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História

Walter Alemão: Da infância pobre ao alfaiate de sucesso

Sinopse

Apresentação do entrevistado; origens da família; descrição das profissões e dos negócios de seus avós paternos e maternos. A mudança para o Rio de Janeiro. Visita aos pontos turísticos da cidade com seu pai, a ida à praia. A volta para Ribeirão Preto, a entrada na escola e na JB Alfaiataria. As brincadeiras de rua e o futebol, onde chegou até o profissional. A descrição da cidade de Ribeirão Preto. O convite aos  14 anos foi convidado para trabalhar na Força e Luz. Dos 15 até a fase adulta seguiu na profissão de alfaiate conciliando com o futebol de várzea. Aos 18 anos saiu da JB e foi trabalhar em diversos lugares, ainda como alfaiate. Conheceu sua esposa, se casou e teve filhos. A abertura de seu próprio negócio. Seu Walter declara que tudo que conquistou na sua vida foi com muito esforço e trabalho duro. Com a chegada da pandemia, decidiu encerrar a carreira.

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História completa

          Sou Walter Feloni. Eu nasci em Ribeirão Preto, no dia 5 de junho de 1937. Só que a minha mãe entregou um dinheiro pro meu tio me registrar, e ele foi me registrar só no dia 23 de dezembro. Mas a minha data de nascimento certa foi 5 de junho de 1937, que é quando eu comemoro. Meus pais são descendentes de italianos. Meus avós todos vieram da Itália. Eu nasci na Rua 11 de Agosto, em uma casa que não tinha número - e eu nasci lá mesmo, na mão de parteira, não fui em hospital algum.

          Com seis meses de idade, fomos embora para o Rio de Janeiro. Meu pai era pintor e foi trabalhar nas agências dos Correios e Telégrafos lá, pintando os prédios. Então, até oito anos de idade eu fiquei no Rio de Janeiro, aí nós voltamos pra cá; chegamos aqui em Ribeirão quando estava acabando a guerra, em 1945. E eu fui morar com a minha avó por parte do meu pai, depois morei com a avó por parte da minha mãe e não mudei mais pra lugar nenhum.

          Era tudo muito diferente de hoje. As casas não tinham teto… o teto era o telhado, mesmo. Colchões eram de palha de milho. Não tinha esse negócio de comprar leite. Os leiteiros traziam o leite, as pessoas criavam os porcos lá no fundo do quintal, a gente tinha galinhas, ovos, as hortas... tinha tudo no fundo do quintal. A água era de cisterna, e só depois que veio a água encanada. Todo mundo tomava banho frio. E a pasta dental era aquela cinza fininha, que meu avô fazia das coisas que sobravam do fogão de lenha - ele coava, e aquilo ali era a pasta de dente que a gente usava. Era uma vida ‘meia’ sofisticada, assim… ‘meia’, ‘meia braba’, né?

          Quando eu voltei pra Ribeirão, só tinha aquele prédio Diederichsen na cidade. Não tinha outro prédio grande. Aí tinha a Paulicéia velha, e tinha o Pinguim do lado, com o Teatro Pedro II e o Hotel Brasil na esquina. Fora isso, tinha a Vila Tibério... você passava o trilho do trem, da Mogiana, e ia pra Vila Tibério. E tinha uma parte na Rua Duque de Caxias que você passava por baixo quando o trem estava passando, um tipo de um túnel.

          Depois, quando eu estava com 11 anos de idade, eu já fui trabalhar no comércio. Fui trabalhar no JB Alfaiate, que ainda existe até hoje aqui em Ribeirão. Ele era ali na General Osório, 331, perto do centro. Eu comecei limpando vidro, entregando roupa, indo comprar retrós, indo comprar aviamentos, como a gente falava antigamente. Aí eu conheci Ribeirão Preto inteirinha, pois eu ia entregar a pé. Ia pra todos os bairros: Vila Tibério, Vila Virgínia, ia no Alto da Cidade, ia na Nove de Julho - que era famosa porque só tinha casas chiques.

          Aí, com 14 anos, o ‘seu’ Paulo Aulim, que era o chefe da Força e Luz, queria que eu fosse trabalhar com ele, mas meu patrão ficou sabendo: “Não, não, você não vai trabalhar pra ele. Você vai aprender o ofício, que você sabe muito bem. Você é muito esperto, você vai saber”. E naquela época, o ofício de alfaiate era muito bem remunerado. Então eu fiquei.

          Depois eu acabei saindo de lá, trabalhei com outros alfaiates, até que fui trabalhar lá naquele prédio, que era novo na época, depois do Umuarama Hotel. Foi o segundo prédio de Ribeirão Preto. Com 18 anos eu já era oficial. Eu fazia os paletós, já. Não era mais ajudante, porque o ajudante fazia uma manga, fazia uma amostra, ajudava a arrematar o terno, mas ali eu já era oficial, pois pegava um paletó e já fazia sozinho.

          Até que um dia eu falei: “Sabe de uma coisa? Vou trabalhar por minha conta. Vou enfiar a cara”. Fui trabalhar lá no Diederichsen, lá no segundo andar. Eu já era casado, com uma filha, a cara e a coragem. Fui pra lá no começo de 1970. Quando eu abri a sala, muitos amigos meus falaram que em quatro meses eu iria fechar. Só que eu fechei lá porque o prédio fechou agora pouco, pra reformar. Fiquei lá só 47 anos. E conheci muita gente, a nata de Ribeirão Preto. Eu fiz roupa até pra um dos prefeitos naquela oficina.

          Mas foi uma vida difícil no comércio, porque eu tinha muitos concorrentes. Eu era só um alfaiate, mas tinha o JB, tinha o Caprichoso, tinha o Orozimbo, tinha a Sanata, tinha o Irineu, tinha o Ramazini... tinha alfaiate que não acabava mais. E eu fui um dos mais novos que se encaixou no meio deles. E consegui sobreviver.

          Hoje a profissão acabou. Por quê? A roupa feita tomou conta. As pessoas falam que vão comprar um terno, e dali duas, três horas, compram um terno. E eu, pra fazer um terno da minha maneira, do modo que eu aprendi, demoro quatro dias. Pra você ter uma ideia, a roupa que era feita antes, à mão, manualmente, artesanal, era provada de duas a três vezes. Ela ficava certinha, o ombro certo, tudo certo. Às vezes, hoje, você olha na televisão e vê aqueles caras com uns baita ombros, fica grande. Lá não. Aquela seda que ia no smoking de antigamente era colocada, todinha, à mão. Não tinha máquina aquilo ali. Era alinhavada. Depois de pronta, era colocado um papel por cima, pra ela não quebrar. Você não podia lavar aquilo. Você passava levemente. Tinha um fitilho que ia na calça, no lado.

          Hoje você não vê isso nesses smokings. Você fazia um tipo de coisa, que eu cheguei a fazer muito pra casamento: um paletó cinza chumbo, um colete cinza claro e aquela calça listada, com os fitilho. Eram umas roupas bem diferentes das de hoje. Hoje, se você chegar perto, se você pegar o que o alfaiate fez e olhar um e olhar o outro, mesmo quem não conhece o ramo nota a diferença.

          Mas quanto à minha oficina do Diedirichsen, eu tenho muita saudade. Eu consegui a sala do outro lado e consegui ficar com duas salas lá. Não era caro, não. É que tem o seguinte: o Diedirichsen deixou um testamento que veio do construtor. Aquilo seria uma coisa pra beneficiar as pessoas, principalmente as idosas. Eu não era idoso, mas eram também pessoas que estavam começando na vida. Mães solteiras, senhores velhos moravam lá, porque no primeiro e no segundo andares era comércio; terceiro e quarto era tudo apartamento, onde moravam pessoas que eram as mulheres solteiras, as pessoas de idade. E o quinto andar era o hotel, o Grande Hotel.

          Agora estou trabalhando na minha casa. Quando as pessoas precisam, vêm aqui e eu faço na minha casa. Quer dizer, agora, com essa pandemia, não tem vindo muita gente, não. Muito pouco cliente que vem. Só aquelas pessoas que me conhecem, mesmo, de quando eu estava lá no centro: “Melhor aqui, porque eu estaciono aqui na sua casa”. Mas eu, como diz o ditado, acho que já preciso encerrar a carreira. Já é hora de encerrar a carreira!      

 

 

MCHV_037_Ricardo Camargo

          Eu sou o Ricardo Camargo Machado, mas meu nome artístico ficou só Ricardo Camargo. Nasci no dia 20 de novembro de 1968, em Lins. Meu pai era oficial do Exército e trabalhava lá, na 6ª CSM. Mas em Lins, ainda, ele faz a faculdade de Odontologia e aí virou dentista. Durante um tempo ele ainda continuou como militar, mas depois ele ficou só como dentista. E a minha mãe foi professora durante muitos anos e se aposentou como professora do estado.

          Eu só nasci em Lins e já fui pra Bauru. Morava ali na Alfredo Ruiz, perto do Preve Objetivo - morei durante muito tempo lá. Mas eu me lembro que foi uma infância muito gostosa. A gente sempre teve grandes atividades. Era uma época muito boa, que a gente brincava na rua, brincava na enxurrada. A minha mãe ficava muito preocupada, não deixava, mas quando dava aquela chuvona, que descia aquela enxurrada na Alfredo Ruiz, a gente pulava lá.

          Ah, Bauru eu acho muito gostoso! Eu acho que Bauru sempre foi um grande celeiro de grandes artistas. Tem muita gente legal que saiu de Bauru, e acho que saía, não dava conta de ficar lá, porque Bauru não expandia muito os horizontes pra quem era envolvido com a arte.     Acho que o teatro já começou na vida dentro de casa mesmo. A gente fazia essas coisas, de criar historinhas, personagens. Era muito legal. Eu tive três irmãos muito próximos, a gente é praticamente uma escadinha. Então, a gente brincou muito, foi uma infância muito junto. Nós fazíamos historinhas.

          Uma coisa que eu me lembro, que eu não me esqueço até hoje, foi quando teve o Festival das Águas Claras, que foi o Woodstock brasileiro, não é? E o meu pai saiu pra dar uma volta com a gente, de carro. Ele passou pela praça, e tinha hippie pra tudo quanto é lado. A galera tomando banho na fonte, e um povo muito estranho pra mim, um povo que eu nunca tinha visto na minha vida. Aquilo lá era meio surreal. Eu era uma criança, não entendia aquilo. Porque senão, se eu fosse um adolescente, da época que eu fui adolescente, (risos) eu acho que eu já teria me jogado lá na praça e falado: “Eu vou junto. Me leva junto, que eu quero ir pra esse lugar”!!!

          O meu contato com o teatro se iniciou cedo. Eu deveria ter o quê? Uns oito, nove anos, fazendo teatro nas peças da igreja, pois a gente tinha aqueles clubinhos de reunião. Aí formava aquele espetáculo e apresentava pro pessoal da comunidade. A minha primeira peça foi Branca de Neve, e eu fui o Zangado, não sei por quê. (risos) E aí, estávamos numa reuniãozinha de igreja, e o Silvio comentou que ele estava fazendo balé. E eu tinha uma recordação de balé, que eu vi o Baryshnikov na TV, numa chamada, quando ele veio pro Brasil. Tempos depois, eu fui assistir um espetáculo de balé lá no Luso. Foi muito legal, e eu falei assim: “Ah, eu acho que eu gostaria de fazer. Aí fui com a Dona Ruth, no BTC. Ela me ensinou muito mais do que a dança; ela me ensinou a gostar da dança.

          Mais tarde, eu tinha um grupo de amigos que fazia O Segredo da Tempestade: eu, Celso, Valéria e Carlos. A Valeria Mauriz, que hoje em dia é fisioterapeuta lá no Rio de Janeiro. Carlos Hortelã, que está dando aula de balé também - antes da pandemia, ele dava aula no Parque do Ibirapuera, ao ar livre. E o Celso Cardoso, que está em Londres, que é nosso amigo. E Marco Antônio Giaferi, que é diretor de teatro, e que inclusive já fez alguns filmes.

          Aí eu vi Tropical, do Marco Antônio, e eu fiquei maravilhado. Eu falei assim: “Ah, eu quero dançar com eles”. Também dancei em São Paulo, com o grupo Passo a Passo, que funcionava na escola do Cisne Negro. E depois, quando eu voltei, voltei pro Imagem, quando nós dançamos Danças Provincianas - fomos pra Joinville.

          Eu vim pra Ribeirão Preto para dançar com o Dançarte, que era da Luciana Junqueira. E já no primeiro ano que eu estive aqui, eu dei algumas ideias de figurino, desenhei todos os figurinos e fiz os adereços. Dancei com o Anselmo Zolla, que tinha outro grupo muito bom daqui de Ribeirão, que se chamava Ad Libitum - só que ele assumiu a direção do Dançarte, Aí, quando ele foi embora pra Europa, eu falei: “Ah, acho que eu não estou mais a fim de ficar batendo nessa tecla de ser bailarino”. E eu já tinha começado a dar aula, na escola que eu dou aula até hoje; já faz quase 35 anos que eu dou aula no Studium Carla Petroni. Aí que eu comecei a trabalhar mais coreograficamente. E foi quando começou a ficar mais forte essa questão da confecção de figurinos.

          A Costume Camargo foi um trabalho de faculdade, em que a gente precisava definir um nome de uma grife, fazer um cartão e fazer uma logo. Então fiz, dei prosseguimento, mas eu não tenho uma empresa, eu tenho a minha produção que é totalmente individual e particular. A gente esbarra em muitas coisas quando quer fazer uma empresa de produção, e eu tenho muito receio de fazer e não conseguir dar o suficiente aos meus empregados, como eu acho que tem que ser. Então, por enquanto, eu trabalho sozinho. Eu me mato no final do ano, quando eu tenho uma produção muito grande pra fazer. Eu me mato, mas eu dou conta de fazer tudo sozinho.

 

 

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