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História de: Edivaldo Francisco das Neves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2014

Sinopse

Nascido no interior de São Paulo, Edivaldo conta como é a rotina numa cidade pequena. Seus estudos e traquinagens de criança, casamento e paternidade. Seu relato traz lembranças da sua trajetória profissional e de como chegou ao trabalho em que está hoje. Segundo ele, para ser motorista de caminhão tem que gostar!

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História completa

O meu nome é Edvaldo Francisco das Neves, nasci em Rio Claro, interior de São Paulo, em fevereiro de 1976. Meu pai chama Anizor Francisco das Neves. A data de nascimento dele é 20 de outubro de 1950. Minha mãe é Alzira Ferracini das Neves. Os meus pais vieram do Paraná pra Rio Claro. Isso foi acho que em 1975, foi logo depois que a minha mãe ficou grávida de mim, né? Logo que eu nasci em 1976. Eles vieram do Paraná pra cá parece que era uma cidade que chamava Goioerê. Goioerê no estado do Paraná, interior do Paraná. Minha mãe sempre foi do lar. Algumas vezes, esporadicamente, ela trabalhou ajudando o meu pai às vezes em casa de família, quando apertava, alguma coisa assim ela dava aquela ajudinha pro meu pai. Meu pai empre trabalhou em produção de fábrica. Hoje ele já é aposentado, mas continua trabalhando pra complementar a renda. Tenho uma irmã e um irmão, o Edson e a Érica. Eu sou o mais velho.

Casa da mãe - A gente sempre foi simples pra comer, né? Arroz, feijão, quando tinha carne fazia carne, uma comida simples. Eu mesmo, por exemplo, eu sempre fui fã de ovo, de comer ovo frito. Eu troco um bife, qualquer outra mistura pra comer um ovo frito, porque eu adoro ovo frito. Eu lembro que à noite, a gente queria comer alguma coisa, minha mãe fazia bolinho de chuva pra gente. Ela pegava o ovo e ela tirava a gema fora do ovo, então ela colocava só a clara. Então ela batia aquela clara até ela ficar dura, sabe, ela ficar bem concentrada de tanto bater a clara, aí ela jogava açúcar e a gente comia aquilo lá e gostava. Isso minha mãe inventava na hora pra gente comer lá, a gente queria comer alguma coisa diferente. Mas assim, a gente sempre foi simples, nunca teve nada de diferente e sempre a minha mãe que fez a comida lá em casa pra gente, até hoje.

Infância - Quando os meus pais vieram pra cá, as coisas antigamente eram bem mais difíceis do que era agora, pelo que eles me contaram. A gente sempre morou na mesma casa, já há quase 39 anos que a gente mora no mesmo lugar, no mesmo bairro, na mesma casa. Eu lembro, recordo quando eu era pequeno porque em frente da minha casa tinha uma lagoa, uma represa, e do outro lado da lagoa tinha uma cerâmica. O dono da cerâmica, o sobrenome dele era Wenzel. Por causa disso, o pessoal conhecia ali como a Lagoa do Wenzel. Eu lembro que a água vinha até próximo a hoje onde é a garagem de casa, do carro, a água vinha até ali. Então era uma casinha muito simples, dois cômodos, era muito barro. É uma casinha muito simples, dois cômodos, era muito barro por causa da água. Isso que eu me recordo da infância da nossa casa. Eu lembro que a gente brincava no barro quando a gente era pequeno. Até pescava lá em frente, que tinha peixe na época, não era assim tão contaminado que nem é hoje. Não tem mais a lagoa hoje, tá tudo seco.

Jogador de futebol - Jogador de futebol era meu sonho. Até tentei. Tentei na minha cidade mesmo. Hoje tem lá o time do Rio Claro. Tem dois times a cidade, tem o Velo Clube Rioclarense e o Rio Claro Futebol Clube. O Rio Claro Futebol Clube hoje tá na primeira divisão do campeonato Paulista, mas na época ele não tava na primeira divisão ainda, na época era tipo segunda, terceira divisão. E eu comecei a treinar lá, a gente era bem moleque, infantil, tinha 12, 13 anos, jogava futebol no infantil, então a gente fazia preliminares antes do jogo do profissional a gente fazia as preliminares. Então joguei algum tempo ali e tinha vontade de ser jogador de futebol, a gente imaginava que um dia ia ser jogador de verdade. Então tudo que a gente fazia a gente achava que era igual jogador de verdade, profissional, né? Do jeito que eles se trocavam, a gente... Quando antecedia um jogo a gente não conseguia dormir direito, ficava pensando, sabe, era esses tipos de coisa. Mas depois as coisas foram encaminhando pro outro lado e meu pai também não me apoiava nessa parte aí. Tinha dificuldade para deslocamento, apesar da cidade ser pequena às vezes não tinha como ir, não tinha bicicleta pra ir, pra pegar o ônibus demorava. Eu lembro que uma vez teve um jogo, a gente ia jogar contra um time lá da cidade e eu não tinha como ir, eu cheguei na metade do segundo tempo lá pra jogar aí o treinador ficou acho que ficou com dó de mim, falou: “Se troca que você vai jogar um pouquinho e tal”. Mas acho que foi um ano, um ano e meio no máximo que eu fiquei jogando com o pessoal.

Traquinagem - A gente na época tinha uma Monareta, uma bicicleta verde, eu lembro até hoje. Então às vezes eu com o meu irmão, a gente ia brincando com a bicicleta, às vezes eu levando ele na garupa e vice-versa. A gente ia pra escola, a minha mãe voltava com a bicicleta. Aí quando ela ia buscar levava a bicicleta de novo. A minha casa fica numa rua com uma descida, e tinha uma Brasília azul que era desse senhor que morava lá. Inclusive acho que ele ficou mais de 20 anos com essa Brasília porque até pouco tempo atrás ele a tinha, agora ele vendeu. Eu e o meu irmão descemos essa descida e eu tava na garupa o meu irmão guiando a bicicleta, pegou velocidade a gente não conseguiu frear. Aí a gente bateu na Brasília, a gente caiu, o meu irmão quebrou tudo os dentes da frente e eu rachei a cabeça, aquele sangue, a minha mãe começou a gritar na rua desesperada chorando e tal. Resumindo, a gente foi parar no hospital, tomei ponto, meu irmão quebrou os dentes. Isso foi uma coisa que eu acho que eu nunca vou esquecer mais. Outra coisa que aconteceu também que eu não esqueço, como de frente de casa tinha aquela lagoa que eu falei pra você no começo, então às vezes a gente ia amassar taboa, a gente ia pescar porque era fundo lá tal, né? E minha mãe não queria que a gente ia, mas a gente escapava de casa. Eu lembro uma vez que eu entrei pra amassar taboa lá, amassar taboa pra quem não sabe, a gente pegava um cabo de vassoura e ia amassando a taboa e entrando pra dentro lá no meio da água, fazia uma caverna, tal. A gente brincava dessas coisas. E aí eu comecei a entrar pra dentro e não consegui voltar mais, porque começou a afundar. Conforme eu andava afundava mais ainda. Aí eu lembro que eu entrei em desespero, comecei a chorar, aquela gritaria tal, e lá no meio lá e ninguém me ouvia. Não sei quem ouviu que foi chamar a minha mãe, minha mãe teve que entrar lá pra me tirar de lá e eu não conseguia. Eu achava que eu ia morrer aquele dia, foi um desespero. Isso eu não esqueço também nunca mais. Isso foi uma coisa que aconteceu também que eu não esqueço.

Não era mal educado - A primeira série, eu lembro até hoje o nome da minha primeira professora, ela chamava Elisa, da primeira série. O nome das outras séries pra gente já não lembro mais, mas da Elisa que foi minha primeira professora no primeiro ano primário, eu lembro o nome dela. Eu lembro muito assim, o que mais marcou pra mim na escola quando eu era pequeno era a parte durante o recreio, pra jogar futebol na quadra lá, montava o timinho que a gente tinha lá e ficava brincando, voltava pra sala todo suado, a professora brigava, porque a gente ficava todo suado, o rosto molhado e tudo mais. Eu sempre fui meio sapeca na escola, assim, era de aprontar muito. Durante a aula não parava de conversar, ficava contando piada, querendo se aparecer pras menininhas. Eu não era mal educado, o professor chamava atenção, a gente respeitava. Às vezes eu não ia bem nas provas por causa disso. Quando eu estudava, eu me focava, tirava nota boa, mas quando eu não dava bola eu ia mal. Mas depois foi amadurecendo um pouco, foi mudando, mas foi bem bacana. Eu estudei sempre na mesma escola (Escola Estadual do Primeiro Grau Barão de Piracicaba de Rio Claro), depois no segundo grau que eu mudei. Eu fiquei um tempo sem estudar. Quando eu tinha 17 pra 18 anos, a minha namorada da época ficou grávida. É a mãe da minha primeira filha. A gente chegou até a casar, porque eu tinha 17 pra 18 e ela tinha 14 anos na época quando a gente se conheceu. Eu acho que isso mudou o rumo da minha vida, porque de repente eu poderia ter tomado outro rumo, sei lá, ter me dedicado mais aos estudos, tivesse com a cabeça mais firme um pouco. Mas aí tive que casar muito novo com ela, foi basicamente isso que aconteceu. Tainá ra pequenininha também quando a gente se separou. Agora ela tá com 20 anos, tá tirando habilitação agora, tá fazendo faculdade na Unesp, tá fazendo Educação Física.

Valsa - Nunca fui de dançar, sabe? Quando era moleque dançava lenta que era dois passinhos pra cá, dois passinhos pra lá. Depois dançar valsa no meio de todo aquele povo, que tinha bastante gente lá, a gente alugou um salão de festas, fez toda a preparação. Foi uma festa de 15 anos mesmo. Eu com a minha ex-mulher a gente conseguiu fazer. Eu lembro que eu tive que chegar um pouco mais cedo na festa quando não tinha ninguém pra gente ensaiar a dança da valsa, porque eu não sabia. Aí quando eu cheguei ela já tava preparada já com aquela roupa, aquele vestido que usa quando vai fazer 15 anos. Ela tava superlinda com o vestido, eu cheguei, chorei, fiquei emocionado, coisa que eu não fazia antigamente quando eu tinha essa emoção. Fiquei emocionado de ver daquele jeito, aí a gente ensaiou, depois a gente dançou a valsa durante a festa, eu chorei de novo. Foi inesquecível.

Primeiro emprego - Perto da minha casa tinha um senhor que morava lá, ele tinha um terreno um pouco grande, então pra ele fazer tudo aquele serviço sozinho que era carpir o terreno, mexer nas coisas, pra ele sozinho era difícil, então às vezes ele me chamava com o meu irmão. A gente ia ajudar ele a fazer esse serviço lá e dava uma gorjetinha pra gente tal. Ficou bastante tempo ajudando ele. Mas o meu primeiro trabalho registrado foi com 14 anos num supermercado. Eu era repositor. Eu recolocava as coisas nas prateleiras. Foi com 14 anos, eu tive meu primeiro registro na carteira. Aí dos 14 anos nunca mais parei de trabalhar, só fiquei dois ou três meses parado, foi muito pouco, muito pouco tempo. Eu lembro até hoje quando eu recebi o meu primeiro pagamento, eu tava vindo embora de bicicleta, eu parei numa lanchonete que era do meu vizinho, ele tinha uma lanchonete, eu parei lá e sentei e comi um lanche. Aí eu paguei e depois eu fui pra casa e dei pro meu pai o dinheiro. Todo o dinheiro que eu recebia eu dava pra ele, ele dava um pouco pra mim. Eu trabalhei em vários lugares e depois fiz um curso de técnico de segurança de trabalho. E na época eu tava estudando e eu fiquei sabendo que na Nestlé, nessa unidade, tava precisando de um líder de segurança, um chefe de segurança, mas que tivesse o curso de técnico de segurança e o curso de vigilante. O curso de vigilante eu tinha e técnico de segurança eu tava fazendo. Falei: “Ah, eu vou tentar”. Mandei um currículo, chamaram-me pra entrevista na época. Eu fui contratado, a princípio, pra ser líder da segurança. Depois fui selecionado e fiquei de outubro de 2006 até julho de 2010 aqui fazendo a parte de analista de risco, parte de vistoria nos caminhões, cadastro de motorista, esse tipo de trabalho. Foi quando a Nestlé fez esse projeto da van, do Safe Driving, direção segura, que era pra viajar o Brasil todo dando treinamento para os motoristas. Para ser motorista de caminhão você tem que gostar da profissão. Não é uma necessidade... É uma necessidade, mas é mais gosto, você tem que gostar.

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