Busca avançada



Criar

História

Você vai indo e não tem como voltar

História de: José Sacido Barcia Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

José Sacido Barcia Neto nasceu em São Lourenço, filho de hoteleiros. Passou a infância brincando entre hóspedes e funcionários do hotel em que morava com a família. Aos 11 anos de idade saiu de casa para estudar no Colégio Militar de Belo Horizonte, experiência decisiva na escolha de seguir a carreira militar, formando-se pela Academia Militar de Agulhas Negras. Depois de formado, trabalhou como oficial de cavalaria no Rio de Janeiro, até que a doença do pai trouxe causou uma reviravolta na sua vida e o levou de volta a São Lourenço. 

Tags

História completa

Meu nome é José Sacido Barcia Neto, eu nasci em São Lourenço, em nove de fevereiro de 1957. Meu pai chamava-se José Sacido Barcia Filho, nasceu em Cambuquira, em 26 de julho de 1931. Minha mãe é Carmen Sabra Barcia, nasceu em Castelo, no Espírito Santo, em 13 de abril de 1933. Meus pais, eles são hoteleiros, já eram hoteleiros de raiz aqui em São Lourenço. Já herdaram os hotéis Guanabara e Universal, os hotéis da família, dos meus avós, seu José e dona Amélia, que também eram hoteleiros. Então a nossa família, ao todo, tá há 94 anos no ramo de hotelaria e restaurante. Então eles eram pessoas que tiveram a vida inteira dedicada ao negócio, dedicada à família. Eu tenho duas irmãs, Carmem e Rosane, as duas também se formaram, seguiram carreiras diferentes, e depois retornaram a São Lourenço, assim como eu, sendo que no momento, eu e Carmem Dolores, que é a segunda irmã, é que dirigimos as empresas. Então nós somos já a terceira geração de hoteleiros aqui em São Lourenço.

Olha, a minha mãe ainda é uma pessoa viva, ainda com 82 anos, muito ativa, aquela empresária que sabe tudo, que negocia tudo, que decide. Meu pai já mais intelectual, era um homem de muitas ideias, foi vereador, foi presidente de partido político, presidente de várias entidades aqui no sul de Minas, então era um homem mais de intelecto, e minha mãe mais de ação. E nós fomos educados com um punho muito rigoroso da minha mãe e isso desenvolveu na gente a nossa personalidade. Então a gente tinha aqui duas maneiras de viver com a família: minha mãe dava o duro e meu pai passava a mão na cabeça. E com isso nós fomos nos educando ao longo dos anos. A minha família é espanhola, somos da Galícia. O meu bisavô, meu avô, eram galegos. E por parte de mãe, o meu bisavô e minha avó eram libaneses. Então uma mistura de espanhol com libanês, que só podia dar bom comerciante mesmo.

Meu avô veio para o Brasil mesmo em busca de oportunidades. A Espanha tava numa época muito difícil no início do século XX, lá na terra deles é uma região muito pobre, e ele então veio pra encontrar um irmão dele que tinha conseguido emprego no Rio de Janeiro e começou a vida como garçom, como cozinheiro. Posteriormente teve hotel, aí então desenvolveu seus negócios, foi dono de padaria em Ipanema, depois comprou hotel em São Lourenço. Teve a vida inteira dedicada ao comércio. Minha avó por parte de mãe, veio do Líbano, de Jandum. Então eles vieram para o Rio também. No caso lá havia uma questão também política, no Império Otomano, no final do século XIX, então havia muita guerra, muita fome, então meu bisavô optou por imigrar para o Brasil em busca de melhores condições de vida, mais segurança, inclusive. E desses dois blocos familiares nasceu a geração do meu pai e da minha mãe, da qual nós somos a continuidade hoje.

Na minha infância São Lourenço era pequena, tinha sete, oito mil habitantes, todo mundo se conhecia, principalmente os hoteleiros, os turistas. Naquela época, o turista passava aqui 21 dias, 28 dias, então nós vivíamos junto com os turistas no período de alta temporada e com os funcionários, que nós crescemos e moramos dentro do hotel a vida toda. Então o nosso quarto era aqui, nós comíamos aqui, nós vivíamos dentro do hotel. Era uma vida muito tranquila. Nós íamos para as atividades escolares, depois vínhamos para o hotel, depois íamos pra aula de novo, depois voltávamos para o hotel. Então todo o nosso relacionamento, a nossa vida, girava em cima da vida do hotel, onde a gente vivia, a minha mãe, meu pai, meus avôs. E isso criou uma simpatia muito grande da gente com os turistas do Rio, de São Paulo, de Belo Horizonte, que vinham nos visitar, ficavam aqui vários dias. Formamos boas amizades com os nossos funcionários. Então assim, tem filho de funcionário que trabalha comigo, que era filho de funcionário do meu pai, do meu avô. Nós tivemos um garçom, o Sílvio, que trabalhou 55 anos conosco. Tivemos empregados de 30, 40, 50 anos de casa. Então é meio que tudo uma grande família, sendo que todos se respeitam, porque minha mãe era muito rigorosa, e minha avó também impunha um ritmo muito rigoroso aqui dentro da empresa, que evidentemente era a nossa casa também.

O Hotel Universal, naquela época, tinha 84 quartos e acho que 12 apartamentos. Os banheiros eram no corredor, então a gente via aquelas pessoas de hobby indo para o banheiro coletivo. Na hora do jantar, todo mundo de paletó e gravata. Aqui no Hotel Guanabara, que é onde meus pais herdaram dos meus avôs, também. Então era muito diferente, as pessoas eram muito mais formais, cumpriam mais seus horários. As refeições tinham horário certo pra começar e acabar. Nós que éramos crianças, nós comíamos separados no salão pra criança. Então a gente se sentia promovido quando a gente podia comer no salão grande com os nossos pais, até aí a gente era obrigado a comer com as crianças. Então são lembranças marcantes de uma cidade pequena, muito aconchegante, muito cosmopolita por conta dos visitantes. Não era aquela típica cidade de interior, porque vinha muita gente de fora.

Eu ingressei na escola com cinco pra seis anos. Era uma escola chamada Escolinha da Vovó, da professora Noemia Goulart Ferreira. Era uma escola assim, numa garagem. Você imagina uma garagem de carro. Nós éramos seis alunos. Essa escola não existe mais. Eu frequentei lá todo o primário, até o admissão, que na época existia o admissão, posteriormente você ingressava no ginásio. Então eu fiz os cinco primeiros anos de estudos meus na Escolinha da Vovó, de cinco, seis, sete, oito, nove e dez. Com 11 anos então eu fiz prova para o Colégio Militar em Belo Horizonte e pra lá ingressei no internato, onde segui minha vida. Foi muito difícil. Eu era filho de pais ricos e fui pra um colégio interno que todo mundo é igual, então é comunitário. Aquilo foi um choque pra mim. Então eu emagreci muito, tive muita dificuldade de me adaptar no começo, a ponto de um dia meu pai, que me levou, foi meu pai que me levou, minha mãe nesse ponto tava com o coração cortado, ele então me levou e eu ingressei. E um mês, um mês e meio depois, ele retornou com o meu avô pra me visitar, porque lá nós tínhamos aulas aos sábados e as visitas eram de mês em mês. E ele então me perguntou, me viu muito magro, meu avô ficou muito bravo, queria me tirar do colégio. Eu era o único neto homem dele, então ele tinha uma paixão por mim. Eu brinquei com ele, diz o meu pai que eu respondi que depois que eu saí jornal com o prefeito de São Lourenço, por ter passado no colégio militar, fui o único aluno, de uma geração inteira, que tinha passado naquela prova, que eu não voltaria nem morto, que ia aguentar aquilo lá até o final. E de fato eu acabei o curso muito bem sucedido e de lá segui minha carreira. Então o momento inicial foi muito marcante, muito difícil. Posteriormente, um ano, dois anos, eu me adaptei. E acho que a formação foi maravilhosa, um período maravilhoso da minha vida, que eu só recordo com alegria, com saudade, inclusive. Como aluno do colégio militar e um dos primeiros de turma, eu tinha ingresso automático na Academia Militar, ou na Força Aérea, ou na Marinha. Então eu lembro que o meu último ano lá, que foi o terceiro ano do ensino médio, científico, foi muito difícil, eu fiquei muito na dúvida, tanto é que eu fiz vestibular e passei para as Engenharias, e ingressei na Academia Militar de Agulhas Negras em 76. Então foi um momento muito de dúvida. Só quando eu estava, efetivamente, na academia, que eu senti, no primeiro ano, que aquilo era a minha vocação, e aí eu segui em frente. Mas eu tive muitas dúvidas no científico, se eu ia ser engenheiro ou se eu ia ser oficial do Exército. Uma coisa eu sabia que não queria ser: médico. Eu preferia fazer o furo a costurar a pessoa (risos).

Quando eu terminei o curso, eu escolhi uma unidade no Rio de Janeiro, que é uma unidade tradicional de cavalaria do Exército, chama-se Primeiro Regimento de Carros de Combate. Ele ficava ali na Avenida Brasil. Hoje todo mundo vê esse quartel, eu mesmo, tem dois tanques na frente, dois Leopard, mas na época... Hoje é CPOR, Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. Na época era o Primeiro Regimento de Carros de Combate. E eu pra lá fui designado e fui servir como comandante do terceiro pelotão do segundo esquadrão de carros de combate do primeiro regimento na época. Então lá eu comecei minha vida militar como aspirante. Eu peguei uma fase já muito agitada. Saí oficial em 79, então já peguei uma fase assim, bem agitada. Nós tínhamos no regimento formação de praças, formação de sargentos. Nós integrávamos uma brigada que era a Quinta Brigada de Cavalaria Blindada, é a única brigada do Exército Brasileiro blindada. A gente era muito deslocado pra demonstrações, pra manobras. Então nós não parávamos, era o dia inteiro em atividades, fim de semana também. Foi um período muito forte, muito profícuo de formação militar. Também nessa época eu conheci minha esposa, foi um namoro, comecei a namorar firme mesmo, acabei casando depois.

 

 

Eu continuei servindo no Rio de Janeiro até 89, portanto mais quase quatro anos de casado, como capitão. Então meu pai, que era o fundador... Herdou do meu avô e foi o fundador da empresa como ela é hoje, ele adoeceu. Ele então teve um derrame e não tínhamos na época quem dirigisse a empresa. Então nós fizemos uma reunião de família em 89 e eu então optei por passar pra reserva no Exército e vim dirigir os negócios da família. Então eu estou em São Lourenço efetivamente desde 1990. E quando eu cheguei aqui foi muito mais por um acidente do destino, que foi a doença do meu pai, do que uma opção, porque a minha opção era seguir a carreira militar. Foi muito difícil mudar. Era um desafio muito grande, porque eu nunca fui hoteleiro, eu nasci em hotel, fui criado até dez anos. Então eu fui muito mais tempo militar. Mas eu tinha aquele amor pelas empresas, pela fazenda, pelos funcionários, que, de certa forma, nós não teríamos quem tocasse isso pra frente. Então o que motivou muito a vinda foi continuar aquele esforço da família de quase 60, 70 anos, que eu queria que chegasse ao centenário, que eu espero que chegue dentro de seis ou sete anos. Então foi uma decisão difícil pra mim e pra minha esposa. Meu filho era pequenininho, era de colo, não sentiu muito, já praticamente foi criado em São Lourenço. Mas logo que cheguei aqui, assumi a direção das empresas e também a presidência do Sindicado de Hotéis, o qual meu pai tinha sido presidente. E aí acabei me envolvendo também com a comunidade. O Asilo São Vicente, meu pai era um dos fundadores, eu fui ser voluntário. A casa da creche da dona Genilda também, meu pai era voluntário, eu fui ser. Você vai se envolvendo, então sua vida começa a ficar cheia de coisas boas, embora às vezes difíceis, e você não vê o tempo passar. Então acho que isso me ajudou muito nessa adaptação. Eu vim de corpo e alma, de coração aberto, não vim com a saudade que eu tinha. Eu passei por cima da saudade, venci esse obstáculo naquele momento, por cima daquele ideal, e daí eu deslanchei minha vida aqui como administrador de empresas, que é o cargo que eu exerço até hoje, a par da condição de prefeito, que eu também tenho.

A chancela da minha liderança foi a enchente de 2000, foi um momento de grande crise. Foi um momento assim, nós tivemos um Ano Novo maravilhoso dia primeiro de janeiro de 2000, todo mundo alegre, os hotéis lotados, a cidade lotada, o réveillon, queima de fogos. No dia dois caiu uma tromba d’água, inundou todas as cidades da região. Inundou os hotéis do Centro, o Parque das Águas, a fábrica. Pra você ter ideia, os barcos de resgate saíam da porta aqui do hotel, saíam com o motor ligado. E aquilo foi um choque. Ninguém tava preparado pra uma tromba d’água daquela. Então naquele momento, essa enchente passou a ser assim... Praticamente as empresas todas tomaram um prejuízo brutal no meio da temporada de janeiro, que era um momento nobre. E nós não tínhamos tempo de esperar ajuda do governo federal, estadual, porque a ajuda demorava meses. Então nós nos unimos num grande mutirão. Gente rica, gente pobre limpando rua, acudindo quem necessitava, o Sindicato de Hotéis alugou tratores, você via dono de hotel comandando máquina, limpando o parque. Porque nossa meta era primeiro dia de Carnaval abrir o Parque das Águas. E nós limpamos o parque inteirinho e botamos naquele ano acho que dez ou 15 mil turistas no parque. Em 50 dias, mais ou menos, nós conseguimos concluir isso. Então aquilo foi um momento marcante, de um grande problema catastrófico, ambiental, que você tira daquilo uma... Você une a cidade em prol do objetivo de erguer. Nós abrimos todos os hotéis, abrimos todos os serviços e lotamos no Carnaval. E desse dinheiro do Carnaval é que a gente conseguiu aos poucos ir se recuperando, sendo que algumas empresas levaram quatro, cinco anos pra se recuperar dos prejuízos, porque tiveram 100% do seu prejuízo atingido pelas águas.

Eu acho que nesse momento aconteceu uma coisa interessante, em 2000 a sociedade, assim, o CDL, o sindicato, a associação comercial, prefeitura, acho que eles reconheceram, de certa forma, o meu esforço, o meu talento naquela ocasião, e me prestaram umas homenagens no final do ano. Foi o mérito empresarial, o mérito Hélio Costa, então esse momento meio que voltei ao meu tempo de militar. Além de prestar serviço, eu acabei sendo reconhecido. Mas eu nunca pensei em mexer com política, não. Eu não tinha essa ideia. A partir desse momento da enchente, São Lourenço entrou numa crise política muito grande. Os dois ex-prefeitos que disputavam a eleição, enfim, tiveram uma série de brigas e a cidade decaiu financeiramente, a prefeitura numa situação gravíssima. E não aparecia nenhuma liderança que pudesse desempatar a briga, era A ou B. E nesse momento, eu fui cobrado pela sociedade civil, as ONGs que fundamos, o sindicato, hotelaria, e houve um grande movimento realmente de pessoas cobrando uma posição nossa de ingressar na política, eu e um grupo político novo. E foi então que eu disputei a eleição pela primeira vez. Não era o que eu queria, mas você vai indo, você não tem como voltar. E de fato disputei a eleição em 2004, perdi, por mil votos, a eleição. Logo em seguida eu me candidatei a deputado estadual, fui primeiro suplente. E logo em seguida, dois anos depois, em 2008, fui eleito prefeito pela primeira vez, e reeleito em 2012.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+