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História

"Vou mudar minha história de vida"

História de: Jéssica
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Assim como os pais, Jéssica nasceu e foi criada na roça. Desde criança sofreu com a violência dentro e fora de casa e com a perseguição de criminosos. Quando já vivia na cidade, foi difamada por um homem mais velho com quem estava namorando, foi ameaçada de morte e perseguida. Com isso se isolou da sociedade e entrou em depressão. Auxiliada por uma psicóloga do Creas, foi encaminhada ao Projeto ViraVida e hoje está determinada a prosseguir os estudos na área de Administração, e, sobretudo, ter uma família feliz.

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História completa

Meus pais nasceram no interior e eu também. Mas eles foram criados numa precariedade maior do que eu, foram criados num lugar onde não tinha acesso à nada. Era muito difícil porque eu morava a três quilômetros da estrada de chão pra eu pegar o ônibus pra cidade; a gente sobrevivia do que a gente fazia na roça mesmo. 

Tenho dois irmãos mais velhos que eu. O meu pai tinha um matadouro de frango, ele tinha granja de frango, desde que a gente nasceu, que se entende por gente, a gente sempre ajudou a fazer tudo, a gente capinava, colhia milho, tratava de boi, tratava de galinha. Então na roça era muito pouco valorizado o trabalho do meu pai, da minha mãe e o nosso também, porque a gente trabalhava quase no mesmo nível que eles.

A gente brincava às vezes, meus primos todos iam pra minha casa nas férias deles, aí a gente brincava, ia nadar no córrego, brincava de pique-pega. Na roça as brincadeiras são totalmente diferentes de quem vive na cidade. A gente fazia carrinho de madeira, boneca de sabugo, essas coisas.

Na roça só tinha até a quarta série, então tivemos que estudar na cidade. Pra fazer o Ensino Fundamental tínhamos que andar três quilômetros, pegar uma condução até na cidade, que era mais quase duas horas de ônibus. A vida inteira foi assim pra gente conseguir estudar e pra se criar na roça era muito difícil. 

A escola era rígida. Da primeira à quarta série eram poucos os que desrespeitavam os professores pelo medo dos castigos, porque quando um ia pra sessão de castigos ninguém mais queria ir, então ninguém fazia bagunça mais. Na época lá pra quem fazia bagunça na sala de aula era empurrão, era vara de goiaba, era castigo no milho, é mais ou menos assim que funcionava. Depois da quarta série, na escola da cidade, isso melhorou. Mas a gente era discriminado por sermos da roça. 

O meu pai conquistou muita coisa com a granja de frango que ele tinha, a gente tinha apartamento, casa, carro, só que ele se envolveu com um matador de aluguel, a minha família acabou sendo perseguida. Ele foi agredido, ficou muito tempo sob tratamento, minha mãe nessa época entrou em depressão, quase morreu de depressão, porque a gente era perseguido por um matador de aluguel, ele matava sem dó, ele matava por matar. Então o meu pai foi perseguido por muito tempo, até que um dia o cara chegou com o revólver no peito dele, aí ele ficou naquela situação: ou ele matava ou ele morria e ele matou o cara, só que pra ele se livrar da cadeia a gente perdeu tudo que a gente tinha, tudo.

Já estava planejado que eu iria morar na cidade também como meus irmãos, para estudar. Antes disso acontecer assaltaram nossa casa e meu pai saiu falando que foram certas pessoas, e elas eram perigosas. Aí um dia, à noite, a gente estava assistindo televisão, eles chegaram na minha casa, um bando de motoqueiro armado nos ameaçando, ligamos pra polícia, saímos da nossa casa e nunca mais voltamos. Fomos viver na cidade junto com meus irmãos.

E o meu pai, ele era uma pessoa que não sabe viver sem dinheiro, ele era uma pessoa de status; ele traía muito a minha mãe, jogava muito, nunca parou com essa vida dele; meus irmãos vieram embora pra cidade e eu e a minha mãe ficamos lá na roça, a gente sofria muito porque ele quebrava a casa inteira, tacava prato, copo na minha mãe. Na hora que ele começava a xingar a gente saía de casa porque senão ele matava eu e ela.

Desde que eu nasci eu não me dou bem com o meu pai, eu tenho um trauma muito grande porque ele queria que a minha mãe me abortasse. Desde que eu me entendo por gente, o meu pai é uma pessoa que tinha empregados, a minha mãe, os meus irmãos, eu, então ele quase não fazia nada. A minha mãe que pegava no batente. 

Meu pai batia na minha mãe e nos meus irmãos. Eu quase não apanhei, mas os meus irmãos, só de ver o quanto que eles apanhavam, eu e a minha mãe chorávamos muito. 

Eu sou contra muitas atitudes do meu pai. Aos doze anos de idade, ele levou o meu irmão mais velho pra um bordel com medo do meu irmão virar gay, o outro, não aceitou essa situação, então ele espancou meu outro irmão; são situações que eu acho que impedem um pouco da minha relação com ele.

Eu tinha medo de deixar minha mãe na roça pra ir morar na cidade porque ele só não batia mais nela porque às vezes eu impedia, com a pouca força que eu tinha eu impedia, porque eu não aguentava mais vê-la apanhar. Pra mim foi um alívio ela vir, mas ele ter vindo junto não foi uma alegria pra mim não, não foi, porque ele não tinha profissão. 

A minha mãe começou a entrar em depressão; meus irmãos pagavam o aluguel, minha mãe a compra de casa e eu fazia o serviço da casa já que a minha mãe trabalhava e ele não fazia nada. Aí que começou as guerras, os conflitos aqui também, porque na roça ele fazia a mesma coisa e não tinha ninguém pra colocar ele nos eixos e aqui os meus irmãos não aceitavam, chegaram a querer pôr ele pra fora de casa. Ele estava acostumado a mandar em todo mundo, a bater na minha mãe; até que um dia ele levantou um prato de comida pra minha mãe e o meu irmão se enfiou na frente com uma faca: “Se você bater nela eu vou te matar, a partir de hoje você não paga nada aqui dentro, aqui você não quebra nada e você não bate mais nela”. 

Hoje a minha mãe já conquistou uma autonomia maior e os meus irmãos e eu não admitimos que ele bata nela. Depois que meus irmãos impediram meu pai de bater na minha mãe, aí ele entrou em depressão porque ninguém  o obedecia mais. A minha mãe trabalhando, ela pagou um curso de auxiliar administrativo pra mim. Foi aí que eu formei, no ano que eu formei eu consegui emprego em uma empresa de telemarketing, trabalhei lá um ano e meio.

Foi aí que a gente apanhou uma força maior ainda, eu já passava a ajudar minha mãe, eu já dava a ela as coisas, roupa, creme, maquiagem, essas coisas que meu pai nunca deu pra ela, então foi aí que começaram as brigas comigo também. Meu pai prendia muito, não me deixava sair, foi aí que eu comecei a fazer as coisas escondido, falava que ia pra um lugar e ia pra outro, porque eu não suportava ficar dentro de casa com ele, eu ficava mais na casa do meu tio do que na minha casa.

Eu acabei me envolvendo com uma pessoa mais velha, me arrependo muito de ter me envolvido; essa pessoa tirou fotos minha nua escondido de mim, mostrou pro bairro, me difamou.  Eu namorei um ano com essa pessoa escondido, foi quando a minha mãe e o meu pai descobriram; minha mãe quase morreu de depressão na época, foi quando a minha mãe processou esse cara, que eu fui na delegacia de menor. Nisso ele mandou me matar e até hoje ele me persegue e quer me matar. Ele chegou a cortar a luz do beco pra quando eu passasse os capangas dele me matarem. Eu tive que mudar de escola porque ele colocou um aluno de lá para me vigiar.

Hoje diminuiu porque eu tenho uma ordem contra ele, mas quando tudo foi descoberto, meu pai me prendeu na minha casa que eu não saía pra nada, fiquei seis meses assim, eu não atravessava a rua pra nada sem a minha mãe, nada, eu não ia na varanda. Meu pai me levava pra escola, me buscava da escola e era tudo com ele e a minha mãe, eu não saía, não deixava eu fazer nada sozinha, então eu tive depressão, foi aí que a minha mãe recorreu ao Creas, que eu comecei a ter atendimento psicológico, depois fui encaminhada para o Projeto ViraVida. Não sei de onde minha mãe tirou forças para me ajudar. Em momento nenhum ela me acusou.

Na rua cochichavam sobre mim, apontavam. Meus familiares pararam de falar comigo, porque pra eles foi uma traição eu ter namorado esse rapaz escondido. Pra eles era a mesma coisa de eu ser uma prostituta. A questão de eu sair, falar que ia pra um lugar e ia pra outro, a questão de eu ter perdido a minha virgindade com ele, eles não aceitavam isso, pra eles eu era uma vagabunda, uma prostituta que tinha se perdido e que não tinha mais jeito e que eu não ia voltar a ser uma mulher íntegra mais, pra eles era isso. E comecei a acreditar nisso também.

Aos poucos eu fui me reerguendo, eu comecei a enfiar a cara nos estudos e eu fiz toda a oficina que tinha. Na associação do bairro eu fazia, pintura, bordado, qualquer coisa. Eu comecei a tentar enfiar a cara em outras coisas que me dispersasse disso.

Depois que eu entrei no Projeto ViraVida, eu tenho mais segurança de mim, do que eu sou, do que eu posso fazer, do que eu sou capaz de fazer. É uma questão de lição de vida, cada dia que passa aqui é um aprendizado de vida diferente. O dia que a professora de cidadania pediu pra que cada um contasse a sua história de vida, todo mundo se colocou no lugar do outro, todo mundo chorou, todo mundo se propôs, a partir dali, “eu vou te ajudar, você também vai me ajudar, para que todos nós aqui tenhamos um aprendizado igual”, muitos pararam de estudar, muitos têm filho e é um ajudando o outro que todo mundo vai chegar no mesmo objetivo. 

O projeto mudou na minha vida até questão da relação com o meu pai, tanto é que, no meu aniversário do ano passado, o meu pai não foi na minha casa, ele falou que não ia ficar e desde que eu me entendo por gente eu nunca recebi um feliz aniversário dele, nunca. E esse ano ele me deu parabéns, eu fiquei muito alegre por isso e eu vejo que foi uma questão de mudança que veio daqui do Projeto, dele ver o que é que está sendo feito, dele ver o esforço. Ele também já mudou muito.

É muito gratificante ver o trabalho do Projeto. Eles não nos diferenciam; o mundo diferencia muito, o mundo discrimina muito o preto do branco, o pobre do rico e aqui não. Tudo eles fazem com carinho. Todo mundo chega aqui às vezes triste, chorando, somos abraçados, conversam com a gente. Todos aqui têm a mesma oportunidade, todos aqui são inteligentes, então isso faz a gente criar uma segurança interna muito grande, tirar os obstáculos e ver só o que a gente tem a alcançar.

Eu tenho um sonho de ter um casamento realizado, diferente do da minha mãe. Eu quero criar uma família totalmente diferente de como eu e meus irmãos fomos criados. E até a profissão ajuda nisso porque eu quero dar uma estabilidade pro meu filho, uma estabilidade que eu e os meus irmãos não tivemos.

Ao sair daqui eu não vou cruzar os braços, eu não pretendo parar de estudar nunca na minha vida. Ao sair daqui eu quero ir para faculdade, quero minha pós-graduação, quero sim e eu posso.

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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