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História

"Voz da Unidade"

História de: Iara Braga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2022

Sinopse

Iara Braga conta nessa entrevista um pouco sobre sua participação no Partido Comunista na década de 1980.

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História completa

P1 – Boa tarde.

R – Boa tarde.

P1 – Pra iniciar eu gostaria que a senhora me dissesse o seu nome, o local e a data de nascimento.

R – Meu nome é Iara Braga. Nasci no Rio de Janeiro no dia 12 de agosto de 1940.

P1 – E a senhora veio pra São Paulo quando e por quê?

R – Eu vim pra São Paulo em fevereiro de 1979 porque meu marido na ocasião era funcionário federal e foi transferido pra cá.

P1 – E qual é a relação que a senhora tem com a Paulista, dona Iara?

R – Olha, todas as relações do mundo. De amor e ódio, de medo, de vontade de abraçar, entendeu? De respeito... Eu tenho todas as relações que uma pessoa pode ter com essa cidade e de preferência aqui com a Avenida Paulista.

P1 – A senhora reside aqui perto?

R – Sim. Resido aqui perto, aqui do lado.

P1 – A senhora mora na Avenida Paulista mesmo?

R – Moro na Avenida Paulista.

P1 – E há quanto tempo faz que a senhora mora na Paulista?

R – 30 anos.

P1 – E me diz uma coisa, qual foi a primeira impressão que a senhora teve quando a senhora viu a Paulista?

R – Ah eu tive de medo porque eu cheguei aqui foi numa quarta-feira de cinzas, não tinha carros na rua, quase não tinha carro na rua antes do meio-dia. E aí nós pusemos o nosso carro na ocasião com as quatro rodas em cima da calçada, com dois filhos dentro do carro, pequenos ainda... Gaiola de passarinho e tudo aquilo que a gente tinha direito. Nós estávamos mudando pra cá, na esquina da Paulista com Consolação. Então nós pusemos o carro com as quatro rodas literalmente em cima da calçada e fomos procurar alguma coisa pra comer. Quando nós voltamos parecia que era uma UTI, todo mundo em volta do carro, gente, polícia, e a gente achando aquilo muito estranho. Pô, uma calçada larga, entendeu, cheia de espaço, por que não botar o carro? Aí ficamos sabendo que... Assim, a falta era tão grande, mas era tão grande que não dava nem pra multar. Os caras resolveram entender que a gente estava como alienígenas. A gente achava aquilo normal porque é normal no Rio. Pelo menos era, né? E aí a gente foi começando a aprender a viver dessa forma, entendeu? Assim de ver que, as pessoas daqui não saem de sandália de dedo. Eles não saem de havaiana, sabe? Não sai de short e havaiana pra ir ao mercado. E aí com o tempo a gente foi começando a ficar, e a gostar, e a entender, e a amar, sem mudar... Eu pelo menos sem mudar muito a minha forma de ser, consigo conviver. Hoje é o único lugar que eu moraria. Tanto assim que eu me separei, meu marido foi pro Rio de Janeiro e eu fiquei aqui.

P1 – Olha, que maravilha... Diz-me uma coisa Dona Iara e a senhora... Qual que é a... A senhora tem alguma história que a senhora viveu com a Avenida Paulista durante esses 30 anos que a senhora achou que foi muito marcante pra senhora... A senhora tem alguma história pra contar pra gente? Ou que te chocou, fora essa que a senhora contou do estacionamento.

R – Olha, eu acho que uma história bem interessante que eu guardo no fundo do coração foi quando eu vendia o jornal Voz da Unidade do Partido Comunista Brasileiro. Eu era a responsável pela venda dos jornais nas bancas da Avenida Paulista e eu... Era toda sexta-feira, eu saia de... Às cinco horas da manhã eu tinha que estar aqui já, vendendo o jornal ou trocando jornais da semana anterior para aquela semana. E eu fazia isso com muito prazer, com muito orgulho. Foi isso que me fez viver tanto tempo também aqui de uma forma assim tão plena. E às sete horas eu tinha que estar em casa porque era mais ou menos um código, ou eu estaria em casa às sete horas ou a polícia poderia ter me prendido. Então eu fazia essa correria toda, toda sexta-feira e deu tudo certo e assim eu fui vivendo. Isso é uma das coisas, né, que...

P1 – E me diz uma coisa, a senhora... Que época foi isso que a senhora vendia o jornal do partido comunista e quando que a senhora entrou para o partido?

R – Ah eu entrei pro partido muito cedo, eu entrei com 17 anos. Mas eu entrei no Rio de Janeiro. Eu entrei pelas mãos do Agildo Barata.

P1 – Olha...

R – É. Ele tinha um jornal chamado “Nacional” e eu fazia estatística...

P1 – Ah tá.

R – E aí eu entrei pelas mãos do Agildo Barata... Século passado, vai.

P1 – Não. Não é tanto tempo assim. E aí a senhora, quando veio pra São Paulo que a senhora vendia o jornal, em que época era isso?

R – 1980. 1979 ou 1980. Assim que eu cheguei pra cá eu já vim militando, eu não...

P1 – E me diz uma coisa, teve algum fato com o partido comunista que foi interessante aqui, alguma coisa em termos de perseguição, algum problema que vocês tiveram por fazer parte do partido?

R – Olha, algumas coisas sim, mas não muito sérias. Comigo não muito sérias. Teve uma ocasião em que nós fizemos uma festa do jornal “Voz da Unidade” e o meu apartamento era bem grande, e nós alojamos o pessoal das ligas camponesas, sabe? Então assim, eram cinco pessoas das ligas camponesas e a polícia não deixou que a festa acontecesse. Então eu não tinha como alojar aquele pessoal todo, tive que pedir colchão emprestado e tal, sem dizer pra que era, é lógico eu tinha que ter assim certo cuidado. Então eu não tive nenhuma, pessoalmente... Nada de muito assustador. Agora muito emocionante não só aqui, mas como todo Brasil, foi o ato pelas Diretas no Pacaembu, já indo no Pacaembu, né?

P1 – Mas vamos voltar um pouquinho.

R – Tá. Tá.

P1 – A senhora falou que... Depois eu quero que a senhora fale sobre as diretas, mas a senhora falou que entrou pro partido aos 17 anos. A senhora chegou a conhecer o Prestes?

R – Conheci, lógico, aqui em São Paulo.

P1 – E como é que era...

R – Não! Conheci no Rio! Conheci no Rio, na ABI. Quando houve uma cisão entre o Prestes e o Agildo Barata, então... Eu era uma garota e tal e eu ficava no elevador, subindo e descendo indicando: “É Prestes ou Agildo?” e aí eu ia botando num andar ou noutro, num andar ou noutro e tal.

P1 – E como é que foi essa cisão pro partido?

R – Olha, eu não entrei muito... Naquela época eu era “atarefeira”, eu era uma garota eu não tenho muita noção porque aconteceu tudo isso. Mas é assim mesmo, em todos os partidos tem um momento em que alguém leva a sua turma pra um lado, outro leva pro outro, tal. E no fundo foram duas pessoas muito importantes e eu sou fruto disso.

P1 – E me diz uma coisa, e a senhora foi pra que lado? Pro do Agildo Barata ou Prestes?

R – Não. O Agildo não ficou, saiu do partido e eu fiquei com o pessoal sob orientação do Carlos Prestes, é lógico.

P1 – E me diz uma coisa, a senhora tava me dizendo que um fato que foi muito marcante foi o Diretas Já no Pacaembu. Eu queria que a senhora contasse...

R – Não! No Pacaembu não, lá no centro da cidade.

P1 – Metrô lá no Anhangabaú.

R - É. Anhangabaú.

P1 – Como é que foi isso?

R – Olha, todo mundo participou disso. Nós tínhamos uma... Nós, aí já o partido tinha um monte de gente que trabalhava, nós... Eu trabalhava na Santa Cecília na [rua] Frederico Abranches e tinha um amigo da gente, Marcos, o Marquinho... O Marquinho fez uma cobra e a gente ia embaixo daquela cobra passeando pela cidade, chamando pras Diretas. Foi um ato... O ato das Diretas foi muito emocionante não pra mim, pra todo mundo, né? Que tava vivo naquela época, que lembra. E a Avenida Paulista não é só isso, a Avenida Paulista é, sabe... Todas as passeatas, tudo acontece aqui.

P1 – Me diz uma coisa, eu queria que a senhora contasse mais alguma história que a senhora teve com a Paulista, ou pessoal ou ligada ao próprio partido. Queria que a senhora contasse um pouquinho pra gente, mais.

R – Olha, eu não sei se eu tenho agora aqui em mente qualquer outra coisa com a Paulista. Meus filhos foram criados aqui, entendeu? Andando de skate ainda por aqui nessas calçadas maravilhosas que hoje nem estão tão maravilhosas assim, mas essas calçadas. E assim, eu não tenho nada de tão pessoal, foi uma época muito corrida, quando eu vi eu já estava... Já era avó. Mas foi tudo muito bom e a minha formação, a minha estada em São Paulo está ligada a Avenida Paulista porque eu morei de uma ponta à outra.

P1 – Me diz uma coisa Dona Iara, se a senhora fosse criar uma imagem da Paulista ou definir a Paulista com uma palavra, que palavra ou que imagem seria essa?

R – Que imagem seria essa? Olha... Um vulcão em erupção.

P1 – Eu queria agradecer a sua participação Dona Iara. Muito Obrigada.

R - Não, que é isso. Disponha. Vou fazer a minha ginástica básica.

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