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História

Vozes do futebol

História de: Orlando Duarte Figueiredo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Depoimento de Orlando Duarte para o Museu do Santos F. C. em 1999. Orlando conta sobre a sua infância em Rancharia no interior de São Paulo. as idas e vindas do pai para Portugal, e de volta para o Brasil. Os primeiros contatos com o futebol e com o rádio. A vinda para São Paulo, os jogos de várzea e sua afirmação na imprensa esportiva. Sua passagem pela televisão. A cobertura da primeira Copa do Mundo em 1950 e outras competições internacionais ao longo da carreira, como as conquistas da primeira Libertadores e da Taça Intercontinental pelo Santos em 1962. A relação de proximidade com Pelé e seu trabalho como biógrafo do atleta.

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História completa

P/1- Orlando, boa noite. 

R – Boa noite.  P/1- Eu queria começar a entrevista pedindo que você dissesse seu nome completo, o local e a data de nascimento. R – Orlando Duarte Figueiredo. Local de nascimento Rancharia, Estado de São Paulo, dezoito de fevereiro de 1932. P/1- Orlando, você poderia dizer o nome e a atividade de seus pais? R - Meu pai era português, minha mãe também. Vieram pro Brasil. Meu pai foi comerciante e trabalhou numa firma do tio dele, João Jorge Figueiredo, primeiro em Belém do Pará, depois em São Paulo, e foi como aventureiro pra uma região que não tinha nada. E minha mãe da casa. Do lar. Senhora do lar. Portuguesa. Os dois já falecidos.  P/1- E eles vieram casados de Portugal? R – Vieram casados de Portugal, e meu pai veio pra trabalhar aqui. E depois veio minha mãe. Ele morou no Rio, morou aqui em São Paulo, morou em Cornélio Procópio, mas ele se situou em Rancharia. Ficou em Rancharia, teve filhos em Rancharia e viveu a vida dele em Rancharia.  P/1- E a atividade comercial dele era o que? R - Ele teve uma casa de vendas gerais. Aquelas casas que vendem tudo, aqueles armazéns do interior. Em 32 ele resolveu e vendeu tudo que era no centro da cidade, e nos levou todos para Portugal. E nós voltamos um ano depois e ele voltou pra fazer outras coisas. Meu pai tinha isso. Foi pra Cornélio Procópio e comprou um hotel. Não era do ramo. Tinha restaurante. Depois foi com restaurante e cinema em Santo Anastácio. Eram assim coisas que ele fazia. Mas depois, quando ele voltou pra Rancharia, ele comprava algodão, comprava cereais no norte do Paraná e vendia. Foi vivendo dessa forma e fazendo estudar os filhos e eu estudei até terminar o ginásio, em Rancharia.  P/1- Você se recorda dessa ida a Portugal? R – Não. Não. A primeira vez que eu andei, foi no navio. Na volta o Raimond Princess. Por isso que eu ando meio balançando. (risos) A primeira vez que eu andei foi dentro do navio. Não recordo nada. Depois voltei muitas vezes a Portugal para compensar essa ida, que eu não lembro se fui ou não fui.  P/1- Qual a sua primeira recordação de infância? O senhor lembra como era a sua casa lá em Rancharia? R – Eu me lembro. Era uma casa de madeira. Isso era muito normal no interior e eu ficava vasculhando tudo, com aquela curiosidade infantil. Meu pai mudou umas cinco vezes na própria cidade de Rancharia, e eu fui acompanhando essas mudanças. Cada vez era mais curioso, mais interessante. Mas eu não punha de lado as coisas que eu fazia, que eram aquelas malandragens infantis, aquela criatividade. Quis fazer um túnel, pra fazer um laboratório secreto. Quase morri lá dentro.  P/1- Um túnel na terra? R – Um túnel na terra. Tipo assim; afunda aqui e ali e eu estava fazendo um maquinal, e aquilo desabou. Me puxaram e me salvei. Depois, eu comecei a ler a “passarola” do... “passarela” ou “passarola”, um avião, o primeiro, que era do Padre Gusmão, que é de Santos.  E resolvemos tentar fazer aquilo. Mas foi uma coisa mais absurda. Mas coisas que aconteciam. Mas nunca esqueci do futebol, jogava um basquetezinho no ginásio, o avião.  Porque Rancharia, o Estado todo, não tinha as estradas que tem hoje. Então, o transporte era trem, e avião.O primeiro vôo que eu fiz de uma série de outros infindáveis graças a Deus,  foi num DC-3 de Rancharia a São Paulo.  De uma empresa que não existe mais, a Natal Transportes Aéreos que foi depois comprada pela Real. Mas, a cidade do interior, ela tem coisas que numa cidade grande você é incapaz de ter. Você tem uma liberdade total.  Terra quente, pé na areia, queimando o pé, jogando qualquer tipo de bola no meio da areia, chegando todo sujo em casa e tomando a bronca da mãe, é claro. Minha mãe detestava futebol. Achava horrível futebol. Meu pai era ligado. Depois, veio as aventuras de você subir em árvore, comer o dia inteiro manga, laranja e começar a acompanhar. Eu acompanhei no começo, mais o futebol do Rio de Janeiro. Porque a rádio Nacional do Rio entrava forte. Era uma coisa terrível de forte. Eu não acompanhava tanto São Paulo. Fiquei vascaíno. Meu pai também era vascaíno. Nós éramos vascaínos. E era aquela coisa curiosa de meu pai me informar. Eu ia pro jogo. Eu ia pro jogo e depois criei um programinha lá. O serviço de alto-falante, e eu falava pro povo que andava no footing, dando informações esportivas. Tinha um programa de tango. Depois, veio a rádio local. E escrevia num jornalzinho que meu pai chamava de Folha de Alface. E tudo isso, tinha um campo de jogo, tinha um japonês, uma cidade com muito japonês, e eu fui jogar basebol também. Basebol é um jogo muito inteligente. Eu gostei de acompanhar o basebol. Veio a guerra, aquela guerra mundial terrível e nós todos no Brasil sofremos com o racionamento. Racionamento de sal, trigo, racionamento de gasolina. Muita gente não acredita que teve isso no Brasil. O pão era o pão de guerra. Pão de milho. Mas eu fui feliz. Minha infância foi feliz.  Passei o primário, com aquelas coisas que acontecem. Passei o ginásio. Fui orador do primário e do ginásio, e também trabalhei numas peças de teatro da cidade. Não podia faltar isso. Fiz o Pedro Malazarte, a Avozinha, o Secretário de Sua Excelência. Tive a minha experiência teatral e continuei fazendo rádio, que o rádio ZYV7 Rádio Difusora de Rancharia. Tinha a voz meio fraca ainda, mas depois foi ficando forte. E de Rancharia eu saí. O Ferreira Martins veio pro Bandeirantes e me trouxe para São Paulo. Vieram jogadores de lá, Polaco, o Swing. Uma porção de gente.  Mas naquele tempo, pra ser sincero, o jogador de futebol era olhado como marginal. Se uma mulher chegasse em casa e falasse: “Pai, estou namorando um jogador de futebol.”. Ele dizia: “Minha filha,você não entra mais aqui, porque esse é  um vagabundo.” Tempos. Época que ninguém ganhava muito. Hoje as moças ficam analisando os contratos, (risos) pra ver quem é um bom partido.  P/1- Seu Orlando, o futebol entra em sua vida primeiro pelo rádio ou pela brincadeira da bola.  R - Não. Entra pela brincadeira da bola. Mas eu comecei... A brincadeira me levou a ouvir o rádio também, a acompanhar e torcer. Quando jogava Paulistas e Cariocas, o Brasil jogando. Vasco, Vasco, Vascão. Depois eu comecei a acompanhar de São Paulo. Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos. Santos era time baixo naquela época. Ele tinha uma tradição de todas as suas glórias. Mas o Santos antes do Pelé e depois do Pelé, ou antes de 55 e depois de 55, é outra história. E foi assim que o futebol entrou de tal forma em minha vida, que eu vim para São Paulo pra estudar Medicina. Tinha duas faculdades aqui, era coisa cara, era dedicação total, e eu não tinha condição de dedicação total. Disse: “Vou fazer qualquer outra coisa. Vou fazer rádio, jornal. E foi aí que eu desviei um pouco da Medicina. Eu gostaria de ter sido, mas não lamento não tê-lo, porque realmente a Medicina exige uma dedicação plena, você lida com a vida humana. E isso é muito complicado. Como cronista esportivo você pode errar e não acontece nada. (risos) P/1- Seu Orlando, o senhor chega em São Paulo, vindo de  Rancharia em que ano? R – Quarenta e oito, com dezesseis anos de idade. Meu pai me deixou na estação e falou: “Aqui você pode ser um homem ou um marginal. É mais fácil ser um marginal.” Era uma primeira lição. Fui morar na casa do meu tio, irmão da minha mãe, mas ele era um pouquinho bravo. Eu ficava ouvindo o rádio, porque eu viciei em ouvir rádio esportivo. Então, não durou muito essa ligação com meu tio e fui morar numa pensão no Tucuruvi, longe, e jogava futebol na várzea. Jogava cada domingo num time porque era tão violento, sem conforto. Eu estava acostumado com banheiro, pelo menos chuveiro e eu não resisti muito.  P/1 – O senhor jogava em que posição? R – Centroavante. Eu comecei no gol, mas eu logo notei com inteligência que era pra louco (risos) Fui pra centroavante. Você erra, não acontece nada. Goleiro erra entra com tudo. E fui bom centroavante, modéstia à parte. Nos padrões da época. Era mais alto que os demais. Porque eu era filho de europeu e tinha uma alimentação diferente. Era uma vantagem. Era rápido, tinha limitações com algumas coisas, mas eu conhecia as minhas limitações e compensava já com o fato de eu acompanhar muito futebol. Eu tinha interesse pela técnica do futebol, que era a tática do jogo. Me interessava. Então foi fácil jogar futebol. Não acho difícil jogar futebol.  P/1- E o senhor já jogava na várzea no fim de semana e estudando...  R – Aqui. Mas aí aconteceu um episódio. Porque eu comecei a saber que o futebol era jogado no Pacaembu ou no Palestra Itália com os craques. E eu era jogador da várzea, sujeito a levar pontapés. “Vou pro estádio ver o jogo.” Aí virou onda no domingo. Craques incríveis. Donos de um domínio que eu jamais pensei que alguém pudesse ter sobre a bola. Foi aí que eu a não jogar. Jogar a gente ia aos sábados, quando ia jogar em clubes organizados. Mas eu não... Comecei a diminuir a minha atividade. Lá em Rancharia eu joguei basquete também. Mais ou menos. Basquete eu gostava muito. Ainda gosto muito de basquete.  Joguei basebol mais ou menos. Mais pra menos do que pra mais. E foi essa a vida esportiva minha, numa cidade pequena, que não tinha uma piscina. Rancharia não tinha uma piscina. Não tinha uma pista de atletismo. Tinha dois campos de futebol, dois estádios de futebol. Eram o Matarazzo e o Rancharia. Então você tinha que ficar ali. Essa coisa é que era interessante. Talvez não tenhamos grandes nadadores, grandes atletas. Temos agora. Porque não tínhamos a infra-estrutura básica. P/1 - E o senhor se lembra da primeira vez que o senhor viu um jogo em um estádio aqui em São Paulo? R – Olha, pra ser honesto, lembro. Foi o Sul Americano de 49. No Pacaembu. Eu fui ver o Brasil jogar com a Bolívia. Agora, o adversário é que às vezes eu confundo. Não sei se foi Bolívia ou Equador. Só sei que foi de 10 a 1. Foi a Bolívia. 10 a 1. Fiquei encantado. Nininho fazendo gol. Fiquei ali perto do alambrado. Depois eu vi os jogos. Eu comecei a trabalhar, tinha permanente no estádio. Permanente era engraçada. Era um papelão e tinha o porteiro lá, o seu Teixeira que furava, como se fosse passagem de ônibus ou de metrô. E a copa de 50, também era assim Era um papelãozinho com o nome do órgão e tal e tinha um perfurador modificado pra saber o jogo que você entrava.  P/1- O senhor então já conseguiu o primeiro emprego na imprensa. Aonde foi? R - Bom, o primeiro foi no Mundo Esportivo. O segundo foi no jornal A Equipe. Mundo Esportivo pagava muito mal, como só acontece ainda hoje em alguns órgãos de imprensa.(risos) Pagava mal e você tinha que trabalhar em outros lugares também. Eu fazia também a revisão do jornal. E no dia da revisão ficava feliz porque a revisão era feita no Correio Paulistano e o Geraldo Bretãs levava a gente comer no Carlino. Eu normalmente comia uma comida italiana que até hoje eu lembro, que era a lasanha. Uma lasanha maravilhosa. Mas hoje, nos restaurante que eu passei na vida, não encontro mais a lasanha.  P/1- Como era uma redação em 1950? R - Era uma exploração indevida. Era um cubículo. Todo mundo esportivo, que era semanário. Agora, dos outros jornais não. Nos grandes jornais a redação era grande. Última Hora veio pra São Paulo e revolucionou com o Samuel Wainer. Recordação que guardo aí no baú. E Estadão foi logo pra Major Quedinho e a redação da Folha viveu em alguns lugares até ir pra Barão de Limeira. Mas já peguei a Folha na Barão de Limeira. Tinha a Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite. Era do Nabantino Ramos. Depois é que os Frias e os Caldeiras compraram.  P/1 – Então seu Orlando, a primeira copa do mundo que o senhor acompanha, é a de 1950? R – De 1950. E a estréia foi no Pacaembu, quando a Itália jogou contra a Suécia e a Suécia ganhou por 3 a 2 e foi uma choradeira. Só tinha italiano no estádio porque aqui a colônia italiana era enorme. (risos) Mas dois meninos Jepson e Scoll acabaram com eles. E a Itália veio de navio porque eles estavam com trauma da morte do Torino e os outros vieram de avião. Os aviões demoravam, mas menos do que o navio. Foram dez dias, onze dias comendo num navio italiano, o cara chegava aqui sem condição atlética (risos). Coisa que já tinha complicado no Brasil em 38 e em 34. No navio comendo, sem fazer ginástica... Romeu, em 38, chegou na França com oito quilos a mais. Romeu Peliciari. E os outros também, vindo pra cá. Veio de navio, ficava sentado, tomar vinho e tal. Não tem... Não tinha... A Itália errou. E você vê que engraçado. Aquele episódio, em 1978 na Argentina, a França veio de Concorde, o avião mais rápido do mundo, um contraste espetacular. E a Itália, foi ao mundial de 38 de avião, que o Mussolini queria mostrar a força da Itália. Isso são curiosidades de mundiais que se perde. Mas, meu primeiro jogo foi Itália e Suécia. Aqui em São Paulo. Em 50. Mundial.  P/1 – E depois, como é que foi a seleção brasileira? R – A seleção brasileira perdeu na véspera. A seleção brasileira era campeã fácil, porque ela tinha um grande time e tinha o fato de levar vantagem contra o Uruguai. O Uruguai entrou pra cumprir, não tomar goleada. Só isso. E eu digo porque o Uruguai treinou aqui com a seleção universitária da FUP e perdeu. Era um time que tinha alguns grandes jogadores, mas tinha uma raça, uma fibra. E até os três minutos do segundo tempo, o Brasil ganhava de 1 a 0. Só precisava de um empate. Treze do segundo tomou um gol sem bater e o estádio com 200 mil pessoas. Terminou o jogo e aquele fosso era um mostro de bandeiras, de fogos jogados ali sem estourar. Uma choradeira que eu nunca vi em estádio. Uma choradeira. Mas perdeu na véspera por quê? Porque os políticos – era época de eleição – tiraram o time lá do retiro e levaram lá pra São Januário. E aquela correria de tirar foto, com jogador, já o Flavio Costa era candidato a vereador, e aquele calor desgraçado, o time perdeu a concentração e perdeu o jogo. Era melhor que o Uruguai. Muito acima da seleção do Uruguai.  P/1 - Tinha 200 mil pessoas mesmo no Maracanã? R - Olha, depois de 160 (mil) eles não contaram mais, que era uma invasão total. O estádio se completou ao longo da competição, o que aconteceu no Uruguai também. O estádio de São Januário não estava completo. Não estava terminado. Mas, não sei se 200 (mil), mas ficou por ali. Cento e oitenta e cinco. Acredito que muita gente nem viu o jogo. Era aquela fila humana. Era gente organizada. Muita gente de paletó e gravata. Era diferente. As épocas são outras. P/1- E o senhor como é que sentiu a derrota? R – Foi uma tremenda desilusão. Eu também estava campeão do mundo. Campeão do mundo. Eu não sei porque me deu um feeling e eu falei: “Isso aqui está meio...Campeão” muitas vezes. Quando fez o gol falei: “Agora não tem chance. Vai fazer o segundo e morreu o jogo.” Tomou o empate, e eu falei: “Agora reage.” E olha que eu ache o árbitro ruim, Mr. Reader. Ele talvez pra mostrar independência não deu pênalti pro Brasil. Mas, foi pênalti mesmo. E os próprios jogadores do Uruguai reconheceram que foi um milagre. O Jules Rimet, presidente da FIFA que estava na tribuna, desceu pra entregar o troféu. Ele desceu no 1 a 1. Ele não ouviu nenhum barulho no segundo gol. Ele já ia entregar pro capitão do Brasil o troféu. Aí falou: “Não. Ganhou o Uruguai.” Aí ele já virou e entregou pro Uruguai. Foram coisas que realmente aconteceram. O povo brasileiro tomou uma tamancada. Talvez até tenha sido bom. Porque depois se organizou e ganhou quatro campeonatos do mundo. P/1 – Ainda com relação a esse jogo seu Orlando, tem duas histórias que já ganharam uma dimensão quase mítica. A primeira delas é a do safanão do Obdúlio no Bigode. O senhor já respondeu. E a segunda é que o Barbosa teria falhado nos gols.  R - O Barbosa não esperava o chute do Ghiggia naquele canto, daquele jeito, sem ângulo. Foi um dos melhores goleiros brasileiros que o Brasil teve. Acontece.  O Brasil perdeu no detalhe. Perdeu. Tinha o Schiaffino que era um bom jogador, Obdúlio Varela. Mas esse negócio de o Obdúlio ter... O Bigode era um cara fortíssimo. O Bigode errou na marcação do Ghiggia. Se ele tivesse marcado cercando, ele não deixava o Ghiggia fugir. Tipo do detalhe. O Obdúlio... Pra você ver que os uruguaios ficaram tão surpresos com o resultado, que todos os anos, depois da Copa, iam dois dos jogadores do Brasil ao Uruguai, convidados pelos atletas uruguaios. Pra falar. O Obdúlio Varela, na noite do jogo, ele deu no livro dele, que ele se achou numa cidade que era um verdadeiro túmulo. E ele ficou triste. “Podia ser uma grande alegria, mas nós acabamos com essa alegria.” São coisas que acontecem no futebol. Só futebol está sendo essa mística de fazer o país inteiro parar, mesmo sendo sueco ou qualquer coisa. P/1 – Seu Orlando acaba a Copa de 50 e o senhor continua trabalhando na imprensa, e já vai então caminhando pra trabalhar em outros órgãos.  R – Eu paralelamente já estava... Eu era jornalista registrado, mas fui fazer Jornalismo e depois Direito. E continuei numa mudança de jornais, rádio. Primeiro minha base é jornalismo escrito. No jornal escrito dirigi a Gazeta Esportiva Ilustrada. A Gazeta e a passagem pra Última Hora, Diário da Noite e o Tempo. Foi um período de crise no jornalismo brasileiro. Fui trabalhar na Gazeta Esportiva, Fundação Casper Líbero. E lá, era jornal especializado, bem ao meu feitio. E tinha arrojo. Viajei muito pela Gazeta Esportiva. E aquilo que você falou de redação. A redação era simples, mas já muito maior do que os outros. Em cima funcionava a rádio Gazeta, no outro andar A Gazeta, que era o jornal forte na época, e eu comecei a trabalhar em edições de jornais e revistas internacionais. E também em jornal, fiquei na Gazeta Esportiva. Aí começou o rádio. Radio Bandeirantes, rádio Record, rádio Pan Americana. E foi esse circulo de emissoras. Depois, fiz trabalhos especiais pra emissoras do exterior. Comecei em jornais internacionais, A Voz da América, e comecei em televisão, que é o estágio do aparecimento. Na televisão, o maior trabalho meu foram os dezoito anos que eu trabalhei na TV Cultura, cheguei a ser o diretor geral da empresa durante três anos e dirigi acumulativamente jornalismo e esporte. E foi bom como experiência profissional. Trabalhei na Globo, fazendo boxe e jornal de esportes amadores, entrevistando. Trabalhei no SBT no mundial de 90 e no mundial de 94 e no mundial de 98. Trabalhei na... Esses são os básicos. Globo, SBT, Record. Esse foi o período que eu estava na rádio e fazia também televisão. Eu devo ter ido a oito Jogos Olímpicos, oito competições olímpicas, doze mundiais de futebol e fiz mundiais de automobilismo e basquete, tênis, e vários esportes. Eu gosto de todos.  P/1- Você ficou mais horas no ar do que na terra.  R - Já. Muito mais. Exagerando (risos), mas que eu voei muito voei. Voei do DC-3 ao DC-10. Voei em todos os aviões americanos, no Concorde francês, aviões ingleses, aviões russos. Graças a Deus o meio de transporte que destroçou com as distâncias. No passado era uma coisa aventurosa. A gente falava assim: “Vou ao Rio de Janeiro.” “Ah. Você vai ao Rio de Janeiro?” Hoje você vai ao Rio de Janeiro, em meia hora volta, vai lá conversar. Vai à Nova York num dia, volta no outro dia. O avião evoluiu bastante e foi bom. Pra você ter uma idéia, em 1952 eu fui fazer um Paulistas e Gaúchos em Porto Alegre, fui de DC-3, levei quatro horas sem escalas. E eu e um monte de jornalistas. No ano seguinte, eu fui à mesma Porto Alegre de Vaicont. Duas horas e quinze. No outro ano eu fui a Porto Alegre, de Caravelle. Uma hora e quinze. Eu ficava assim: “Isto está evoluindo demais.” E foi mesmo.  Hoje a televisão está aí mostrando. Não tinha televisão. A televisão começa no Brasil a crescer depois de 52, 53, porque o negócio era rádio e jornal. A televisão começou em 50 com a Tupi, mas tinha poucos aparelhos e era uma coisa começando. Essa é a abertura.  P/1- Seu Orlando, o senhor está falando no início da televisão. O senhor acompanhou o inicio das transmissões esportivas pela televisão? R – Acompanhei. Fui até com o Ari Barroso transmitindo, que ele fazia o gol com uma gaitinha turim turim, turim. Ele era muito engraçado. Em televisão o pioneirismo é caro. Na transmissão Rio - São Paulo, tinha que fazer links na serra da Cantareira várias pás pra rebater daqui pra lá, de lá pra cá, pra chegar. E foi num Brasil–Inglaterra, que foi uma expectativa imensa, conseguiu chegar a imagem do Rio pra cá. O único satélite. E eram transmissores com equipamento, câmaras pesadíssimas. Lentes que precisava virar. Aquelas lentes francesas, alemãs, japonesas. As compensações próprias. Você tinha que dar compensação no ganho da imagem, som. A evolução é tão fantástica que a cada instante nós falamos aqui, já está evoluindo. Uma tecnologia muita avançada. P/1- E como é que era nos anos 50, o senhor chegando pra cá, rapaz ainda, como é que era o panorama da crônica esportiva em São Paulo? Quem eram as pessoas que se destacavam.  R - Bom, tem alguns que ficaram muito tempo se destacando. Blota Junior, Aurélio Campos, Ari Silva, Geraldo Bretas, Geraldo José de Almeida, Wilson Brasil. Nós tínhamos... Édson Leite, Pedro Luiz. São Paulo ficou forte em rádio esportiva. A rádio esportiva não teve concorrência. São várias equipes. Isso também foi pro interior, pra outras cidades, entre elas Limeira, Piracicaba, Campinas. Vários esportes em varias cidades. Então, o jornalista esportivo que tinha – na Gazeta Esportiva tinha muitos redatores, repórteres de esportes. O Estado tinha página esportiva. O Diário da Noite. Última Hora esportiva. Weiner lançou aqui a Última Hora Esportiva. Era um jornal dele, mas só de esportes. Eu trabalhei lá. Escrevia sobre boxe, pugilismo. P/1- O senhor fez uma longa carreira na Gazeta Esportiva. Em que ano o senhor entrou? R – Eu entrei em... Deixa anotar porque eu anotei num papel pra ver onde eu estava e onde eu estive. P/1- Cinquenta e cinco? R – Não. Não... Por aí, 55. É verdade. E fui sair em 90 e poucos. Eu fiquei muitos anos lá e foi bom, porque como era um jornal esportivo e todos fomos convidados pra abrir a ata da Federação e o jornal mandava ver as Copas do mundo, excursões... Eu viajei muito, pro Santos, Palmeira, São Paulo, mas muito mais pro Santos. Muito mais. Com o Santos eu fui à África, fui à Europa, fui à Ásia, fui à América. Então eu vi muita coisa do Pelé, que me encantou. Alias, eu brinco com muitas pessoas, que depois de ver tanto Pelé, Seleção Húngara, Botafogo,Vasco, Palmeiras, Seleção Alemã, não devia ir mais no estádio.(risos) Era gostoso, quando via o Pelé como avante. Falam que ele foi o maior jogador do mundo. Foi o maior avante do mundo. Porque não jogou no gol, jogou de zagueiro, jogou no canto. Jogou no gol uma vez. Ele tinha aquela destria, aquela categoria da improvisação. No ataque. Eu sempre disso que Pelé que ele seria campeão de boxe. Campeão de qualquer esporte que ele fosse... Que ele aderisse a esse esporte. Ele tinha uma visão de grande angular. Ele tinha visão de enxadrista, que tem os três lances futuros... Então, quando ele subia, já tinha fotografado todo aquele lance, e magicamente ele parava a bola no peito, e enquanto o outro estava descendo, ele estava subindo. Isso é uma coisa fantástica. Um menino com17 anos capaz de dar um chapéu num zagueiro de dois metros, como no País de Gales na Copa de 58, dar dois chapéus no cara da França, da Suécia, que quase arrebenta a perna. Era um atrevido. Um atrevido. Irresponsável. Aliás, o Brasil ganhou em 58, porque tinha um monte de irresponsáveis. Garrincha. E o Pelé foi sempre uma figura assim diferente.  Ele tinha raça. Ele não olhava além da linha divisória do campo. Se você estivesse ali na frente dele, ele não te via, mas o campo estava delimitado. Tudo. Ele esquecia parentes, os amigos, tudo. Uma vez ele fez um gol no Chile tão sensacional que se fosse acompanhado pelo Spielberg, dava uma cena gigantesca. Ele recebe a bola na defesa do Santos, dribla um, dois. E o público vai fazendo assim: Ahhhhh. Público chileno. Era um time chileno. E ele vai, vai. Quando está na meia esquerda, ele cobre o goleiro e o público estora. Aquele segundinho de “esperada”, estora.  E ele vinha naquela montanha de jogadores. Eu estava querendo fotografar. Não fotografei. Também, pra que?  A lembrança foi superior à perspectiva com bola. E ele falou assim: “Foi bonito mesmo?” Igual um pintor que termina um quadro: “Foi bonito esse quadro?” Eu tive a felicidade de ver um Pelé...  P/1- Seu Orlando, antes de ser interrompido o senhor estava falando do Pelé.  R – Estava falando do Pelé, porque o Pelé é um marco na história do Santos.  Antes do Pelé e depois do Pelé. Em que pese o grande respeito pelo time de 35, campeão, depois aquele vazio, até 55, em que pese também o respeito ao time de 55, quando o Pelé começou a deslanchar, o Santos mandou no futebol, não paulista, nem brasileiro. Mundial. Se há um clube que mandou no futebol mundial tanto tempo, é o Santos. Durante 20 anos o Santos foi bicampeão das Américas, bicampeão do mundo e em torneios diferenciados e com um detalhe: com a entidade brasileira saindo do torneio da Libertadores. Santos ganhou seguidamente a Copa Brasil, cinco vezes. Cinco vezes seguidas. Ganhou tudo. 60 torneios no exterior. Jogou na Ásia, na África, na Europa, na América. E era um time que não tinha esse negócio de cansaço. Não tinha nada. Ele tinha vontade de jogar. E os prêmios eram pequenos, mas foi dando cada vez mais. Dando mais por quê? Porque foi recebendo mais. Com as histórias surgiu aí um time que tinha Álvaro, Del Vecchio. Um time que tinha Ramiro, Zito. Depois vai passando rapidamente e os maiores craques do Brasil jogaram no Santos. Carlos Alberto Torres, que foi pro Santos, era um craque do Rio. O Rildo que era campeão do Botafogo. Ali tinha Geraldinho também que era do Minas. No meio teve Mauro, do São Paulo, Olavo do Coríntians. No gol, Gilmar que foi ídolo, campeão do mundo. Bicampeão do mundo. Então o Gilmar e o Zito, foi um dos maiores jogadores da posição que eu vi jogar. Veio do Sul. Foi formando. Dorval, Coutinho. Aliás, centroavante, como centroavante teve três exemplos diferentes. Coutinho foi o maior atacante. Centroavante de área. O toque de Toureiro. Fazia o gol com um toque. Sem violência. Pagão, o estilista. Que recuava, lançava... E foi Pagão, Pelé e Pepe que massacraram os adversários em 1958. Quem menos tomou, acho que foi o São Paulo, 4 ou 5. O resto tomou de 6 pra frente. Palmeiras tomou sete, o Botafogo 10, o Nacional 11, o Ipiranga. Foi o ano que o Pelé, ele sozinho fez 58 gols. 58 gols no campeonato paulista. Somados muitos artilheiros, não dava o que Pelé marcou. E marcou de todo jeito. Porque era um time que começava ali. Dorval vencia, passava por Pelé, Pelé, Pagão. Pagão Pepe, que vinha... Pepe fez 500 gols como ponta esquerda. Como ponta esquerda. E o time que não fazia aqui só. Meteu 7 a 1 no Internacional de Milão em Vigo. Sete a um. Oito a três no Racing em Buenos Aires. E vai por aí. Seis a dois, 6 a 4 no Benfica em Paris. Porque também tinha aquela: o Santos fazia porque jogava no ataque e tomava. Tomava, mas compensava. Porque ele tinha uma média superior pra vencer. Foi inegavelmente um time que deve ficar nos anais do futebol, como um dos maiores clubes que já jogaram futebol por aqui, por ali, por acolá. O Santos foi assim: de jogar hoje em Nova York, viajar, viagens mais ou menos longas e chegar pra decidir campeonato paulista contra o Guarani de Campinas, e meteu 7 a 0 no Guarani em Campinas. Essa coisa do Santos estar perdendo do Vasco... Do Vasco não. Do Botafogo. Do Santos estar perdendo no Maracanã 2 a 0. Do Vasco. O Fontana começou: “Esse Pelé não é de nada.” Está acabando do jogo. Pelé não é de nada? Fez três gols seguidos e foi 3 a 2. E por aí a fora. E o Pelé passou a ser uma figura conhecida no mundo inteiro, quase como uma marca. Uma marca que era abertura de fronteiras. Pelé estava assim: Pelé está aqui, Pelé está ali. Eu viajei com o Pelé, vi muito o Pelé e não me arrependo. Olha, foi o grande momento da minha carreira.Ver o Santos e ver o Santos com o Pelé e sem Pelé. Del Vecchio, que morreu recentemente, grande centroavante. Jair Rosa Pinto foi um grande meia. Vasconcelos. O Santos teve times em seguida muito fortes e ganhando em qualquer lugar. Também, não tinha esse negócio de jogar fronteira. Me lembro de vários episódios. Vou contar um, pra mostrar a resistência do Santos. 1971, o Santos, depois da Copa de 70, vai a Hong Kong. Primeiro, ele pegou um avião aqui em Congonhas pra ir pro Rio, pra pegar o avião do Rio. E demorou. Chegou no Rio, demorou duas horas e tanto pra seguir a viagem para Lima e Los Angeles, porque tinham seqüestrado o embaixador alemão, e os pilotos da Varig tinham ficado presos na Av. Brasil. Sabe que com duas horas e meia de atraso, chegamos em Lima depois de cinco horas de vôo. De Lima fomos pra Los Angeles, mais um monte de horas de vôo.  Em Los Angeles troca de avião. O Santos viaja pra Anchorage no Alasca. De Anchorage – Tókio. Chega em Tókio, troca de avião. Primeira vez que eu vi um 747 e pensei: “Isso aqui não vai voar. Muito grande.” E fomos quatro horas pelo mar da China, até Hong Kong. Veja o tempo que o Santos... E lá na chegada tinha um monte de garotos pra esperar o Pelé. E mesmo assim o Pelé recepcionou, falou com todo mundo. Aquele cansaço que mata qualquer time, não matava o Santos. E no dia seguinte o Santos jogou com uma seleção de Hong Kong. Tinha um futebol inglês, mas bom, mais o de Hong Kong. Santos ganhou de 4 a 0. Ganhou de 4 a 0, e no intervalo – que é o fato que eu quero contar – o time dormiu. Dormiu. O Julio Mazei não falou nada. O Antoninho Fernandes também. Pra deixar o time descansar um pouco. Descansou, voltou, continuou o jogo. Jogou quatro partidas em Hong Kong, e ganhou as quatro partidas com absoluta autoridade. E voltou. A mesma viagem longa. Vai somando as horas. Eu sei que foram umas 36 horas pra lá, que ninguém mais sabia que dia realmente era. Por causa do fuso horário. Era uma confusão. Isso é um episódio. Há um outro episódio na África. Santos jogou contra o Senegal, ganhou. Jogou contra o Costa do Marfim, ganhou. E nós estávamos indo de Costa do Marfim para a cidade do Congo, Kinchaça. E tinha que parar em Douala, pra trocar de avião. Mas quando o Santos ia fazer uma parada no aéreo free com um DC8, em Gabão. Em Kotonu. Kotonu(?). Tinha que descer e estava um temporal incrível. E eu tenho um pavor de temporal. Pelé não está nem aí. Aí, o avião arremeteu duas vezes. Avião a jato, grande, lotado. Quando o avião conseguiu aterrisar, o Buglê Toninho e outros, queriam descer do avião. Pelé deu uma bronca neles. Zito também. Ficaram. Levantamos vôo, mas já perdemos a conecção a jato em Douala, nos Camarões. Nós íamos pegar o avião a jato  lá. Outro avião a jato. Chegamos lá, o outro avião já tinha ido embora.  Aí, resolve com um avião misto, cargueiro que ia pra Congo, Kinshasa. Nessa história toda, nós chegamos de manhã em Congo Kinshasa e o jogo era à tarde. Congo Brazzaville. Eu só sei que é no Zaire. Congo Brazzaville. Eu só sei que  eu estou sentado na primeira fila com o Pelé. É de noite, África, aqueles temporais tropicais, você vê relampejando. Mas está indo bem. Uma hora eu olho e vejo um motor – que era turbo – parado. Eu virei pro Pelé e falei: “Olha Pelé, tem um motor parado.” Ele estava meio dormindo e falou: “Você é mecânico?” “Não.”, “Você é piloto? Então dorme.” (risos) Você vê. Ele, o Pelé falando isso pra mim. “Então eu vou dormir.” Descansei, desceu o avião, nós fomos pro jogo de tarde. Mas foi dormir no hotel. Não foi ninguém se desintoxicar. (risos) Eu nem sabia o que era isso. Chegou no estádio, nós ficamos ali e tal, o time do Brazzaville correndo demais. Tinha criança desde as cinco horas da manhã no estádio. Chegou à noite. E o árbitro, meio patriota, deixava dar pancada no Pelé. Deixava... Eu estava sentado na tribuna de honra e o Toquinho Alves, do Jornal do Brasil pode confirmar. O presidente chamou o ajudante de ordens e falou: “Oh, (em francês) vai falar pro árbitro que se ele continuar a deixar caçar o Pelé, vou mandar prende-lo.” Eu vi o cara descer, daí a pouco ele... Pênalti no Santos.  Mas foi pênalti mesmo. Pênalti é o que não faltava. Ganhou o Santos. E nesse dia também, aconteceu um outro episódio. Eu fui ao telégrafo – que naquele tempo era telégrafo – hoje é tudo fácil. E cheguei no telégrafo está lá; Aujourd’ huy est fermé. – Hoje está fechado.  Bati, bati e chegou um cara lá; “aujoud’huy est fermé.”, “Mas por que?” Falou em francês: “joeux ici le roi du futebol” Era feriado  nacional porque jogava o rei do futebol. Eu falei: “mas nós estamos com a delegação do rei.”, “Ah. É?” Abriu, pra gente passar o telex. Você vê que imagem a do Pelé. Pelé é essa figura que ganhou força e o Santos, ganhou um time com o nome dele. No México... Ganhou torcida, porque a garotada se encantava. Eu vi um jogo do Santos no Pacaembu, que o Santos deu no Palmeiras de 7 a 6.  Foi um jogo fabuloso.  P/1- O senhor podia falar um pouquinho desse jogo? R - Foi um jogo noturno do Rio-São Paulo, e o primeiro tempo terminou Santos 5, Palmeiras 2. Mas no segundo tempo, Altafini e Mazola, virou o jogo, fez 6 a 5. Ele virou com o time do Palmeiras. Começou a jogar fantasticamente, mas nos últimos lances, o Pepe fez os dois gols que deram a vitória ao Santos, que ganhou por 7 a 6. Mas é inenarrável o jogo. Um jogo Palmeiras e Santos com 13 gols. E com essa variante de gols, essa variante de espetáculo. E o Pacaembu ficou louco. Eu acredito que foi um dos melhores jogos que eu vi na vida. Outra vez, nós estávamos lá em Paris, com o Santos. O Santos jogava o torneio de Paris, e jogava contra o Benfica. Era decisão. Em 50 minutos, 45+5, Santos fez 5 a 0. Aí entrou um negro no time do Benfica. Estreando. Tuc 1. Tuc 2. Tuc 3. A equipe começou a olhar pro cara: “Quem é esse cara?” Se esforçaram e fizeram o 6º. Terminou. Quem era o cara? Eusébio. Estava estreando no Benfica e fez três golaços. O time do Santos era assim. Ele variava o jogo. O Zito uma vez ficou doente na África – eu acho que ele teve febre amarela ou malária. Tinha febre de 42 graus. E não jogou. Nós fomos embora pra Itália e depois pra Alemanha. Na Alemanha, o Santos jogava com o Bayer München, Bayer de Munique. E o Zito fora. E o Bayer está ganhando o jogo, 3 a 2. No intervalo, eu vejo o Zito descer. Ele foi no vestiário e: “Franco, a camisa.”, “Como a camisa?”, “Camisa, ora.” Meteu a camisa, entrou em campo, o Santos ganhou de 4 a 3 numa jornada dele  “Vamos criolo, vamos lá.” - ele falava criolo - Vamos lá. E o time ganhou tal moral, porque o Zito tinha tido febre, estava doente e entrou em campo como um grande capitão e o Santos ganhou. Então, são essas coisas que não dá pra passar de outra maneira. O Santos tem essa fibra de ter uma jornada longa de títulos conquistados, uma jornada longa de craques, uma jornada longa de presidentes. Presidente ficou muitos anos Atiê Jorge Cury ficou muito tempo. Depois há um outro episódio do qual eu participei também. Foi no Chile, quando morreu o Mouran. O Mouran ficou ruim na noite e morreu. Morreu lá no Chile. O chefe da delegação. Tinha sido jogador do Santos, era o diretor de futebol, vice-presidente, padrinho de casamento do Pelé. Foi uma bomba. Plaaaaa! Alguém precisava segurar essa barra porque o Santos estava disputando um torneio internacional. “E vamos voltar.”, “Vamos voltar.” Eu falei. “Não voltem. É a pior homenagem que vocês estão prestando ao morto. Vocês não podem voltar. Vocês têm é que jogar.”, “Ah, mas não sei, pa pa pa...” “Vocês não podem voltar.” Resultado, o torneio começou a ser chamado Nicolau Mouran, pra amenizar. Eles foram levar o defunto no aeroporto e à noite jogaram contra o Colo Colo. E fizeram um minuto de silêncio com um toque de clarim. O time de pé, chorando. O goleiro, aquele moço que morreu, que foi um grande goleiro do Santos... – estou querendo lembrar o nome dele. P/1- Laércio? R – Não, não... Laércio morreu também. O outro. Muito simpático. Ficou doente e morreu. Mas já dá pra lembrar. E ele ali, o time todo. O time até acordar no jogo, tomou um gol, tomou dois. Mas ganhou o jogo, e ganhou o torneio. E aí então, “Então como é? Realmente, que fibra.” Eu falei: “Olha, vocês estão numa guerra e morre um soldado. Ou morre o general. Vocês têm que continuar na batalha. Tem que ficar aqui, jogar. É triste? É triste, mas pra família dele. Pra ele, morreu.” E o Santos continua a ter coisas como essas. E são muitas. As histórias são muitas.  P/1- Seu Orlando, eu queria voltar um pouquinho no tempo, e que o senhor contasse como é que foi o surgimento do Pelé? Quando o senhor teve contato primeiro com aquele jogador? Ele já virou notícia? R – Não. Ele começou muito modesto, simples, e um dia até ele estava na redação da Gazeta Esportiva pra receber um relógio, como um dos jogadores da seleção.  P/1- Em 58? R - Não. Jogador da seleção da semana. P/1 - Ah. Tá.  R – Tinha essa coisa de jornal. Ele estava com um prendedor de gravata largão, gravata. Ele era um capiau como eu. E eu falei pra ele: “Oi rapaz, do jeito que você está jogando, vai ser um grande jogador.” (risos) Até hoje me arrependo de ter falado isso. Porque era o óbvio. Já era um grande jogador. Eu estava querendo adivinhar mais ainda.  Mas ele passou a ser um grande amigo meu, eu nunca fiquei muito ao lado dele, porque há muitas pessoas que rodeiam lá. Eu nunca me preocupei com isso. Eu sou amigo dele, nos identificamos, saímos agora. Em qualquer lugar que a gente se encontra, nós temos uma relação de amizade. Eu fiz um livro: “Pelé, super campeão” que ele deu depoimento pra mim. Eu pegava na casa do Nicolau Moram, na casa dele e depois me concentrei e escrevi o livro. E eu, estou sempre atento, como um biógrafo. O Placar fez uma matéria e esqueceu que ele tinha uma filha chamada Jennifer, do casamento com a Rose. Eu liguei pra lá: “Vocês esqueceram-se da Jennifer.” “Ah. É?” “É Kelly, Edinho e Jennifer.”  P/1- É nesse Placar agora.  R - É. Nesse Placar agora. Agradeceu muito: “Eu não sabia. Não sabia, mas tem que registrar certo. Afinal, o primeiro negro que chega a Ministro nesse país, um nome que fez cinema bem, aquele V da vitória. Uma beleza. Tipo John Ford. Fez novela, fez música. Fez uma música até foi gravada pela Elis Regina. Então, uma pessoa que se firmou pelos seus méritos individuais. Todo ídolo é assim. “Ah, não é mais aquele.” Não é mais aquele, mas não joga mais futebol, mas continua a ser uma das figuras mais decantadas. Na Europa agora, na Copa do mundo, quando é que ele parou. Já parou faz muitos anos. Todo mundo: “ Pelé, Pelé, Pelé!”.  É uma figura mágica. Um nome mágico. E não é preciso dizer que a ONU considerou o Cidadão do Mundo. Numa pesquisa ficou patente que o nome dele, a marca dele era mais importante que o da Coca Cola. Pra falar uma coisa dessas precisa... E é brasileiro.  E eu também me lembro quando ele estava em dúvida se ia pro Cosmos. Me telefonou o Júlio Mazzei, me telefonou o Zoca “Ah, o Pelé, o crioulo não quer ir.”  Eu falei: “Traz ele no telefone. Você pode não ir, mas você não está jogando fora o teu dinheiro, está jogando fora o dinheiro dos seus filhos.”, “Mas eles querem que eu jogue.”, “ Não, não. Eles não querem que você jogue. Eles querem que você divulgue o futebol.” Resultado, ele foi pra lá, tratado como rei, divulgou o futebol dos Estados Unidos. Tinha lá escritório ao lado de Robert Bredford na Warner, tinha um prestígio... A despedida dele foi transmitida pro mundo inteiro. O Cassius Clay presente. Esteve com todos os presidentes dos Estados Unidos, nos programas mais importantes dos Estados Unidos. E fez um nome dele e do Santos porque era do Santos e dele. E o Santos Futebol Clube nunca perdeu nada em ter o Pelé nesse auge.  Não só ganhou com ele como jogador, que ele jogou muitos anos no Santos, como ganhou com o  prestígio que ele dava na divulgação do Santos.  P/1- Seu Orlando, o senhor já citou um episódio que o senhor viu do Pelé jogando no Chile. O senhor podia contar assim umas duas ou três histórias, da genialidade do Pelé em campo? R - Olha, ele é tão genial, ele foi tão genial jogando, que eu o viele fazer um gol contra o Internazionale de Milão, em San Siro que é o estádio de Milão, na final do torneio Itália 61. Porque a Itália é um país unificado há cento e poucos anos. Tivemos até a Anita Garibaldi participando disso. É um país novo, porque era um reinado, um ducado. E os italianos, pra fazer esse torneio Itália 61, levaram as melhores equipes do mundo: Estrela Vermelha, River Plate, o Santos, o Inter, o Juventus, o Roma, e fizeram o torneio. Mas era eliminatória simples. E me lembro que quando a gente chegou em Turim, que os jornais puseram “Civore o Pelé.” Bom, ele acabou com o jogo. No dia seguinte: “Pelé acabou com o jogo.” Fomos pra Roma, e em Roma puseram “Loiacco no Pelé.” “Loiacco no Pelé.” Cinco a zero.  Pelé fez 2 e o Coutinho fez 3. E aí fomos decidir o título, que a eliminatória todo mundo já se tinha matado pela estrada. Contra o Internazionalle de Milão, que foi buscar o Ritcher  na Inglaterra. “Ritcher ou Pelé?” Quem é o rei?” Ah meu amigo. Pra te contar, o último gol do Pelé foi um negócio que é inenarrável. Porque ele pegou a bola na lateral direita – estava 3 a 1 pro Santos – na lateral tinha três jogadores, e ele parou. E o povo vaiando. Parou. Veio esse e ele passou embaixo da perna. Subiu com um chapéu nesse, um chapéu naquele, o goleiro saiu e entrou lá no ângulo. A explosão de emoção da torcida foi genial. Ele fez a torcida transformar a vaia num super aplauso. E aí, tem outras histórias. O Santos foi jogar em Karlsburg  depois de ganhar o torneio Itália em 61, contra um time razoável da Alemanha. O Santos começou “pa pa pa pa”, fazendo gols e tomando gols. Você pode ler nas histórias dos jogos do Santos, que esse jogo terminou 8 para o Santos e 6 para o Karlsburb. O Laércio tomou 3 e o Lalá 3. E eu me lembro do  desespero do ataque. “Vocês vão tomar gol até quando. Vocês vão tomar gol até quando?” (risos) Porque eles queriam acabar com o jogo e faziam gol e tomavam gol. O Lula até tirou um e depois pôs outro.  E assim, a história do Santos, do Pelé, ele jogando...Eu me lembro do Tim. O Negreiros reclamou um dia lá em Carranco Cadiz. “Pois é. Nós estamos esperando o que?” O Tim falou: “Pergunta ao time.” “Como ao time? O Pelé? Ele já vem já.”  “Pó. Estamos esperando.”  “Você está aqui porque ele está aqui. Senão, vocês não estavam jogando aqui.” Essas coisas. Em 1963, o Pelé não saiu pra excursão com o Santos, porque ele tinha recebido uma pancada violenta no ombro, lá no México, do Delacha, um argentino. E ele melhorou, se recuperou e foi pra Europa. E chegou em Basen na Suíça. E tinha uns cartazes sobre Basen, seleção da Basiléia e nada mais. Aí, puseram assim: “Pelé chegou e joga” – em alemão. “Pelé chegou e joga” – o estádio ficou lotado. “Pelé chegou e joga.” Foi 8 a 2 pro Santos, ele fez 3, esqueceu o ombro e saltava. (risos) E o Coutinho fez os outros. Aí a torcida da Suíça invadiu o campo pra carregar jogador. Eles estavam carregando o Brandão, que era de Santa Bárbara do Oeste, pensando que era um dos craques. “Quem é esse?” Brandão. Pá! Jogaram no chão (risos) Coitadinho do Brandão. Eles estavam querendo pegar e carregar o Pelé. Coisas do Pelé, do grande Pelé. O grande atacante Pelé. P/1 – E no livro do senhor, o senhor cita um jogo que na Volkswagen. R – Em Folsburgo, na Alemanha, na fábrica da Volkswagen. Eu cito esse jogo. O Santos não poderia fazer pelas regras da legislação esportiva, porque tinha que ter intervalo entre um jogo e outro. O Santos tinha jogado três jogos seguidos, e ele foi à Foslburg pra visitar a fábrica, jantar, almoçar na fábrica até o Lula falar: “Você entra aí depois, pra gente mostrar o que é treino.” Deu a camisa 18 pro Pelé, uma coisas bobas. Dezessete, dezesseis, estádio lotado. E eu fui almoçar e falei pra ele “Ganhei minha chance.” Acabei de almoçar, o estádio está lotado. E foi verdade. O Santos ganhou, não deu em nada, mas que perseguiam o Santos, perseguiam. Era difícil. Tomava o time na Europa pra jogar pela seleção. Ele estava na Europa, pegaram quase o time inteiro pra jogar contra a Inglaterra em Wenbley. Empatou 1 a 1 e o Santos continuou a viagem dele. Jogando. Aí, ele estava em Stuttgart, a seleção do  Aimoré estava...A seleção com Aimoré estava  em Stuttgard, pegaram de novo vários jogadores do Santos  pra jogar contra a seleção alemã. Isso o Santos tinha. O jogador queria jogar, queria seguir, sem problema nenhum. O Santos Futebol Clube, é um grande exemplo pras gerações atuais, por essa fibra, essa disposição. No passado era chamado o campeão da técnica e disciplina. Antes do Santos, do Pelé.  Depois passou a ser o super campeão da técnica. Da disciplina nem tanto às vezes. Mais da técnica sim. P/1- E como é que era o esquema tático que esse time do Santos e do Pelé jogavam? R – Não era assim: você pega, dá a camisa pro Pelé e estamos conversados. Não era assim. Porque eram só grandes jogadores. Eles mesmos sabiam as suas funções. O Lula era um teórico limitado, porque ele tinha vindo da Portuguesa Santista. O Antoninho Fernandes não porque ele era um ex-grande jogador do Santos. Antoninho foi um grande meia. Mas era basicamente 4-2-4. Basicamente. Às vezes 4-3-3 pra marcar e evitar o gol. Mas uma bola com aquele ataque era mortal para o adversário. Aí, não há tática que agüente. Garrincha. Qual o sistema pra marcar Garrincha? Tem Pelé. Pelé era forte, tinha vigor e então não tinha marcação adversária que impedisse de ele avançar. Se o jogador apelasse pra pontapé, ele respondia. Ele era forte. Ele nunca teve uma grande contusão na vida dele. A força dele era...  E depois com o tempo, os jogadores já começaram a temer pelo Pelé. “Eu vou marcar o Pelé. O que eu faço?” “O que eu faço.” “Vamos marcar dois.” “ Não.” Portugal na Copa de 66 apelou pra pontapé pra contundir o Pelé. Conseguiram. Havia o Strapatone da Itália que gostava de marcar o Pelé dando pontapé. Mas o Pelé vencia. Venceu todos. O Aldemar  aqui do Palmeiras marcava bem o Pelé, sem violência. Mas não era fácil não. Pelé quebrou a perna do Procópio jogando Santos – São Paulo. Quebrou o nariz de um argentino no Pacaembu. Quebrou a perna de um alemão no Maracanã. Porque ele respondia, mas respondia de tal forma... Agarrou a orelha de um jogador inglês no Uruguai lá na Copa de 70.  P/1 - Como é que foi isso aí? R – Ele sempre atento, não tem visão dupla e sabia onde estava o árbitro. Agarrou o cara pra puxar a orelha (risos) Não sei se foi o Matossi. Um desses uruguaios. Naquele jogo de 70, quando o Brasil mostrou pra todos os adversários que ele era melhor que eles. Porque o Brasil em 70, se vingou. Da Inglaterra em 66, do Uruguai em 50, da Itália, dos campeonatos anteriores. E todo mundo que entrou na frente levou prego. Porque o Pelé estava preparado pra isso. Ele disse a mim que mesmo se morresse um parente na véspera do jogo, ele não voltava ao Brasil. Ele queria voltar campeão do mundo! E foi o grande condutor da Copa. Ele foi o grande condutor da Copa de 70. Como o Garrincha em 62, quando o Pelé se contundiu. Em 58, todo mundo sabe a história. Ele era garotinho, mas com Didi, Garrincha, Djalma Santos, Newton Santos... Era um timaço. O maior time que o Brasil já montou. A Copa de 58. Não é de 70. P/1- Sempre houve uma polêmica que a entrada do Garrincha e do Pelé na Copa de 58, se deveu a quem? R – Em 58? Bom, O Pelé só não foi como titular no começo, porque ele se contundiu no Pacaembu, num jogo treino com o Corinthians. Ari Clemente deu uma entrada nele, violentíssima. E ele só viajou porque o Dr. Paulo falou: “Ele vai viajar. Mesmo que não jogue.” Porque o Dr. Paulo sabia que ele ia se recuperar. Quando ele se recuperou, ele estava pronto pra entrar. Ou no lugar do Vavá ou no lugar do Altafini. Quando um se machucou ele entrou. E não saiu mais. O Garrincha, o Joel, ponteiro do Flamengo era, mas os próprios jogadores que jogavam com o Garrincha, Newton Santos, Didi. Feola que falaram por Dr. Paulo. “Essa rapaz quando entrar mata o adversário.” E também mata. O Garrincha era “inemarcável”. Não tinha história. Ele saia, mas saia com uma velocidade, que já deixava pra trás o marcador dele, o João, todos, do mundo inteiro. O João era aquele... (risos) Era um irresponsável. Parecia o Cantinflas. É isso aí.  P/1- Seu Orlando, o senhor podia falar um pouquinho – o senhor foi testemunha do primeiro campeonato mundial conquistado pelo Santos? R - É. O campeonato era diferente, porque tinha jogos contra a equipe da Europa na Europa, e jogos aqui. Contra o Benfica não teve problema lá ou aqui, mas foi uma partida inesquecível para muitos. Pelé diz até que foi uma das melhores que ele disputou.  E o estádio da Luz estava lotado e o Santos fez cinco a dois. Mas não é que fez cinco a dois. Ele matou o adversário que tinha o Coluna, tinha Eusébio. Era um timaço. O time de Portugal era já um campeão europeu. Um time forte. Essa foi uma partida inesquecível do Santos.  A outra Copa, o Santos ganhou na decisão contra o Milan. Ele perdeu lá em Milão, 1 a 0, numa partida normal. Podia ter ganhado, mas perdeu. Aí veio pro Maracanã jogar em novembro de 63, e foi uma partida, no dia 3 de novembro, inesquecível a partida, que levou o Santos à final. Chovia torrencialmente, ele não pode usar alguns jogadores, inclusive o Pelé. O Milan também não pode contar com o Dino Sani e estava ganhando o Milan. Aí o Pepe, rigorosamente acabou com o jogo. Chutes fortíssimos. E o Santos ganhou 4 a 2. E foram pra decisão no Maracanã, no mesmo Maracanã. Aí o Almir, com pouquinho, realmente na minha opinião, um pouco alem do preparo físico (risos) ele perturbou muito o italiano. E um pênalti marcado pelo Juan Brossi, pênalti cobrado pelo Dalmo, deu ao Santos o título. Nas duas oportunidades, o Santos mereceu. E digo mais. Se tivesse disputado mais torneios o Santos teria ganhado mais dois, três, quatro campeonatos mundiais. Porque houve períodos que a CBD brigou com a Confederação Sul Americana e não queria brasileiros em toda a Libertadores. O Santos foi prejudicado porque ele tinha time pra ir ganhando de todo mundo.  E ganhava. Hoje então, seria mais fácil, pelo sistema adotado.  P/1 – Seu Orlando, o senhor acompanhou também a Libertadores que o Santos venceu? R - A Libertadores teve uma curiosidade pra ser destacada. Foi aqui na Vila Belmiro. O Santos hostilizou o árbitro... Foi um jogo longo, começou num dia... P/1- Contra... R – Peñarol. Começou num dia e acabou na madrugada do outro e não acabou. Porque o árbitro, pra sair livre da Vila, sem apanhar, ele pôs que o Santos ganhou de 3 a 2. Mas na súmula, ele pôs que o Santos não ganhou o jogo.  E aí, o Santos teve que disputar em campo neutro uma decisão. Foi ao campo do Boca Junior, na Argentina e ganhou de 3 a 0.  Porque ele jogou normalmente. Jogou sob pressão e não teve condições. E ganhou bem a Libertadores. Contra o Boca Júnior, que é uma força lá. Na minha opinião, naquela época, na grande época, o Santos ganharia também, oito Libertadores. Tinha mais time que todos. Ele disputou hexagonal, pentagonal, quadrangular, no Chile, que tinha sempre no começo do ano, e ganhou de todo mundo. Sempre. Do River Plate, do Racing. Ganhava do Colo Colo, da Universidade do Chile, Universidade Católica. Ganhou do... Ele ganhou da Tchecoslováquia, logo depois da Copa do mundo de 62, da seleção da Tchecoslováquia por 6 a 4 em Santiago. Você pode pegar os jornais daquela época e está lá. Foi um jogo dos sonhos Uma partida também inesquecível. O Santos ganhou de 6 a 4. A mesma seleção, com Lala, Masopuski, que tinha pegado o segundo lugar na Copa de 62. Muito forte o Santos.  P/1 – O Santos ganhou, no ano de 60, cinco Brasileiros.  R - Seguidos. P/1- Hoje, essa estatística não vale.  R - É Copa do Brasil. A estatística não vale pra muita coisa quando isso lhe interessa. Quando não interessa, vale. Flamengo por exemplo, não é campeão brasileiro. O campeão brasileiro de um ano aí foi o Sporting do Recife. O Flamengo se negou a jogar com o Sporting. E dá os títulos, dois títulos. O Santos ganhou cinco campeonatos Copa do Brasil seguidos, mas indiscutível. Na última, ele ganhou do Bahia, na Fonte Nova, por 6 a 0. Lá na Fonte Nova.  P/1- E o senhor considera que já era um campeonato brasileiro? R – Ah! Sim. Se não tinha outro. Só tinha o de seleções. Também acabaram com as seleções quando São Paulo ganhou cinco seguidas. Quando São Paulo foi pentacampeão brasileiro, acabaram com todas as seleções. “Não interessa mais.” Como não interessa? O Santos foi prejudicado num período de uma política meio enviesada. O Santos teve dificuldades em sair pra jogar, porque faziam mil exigências. E o Santos escapava, entre um jogo e outro escapava, jogava duas, três partidas e voltava. Aí, quando ele começou a ser encarado como verdadeiro embaixador do futebol brasileiro, amenizaram a carga. Mas pra convocar, eles convocavam o time inteiro do Santos e do Botafogo. Que na época eram grandes equipes e formavam uma seleção. Então, o Pelé era convocado, o Pepe, o Dorval. Convocava o Gilmar, e todo mundo. E convocava com os do Botafogo. Então, o Santos ficava inviabilizado pra jogar partidas dele, Santos. Foi um período difícil para o Santos, para ser respeitado nesses termos: “Eu sou um clube profissional e tenho que ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro em dólar. Trazer dólar para o Brasil e jogar futebol. “Então, era aproveitar do Santos, e o Santos teve que ceder em muitas ocasiões, ou ir com o futebol brasileiro. P/1- Seu Orlando, o senhor é um biógrafo do Pelé. Como é que surgiu essa relação de confiança, até culminar em escrever a biografia dele? R - Sabe que confiança, segundo dizia um farmacêutico de Rancharia, não se compra. Ganha-se com o tempo. Adquire-se. Eu não procurei me aproximar demais dele. Crítico esportivo aplaudia, aceitava. Ele não me dava prioridade, nem eu queria. Então, ajudava os outros cronistas, facilitava a entrada de jornalistas estrangeiros pra falar com ele. Ajudava até na tradução muitas vezes, mas sem nenhum interesse. Nenhum. Uma vez ele falou pra mim: “Você não quer ser meu secretário?” eu falei: “Não. Sou jornalista.” Às vezes ele me telefonava e falava assim: “Olha, eu tenho que mandar um dinheiro aí, pra ajudar a tirar a mudança de um cara, que a mudança está parada.” “Olha, eu tenho que dar uma cadeira de rodas pra um cidadão aí. Você pode fazer isso pra mim e pagar?” E demorava pra devolver o dinheiro. E eu brincava com ele. Ele chegou, “Eu estou com a Sanitária Santista me dando um déficit de 10 milhões de cruzeiros por mês.” Falei: “Você vai á falência.” “Como é que eu faço, tenho funcionários, empregados?” Falei: “Indeniza os empregados, arranja emprego pra eles com o seu prestígio e fecha.” Foi assim que ele fechou a Sanitária Santista. E foi bom pra ele, porque era um buraco sem fundo. Na Copa de 74 da Alemanha, que ele não quis ir, eu fui o cara que mais instigou ele a ir. Porque ele tinha condições de jogar. Foi uma festa no Hilton, falei. E a festa era preparada pra falar pra ele não ir. Eu não sabia, mas também não ia ser coadjuvante e ele falou: “Você e meu pai não me largam o pé.” Eu falei: “Os amigos são pra isso.” Gilmar foi falar com ele. Bellini. Pra ele ir, pra ele ir jogar. Resultado: ele não foi, não jogou. Ele foi como garoto propaganda da Pepsi, não jogou, comeu as unhas, ficou com desinteria, ficou mal, porque ele queria jogar. Como os anos passam, depois ele falou: “Olha, você tinha razão.” Eu tinha razão porque se ele jogasse 74, 78 e se quisesse, 82. Porque você chega em cima da hora, treina e joga. Você tem todos os recursos. Tem a regra três: você pode jogar no segundo tempo. “É. Você tinha razão.” Eu tinha razão. Os recordes existem, mas podiam ser mais largos. Jogar mais. E quando ele perguntava: “O Santos quer reformar meu contrato, o que você acha?” “Acho que você deve pedir o que você vale.” Aí nas excursões. Me lembro até do dia. Nós estávamos voando de Washington pra Miami, parou em Fort Laderdale, um temporal em Miami. Ele falou: “O que você acha?” Falei: “Eu acho que você deve pedir uma parte da Copa. Só existe a Copa porque você vem. E outra, você deve pedir, que perdendo ou ganhando, os outros jogadores recebam um prêmio de vitória.” Abriu os olhos: “É verdade.” E muitas perguntas assim, que escapavam. Ele vinha, com aquele jeitão desconfiado. Como ele viu que eu não queria nada dele, nem um cents, nada, ele falou perto da minha mulher: “Você não é enxerido.” Uma vez. Enxerido quer dizer intrometido, que se aproveita. Mas em muitas outras ocasiões, ele sentiu que a minha amizade por ele era uma amizade pra um cidadão. Nada de amizade: “Ah. Eu vou me beneficiar. Pelé.” Pelé Ministro. Encontrei com ele e falei “Oh Ministro.” Ele: “Porque você me chama de Ministro?” “ Porque você é Ministro. Ou você não é Ministro?” “É, mas não precisa.” “Precisa. Em público precisa. Porque em público, você é o Ministro e eu tenho que respeitar o Ministro. Agora em particularmente – Dico, Toca, Zico, Crioulo. Isso é outra coisa.” Ele ria. Era uma boa figura. Gosto dele.  P/1 – E como é que foi o processo de você fazer o livro? R – Bom, eu tinha uma idéia de fazer o livro, mas houve o seguinte: um advogado comprou os direitos de fazer capítulos na revista Placar. E me contratou. Uma coisa assim: ele ganhando uma fortuna e eu ganhando um pouquinho. Mas eu escrevi pro Placar que estava tirando 75 mil exemplares e passou a tirar 150, 13 episódios. Bem, resolvi fazer o livro. Falei: “Vou lançar um livro com aquilo tudo.” “Falou: Fica pra você.” E escreveu. “Então escreva: os direitos autorais são todos de Orlando Duarte, pa pa pa.” E lancei o livro. Ele falou: “Está bom esse livro. Ele veio no lançamento, ficou ao meu lado ali autografando e numa boa. E nunca houve... Às vezes ele queria guardar qualquer coisa, mandava pra minha casa. “Guarda pra mim esse filme.” Outro dia um cara ligou aqui em minha casa e falou assim: “Você tem aquele filme do Pelé feito pelo Fábio Cardoso?” “Tenho.” “Eu estou pedindo. Você pode dar?” “Claro. Pode mandar buscar e leva pra você.” Estava guardado, como ele queria. Fiquei muito amigo do Zoca, que é uma grande figura. Achei também, que a família do Pelé, Dona Celeste, seu Dondinho, foram sempre muito bons. Nunca  se misturaram. Nunca ficaram: “Ah. Sou o pai do Pelé. Sou mãe do Pelé.” E essa formação dele, de saber que o pai foi um jogador com problemas, deu a ele essa preocupação de não ter resguardo financeiro. Então ele ficou um pouco  muquirana, ficou um pouco  pão duro. Mas, isso também não é mesmo problema. A verdade é que ele não vai passar nenhuma necessidade até o fim de seus dias. E nem os seus filhos. Ele soube ganhar e guardar.  P/1- Seu Orlando, o senhor já está preparando um novo trabalho que envolve o Pelé. O senhor pode... R - Eu estou lançando o livro: “Fried versus Pelé” Friedeich  foi o primeiro grande astro do futebol brasileiro, com méritos, que jogou até 193... Que a FIFA tem registrado lá, que o Friedreich fez 1399 gols, mais que o Pelé. E eu, com o auxilio de um piauiense, Lorival, estamos provando nesse livro, que não é verdade, sem diminuir os méritos do Fried, que tem até um chorinho feito pelo Pixinguinha em homenagem a ele. 1 a 0. Foi o gol que ele fez na decisão do Sul Americano de 1919, no Rio. Foi um grande artilheiro, e uma grande figura. Então, é só pra colocar os pingos nos ii, mas é um novo livro, pra defender o Pelé, que é uma memória que tem que ser preservada. Ele é um ídolo brasileiro, que o mundo conhece. Como conhece outros ídolos, mas ele pra mim, é o maior ídolo que esse país já teve.  P/1- Seu Orlando, uma pergunta que a gente faz a todos os entrevistados, pra finalizar: Como o senhor se sente agora, incluído no Museu do Santos, nesse trabalho de preservação da memória que o Santos está fazendo?   R – Eu sabia que eu ainda ia acabar em museu. (risos) Graças a Deus. Pra ficar gravado na história, aos pósteros. Eu fico feliz, acompanhei as gestões do Santos nesses anos todos até essa data. Só tenho que falar com a gente do Santos, que eu amo o Santos como instituição, respeito seus dirigentes.Os jogadores atuais nem sabem bem como foram os anteriores. Quando o Pelé parou, eu propus - mas acho que esqueceram - pra por um “dezinho” de ouro na camisa. Agora vou propor pra por aqui, porque eu vi que quando morreu o Joe di Maggio agora, todos os jogadores yankees de basebol, estão com o nº 5 no peito, que era a camisa que ele usava. Então, é uma maneira de falar. Por que esse 10? Por causa do Pelé. Por que essa estrela? Por causa do mundial. Por que essa outra?  Porque fizeram a história. Você tem que manter viva uma chama tão importante como um menino de Três Corações. Tricordiano. Ainda bem. Se ele não tivesse três corações, já tinha batido com as dez. (risos) Eu fico muito feliz com essa entrevista, quero cumprimentar vocês por fazerem esse Museu, e nós temos sim essa responsabilidade de preservar a história do esporte que nós amamos tanto, que é o futebol. Um esporte mundial, e que eu tenho certeza que nos lugarzinhos mais escondidos do mundo, todo mundo sabe quem é o Pelé. Todo mundo sabe. Eu testemunhei isso nos cinco continentes e considero que até evoluiu mais a marca do Pelé. A marca do Pelé foi realmente fabulosa. Pelé e o Santos. O Santos se beneficiou do Pelé. O Santos forçou a sua presença no futebol mundial, muito bem, com grandes craques, mas facilitado pelo Pelé. O Pelé tem que ser cada vez mais homenageado. P/1- Seu Orlando, então a gente agradece a sua entrevista e esperamos continuar a contar com a sua ajuda para continuar esse trabalho aí do Museu do Santos.  R - Pode continuar contando comigo.
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