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História

"Vou voar longe"

História de: Marcos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Marcos cresceu exposto ao uso de drogas em uma área de risco da região Norte do Brasil. Em casa sofreu com a violência do pai e desde que o tio descobriu sua homoafetividade, foi abusado e explorado sexualmente por ele. Marcos narra como sua vida mudou desde que ingressou em um projeto socioeducativo e foi encaminhado ao Projeto ViraVida. Já formado em Pedagogia, compartilha suas conquistas e planos para o futuro.

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História completa

O meu pai é carroceiro, trabalha desde os dez anos de idade na carroça e a minha mãe é feirante. Ambos saíam de manhã pra trabalhar, só voltavam à tarde. Então, eu ficava com a minha tia até os quatro anos de idade, depois nasceu a minha irmã e aí nós ficamos com uma prima minha. Ela foi a nossa babá durante, eu acho que, uns dez anos. Desde os dez anos, meu pai queria que eu ficasse com ele na carroça e a mamãe falava que não, mas na feira eu acompanhava ela. Depois dos dez anos, eu passei a ir pra feira vender legumes, eu ajudava a comprar fruta, leite, tudo que necessitasse, e atendia também, mas eu não era obrigado.

 

Eu odiava a escola (risos)! Eu batia nos professores, eu cuspia, eu era malcriado, sabe, até teve uma vez que eu fugi da escola pra ir na feira e era bem distante da escola a feira onde a mamãe trabalha. Não sei como eu cheguei lá, mas foi aí que ela me tirou dessa escola porque não prestavam atenção em mim, eu fugia, perturbava, mordia... Aí eu passei pra outra escola, e foi lá que eu me identifiquei com várias coisas, principalmente, a sexualidade, foi lá que despertou mais porque não era uma escola que tinha só crianças, tinham adolescentes. A gente via os adolescentes fumando, cheirando pó. Eu experimentava de tudo, me ofereciam. Às vezes, eu pulava o muro da escola e saía, eu e vários outros amigos.

 

Quando criança, até os oito anos de idade, eu nunca tinha provado nada. Com oito anos, foi o cigarro e depois foi pó, lá pelos catorze anos, eu experimentei duas vezes e passei supermal, fui parar no hospital, mas desde então eu não fiquei viciado. Sabe, eu não aceitava mais, a droga nunca foi presente, nunca foi forte, assim, na minha vida.

 

Até hoje, eu penso que as nossas referências são os nossos pais, então eu tinha o meu pai como referência, e aí eu achava legal o que ele fazia. Meu pai era meu herói, né, apesar dele bater na minha mãe, me bater. Ele fumava, eu pensava: “Ah, então deve estar certo fazer isso”, e tentava seguir o caminho dele.

 

Meu pai fumava maconha. Os amigos dele também entravam em casa pra fumar e, quando ele fumava, parecia que era cigarro, a gente ficava andando no meio deles. Só depois dois oito, nove anos de idade que a gente veio perceber que aquilo era uma droga, e a mamãe já não deixava nós ficarmos próximos dele. Quando ele só fumava maconha não, mas quando ele bebia, ele agredia a minha irmã, me agredia, mas principalmente a mamãe porque ela sempre insistia que queria voltar a estudar, porque ela só tinha o Ensino Fundamental e ele nunca deixava. Então ele me trancava no quarto e espancava a mamãe, batia nela, tudo... E, as duas vezes que eu vi, eu não tive ação. Eu fui, a ponto de querer agredir ele, de bater, querer tirar a minha mãe e, até hoje, eu moro com ela. Ela é tudo pra mim, então, quando eu vejo ela chorando eu já fico desesperado, quero saber o porquê. Eu tentava interferir, mas eu não podia.

 

Atualmente, eles estão divorciados e eu não falo com o meu pai há mais ou menos dois anos. Porque ele é dependente químico. Um belo dia, eu saí da faculdade, cheguei em casa e ele estava agredindo a minha mãe. Quer dizer, já tinha agredido ela, eu fiquei constrangido de conversar com ele, porque ele é meu pai. Ele podia pensar que eu estava puxando a orelha dele, aí eu saí de casa nessa noite. No outro dia, quando eu voltei, ele me perguntou o porquê, eu expliquei. Ele achou que aquilo era errado, começou a me bater, me agredir na frente da minha mãe. Aí eu não resisti e saí de casa de vez, foi nesse período que eles se divorciaram. Pelo fato da agressão e também pela minha orientação sexual eu tive um baita problema.

 

Eu já tinha essa atração por menino desde criança. Eu queria, sabe, matar essas curiosidades, então foi com os meus amigos mesmo que eu fui conhecendo. Com dez anos, eu nunca tinha experimentado ficar com um menino, beijar na boca de uma menino, eu tinha atração por aquilo, mas eu achava aquilo nojento, sabe? Aí já com treze, catorze anos de idade, eu mantive uma relação sexual com um homem, que era um amigo meu que também estava se descobrindo. A gente sentia atração um pelo outro, mas não sabia o que era aquilo. Quando eu fui perguntar pra minha mãe ela falou que aquilo era normal, tudo, que não era pra eu ligar. Quando eu fui perguntar pro meu pai, ele me deu uma surra, porque aquilo era errado, que não era coisa de homem, que eu sou homem, e não era pra eu ficar me misturando com mulher. Ele me batia porque eu andava frequentemente com mulheres, falava que eu ia ser gay, não sei o quê. Então, a partir dos treze anos que eu fui mesmo me relacionando com homens, apesar de estar em uma igreja evangélica. Eu tinha atração por homens, e aí eu saí da igreja, eu fiquei dos treze aos dezoito anos sem falar nada pra minha mãe, sem comentar sobre isso, aí ela acabou descobrindo.

 

A primeira pessoa da minha família a saber foi o meu tio, aí ele me chantageou, falou: “Olha, eu vou falar pra tua mãe, vou falar pro teu pai, faz isso pra mim, faz aquilo, vai ali”, me fazia de empregado. Aí teve um dia que eu falei que eu não ia mais fazer isso. Aí ele falou: “Não, faz isso pra mim que eu te dou um dinheiro”, aí já que ele tem uma venda, uma mercearia no térreo da casa dele, aí nós subíamos pro segundo andar da casa dele, ele falava: “Vem aqui, vai lá em cima pegar tal coisa pra mim”, quando eu ia, ele ia e me assediava, aí teve vezes que eu batia, eu brigava, chorava, mas a casa era toda fechada de alvenaria, gradeada, janela de vidro, aí ninguém me escutava, foi nessa época que eu falei pra mamãe que ele estava me assediando, aí ela conversou com ele, ele falou que era mentira, aí ela acreditou em mim, mas, quando o meu pai ficou sabendo ele acreditou no meu tio.

 

Com dezoito anos, eu comecei a fazer faculdade, então, eu trabalhava como aprendiz, só que o dinheiro da aprendizagem não dava pra pagar a faculdade, aí o meu tio descobriu e me ofereceu dinheiro pra eu manter relações sexuais com ele. 

 

Ele queria que eu fizesse tudo com ele, era nessa época que eu falava que não, que eu não queria, inclusive, eu perdi a virgindade como passivo com ele, aí eu falava que eu não queria mais, e ele falava pra eu escolher, porque se eu não fizesse nada com ele, ele ia contar pro meu pai. Em alguns momentos, eu sentia muita raiva, porque ele era meu tio, mas em outros momentos não porque ele me dava dinheiro, eu fazia pelo dinheiro, eu deixava ele, calado, pra não falar pro meu pai e ele me retribuía com dinheiro. Eu tinha uma justificativa: “Vou com isso até quando der. Depois que eu terminar e conseguir um emprego melhor, eu paro”.

 

Meu tio comentou com os amigos e teve um momento que, eu não sei, nós estávamos dentro da casa, mantendo a relação sexual, e um amigo dele entrou e pegou nós dois fazendo aquilo, e entrou. Aí foi feito a três, aí nisso, ele ejaculou, foi ao banheiro, os dois, aí eu vesti a minha roupa e fui embora, aí foi nesse momento que eu... Eu já estava com raiva daquilo, porque era uma coisa que pra minha orientação sexual não era errada, mas que pras outras pessoas era… Eu ficava com raiva de mim mesmo, eu me perguntava por que eu era assim, por que eu era estranho. Na minha família, até então, eu era o único homossexual. Eu ficava com medo, ficava chateado. Às vezes, eu não tinha coragem de sair na rua porque esses amigos dele ficavam me olhando, comentavam algo, que eu não sei o que era, com as outras pessoas, eu pensava que estavam comentando algo sobre mim, ficava com vergonha.

 

Eu já estava me sentindo ameaçado, eram todos os dias quando eu chegava da escola. Às vezes, eu ia por trás da rua pra não passar em frente à casa dele, porque ele me chamava e eu ficava com medo. Às vezes eu nem saía de casa porque ele podia me ver e podia me chamar, teve momentos dele pedir pro filho dele ir lá em casa me chamar, eu falava pra minha irmã: “Fala que eu não tô”, então teve momentos em que eu nem saía de casa justamente pra não acontecer isso, tentava evitar. Aí, eu concluí o primeiro semestre. No segundo semestre, eu entrei no ViraVida, aí eu parei mesmo de vez. Não queria nem olhar na cara dele.

 

Eu gosto muito de arte, artes plásticas, dança, música, soube que havia um projeto no bairro. Eu gosto muito de dança regional, aí eu ia pra lá, todos os jovens eram de área de risco. Foi através desse projeto que eu vim pra cá. Eu sou da primeira turma de Auxiliar Administrativo, primeiro teve a primeira seleção aqui do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), aí depois de dois meses teve do Senac, então eu fui pro Senac, nós éramos duas turmas do Senac.

 

No primeiro dia de aula, já fui conhecendo os meus colegas, e nós tínhamos vergonha, nós sabíamos que o objetivo do projeto era com aquele tipo de jovens, mas eu tinha vergonha de falar a minha história pra um jovem. Nós fomos conversando, fomos ouvindo a história de todos, alguns eram envolvidos no tráfico, na prostituição, outros eram aviãozinho, passavam drogas, outros consumiam, enfim, tinham várias situações, a minha era de prostituição e a minha orientação sexual. 

 

Quando eu entrei no Projeto ViraVida foi que virou a minha vida, né, eu tive uma reflexão de tudo o que eu passei, a minha perspectiva de vida... Vi que eu tinha objetivos para alcançar. Eu me vejo transformado, nos pensamentos, eu reflito mais nas minhas ações, eu tento ajudar o próximo, eu sou do Movimento Estudantil, do curso de Pedagogia, estou ingressando no movimento LGBTs. Eu estou fazendo especialização em Práticas Pedagógicas, mas eu gosto de trabalhar com jovens, com adolescentes. Inclusive, a minha linha de pesquisa é gênero e sexualidade. 

 

O meu objetivo é ajudar as pessoas, nem todas têm a oportunidade que eu tive, com essas simples ações, ou com o olhar diferente ao próximo eu tento ajudar. Eu me vejo uma pessoa não formada por inteiro, não conquistei todos os meus objetivos ainda, mas uma grande parte eu já caminhei!   Aquele menino que eu era, eu deixei pra trás. É algo que eu não vou apagar da minha vida, é algo presente ainda, eu penso naquele Marcos, mas é algo que eu não quero pra mim. Eu não quero ressuscitar aquele Marcos e voltar tudo de novo, então eu penso que a minha mudança sempre vai ser pra melhor.

 

Tem uma música que ficou muito marcada no nosso projeto do Senac, que é a “Acredite”, é: “Eu sou campeão, vencedor, Deus dará asas”, então, se Deus me deu essas, eu vou voar. O símbolo do ViraVida tem uma espécie de uma borboleta, então agora eu tô querendo voar, e voar alto. Então, eu falo sempre que se eu mudei, qualquer pessoa pode mudar também se ela tiver força de vontade, tiver um objetivo a alcançar. E desde que eu conheci o objetivo mesmo do ViraVida, eu até falo que eu ainda vou ser o pedagogo aqui do projeto. 

 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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