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Walkíria: Conhecimento e cuidado, compartilhado e comunitário

História de: Walkíria de Barros Magalhães
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/02/2005

Sinopse

Walkíria nasceu em 22 de novembro de 1956 na cidade de Recife. Em sua história de vida, nos conta sobre seu primeiro emprego como vendedora de roupas aos 16 anos. Se destacando muito pelo seu modo simpático de tratar os clientes. Trabalhou como recepcionista em um hotel e em um posto de saúde como atendente de enfermagem. Começaria aí a sua história dentro da área da saúde. Walkíria nos conta sobre sua formação,  sua dedicação que ajudou a se destacar e ser bem querida em todo lugar que passava, seu engajamento em sempre auxiliar quem não podia pagar. Formada auxiliar de enfermagem, trabalha hoje como Agente Comunitária de Saúde e atua também no Programa de Saúde da Família e em projetos da Fiocruz, nos detalha sobre a rotina de seus trabalhos, o que a motiva até hoje a se dedicar e as maiores dificuldades da saúde pública.

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História completa

P/1 – Olinda, 16 de maio de 1997. Unidade de Saúde da Família de Ilha de Santana entrevista com Walkiria de Barros Magalhães, agente comunitária de saúde. Walkiria, vou pedir pra você repetir pra mim seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R - Walkiria de Barros Magalhães, o local agora? O endereço?

 

P/1 - Onde você nasceu?

 

R - Casa Amarela, Recife.

 

P/1 - Que dia que você nasceu?

 

R - 22/11/56.

 

P/1 - E qual que é o nome dos seus pais?

 

R - José da Saúde Pereira Magalhães e Vanise Barros Magalhães.

 

P/1 - Certo. Walkiria, você me falou que vocês eram em cinco irmãos, né? Como é que era tua casa lá em Casa Amarela? Descreve pra gente.

 

R - Bem, eu não me lembro porque quando eu saí de Casa Amarela eu tinha dois anos de idade, então eu fui morar na Imbiribeira. Morei na Imbiribeira. Quando que eu cheguei na Imbiribeira eu tinha dois anos.

 

P/1 - Emílio Ribeira?

 

R - Na Imbiribeira.

 

P/1 – Imbiribeira? É outro bairro?

 

R - É outro bairro.

 

P/1 - Ah, tá.

 

R - Então quando eu saí de Casa Amarela saí com dois anos e não me lembro bem a casa. Eu me lembro assim quando minha mãe dizia, né, que morava num correr de quartos. Só num correr de quartos. Aquele quarto apertardinho. Foi o tempo em que meu pai foi melhorando de situação e comprou uma casa, na Imbiribeira eu fui morar, eu já tinha dois anos.

 

P/1 - Ele trabalhava de quê, o seu pai?

 

R - Na Ecad.

 

P/1 - Ecad era o quê?

 

R - É, Escritório de Arrecadações e Cobranças.

 

P/1 - Da prefeitura?

 

R - Não, é um órgão assim, que eles fazem cobrança pra manter aquele dinheiro pra os compositores. Todos compositores.

 

P/1 - Ah, o Ecad! Agora que eu me lembrei! (risos) Certo. E me fala uma coisa, então descreve como era tua casa lá em Imbiribeira.

 

R - Ah, na Imbiribeira era uma casa simples assim de vila, certo, com dois quartos, uma cozinha, e um sanitário. Só que depois meu pai reformou, né, foi o tempo em que ele se aposentou, reformou, ficou maior, ficou com três quartos, duas salas, é, uma copa, né, a cozinha, dois sanitários, e um quintal enorme, né. Ele tirou as planta do quintal, cimentou o quintal, gradeou a casa toda... murou e ficou assim uma outra casa.

 

P/1 - E sua mãe trabalhava do quê?

 

R - Ela trabalhava... era encaixotamentos de cigarros na Souza Cruz, depois que ela se casou ela deixou. Pediu a... as contas.

 

P/1 - Certo, e como é que era assim o dia-a-dia na tua casa. Vocês acordavam que horas...? Vocês iam pra escola...?

 

R - A gente mesmo se acordava seis horas da manhã, pra tomar banho, pra ir pra escola, pra voltar de onze horas do dia... isso era a diária da gente. À tarde a gente tomava banho, almoçava, dormia. Sempre aquela rota. Aquela rota, rota. Quando a gente foi crescendo, eu comecei a trabalhar com dezesseis anos. Eu comecei a trabalhar era balconista.

 

P/1 - Da onde?

 

R - Com dezesseis, Seleção Modas.

 

P/1 - Você fazia o quê?  Que tipo de roupa vendia?

 

R - Eu era vendedora. Era blusas, saias, calça comprida, shorts, bermudas... era todos os tipos de confecções.

 

P/1 - Como que você arrumou esse emprego?

 

R - Bem eu cheguei lá e ainda abri a loja né? A loja ainda ia inaugurar. Aí quando eu cheguei lá a moça falou: “Você tem dezesseis anos, a gente só está aceitando gente com dezoito anos, mas você faça um teste, você deve passar...” Tudo bem, aí eu fiz o teste e passei né? Passei eu fiquei... quando inaugurou a loja... elas pegaram e mandaram chamar. Com quinze dias mandou chamar. Quando eu comecei a vender eu era a primeiro lugar de vendedora. Primeiro lugar, então eu lá fui ficando ali, ficando, ficando. Quando eu completei dezoito anos... foi que eu fiquei já de maior, ela assinou minha carteira e eu fiquei. Passei quase três anos na loja, depois pedi as contas, pra ir pra outra confecção, que um rapaz gostava muito de mim, confecção de colégio. Tudo pronta entrega.

 

P/1 - De roupa?

 

R - De roupa, pronta entrega.

 

P/1 - Como é que chamava essa confecção?

 

R - Êta, José Marinho, era uma coisa assim.

 

P/1 - José Marinho?

 

R - Não estou bem lembrada... Aí então passei quase um ano com ele, passei onze meses, nove, onze meses e nove dias, aí voltei lá pra a Seleção. A dona Lúcia mandou me chamar de novo, Foi numa época de Carnaval.

 

P/1 - Seleção?

 

R - Seleção Modas. Ela gostava muito de mim, né, aí ligou pra mim e disse: “Walkiria, estou precisando de você urgente, porque só você que entende assim, você é primeiro lugar como vendedora...”, ganhava muito prêmios, toda a semana, porque cada vendedora que tirava primeiro lugar durante a semana a gente ganhava um prêmio.

 

P/1 - Que prêmio?

 

R - De dinheiro. Era roupa, era o dinheiro, era uma conta que a gente ultrapassava, então o Rio de Janeiro mandava pra a gente. Aquela conta né, então fazia uma conta lá deles que eu não sabia nem o que era. Aí às vezes ia quinze, que antigamente era cruzeiros, né? Vinha quinze mil cruzeiros, vinha dez mil cruzeiros... Depende muito da conta que a gente avançava apenas.

 

P/1 - Era sempre em dinheiro o prêmio?

 

R - Era sempre em dinheiro, e às vezes a gente ganhava sempre assim roupa das vendedoras que vinham comprar a gente, em grossas sabe? Que a gente vendia muito em grossas. Pra Maceió, pra Aracaju, vinha muito... as pessoas que compravam pra revender, viu, muito pra revender, então tinha muito conhecimento, eu falo muito, conheço muitas pessoas, então todo o mundo só vinha pra mim. Tinha Ano Novo que eu saía de lá, faltava cinco pra meia-noite. Pegava um taxi, e estava rompendo o ano dentro do taxi, porque tinha muitas revendedoras. Só me procurando, me procurando e não queriam outras. Eu: “Passa pra minha amiga, passa pra minha amiga!” Elas: “Não, eu quero você, eu quero você, porque você me dá sorte nas minhas vendas, essas coisas.” Porque tudo eu mostrava pra elas. Ia embora, a gente começava a arrumar tudo de novo, mas tudo eu mostrava pra elas, via se estava com falha, essas coisas, elas gostavam muito de me procurar. Só que eu tinha aquela paciência, com elas. Aí se D. Lúcia fazia: “Vá pra outra vendedora ela está dando”. “Não, mas eu quero Walkiria, eu quero Walkiria”  “Mas ela está sobrecarregada!” “Mas eu quero ela, embora tenha de dar o dinheiro do taxi a ela, dou o dinheiro do lanche dela”, ela paga, aí pronto, era muito benquista assim na Seleção Modas.

 

P/1 - E aí, você estudava, ao mesmo tempo?

 

R - Estudava, eu fazia...

 

P/1 - Como você conciliava?

 

R - À noite, né? Porque à noite, quando dava seis e meia eu saía da loja. Estudava no segundo grau, quer dizer, terminei o segundo grau. Aí depois eu saí da loja de novo e fui pra um hotel. Passei um ano trabalhando no hotel Praia Norte.

 

P/1 - Praia Norte?

 

R - Praia Norte.

 

P/1 - Que é que você fazia lá?

 

R - Trabalhei como recepcionista. Recepcionista e caixa.

 

P/1 - Que ano que era isso, você lembra?

 

R - Passei um ano... Foi em...

 

P/1 - 76, 77?

 

R - Não... Foi oitenta... em 87.

 

P/1 - 87?

 

R - 87 pra 88.

 

P/1 - Aode ficava esse hotel?

 

R - Aqui no complexo de Salvador. 

 

P/1 - Aqui em Olinda?

 

R - Aqui em Olinda, no complexo de Salvador. Depois saí, fui pra Posto de saúde, fui ser recepcionista. Passei um ano e dois meses como recepcionista. Fiz atendente de enfermagem, e agora fiz auxiliar.

 

P/1 - Me fala uma coisa, porque é que você decidiu estudar também Auxiliar de enfermagem?

 

R - Auxiliar de enfermagem?

 

P/1 - Auxiliar de enfermagem.

 

R - Porque eu já tinha atendente de enfermagem. Só quando eu fui pegar meu Coren como atendente, ela tinha dito que agora, em 97, ia se extinto, ia acabar atendente de enfermagem. Sabe? E aí ela disse que a gente fosse procurar, fosse tirar auxiliar, pra poder ter o direito do Coren. Da carteira do Coren. Pra poder ir trabalhar em outros órgãos: hospitais, postos de saúde,

 

P/1 - Coren? O que é isso?

 

R - O Coren é o Conselho Regional de Enfermagem, que a gente tem que pagar todo ano aquele conselho. Todo ano a gente tem que pagar.

 

P/1 - E, o que é que te atraiu em fazer auxiliar de enfermagem?

 

R - É porque, veja bem, eu fiz contabilidade, mas pra mim eu não achei bom a contabilidade. Eu sei de alguma coisa porque sempre eu fui muito desenvolvida, assim, em estudo, essas coisas, mas eu deveria ter feito científico pra poder fazer medicina, que minha área de tudo era... eu mesmo como atendente de enfermagem já trabalhava na área, fazendo curativo, aplicando injeções, verificando pressão e todo mundo gosta de mim dentro da área. Mesmo área fora, como área daqui de dentro, não tem esse problema. Aí, então, foi me atraindo, me atraindo, isso eu acho que vou me dar, porque eu acho que pra você fazer uma coisa você tem que gostar do que vai fazer, não você entrar pra fazer auxiliar pra quê? Pra não atender uma vida humana direito, ser ignorante com aquela vida, então não adianta, então eu fiz aquilo que eu gosto, que eu sempre gostava.

 

P/1 - Teus pais te incentivaram pra seguir uma profissão?

 

R - Só fazer o vestibular, né? Que eu nunca fiz

 

P/1 - O que é que eles falavam?

 

R - Eles falavam assim: “Walkiria, vá fazer o vestibular. Você é uma menina tão inteligente, uma menina tão... que você pega as coisas no ar, tudinho.” Suzane também fala pra mim: “Vamos fazer a Funesb, Walkiria! Fazer enfermagem que é melhor pra você. Você está ali dentro, você já sabe muita coisa”, aí fica exigindo, muita coisa fica exigindo, assim, na cabeça da gente. Aí pronto. Eu estou fazendo mesmo área de saúde. Agora, eu gosto muito de área de saúde.

 

P/1 - Como é que você começou a aprender a fazer assim, curativo, essas coisas?

 

R - Como atendente de enfermagem. Quando eu comecei eu fazia um curso no Senac.

 

P/1 - No Senac?

 

R - É, no Senac. Lá na Visconde de Suassuna. Eu fiz o curso de lá. Foi muito bom. Foi dentro de três meses, como atendente de enfermagem. Só que quando... Me incentivou, assim né ? Eu estava na loja ainda, como vendedora aí a gente sempre almoçava no Senac. Quando eu chegava lá tinha uma placa, né, um aviso “Estamos fazendo concurso para atendente de enfermagem. Obstetrícia.” Ainda tem mais obstétrico, em cima. Aí eu disse: “Mas meu Deus do céu, acho que eu vou fazer, porque eu sou tão... assim, vidrada em negócio de enfermagem.” A Nanci: “Vai fazer, boba!” Eu peguei, fui, me inscrevi, paguei a inscrição né, aí quando foi com quinze dias mandaram chamar pra fazer a prova. Aí fui fazer a prova. Aí disse, ela disse: “Com oito dias você vem aqui, a relações está toda na parede. Pra quem passou e quem não passou.” Aí disse pra a menina: “Eu acho que eu nem vou, rapaz!”, “Mas Walkiria, por quê? Tu é tão inteligente!”  “Mas a gente vai almoçar hoje”, “não tem problema não, vamos (inaudível) aqui.” Quando chegou lá meu nome estava no segundo lugar. Não, não, tinha a primeira, que era outra menina, não era porque ela tirou a nota maior do que a minha, era a mesma nota, só que meu nome estava classificado de um a dois com a mesma nota. Só foram duas com a mesma nota: 9.8. Aí ficou as duas, só que ela ficou em primeiro porque o nome dela era com A, e o meu é com W, né, sempre tem aquela, separação, né. Só passou duas, com as mesmas notas, então, tem aquelas separações. Se passasse 10, quer dizer que meu nome saía nas 10. No último, que o W é sempre por último.

 

P/1 - E aí você começou... Como é que era assim... O curso era que horas?

 

R - O curso era à tarde, certo? Aí, como o curso era três meses, era uma base quase três meses, eu falei pra a menina da loja. Ela disse: “Olha, Walkiria, como o curso não é época de festa, dá pra mim liberar você de três às cinco horas. Cinco horas você volta pra a loja.”

 

P/1 - Todo o dia?

 

R - Todo o dia, era o curso, aí eu ia, né? Lá pro curso. Aí fiz o curso de oitenta, prova de avaliação pra quem ia pra o... pra o estágio. Só podia ir, quer dizer, classificaram cinquenta, só podia ir pro estágio trinta. Aí a gente fez nova avaliação. Na avaliação saiu meu nome de novo. Aí você vai pra o estágio e do estágio só ganhavam quinze o diploma. Pra, que ela tinha que deixar isso na maternidade, eu fiz na... é... Barro Limas, lá em Barros Lima, em Casa Amarela, na Avenida Norte. Fiz em Barros Lima, então ela deixou, a chefe tomando conta da equipe, de cada equipe, divididas por horário, então dali a chefe ia ver quem era melhor, pra ganhar o diploma, né, aí meu nome saiu também. Aí pronto, ganhei o diploma, fiquei como atendente. Aí tinha as pessoas me incentivando, minha professora, de atendente de enfermagem. “Walkiria, agora você pode fazer auxiliar, você pode entrar na Funesb, pra fazer uma faculdade, aí aquilo eu fui esquecendo, esquecendo, vim terminar auxiliar o ano passado, 95 e 96.”

 

P/1 - Quando você fez o de atendente, atendente né, que matérias que mais te atraíam, que você mais gostava?

 

R - Todas elas, que eu tiro muita nota boa em todas elas. Pra mim as matérias pra mim são tudo ótimas. Pra mim não tinha nota baixa, não tinha nota assim, é até incrível, um negócio destes, porque eu não tinha nota baixa. A única nota baixa minha assim, entre atendente de enfermagem, a única baixa era oito. O resto era oito e meio, 8.9, que ela tem aquelas divisão de notas, né, que ela junta aqueles trabalhos todinhos e divide, aí dá aquela soma, que eu não sei nem como é.

 

P/1 - O que é que o atendente de enfermagem faz? Qual que é o trabalho dele?

 

R - Olha, o atendente de enfermagem não tem diferença quase nenhuma entre o atendente e auxiliar. São as mesmas coisas.

 

P/1 - O que é que eles fazem, então?

 

R – Veja mesmo, atendente de enfermagem, quando eu estava fazendo o estágio, a gente aplicava injeção, instalava soro, media pressão, né? Trabalhava com paradas cardíacas, sabe, curativos, retirada de pontos, a gente fazia tudo. Que pertencesse à maternidade fazia tudo. Nebulizava as pacientes, fazia curativos em infecção, que são as salas separadas, de infectadas. As pacientes, as puérperas que eram infectadas, se operavam e ficavam com infecção, já era outra sala, a gente fazia, fazia medicamentos, dava os medicamentos por prescrição médica, sabe, a gente olhava nas prescrições, via os medicamentos que tinha pra dar, o horário, tudo o que a auxiliar faz. Não tem diferença quase, é, nenhuma. Eu não achei diferença nenhuma de auxiliar pra atendente.

 

P/1 - E do curso, teve diferença? O curso de auxiliar pra o de atendente?

 

R - Teve, porque a gente não deu anatomia, como atendente de enfermagem a gente não deu anatomia, eu dei, a gente não deu psicologia, não demos psicologia, não demos introdução de enfermagem, não demos clínica cirúrgica, clinica médica a gente deu. São só essas matérias que tinha condições de dar quer dizer, passava pela cirurgia, mas a gente trabalhava por a gente ter mantido a gente estudar, a gente ver. Eu mesma sou muito curiosa. No hospital eu vendo eu faço tudo. Agora mesmo meu estágio foi tudo na Restauração. Se for suturar uma pessoa eu suturo. Eu faço.

 

P/1 - Seu estágio foi todo aonde?

 

R - Na Restauração

 

P/1 - Restauração, no Hospital da Restauração. Que tipo de hospital é esse?

 

R - É do público, né? É sobre o SUS, é pra todas as pessoas. Um hospital que agrava todo o município, estado, que só é muito procurado. Que tem essas de hospital. Tem o Agamenon, tem o Getúlio Vargas, tem o Oswaldo Cruz, tem o Barão de Lucena, tem o Tricentenário, mas todo mundo só procura a Restauração, então a demanda é maior. Se chama Hospital da Restauração.

 

P/1 - Você fez estágio lá?

 

R - Fiz estágio lá.

 

P/1 - Em algum setor específico?

 

R - E muito bem feito.

 

P/1 - Aonde você fez?

 

R - Fiz estágio na UTI, fiz na UTI, a gente conseguimos a... a recapitular muitas coisas diferente assim. Muitas coisas... cirurgias, tipo cirurgias. Retirada de rins, que a gente nunca tinha visto na vida da gente, como a gente fazia o curativo. Tive na UTI dos queimados, foi também uma coisa muito... que a gente ficou meio... Assim, abismada de não ter visto tanta coisa, naquela época, de atendente, foi a única coisa que a gente achou a diferente, né?

 

P/1 - O que mais te chocou?

 

R - O que mais chocou assim? Foi as crianças queimadas. As crianças muito queimadas. Que é o trabalho que a gente faz pra dar banho nelas, pra fazer curativo a gente tem que dar Dolantina.

 

P/1 - Dolantina?

 

R - É, Dolantina, que é um tipo de uma anestesia, então só o médico que pode passar. Aí ele dá aquela quantidade, aí a gente vai, manda ele botar na prescrição quanto de Dolantina vai dar pra aquela criança pra poder fazer o curativo, retirar aquela carne toda necrosadas, sabe, repor aquelas pomadas de novo, deixar eles nuzinhos, que eles não podem nem ter tecidos neles, aí la na estação tem uns tipo d’um, d’uns papéis que a gente coloca, e não cola no... na pele da criança. Ele já tem apropriado, né, às vezes quando não tem, que falta, né, porque o governo está... aí a gente bota lençol, mas aquele sofrimento na criança. O que me doeu mais foi o sofrimento das crianças.

 

P/1 – Por quê? Elas se queimavam como?

 

R - Bem, lá tinha, na época em que eu fiz o estágio eu fiz em Outubro, né, tinha duas meninas, uma que a mãe saiu pra a dança e deixou o candeeiro perto do... assim do banquinho, na hora que ela se acordou ela puxou, e aí pegou fogo o colchão dela, mas só que não chegou a pegar. Ela estava com 70... 79% do corpo queimado. Ela estava bem mal, que ela estava na UTI, né? Estava bem mal. Ela tinha três anos. A outra foi de ácido úrico. O pai dela trabalhava com um japonês, e deixou o vidro de ácido atrás da porta, a criancinha pequenininha, com um ano e pouco, chegou, puxou o ácido e que ela viu molhado no chão, pensava que era água, né? Sentou-se em cima e queimou. Aí saiu corroído as perna dela, a região glútea dela, a vagina, aí tem de fazer ainda, eu acho que ela ainda está lá. Que o médico estava deixando desinflamar, pra poder fazer as plásticas. Aí pronto, aí a gente sofre mais por causa desses negócio, que a gente não pode fazer nada, né, se os médicos não fizer... E muitas coisa que a gente vê lá, né, que dia a dia acontece. Assalto. Um soldado que chegou, também, bem novinho com um tiro na cabeça, a gente tentando adaptar, ver se ele não morria, e botando ambu, e o médico: “Põe ambu nele, na boca dele”.

 

P/1 – Ambu?

 

R - Ambu. Que é, antes de chegar o balão de oxigênio, é um negócio assim que a gente põe feito uma máscara e né, e dei bastante medicação, instalei soro nele urgente, que o médico estava olhando o ferimento dele, da bala, só que depois ele perdeu muito sangue.

 

P/1 - E ao mesmo tempo vocês trabalhando?

 

R - E ao mesmo tempo a gente trabalhando, né, e o médico quando chegou num momento assim, que o médico viu, disse “O grande pai já levou, não tem mais jeito, porque pegou no cérebro dele.” O tiro, né, ele só estava ali enquanto o médico fez tudo.

 

P/1 - Esse foi teu estágio?

 

R - É, porque tem trauma, passei pela Introdução de Enfermagem, na Urgência, né, onde passa todos os casos que vai pra o médico e do médico manda pra a sala de enfermagem. Então a sala de enfermagem é que pega as que são médica e dá o medicamento. Instalar soro, instalar sangue, tudo, todos os medicamentos. Só a gente, passa pela gente. Eles primeiro passa pelo médico, só tem os médicos assim pra problema de dor, de coisas leves, tem a sala de trauma, que é aqueles que vêm perigosos, assim com tiros, facadas, aí já vai direto pra trauma. Aí, tanto eu ficava na sala da médica, quanto na sala da trauma.

 

P/1 - Nessa época que você fez estágio, você continuava trabalhando?

 

R - Aqui no Sesi?

 

P/1 - Não, na época que você fez... Que época você fez esse estágio? Esse aí foi de auxiliar?

 

R - De auxiliar de enfermagem.

 

P/1 - Você já trabalhava como ACS [Agente Comunitário de Saúde]?

 

R - Já, porque meus estágios tudinho eu procurei é fazer à noite, sabe? Pra não se afastar da área. Aí procurei se resolver com os diretores dos hospitais. Fui na Restauração, aí o diretor falou pra mim: “Se você quiser ficar você tem que receber a carteira do Coren que as meninas gostaram muito de você. As enfermeira só fica procurando você. Cadê Walkiria? Por que não manda aquela estagiária? Aquela estagiária é muito boa.” Ele disse: “Pronto, prepare sua carteira do Coren que eu consigo uma vaga pra você fazer o estágio voluntário aqui na Restauração. Mas tem que ter a carteira do Coren.” Então está pronta no dia 20. Meu estágio e tem outra amiga que está me botando agora num estágio da Tamarineira.

 

P/1 - Tamarineira?

 

R - É, está me colocando agora, à noite. Pra eu pegar o plantão das sete da noite às sete da manhã. Dá doze por sessenta. Só que vai ser remunerado. São uns contratos que estão saindo agora dia 20 de junho, aí está entrando novos contratos. Como ela toma conta desses contratos eu já sei que são um ano e meio. (risos) Porque hoje é tudo é... Você tem que ter bastante conhecimento, né? É melhor amigo na praça que dinheiro na caixa, né? Isso é o que todo mundo diz, né? Eu tenho o maior conhecimento na Restauração. Se chego com a família lá minha, todos médicos atendem rápido rápido. Porque tudo eu conheci. Tudo batia papo, tudo almoçava com eles, tudo tomava café com eles, vai fazendo amizade. Ah eu faço amizade, tenho muita amizade. Eu não tenho um inimigo, parece incrível. Às vezes a gente briga aqui as ACS, agente comunitário, depois no outro dia está tudo: “Meu amorzinho pra cá, meu amorzinho pra lá.” Nunca tive inimigo na minha vida. Deus me livre, eu deixo tudo bem. Eu saí excelente de todos os hospitais. Fiz na Barão de Lucena, materno-infantil, também fui muito bem recebida.

 

P/1 - Estágio, também?

 

R - Estágio. Materno-infantil. Pra Maternidade. Trabalhava e berçário, trabalhei com as puérperas, trabalhei com as gestantes de alto riscos, sabia quem era diabete gestacional, quem não era diabetes, quem tinha problema de coração. Tudo isso eu já sabia, porque os médicos tudo me ensinavam. Eu sempre entrava pra onde eles iam. Com a prancheta delas eu... tome atrás dele, tome atrás dele. Só que teve uma vez na Restauração, que o médico falou assim: “Vá aplicar uma Dipirona ali, numa paciente, porque ela está com uma dor de cabeça. Aplica uma Dipirona.” Disse: “o senhor falou, o senhor passou já na prescrição médica?“ Ele disse: “Não, mas você é estagiária, você tem que fazer o que a gente manda.” Eu disse: “Não, porque minha ética não permitiu isso. Minha ética só permitiu a gente pegar uma prescrição médica, porque no momento que o senhor está mandando eu aplicar uma Dipirona, a paciente não se der com a Dipirona, se ela for a óbito, o senhor não vai dizer que foi o senhor que mandou. Vai ficar uma palavra contra a outra. Eu vou dizer que o senhor mandou e o senhor vai dizer que não mandou.” Não, mas ele falou: “Vou falar com sua professora.” Eu digo: “Pode ir, minha professora está ali.” E a professora escutando, tudinho.

 

P/1 - Faz o quê?

 

R - Ele disse: “Vou falar com sua professora, porque você não pode recusar” Aí ele falou pra mim... A professora falou assim: “Nota 10, o diploma dela é 10 pela ética”. Porque eu estava escutando tudinho.

 

P/1 - A professora falou?

 

R - Falou pra ele, pra o médico. “Nota 10”. Porque eu estava escutando. Estava só olhando pra ver se ela ia realmente aplicar o que o senhor mandou, porque na ética que ela aprendeu dentro da classe, não foi essa. Se ela pegasse prescrições médicas, tudo bem que ela assine a prescrição, mas só que está assinado o medicamento que o médico passou. Aí pronto, ele ficou com raiva de mim. Foi o único médico que ficou com raiva de mim. Mas o resto tudo...

 

P/1 - Me fala uma coisa: Qual é... Como é que você começou a se envolver como agente comunitária?

 

R - Como eu me envolvi? Veja mesmo. Eu já conhecia essa área que eu trabalho. Que sempre eu já fiz trabalhos, pra... essas coisas.

 

P/1 - Você não mora aqui?

 

R - Eu moro na Avenida, que é área cinco, né? Eu moro aqui na avenida. Tem uma rua, perto da Avenida, que é um apartamento, né? Só que eu já trabalhava aqui com a comunidade, fazia curativos, aplicava injeções...

 

P/1 - Voluntário isso?

 

R - Voluntário. Sem cobrança de nada e até hoje ainda não faço de jeito nenhum.

 

P/1 - Como você faz? Você passava nas casas?

 

R - Não, quem precisava. Quem eu tinha conhecimento, é porque a lavadeira de minha mãe, muito tempo que a gente mora aqui, que mora há treze anos, e a lavadeira faz treze anos que morava aqui, então ela sabia que eu era atendente, e qualquer coisa que ocorria na área ela vinha me buscar. Olha, tem uma menina que é muito boa, pá, ela vai aplicar injeção tudinho. Conseguia seringa no postos, já pra os pessoais que são pobres, que não tem condições de comprar. Eu levava seringa, conseguia esparadrapo...

 

P/1 - Isso quando mais ou menos, Walkiria?

 

R - Isso... eu comecei em 89. Em 89 fazendo essas coisas. E entrei no PACS em 92.

 

P/1 - Aí você ficou conhecida da comunidade, como foi?

 

R - Ah, conhecida demais. Até mesmo sem ser da minha área eu sou conhecida. A criança vai me procurar. Walkiria, Walkiria. É de outra área, é de outra gente, mas só procura nós assim.

 

P/1 - Mas aí você continuou de 89 até 92 você ficou fazendo...

 

R - Foi, trabalhos. Agora, não só aqui. Na Beira Mangue, também, me chamavam, porque eu tenho muito conhecimento aqui, treze anos que eu moro aqui, nesse bairro. Aqui na Ilha de Santana, Jardim Atlântico, na Barreira, isso tudinho tinha conhecimentos. Tinha conhecimentos, em algum lugar desse eu tinha conhecimentos, então quando precisava chamava a menina, que ela é voluntária, é louca por a gente. Aí, pronto, mandava me chamar. Ia lá em casa, eu já vinha...

 

P/1 - Você sempre trabalhou como voluntária?

 

R - Sempre. Até hoje eu trabalho como voluntária, não ganho nada. Eu tenho dois curativos. Eu tenho um de úlcera varicosa, que vai fazer dois anos, que era outra enfermeira, que fazia, então a paciente achou de mudar pra ela aí, já outra menina conhecida que mora aqui falou: “Eu já conheço, D. Mara, eu já conheço Walkiria, Walkiria é muito boa, não sei quê. Eu sei que faz oito meses que eu faço esse curativo e já está fechando, graças a Deus. Está muito boa a perna dela.

 

P/1 - Mas de úlcera?

 

R - É, úlcera varicosa.

 

P/1 - Mas demora tanto assim?

 

R - Não, não demora. Vai depender muito da auxiliar, né? Como ela trabalha, a técnica, né? Possivelmente pode até ter sido mal feita da outra auxiliar, pegava sem luva, gaze, essas coisas, a gente tem que ter a técnica. Só que faz seis para sete meses que eu estou e já está fechando, já está diminuindo, e o filho dele não quer outra, de jeito nenhum.

 

P/1 - Quantos anos tem essa pessoa?

 

R - Está com 70... 72 anos mais ou menos. 71. E o outro eu comecei agora, faz um mês, que foi... debilitou, né? Uma furada que ele levou, ele é diabético, levou uma furada, então essa furada ele escondeu da família...

 

P/1 - Furada o que é que é?

 

R - É, uma furada de prego. Aí levou a furada no calcanhar, então escondeu da família. Escondeu, ele como diabético, quando foi pra o médico, que o médico viu o pé dele inchado, aí teve que debilitar. Tirar aquelas carne necrosada todinha, então, ficou profundo. O calcanhar dele. Então o médico perguntou: “Você tem alguma auxiliar de enfermagem aí?” Aí outra menina me apresentou. Aí eu peguei fui lá e falei com ele, ele disse: “Mas é que eu não posso, Walkiria, não posso pagar.” Que você sabe, curativo em casas, tem aquela base, parece que é oito reais e pouco. Eu disse: “Não, Sr. Romeu, de jeito nenhum. Se é pra fazer seu curativo dia sim dia não, eu venho.” Tanto à noite quanto de manhã, até eu chegar aqui, eu já vou fazer o curativo dele. Vou direto. Consigo gaze, que ele é muito, assim, pobre, não é mal da vida na vida, mas é pobre. É aposentado. Mas de vez em quando ele me dá um agrado, assim, um presente, chegou dia da páscoa me deu um ovo de páscoa grande... Ele fala: “Minha filha, só tenho pra dar isso aqui pra você.” Digo: “Não, nem se importe. Eu quero sua melhora.” Semana passada ele foi pra o médico o médico disse: “Sua auxiliar de enfermagem está de parabéns, nota 10. Porque já está fechando”.

 

P/1 - Qual que é o procedimento de um curativo assim, eles são parecidos?

 

R - Não, são diferentes. Porque o da úlcera varicosa você tem que... dependendo do que o médico passa, que tem um líquido, né, que antigamente ela usava o soro. Pra lavar.

 

P/1 - Aquele soro fisiológico?

 

R - É, soro fisiológico, só que ela não se dava. O médico tirou. Então botou permanganato. Permanganato de potássio. Ela também sofria muito, gritava muito. Ela foi, falou com o médico, o médico disse então: “Você vai ter que fazer assim, algumas lavagens de aroeira, caju roxo e quixaba.

 

P/1 - O quê que é isso ? Aroeira, caju roxo...

 

R - E quixaba.

 

P/1 - São plantas?

 

R - É, são plantas. Só que é tirada do tronco. Não é as folha, é tirada a casca. Aí, o médico passou: “O jeito que tem, pra a senhora não sofrer tanto, é fazer a lavagem, que é limpeza, né, das secreções, com esse líquido.” Então ela está fazendo agora e está evoluindo. Está bem, bem mesmo.

 

P/1 - E como que você faz? Você que arruma essas cascas?

 

R - Não, ela. O filho dela é que compra, que compra, daí ela faz. Quando eu chego lá já está preparado, no vidrinho, todo coadinho, aí eu faço a lavagem da perna dela todinha, se tiver cascas, aquelas carnes necrosadas eu tiro com a pinça, que eu posso pegar pinça lá no posto de saúde mais próximo lá de casa, que é dali de Rio Doce, A menina me empresta as caixa todo já esterilizadas, levo gaze daqui, e a pomada que ela usa é ginecológica, é Trofodermim que o médico mudou a pomada dela. Melhorou muito com essa pomada Trofodermim. Ginecológica.

 

P/1 - Qual que é o machucado que ela tem? É úlcera...

 

R - Varicose. Foi quando assim, ela se operou das varizes, só que inflamou, então o médico fez uma raspagem, e dessa raspagem, formou a úlcera varicose. É a perna, a batata da perna dela todinha. Só que já fechou, né, está uns quatro dedos. Porque do jeito que eu peguei era toda aberta. Agora está quatro dedos. Agora está fechando. Porque ela fecha de dentro pra fora.

 

P/1 - Demora mesmo...

 

R - Demora. Assim de fora pra dentro aí vai fechando, fechando, fechando, e aí faz aquela capa né.

 

P/1 - E como é que você ficou sabendo daqueles agentes de saúde?

 

R - Não, eu passei na prefeitura porque eu era da Fiocruz, né? Era da Fiocruz, da Filariose, então acabou esse projeto aqui de Olinda, da Filariose, né? No dia que acabou, que a gente foi assinar o contrato, lá em Olinda, aí tinha assim um papel: “Abrimos concurso pra ACS - Agente de Saúde Comunitário.” Só precisava ler e escrever, saber ler e escrever, né, aí fui na prefeitura, centro de saúde, ela me explicou, tudinho e disse: “Olha, vai começar tal dia, as inscrições.” Eu peguei e fui me inscrever. Me inscrevi, fiz a prova, teve a primeira prova, foi anulada.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Não sei, porque houve confusão, não sei qual foi a confusão. Só sei que foi anulada a primeira prova. Eu tinha passado e foi anulada. Depois teve outra, aqui no Polivalente. Com a mesma inscrição, fomos fazer a outra prova.

 

P/1 - É colégio?

 

R - É o colégio, Polivalente. Fizemos, aí depois a moça disse, da Secretaria de saúde, da Fusan: “O nome de vocês vai sair tudinho aqui o que foi de classificadas”. Fizemos a prova, depois com oito dias tivemos a entrevista com a psicóloga. Com os psicólogos da Fusan [Fundação Sanepar de Previdência e Assistência Social]. Então ele fazia as mesmas perguntas. Assim, quase como você fez. Se tinha, assim alguma coisa da comunidade, se eu fazia alguma coisa na comunidade, então respondi pra ele. Disse: “Aguarde porque os nomes vai sair, de quem ficou.” Porque as psicólogas que ela aprova, né? Aí pronto. Quando chegou que meu nome estava, em primeiro lugar.

 

P/1 - Você passou em primeiro lugar?

 

R - Eu estava em primeiro, aqui não, pelas entrevistas, né. Na entrevista de cada área. Porque tinha Beira e Ilha de Santana. Aí de Ilha de Santana eu fui primeiro. Aí segundo foi Rosemary, não, é, Nina, que é essa que está aí, e terceiro foi Rosemary, e teve a suplente que foi Ana, que saiu.

 

P/1 - E aí foram chamadas pra trabalhar, como é que... Teve treinamento?

 

R - Teve treinamento. Passamos quase três meses treinando. Teve muitos treinamentos. Tivemos treinamento de Materno-infantil, teve treinamento de raiva, tinha o treinamento de vacinas, amamentação, CA [Câncer] de mama, tivemos muito treinamento, muito mesmo. Agora que a gente está tendo, né, que a gente já fez trabalho em leishmaniose, a gente já trabalhou em leishmaniose, sabe o que é leishmaniose, né? A gente já fez trabalho pra cachorro, tirei segundo lugar, e... dar vacina em cães, e cortar as orelhinhas pra fazer leishmaniose. Eu tirei segundo lugar, ganhei medalha e tudo.

 

P/1 - Cortar a orelhinha pra fazer? O que é isso?

 

R - É o exame de sangue do cachorro.

 

P/1 - Pra ver se o cachorro está transmitindo?

 

R - Tá, tá, com leishmaniose, se ele está com leishmaniose, que houve dois casos aqui em Olinda, né? Houve dois casos, aí fizeram esse trabalho, então chamaram a gente, aí chamaram a Ilha de Santana quase toda. Foi eu, Josefa, Ana Paula e Márcia.

 

P/1 - A leishmaniose é uma doença que ataca o cão?

 

R - É do homem e passa pra o cão, o cão que passa a transmitir dentro de casa.

 

P/1 - Eu queria que você falasse um pouquinho desse trabalho da Fiocruz com Filariose. Como que você entrou lá na Fiocruz?

 

R - Eu entrei na Fiocruz assim, porque, era Dr. Domingos, sabe, que era o secretário da saúde. Então, a Fiocruz fez esse projeto com a prefeitura de Olinda. Então, por intermédio do vereador Arruda, que era conhecido de uma amiga minha, aí falou pra minha amiga. Aí minha amiga falou assim: “Tenho Walkiria, que é atendente de enfermagem, e tenho Verônica, também, que é atendente de enfermagem. Como é que a gente vai fazer, Arruda?” Ele falou: “Dar o cartão, pra vocês três se apresentarem pra Dr. Domingos sábado.” Aí, nós fomos, né, com um cartão só, com os três nomes das Amarise, Verônica e Walkiria. Chegamos lá, Dr. Domingos atendeu a gente muito bem, a gente entrou, conversou com ele, ele disse: “Olha, tudo bem, vou ficar com esse cartão de Arruda, então estamos assinando, ainda, o contrato com a Fiocruz. No caso se alguma coisa assinar hoje, hoje mesmo ainda ligo pra casa de Walkiria, porque é a única casa que tem telefone.” Era a minha. Tudo bem, isso era quinta-feira, né ? Eu me lembro, na quinta-feira, aí passou a sexta, ele não mandou ligar, quando foi na segunda ele ligou, de manhã, a secretária dele ligou. Aí eu já ia sair pra o trabalho, né, que foi antes desse trabalho aqui. Aí a secretária ligou, era umas oito horas da manhã. Aí disse: “É Walkiria?” Eu disse: “Sou eu mesma” “É a secretária de Dr. Domingos”, “Pois não, filha” ela disse: “Olhe, é pra você se apresentar urgente, agora de tarde, de duas horas da tarde, que o pessoal da Fiocruz está vindo pra buscar vocês, pra fazer o treinamento na Fiocruz. Aí é que foi fazer o treinamento. Passamos também. Aí, Dra. Amélia, adora a gente. Amélia e André Furtado. Ela é louca por a gente. Não tem um contrato que chegue, que não chame a gente. Tem o meu telefone. André Furtado, é o diretor da Fiocruz. Ele diz: “Eu fico com pena que não posso colocar vocês efetivo. Porque tem que ter concurso, que é federal, né. Fico com pena, mas tudo o que passar por mim, contrato, só tem vocês. Vou tentar ver um contrato agora.” Era pro mês de Maio, só que eu liguei pra ele, pra Dr. André, ele disse que os alemães suspenderam, e estão entrando agora em Junho, e que a gente aguardasse, que a gente vai trabalhar de noite. Vai trabalhar de oito horas, até meia-noite.

 

P/1 - Fazendo o quê?

 

R - A Filariose. É, Furando os dedinhos... Só que a Filariose deles são diferente. A Filariose deles são, a gente trabalha com umas borrachinhas, umas perinhas, e uns caninhos. Se a gente fura o dedinho e coloca, segura a perinha e coloca os caninhos no sangue. Aquela própria pera ela puxa. É um pontinho na lâmina. Aí tira outra, outro pontinho, tira outra, outro pontinho.

 

P/1 - Isso é pra fazer exame?

 

R - É, exame de Filariose. Porque aí pega e faz um quadrado, um quadrado bem feito. Pelas bordas, todinha, com a mesma lanceta. Do paciente.

 

P/1 - Do paciente que está com suspeita?

 

R - Não, não está com suspeita, é que ele faz a área toda. Então a gente faz. Qual é o procedimento dele. Dessas três, desses três sangues? É porque às vezes, na primeira lâmina não dá. Quando eles tiram a segunda dá, então esse procedimento de uma lâmina só, de um quadrado só, não é bem feito pra eles. Aí pode ele estudar o primeiro, o segundo, não dá, o terceiro dá, que o paciente está com a Filariose, então o trabalho da gente era esse, que a gente levava os exames para os pacientes. Não, primeiro ia pra área pesar os pacientes. Levava pra o médico da Fiocruz. O médico via aquele peso do paciente, que estava com a Filariose, e mandava os comprimidos. A gente dava, explicava: “Olha, você tem que tomar esse comprimido, é dois no jantar, é dois no café da manhã, dois no almoço, dois no jantar. Agora você tem que fazer esse procedimento durante quinze dias. Que o comprimido está aí como quinze dias. Você tem que fazer, porque o retorno que a gente vai dar agora, a gente vai dar o retorno de novo, vai fazer a lâmina, se retornar e vocês ter Filariose, vai entrar na venosa, que é o soro e a infiltração. Do soro e a infiltração, se forma quantas Filarias tem o sangue. Que a Filariose, ela se manifesta depois de oito horas da noite.

 

P/1 - Depois de oito da noite?

 

R - Depois de oito da noite.

 

P/1 - Por quê?

 

R - É do sangue. Ela só se manifesta depois de oito. E muito melhor você tirar dez horas da noite, em diante. Porque dez horas é que você sabe se você tem Filaria ou não.

 

P/1 - A Filariose ataca o quê?

 

R - Ela ataca pulmão, incha braço, incha mão, incha perna, incha seios, testículos, tudinho. Ela dá em muito canto.

 

P/1 - A pessoa fica inchada direto ou não?

 

R - Não, porque tem um problema assim, o trabalho da gente é antes dela virar elefantíase. A elefantíase, ela já é inchação. Não tem cura mais. Estão tentando ver se tem cura. Já chegou alemão, a gente já trabalhou com eles, com os alemães, já chegou francês porque a Fiocruz é filantrópolis de várias entidades. Então já chegou japonês, já chegou italiano, já chegou francês, tudo pra estudar. Já fizeram biópsia nas pernas e nenhum constatou que tem melhora. Depois da elefantíase, não tem melhora mais. Você pode fazer o tratamento que você for. Você pode fazer a lâmina que for, só dá negativo, mas você já está com a doença.

 

P/1 - A primeira manifestação é o inchaço, que é a Filariose se não tratar?

 

R - Não, a primeira manifestação a gente não sabe. Por isso que a gente tem que fazer esse trabalho de seis em seis meses. Tem que fazer o trabalho da Filariose, de furar o dedo, porque se der, pronto, eu furo agora, não tem inchação nenhuma, vai dar Filariose em mim. Aí é o trabalho da gente, tem os comprimidos, depois repete de novo a lâmina, dá de novo, aí tem o trabalho da filtração do soro, ele vai ver quantas Filarias tem, ele vai trabalhando até diminuir as Filarias do sangue, mas se eu for deixar, vai inchar. Ela começa a inchar depois de dez anos. De oito a dez anos, por aí. Se você tratar, ela não incha mais. É o que você fala da AIDS. AIDS não é assim? Depois que ela vai proceder, aumentar, não é depois de dez anos, né, nove anos que ela vem apresentar? Pois a mesma coisa é a Filariose. Você pode estar com Filariose, mas você não sabe. Você só vai saber depois que ela se manifestar no seu corpo. Então por isso que é a prevenção. Não tem a prevenção do câncer? Que a gente tem que fazer no mínimo de ano em ano? Pois então, tem a prevenção da Filariose. Tem a prevenção que eles admitem fazer de ano em ano.

 

P/1 - Tem outras doenças que você trabalhou nos projetos de prevenção?

 

R - Se tem outra doença? A Aids, que também eu já falei, que a gente também já fez um curso, né, curso de Aids. Pra a gente repassar pra a área. Pra poder repassar pra a área o que a gente sabe sobre a Aids. De tudo o que a gente passa pra área a gente passa por Suzana, a gente faz o curso.

 

P/1 - Bom, vamos voltar lá, pro Agente Comunitário. Você foi chamada, assumiu aqui a área, e aí como é que você começou a trabalhar?

 

R - Bem, eu comecei pelo PACS né? O PACS é totalmente diferente do PSF [Programa Saúde da Família]. Porque o PACS você tinha o trabalho de quê? Você ia nas casas, visitar, saber o problema de vacinas, problema de doença, mas só que a gente não tinha essa abertura que tinha aqui, que tinha médico, assim. Para os cadastrados, né, tem que vir aqui para o posto, aí conversar com as pessoas do posto, pra poder ver se pegava uma ficha que o paciente estava doente, era um trabalho assim, mais difícil.

 

P/1 - Não é nesse posto?

 

R - Não, era no posto da prefeitura. A gente tinha assim, que agradar, agradar de conversa, falar bem com as recepcionistas de outros postos. “Olha, tem uma paciente minha na área, que eu trabalho na área com ela, e ela está necessitando de um médico, da clínica médica,” a gente levava. “Mas não tem vaga, não sei o quê...” Tinha que saber falar, né, com a recepcionista também, aí, a gente falando bem com elas davam a ficha da paciente, a gente ia nas casas e levava. “Ai, minha filha, você é ótima!” Mas só a gente fazia isso com as pacientes que não podiam ser removidas pra tirar ficha, estavam muito doentes, como esses casos da Dengue. Esses casos da Dengue, se for trabalhar, levar remédio, vai levar Dra. Sandra, que agora aqui é o PSF, né? Aí tinha um tratamento diferente, porque não tinha um médico da família, enfermeira, não tinha auxiliar, a pessoa tinha que ir morrendo mesmo, andando pra qualquer coisa. Pra fazer qualquer coisa ela tinha que se virar ela sozinha, só não se virava porque a gente é muito boa na área. A gente fazia algumas coisas acima do programa, porque o programa só era pra visitas. Aí quando chegava na visita via uma pessoa doente, que não podia ser removida pra tirar uma ficha, a gente tinha que ir pro posto. A gente como ACS ia até o posto, né, ouvia gracinha de recepcionista, ouvia essas coisas, tem dia que tinha que babar muito. O negócio é fazer as coisas certas, babar muito pra poder pegar aquela ficha. “Ah, vocês não podem vir não.” Digo “Pode não, quem trabalha dia a dia com a paciente é que sabe que ela não pode. Se pudesse, garanto que ela vinha, porque eu acho que é muito difícil. Pra mim é muito difícil vir aqui pegar uma ficha” “Não, está certo Walkiria, eu vou deixar pra ir colocando.” Aí o trabalho aqui está sendo melhor. Muito melhor do que o PACS, porque o PACS, você vê, a gente está com um problema na área, né, passando mal, da minha área, ela passou mal, assim não dá nem pra ir pro posto, que eu sempre levo você agorinha, ela disse: “Dá não, que eu não posso andar não, tenho problema de rins, de vez em quando eu estou me urinando, aí vou no sanitário, não urino de jeito nenhum...” Eu: “Está certo, fique aí que daqui a pouco eu to subindo a rua.

 

P/1 - Quê é que ela tinha?

 

R - Problema de rins, problema renal. Aí vim, chamei a D. Sandra, ela também não recusou, foi comigo, atendeu ela, né, de emergência, passou medicamento pra dor, pra aliviar, então pra depois fazer o encaminhamento pra ela procurar um médico renal, problema renal. Pronto, até aqui, graças a Deus já melhorou. Eu estive na casa dela ontem, pra perguntar, que a gente tem que ir, né? Tive numa gestante também. Teve uma gestante que o marido dela não estava em casa, não tinha dinheiro nenhum, conseguimos dinheiro, que a ambulância estava quebrada, conseguimos dinheiro na associação pra poder levar ela, pra a maternidade, aí a mãe dela disse: “Não precisa vocês ir não, deixa que eu vou mesma com ela, daqui a pouco eu trago o retorno.” No outro dia ela deu retorno à gente, que a menina tinha descansado, já tinha vindo com 3 dedos na área, já tinha perdido água, já estava perdendo sangue, e o hospital não aceitou, mandou pra casa, que estava na hora de nascer. Aí a menina estava passando mal, que é na minha área, então eu estava aqui no posto então a outra veio me avisar, a vizinha dela. “Eu vou avisar Walkiria” quando chegou aqui, imediatamente a gente botou uma farda, e fomos lá resolver. Foi falta de dinheiro, então digo: “Vamos levar ela pro Agamenon, porque no Agamenon vão aceitar ela. Dito e feito. Chegou lá e o médico disse que quase que a criança morre. Se demorasse mais um pouco... porque ele tinha que fazer a evolução da criança, só que ela tinha perdido já a água, que é a... a proteína da criança, né? Uma criança sem a bolsa da água está sem proteína nenhuma. E dito e feito a menina nasceu toda franzina, com a pelezinha franzina, desnutrida, né? Com a pele franzida. Que ela tinha perdido água já de manhã. No outro dia anterior, à noite, de manhã, na noite, porque o (inaudível) tinha mandado de volta, de manhã começou a perder mais coisas, e o (inaudível) mandou de volta, e o jeito que tem foi a gente tem que resolver. Por isso é que o PSF é melhor do que o PACS.

 

P/1 - Em termos de estrutura, o quê que é diferente o PACS e o PSF?

 

R - Bem, o tipo de estrutura do PSF, é que o trabalho da gente é mais bonito assim. Por exemplo, ela... está com todo o cadastramento feito, todas as fichas, e cada família da gente tem, cada pessoa, cada ACS tem duzentas famílias. São duzentas famílias, então nós temos as fichas todinhas, daquele... daquela família. Então eu dou os cartões a elas, elas são mais bem atendidas, Dra. Sandra atende muito bem, inclusive abriu o portão agora, que ela não pode ver assim, atender só os cadastramentos porque a demanda é muito grande, da área, existem dez mil famílias aqui, certo, e por enquanto a gente os está com cadastramento com quantos? Com 1.200. Que cada ACS tem duzentas famílias.

 

P/1 - Duzentas famílias?

 

R - É, duzentas famílias, quer dizer que são seis ACS, tem 1.200 famílias, então pra dez mil, a demanda é enorme. Então é tanto faz atender os cadastrados, como, a demanda sem ser cadastrada, que não pode jamais voltar, e nem tampouco a gente pode deixar de trabalhar, sem ter esse pessoal cadastrado. Não tem problema nenhum, é como eu digo na minha área, porque eu tenho uma área que do outro lado da área não é cadastrada, certo, por caso que a gente pegou os quadrados, então não é cadastrada, nem por isso, quando eu passo por lá não deixo de perguntar. “Como é que vai o neném?” como que ele está no posto aqui que é da minha área, que não é cadastrada, eu vou lá, “como é que está seu neném, está bem? Melhorou da ira, do cansaço?” Tudo bem, aí por isso que todo mundo ainda gosta de mim. Porque sem ser cadastrado, cadastrado, eu estou trabalhando. Eu não recusar jamais uma mãezinha me chamar porque não é cadastrada “Ah não, você não é cadastrada não, eu vou atender só cadastradas." Não, eu não sou assim, eu atendo todo mundo. Quem me procurar.

 

P/1 - Você se lembra do teu primeiro dia de trabalho como Agente Comunitário?

 

R - Primeiro dia de trabalho foi no cadastramento. Foi no cadastramento e eu fui bem aceita na área, bem aceita mesmo.

 

P/1 - Como você começou ACS?

 

R - No primeiro dia quando eu cheguei, foi a primeira casa né, porque inclusive até teve gente que disse que a gente não ia ser bem atendida, essas coisas, né? Aí eu entrei na casa, não, entrei na casa não, né, bati, aí disse: “Bom dia, bom dia”, aí então ela falou assim: “Diga filha” - a moça, né. “Diga filha”, eu disse: “Olha, eu sou da prefeitura de Olinda, eu sou ACS, eu vou explicar à senhora o que é ACS, que eu sei que a senhora não está sabendo, é Agente Comunitário de Saúde...” Ela falou: “Minha filha, o que é esse Agente de Saúde Comunitária?” Eu disse: “Olha, Agente de Saúde Comunitária, ela vai prevenir a saúde da comunidade, certo, então eu vou fazendo esse cadastramento e vou explicando à senhora.” Aí ela fez: “Mas vocês vão prevenir o quê?” Eu disse: “A gente vai prevenir assim olha: em caso de gestante, a gente vai orientar a gestante, pra fazer o pré-natal, que a demanda está muito baixa de pré-natal aqui na ilha, é, orientar amamentação, da puérpera, saber fazer a orientação da amamentação, que tem muitas mães que só dão de mamar às crianças até dois meses e não sabem quanto é valorizado o leite materno pra uma criança se for até seis meses, a vacinação, pra estar em dia”. A gente tem um mapa, de todas as crianças da gente nós temos um mapa, de todas as crianças de zero a cinco anos, das que vão nascendo agora, e das que a gente está trabalhando já de zero a cinco anos. Tudo tem que ter a vacina em dia, a Suzane pede...” E ela disse: “Ah, minha filha, é muito bonito, que coisa mais linda. Aguarda aí um minutinho que eu vou pegar um copo de suco pra você, um pedacinho de bolo, você quer?”. Eu disse: “Não, deixa eu acabar aqui essa entrevista”. Ela disse: “Não, não, é muito bonito, eu quero que você repita tudo de novo, não sei o quê.” Tipo o problema da doença, porque foi o PACS, né? Isso foi o PACS, quando a agente começou, começou, começou logo com o PACS. E o problema da doença, a gente tem que estar bem em cima das pessoas, só que a gente não tem como levar a pessoa para o posto diretamente. No momento que a senhora estiver assim, quando eu chegar aqui a senhora estiver muito arriada, eu ainda posso fazer alguma coisa pela senhora. Vou lá no posto, converso com as meninas, tiro sua ficha, venho lhe buscar, e levo a senhora, pronto. Ela: “Ah é um trabalho muito bonito, pode ficar, não sei quê.” Aí, peguei outro que aqui a demanda é muito louca. Maconhado, a gente só pega isso, sabe, coisas de drogas, essas coisas né. Peguei também um cara que, uma bocada, quando eu cheguei ele disse assim: “Vira as costas.” Eu digo: “Não, não vou virar as costas, de jeito nenhum.” Que eu já conhecia. Foi porque ele tem medo porque a bata da gente, era quase como uma polícia civil. Tinha uma gravatinha mais curta, só que a polícia civil não tinha esse bolso.

 

P/1 - E que cor que era?

 

R - Azul. Só que não tinha esse escrito nas costas. Não, tinha esse escrito nas costas e não tinha esse bolso aqui. Sabe, gente pensava que era polícia civil.

 

P/1 - Aí ele pediu pra você virar pra ver se estava escrito?

 

R - Aí eu disse: “Olha, não vou virar não, sinto muito.” Porque a gente tem medo, né, dar as costas assim pra uma pessoa... mas eu não disse pra ele o que ele era, de jeito nenhum, que a gente tem que ficar na da gente, né, aí disse: “Vai lá esposa! Vá pegar ali, lê o que é que tem ali”  "É SUS, marido, é SUS. Sabe o que é SUS, marido?!” Aí: “É Sistema Único de Saúde, pode entrar.” 

 

P/1 - Ele sabia?

 

R - Ele sabia, né, que ele identificou. Ele disse: “Pode entrar.” Aí eu disse: “Olha, o trabalho da gente é um trabalho oculto, só quem vai saber da vida de vocês é a gente, a gente não vai espalhar pra ninguém, essa ficha fica pra gente, vocês podem ser o que for, aqui fica só pra gente, não fica pra ninguém. Aí ele disse: “Pronto, vou começar logo minha vida. Aí, não, você diz o que é, a gente faz o comentário.” Aí eu comecei a explicar tudo de novo, o que era o Agente Comunitário, o que é que era trabalhar, inclusive a esposa dele estava gestante, com quatro meses, não tinha feito um pré-natal, aí ele hoje me adorou. Hoje ele ainda me adora. Já tem dois filhos. Teve esse, que já está com três anos e teve outro agora.

 

P/1 - Aí você já começou a acompanhar o pré-natal?

 

R - Pré-natal, acompanhando, e mandando ela pro médico. Pré-natal, né, quando a criança nasceu, saber amamentar, não dar nada à criança, só aquele leite materno.

 

P/1 - Como você acompanhava o Pré-natal?

 

R - Todo mês a gente tinha que ir pra ver o cartãozinho. A gente olhava se ela estava dentro do mês, por exemplo, hoje é o mês de Abril, não, hoje é o mês de Maio, né? A gente vai no cartão e diz: “Olhe, dia 20 de Maio você tem que voltar  pra o médico. Você vai voltar, não vai?” “Vou, Walkiria.” Pronto, dia 22 eu quero saber. Quero pegar esse cartão, e quero saber se você foi ou não. Dia 22 eu ia, cadê o cartão, fulana? Ela: “Está aqui. Sabe que está em cima de mim os dia tudinho, tu em cima de mim. O que é que a gente vai fazer?” Essas coisas. Me dá seu cartão aí. Olhava e botava no meu mapa. Ok. Toda vez a gente tem que ir, todos os meses e acompanhar: tezes, pressão, né, que elas vêm aqui pra a Suzane, ou então pra Dr. Fernando. Então no cartão a gente tem que ver, se ela fez ou não.

 

P/1 - E, Walkiria, você teve ou tem... algum recém-nascido de risco?

 

R - Bem, eu tenho, mas é fora da área, que sempre a prefeitura manda.

 

P/1 - O que é um recém-nascido de risco?

 

R - Recém-nascido de risco é uma criança que nasce com baixo peso. Abaixo de dois [quilos] e meio ele já é uma criança de alto risco, porque com dois e meio é que eles vão tomar a BCG, né, aí ele fica um menino que não tem imunidade.

 

P/1 - Com dois quilos e meio?

 

R - É, com dois quilos e meio já estão aplicando a BCG, menos de dois quilos e meio eles não aplicam.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Ah, é uma criança, porque está baixo peso, sabe, pra ele receber a imunização da BCG acho que é muito forte pra eles. Sabe, eles só podem receber de dois quilos e meio a cinco, então é uma criança que a gente tem que trabalhar muito séria, inclusive eu estou trabalhando com uma, no Jardim Atlântico, os meninos dela são bem nutridos, bem nutridos mesmo...

 

(pausa)

 

P/1 - Bom, você estava falando do RN [Recém Nascido].

 

R - Do RN. Eu tenho dois RN de risco que são gêmeos, né? Um nasceu com 2,390 kg e o outro com 2,495 kg, um negócio assim. Não estou bem lembrada que eu não estou com a pasta deles. Hoje eles estão com rês meses. Fizeram três meses agora em Maio. Eles nasceu dia 2 de Fevereiro. Aí então a prefeitura mandou de RN. Peguei, fui pra lá, visitar tudinho. Realmente a mãe deles gosta do trabalho, que é muito bonito.

 

P/1 - Como é que você cuidam de uma RN, de risco?

 

R - Pronto, a gente chega lá, né, conversa com a mãezinha, orienta ela a dar banho, como é que se dá banho na criança, a gente orienta ela a levar sempre ao médico... quando a mãe não pode, a gente traz, RN de risco pra cá, que a pediatra tem que acompanhar ele. A pediatra e Suzane que é a Puericultura, né? Que faz a puericultura, que é o crescimento da criança, o peso, e Sandra só quando ele estiver doentinho, né, a gente sempre orienta as mães vai lá, de quinze em quinze dias. E quando eles são novinhos, antes dele completar um mês, a gente tem que fazer de quinze em quinze dias, não, de semana em semana, de oito em oito dias. Depois de mês, a gente já faz de quinze em quinze dias, dia 15 e dia 30, dia 15 e dia 30, sempre orientando a mãe. Amamentar, né, ensinar ela a botar o filho no seio, porque às vezes tem mãe que não sabe nem como amamentar uma criança. Jogam logo o leite, a gente pede logo: não dê outra alimentação, porque não tem complemento pro leite materno. O leite materno é suficiente pra uma criança. Até os seis meses. Aí fica orientando ela, né? Quando chega a certo peso, que a gente vai levando os pesos pra Suzane, a gente vai orientar as vacinas, “Olha mãe,” se for uma pessoa de bom nível, ela vai pra consultório, né, se for uma pessoa pobre a gente manda pra aqui, orienta pra aqui. “Olha, você tem que ir pra Sandra, e tem que ir pra a Conceição, pra aplicar as vacinas, que você sabe que as vacinas você tem que tomar logo ao nascer.” Mesmo que ele estava sem peso, que ele não podia, mas como ele já está com peso bom, já está com três quilos, você tem que levar primeiro pra dar a BCG, certo? Depois, completando dois meses, a DBT e a pólio e a DBT, a tríplice, né? Você com quatro meses tem que levar de novo, pra dar a tríplice de novo, e a pólio, que é da boquinha. Depois com seis meses levar de novo, que é de dois em dois meses até seis meses. Com um ano e três meses voltar pra dar o reforço. Com nove meses, a gente põe no cartão dela, com lápis. Com nove meses de idade, a criança vai levar a sarampo. Sempre, e a DT e outras coisas com dez anos. Depois de dez anos.

 

P/1 - DT é o quê?

 

R - Contra tétano. Então a gente fala tudo pra ela, explica tudinho, bota no cartão, orienta ela, com a alimentação da criança, bota no peito, que tem muitas mães que a gente vai e não sabe nem amamentar a criança, não sabe nem pegar, então a gente dá aquela orientação. Então o programa é muito bonito. Eu estou com dois RNs que são gêmeos. São dois meninos. São até japoneses, e eles são de nível... que a prefeitura manda, de qualquer jeito. De nível, nível pobre, nível rico... Então, eu já fui pra lá, já são três visitas com a de ontem. Então ela falou pra mim assim: “Olhe, se você não se incomodar tanto, eu acho lindo esse trabalho, Walkiria, a coisa mais linda do mundo. Teve o que você orientou, na primeira visita, na segunda, mas acontece que vocês estão tomando a vez de uma pessoa pobre. Você está tomando a vez de uma pessoa pobre.”

 

P/1 - Quem que falou isso?

 

R - Ah, a mãe dos meninos. “O trabalho é lindo, é lindo, é lindo, mas só que meus filhos já estão bem trabalhados, porque eu tenho convênio, meu convênio é muito bom. Você vê mesmo que ontem, hoje mesmo, Walkiria, eu já vim da clínica, apliquei duas vacinas. Foi 96 reais. Muitos pobre não tem. Onde é que fica os pobre? - Que a vacina (inaudível), né, de meningite. - Eu apliquei nos meus dois filhos”, quer dizer que... Eu digo então: “Pra você assentar uma observação que você não quer a gente, você espera a chefe chegar, porque você passa tudo pra ela. Que o trabalho é bonito, que gostou da gente, e que você tem condições, então a gente pode pegar outra pessoa que não tenha condições”. Aí ela disse: “Está certo, Walkiria, nem por isso você vai deixar de vir aqui, mas é que você está perdendo tempo, de vir aqui, porque eu tenho condições... de manter os meus filhos. Você vê que meu filho agora, os meninos estão com sete quilos e pouco. Com três meses. Enorme o meninos!”

 

P/1 - E só com aleitamento materno?

 

R - Só com aleitamento, não, agora que eles estão... parece que a mãe deles deu suco, né? A pediatra receitou suco... Que ela disse que não aguentava ? Mas a gente explicou que ela tinha que aguentar, tudinho, mas é enorme.

 

P/1 - Quais que são os principais problemas que você tem aqui na sua área Ilha do Santana?

 

R - É ira. Ira e diarréia. Ira é um problema que você sabe, né, cansaço, é... pneumonia, né? Demais.

 

P/1 - E por quê que tem isso ?

 

R - Ó rapaz, às vezes até... relaxamento das mães, sabe? Tem uma parte que é relaxamento, tem outras que as criança já nasce como a Djandra, que nasceu... está com... onze dias hoje, eu acho que já veio da maternidade, já veio da maternidade, que quando ela chegou aqui socorrendo o menino, cansadinho, que secreções nos pulmões, ela veio com quatro dias de nascida.

 

P/1 - Quatro dias?

 

R - Quatro dias de nascida. Já veio pra Suzane, Suzane nebulizou com soro só, porque ele é muito pequenininho, e aí foi para Dra. Sandra. Sabe, veio logo pra Dra. Sandra, pra não encher os pulmões dele. Estava com quatro dias, quer dizer que uma dessa parte... eu acho que não seja relaxamento. Já foi da maternidade mesmo. Ele já pegou infecção de lá.

 

P/1 - Como é que é seu dia-a-dia hoje, assim, que é que você tem que fazer, assim, dentro do PSF?

 

R - Hoje?

 

P/1 - É, diariamente, assim.

 

R - Pronto, eu entro no posto, dou bom dia, aí converso com minhas pacientes que estão aí, né? Que agora a gente tem que botar os números das fichas que eu não dei, desse dia pra cá só era arrumar ficha, ficha, ficha, numerar, e, algumas pacientes minhas que estavam aí, eu já numero os cartões delas, né, pra pegar as fichas, e vou pra minha área. Aí fico na área, faço as visitas, entro nas casas, passo quase uma hora dentro da casa, inclusive até eu almoço, tomo café, lanche, é a maior bagunça, né, tanta da casa. “Walkiria, vem almoçar hoje!”, “Vem almoçar hoje!” Digo: “Virgem Maria, vou almoçar em três.” Porque são quatro casas pela manhã e quatro à tarde, só que a gente está fazendo um horário, oito, pela manhã. A gente fica até uma hora da tarde, quase duas horas da tarde, a gente sai da área e vem almoçar no posto, porque é muito perigoso nessa área.

 

P/1 - Por que é perigosa?

 

R - Porque a polícia quando entra, a polícia quando entra eles não sabem quem está trabalhando... certo?  Aí, eles ficam com medo. Quando eles veem a gente, eles diz: “Recuam, vão pro posto, porque se o bandido souber que a gente está aqui eles vão começar a atirar.” Aí pode bater na gente. Sabe, aí a gente vê eles, quando a gente vê eles, os soldados, ele... recua. Não vá de jeito nenhum agora porque já deve saber que a gente está aqui, os malandros. Já deve estar sabendo que a gente está aqui. Tem um tiro aí na janela da Doutora. Não viu não ?

 

P/1 - Ela falou, não me mostrou.

 

R - Realmente! Não é a polícia, são eles com a polícia. Que eles têm muita armas. Eu tenho casas que tem armas finíssimas... é que eles não podem... às vezes eles tem é medo de que a gente esteja entregando eles pra a polícia...

 

P/1 - E aí, quem é que faz a comida aqui no posto?

 

R - É D. Olga

 

P/1 - E ela é da comunidade... ela é contratada ?

 

R - Não, ela é da prefeitura. Ela é funcionária, da prefeitura. Que ela não tem a obrigação de fazer a comida não. Ela é da prefeitura só pra manter o posto limpo. Então ela faz por amor à gente.

 

P/1 - Certo, me fala uma coisa, eu queria... Vocês receberam esses equipamentos ontem, né, eu queria que você me falasse um pouquinho assim, que é que você achou disso, que você ganhou, ontem.

 

R - Ah, mas foi ótimo! Porque só assim tem a balança da gente, né, pra pesar individual, as criança da gente, pra não esperar por uma, por outra, uma balança só pra seis. Todo mundo tem sua balanças, todo mundo tem assim, é... seu termômetro, pode estar dentro de uma área, uma criança com febre, a gente já pode verificar... Já pode mandar direto pro posto... Tem a fita métrica, porque às vezes as famílias, né, um neném nasce, aí ela assim: “Olha, mede meu neném!” Vê o centímetro que ele está, essas coisas, foi muito importante, né? E teve aquela coisinha do... pra ver acho que é (inaudível) . Não sei nem o nome ainda que Suzane ainda vai explicar pra a gente trabalhar com aquilo, que a gente nunca trabalhou.

 

P/1 - Você nunca trabalhou com aquilo?

 

R - Não, com aquilo não, eu nunca trabalhei. Né, tem ali o nome, não sabe?

 

P/1 - É um cronômetro?

 

R - É, um cronômetro respiratório. Pronto. Aí foi importante esse trabalho. A bolsa, que a gente não tinha, que a gente ganha muito pouco, sempre pra comprar uma bolsa era difícil, eu vinha com a bolsa de meu filho. Pra trabalhar, pra poder levar um livro... os equipamentos. E... pra mim foi ótimo. A jaqueta, né? Foto com a identificação, ótimo.

 

P/1 - O que faltou na jaqueta?

 

R - Foi só o nome de Olinda, né? Mas... Temos o crachá. Pra que o crachá? Olinda.

 

P/1 - Sabe o que eu queria que você contasse, uma coisa que eu lembrei agora. Você falou que foi pra Brasília? Que você viu boneco lá. Por que é que você foi pra Brasília? Boneco com uniforme que iam dar, essas coisas...

 

R - Não, não foi em Brasília não. Foi num... é... como é o lugar onde o governador fica... na casa do governador... Palácio do Governo.

 

P/1 – Por que é que chamaram vocês pra ir lá?

 

R - Pra a gente reconhecer, né, o trabalho, e falar sobre a... como é o nome da...

 

P/1 - Abifarma?

 

R - Abifarma, né? Falaram muito bem, tinha um representante da Abifarma lá, né, o diretor, tinha várias coisas, tinha D. Ruth, né. Ih eu já ia dizer outra coisa. Está gravando, né?

 

P/1 - Mas de você quiser falar não tem problema.

 

R - Tinha a Ruth, né, tinha a ex-secretária da saúde, né, que era Ana Paula, tinha o secretário da saúde, que... o anterior, que agora é outro novato... Tinha muita gente, né, tinha a esposa de Miguel Arraes, tinha o Dr. Miguel Arraes, né, tinha várias pessoas importantes.

 

P/1 - E foram vários Agentes?

 

R - Ah, foram vários Agentes. De Olinda foram dois ônibus. Foram dois ônibus de Olinda, de Recife foram dois ônibus, tinha de Goiânia, tinha de Paulista, vários agentes comunitários. Fecharam a casa de Arraes.

 

P/1 - E aí tinha uniforme, lá? Como é que era?

 

R - Tinha no boneco, né, tinha uniforme. O boneco pegando a bicicleta assim, né? Botaram um boneco bem... decente, né, todo decente, e também, inclusive, tinha calça comprida, o tênis, mas a gente não viu, né, a gente só viu a jaqueta, ninguém sabe se a calça comprida veio, nem o tênis. Sei que o boneco estava todo vestido lá. Foi o que Suzane falou ontem, vocês tem que vir de calça comprida. Aí eu digo: “Se eu não tiver venho só de calcinha” (risos) Foi o que a gente disse, ontem, a ela. Se a gente não tiver a gente vem de calcinha, que elas estão pedindo roupa, né?

 

P/1 - Walkiria, pra a gente acabar, agora a entrevista, o que é que você gostaria de realizar, ainda na tua vida? Qual é o teu sonho?

 

R - Rapaz! Meu sonho é subir, né? Na vida, assim. Dentro do Agente Comunitário mesmo, né, que é o que a gente não vê, no lado da gente. A gente sempre... baixa. A gente não é reconhecido em nada. A não ser por Suzane, por Dra. Sandra... pelo programa a gente não é reconhecido em nada.

 

P/1 - Vocês não tem nenhuma remuneração? Nenhuma?

 

R - Remuneração como?

 

P/1 - Dinheiro que vocês recebem?

 

R - Não, só o salário, e pronto. Só o salário, e assim mesmo eles acham que a gente ganha muito. Só o que a gente tem, né? A gente gostaria de ter um salário digno, porque a gente trabalha, nós somos a fonte, mais forte pra um PSF, porque se não fosse a gente, você vê que hoje a cooperativa da gente brigou com o distrito um, que disse que a gente só ia trabalhar na campanha da vacina se houvesse remuneração, porque todo mundo sabe que há, remuneração. Aí só querem pagar os funcionários. Os funcionários da prefeitura. Quer dizer que agora ela está torcendo, a diretora do distrito. Não Rosa, pelo amor de Deus, não tire os agentes de saúde não, porque os agentes de saúde aqui dão a maior força na vacina. É a maior força que eles dão. Sem os agentes de saúde a gente não faz nada. Poxa! Só vai reconhecer a gente esse dia? Mas não é mesmo? A gente saiu do coração de uma comunidade, tudo o que se repassa dentro de uma comunidade é a gente que trás, pra reunião com Suzane, com Dra. Sandra... A gente é que vê as doenças, dentro da área. A doença não, que a gente não pode detectar doenças, que a gente como auxiliar não pode. Mas quando a paciente está dizendo: “Ai, que dor, eu estou com problema de rins!” A gente vem correndo pra o posto, chama Dra. Sandra, “Dra. Sandra, acho que é rins.” Ela faz que é rins, mas como eu não sou médica... Ela não está podendo andar, de jeito nenhum. Dra. Sandra vai lá com a gente, quer dizer que o coração é a gente. Então a gente tem que ter uma boa remuneração. Assim como segurança que não tem nenhuma. Qual a segurança que não tem nenhuma? Se você levar um tiro, sai, pronto. Não ganha nada. A gente não tem vínculo. O que a gente pedimos é vínculo empregatício. A gente está pagando INPS, agora, se eu vivesse com esse dinheiro, com esse salário, eu estava morrendo de fome. Eu e meu filho. Que eu faço biscate em outros canto. A Fiocruz quando me chama, tem o contrato de três meses, à noite, que paga muito bem. Porque eu fiz um contrato com a Fiocruz. O ano passado ganhei trezentos reais, pra me manter, só pra fazer cinquenta casas, venosa. Ele disse: “Olhe Walkiria, eu estou lhe pagando trezentos reais dentro de um mês. Eu quero essas lâminas, essas infiltrações, esse soro, dentro de um mês. Se você terminar antes tudo bem você recebe aqueles trezentos reais. Quer dizer que isso aí dá uma... uma incentivação pra gente trabalhar muito mais. Sabe como é? Não é nem por causa das famílias, porque por mim eu trabalho até de graça pelas famílias, mas o negócio é que a gente está... está puxando.

 

P/1 - Quando você fala em subir, o que é que você pretende? Pretende fazer mais um curso...

 

R - Rapaz! Eu pretendo fazer a Funesb, né? Já fiz o curso de Auxiliar pra ver se eu subia, mas só que não estão reconhecendo a gente.

 

P/1 - A Funesp?

 

R - A Funesb.

 

P/1 - Funesb?

 

R - Eu estou com vontade de fazer agora, a Funesb.

 

P/1 - O que é a Funesb?

 

R - É a faculdade de... quem sabe é Suzane.

 

P/1 - Saúde?

 

R - É, de saúde. Então eu estou pretendendo é fazer agora, mas é que o salário não dá. Suzane fica em cima da gente “Vá fazer, Walkiria, faculdade” Mas como é que um salário, um salário e meio, dá pra a gente pagar uma faculdade? Que hoje está quase trezentos reais. Me diga mesmo! A gente quer fazer as coisas, a gente quer subir na vida! A gente quer subir mesmo. Tanta gente comentando, eu quero subir! Só que eu fiz... paguei o quê, paguei sacrificada cinquenta reais por mês pra curso de Auxiliar, gastando passagem, comprando passe, tudinho. Tirando desse salário. Quando vem agora ninguém reconhece. O PSF mesmo não reconhece, que aqui tem duas auxiliares, tem eu e Ana Paula, somos auxiliares, não somos reconhecidas. Vai abrir esse PSF agora, que ela disse que vai abrir quatro PSF, vamos esperar agora pra ver se ela reconhece a gente. Que a gente somos auxiliar, de carteira, de Coren, tudo, mas não reconhece, de jeito nenhum. No momento que fizeram esse PSF, teve o problema de concurso, de auxiliar de enfermagem, né, então a gente que tinha auxiliar foram fazer, mas tinha uma psicóloga lá na prefeitura, que diz que dependesse dela ACS não entrava como auxiliar. Acabou, arrasou com os ACS. Olha, 80%, não, 60%, são auxiliar de enfermagem. Não entrou uma. Está entrando agora, porque depois que ele descobriu que essa psicóloga não deixou entrar. Já tem uma, como auxiliar, que é do programa, que já veio de Agente Comunitário, já era de Agente Comunitário, agora está esperando a gente. Porque cinco nos nessa... Eu não posso nem reclamar. Ana Paula tem cinco anos de auxiliar, não aproveitaram ela. Eu não posso nem falar que vai fazer dois anos, que eu sou auxiliar. Não podia falar, eu só posso falar desse ano pra cá, né?

 

P/1 - Onde você fez o curso de auxiliar?

 

R - Fiz na escola Quitéria Rosa.

 

P/1 - É curso técnico?

 

R - Não, é só Auxiliar. Auxiliar de enfermagem. A gente quer fazer... eu quero fazer instrumentação, mas não tenho condições, porque o canto mais barato é no Senac. De paulista é o Senac. Lá, está custando agora sessenta reais. Como é que eu vou tirar de um salário e meio, sessenta reais. Me diz mesmo? Eu vou ficar com o quê? Com nada, né? Eu estou separada, né, o pai do menino não está dando nada, por enquanto. Meu filho já está com treze anos. Só deu até, uma idade mais ou menos de seis anos. Agora não está dando mais nada. Aí, pronto, tem que me virar em outras coisas. Porque se for com esse salário, a gente vai morrer de fome. Se eu sobrevivesse, pra comer desse salário... é porque eu moro com meus pais.

 

P/1 - Essas campanhas de vacina que você participa são aquelas de um dia?

 

R - É, de um dia. É aquelas campanhas que vem nacional, assim, Junho, né, aí vem Setembro, essas coisas, mas só que são remunerada, essas vacinas, são remunerada pelo... acho que é pelo Sus. Federal, que passa pelo distrito, agora, cada um que divida. Aí quando chega no município, também, aí diminui, aí fala “Não, só vou pagar os funcionários.” Espera aí, a gente como não é funcionário não está trabalhando? Você vai trabalhar em cima de quê? De ganhar uma camisa, que não é tão boa, a gente só veste aquele dia, no outro dia já não veste mais, quando lava está esticada, e um prato de comida, que às vezes até, eu já peguei até comida azeda. Que o meu não sei. Sorte minha que eu só trabalhava no quartel. Porque todo mundo gosta de mim ali no quartel, do bairro novo. É, todo mundo me adora. Quando chega campanha da vacina, é Walkiria e ninguém toma. Aí, sorte minha que quando chegou minha comida azeda, foi que o cara do quartel mandou um rapaz me substituir, pra a gente almoçar, quando ele chegou, o tenente: “Você vai comer essa comida minha filha?” eu disse: “Não, que é que eu posso fazer? Vou dar um sumiço.” Ele disse: “Não, você vai comer lá dentro, na sala da gente. Pronto. Aí vem pra cá um menino, que é enfermeiro do quartel, fica dando a vacina e você vai almoçar.” Almocei tão chique... Cremes tudo, doces, na sala do comandante. Ah, minha filha, sou muito amiga. Eu conheço Deus e o mundo naquele quartel. (inaudível). A Globo passou por lá, e eu comecei a falar, saiu até na televisão. Rede Globo! Aí todo mundo viu “Minha tia, minha tia, tudo na televisão, me dá um aceno. Eu estava na televisão.” Só isso mesmo, mais alguma coisa?

 

P/1 - Eu queria te agradecer, a ajuda que você deu aqui pra a gente, pro nosso trabalho, agradecer muito. Obrigada mesmo.

 

R - Vai dar uma força pra a gente, também nesse negócio da gente?

 

P/1 - Vamos ver.

 

R - Não é pra a parte de vocês não. Pra a parte de lá.

 

P/1 - Eu acho...

 

Fim da entrevista

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