando de ter agora?

 

R – Olha, eu gosto de todos, deu para escrever, eu adoro escrever.

 

P/1 – E a professora já passou algum exercício de escrever na lousa?

 

R – Eu não escrevi na lousa ainda, não escrevi. 

 

P/1 – Mas a senhora tem o seu caderninho?

 

R – Tenho meu caderno, está guardado.

 

P/1 – E o que a senhora sentiu depois de começar de voltar a estudar?

 

R – Eu me senti bem, me senti, que até melhorou para mim, porque a mente da gente, o estudo vai puxando a mente, ela não está parada, está se movimentando, eu achei bom demais. 

 

P/1 – E a senhora vai sozinha para lá?

 

R – Primeiro a minha nora ia comigo, agora, ultimamente estava indo sozinha, porque daí ela arrumou serviço na escola, daí, ela está trabalhando eu continuei sozinha. 

 

P/1 – E o que a senhora espera? Qual que é o sonho da senhora hoje?

 

R – O meu sonho é ver a coisas melhor cada vez mais, esse é o meu sonho, melhoria é o que a gente espera.

 

P/1 – E o que é que a senhora espera daqui para frente, para Itaoca, para o bairro.

 

R – Sobre isso aí eu não sei explicar, eu sei falar que tudo de bom, a gente espera, né, a gente quer.

 

P/1 – E é uma comunidade ativa, que foi fazer mutirão? 

 

R – É.

 

P/1 – A senhora gostaria de falar mais alguma coisa que eu não perguntei?

 

R – Pergunta se não for difícil responder eu respondo.

 

P/1 – Foi difícil de responder?

 

R – Não.

 

P/1 – Não? E quais são as coisas mais importantes para a senhora hoje?

 

R – As coisas mais importantes para mim?

 

P/1 – É.

 

R – A gente deseja ter tantas coisas importantes, né, mas difícil, nem convém falar [risos]. 

 

P/1 – As coisas como a educação, a família?

 

R – É. Sobre isso mesmo, tudo de bom, né, melhor para família da gente que é o que a gente quer, é o que a gente deseja para a família da gente é tudo de bom.

 

P/1 – E para a comunidade?

 

R – Para a comunidade também.

 

P/1 – E é por isso que a senhora ajuda nesses mutirões? 

 

R – É por isso que ajudo com prazer, tenho prazer e alegria de ajudar, vou e trabalho, que ontem eu trabalhei tanto que deu a tarde eu não estava aguentando mais de canseira.

 

P/1 – E o que é que teve ontem?

 

R – Ontem teve um trabalho de fora ali.

 

P/1 – O que é que eles fizeram lá fora?

 

R – Fizeram lá fora... A gente fica lá dentro cuidando da cozinha quase que não sabe contar do lado de fora.

 

P/1 – Então quer dizer que ontem teve muito trabalho na cozinha também?

 

R – Teve, teve bastante trabalho.

 

P/1 – E o que a senhora cozinhou de bom?

 

R – Ontem foi carne moída... Não estou lembrando com o quê... Abobrinha, né? É carne moída abobrinha, arroz e farofa, foi isso.

 

P/1 – O que a senhora achou de sentar aí e contar um pouquinho da sua história para a gente?

 

R – Achei legal. 

 

P/1 – Então está bem Dona Zeneida, obrigada. 

 

R – De nada. Obrigada você também, foi legal a conversa.

 

 

----FIM DA ENTREVISTA---

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