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História de: Zacarias Passos dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2021

Sinopse

Zacarias conta sobre sua infância e juventude em Pinheiro, das histórias de 'visagens' que ouvia dos mais velhos. Fala sobre seu trabalho como marceneiro e depois mestre de obras, já em São Luís. Conta sobre como assumiu a liderança do processo de reassentamento da Vila Madureira.    

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História completa

 

P/1 - Senhor Zacarias, qual o nome inteiro do senhor e onde o senhor nasceu?

 

R - Zacarias Passos dos Santos. Eu nasci em Pinheiros, Maranhão, no dia seis de setembro de 1951. 

 

P/1 - O senhor, lá em Pinheiros, nasceu em casa ou em hospital? Como foi?

 

R - Em casa.

 

P/1 - Com parteira?

 

R - Com parteira.

 

P/1 - E o seu pai e a sua mãe contaram como foi, se foi difícil, foi fácil o teu parto?

 

R - Não, eles nunca me contaram, mas minha mãe sempre falou que o parto dela foi ótimo, inclusive no primeiro filho foi ótimo, graças a Deus. 

P/1 - O senhor tem irmão?

 

R - Tenho.

 

P/1 - Quantos irmãos o senhor tem?

 

R - Nós somos seis irmãos.

 

P/1 - Quem são eles?

 

R - Um que já morreu, que é finado, Alípio; Marcos, Manoel, Biné, Conceição e eu. São seis irmãos. O mais velho sou eu.

 

P/1 - O senhor é o mais velho?

 

R - Sou, de todos. O segundo morreu eletrocutado. 

 

P/1 - Vou perguntar depois sobre isso então. Qual é o nome da sua mãe?

 

R - Romana Lindalva dos Passos.

 

R - E qual é o nome dos pais da sua mãe, os seus avós?

 

R - Dos pais da minha mãe eram Joãozinho dos Passos e... O nome da minha avó, por parte da minha mãe, era Marinha dos Passos. 

P/1 - O senhor conheceu os dois?

 

R - Não. Conheci o Joãozinho eu era muito criança, não dá pra me lembrar. Eu tinha uns dois anos quando ele faleceu. E a mãe dela tinha falecido. 

 

P/1 - A família da sua mãe fazia o que, era de onde? Era de Pinheiros também?

 

R - Não, eles eram de Boa Vista, Cajapió. 

 

P/1 - E eles faziam o quê?

 

R - Trabalhavam só de lavoura. Lavoura, com galho, essas coisas. 

 

P/1 - E o nome do seu pai, qual era?

 

R - O meu pai era Gregório Matos dos Santos.

 

P/1 - E dos seus avós por parte de pai?

 

R - Por parte de pai era Maria Matos e o pai dele eu não... O nome do pai dele era  Bertonilio dos Santos, chamavam de Pituco.

 

P/1 - E você conheceu os dois?

 

R - Conheci. Inclusive, o meu avô era muito ligado a mim.

P/1 - Ah, é?

 

R - É.

 

P/1 - Ligado como?

 

R - Porque eu ia lá para casa dele aporrinhar ele, ele apanhava laranja para mim. Ele dizia: "Meu filho, só se apanha a laranja quando estiver madura, porque é igual uma criança. Se apanhar antes, a laranjeira chora, porque tomou o filho dela antes do tempo." E aí ele conversava comigo muitas coisas.

 

P/1 - Contava histórias pro senhor?

 

R - Contava histórias. Era o Bertonilio, chamava de Pituco.

 

P/1 - Que histórias ele contava pro senhor?

 

R - Ele contava histórias de como eram as plantas, como era um coqueiro, como era uma mangueira, que ele só apanhava a fruta depois que tivesse bom, porque senão eles sentiam falta. Era como se tirasse um bezerro de uma vaca depois que ele desmamasse, com filho de uma mãe depois que tivesse grande. Ele contava essas histórias, o meu avô. É, meu filho, era assim. 

 

P/1 - E a sua avó, como ela era?

 

R - A minha avó era uma morena do cabelo liso. Essa eu conheci bem pouco, porque ela morreu e ficou a minha segunda avó, que era a irmã dela, madrinha do meu pai. Essa a gente já considerava avó e tinha como avó, porque ela mandava matar uma vaca para nós comermos, aí ela... Ela que fazia tudo aquilo ali, então nós éramos netos. Mas era uma velha ranzinza. 

 

P/1 - Ah, é?

 

R - (risos) Era.

 

P/1 - Por que, o que ela fazia?

 

R - Porque nego tinha que chegar pra tomar bênção, tinha que se ajoelhar, rezar para tomar bença. Se não tomasse, ia para o bolo.

 

P/1 - Qual era o nome dela?

 

R - Era Mônica Matos. Eu chamava ela de Dindinha, aí os netos todos aprenderam comigo a chamar de dindinha. A minha avó Dindinha, era uma velha muito benquista, muito boa. Mas a gente não podia [fazer nada] errado algo não, porque se errasse um tiquinho, ia pro bolo. 

 

P/1 - Ia pro bolo? O que é, como é isso?

 

R - De palmatória. Ela tinha uma palmatorinha, dizia "Vai pro bolo, que é pra você não errar mais, não fazer isso". Respeitar. Os mais velhos todos tinham que tomar bênçao, chamar de titio, de vovô, de dindinho; nessa época com ela era diferente. E todos foram bem criados, com respeito, com honestidade. Por isso é que eu sou um pouco rígido, um pouco positivo, é por isso, porque eu fui criado de uma maneira que meu pai fazia um negócio e era com o cabelo do bigode. Lá em casa não chegava negócio porco porque a velha podia ter barba no pé, mas era respeitada.

 

P/1 - Como era a Mônica, você pode descrever ela pra mim?

 

R - A minha avó, a Dindinha, Mônica, era uma senhora alta do cabelo liso, morena, filha de índio.

 

P/1 - E o jeito dela era ranzinza?

 

R - O jeito dela era ranzinza, mas não era aquela de ser maligna, não. Era benigna, porque ela queria era todo mundo bem, todo mundo direito. Todo mundo trabalhava, todo mundo tinha carne para comer à vontade, arroz, farinha, mas todo mundo tinha que trabalhar. Ninguém amanhecia dormindo, ninguém amanhecia sem fazer nada, cada um tinha seu serviço.

 

P/1 - E os seus avós por parte de pai trabalhavam na roça também?

 

R - Os meus avós por parte de pai também trabalhavam na roça, mas tinham o gadinho deles. 

 

P/1 - E como eles faziam para plantar, eles plantavam o que lá?

 

R - Eles plantavam arroz, feijão, batata, cana, banana, algodão - a gente trabalhava muito com algodão nessa época. A cultura era normal, se chamava roça de toco, roça no toco. Roçava o mato e tocava fogo, e plantava mandioca, feijão, milho, arroz, abóbora, melancia. Plantava tudo, mas não dava essas outras coisas que hoje se planta.

 

P/1 - E você aprendeu a roçar com eles?

 

R - Não, eu não aprendi a roçar porque eu aprendi marcenaria. Eu, com oito anos, fazia cabo de faca e colher de pau. Quando eu estava com quatorze anos eu já trabalhava com marcenaria. Junto com meu pai, meu tio, era carpinteiro, marceneiro. E eu trabalhava.

 

P/1 - Ah, todo mundo carpinteiro e marceneiro.

 

R - É, aí eu aprendi. Nunca fui, nunca trabalhei de ajudante. Trabalhei de roça, mas sendo porque é meu, aqui na minha terra que eu gosto. Nunca trabalhei em terra dos outros, aforado, não, e eles tinham muita terra também. A gente sempre trabalhou assim.

 

P/1 - Agora me conte uma coisa, [quando] o senhor nasceu era só o senhor, a mãe do senhor e o pai do senhor em casa. 

 

P/1 - Em casa era só o meu pai, minha mãe e nossos irmãos, meus irmãos. Nós morávamos perto da minha avó, mas a casa do meu pai era uma casa muito grande e a gente... Nessa época ainda era casa de alvenaria, eram casas de barro, mas com o aparelho dessa grossura assim. E assim que foi, graças a Deus que... Eram cobertas de palha, as casas; as portas não tinham dobradiças, se chamava roladeira.

 

P/1 - Ah, é?

R - É. 

 

P/1 - Como é que era essa porta?

 

R - Roladeira é uma peça pregada no portal, no esteio, feito um furo com pino assim. A porta rolava aqui, abria para lá e fechava para cá. E ali, depois daquele pino, era botada uma peça que a porta batia o batedor, mas batedor da largura do esteio, aí era botada uma tábua grossa [em] que a porta batia.

 

P/1 - Quem fazia a casa, o seu pai fez a casa?

 

R - O meu pai que fazia, meu pai mais o meu tio que eram os marceneiros, os carpinteiros. Eles que faziam as portas, eles que faziam tudo. Os móveis, tudo eram eles que faziam; eram coisas pesadas, não eram coisas...

 

P/1 - E eles pegavam madeira lá mesmo?

 

R - É, eles tiravam madeira no interior, lá no nosso mato mesmo, na mata. Serrava no serrotão, serrotão era feito de botar a madeira no estaleiro, alto, ficava um em cima e um embaixo puxando um serrote, o serrote de um metro e meio, dois metros. Era puxado. Chamavam de serrotão. Tirava tábua dessa largura, tirava da largura que queria.

 

P/1 - E tinha que ficar quanto tempo serrando pra cortar?

 

R - Ah, isso serrava o mês inteiro.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É. “Nós vamos tirar uma dúzia de tábuas, duas dúzias de tabua, de pranchão.” Era assim. 

 

P/1 - Ficava um mês inteiro lá?

 

R - O mês inteiro lá, serrando, no estaleiro. Aí se vinha em casa de oito em oito dias, voltava, estava na mata serrando. Se era perto de casa, de manhã ia para lá, de tarde vinha, mas todo dia ia para lá serrar.

 

P/1 - Então o seu pai e a sua mãe não tinham roça? Ou tinham?

 

R - Ele tinha roça, mas tinha os trabalhadores dele. 

 

P/1 - E você não foi trabalhar com ele na roça, foi trabalhar já de marceneiro?

 

R - Não, eu ajudava, porque eu estudava, aí eu vim para... Quando nós estávamos lá no interior de Pinheiros, eu vinha para Pinheiros estudar. Como eram três léguas, dezoito quilômetros, eu ficava em Pinheiros. Eu ia para o final de semana, final de mês, para lá. E todo o tempo trabalhando, mas eu vinha estudar em Pinheiros.

 

P/1 - Na cidade?

 

R - É, na cidade. Porque quando eu estudava lá no interior, era muito longe para eu ir para escola, aí ele me botava para Pinheiros para eu estudar. Estive estudando em Pinheiros, estive estudando em Guimarães.

P/1 - Como era a relação sua com seus irmãos na época, quando o senhor era criança?

 

R - Ah, meu amigo, até hoje, relação de irmão. Lá em casa nunca nenhum irmão discutiu com outro, nunca nem nada, era irmão mesmo. Até hoje. E hoje eu tenho que ligar duas vezes lá para casa, que minha mãe ainda é viva, e meu irmão toma conta. Então é assim, amizade. Nego toda hora senta, tão conversando toda hora... Tem a casa do irmão que eu terminei de criar, que meu pai morreu e ele ficou pequeno, lá é a casa do encontro. É onde minha mãe mora.

 

P/1 - O pai de vocês morreu quando o senhor tinha que idade?

 

R - Eu tinha 23 anos e meu irmão caçula tinha três anos.

 

P/1 - O senhor já teve que ajudar na casa desde pequeno?

 

R - Já tive que ajudar, eu tomei porque quando ele morreu, ele pediu: "Olha, meu filho, não deixa seus irmãos à toa. Termine de criar como eu vim criando vocês." Ficaram três pequenos, um com três, um com cinco e o outro com sete. Desses três eu tomei conta, que eram os três menores, junto com a minha mãe.

 

P/1 - Quando vocês eram crianças, brincavam de que?

 

R - Não, a nossa brincadeira era mais era serviço. Os três mais novos até que ainda brincaram, entendeu? Uma que é professora, diretora de escola, o caçula, que é o Biné, que nós chamamos, e o Manoel, que [mora] onde minha mãe mora, eles ainda brincaram um pouquinho. Eu dizia: "Vamos brincar um pouquinho, bater uma bola", mas na época do meu pai cada um de nós tinha o seu serviço. Nós, todo mundo trabalhava. Se ele estava na roça, nós estávamos, todo mundo com ele; se ele estava lá na parte de carpintaria, eu estava lá debaixo, numa palmeira, também trabalhando, e os outros estavam fazendo outra coisa. Nós sempre fomos cada um determinado para uma coisa. 

A gente ganhava o dinheiro. Quando chegava no final da semana todo mundo recebia, trazia era para ele; ele que ia fazer o... Guardar, gastar com que tinha necessidade. Quando nós estávamos rapazes, para ir numa festa, queria [ir] na festa, a gente trazia o dinheiro para dar pra ele. "Olha, tu leva tanto, tu leva tanto, tu leva tanto. Isso aqui é pra vocês pagarem a porta da festa. Não entra de graça, não fica chegando na porta de ninguém, ficar escorando e nem pedindo. Tá aqui para vocês pagarem a porta, para tomar um refrigerante, comer um bolo, um isso e aquilo mais, não peça nada a ninguém." Sempre fomos criados assim, graças a Deus. Com muito respeito.

 

P/1 - Vocês iam para a igreja na época?

 

R - Não, nessa época nós não íamos para igreja. Nessa época, era só mais igreja católica. Eles iam às vezes, tinha o dia de missa; custava a gente ir, era de mês a mês. Quando era criança, às vezes eu ainda ia, porque tive muito afilhado, mas eu nunca gostei muito de estar na igreja, de estar em... Nunca fiz promessa. Hoje eu vou na igreja, sou da Igreja Universal do Reino de Deus. Tenho 22 anos [lá], vai fazer 23, eu vou por conta, mas nessa época...

 

P/1 - Vocês não iam.

 

R - É, e quando a gente ia para festa já saía com a carta lida de casa, pronto.

 

P/1 - E lá no interior de Pinheiros como é que era a infraestrutura lá? Tinha energia, não tinha, como é que era?

 

R - Não, nessa época não tinha energia, nada. Na época que eu fui criado não tinha energia. Em Pinheiros tinha energia, mas era no motor. Funcionava a motor.

 

P/1 - Funcionava até que horas?

 

R - Até doze horas. Doze horas desligava, todo mundo ficava no escuro. Quando chegava de manhã... Geladeira não se via falar, televisão eu conheci depois de... Eu já estava acho que casado.

 

P/1 - Mas tinha rádio lá?

 

R - Tinha, rádio sempre teve. Rádio a pilha. O rádio a gente tinha, a linha de comunicação era pelo correio. Não tinha telefone.

 

P/1 - Telégrafo, né?

 

R - É, era telégrafo.

 

(PAUSA)

 

P/1 - O que vocês ouviam no rádio, na época?

 

R - Ah, a gente ouvia os telegramas, eram as comunicações. "Olha, vai chegar fulano de tal lá no porto, tal hora, assim e assim. Manda o passageiro ir buscar” e tal. Ou: "Tô te mandando dizer que um parente teu assim e assim está doente", ou "aconteceu isso e isso", assim que era. (risos) Já pensou? Como eram os recados de linha, de linha de comunicação? Era correio, era telégrafo, era assim. 

P/1 - E contava pra todo mundo, né?

 

R - Contava pra todo mundo. A gente ligava o rádio, "liga lá o radinho". De manhã cedo já estava ligado, a antena estava enfiada numa vara lá no meio de terreiro e estava ligado, escutando. Aí a gente tinha a comunicação.

 

P/1 - Tinha notícia da região?

 

R - Notícia da região, daqui de São Luís, de todo lado a gente recebia lá no interior.

 

P/1 - E o que eles falavam?

 

R - Esse era o nosso meio de comunicação mesmo. Era. Tinha telégrafo.

 

P/1 - O senhor se lembra de alguma notícia que espantou vocês?

 

R - Não, não tinha que espantasse não, porque a gente vinha já acostumado com aquilo ali. Agora, quando teve televisão… Eu cheguei da Camargo Corrêa, parece que tinham três casas que tinha televisões, aí eu fui e comprei uma televisão, daquelas televisões feitas acho que até a facão, era um quadro grande feito lá. Lá em casa, quando chegava cinco horas, seis horas, tinha gente na porta, na rua, para assistir, para ver as coisas. 

 

P/1 - Você botava na janela?

 

R - Botava bem na direção de uma janela grande, de três folhas, aí minha esposa abria a janela. Minha esposa era bem novinha, abria a janela e botava a televisão lá em cima de uma mesa, na direção da janela, uma mesa meio alta. E lá todo mundo assistia. Quem entrava, entrava, porque não dava para ficar todo mundo; entravam as pessoas mais conhecidas - mãe, irmão, tanto da minha parte quanto da dela, e um vizinho muito... Tio, aí os outros já iam ficando do lado de fora. Todo mundo assistia. 

 

P/1 - Pegava cadeira, sentava no chão?

 

R - Pegava a cadeira e botava lá fora, sentava; o outro lá trazia sua cadeira, entrava. E assistia. 

 

P/1 - E ia ver mais o que, novela?

 

R - Aí eles iam ver novela, assistir o jornal, queriam saber o que estavam falando. Nessa época o jornal era um negócio muito bonito, aí queriam escutar jornal. Quando terminava iam assistir às novelas. E assim que era. 

 

P/1 - E no rádio vocês ouviam música também?

 

R - Ouvia, música.

 

P/1 - O que você se lembra dessa época, ouvindo?

 

R - Ah, ouvia muita música, nessa época de... Nessa época era... Talvez, não sei nem se tu ouvia falar, era valsa, era bolero, era tango, era esse... Vários tipos... Não era música como é hoje, nessa época eram músicas diferentes. 

 

P/1 - E vocês gostavam de ouvir, pai e mãe gostavam?

 

R - A gente gostava de ouvir. A gente ouvia, participava assim. Mas não era que nem hoje, hoje nego quer um rap, quer não sei quem, não sei quem. Besteira. 

 

P/1 - Conte pra mim como era o dia a dia de vocês. Começava o dia que horas, como, vocês faziam o quê?

 

P/1 - Que produzia?

 

R - Como era a agenda de vocês, como era o dia de vocês nessa época?

 

R - Nosso dia era o dia normal. Se saísse pro serviço, se a gente fosse trabalhar, saia de manhã pro serviço, ia pescar, ia caçar. Esse era o nosso dia, normal. Nosso dia era um dia como se fosse hoje, a mesma coisa, como se fosse empregado, ou não ser empregado, mas tinha os seus que ia fazer e a gente saía cada um para o seu lado. 

 

P/1 - Mas você acordava que horas?

 

R - Cinco horas da manhã nós estávamos de pé. 

 

P/1 - Tomava café?

 

R - Tomava café, café com leite, estava esperando já o cajeirão cheio de leite pra tomar. Tomava o café e quem ia pescar, ia pescar, quem... E às vezes tomava depois que chegasse já de pescar, de caçar. Saía às cinco horas da manhã.

 

P/1 - O senhor caçava e pescava também?

 

R - Pescava, caçava. Eu já fiz de tudo de bom. Hoje eu já pesquei, já cacei, já fiz tijolo, já cortei lenha, já forquilhei canoa, já cortei lenha dentro da água com a água na cintura, eu já fiz... Já trabalhei na olaria, fazendo tijolo, queimando forno de olaria. Eu já mestrei barro, eu já puxei voga, eu já fiz tudo... Já tirei pedra, já fiz tudo de bom, tudo pra mim foi bom. Porque foi para eu aprender, tudo, graças a Deus. E para ganhar dinheiro também.

 

P/1 - Como é que é pescar, conta pra gente, pra quem não sabe?

 

R - Ah, pescar a gente pescava... Eu gostava de pescar mais de tarrafa e de socó. Socó é um negócio feito com a boca de cima desse tamanhinho e aqui embaixo largo. Você sai, bateu aqui, o peixe bateu dentro, você mete a mão e tirava. Com água aqui, com água lá debaixo. E na tarrafa era tarrafeando. Negócio bonito, grande, pra gente tarrafear. 

 

P/1 - E o senhor ia pescar onde? Era em rio, era em mar?

 

R - Não, em campo. Nós morávamos em ribeira de campo, beira de campo. Porque a gente criava animal e a gente morava na beira de campo, nossa casa ficava assim, recuada do campo uns cem metros, mais ou menos.

 

P/1 - E caçar, o senhor ia caçar que horas?

 

R - Cinco horas da manhã saía, quando íamos caçar jaçanã, marreco, pássaro do campo. E quando era no mato, a gente ia caçar era cutia, era paca, essas coisas, animais.

 

P/1 - E ia com espingarda?

 

R - No mato era espingarda e cachorro, no campo era só com a espingarda. E quando nego era atirador, contava cinquenta espoletas, cinquenta jaçanãs.

 

P/1 - O senhor atirava bem?

 

R - Eu só atirava depois que o jaçanã voasse, eu não atirava em jaçanã sentado. 

 

P/1- Ah, é?

 

R - Porque ele voando, eu atirava nele, ele caia e não dava tempo de ele mergulhar. Ele sentado, no jungo ou no mururu, eu atirava, ele mergulhava, ficava só com o bico de fora; pra gente achar dava luta. E ele voando, eu batia a vara de forquilha da canoa no junco. Ele levantava, quando esticava a perna, eu atirava e ele caía assim no jungo, pronto. 

 

P/1 - O senhor caçava à noite também?

 

R - Caçava.

 

P/1 - E como é que era caçar à noite?

R - Caçar a noite era de peraqueira. 

 

P/1 - Como assim, o que é isso?

 

R - Peraqueira era uma lamparina dentro de uma lata. A gente pegava… De primeiro era lata de óleo, não era vidro de óleo. O óleo de soja, dessas coisas, vinha em lata. E a gente, quando secava a lata, cortava ela aqui em cima, fazia um cortezinho assim, cortava aqui até embaixo e abria, pra um lado e para o outro. Botava um cabinho, como se fosse um cabo, uma madeira com cabo de vassoura, pregava nela, para a gente poder agarrar, e ela ficava numa boca; era como se a gente fosse fazer uma lanterna. E a gente fazia, se chamava de peraqueira, tanto para peraqueirar o peixe quanto o passarinho. 

A gente caçava à noite assim. Caça do mato, nunca gostei de caçar à noite não, mesmo.

 

P/1 - É, por quê?

 

R - Eu nunca mandei ninguém me esperar e eu não ia esperar ninguém.

 

P/1 - Ia de dupla sempre?

 

R - Não, não. Que nego ia... Cada um ia caçar. Agora passarinho eu gostava de caçar, pescar de peraqueira.

 

P/1 - Pescar de noite?

 

R - De noite. Aí eu gostava. 

P/1 - E os seus pais, seus avós, contavam histórias de ‘visagem’, de bicho?

 

R - Ah, isso aí... Eles falaram que tinha curacanga, não sei quem aparecia... Ouvia os outros, mais velhos, contarem que tinha. Aparecia cavalo sem cabeça, bode, porco… Eu nunca vi, nunca tive nada com isso. Eu disse: "Se aparecer para mim, eu taco fogo, faço qualquer coisa." Eu nunca tive esse negócio comigo. Andei muito à noite e nunca tive medo, nunca tive negócio com fantasma, com coisa nenhuma.  Nunca tive esse negócio. 

 

P/1 - Mas o senhor ouvia essas histórias quando era criança?

 

R - Eu via contar, contavam histórias, muitas histórias. Uma vez eu saí de Mirinzal e eles diziam que aparecia uma rede no caminho Eu peguei um facão, amolei bem amoladinho; disse: “Eu corto hoje a rede, então." Cheguei no caminho e vi a rede, de longe. Eu abaixava, levantava, olhava, a rede tá lá, eu não vou chegar. Aí baixava, levantava, a rede tá lá se balançando. Cheguei lá, eram duas folhas de coqueiro, duas folhas de pindobeira que faziam isso. Cortei uma de um lado, uma do outro, cortei bem cortadinho; botei essa pra cá, outra para cá e fui embora. 

[Quando] cheguei em casa, tio Benedito disse: "Meu filho, tu não viu nada?" Eu digo: "Não." "Dizem que aparece uma rede." Eu digo: "Titio, eu cortei a rede." "E como?" "Eu cortei no punho. Cortei ela bem no meio, cortei para um lado, arrumei do lado do caminho da estrada. Cortei do outro, arrumei do outro lado. E pronto." Cheguei em casa era doze, pra uma hora da manhã. Era garoto, cheguei em casa, deitei e dormi. 

Eles: "No outro dia nós vamos lá", então nós vamos. De tarde nós montamos cada um numa burra e saímos, fomos ainda para casa da tia Chiquita, passamos por lá. Saímos umas nove horas de lá, viemos; eu mostrei a rede para ele cortada. Quando nós voltamos, "cadê a rede?" “Não vi nada, pronto. Vocês que são covardes.” 

Então é isso, nunca teve esse negócio não, comigo. 

 

P/1 - Vocês achavam que era uma ‘visagem’?

 

R - Que era uma ‘visagem’. Que era uma rede que aparecia no caminho, com alguém deitado ali, e aí ninguém passava.

 

P/1 - Mas os seus pais contavam essas histórias para vocês dormirem, é isso?

 

R - Contavam essas besteiras e... Ele não gostava de contar, porque disse que era para não espantar a pessoa, para não dormir. Porque a gente quando conta história…. Uma vez ou outra eu digo aqui para meus filhos e para meus netos, conto história assim e eles não dormem, então eu não conto. Aí eu digo pra eles: "Olha, ali dentro da Associação é um cemitério, vocês sabem o que é aquele muro ali? É para as almas não saírem, porque de primeiro elas andavam aí tudinho, aqui pela Canaã e tal", só pra dar besteira pra eles, pra eles ficarem... Aí eles ficam com medo, então... Tá entendendo?

 

P/1 - Tem um cemitério aqui?

 

R - Tem um cemitério bem aí, o cemitério... Isso aí é um cemitério. Aí eu digo: “Vocês sabem por que foi feito um muro no cemitério?" "Não." "Porque as almas andavam, saíam, e com muro elas não vão pular o muro pra nada." 

Lá no Anjo da Guarda, lá onde eu tenho minha... Eu digo pra eles: "Vocês já conheceram o cemitério lá do Anjo da Guarda, já foram?" "Já." "Lá não era tudo aberto?" "Era." Eu digo: "E agora?" "Ah, vovô, eles amuraram todinho, tudo fechado e tal." Eu digo: "Por que eles fecharam? Meu filho, porque as almas estavam andando nas ruas do Anjo da Guarda tudinho, espantando o pessoal. Eles fizeram o muro e eles não saíram mais, não andaram mais na rua à toa." "É mesmo?" Eu digo: "É." (risos) Isso é história de fantasma para criança.

 

P/1 - E como é que era a carpintaria e a marcenaria, o seu pai que ensinou pra você?

 

R - Carpintaria eu aprendi com o meu pai, porque eu via ele trabalhando. 

 

P/1 - E fazia o que mesmo?

 

R - Ele... Eu fazia cabo de faca e colher de pau, foi um dos meus primeiros serviços. Depois eu fazia cadeira, fazia mesa, fazia cama, petisqueiro - na época, hoje não tem petisqueiro, hoje tem estante, não sei sei o quê, e tudo mal feito. E de primeiro, a gente fazia petisqueiro no vidro, tudo com vidro. Você fazia um petisqueiro, uma cômoda, um guarda-roupa de madeira; passava anos, aquela madeira fixa. A gente fazia tudo isso.

 

P/1 - E vendia pra Pinheiros?

 

R - Vendia, a gente fazia de encomenda, não dava tempo. Fazia e vendia já. Porta eu fazia para vir para cá, para São Luís. O cara estava fazendo uma casa, encomendava as portas lá; eu fazia tudinho, vinha para cá, pra cidade.

 

P/q - E quais são... Conta pra gente, pra quem não sabe, quais são as ferramentas do carpinteiro e marceneiro?

 

R - A ferramenta do carpinteiro… Nessa época a gente usava junteira, graminho, plaina, era desbastador, guilherme - hoje eles nem sabem o que é o guilherme. Um gravetilha, não sabem o que é. 

Uma serra circular, plaina elétrica era muito difícil; depois que a gente começou a ter plaina elétrica, que era desengrosso ou planadeira mesmo, a planadeira porque ela planava por baixo e por cima e o desengrosso planava só por baixo; a gente virava a tábua, por isso que era desengrosso. E a serra circular. Lixadeira era muito difícil, lixava na mão, manual. De certos anos que passou a ter lixadeira, mas se lixava manual.

P/1 - E vocês talhavam na madeira também? Faziam?

 

R - Todo tipo de moldura. Todo tipo de moldura se fazia.

 

P/1 - E vocês já tiveram acidente, grave?

 

R - Não. Tinha que ter o esquadro, tinha que ter a trena, tinha que ter tudo. Acidente de plaina, muita gente teve. Eu nunca tive, graças a Deus. Eu me cortei um pouquinho nesse dedo aqui, ó; ele tem a marquinha, numa plaina, porque meu cunhado estava me chamando e eu trabalhando, aí eu fui dar com os olhos para ele e aquilo é muito veloz, e cortei a cabeça do dedo. Só cortou um pouquinho da unha, pronto. Mas nunca tive acidente, nem com furadeira, com lixadeira, com nada, graças a Deus. Isso é cuidado. 

Trabalhei fazendo muita mesa para Brahma - tamboretes, que eram os bancos; as cadeiras, de primeira, eram tamboretes. E mesa para Brahma não era mesa de plástico. Hoje é a mesa de plástico, a Brahma tem muita mesa de plástico, que fornecia para os vendedores, para os depósitos. Era de madeira, de primeiro, e eu fazia muito. Fiz quinhentas mesas, dois mil bancos, era assim. 

 

P/1 - Era bem grande então, onde vocês trabalhavam?

 

R - Era. Caixão, depois que eu me casei, eu fazia as vezes três, quatro caixões por noite. E minha esposa me ajudava. Ia fazendo o caixão e ela forrava mais minha mãe; enquanto elas estavam forrando, eu estava fazendo outro. Eu com um pretinho que eu criei; ele mora em São Paulo, é o filho mais velho. 

 

P/1 - Seu?

 

R - É. Porque quando ele chegou lá em casa, ele já chegou desse tamanhinho, e aí botei ele na escola. Depois que ele estudou um pouco, eu fui botar pra trabalhar, pra aprender junto comigo, e ele aprendia junto comigo. E quando eu estava fazendo um caixão, ele estava me ajudando. Tinha hora que eu, tarde da noite, mandava ele dormir: "Meu filho, vai dormir." "Não, eu só vou dormir quando nós terminarmos." 

 

P/1 - Qual o nome dele?

 

R - Edvaldo. Ele mora em São Paulo.

 

P/1 - Vou voltar nele depois. Queria perguntar pro senhor, qual foi a... Se o senhor se lembra da primeira vez que veio pra São Luís.

 

R - Se eu me lembro?

 

P/1 - É.

 

R - Eu vim pra São Luís [quando] tinha cinco anos de idade, a primeira vez. Vim passear junto com meu pai; meu pai vinha para São Luís, aí me trazia. Nós passávamos dois, três dias e voltávamos, porque ele vinha comprar material para trabalhar.

 

P/1 - E vocês andavam onde em São Luís nessa época? Vocês andavam onde?

 

R - Em São Luís?

 

P/1 - É. 

 

R - Lá no centro. Bem na Fonte das Pedras, ali perto da Fonte das Pedras. Sabe ali o Mercado Central, já viu o Mercado Central? A Fonte das Pedras é mais lá em cima um pouquinho, ali onde era o antigo Jornal Pequeno, que hoje não é mais Jornal Pequeno. Não sabe nem onde era o Jornal Pequeno? Porque tem o Mercado Central, tem aquela travessa, e tem a Fonte das Pedras; atrás da Fonte das Pedras tem outra rua que desce, que o nome dessa rua é... Eu tô esquecido agora o nome dela. E lá foi o Jornal Pequeno, lá que era o presídio nessa época. 

A gente vinha para uma casa de sobrado que tem bem na frente, bem na frente, do outro lado da rua. O presídio era desse lado e a gente ficava do outro lado, era de uma velha parente do nosso pessoal, uma velha muito antiga, Melvinha, dos olhos verdes. A gente vinha para lá e de noite ela fechava tudo, me mandava às vezes ir dormir no quarto de trás, para não escutar que a polícia batia nos presos de madrugada. Para eu não escutar, ela dizia para eu não me assustar, não ver aquilo. Eu dormia lá no quarto, lá no prédio, bem atrás. A casa era grande embaixo, em cima muito grande; tinha muita pessoa, hóspede, gente que chegava, só parente. Eu ficava mais meu pai, lá detrás.

 

P/1 - Aí de manhã você saía pra comprar coisas?

 

R - Aí de manhã saía, comprava coisa, vinha para o Mercado Central, pro mercado da Praia Grande. A gente comprava o que tinha necessidade - ferragens, material. Se trabalhava com verniz, comprava verniz, essas coisas para fazer; o verniz era feito, a gente fazia. Comprava o material e fazia, botava no álcool para fazer. O verniz, da cor que a gente quisesse.

 

P/1 - E como é que era São Luís nessa época?

 

R - Ah, São Luís era... São Luís era grande e era pequeno. Não tinha São Francisco, não tinha Calhau. Os barcos, a gente vinha era de barco. Para vir de avião quando adoecia, mas vinha mais só de barco. Passava três dias, quatro, em cima do mar vindo de lá pra cá, de Pinheiros, porque o porto não era aqui direto, como tem hoje o porto de Itaúna. O porto era lá no armazém, lá no interior. Assim que vinha. 

 

P/1 - Era uma viagem longa, então. 

 

R - Era, era viagem longa. Depois, quando fizeram a estrada do Itaúna, na época de Sarney, a gente vinha direto. Eu já vim aqui em São Luís comprar remédio; eu saía, vinha na primeira viagem, cinco horas da manhã, e voltava na viagem de sete horas da noite. 

 

P/1 - De carro?

 

R - De carro. Eu vinha de carro até o porto, pegava o barco, atravessava, fazia a compra, voltava no barco, ou nesse ou em outro que fosse para lá imediato; pegava o transporte do outro lado e ia embora para Pinheiros. Lá são 79 quilômetros de terra, nove quilômetros de água, para poder estar aqui em São Luís.

 

P/1 - O senhor gostava de pegar barco?

 

R - Ah, eu vinha todo o tempo. Mas tinha vezes que era ruim.

 

P/1 - Ah, é?

 

R – É. 

 

P/1 - Teve uma vez que foi ruim?

R - Teve várias vezes ruins, que o banzeiro, nego ficava batendo barco no meio do mar aí. Tinha nego que gritava, tinha nego que chorava, tinha nego que pulava. 

 

P/1 - O barco ficava fazendo assim?

 

R - É. O banzeiro sim, o barco, quando era um barco pequeno. Depois de muito passou a vir ferryboat, aí foi melhor.

 

P/1 - E o senhor começou a estudar em que escola, onde foi?

 

R - Ah, eu comecei em escola do interior, aí vim para cá para Pinheiros. Estudava nas escolas aqui em Pinheiros. Depois eu já estava mais ‘coisa’, deixei de estudar, aí parei na oitava série. Depois, casado já, com os meus filhos quase todos, fui estudar de novo, aí terminei junto com meu filho caçula. Nós terminamos no [Colégio] CEMA.

 

P/1 - Não foi aqui, foi antes?

 

R - Em São Luís. Eu morava aqui em São Luís já, moro aqui em São Luís há quase quarenta anos. Só aqui são doze, mais de quarenta - doze com 32, vai fazer 45. Aqui, no dia nove de março, faz doze anos que nós... A primeira mudança que eu trouxe para cá, a primeira família, foi no dia nove de março. 

 

P/1 - De 2008, né?

 

R - De 2009. Nossas negociações começaram em 2007.

 

P/1 - A gente vai chegar lá ainda, mas eu queria te perguntar antes, senhor Zacarias, sobre a escola que o senhor fez. O senhor foi até o oitavo ano, então?

 

R - É, nessa época a escola não tinha "escola fulana", "escola beltrana", tinha "escola de titio fulano", da "titia fulana" e pronto.

 

P/1 - E você gostava de ir pra escola?

 

R - Eu gostava. Eu gostava de ir para escola, era muito _____ . Eu gostava de ir para escola.

 

P/1- O seu pai queria que você fosse, sua mãe?

 

R - Ele queria que eu fosse para escola, mas eu queria ganhar o dinheiro também.

 

P/1 - O senhor gostava de algum professor, de alguma professora?

 

R - Todos os meus professores eu sempre gostei. Meus professores, tia Lulute, Bendito, era Maria... Maria... Como é? Eu esqueci até o título dela, era... Esqueci o título dela agora. Era tia Lulute, tio Bendito e Maria, foram meus professores. Depois quando... Aí eu parei, foi que eu vim… Depois que eu tinha família que eu comecei a estudar novamente. Eu já tinha tido uma empresa, precisava de trabalhar com a minha empresa, eu era o diretor. Aí eu precisava estudar, eu fui estudar. 

 

P/1 - Agora, me diga uma coisa, o senhor namorou antes de casar, ou foi com a primeira?

 

R - Não, eu namorei uma porção. Brinquei muito antes de me casar, fui noivo, não me casei com minha noiva. Minha noiva era professora, não me casei com ela. O meu pai queria muito, porque a família era balanceada. Como é que se diz balanceada? Tinha um poderzinho de um lado, um poderzinho no outro, então podia casar. Eu não me casei com ela. 

 

P/1 - Por quê?

 

R - Porque não deu certo. Ela era professora, era zangada, queria pôr ordem, não dava para mim. Namorei uma moça filha única, rica, não me casei com ela, não; eu me casei com uma moça pobre, humilde, tá vendo? Humilde, que não me procurava, não me punha ordem. Tá vendo? Às vezes eu dizia pra ela, eu procurava para ela:"Isso, assim, assim. Tu gosta, achou bom?" "Não, tá bom. O que fizer tá feito, o que eu vou dizer?" Com um ano e três meses que eu namorava com ela, um ano e quatro meses, eu me casei.

 

P/1 - Até hoje?

 

R - Até hoje. Nós temos 46 anos de casado. Teremos 47, vai fazer agora em janeiro. Graças a Deus.

 

P/1 - O senhor se casou com ela com quantos anos?

 

R - Eu tinha 24 anos e ela quinze.

 

P/1 - E como é o nome dela?

 

R - Ana Inácia. Ana Inácia Costa. 

 

P/1 - O senhor conheceu ela como?

 

R - Conheci ela no... Eu estava num aniversário, numa festinha, uma quadrilha, aí conheci ela. A gente começou a conversar e tal. Ela nunca queria me levar na casa da mãe dela, porque eles eram pobrezinhos, até um dia eu fui e achei que era muito pobrezinha, precisava da ajuda; fui ajudar eles e me casei com ela. E até hoje, graças a Deus.

 

P/1 - Vocês se casaram [quando] estavam em Pinheiros ainda?

 

R - Em Pinheiros. Eu tinha minha casa. Eu tinha três casas nessa época, uma minha e duas da minha mãe.

 

P/1 - Seu pai já tinha falecido?

 

R - Já tinha falecido há muito tempo. Quando eu me casei, meu pai estava com um ano e quatro meses que tinha falecido.

 

P/1 - E você trabalhava com o que nessa época que você casou?

 

R - Ah, eu trabalhava com carpinteiro, marcenaria. Tinha minha oficina em casa e eu pegava casa pra fazer, entregava na chave. Colocava pedreiro pra fazer alvenaria, parte da alvenaria, e telhado, porta, janela, tudo era eu que fazia. Entregava a casa fechada, entregava na chave. 

 

P/1 - O senhor ficou conhecido na região então, lá?

 

R - É. Todo mundo, até hoje, na hora que eu chego... Trabalhei na área da Vale [por] 22 anos.

 

P/1 - Na Vale?

 

R - Na Vale.

 

P/1 - Mas isso foi depois?

 

R - Depois que eu estava aqui em São Luís. Quando eu vim de Pinheiros para São Luís, eu já vim fichado na Vale, era anza. Porque antes de eu vir para cá para Pinheiros, trabalhei muito tempo na Camargo Corrêa em Tucuruí, na Hidrelétrica de Tucuruí. Lá que eu ganhei dinheiro. Quando eu fui para lá, eu tinha... Estava com dois anos, três, de casado, aí eu fui para Tucuruí trabalhar, ganhar dinheiro.

 

P/1 - E conta pra quem não conhece Maranhão, Pinheiros, você teve que se mudar pra lá?

 

R - Não. 

 

P/1 - É perto?

 

R - Não, é muito longe. A questão é que eu deixei minha esposa em casa, nós éramos casados de novo; deixei ela em casa, e fui trabalhar na empresa. Nos primeiros tempos eu vinha de noventa em noventa dias em casa, eu tinha quinze dias para passar em casa. 

Eles queriam que eu levasse a família pra lá e eu não quis, depois eles me mandavam de sessenta em sessenta dias. Ela nunca quis ir pra lá, ela não ia deixar a nossa casa. Eu passei, trabalhei muito tempo.

 

P/1 - Nessa época o senhor tinha quantos filhos?

 

R - Quando eu fui para lá, tinha um. Quando eu saí da empresa, tinha três.

 

P/1 - Quem foi seu primeiro filho?

 

R - O primeiro é o Valdo, o segundo é o Júnior e o terceiro é o Fábio.

 

P/1 - Nessa época ainda?

 

R - É. 

 

P/1 - O  senhor trabalhava em que lá em Tucuruí, na construção?

 

R - Trabalhava na construção, era mestre de obra. 

 

P/1 - E como foi trabalhar nessa hidrelétrica? Foi um desafio ou foi fácil?

 

R - Pra trabalhar lá?

 

P/1 - É. 

 

R - Lá foi um desafio, era... Se passasse no teste, nos exames, tudo bem. E eu cheguei, fiz o teste e passei. Fiz teste com projetos, passei e fui trabalhar, mestre de obra. 

 

P/1 - E ficou quantos anos trabalhou lá?

 

R - Eu trabalhei... Acho que uns cinco ou seis anos, trabalhei um tempo bom. 

 

P/1 - Até completar?

 

R - Eu trabalhei do... Lá no gerador de vagão, eu trabalhei de quinze a 125 metros. Final.

 

P/1 - Essa era a área do senhor?

 

R - Era. Montando forma, desmontando forma, botando concreto, botando ferragem, era a minha área, todo tempo. E quando eu vim de lá, contando de passar descansando pelo menos uns trinta dias… Cheguei num dia, com oito dias fui chamado para uma comporta que Sarney mandou fazer em Pinheiros, aí eu trabalhei um ano e nove meses na comporta. Saí da comporta, já fui mandado direto para Vale. 

Eu cheguei aqui na Vale, aqui em São Luís, que eu vim lá de Pinheiros. A comporta era feita em Pericumã. Quando eu cheguei aqui ainda era só mato, estava a topografia que tinha vindo de lá, estava dando mato. Voltei para lá, para comporta, passei mais trinta dias lá. Enquanto eles estavam fazendo uns bicos eu vim para acompanhar a topografia e fiz um virador de vagão. O virador de vagão da Vale quem fez fui eu, do começo ao final, e mais três correias. Trabalhei 22 anos.

 

P/1 - Em que região de São Luís o senhor trabalhou na Vale?

 

R - Ali, pra cá da termoelétrica, da Eneva. 

 

P/1 - Daqui?

 

R - É, naquela área ali, todinha. 

 

P/1 - Quando o senhor foi pra Vale, o senhor mudou de Pinheiros pra São Luís?

 

R - Mudei. Aí eu já trouxe a minha família. Passei um ano, um ano e três meses só, de casa alugada, trabalhando. Fiquei em casa alugada porque minha família estava em Pinheiros, aí eu fui buscar a mulher, trouxe para cá com os filhos e deixei minha casa lá. Comprei casa aqui.

 

P/1 - Vocês foram morar em que bairro aqui?

 

R - No Anjo da Guarda. Lá que é meu patrimônio, é no Anjo da Guarda. 

 

P/1 - E como é a casa em que você se estabeleceu?

 

R - Lá no Anjo da Guarda?

 

P/1 - É. 

 

R - Minha casa é uma casa de três moradas. Tem doze... Tem nove moradas, três  em baixo, três no meio e três em cima. É pequenininha. (risos)

 

P/1 - E o senhor foi trabalhar na Vale, naquela região, na hidrelétrica também, né?

 

R - Ali perto da hidrelétrica. Na hidrelétrica eu não trabalhei, quando eu trabalhei na hidrelétrica foi na Camargo Corrêa em Tucuruí. Eu vim, de lá trabalhei um ano e nove meses em Pinheiros, na comporta, uma comporta de concreto muito grande, no Pericumã; de lá eu saí e vim pra Vale. Trabalhei 22 anos na área da Vale,  trabalhando para botar os filhos para estudar. Quando eu trabalhei na Vale, aí eu comprei, fiz minhas casas. Eu comprei... Acho que umas seis casinhas, são seis terrenos, e fui construindo. 

 

P/1 - No Anjo da Guarda?

 

R - No Anjo da Guarda. No Anjo da Guarda eu tinha quinze moradas.

 

P/1 - Bastante casa.

 

R - É. 

 

P/1 - Alugava ou vendia?

 

R - Alugava. Comércio, que minha mulher trabalhava. 

 

P/1 - Lá na Vale você foi mestre de obras também?

 

R - Mestre de obras. Eu trabalhava com muita gente, empreiteiro, ______ Aí na época já de cafeteira, que foi governo de São Luís, eu registrei uma empresa, aí que eu fui ganhar dinheiro.

 

P/1 - Era uma empresa de construção também?

 

R - Empresa de construção civil. Eu já trabalhava como mestre de obras na Vale, como construtor. Daí até Parauapebas, na linha, na ferrovia, eu tinha construção civil e tinha construção na ferrovia.

 

P/1 - Prestando serviço pra Vale, para empresas grandes também?

 

R - Pra Vale, para empresas grandes. Prestava serviço para Vale, Petrobras, gás butano, pra Shell, e havia esse pro Estado. Essas cinco áreas. 

 

P/1 - E dava muita dor de cabeça ter esse tanto de coisa?

 

R - Dá, dá dor de cabeça. Muita dor de cabeça. Porque a pessoa tem que pagar, tem funcionários, tem muitas responsabilidades, tem isso e aquilo. Eu tinha 108 pessoas de carteira assinada só na minha empresa, era uma porção de coisas, você entendeu? Para administrar tudo, carro, motorista, e aquilo outro. Tinha uns doze carros mais ou menos. Para administrar tudo não é fácil não, mas foi bom.

 

P/1 - E qual foi o nome que o senhor deu pra sua empresa?

 

R - Construtora Passos Limitada.

 

P/1 - E foi trabalhando com isso até que ano, mais ou menos?

 

R - Fui trabalhando com isso, aí eu só deixei... Eu deixei devido a um sócio meu, que eu deixei, dei uma parada. Eu já tinha as minhas coisas, disse ‘vou parar, esfriar minha cabeça, mudar de ramo’. Eu tinha comprado lá na Madureira, onde hoje é a termoelétrica.

 

P/1 - Comprou um terreno lá?

 

R - Lá eu comprei um terreno, porque eu peguei uma obra num mercado, no mercado João Paulo, uma obra de 170 mil nessa época. Foi no mês de novembro, eu peguei essa obra e o prefeito era Jackson Lago, e ele disse: "Zacarias, tu ganhou essa obra, o dinheiro vai estar na conta imediato, porque dezembro nós tínhamos o balanço da Prefeitura, e para fazer pagamento é mais difícil, então o dinheiro vai cair todo na tua conta, na conta da empresa. Tu te vira com material, eu te conheço, tu tem responsabilidade, tua capacidade técnica é boa. O dinheiro vai cair todo na tua conta e tu vai fazer essa obra." “Tá bom.” 

Comprei comprei um terreno. Precisava de 55 carradas de pedra, aí eu fui atrás da pedra e não tinha quem me vendesse 55 carradas de pedra no monte, aí eu comprei um terreno por 250 contos, não era nem mil; só no terreno dava para eu tirar mais de 100 carradas de pedra, aí eu comprei. Peguei o dinheiro que eu ia comprar pedra, comprei o caminhão para carregar pedra; comprei o caminhão por 45 mil, a pedra ia me custar 55. Aí a gente tem que ter cabeça e fazer um negócio, comprei o caminhão novinho, zero, 45 mil; me sobrou quinze [mil], aí eu botei os homens para tirar pedra, botei meu filho no caminhão para carregar pedra. Todo dia botava uma carrada para construção, para parar. Comprei a cerâmica toda à vista, na empresa de cerâmica, para me entregar tudo no monte, comprei tijolo para receber no monte, comprei telha, mandei ver ferragens em São Paulo, telas. Chegou tudo no monte. Eu sei que não gastei a metade do dinheiro da obra, vendo rápido, comprei tudo à vista. Se custava tanto eu comprava por tanto, que já era no monte. E eu ganhei dinheiro.

 

P/1 - Esse terreno era onde?

 

R - Na Madureira, lá onde é a termoelétrica, do lado de onde nós viemos. Por isso que eu tô aqui. 

 

P/1 - Porque o senhor construiu uma casa nesse terreno. 

 

R - Lá eu comprei esse terreno, mandei tirar pedra. Eu me lembro que quem tirava pedra pra mim era um menino que eu tinha confiança. Nós fomos passear um dia, eu levei minha esposa. “Vamos lá na pedreira que o pessoal tá tirando pedra, eu vou deixar almoço e janta para eles lá, vamos lá". Aí ela: "Não, vai... Eu não vou." Eu disse: "Não, mulher, vamos lá." Aí fomos, ela foi junto comigo. Chegando lá ela foi na casa de um senhor, uma Tapera que tinha lá; pegou três mangas, sentou lá num geraldinho que eles tinham feito assim, aí sentou, comeu a manga, jogou um caroço para ali. Eu disse: "Joga o outro pra ali." Jogou lá e ficou. Lá nasceram três mangueiras. 

No outro verão, quando fomos tirar pedra lá, as mangueirinhas estavam assim [cheias]. Eu digo: "Aquiles, limpa o lugar dessas mangueiras, deixa elas aí." Ele disse "Senhor, não era bom eu plantar três moitas de banana?" Eu digo: "Tu quer plantar três moitas de banana? Eu vou trazer as bananeiras para ti." Cheguei lá no Anjo da Guarda, peguei três olhos de banana, levei para ele e ele plantou lá. 

No terceiro ano, as mangueiras estavam grandes, já meio grandinhas. As bananeiras eram três moitas bonitas, já tinham cacho. E aí eu digo: "Rapaz, faz uma casinha aqui de lado para guardar ferramenta." Fez a casinha pra guardar ferramenta. Depois eu vi que aquilo ali, a gente tirando pedra, e a pedreira era boa, aí eu comecei, mandei ele roçar e plantar macaxeira. Plantou macaxeira e fez uma bandinha de casa onde guardava a ferramenta. Ele já dormia lá, lá dentro do mato; eu levava o almoço, levava a janta dele, ele dormia lá. Aí eu disse: "Aquiles, você quer saber de uma coisa? Eu vou fazer uma casa bem lá em cima, bem lá na beira da estrada, onde o caminhão desce e a gente faz uma casa lá. Tu já toma conta, e nós vamos plantar mais macaxeira, plantar coco, o que for necessário". E aí se criou, assim foi que criou Madureira.

 

P/1 - O senhor foi a primeira casa, né?

 

R - Fui a primeira casa lá dentro do mato, do lado de um sítio. Tinha outras por lá, mas lá no meu terreno eu fiz casa e passei 22 anos lá. Fui indenizado pela MPX.

Primeiro chegou uma empresa que era a Diagonal, negociando comigo. Nunca fechou e eu não quis. Aí depois chegou Nonato, chegou mais irmão Ivaldo, chegou mais outro, chegou mais outro, chegou mais outro… Mas eu já morava lá há uns quinze anos.

 

P/1 - Você foi o primeiro, então?

 

R - Não, tinha.... Tinha.... Deixa eu ver. Tinha uma, Conrado, Dona Maria, um velho que morava mais assim, três, essa, a avó de Zeca Pastel, quatro... Tinha mais alguém? Ah, um velho Mauro, que morava lá na frente. Só tinha cinco famílias. Lá, agora tem mais famílias lá para ________, pra lá.

 

P/1 - Em que ano, mais ou menos, o senhor chegou lá?

 

R - 88, 89.

 

P/1 - E me conta como era a Vila Madureira.

 

R - Vila Madureira era só o mato mesmo. Eu comprei lá para tirar pedra e aconteceu de fazer uma casa mais tarde, fiz uma associação, e assim foi. Quando eu comecei eu tirava pedra e tinha dois tanques e uns duzentos tambores que eu tirava. Eu fazia a limpeza da Petrobrás, do Cyrus, para não botar o óleo fora; eu tinha dois tanques de estocar o óleo e tinha os tambores. Esses tambores de óleo eu vendia para a BB Mendes, para ir para uma olaria, uma cerâmica que eles tinham; comprava o óleo para queimar forno. E aí eu vendia para eles porque eu não podia botar fora, derramar, por causa do meio ambiente, para não estragar. Eu tinha esses tanques lá de estocar a boa do óleo e os tambores.

 

P/1 - Agora, lá na Vila Madureira, a terra era boa pra plantar, como é que era?

 

R - Não, não. A terra lá não era boa, a terra era... Porque lá era pedra, piçarra e barro. Então era... A gente plantava porque eu fazia os buracos para plantar as plantas e eu enchia de bosta de cabra, cisco, aí eu plantava. Plantava melancia, plantava abóbora, essas coisas, fazia era assim. E eu plantava muita manga, caju, essas coisas que a gente plantava, acerola, que são plantas que não tem nada com terra. _____. 

 

P/1 - Você ia lá no fim de semana ou passou a morar lá?

 

R - Lá?

 

P/1 - É.

 

R - Não, lá eu ia todo dia porque eu estava no escritório, estava... Era porque lá era meu depósito de óleo, eu tinha que estar lá. Tinha época que tinha mais de cinquenta carros de mão, par de ____. Tinha o material, tábua, que eu mandava botar para lá, para ir estocando lá. 

P/1 - Mas a sua família ficava no Anjo da Guarda?

 

R - Minha família morava no Anjo da Guarda. A gente ia lá, as vezes eu [dizia:] "Mulher, vamos lá depressinha." A gente ia lá, passava por lá, vinha, aí ela ficava no comércio e eu ia para o escritório, ia para construção. E aí a gente não parava. Meu filho, o segundo, era no caminhão, o mais velho era pela obra e os meus encarregados, meu irmão, outros encarregados que eu tinha. Eu tinha uns cinco ou seis encarregados. A gente era trabalhando, todo o tempo. 

Depois, já pro final, é que eu vivia mais na Madureira. Eu ia para lá trabalhar no que era meu, arrumar, ajeitar para cá, acolá; eu já tinha galinha, umas cinquenta e poucas galinhas lá, só para dar ovo para gente levar para o comércio, tinha... Aí eu tinha a macaxeira, tinha a banana, já tinha manga, muito caju - eu tirava cinco sacos de castanha por ano. Já tinha as coisas, fui parando para a empresa e cuidando mais do que era meu.

 

P/1 - Foi meio que se aposentando, é isso?

 

R - É, eu me aposentei, ficando mais... E fui lutar pela comunidade, eu que fiz toda essa negociação para vir para cá. Inclusive, a primeira empresa, como eu falei, foi a Diagonal. Não entraram, não negociaram comigo como eu queria, aí eu não fechei com eles. Aí depois chegou a MPX. Nós começamos a negociar, eu falei para eles como era, inclusive o pai do Eike Batista, falei para ele: “Só fecho se for assim e assim, se não for não fecho, porque eu não vou levar a comunidade para sofrer.” E assim foi.

 

P/1 - Antes da gente falar do processo de mudança, me fale como eram as famílias lá, a comunidade. Como viviam?

 

R - Eles viviam lá era de caranguejo, pegar um caranguejinho, tirar uma palha. Tirar um talo, tirar uma madeira, vara. Essas coisas que eles viviam, de marisco.

P/1 - Era bem simples, né?

 

R - É, bem simples, pegar um caranguejo, pegar um peixinho, besteira, bem simples. E viviam mais, mais... Tinha um lixeiro, que eles viviam também lá por dentro, viviam muito na área da Vale. Na área da Vale não era bom para eles, porque era arriscado morrer a qualquer hora, porque o cara tá lá dentro da Vale. Ele queria catar o ferro para vender, o ferro velho queria catar um pedaço de cabo disso e daquilo para vender, eles viviam de aventuras. Foi aí que eu negociei que eles viessem para um lugar que todo mundo vivesse melhor.

 

P/1 - E nessa época você já tinha quantos filhos?

 

R - Meus filhos todinhos, todinhos. 

 

P/1 - Senhor Zacarias, me conte uma coisa: qual era o interesse dessas empresas naquela região, o que que eles estavam querendo fazer ali, todas essas três - desculpe, a Diagonal e a MPX, depois?

 

R - Quando a Diagonal veio, a intenção deles era montar uma siderúrgica na área industrial, porque a área de lá, onde nós tínhamos sítio, onde morava esse pessoal, era, é uma área industrial. A Diagonal veio para fazer todo o levantamento para montar uma siderúrgica, e quando chegou na hora ela não fechou como eu queria, porque eu não queria nada mais, eu queria era o conforto de cada um que estava ali sofrendo, que estava tendo as necessidades. Podia ter até um desconforto, mas que todo mundo saísse pelo menos satisfeito, e eles não aceitaram como eu queria, então a gente não negociou. 

 

P/1 - Eles queriam fazer como, queriam tirar as pessoas de lá?

 

R - Eles queriam tirar as pessoas de lá, indenizar, mas não se comprometeram com minha despesa. “Olha, para sair daqui, eu tô fazendo estrada, tô pondo energia.” Lá eu preciso de energia, rua, feito tipo um conjuntozinho. Eu preciso de segurança, eu preciso de escola, eu preciso de igreja, eu preciso disso, daquilo, daquilo, daquilo... "Ah, então você quer demais." Eu digo: "Então acabou, meu amigo, porque eu não vou sair daqui para ficar desconfortável lá e jogado, só chegou, jogou e acabou. Eu não sou animal.” E aí eles não fecharam comigo, eu não fechei com eles. 

Quando a MPX chegou e conversou comigo, eu disse para eles: "Olha, para eu sair daqui eu tenho que ter um lugar que tenha água, luz, ruas. Tem que ter segurança, que eu não sei onde eu tô, eu tenho que ter educação, saúde, eu tenho que ter área de lazer, eu tenho que ter igreja, porque todo mundo precisa de igreja. Um mercado."

 

P/1 - Agora não tinha... Comumente a gente vê que tem processos em que as empresas só dão dinheiro e cada um vai para o seu canto, né?

 

R - É.

 

P/1 - E você não queria que fosse assim?

 

R - Não, eu não quis que fosse assim porque eu conheci como foi dentro da área da Vale. Dentro da área da Vale, quando nós chegamos, nós entrávamos e chegava aí, que estava junto comigo, um técnico. Procurava: "Quanto é que tu quer na tua casa?" "Cinco mil." O cara às vezes não sabia nem o que era cinco mil e eu dizia pra ele assim: "Rapaz, tu tem coragem de dar cinco mil? Não, rapaz, tá errado. Não, eu vou te dar um cheque de dez mil. Tu já pode ir no banco trocar." Dava um cheque de dez mil, o cara pedia cinco, dava dez; quando terminava ele gastava esse dinheiro e ia ficar na rua. Os que tinham cabeça comprava uma casa, ainda compravam uma coisinha; os que não tinham gastava o dinheiro e ficavam na rua. E eu não quis isso, então não negociei desse jeito. Negociei assim, assim e assim. 

Fui andar, andei em dez lugares para ver os terrenos. Vim me agradar aqui. Essa área aqui, nossa, era mais pra ali, aquele mais plano, nós ficamos bem aqui. Aí fomos ver a área onde podia plantar. Fui ver lá na Pindoba, eu... Aí que começou, então vamos começar a pensar, negociar, fazer diagnóstico, fazer tudo que é certo. Primeiro eu fiz uma reunião com todo o pessoal. Uns já estavam afobados. “Não é assim não, vamos. Para, deixa que eu sei negociar. A gente quer negócio, sair daqui e ir para um lugar que todo mundo se agrade. Tem que conhecer primeiro, passear, olhar.” E assim a gente foi fazendo.

 

P/1 - Aí que você criou a associação?

 

R - Eu já tinha registrado uma associação. Quando surgiu a Diagonal, que precisava [do terreno] para uma siderúrgica, eu já tinha uma associação a um ano antes, porque eu já sabia que uma associação era parte jurídica para eu negociar. E assim foi que eu fiz.

 

P/1 - Para poder representar?

 

R - Para poder representar. Quando a MPX chegou, a associação já tinha três anos - quatro anos, já ia entrar para cinco. Nós tivemos a nova eleição, eu tornei a ser o presidente da associação, aí que a gente negociou, que viemos para cá.

 

P/1 - E como era para o senhor ser o presidente dessa Associação?

 

R - Era por eleição.

 

P/1 - Como era organizar essas pessoas? Era fácil, era difícil? 

 

R - Não, não era difícil não, porque já estava todo mundo conscientizado de que nós tínhamos reunião todo final de semana. A gente tinha reunião, a gente conversava: "Olha, se nós tivermos que sair, nós vamos negociar dessa maneira, dessa, dessa." Já vinha conscientizando o pessoal para ninguém ficar, chegar e ficar sem saber. Tudo combinado. “Se nós sairmos, vamos sair assim. Tá bom? O que vocês acham?" "E tu consegue?" "Não, eu vou negociar." E assim foi feito. 

 

P/1 - E as reuniões com a MPX, era você de um lado e quem era do outro lado?

 

R - Nós tínhamos as reuniões e tinha com a MPX. Quando eles queriam ir para lá, “não, nós vamos marcar uma reunião, aí todo mundo vai estar lá.” O pessoal, os diretores da negociação da MPX, os representantes da MPX, os engenheiros, engenheiro disso, da elétrica, engenheiro civil, engenheiro fulano, engenheiro beltrano, aí ia tudo para as reuniões.

 

P/1 - E a negociação foi boa, eles trataram bem vocês? Como foi?

 

R - Não, todo mundo tratava bem. Todo o tempo trataram bem e a gente também tratando eles bem.

 

P1 - E aí quando vocês... Desculpa, antes disso, vocês olharam vários terrenos, é isso?

 

R - Vários terrenos.

 

P/1 - E vocês não quiseram outros e quiseram esse aqui por que?

 

R - Aqui porque era o seguinte: a gente foi no Gapara, o que mais eu queria era no Gapara, mas o terreno do Gapara era de Barcelar, ele devia um milhão e duzentos para o banco. Aí eu imaginei, nós ficamos com esse terreno. E essa despesa? Será que ele vai pagar ou vai deixar para gente, depois de estar vendido, para a gente pagar? Se ele quitar, nós ficamos aqui. Se ele quitar e nos mostrar o comprovante que tá quite, para nós é o melhor lugar. Precisamos de setenta hectares, o dele tinha 75, dá beleza para nós.

 

P/1 - E onde era esse território aqui?

 

R - Esse território? Era lá defronte do Anjo da Guarda. Ali onde é Piancó, hoje tem uns prédios. Aí eu disse: se ele entregar quite, nós vamos ficar aqui, que é bom para nós. Todo mundo pertinho pertinho da gente, fica melhor para a gente se acostumar, tal e tal. Mas não...

 

P/1 - Não deu. 

 

R - Não entregou. Aí nós fomos ver lá no... Lá no... Ali, depois da Santa Bárbara, Itajaçuaba, não agradamos. Nós vamos ver lá na Fazenda Ouro Verde, não agradamos. Nós fomos ver bem aqui perto do aeroporto, não agradamos. Podia ser um ponto bom, nós estávamos vendo na beira da Avenida Grande, mas não agradamos. Aí nós vamos lá para Indaiá, ali depois da Cidade Operária; fomos para lá, não agradamos. Lá era bom porque tinha a fonte da Indaiá, nós poderíamos era ter duas... Duas fontes de renda: água em Indaiá e Piçarra. Não, mas nós não vamos nos levar por isso. 

Aí nós viemos aqui. Eu disse: “Aqui não tem nada, mas aqui nós estamos no campo, fora, nós estamos libertos, nós estamos... Se todo mundo se agrada aqui, nós ficamos aqui.” Trouxe primeiro vinte, trinta pessoas. Depois a gente trouxe dois ônibus cheios, de umas oitenta pessoas. Depois nós trouxemos três, aí viemos trazendo. Todo mundo veio, todo mundo olhou, todo mundo começou a se agradar. Foi como nós negociamos aqui. 

P/1 - Vocês estavam procurando um terreno como? O que vocês queriam?

 

R - Era um terreno mais ou menos plano, um terreno que não fosse encharcado e também que não fosse em cima do morro, aí agradamos aqui.

 

P/1 - E aqui vocês chegaram. Como era aqui, esse território?

 

R - Aqui era um mato. 

 

P/1 - Era um mato baixo, um mato alto?

 

R - Mato... Não era baixo, era um meio mato. 

 

P/1 - E o polo, por que o polo teve que ser em outro território?

 

R - O polo, porque não podia ser aqui. Nós queríamos aqui, mas aí não podia porque tinha o cemitério bem perto, as casas ficavam perto. Tinha muita fossa, muito lixo, podia contaminar, ter contaminação.

 

P/1 - Vocês foram aqui na região procurar um lugar para o Polo?

 

R - É, nós fomos aí na região. Tinha umas roças de mandioca, de macaxeira, tinha plantio de alface e cheiro lá dentro da área, então nós agradamos da área. A área era documentada, a área tinha título e tudo, e nós agradamos lá.

 

P/1 - E me conte uma coisa: como é que foi a mudança, qual foi o dia que chegaram as primeiras pessoas aqui?

 

R - O dia que chegou a primeira pessoa foi no dia nove de março de 2009. Foram Isabel, Edileuza e Benta. Três três famílias, da mesma família. Eu trouxe elas três no dia nove, no dia dez eu trouxe mais três próximos a elas. No dia onze eu trouxe mais três, para ir se adaptando, para não deixar só. Aqui estava o pessoal da construtora, estava todo mundo aqui todo dia, e os vigias, guardas. Aqui tinha tudo, segurança, enquanto não estava tudo apanhado tinha tudo, isso para eles não ficarem sós, com medo. 

A cada dia eu trazia três famílias, para não vir só uma. Quando já estava mais da metade, às vezes eu trazia duas. Tinha dia que não dava para vir, vinha no outro dia, e isso construindo, trabalhando. E mudando, trazendo as famílias, trazendo às vezes mantimento, levando elas para fazerem compra, pra não... Dando todo apoio. Porque não tinha carro disponível, não tinha transporte disponível. A gente estava fazendo o que eu arrumava com a Eneva, com a MPX, e o que a gente podia, quem tinha carro, quem tinha moto, para ir se adaptando devagar.

 

P1 - Quando vocês vieram para cá, qual era o plano original do que ia ter aqui na vila? Quais são as primeiras coisas que vocês...

 

R - Que teve aqui?

 

P/1 - É, que vocês falaram que precisava ter?

 

R - Quando viemos pra cá... Porque estava construindo, eu estava acompanhando desde o início, da limpeza, da escavação, começar a chegar material. Eu tinha um contrato com eles que com seis meses meses que esse pessoal estava aqui tinha que ter escola, por causa das crianças. Porque essas crianças traziam... Eu trouxe as três famílias no dia nove, no dia dez já deixei Patrícia procurando contato com as escolas; a gente já estava tendo contato com as escolas, para ir botando essas crianças nas escolas aqui, para não parar o estudo deles. E aqui tinha que funcionar com seis meses, para poder estar todo mundo estudando, e assim foi.

A gente trazia três famílias, já via quantas crianças tinha: tem cinco, tem três, tem quatro, seis para ir para escola? A gente já estava com a vaguinha deles arrumada, adquirida, para ficar engrenado naquela escola até essa aqui estar pronta. 

 

P/1 - E quanto ao posto de saúde, essas coisas, como é que foi?

 

R - Nós tínhamos o contato com posto de saúde para atender as crianças, para atender as pessoas mais idosas, para atender todo mundo. Já estava tudo alinhado com a prefeita, com secretaria, com tudo, a gente já tinha corrido atrás, e Patrícia era responsável por isso, era minha secretária. Já tinha ela, tinha mais outro, mais outro para ficar responsável por isso.

 

P/1 - E aqui aos arredores, que bairros que tem?

 

R - Aqui é Mocajituba. Tem um posto de saúde, tinha duas escolas. A gente já falou com eles lá no posto de saúde, com as duas escolas. Aqui na Pindoba tem um posto de saúde e três escolas; a gente já falou lá, [com] as três escolas e o posto de saúde, para atender as pessoas, para poder receber. A Vila do Povo, que tinha umas igrejas, Vila São José, [falamos] para ir atendendo enquanto as nossas [se] aprontavam para funcionar. E assim a gente foi, tudo a gente estava alinhando, eu e dona Patrícia, e uma menina lá da MPX, era essa... Eu tô esquecido do nome dela, não era a Beth ainda não. Beth, quando pegou, isso aqui já estava...

 

P/1 - Para a frente, né?

 

R - É. Assim a gente tinha todas as combinações. 

Com seis meses eles entregaram a escola. Nós viemos em março, [em] agosto recebemos a escola, nossas crianças já começaram na escola. Tínhamos sessenta... Parece que 63 ou 62 alunos daqui da Canaã; deu que era uma escola para trezentas crianças, porque não vou contar só com uma, nós estamos precisando das escolas deles e eles vão precisar da nossa, e assim foi feito. 

Nós já tínhamos reunião aqui na associação. Isso aqui era a associação, essa associação daqui até lá fora, que eu quero construir uma... Novamente ela aqui na frente, que Deus quer. Eu vou deixar sendo um escritório mesmo aqui, ali fica uma sala de recepção e eu construo a associação na frente. Esse é o meu plano, se eu chegar como vereador eu vou fazer isso, porque Deus quer. 

A gente foi procurando maneiras de habitar, aí quando foi para o posto [de saúde], o posto ia ser de duas casas e eu não quis nem duas casas. Disse: “Eu dou o terreno do posto.” Qual é o terreno? Eu disse: “É aquele terreno que tem bem ali no meio, que tem aquele terreno agarrado na minha casa, onde é o posto.” Tinha um terreno, o lugar que era acho que de dois terrenos ou três, aí eu digo: "Eu quero aqui." Aí eu deixei as duas casas e construí uma... Botei para construir o posto no lugar dos terrenos. Foi uma briga minha com a MPX, com a empresa que começou a construir; eu ainda embarguei [por] quinze dias, porque eles queriam fazer do jeito deles, o dono da empresa com dinheiro. Eu disse: "Então tu não constrói." Parei a obra [por] quinze dias, aí eles foram para lá para MPX. A MPX: "Não senhor, é do jeito que ele quiser, não tem jeito. Ele que é o dono, tem que ser desse jeito." E assim foi, foi construído para dez mil e poucas pacientes, pessoas, e tá aí o posto, tudo aqui foi com luta. 

Essa quadra ali de futebol era um campo de futebol, hoje é uma quadra. Ainda tem questão para resolver nela, inclusive é Valentim, que é o representante do campo que eu botei, e agora ele tá querendo me levar um negócio para Beth, porque ele quer documento de terreno. Não tem nada que ver documento, tem que conversar com Bete, deixa da maneira que tá.

 

P/1 - E a praça, como é que está?

 

R - A praça foi projetada daquele jeito ali. Também eu penso em melhorar a praça, porque aquela praça ali eu quero... Inclusive tem um projeto para ser uma praça de... Aquelas praças comunitárias, com equipamento para [educação] física, para a diversão, para tudo, então eu tô querendo uma praça comunitária com seus equipamentos para [educação] física, para... Brinquedo para criança brincar, divertimento, mas montada. 

Ela tá ali para gente, é o que eu penso. Ela não foi negociada para a Eneva fazer dessa maneira, mas a gente pode negociar, pode formar o projeto e levar para eles, inclusive nós já temos um projeto preparado, a gente já deu entrada para ver como é que faz a praça.

 

P/1 - E como é que foi essa coisa do batalhão da polícia?

 

R - Quando foi negociado, foi negociado um posto policial, mas um posto policial eu achei que ia ser dois polícias. Chegavam de manhã, se fechavam ali dentro, passavam o dia, de tarde ia embora, deixavam fechado. Qual era a segurança que nós tínhamos? Nenhuma. Aí eu negociei para ter um posto, para ter uma companhia, e essa companhia hoje é o Batalhão de Paço do Lumiar. Era para ser maior, quando estava fazendo o projeto eu queria maior, mas tinha um capitão da polícia, Berê, que era o desenhista, [que] achou que eu estava querendo muita coisa. Ele não estava pensando de ter policiamento, não estava pensando em ser um comando, ele estava achando que ia proteger muito a comunidade. E não foi não. Aí o que que aconteceu? Foi feito daquele tamanho ali e agora merece, tá precisando ser maior, tô vendo. Hoje o comando de Paço do Lumiar é aí.

 

P/1 - Quem é o policial que comanda esse batalhão?

 

R - É um coronel que é o comandante. É o...

 

P/1 - Brito?

 

R - Não, o Brito saiu daí, agora é outro. Eu até mandei Patrícia marcar uma reunião com ele, quero conversar com ele. O Brito já estava conversado com a gente, estava bem engrenado, bem... Aí mudou, o Gerson Portela mudou, e deixou esse aí. Eu tenho que ter uma conversa com ele, ou ele vai fazer a coisa certa ou eu vou, quando o Gerson Portela chegar, e dizer para ele que não aceito, porque a vontade deles aqui é chegar e mandar. E aqui eu não aceito, eu não aceito porque se eu botar na mão deles, pronto, vai ficar tudo por conta. 

Chega um vereador, quer mandar, chega um prefeito, quer mandar, chega outro e quer mandar, o governo chega e quer mandar, e não pode ser assim. Aqui é como se fosse uma área privada, porque eles não gastaram nada, não construíram nada. Por isso que eu não abro mão para eles, porque ninguém, nem município, nem governo, ninguém construiu nada aqui. Receberam pronto, então eu não vou abrir mão para eles chegarem aqui e botarem a banca não, tem que pedir licença, e se eu aceitar. Agora no dia que eles começarem e construírem, fazer isso, fazer aquilo, aí eu posso abrir mão para eles, mas com parceria. Mas sem, não abro não. 

 

P/1 - E como você quer ter essa conversa com esse coronel, o que você precisa falar para ele?

 

R - Com o coronel? Eu preciso que ele seja um coronel, um comandante, mais responsável pela comunidade. Não é para ele ficar à disposição da comunidade nem deixar ninguém, mas que ele sabe o que aconteça na comunidade. Pelo menos eles ganharam uma viatura e uma moto, para ser segurança da comunidade. Pelo menos aqui, no decorrer da noite, ele deixe o pessoal dele já determinado numa... Um serviço, mas é serviço à comunidade, como? Dá duas.... Vem uma viatura lá do Maiobão, chega aí dez horas, então dez horas, se ela vem aqui, ela vem, encosta no batalhão; quando sair ela já sai por aqui, por essa rua aqui e vai direto. Quando chegar a outra, uma hora da madrugada, ela chega, tá no batalhão, já sai aí, sai por lá, porque aí ela tá sendo vigilante. Devo isso aí para eles, foi a comunidade que deu esse prédio. A comunidade que brigou para ter esse prédio. Então eu não tô dizendo que eles devem obrigação a comunidade, não senhor, mas eles são comunitários porque estão dentro da comunidade. Tem que ser parceiro, tem que ser companheiro, tem que ser coletivo com a comunidade, não ________. 

P/1 - E essas coisas todas que acontecem, que estão colocadas aqui, tem que falar com você, com a associação?

 

R - Pois é. As coisas que vão acontecer aqui, eles tinham que chegar e falar pra mim, me convidar. Tô vindo como fundador da comunidade, como negociador da comunidade, como quem trouxe aquilo para eles usufruírem, você entendeu? Porque todo mundo tá ganhando seu salário, todo mundo tá ganhando o sustento da sua família, e eu não. Eu não ganho nada, nada com isso. Para eu ainda não ter nem segurança? O que adianta? Quer dizer que eu vou só trabalhar para os outros usufruírem e não ter direito a nada? Nem poste, porque o poste recebe o fio, mas ele recebe a iluminação no pé dele. E eu não? Então é essa que é a minha história, esse que é o meu caso.

 

P/1 - Como é que foi a ideia do polo? Vocês foram lá, viram que o terreno era bom?

 

R - Nós fomos lá, olhamos, tinha macaxeira, tinha mandioca, tinha cheiro, cebolinha, alface, tinha todos esses plantios. Dava melancia, tinha melancia, tinha abóbora, então trabalhar no polo era a sustentabilidade de cada família. 

Quando viemos para cá foi com direito à sustentabilidade. Quem fosse ficar empregado na escola, na escola; quem é empregado no posto, no posto; quem é empregado no posto policial, no posto policial. No posto de saúde, na Casa de Cultura, você entendeu? Porque no Paço do Lumiar não tem Casa de Cultura, mas aqui nós temos. Quem fosse trabalhar no mercado, no mercado. Para cada um ter seu sustento da sua família. Tirar a sua sustentabilidade daquilo que nós trouxemos para cá.

 

P/1 - E o polo, como foi?

 

R - E o polo para dar o suporte também. Quem não tem direito, não se emprega na escola, que não se emprega no posto policial, que não se emprega no posto de saúde, que não se emprega na Casa de Cultura, que não se emprega no campo, que tenha onde trabalhar para tirar o sustento da sua família.

 

P/1 - Até porque muitos já eram agricultores lá, né?

 

R - Porque muitos já eram agricultores. Ou não fossem, mas que podia porque... Cleonice não era agricultora. Cleonice era professora, ela é aposentada como professora. Trabalhou muito tempo aqui, mas hoje ela trabalha lá de agricultura, tá dentro do terreno dela. Nonato é pedreiro, mas no dia que ele não tá trabalhando [como] pedreiro tá lá dentro, trabalhando no que é dele. É um sustentozinho a mais, um recurso a mais, financeiro. Zé Maria tem a aposentadoriazinha dele, mas tá lá trabalhando, é recurso a mais, porque um salário de aposentadoria é um quebra-galho, mas tem dois quebra galhos, o da aposentadoria e do que ele produz. João Campo do mesmo jeito, o Paraíba do mesmo jeito, e eu lá, da mesma forma. Por isso que a gente está lá e fez questão daquilo, porque é uma renda a mais.  Mesmo pouca, difícil, com muita luta, é da gente.

 

P/1 - E no começo você já tinha essa ideia de agricultura orgânica, ou não?

 

R - Não. Quando nós chegamos, nós nem falamos em agricultura orgânica. Depois de um ano que a gente estava lá, a gente começou a pensar, porque aí contratamos o Altamiro. Altamiro trabalha com orgânica, ele é doutor formado na Universidade Estadual [do Maranhão], e ele... Lá é dirigida por ele, ele é professor dos outros, dos outros doutores de lá. Ele é doutor agrônomo e com agricultura orgânica, inclusive ele trabalha só com agricultura orgânica. 

Ele começou mostrando para gente que a agricultura orgânica é melhor porque não faz mal a ninguém. É um negócio mais caro 30%, e tudo isso, que nós nunca recebíamos, 30% a mais, não… Fomos trabalhar com agricultura orgânica porque, como eu digo, até eu já fui vítima de agricultura com veneno. Agrotóxico.

P/1 - Como foi isso?

 

R - Porque eu fui operado. Eu tive um nódulo, um câncer, e tive que operar. E que provém dessas coisas, porque o brasileiro come um litro de veneno por ano. “Quem que te garante isso, Zacarias?” Porque eu sei. Eu já estudei, já fiz vários cursos e eu sei. 

Eu olho, não sou cego. Eu vejo o tanto de veneno que eles botam. Eles botam mata-capim, eles botam mata-tudo, botam mata-mato, eles botam... É só veneno perigoso. E o que eles botam na couve para matar o piolho, eles botam na vinagreira para matar a formiga, eles botam no quiabo para matar a formiga para matar o percevejo, eles botam no milho para matar aquele piolho que dá no milho, de tudo. Eles usam veneno e nós não usamos. 

Até adubo é muito pouco que a gente usa, a gente usa mais é compostagem. Eu contratei toda a serragem que tive, todo o beneficiamento de podagem do município para levar lá para o polo, para mim. Toda a parte de grama que é cortada, pode juntar e levar para mim. E já ajudando eles, para não botarem, não levarem pro lixeiro, que é mais longe, que é mais gasto, que é mais bactéria no lixeiro. Aquela madeira beneficiada é uma cobertura de canteiro que depois vira adubo orgânico, compostagem. Tudo isso eu fui ver.

 

P/1 - E você nota diferença no alimento com veneno e o de vocês?

 

R - Noto. Isso é o de menos, o que mais você nota. Você corta um pé de alface com veneno, você vê o tanto de leite que ele bota. Você bota um pé de alface com veneno aqui e bota um sem ter veneno aqui; esse daqui que você botou com veneno, de dia pro outro ele tá diluindo, todo melado. E esse aqui passa três, quatro dias, enxutinho, do mesmo jeito. 

 

P/1 - E o gosto, você sente diferente também?

 

R - E o gosto diferente. Aquela alface americana que fecha assim, aquilo só fecha com veneno, sem ter veneno não fecha. Quando você... E muita gente não gosta, só gosta da alface se ela estiver fechada, a americana. Ela tem tanto veneno que nem forma. Porque se eu quiser fazer fechar eu faço, ficar fechadinho que é uma beleza, que nem o repolho, e eu ainda uso um veneno que eu digo que é um veneno... É um veneno...

 

P/1 - Natural?

 

R - Natural. Mas não é não, o boro é um veneno natural, que mata devagar, só na manha. É igual o fumador de diamba, que vai matando devagarzinho, é igual fumador de cigarro, que o cigarro vai matando devagarzinho, é igual o bebedor de cachaça, pronto.

 

P/1 - E como é que está a geração de renda lá, vocês estão conseguindo se virar?

 

R - Não, a geração de renda não é boa. Era para ser muito boa. Não é boa não.

 

P/1 - O que está impedindo isso de acontecer?

 

R - Tem uma identificação muito má, porque a água, a energia é muito cara para nós. Foi uma coisa que eu não pensei no início, a energia. A energia é muito cara, nós não damos conta de pagar. A associação é sem fundo lucrativo, não tem fundo lucrativo, porque se tivesse lucro ela tinha… Todas as ações não têm fundo lucrativo, porque se ela tivesse fundo lucrativo ela tinha uma ajuda do governo, uma ajuda do município, mas não tem. Até os programas do governo, os projetos do governo, do município, são falhos, são irresponsáveis. Não auxiliam ninguém, onde um projeto auxilia o outro derruba. Quando o projeto vem para ajudar, às vezes o administrativo daquele projeto não liga; ele tá ligando em ganhar, botar no bolso dele. 

Mas como, Zacarias? Porque, por exemplo, tem o secretário de agricultura. Vai lá na Secretaria de Agricultura que não tem nenhum tostão nem para ele comprar o café para ele beber, para ele botar lá para atender as pessoas. Por quê? Porque não tem um vereador interessado em criar um projeto para auxiliar a agricultura. Se eu auxiliar a agricultura, a secretaria é auxiliada; se auxiliar a secretaria, auxilia a agricultura. Então é tudo negativo.

Por que, Zacarias? Porque a energia é muito cara. Se nós botarmos uma bomba de quatorze… Nós temos um poço com uma bomba de quatorze, com sessenta, 65 mil litros por hora. Mas a minha área é um hectare, o mesmo meio hectare, ou mesmo só a metade de meio hectare. Para molhar dentro de trinta minutos, não molha, e a gente só tem direito a trinta, 35 minutos, para molhar. Não molha uma vez por dia, não molha. E o que vai fazer? A gente vai ter prejuízo, perda. Se molhasse trinta minutos de manhã e trinta à tarde eram sessenta minutos, já melhoraria muito. Se molhar trinta minutos de manhã e trinta à tarde, se vamos pagar cinco mil de energia, nós pagamos dez. Se nós pagamos doze e quinhentos, nós pagamos cinco. E de onde nós vamos tirar? Nós não temos ajuda? E se nós tirarmos, nós vendemos... Nove mil por ano. Como é que nós vamos pagar essa energia? Eu vendendo nove mil por ano, o outro nove mil, o outro nove mil, o outro nove mil? Como é que nós vamos pagar energia, que são doze meses? Doze [meses] de cinquenta, de cinco? São 62 mil. Para quem ganha nove, como é que vai pagar? 

Aí que o agricultor não é olhado, nem pela parte do pobre, nem pela parte do rico, nem pela parte da município, nem pela parte do governo, parte nenhuma. Lá em Fortaleza produzem muito, mas a energia deles é a metade. A metade para o governo, a metade para eles. E aqui não. Aqui se quiser a gente tem que se virar.

 

P/1 - Vocês estão vendendo para quem hoje em dia, no polo?

 

R - Hoje nós vendemos para o PNAE [Plano Nacional de Alimentação Escolar] e pronto. Só para o PNAE. O PAA [Plano de Aquisição de Alimentos] até hoje nunca funcionou, nós estamos com dois anos que não funciona.

P/1 - O que é o PNAE e o PAA?

 

R - O PAA é uma verba do Governo Federal para dar, para botar para as famílias, para a comunidade filantrópica… Aquelas que são necessitadas, para esse pessoal que está na rua, para os ______, para os asilos, para os restaurantes populares, para as comunidades mais sofridas, mais pobres.

 

P/1 - E o outro?

 

R - E o PNAE é merenda escolar. Alimentação escolar.

 

P/1 - Aqui da região mesmo?

 

R - É. Era para ser para toda a região, porque todo lado tem criança estudando, e criança precisa se alimentar na escola. Comer uma comida saudável, comer uma banana, comer uma talha de melancia, uma batata cozida, uma macaxeira cozida, comer um milho cozido, porque ele tá ali na escola. E para incentivar ele, porque aquilo é agricultura familiar.

 

P/1 - E saudável.

 

R - E saudável. Mas os nossos representantes são fracos nisso. E quem sofre? São os agricultores, os pobres, as mães, às vezes até daqueles mesmos alunos. Porque o filho vai chegar em casa, vai procurar e não tem nada.

 

P/1 - Vocês têm uma estrutura bastante moderna, até, lá.

 

R - Nossa estrutura é boa. Mas é o mesmo caso de tu ter.... Ali tu tem um saco de farinha, tu tem um saco de arroz, tu tem um saco de feijão, mas ele tá botado num lugar que tu não possa tirar, tu vai comer como? Ele vai estragar e tu não come. Deu para entender como é que a coisa? 

O mesmo resultado da agricultura familiar. Se você tem, mas você não tem quem compre, não tem para quem você vender para vir o seu recurso, para você plantar, limpar, molhar, você vai deixar acabar e vai ter só prejuízo. E vai morrendo devagar.

 

P/1 - E vocês têm algum plano para mudar?

 

R - Hein?

 

P/1 - Vocês estão com planos para fazer outras coisas?

 

R - Plano a gente tem demais, mas planos sem ter projeto é coisa perdida. E projetar e não poder executar, é a mesma coisa. Só adianta você ter plano projetado [se] você projetar e poder executar. Se você puder executar, você vai usufruir, mas se tu tem um projeto e não pode executar, tu vai usufruir de quê? Tu vai morrer com a carga na cabeça sem poder arrear. É isso que muita gente não vê. 

O polo, se eu chegar a ser eleito… Porque eu não espero mais, eu não conto mais. Eu tô lutando com os projetos da bateria solar; bateria solar, por exemplo, sai [em] dois anos... Vamos dizer que ele sai a dois anos, cinco, seis anos, caro. Vamos ver que eu faça um projeto de uma bateria solar para alimentar o polo, seja noventa mil para eu pagar dentro de sessenta meses. Vamos dizer que eles me cobrem dois mil por mês. Faz uma negociação no banco, o banco abre mão do projeto, direitinho. Mas todo mês eu tenho que pagar dois mil, durante sessenta meses. Se eu tiver como tirar o dinheiro dentro desses sessenta meses para eu pagar, eu vou ter êxito, eu vou ter resultado. E se eu não tiver dinheiro para pagar todo mês? E para eu iniciar? 

Para fazer uma casa você tem que cavar vala, encher o alicerce, fazer baldrame, descer alvenaria; quando terminar, cobrir, rebocar, botar piso, para você poder se mudar. Você se mudando, cheio de cavalo ou alicerce? Não se muda, não faz. A mesma coisa. Eu fazer um projeto de uma bateria solar, bota a bateria solar e eu vou já começar a produzir pra pagar. Onde? Eu tenho que ter primeiro a energia, a água para eu poder produzir, fazer canteiro. Plantar para produzir.

 

P/1 - Você está fazendo alicerce depois que já está em cima?

 

R - Para você ter êxito, você precisa estar com tudo pronto primeiro. E aí, como é que acontece? É isso que nego não vê. É isso que nego não sabe administrar, administração não é intelectual. Não é ser intelectual, administração é um negócio que vem de nascença, de berço, de família.

 

P/1 - E como é a administração do polo, é a Associação do Polo Agrícola?

 

R - É, lá tem a associação. O cara pode ser fraco na administração, concordo que é fraco na administração, mas também não tem recurso. Talvez ele não saiba nem correr atrás de um apoio. Tem que buscar, pensar qual é o lado que se torna mais barato, qual o lado que se torna mais fácil, qual o lado que se torna com mais parceria. Dizer que é bom dessa maneira, é bom, agora... Mas tem que fazer.

 

P/1 - Então você não tem como ficar na associação aqui e no polo agrícola? É um ou outro então? 

 

R - Não, não. Ele pode estar aqui, meu amigo. É porque tu não tá entendendo ainda bem. Por exemplo, eu moro aqui. Eu moro aqui. Eu não vou todo dia para o polo e não venho todo dia? Eu poderia ter um serviço aqui, aqui eu podia ser empregado na escola, por exemplo. Eu trabalho segunda, terça, quarta, quinta e sexta na escola. Se eu trabalhasse sábado e domingo lá no Polo, com um trabalhador eu fizesse dez canteiros, plantasse… Aí eu deixava porque tinha água automaticamente, todo dia aquela água molhava e não estava... Lá tá molhando, eu vou saber que eu tenho uma despesa para eu pagar, molhar, mas eu tô sabendo que tá molhando. Eu tô sabendo que tá produzindo lá. Quando eu chegar sábado de novo eu vou ver minha plantinha toda bonitinha no ponto de capinar, aí eu vou capinar ela sábado e domingo. Se eu não der conta de capinar só, eu pago dois ou três. Vamos capinar, porque eu já sei que deixando limpo na outra semana eu chego, tá tudo bonitinho porque tem água. Mas eu vou hoje, sábado e domingo, trabalho, planto. Quando chega no outro sábado, não tem nada, tá tudo morto, porque não tem água para molhar. 

O que que eu tô fazendo? Eu tô tirando daqui do meu emprego e botando fora para outro lado. Deu para entender? Esse é o caso, é o que acontece. Eu tô indo lá todo dia de manhã cedo molhar, mas eu só vou molhar de manhã, eu tô aqui agora. Aí o que tá lá tá morrendo, tá entendendo? Porque se eu tivesse lá eu estaria limpando, molhando, plantando, e fazendo uma coisa ou outra. Estava indo para frente. Mas se eu vou lá de manhã, só molho ou só capino, vai morrer. 

A planta é um bebê, é uma criança. A criança mama, a criança come, a criança banha, a criança faz xixi, a criança faz cocô, tem que estar limpo. Mesma coisa a planta. A planta precisa de você capinar, você conversar com ela, botar água nela. Você dá uma voltinha, vem, tem mais um pezinho de mato, você tirou do pezinho dela um capinzinho, uma besteira, tira um piolhinho, aí ela depressa usufrui. Mas se não for, você plantou, molhou e largou. Ela precisa de cuidados. 

 

P/1 - E como é que está hoje a situação do polo? O que vocês pensam para o futuro, o que vocês estão querendo executar mais urgentemente? Isso tudo que você falou? 

 

R - É, essas coisas que eu falei. Por exemplo, nós estamos lutando com um projeto de cacau. Mas nós vamos plantar um cacau e se não tiver… Plantou, só basta capinar, porque ele é uma planta nativa. Ele não tem tanta ciência com o mato, o mato pode cobrir o pé dele, pode estar até cobrindo ele se for possível, porque ele gosta de sombra. Ele é planta nativa misturada com mato, mas ele tem capim que não se dá na raiz dele pode matar. Ele pode criar um formigueiro, uma saúva, que pode matar ele lá. Tem que ter o cuidado. Ele precisa da água, porque tudo neste mundo precisa de água, água é vida. 

Nós estamos pensando num projeto de cacau. Por que nós estamos pensando? Porque é mais duradouro, ele segura mais água e segura mais tempo. É mais tempo. Quanto menor o círculo, ele mais exige de você. Quanto maior o círculo,  menos ele exige de você.

 

P/1 - E vocês iam vender esse cacau para onde, para quem?

 

R - Nós não sabemos. Uma boa pergunta. Se nós não tivermos uma empresa já... Já...

 

P/1 - Engatilhada?

 

R – É, já contratada, engatilhada, não adianta. 

Maracujá é uma coisa que dá bem. Você planta, com seis meses ele começa a botar. Com oito, nove meses, você tá tirando o maracujá, mas ele precisa de água, precisa de adubo, de poda. Ele precisa de arame, de estaca. Ele precisa de várias coisas, e se você não tiver para botar? Para você comprar um rolo de arame é caro, comprar uma estaca, é cara. Você tem que ter uma tesoura de poda. Você tem que molhar todos os dias, e aí? Se você não estiver preparado, você não vai para lugar nenhum.

 

P/1 - Agora me conte uma coisa, senhor Zacarias: e a escola, teve ensino aqui para as pessoas daqui da vila?

 

R - Tem.

 

P/1 - Formou muita gente daqui?

 

R - Tem, ela que faz até o nono. Quando sai daqui tem que ir para o outro lado; eu tô querendo montar uma escola que faça o ensino médio aqui. Inclusive, trazendo uma faculdade agora para cá, porque os caras vão fazer faculdade muito longe, então eu tô fazendo uma faculdade, já consegui. E agora eu vou brigar em cima de uma pra aqui ensinar, ter o ensino médio. “Que horas, Zacarias?” À noite. Pelo menos umas três salas, quatro, que dê de pessoas para fazer o ensino médio, porque fica mais próximo, mais perto. Contar com a segurança, porque quando já começa a ter movimento à noite, o ladrão se aproxima também. É igual o inseto onde tem a planta, onde você tem couve; com certeza vai vir o piolho. Onde você tem a rúcula, com certeza vem um piolho; onde você planta a alface, o cheiro, é certeza vir a paquinha. 

Onde está o ser humano? Estudando, procurando alguma coisa. O ladrão tá encostando ali, porque ele sabe que ali tem movimento. Tem uma... Tudo, tudo tem uma coisa com a outra. 

 

P/1 - Essa... A UEB, a escola, começou com professores de fora, é isso?

 

R - A UEB, logo quando começou, ainda começou com professor de fora. Administrativo da casa, algum professor da casa, mas alguém mais de fora Zeladores [eram] da casa: aqui sempre teve zeladores daqui da comunidade, vigia da comunidade, porteiro da comunidade, administrativo da comunidade, sempre teve.

 

P/1 - E na escola, na escolinha, cada vez mais professor?

 

R - Cada vez mais a mesma coisa, na escolinha, a mesma coisa. E dando apoio aos de fora, porque se tem um professor lá da Vila do Povo, chega aqui e pede uma vaga na escolinha, na escola comunitária a gente arruma, lá na UEB a gente encaminha. E eu quero esse professor, quero essa pessoa aqui. Porque os professores, as pessoas que são contratadas, só quem pode apontar é eu e Patrícia. Alguém que fizer, tá fazendo errado. Botar um vereador para botar, ele tá botando errado, e se eu souber eu mando embora. 

Tem uma pessoa que trabalha aqui que foi botada por um vereador, que eu nunca mandei embora.

 

P/1 - Quem é?

 

R - Uma professora. Mas também ela tá dando o serviço dela certo, tá dando a colaboração dela certa, do jeito que ela pode, então aí... Mas ela não pode dizer "não, eu tô aqui porque fulano me botou", que ela perde o rebolado.

 

P/1 - Agora cada vez mais tem professores e professoras da casa também. Não é?

 

R - É. Porque é como eu tô dizendo, uma porção já se formou e estão [se] formando. Tem vários deles aí que estão fazendo faculdade, por isso que eu tô trazendo faculdade para cá, para ter mais pessoas competentes. Aqui já tem Valbinha que fez faculdade, Patrícia fez faculdade; Patricia fez a primeira, a segunda, tá na terceira, esse... Didico fez faculdade [de] agente social, Bruno tá fazendo faculdade. Essa filha do Nonato faz faculdade, a outra que faz faculdade, Kelly que fez faculdade, tudo daqui. Esse... Tem mais. Então aqui já tem várias pessoas que fizeram faculdade e eu quero para fazer mais. Veio Cleonice que tinha faculdade, que era professora, pelo menos aqui já tem... Tem a irmã dele, Valmir, que trabalha no Hospital das Mulheres; devia trabalhar aqui, tá trabalhando no Hospital da Mulher que tem na faculdade, ela é diretora do hospital. E assim sucessivamente, várias pessoas. Já temos acho que umas nove ou dez pessoas daqui com faculdade.

 

P/1 - E vocês tiveram um programa de ensino a jovens e adultos também?

 

R - Tivemos.

 

P/1 - Vocês alfabetizaram gente daqui?

 

R - Quase todos daqui. Todos melhoraram. Foi aqui.

 

P/1 - Quanto tempo durou?

 

R - Mas na hora de fazer o médio, eles têm que ir lá para Beira Rio, pra acolá… Então é isso, por isso que eu tô querendo, porque se fizer tirar... Fez o nono aqui, vai fazer o primeiro ano, segundo, terceiro, quarto aqui também. Ainda mais, condições de fazer faculdade.

 

P/1 - Quem foi alfabetizado aqui, que o senhor conhece?

 

R - Que foi alfabetizado aqui? A mãe da Edileuza, Antônia, foi Raimundo do Coco, bem aqui. Uma porção, aqui tem uma porção. Maria Antônia… Uma porção. Ainda fizeram o ensino médio lá, fora daqui.

 

P/1 - Eles não sabiam assinar o nome antes?

 

R - Não, não. Tinha uns que mal assinavam o nome, e tinha outros que nem o nome assinava. E assim eram as coisas. 

 

P/1 - E para vocês essa questão de educação sempre foi importante?

 

R - Para mim a educação é muito importante. Eu tô cansado de dizer para eles, as escola são um pedacinho do meu coração. Eu queria que todo mundo estudasse, porque eu estudei depois de velho e agradeço a Deus. Eu fiz prova para Engenharia, pelo Enem, passei. Não fiz Engenharia porque o médico disse que eu não ia mais poder trabalhar, não ia poder mais fazer nada, e só foi burrice minha ter parado, eu deveria ter continuado. É assim.

 

P/1 - Como é que você, seu Zacarias, coloca na balança a relação da comunidade com a Eneva? Como daria um saldo, um balanço?

 

R - Pra Eneva?

 

P/1 - É.

 

R - A Eneva sempre foi como uma companheira, sempre foi uma... É uma amizade coletiva que a gente tem com ela, que eu tenho com ela, uma negociação coletiva. Uma negociação de amizade, de coletividade, de parceira. O que eu negociei sempre veio, e o que eu quero sempre tenho apoio; se não vem mais é pelos administrativos. Por exemplo, se eu disser lá para a Eneva "tô precisando de dez camisas", uma comparação, e não vir, não é pela Eneva; às vezes é administrativo ali que não faz, às vezes com medo, pensando que a Eneva não aceita, dizendo que às vezes... Até zelando pelo emprego deles. Se eles levarem o caso, “a Associação da Vila Residencial Nova Canaã tá pedindo dez camisas”, eu tenho certeza que a Eneva não vai dizer que não. A diretoria não vai dizer que não.

 

P/1 - Há uns anos atrás eles estão buscando também, pelo que eu entendi, a autonomia de vocês, a emancipação. Como é isso?

 

R - Eles estão buscando a emancipação, a autonomia de cada um, porque todo... Toda criança que nasce, todo filho, tu vai cuidar dele até certo tempo, de certo tu tem que ir deixando ele, deixando ele de mão, ainda mais quando ele começa a pegar dos seus dezoito, dezenove, vinte anos. Vai deixando e cuidado com ele para ver se ele dá conta de se manter, porque não pode ficar todo tempo nas costas do pai dele. É a mesma coisa a Eneva com a gente. Ela tem um compromisso com a gente? Tem, mas ela não tá mais no ponto de nos carregar. Nós já estamos criados. Nós já estamos cuidando de nós. Nós já devemos correr para um lado e eles correrem para outro. Se eu preciso de alguma coisa, como amigo, como parceiro, eu vou dizer para eles: "Eneva, eu tô precisando disso, dá para me ajudar?" Ela vai dizer sim ou não. Mas eu não tenho o direito de exigir porque já tô criado. Já aprendi a comer com minhas mãos, eu já tenho que correr atrás das coisas, como parceiro, como amigo, como companheiro.

 

P/1 - De onde você acha que vem essa vontade sua de fazer essa comunidade para frente? De onde é que surgiu isso? Porque antes você trabalhava com a sua empresa, né?

 

R - O que faz é porque sempre eu gostei de trabalhar com pessoas, eu sempre fui uma pessoa que trabalhou pelo povo. Eu nunca gostei de ver uma pessoa sofrendo e passar por cima. Eu sempre gostei, sempre olhei as pessoas com um bom olhar, com prazer, como amigos, como companheiros. Se não fosse isso, eu não estava nem ligando para entrar na política. 

Minha mulher diz assim: "Zacarias, tudo que nós temos dá para nós vivermos. Vá descansar, larga negócio de política, negócio disso e daquilo." “Não, mulher. Eu vou lutar. Eu não entrei na política por causa de salário. Eu não entrei na política só para ser vereador. Quero ser um vereador para ajudar as comunidades, para fazer por onde o povo se sinta melhor. Não por causa de salário, não só para ser vereador, para ter nome, não senhor.” A mesma coisa como eu fui comunitário, sou fundador de uma comunidade. Como eu venho trabalhando desde a idade de quatorze anos com o povo, eu já passei quatorze anos pelo sindicato civil, já passei quatro anos pelo conselho tutelar, já passei quatro anos pelo conselho da Polícia Militar, eu já passei mais de trinta anos pelas Associações, então eu nunca pensei em enricar as custas de ninguém. Eu não sou empregado do município, não sou empregado do Estado. Eu não cheguei aqui e disse: "O primeiro emprego é meu." Não, eu quero ver o meu povo empregado, me deixo de mão. Se quiserem me dar um copo d'água, me dão; se quiserem me dar um café, me dão. E eu não vou dizer pra eles: "Ah, tu não me deu um prato de comer, tu não me deu um copo d'água, tu não me deu um café." Eu não. Do mesmo jeitinho que nós estivéssemos todo mundo almoçando junto, tomando café junto. Tudo para mim é só uma família, quero ver eles bem, porque se eles estiverem bem, eu tô bem. 

Amanhã ou depois, mais tarde, eles, meus netos, vão dizer: "Meu avô foi um homem inteligente. Trabalhou dessa maneira, assim e assim. Aquele velho feio, baixinho, enjoado, era um cara bom." E se eu não fizer, os meus netos vão dizer: "Rapaz, mas que velho burro, que velho safado, que velho orelhudo. Que velho que nunca trabalhou por ninguém, nunca fez nada por ninguém." O povo também vai dizer, você entendeu? "Só queria era para ele, só via o lado dele." Não quero que ninguém diga isso. 

 

P/1 - Qual é o seu sonho hoje, senhor Zacarias? O senhor tem um sonho hoje ainda?

 

R - O meu sonho é defender as comunidades mais sofridas. Ver algo para eles viverem melhor, viverem com mais dignidade, com mais respeito. Ter mais apoio na saúde, na educação, no coletivo, no meio de transporte, que aqui ainda é sofrido. Esse é o meu caso. É dar mais respeito para os mais pobres, para os mais sofridos, dar mais dignidade para eles. . 

 

P/1 - Senhor Zacarias, como foi contar um pouquinho da sua história e da história da Vila Canaã, aqui?

 

R - Da Vila Canaã? É isso, como eu tô dizendo, nós queremos dar mais respeito a eles, dar mais apoio a eles, dar mais... Viver com mais dignidade, viver uma... Não é viver melhor, mas viver com dignidade, ter um meio de transporte para eles com mais facilidade, com melhorias, dar o respeito para eles almoçarem com mais gosto, com mais respeito na casa deles, assistirem ao jornal deles, à televisão deles. Quando o cara não tem respeito, ele assiste com raiva, ele come com raiva, ele dorme com raiva, porque o cara dorme na chuva, o cara levanta dentro d’água, o cara sai com lama dando na cintura. O cara sai sem segurança nenhuma, o cara já sai… Nego tá tomando tudo que é dele. Como é que ele vai viver? Os caras saem, não têm saúde, não têm segurança, não têm educação, não têm nada. Como é que vão vai viver? Ele não vai viver indignado? É só isso que acontece.

 

P/1 - Por que vocês escolheram o nome de Nova Canaã?

 

R - Vila Residencial Nova Canaã. Porque lá na Madureira era Vila... Vila Madureira. E quando cheguei aqui, Vila Madureira, como é que eu vou registrar? Lá tá registrado Associação da Vila Madureira, e aqui? “Como é o nome daqui?” “Canaã, loteamento Canaã.” Eu digo: "Patrícia, então anota aí, loteamento Canaã. Nós vamos registrar aqui Vila Residencial Nova Canaã", porque lá era Vila Madureira e aqui nós botamos Vila Residencial Nova Canaã. Tá o mesmo nome de lá, a gente... Homenagem de um para o outro.

 

P/1 - Mas o que é Canaã?

 

R - Canaã porque é o loteamento Canaã, é a terra que deu leite e mel.

 

P/1 - A terra prometida?

 

R - A terra prometida. Já tinha o nome aqui, loteamento Canaã, eu digo: "Ah, rapaz, loteamento Canaã". E lá eu tinha Vila Madureira, então agora vamos botar  residencial, porque é residente, é uma residência que nós estamos criando, então vamos buscar Residência Canaã e Vila Madureira. Nós deixamos a Madureira e pegamos só a vila. Aí será que Zacarias pensou, tinha noção? Será que Zacarias analisa as coisas? Porque eu peguei os três, as três coisas.

 

P/1 - E esse nome é um nome bíblico que você pensou.

 

R – É. Eu digo Vila Residencial Nova Canaã, terra que deu leite e mel. Terra prometida. Se nós estamos na terra prometida e nós formamos um residencial, uma vila, vamos incluir os nomes certinhos, vai dar certo. Quando eu cheguei no cartório, aí que eu levei o documento Vila Madureira e levei o nome como era para ser aqui. Até o tabelião lá do cartório disse: "Mas senhor, como é que você fez tudinho isso aqui? Deu certo." O juiz riu: "Mas rapaz..." Eu digo: "Mas é verdade, senhor", porque eu tô no loteamento Canaã. Eu eu construí um residencial que é o nosso conjunto, um conjunto residencial, então vou registrar Vila Residencial Nova Canaã, a terra que deu leite e mel. E ele: "O senhor está muito bom, não tem nem para onde pensar em dizer ‘não, tira esse nome, tira aquele outro’. Vai ser registrada desse jeito." Pronto, acabou. 

 

P/1 - Obrigado, senhor Zacarias. Obrigado pela conversa.  

 

R - Tá bom. 






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