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História

Voluntariado em escola pública: Um pouco de cada um funciona

História de: Dilamar dos Santos Godoy
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2020

Sinopse

Infância na zona rural de Fontoura Xavier e trabalho com agricultura familiar. Lembrança do relacionamento com os pais, irmãos e professoras. Juventude e trabalho em Porto Alegre. Casamento e filho. Retorno para Fontoura Xavier. Carreira em granja da BRF. Trabalho voluntário em projeto com escola pública utilizando a metodologia 5S para tratamento de lixo, melhorias nas instalações, horta orgânica e atividades educativas para crianças e para a comunidade.

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História completa

P/1 – Dilamar, pra gente começar vou te pedir a gentileza de falar pra mim o seu nome completo, o lugar onde você nasceu e o ano.

 

R – O meu nome é Dilamar dos Santos Godoy, nasci no ano de 1973, 21 de Julho. Nasci em Fontoura Xavier, Rio Grande do Sul. 

 

P/1 – Você é um cara aqui da região?

 

R – Sou...

 

P/1 – Quais são as primeiras lembranças que você tem da sua terra? Fontoura Xavier, quando você era... da sua infância

 

R – As lembranças que eu tenho da minha infância, da minha terra. Ah, seria um município pequeno, com uma população pequena e pouco desenvolvimento. Hoje já é um município maior, com mais desenvolvimento.

 

P/1 – Como é que era a sua casa? Você lembra da sua casa, da sua família, onde você nasceu?

 

R – Lembro. Era uma casa grande de madeira e nós morávamos... nós éramos em 11 irmãos e morávamos com o pai e a mãe.

 

P/1 – Fala pra mim o nome do seu pai e o nome da sua mãe.

 

R – O nome da minha mãe era Natalia dos Santos Godoy e o pai é Herculino Rodrigues de Godoy.

 

P/1 – Eles são vivos ainda?

 

R – Não, são mortos.

 

P/1 – O que eles faziam quando você nasceu. Na época eles faziam o quê?

 

R – O meu pai, ele era agricultor. A minha mãe também era agricultora.

 

P/1 – Mas eles tinham a terrinha deles?

 

R – Sim, tinham a terra deles. Trabalhavam na própria terra.

 

P/1 – E vivia ali também ou não?

 

R – Vivia ali, trabalhava na terra e vivia ali. Tinha várias funções na terra, nós éramos produtores de fumo, criadores de suíno e trabalhávamos com vaca leiteira.

 

P/1 – E vocês viviam na zona rural?

 

R – Vivia na zona rural.

 

P/1 – E seus irmãos, eram mais novos, mais velhos, como é que era?

 

R – Eu era o mais novo da família.

 

P/1 – Era o caçulinha?

 

R – Era o caçula. E daí os mais velhos iam pegando uma idade maior, iam trabalhar fora. Saía a trabalhar fora, daí ficavam os mais novos.

 

P/1 – Os mais velhos não trabalham na própria propriedade da família não?

 

R – Os mais velhos trabalhavam até eles pegarem idade de 18 anos. Depois de 18 anos, eles saíam a trabalhar fora.

 

P/1 – Como era essa infância nessa família grande, morando na roça, ajudando os pais? O quê é que você se lembra dessa época?

 

R – Eu lembro assim que era uma época meio difícil, né? Naquela época, na roça, tu produzia bastante produto, mas não tinha valor o produto, né, era uma época difícil. Era bem difícil. Hoje já é mais fácil pra produzir o próprio produto na agricultura, pra vender. Nós produzíamos, além de nos alimentarmos, nós produzíamos pra vender, né, nós trabalhávamos também com produto vendendo pras cooperativas.

 

P/1 – Mas assim, independente do trabalho, você uma criança novinha, como é que era o seu dia a dia? Qual que é a lembrança mais antiga que você tem dessa sua casa na roça?

 

R – A lembrança mais antiga que eu tenho seria que eu, com oito, nove anos, antes de ir pro colégio, eu tinha que levar o leite junto, né, pra entregar nas casas aonde nós vendíamos o leite e antes de entrar na sala de aula, tinha que entregar o leite. Daí nós levantávamos seis horas da manhã com a mãe, ajudava a mãe a tirar o leite. Daí a gente pegava e engarrafava o leite. Depois a gente tomava o café e ia pro colégio, antes de entrar na sala de aula, nós entrávamos às oito horas, pegava e entregava o leite antes de entrar na sala de aula, até chegar no colégio.

 

P/1 – Você se lembra bem disso?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Era frio? Como é que era?

 

R – Era frio. Era bastante frio, que no Rio Grande do Sul é um lugar que dá muito frio e era frio naquela época. Era frio sempre. No inverno era bastante frio.

 

P/1 – O quê é que você costumava fazer com os seus irmãos? 

 

R – Eu ajudava na colheita de soja, ajudava no leite, ajudava na produção de fumo também, né? Tudo, nós trabalhávamos tudo junto. Tudo, nós irmãos, não tinha serviço assim mais: “Ah, tu vai fazer isso, vai fazer aquilo, cada um” Nós trabalhávamos tudo meio junto.

 

P/1 – Mas vem cá, e fora o trabalho, você na hora de lazer assim, quando você não tava trabalhando, o quê é que você fazia com os seus irmãos?

 

R – Nós íamos jogar bola. Nós tínhamos um campo, nossa própria terra, né, um campinho de futebol, nós tínhamos e daí vinham os vizinhos, a “piazada”, vizinho ali, a “gurizada”, e nós íamos jogar bola. Jogar bola no sábado, no domingo. Às vezes no sábado de tarde a gente ia pra igreja da comunidade rezar, né, e no domingo jogava bola.

 

P/1 – Era diversão jogar bola?

 

R – É.

 

P/1 – E em casa, como era? Sua casa era grande?  Você dormia, você via o quarto com muita gente?

 

R – Não, a casa era grande. Nós dormíamos em três irmãos num quarto, mas a casa era grande. Tinha seis dormitórios na casa. E tinha mais sala e cozinha e o banheiro.

 

P/1 – E sua relação com seus pais? Era amigo deles ou era distante, como é que era?

 

R – A minha relação, eu era bem amigo do meu pai e da minha mãe. Aliás, todos os irmãos, né, nunca tivemos problema assim de família. Até hoje, nós... os irmãos são todos eles vivos e tudo, nós nos demos bem e a gente sentiu muito quando perdeu o pai e a mãe, né? Nossa relação sempre foi assim: cem por cento entre irmão e pai e mãe, nunca tivemos problema.

 

P/1 – Qual a lembrança que você gosta de ter do seu pai? Quando fala do seu pai assim, você lembra do que? De alguma coisa que você viveu com ele, de alguma coisa especial?

 

R – Eu lembro assim que quando nós estávamos em casa, que a gente não podia trabalhar, que o tempo chovia, né, que nós estávamos reunidos, ele fazia uma reunião com a gente. Ele parava e chamava a gente e começava explicar, aconselhar, né, que não era pra seguir o mau caminho, o mau rumo, né? Que ele não foi criado daquele jeito e queria que o jeito que ele foi criado que nós fôssemos criados também, né, que ele foi um cara que nunca teve processo na lei, sempre foi um cara assim que prestou serviços pra comunidade. Ele foi cara que trabalhava nas comunidades de igreja, CTG [Centro de Tradições Gaúchas]... Ele sempre ajudou as comunidades também, sempre passava pra nós: “Vocês tem que fazer o bem pra poder receber o bem”. Isso aí foi uma coisa assim que... eu tenho um piá hoje com 14 anos, também às vezes eu digo pra ele também: “Faça aquilo que o meu pai passava pra mim”, eu passo pra ele hoje, aquilo ficou gravado na lembrança.

 

P/1 – E a sua mãe? Como era a sua mãe em casa? Qual que é a imagem que você tem dela hoje?

 

R – A imagem que eu tenho da minha mãe hoje é uma mulher muito lutadora. Minha mãe era uma mulher assim, mesmo às vezes a gente tinha problema de enchente ou seca na lavoura, ela nunca baixava a cabeça, ela sempre... eu lembro que ela sempre chegava e motivava o pai: “Ah, esse ano foi assim, o ano que vem pode ser melhor. Não podemos baixar a cabeça, vamos tocar que o ano que vem vai ser melhor”. Sempre tivemos uma boa lembrança da minha mãe também.

 

P/1 – E como é que foram essas histórias de enchente? Você lembra de alguma específica?

 

R – Eu lembro uma vez assim, que o meu pai tinha gastado um dinheiro, tirou um dinheiro do banco, um investimento do banco pra fazer um açude. Deu uma enchente muito grande, levou o açude dele água abaixo. E nós tínhamos uma criação de suíno também perto de um rio, né, e veio uma enchente e levou os porcos água abaixo. E daí o pai ficou meio desmotivado de pegar e investir na agricultura. Daí a mãe e meus irmãos mais velhos começaram a conversar com ele: “Não, não adianta!”, e não tinha seguro nenhum, né? Começaram incentivar, incentivar ele até que ele conseguiu dar a volta por cima de novo.

 

P/1 – Você lembra quantos anos você tinha nessa época? 

 

R – Nessa época eu acho que eu tinha uns 12 anos de idade.

 

P/1 – Você lembra da chuva?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – Eu lembro assim que era um domingo de tarde e nós tínhamos ido cortar umas canas pra trazer pras vacas na cocheira e começou sair umas nuvens assim no céu, né, não era muito assim, não tava se preparando aquela chuvarada. E veio nesse mês de fevereiro  uma chuva assim e choveu a noite inteira e no outro dia começou, né,  o que tinha, aonde tinha negócio perto de rio, começou levar tudo água abaixo. E foi num mês de Janeiro que aconteceu isso aí, num mês de Janeiro.

 

P/1 – Seu pai saiu correndo? Como é que foi?

 

R – Não, ele ficou até dentro de casa porque a gente viu que como se salvar aquilo lá, né? A gente até conversou um com o outro: “Não adianta nós ficar apavorado. Seja o que Deus quiser agora”. E seca, eu me lembro que uma vez deu uma seca, ficou aqui no Sul, onde nós moramos, em Fontoura Xavier, ficou quatro meses sem chover e daí estragou muita plantação de fumo. O fumo na hora de coletar ele amarelou tudo a força, né, ficou madura tudo a força, né, e não conseguimos ter um bom resultado na safra de fumo. Tivemos prejuízo também.

 

P/1 – Dilamar, você tava falando da sua infância, né, e a parte da escola? Como é que era a escola lá em Fontoura Xavier, nessa época?

 

R – A escola, até onde eu estudava, eu estudava na escola estadual, né, era uma escola assim, pela época, era uma escola organizada. Era uma escola assim bem organizada, tinha professores bons, né, era uma escola bem tranquila pra estudar. 

 

P/1 – Ela era grande?

 

R – Ela era uma escola grande. Essa escola que eu estudava era escola estadual, né?

 

P/1 – Tinha muitos alunos?

 

R – Tinha, naquela época tinha setecentos e poucos alunos.

 

P/1 – E o que você lembra mais dessa época, assim? Como é que era você chegando da escola? O seu dia a dia lá na escola? Descreve pra gente, por favor.

 

R – Ah, o que eu lembro dessa época assim é dos professor, né? Tinha professora assim muito autoritária, meio brava. Às vezes, o aluno tinha dificuldade em aprender, não sei se o professor não sabia ensinar ou tava nervoso, ficava bravo. A gente perguntava se não aprendia na primeira vez, perguntava na segunda vez, ele ficava nervoso e ficava revoltado, né, nessa época, mas tinha professor bom, tinha professor bem calmo pra dar aula, bem educado.

 

P/1 – Você lembra do nome de alguns?

 

R – Tinha uma professora que marcou muito pra mim, que eu aprendi muito com ela, até foram duas professoras. Uma hoje é professora ainda. É a Dolores. Essa professora, é minha primeira professora que também foi uma professora muito boa, essa já morreu, mas é uma professora boa que sabia ensinar, sabia educar o aluno.

 

P/1 – O que você lembra delas? Assim, de uma aula. Por que você acha que elas eram boas? O que elas faziam assim com você?

 

R – Elas tinham um jeito de se expressar. Elas se expressando, a professora falando, se expressando elas conseguiam colocar na cabeça do aluno. Ela tinha uma tranquilidade assim pra conversar, pra explicar a matéria, que ela explicando, às vezes ela nem precisava passar no quadro, né, escrever no quadro. Ela falando, conversando, ela conseguia botar na cabeça do aluno... aí o aluno... ela mandava fazer uma provinha depois, o aluno já fazia, né, através da fala dela tu conseguia aprender.

 

P/1 – Entendi. E a amizades, como é que era? Você tinha muitos amigos nessa época, fazia muita bagunça?

 

R – Não, eu nunca tive problema no colégio assim de bagunça, nunca fui. Meu pai também nunca teve problema comigo lá no colégio, um dia, por causa de reunião. Sempre tinha, quando não conseguia cem por cento de aula, de frequência, de aula, tinha noventa e poucos. Nunca fui assim de faltar muito à aula, só mesmo quando ficava doente. 

 

P/1 – E seus amigos da época, quem que eram? A turminha?

 

R – Os amigos da minha época sempre eram uma classe assim que, mesmo em colégio estadual, como Fontoura era um município pequeno, então às vezes dividia, né? Tinha, dava pra ver assim, que tinha classe alta e a classe baixa. Eu já tinha mais amigos assim da classe baixa. Tinha um grupo de guri ali e de meninas, né, mais da classe baixa… Não é que nós não queríamos nos misturar com a classe alta, às vezes, a gente não era aceito por eles, então a gente tinha aquela divisão.   

 

P/1 – Por quê?

 

R – Às vezes, por causa de ser devido assim... de ser um município pequeno e que, às vezes, no município acontece que, às vezes, a pessoa, uns tem mais coisas que os outros. Normal de ter, né? Tinha essa divisão e hoje, pelo que eu percebo, tenho um piá estudando, né, já não existe isso aí. Hoje não, hoje é muito diferente.

 

P/1 – E o quê é que você fazia aí com essa turminha aí de baixo?

 

R – Ah, nós jogávamos bolito no colégio, jogava bola, né, jogava vôlei na hora do recreio. Nós tínhamos o nosso grupo de sempre, os colegas sempre eram os mesmos.

 

P/1 – O que é a recordação mais gostosa que você tem dessa época de escola? Um dia ou algum acontecimento?

 

R – A recordação que eu lembro até hoje foi quando eu fiz nove anos de idade, a minha professora levou um bolo pra sala de aula. Nem eu não sabia, daí ela deu aula normal até na hora do recreio e daí depois ela saiu pro recreio com a gente e voltou pra sala de aula, trouxe um bolo. E daí no final ela falou que cada colega de aula tinha ajudado a comprar aquele bolo. Ela fez uma arrecadação com cada colega e cada colega deu um pouco pra comprar o bolo. Essa foi uma das melhores lembranças que eu tenho da aula, na época que eu estudava.

 

P/1 – E como é que você foi ficando jovem? Você continuou trabalhando com seus pais na roça? Mudou de colégio ou ficou na mesma escola? Como é que foi?

 

R – Não, o colégio eu estudei ali até eu terminar o ensino médio e na roça eu trabalhei com os meus pais até os 16 anos. Depois dos 16 anos eu já saí a trabalhar fora.

 

P/1 – Começou trabalhar aonde?

 

R – Eu comecei a trabalhar numa fábrica de calçado que tinha no município mesmo. Daí, ali eu não gostei muito do serviço, né, e daí fui pra Porto Alegre, fui trabalhar numa fábrica de colchão em Porto Alegre.

 

P/1 – Tá, mas antes de Porto Alegre, você trabalhou nessa fábrica em Fontoura Xavier?

 

R – Em Fontoura Xavier.

 

P/1 – Como era essa fábrica?

 

R – Era uma fábrica de calçado, né? O serviço era bastante puxado e tinha um cheiro muito forte de cola e pra mim começou a fazer mal aquele cheiro da cola e eu pedi pra sair. Cheguei no meu ex-chefe, meu superior, né, pedi pra eles: “Eu quero sair da empresa, tal, tal, tu me manda?”. Mas daí como eu era um funcionário que não tinha nenhum atestado dentro da empresa, eles não queriam mandar embora, mas daí nem fazer um acordo eles não queriam comigo. Daí, eu pedi as contas. Pedi demissão e saí, saí da empresa.


P/1 – Daí foi pra Porto Alegre?

 

R – Daí, fui pra Porto Alegre.

 

P/1 – Como é que foi isso? Já conhecia Porto Alegre?

 

R – É que eu tinha uns irmãos mais velhos que já estavam morando em Porto Alegre, daí eu fui morar com eles e fui trabalhar com eles também.

 

P/1 – Você lembra do dia que você chegou em Porto Alegre?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Conta pra mim como é que foi.

 

R – Quando eu cheguei em Porto Alegre pra mim tudo era novidade, né? Eu saí de um município pequeno e ir pra capital do Estado... Eu cheguei lá, eu fui até na Rodoviária de Porto Alegre e de lá eu peguei um táxi e fui na casa do meu irmão.

P/1 – Onde ficava a casa?

 

R – Da rodoviária, ficava uns 40 quilômetros longe da rodoviária. Que ele morava na região de Porto Alegre, mas não era bem no Porto Alegre, era em Sapucaia [Sapucaia do Sul], na mesma região de Porto Alegre. E daí eu trabalhei lá em Porto Alegre, trabalhei mais um ano e oito meses.

 

P/1 – Como é que você conseguiu esse emprego lá?

 

R – Eu consegui, naquela época eu consegui, eu fui lá na empresa, como fui atrás de emprego, né, fiquei fazendo ficha nas outras empresas, até que eu cheguei numa empresa, fiz ficha, dali quatro dias me chamaram. E comecei a trabalhar daí.

 

P/1 – Como que era esse trabalho, onde que era?

 

R – O trabalho era em Porto Alegre mesmo.

 

P/1 – Não, sim, mas qual era a empresa?

 

R – A empresa era Tolião Gaúcho, era uma empresa de espumação, fazia colchão, poltrona de avião, espumação pra poltrona de avião, de ônibus, né, e eu trabalhava mais na parte do almoxarifado. Era responsável pela saída e entrada de material que entrava no almoxarifado da empresa. Eu trabalhei um ano e oito mês nessa empresa.

 

P/1 – Você já tinha uns 18 anos mais ou menos?

 

R – Quando eu iniciei trabalhar não tinha bem 18 anos, tinha uns 17 anos.

 

P/1 – E aí como é que era o seu dia a dia de trabalho? Você fez novos amigos?

 

R – Eu tinha amigos bastante dentro da empresa. Só saí de lá por motivo que eu casei e a empresa me dava um dia de folga. E quando eu casei eles me liberaram, peguei aqueles dias de liberação do casamento, pra casar no município, e depois pra vir em casa eu demorei dois meses pra vir, né, que eu tinha só um dia de folga. Às vezes, quando apertava demais o serviço, quando tinha muito serviço, nem um dia de folga não conseguia.

 

P/1 – Mas vem cá, nessa época então você tava em Porto Alegre morando com seu irmão, era isso? Onde você morava? Você morava com quem? Você morava com seu irmão, com quem? Mais quem?

 

R – Eu morava com o meu irmão, minha cunhada e os filhos dele. Ele tinha dois filhos. 

 

P/1 – Aí você conheceu sua namorada?

 

R – Não, a namorada eu já conheci aqui em Fontoura.

 

P/1 – Ah, então me conta isso. Como é que é, você foi embora namorando?

 

R – É, quando eu saí daqui eu já era noivo, né?

 

P/1 – Então me conta como você conheceu sua mulher.

 

R – Eu conheci ela no próprio município onde eu moro, na comunidade, no salão da comunidade. E começamos namorar ali até que um dia nós viemos passear um na casa do outro e casamos.

 

P/1 – Como ela se chama?

 

R – Rosimeri Lima Godoy.

 

P/1 – Você lembra do primeiro dia que você encontrou com ela?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Conta pra mim.

 

R – O primeiro dia foi no salão da comunidade. Nos encontramos depois de uma missa que tinha na igreja, e daí nós fomos pro salão da comunidade. Ela era professora de catequese e eu era coordenador de um grupo de jovens e nos achamos ali e começamos, né, a namorar.

 

P/1 – Daí quando você foi pra Porto Alegre você teve que deixar ela aqui?

 

R – Deixei ela aqui. Daí, com um tempo, eu já trabalhava em Porto Alegre e namorava ela, né, depois que eu casei.

 

P/1 – Mas aí você foi pra lá, deixou ela aqui, só no telefone? Um dia vocês, como é que foi? “Vamos casar”? Conta como é que foi essa decisão.

 

R – Naquela época não era muito telefone. Isso foi em 1991, 1992, né, era mais carta mesmo, escrito na caneta. Eu vinha, quando eu namorava ela, eu vinha uma vez por mês, eu vinha ver ela, mas depois que nos casamos começou a complicar mais. A empresa começou pegar mais serviço pra fazer, começou a ter mais serviço. Daí às vezes...

 

P/1 – Mas pera aí, você casou e ela continuou morando aqui?

 

R – Ficou. Ficou morando aqui quando eu casei, ela ficou morando aqui. 

 

P/1 – E aí era difícil demais então?

 

R – Sim, daí ela ficou. Eu vim pra casar e depois levei dois mese pra vir em casa de novo.

 

P/1 – E aí como é que foi? Como você saiu do trabalho? Você falou que ficou só um ano lá né?

 

R – Pois é, eu cheguei e falei pros caras, né, pros chefe que eu queria sair da empresa porque não tinha como levar ela pra morar lá em Porto Alegre, eu ganhava pouco e o aluguel era muito caro lá. Daí eu cheguei e falei com eles, eles não quiseram me mandar embora. Disseram: “Não, pede demissão”, daí pedi demissão e sai. Daí foi onde eu comecei a trabalhar aqui em Fontoura e até hoje tô trabalhando na mesma empresa. Vinte anos, né?

 

P/1 – Então me conta. Peraí, você voltou o quê, em 1992, pra cá? Como é que foi voltar pra sua cidade? Você foi morar onde?

 

R – Daí eu fui morar... o meu pai, ele me deu uma casa pra mim morar, daí fui morar na casa do meu pai. Só que eu não morava junto com meu pai, eu morava numa casa apartada, eu e a minha esposa. Daí eu vim, eu vim procurar serviço nessa empresa, hoje que seria a BRF, que naquela época era Vital. Daí eu vim aqui e fiz ficha. Dali uns dia me chamaram, daí eu entrei aqui, e faz 20 anos trabalhando aqui na mesma empresa.

 

P/1 – Como e que foi? Quem te falou? Você já sabia da empresa aqui, falou: “Vou lá me cadastrar”, ou alguém te indicou?

 

R – O meu sogro. O meu sogro já trabalhava aqui já. Ele me indicou: “Ó, tu quer trabalhar lá? Lá vai ter vaga”. Daí eu vim aqui, fiz ficha e logo me chamaram e comecei a trabalhar. Meu sogro que indicou porque já trabalhava na empresa.

 

P/1 – Você veio fazer o que aqui?

 

R – Eu comecei no serviços gerais, quando eu comecei trabalhar.

 

P/1 – O quê que você tinha que fazer nos serviços gerais?

 

R – Fazia tudo, coletava ovo, tratava com pinto pequeno, fazia a limpeza, fazia classificação de ovos, fazia… o que tinha que fazer em serviços gerais fazia, né?

 

P/1 – E você lembra do seu primeiro dia de trabalho?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Conta pra mim como é que foi.

 

R – Meu primeiro dia de trabalho eu comecei dia 16 de novembro de 1992, um dia ensolarado, um dia bonito, que pra mim era meio estranho também, já vinha trabalhando, tinha que trabalhar lá em Porto Alegre, lá no meio do movimento e achei meio estranho o primeiro dia, mas depois comecei a me acostumar e comecei a gostar do trabalho e até hoje tô trabalhando.

 

P/1 – A granja era aqui no mesmo lugar?

 

R – É, no mesmo lugar.

 

P/1 – Descreve pra mim como era a linha São Roque aqui em 1992.

 

R – 1992, como é que é aqui... nesse colégio aqui era um colégio de madeira que tinha. Era um coleginho de madeira que tinha aqui. Esse colégio, não tinha esse colégio de material.

 

P/1 – E a região toda?

 

R – No salão aqui, esse salão bonito que tem na frente aqui era um salãozinho de madeira. A igreja era de madeira também, não era pré-moldado, né, a igreja bonita, o salão bonito. Aqui tinha poucos moradores, tinha poucos moradores aqui, era assim um local bem... como é que eu vou dizer? Tinha poucos moradores, com pouca população aqui, não era como tem hoje.

 

P/1 – E aí você veio pra morar aqui no povoado ou ficou morando em Fontoura Xavier?

 

R – Eu fiquei morando, na verdade eu vim morar no... eu morava no interior de Fontoura, né, morava numa área rural de Fontoura.

 

P/1 – Mas não aqui?

 

R – Não aqui. Eu já morava em outra comunidade, comunidade da Ponte Tigela. Depois é que eu mudei pro centro da cidade em Fontoura Xavier.

 

P/1 – E como é que você vinha de lá dessa comunidade? Você morava pra cá, naquela época.

 

R – Olha, a maioria das vezes eu vinha a pé, eu vinha caminhando. 

 

P/1 – Mas era longe? Quanto tempo?

 

R – Dava uns três quilômetros. Três quilômetros pra ir, três quilômetros pra voltar.

 

P/1 – Como é que era a caminhada? Você vinha sozinho?

 

R – Maioria das vezes vinha sozinho, mas às vezes vinha com meu sogro, vinha com ele, vinha conversando com ele. Sempre nós vínhamos, mas muitas vezes eu vinha sozinho e às vezes também eu vinha de bicicleta. Quando dava pra vir de bicicleta.

 

P/1 – Nessa época dos primeiros tempos, dos primeiros anos de trabalho na empresa, o quê é que você se lembra mais? De alguma pessoa, de alguma atividade? O quê é que ficou na sua lembrança desse período?

 

R – A gente lembra das pessoas que trabalharam com a gente, muitas pessoas boas, né? Alguns já estão falecidos, outros já estão em outras empresas. A gente viu bastante colega aí, né? Pessoas que ajudaram também, ajudaram funcionários. Muitos caras que tinham cargo superior dentro da empresa que ajudaram, deram oportunidade pro funcionário, né, a gente lembra muita coisa boa. Como lembra as coisas ruim também, né, que teve.

 

P/1 – O quê que aconteceu de ruim?

 

R – De ruim, vou dizer assim pra ti que uns tempos atrás que quando nós começamos a trabalhar, não tinha muito assim... como é que eu vou dizer pra ti? Não tinha muita oportunidade para as pessoas dentro da empresa, uns tempos atrás, quando eu iniciei. Hoje não, hoje as pessoas têm oportunidade de mostrar que querem crescer dentro da empresa. Tem muita oportunidade a empresa. A empresa dá muita oportunidade para as pessoas.

 

P/1 – O que você mais gostava de fazer naquela época? Atividade, assim.

 

R – Naquela época o que eu mais gostava de fazer era trabalhar com manejo de matrizes.

 

P/1 – O quê é isso?

 

R – Manejo de matriz é tu trabalhar com qualidade de ovos, trabalhar com a limpeza de galpão. Trabalhar com vários manejos assim de produção de ovos, como por exemplo, assim também com pessoa, que a minha função hoje é ter muita ligação, trabalhar com pessoa, né? Tem que tá direto conversando com as pessoas, dialogando com eles, explicando as coisa pra eles e às vezes não é só a gente que sabe. Muitas vezes a gente aprende com as pessoas. As pessoas vem, começam a aprender com as pessoas.

 

P/1 – Daí nessa época então você trabalhava aqui e morava lá na comunidade rural. E você teve filho? Você tava, como era a sua vida com a família?

 

R – Eu tenho. Depois que nós casemos minha mulher demorou oito anos pra engravidar. Nós temos um filho. É filho único, né, a gente tem um filho e hoje ele tá com 13 anos. Ele estuda num turno, no outro turno ele faz curso. E no outro, ele joga na escolinha de futebol também, e daí ele tem três dias por semana que ele tem que ficar na escolinha jogando futebol.

 

P/1 – E depois da área rural você foi morar na cidade mesmo, né, em Fontoura Xavier? É onde você mora até hoje?


R – Até hoje.

 

P/1 – Como é que foi essa mudança? Você foi mudar pra onde? Você mora em casa? Conta pra mim como é que foi.

 

R – Não, daí eu comprei um... Na área rural onde eu morei já era meu. Daí eu comprei um terreno na cidade, construí uma casa, fiquei construindo a casa, construí uma casa, consegui construir a casa. Daí até comprei um terreno e a casa pra construir pra alugar. Daí a minha esposa, um dia, nós conversando, ela falou: “Nós vamos ter que morar mais perto. Tá ficando ruim o acesso pro filho ir pro colégio e nós temos que morar mais perto do colégio e onde que ele pode estudar e fazer curso, né, e ficar mais perto. E pra ele tá ficando difícil. Então vai ficar difícil pra mim e não pra ele. Pra nós ir morar lá eu vou comprar uma moto e um carro, que a gente vem pro serviço de moto e o dia que não pode vir de moto, vem de carro, e lá vai ficar mais fácil pra ele estudar”. Mas não é que nós não gostávamos de morar lá no interior, era bom, mas só que nós mudamos pra lá pra facilitar o estudo pro meu filho, né?

 

P/1 – Ô Dilamar, isso nós já estamos falando de mais ou menos final dos anos 1990, 2000, mais ou menos? Essa época? Esse período é mais ou menos esse?

 

R – Que eu mudei?

 

P/1 – É.

 

R – Já foi 2008 quando eu mudei.

 

P/1 – Ah tá, então você mudou mais recente?

 

R – É.

 

P/1 – O seu filho, na primeira infância, ficou ainda morando lá na roça?

 

R – Sim, ficou. Só que ele não estudava no colégio de Fontoura. Ele estudava num colégio num município vizinho. Daí minha esposa que levava ele. Tinha que atravessar um asfalto pra ir, uma BR, né, levava ele de meio dia e no final da tarde ela ia esperar ele pra pegar ele pra trazer pra casa. O ônibus pegava lá e levava pra outro município pra estudar. 

 

P/1 – E como é que era sua vida em família? Você chegava do trabalho, o que você costumava fazer com a criança, com a sua esposa?

 

R – A gente sempre quando chegava do trabalho, a gente, sempre eu cobrava dele, também na época que ele estudava, assim quando na época de aula, né, como é que tá os estudos dele, tal, e ficava assim mais preocupado no estudo dele. Nós conversávamos, ele e minha esposa. Minha esposa também, a gente ensinava. Ele, às vezes, tinha uma dificuldade de aprender alguma coisa, a gente pegava e ensinava pra ele, né, quando ele tava em casa, tudo junto.

 

P/1 – E vocês já viajaram? Onde é o lugar mais longe que vocês já foram? 

 

R – O lugar mais longe que nós já fomos foi pra Florianópolis.

 

P/1 – Você foi fazer o que lá?

 

R – Nós temos parentes lá, a gente foi passear lá em Florianópolis.

 

P/1 – Quando vocês foram?

 

R – Foi em 2006 nós tivemos lá.

 

P/1 – Como é que você lembra dessa viagem?

 

R – Ah, nós fomos assim, nós fomos lá numa época de verão. Florianópolis tem muita praia lá, né, e a gente deu uma passada na praia. Levamos o piá lá conhecer a praia, né, e ficamos dois dias na casa dos nossos parentes lá e no outro dia nós voltamos embora, depois dos dois [dias] voltamos embora.

 

P/1 – Você gostou dessa viagem?

 

R – Gostei.

 

P/1 – E seus pais, Dilamar, como que eles faleceram?

 

R – O meu pai ele fumava. Fumava demais. Ele teve um enfisema pulmonar provocado pelo cigarro. Ele quando faleceu, ele tinha 72 anos, mas era uma pessoa que nunca teve problema de colesterol, nunca teve problema de diabetes, de pressão alta, não teve problema de nada, né, só o problema dele era enfisema pulmonar provocado pelo cigarro. Ele faleceu assim com 72 anos, mas se olhasse a aparência dele assim, tu dizia que ele era um homem de 50 anos. Foi só enfisema pulmonar que ele veio a falecer. A minha mãe faleceu de infarto, deu infarto nela, mas minha mãe tinha problema mesmo de coração, de pressão e colesterol.

 

P/1 – Ela faleceu depois do seu pai?

 

R – Não, o meu pai... a minha mãe... na verdade, a minha mãe que cuidava do meu pai… Até quando eu trabalhava aqui, né, quando vieram me avisar que tinha morrido a mãe, eu até perguntei: “Não, mas foi o pai que morreu?”, daí o cara disse: “Não, foi a sua mãe”, disse: “Mas como foi a mãe se a mãe tava bem e o pai que anda com problema de saúde?”, “Não, mas foi sua mãe que morreu”. Ela cuidava do pai que o pai tava doente e ela faleceu um ano antes de falecer o pai, a minha mãe. Quando fez um ano que faleceu minha mãe, faleceu o pai. Minha mãe faleceu um ano primeiro que o pai.  

 

P/1 – Que ano foi?

 

R – A mãe faleceu em 2001 e o pai 2002.

 

P/1 – E Dilamar, e o seu trabalho? Você começou a contar como que era o seu trabalho, como é que foram as mudanças ao longo de todos esses anos, aqui na granja? 

 

R – Veio acontecendo as mudanças através do meu esforço, do meu trabalho e do apoio da empresa também. Comecei como auxiliar de serviços gerais, né, depois passei pra líder de grupo, que seria um cara responsável por uma turma. Depois, com o tempo eu passei pra auxiliar técnico, auxiliar de agropecuária, e hoje eu tô como técnico de agropecuária na empresa.

 

P/1 – O quê é que faz o técnico de agropecuária na empresa?

 

R – O técnico de agropecuária é responsável por todo manejo de matriz da empresa, que é o responsável pelo manejo de recria, manejo de produção, debilidade, de tudo quanto é tipo de resultado, tudo meta e resultado é o técnico de agropecuária responsável de alcançar as metas, né?

 

P/1 – Entendi. E Dilamar, como que você ficou sabendo desse projeto aqui de revitalização da escola?

 

R – Este projeto fiquei sabendo numa reunião em Lajeado, que os gestores vieram e comentaram comigo e o meu colega, o Otávio, que ia ter um projeto aqui em Fontoura, né? Perguntaram pra gente o quê é que nós achávamos do projeto. Disse: “Não, o projeto é bom, vamos tocar em frente”. E foi o que aconteceu. Nós conseguimos trazer pro nosso município o projeto e colocamos aqui, com certeza deu certo. Isso dá pra ver hoje, né, como que tá o projeto.

 

P/1 – Você falou como era essa escola em 1991 quando você chegou aqui que ela era de madeira, tal. Mas antes do projeto começar, pouco tempo atrás, dois anos atrás, como que era essa escola? Descreve ela pra mim.

 

R – Dois anos atrás antes de começar o projeto, ela era uma escola como ela é hoje, assim de material, né, pré-moldagem, mas ela não tinha pintura, tinha umas “arvoiada” [árvores] e tudo em cima quase caindo em cima do colégio. Tinha uma árvore aqui na frente que criava “bugio”, “bugiozinhos” que dá na árvore, “cabeludo” (tipo de taturana?) que chama, caía ali, era perigoso pras crianças. Não tinha... tinha horta, mas não tinha nada plantado dentro da horta, não tinha nada dentro da horta ali. Só tinha vegetação, mato, né? E o pátio também não era fechado como é fechado hoje assim, bem fechado. Não tinha também o parquinho ali atrás pras crianças brincarem ali.

 

P/1 – E como é que eles te falaram? Como é que o projeto foi apresentado pra vocês?

 

R – O projeto, o que eles falaram pra nós é que o projeto... se nós pegássemos e aplicássemos o projeto aqui ia ser um projeto bom, mas era mais pra educar, né, que nós tínhamos muito problema de lixo na comunidade. Nós tínhamos lixo solto nas ruas, né, os moradores das comunidades não tinham uma lixeira, o caminhão do lixo não passava pegando lixo aqui e, depois, quando entrou o projeto aqui, nós já conseguimos, o caminhão do lixo passa aqui quase diretamente pegando o lixo. Os moradores, hoje 90 por cento dos morador tem a lixeira deles pra colocar o lixo deles. Esse lixo tem destino. Daí um caminhão que é terceirizado da prefeitura vem e carrega esse lixo, tem o destino certo pra levarem esse lixo. Através desse projeto, também que veio... tem aqui em cima... do lado, em frente o escritório, um campo de grama sintética que veio também através do projeto, que veio como o projeto tava funcionando aqui, também veio por... Também veio muitas coisas assim pra melhorar. E veio esse projeto hoje pra nós aqui, não é nível municipal esse projeto, já é nível regional. Por quê é que ele é nível regional? Porque tá num município vizinho. Esses dias eu tava no município de Soledade, que dá 40 quilômetros daqui lá, o pessoal perguntou: “Ah, como é que saiu aquele projeto lá na comunidade em São Roque? São Roque, tal, tal. Como é que podemos fazer pra levar aquele projeto pro nosso município?”. Daí eu disse pra ele: “Aquilo lá não é às vezes não, é só tu vê uma estrutura bonita, tá vendo lá num colégio bonito lá, o que mais bonito que aconteceu foi educar o pessoal, saber onde colocar o lixo”. Porque lá tinha um problema muito sério: o lixo. Lá tinha lixo no meio da mato, na beira das estradas, no meio da rua, não tinha lixeira. Eu disse pra ele: “Não é só chegar lá e olhar assim. A estrutura tá bonita, mas o mais importante foi educar o pessoal, saber onde colocar o lixo e ter onde colocar o lixo.”

 

P/1 – Ô Dilamar, e você, como é que você como funcionário da BRF se envolveu nesse projeto?

 

R – Eu me envolvi nesse projeto porque eu fui convidado pelos meus colegas. Os meus colegas de agropecuária me convidaram e eu queria participar também. Eu achava muito importante um projeto desse aqui na nossa comunidade pela situação que nós vivíamos. Eu achei muito importante pela situação, e eu já tinha conhecimento em trabalhar assim em comunidade, que eu já fui presidente e vice-presidente de comunidade. Então já tinha esse conhecimento um pouco, né, então eu já queria ajudar, botar meus conhecimentos pra ajudar a funcionar.

 

P/1 – E o quê é que você fez?

 

R – Eu participei em várias funções. Eu participei desde a cerca. Vim aqui um dia, peguei as crianças pra juntar o lixo ao redor do colégio, ao redor do pátio. Trabalhei com o pessoal da comunidade juntando o lixo na própria comunidade e arrumei um caminhão da prefeitura pra vir carregar o lixo. Arrumar o caminhão... mas nós íamos juntar o lixo na rua, e nas beiras da mata, ensacava o lixo com o pessoal da comunidade e vinha o caminhão carregar o lixo.

 

P/1 – Isso foi o começo do projeto então? Como que o trabalho foi se desenvolvendo? As etapas do trabalho?

 

R – As etapas foram se desenvolvendo assim: nós começamos primeiro pela organização do colégio, que foi aonde nós começamos com pintura, lavagem do colégio, por fora pra pintar. Começamos a limpar a horta, depois com o tempo começamos a fazer a… preparar a terra pra plantar a horta e depois começamos a partir pro 5S, fazer o 5S, que seria mais na parte do lixo. Daí começamos a envolver as crianças, o pessoal da comunidade.

 

P/1 – Como é esse negócio do 5S? Explica pra mim. 

 

R – O 5S, hoje na BRF nós trabalhamos com o 5S através de organização, disciplina. O quê é o 5S? O 5S ele seria pra nós hoje um produto de qualidade pra nossa empresa. E nós pegamos aqui, aquele conhecimento que nós tínhamos dentro da BRF, que se tu pegar uma pasta, tu tem que saber o quê que tem dentro daquela pasta. Tem que ter uma etiqueta por de fora da pasta, identificando o quê é que tem dentro da pasta. Se tu pegar tua mochila, tu saber onde soltar sua mochila. Não é qualquer lugar que pode soltar sua mochila. Tem que ter uma identificação pra ti botar tua mochila. Se tu botar a tua toalha, o teu calçado, tem que ter identificação, o nome do funcionário. Daquilo que nós trabalhamos, do conhecimento dos 5S lá, nós passamos aqui no colégio. Hoje dá pra perceber. Por que o colégio tá organizado? Cada aluno tem a sua toalha, cada arquivo tem o seu nome. É um conhecimento que nós tínhamos lá dentro dos 5S e colocamos dentro do projeto. Foi aonde nós conseguimos desenvolver o projeto.

 

P/1 – Entendi. Por que a ideia não era só reformar a escola?

 

R – Não.

 

P/1 – A ideia era...

 

R – Era educar o pessoal, pegar e ensinar o pessoal.

 

P/1 – E como é que foi essa história da horta? A horta foi um troço legal, né, porque estimula o comprometimento dos alunos, né? Conta como é que foi essa implementação da nova horta aqui da escola.

 

R – A nossa ideia da horta foi de conseguir produzir a própria verdura dentro da horta, pro aluno consumir na merenda. Essa foi nossa ideia e foi o que aconteceu, e isso tá acontecendo hoje. Produz a verdura ali na horta. É um produto orgânico, não é um produto que tem veneno. É um produto orgânico, não tem tóxico nenhum, só produto orgânico é produzido ali. Aí tu recolhe aquela verdura ali e traz pro consumo de merenda pros alunos na hora da merenda. 

 

P/1 – E você lembra? Você participou de quando eles foram revitalizar a horta? Você tava nesse trabalho aí no dia ou não?

 

R – Tava, algum dia tava, era uma equipe grande, né, cada dia vinha um. Algum dia eu tava, que tava as crianças junto ali vendo como preparava a horta e o pessoal explicando pras crianças como que preparava, funcionava para fazer a horta.

 

P/1 – Mas você lembra do trabalho deles lá, mexendo na terra, plantando as mudinhas?

 

R – Sim. Eles ajudaram mexer na terra, ajudaram plantar as verduras, ensinaram fazer a estrutura  que tinha que fazer ali.

 

P/1 – Você contou como é que era a escola antes. Como é que você vê a escola hoje, Dilamar?

 

R – Como eu vejo hoje? Eu vejo que ela melhorou, mas ela tem mais pra melhorar. Eu vejo que melhorou bastante a escola, mas ela tem mais coisa pra melhorar ainda.

 

P/1 – O quê?

 

R – A estrutura do colégio eu acho assim que tinha que ser maior a estrutura do colégio. Eu vejo assim também que... eu acho que pelo projeto que a gente vem desenvolvendo no colégio, acho que nós tínhamos que trazer mais aluno pra estudar nesse colégio aqui.

 

P/1 – Dilamar, esse projeto só foi possível graças ao comprometimento dos colaboradores que trabalharam como voluntários, né? O quê é que você acha disso? De ser um voluntário num projeto social?

 

R – Eu acho muito importante. Eu acho assim que tu aprende muitas coisas. É um conhecimento a mais que tu leva e é muito importante porque cada um de nós dá um pouco, a gente vê que cada pouquinho que cada um consegue ajudar, a coisa funciona. Não precisa dar muito. Um pouco de cada um funciona.

 

P/1 – E qual o sentimento que você tem hoje de passar aqui todo dia e ver essa escola revitalizada?

 

R – Eu fico muito contente, fico muito contente. Até que no início a gente pensava assim, a gente tinha uma mentalidade assim de pensar: “Será que esse projeto, a gente fazer vai dar certo? Será que vamo conseguir manter?” Porque fazer não é difícil. Problema é manter, né? Eu ficava assim. Hoje eu venho aqui no colégio, converso com os professores, vejo assim tudo organizadinho, tudo né, eu vejo. Às vezes, tô conversando com a diretora, com a vice-diretora, com a secretária da educação que pergunta como é que tá a frequência dos alunos lá, depois do projeto, né? “Ah, melhorou ‘bah’, melhorou cem por cento. Aluno que tinha muita falta hoje tá com uma frequência boa lá”. Então eu acho assim, eu me sinto com orgulho de ter participado desse projeto, ser voluntário desse projeto.

 

P/1 – E o quê é que você acha de trabalhar numa empresa que estimulou essa ação social?

 

R – O quê é que eu acho? Eu acho o máximo. Eu acho muito importante isso aí. Se toda empresa tivesse uma mentalidade dessa da BRF de fazer um projeto desse, que não esperasse só pelo poder público pra fazer, se cada empresa fizesse como a  BRF, teve essa mentalidade de fazer um projeto desse daí, eu acho que nosso Brasil hoje seria muito diferente. Pensar que às vezes não é coisa assim que envolve muito dinheiro pra fazer. O que envolve assim é cada um dar um pouco pra fazer, cada um dar um pouco do seu tempo. Eu, não tirou o tempo do meu trabalho pra fazer isso aí, não tirou o tempo da minha família e tenho certeza que os outros colegas que participaram e tão participando, tão ajudando ainda, né, tenho certeza que se perguntar pra eles, vão dizer a mesma coisa que eu. Não tira tempo de nada. É só ter a vontade de ajudar, vai ali e ajuda e a coisa acontece.

 

P/1 – Você tem algum sonho ainda em relação a essa comunidade? Você olha assim e fala: “O quê é que podia melhorar mais? Assim, o quê é que você gostaria de trabalhar pra melhorar?

 

R – Já tem um projeto do prefeito municipal e é um sonho meu, que tô seguindo conversando com o prefeito também, de fazer outro colégio, fazer outro colégio maior aqui. Que daqui seria da primeira série até a quinta série. E depois tem o pessoal da noite que estuda, que faz o EJA, né? Ah, através do projeto também veio o EJA, Educação de Jovens e Adultos. Esqueci de falar no início da entrevista.

 

P/1 – Então conta pra mim, como é que foi isso?

 

R – A gente iniciou com o projeto e daí fomos falar com a secretária da educação e o prefeito pra nós trazermos o ensino, o EJA, que seria o ensino para adultos e jovens. Foi através do projeto que nós conseguimos. E como eu tava falando, o maior sonho que eu teria hoje é de ver outro colégio maior aqui na comunidade. Porque hoje ela está sendo uma comunidade bem desenvolvida no nosso município. Então o quê é que a gente espera? O prefeito já tem um projeto de fazer um colégio maior, de botar da primeira série, deixar da primeira a quinta aqui e fazer outro colégio maior do lado ali da quinta série até oitava série. Termina o ensino fundamental tudo aqui.

 

P/1 – Legal. Dilamar, tudo isso que a gente falou, das melhorias da escola, das melhorias tanto físicas como de gestão, enfim, todo esse trabalho, a finalidade é melhorar a vida dos alunos. Como você vê essa transformação das crianças? Você que tá sempre por aqui, como era antes e como é agora?

 

R – Eu vejo assim uma autoestima maior nas crianças, até aqui mesmo dentro do colégio. A criança se sente mais assim... com autoestima pra vim pro colégio, pra estudar. O colégio bem limpo, bem pintado, com outra aparência. A gente vê assim que eles tão muito felizes, as crianças, pra estudar. 

 

P/1 – Valeu a pena?

 

R – Valeu a pena.

 

P/1 – Se tivesse que fazer de novo, faria de novo?

 

R – É.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que eu não te perguntei e você gostaria de falar?

 

R – Não, mas eu acho que é isso aí.

 

P/1 – Falamos um pouquinho de tudo né?

 

R – É. Falemos um pouquinho, resumimos um pouquinho de cada um e falamos de todos os acontecimentos que aconteceram no projeto, né? Uma coisa que eu não falei também, a água que vem aqui pro colégio, seria uma água da nossa própria empresa, que nós demos água pro colégio aqui, não cobramos taxa nenhuma pra ajudar o colégio também, né, faz tudo parte do projeto.

 

P/1 – Quer dizer, a empresa ela precisa fazer a sua parte pra melhorar a sociedade em volta dela?

 

R – É, isso é o final, a empresa tem que fazer a sua parte pra melhorar a sociedade em volta, né, porque talvez as crianças que tão estudando aqui hoje quem sabe amanhã, depois não seja funcionário da BRF, né? Futuramente ser funcionário da BRF. Que já fique aqui na comunidade do colégio.



FIM DA ENTREVISTA

 

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