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História

'Você tem de pensar e acertar.''

História de: Adílson José Spolidoro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2021

Sinopse

Começa a relatar a origem da família, contando que os bisavôs saíram da Itália e chegaram em Piracicaba em 1900. Conta de sua infância e logo começa a falar sobre seu ingresso na faculdade de Engenharia de Produção no período de transição entre o Regime Militar e a redemocratização. Relata sobre o interesse do pai em música e artes, e de como ele incentivava Adilson a consumir essas áreas.Conta da transição da cidade do interior para a cidade grande. Conta sobre a faculdade e logo relata sobre o período do início dos anos 80 a partir da perspectiva econômica do país. Conta sobre seus primeiros empregos e da sua entrada no mercado financeiro. Relata sobre algumas empresas como a Nabisco e a influência que a White Martins possui nelas em questão de aparato tecnológico e conhecimento técnico. Conta um pouco mais dos gases da White Martins utilizados nos processos de produção. Conta da sua rotina, dos seus projetos e das tecnologias que a empresa que trabalha possui. Conta sobre a vida familiar. Relata da importância do projeto de entrevista, finaliza e agradece. 


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História completa

 

 

P/1 - Muito obrigada, senhor Adílson pela sua disponibilidade. Em nome do Museu da Pessoa e da White Martins.

R- É um prazer estar aqui com vocês, participando desse maravilhoso projeto da White Martins com o Museu da Pessoa, que eu creio ser um projeto que leve a memória da industrialização do Brasil e, mais especificamente, da indústria dos gases no Brasil para o público em geral.

 

P/1- Obrigada. Por favor, seu nome completo, data e local de nascimento.

 R- Meu nome é Adílson José Spolidoro. Eu nasci em Piracicaba [SP], em 6 de fevereiro de 1959.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

R – O nome do meu pai é Fioravante Spolidoro e de minha mãe é Lourdes Marquini Spolidoro.

 

P/1 – Você poderia contar um pouquinho da história dos Spolidoros e dos Marquinis, por favor?

R – Piracicaba é uma cidade do interior, ela fica há 160 quilômetros de São Paulo. É uma cidade cuja origem é 1700, a cidade tem quase 300 anos. É uma cidade que sempre foi agrícola e industrial ao mesmo tempo. E a origem da minha família vem do início de 1900, quando os meus bisavós saíram da Itália, da região de Vicenza, para trabalhar na agricultura na região de Piracicaba. No final de 1800 quando todo o processo de mão-de-obra escrava estava se dissolvendo no Brasil e foi quando se deu a grande parte da imigração italiana para o Brasil, tanto para São Paulo, quanto no interior de São Paulo. E no interior de São Paulo, na região de Piracicaba, vieram muitos italianos da região do Vêneto, no norte da Itália, uma vez que, nessa época, a Itália estava passando por uma crise econômica muito grande e, ao mesmo tempo, o Brasil estava recebendo imigrantes da Europa para o início do seu desenvolvimento, o início da sua produção industrial. Os meus bisavós vieram para trabalhar basicamente na agricultura, eu creio que para a substituição da mão de obra escrava, e depois disso meu bisavô, como todo italiano, comprou um pedaço de terra na região de Piracicaba, tanto meu bisavô por parte de pai, como por parte de mãe. Eram duas famílias: Spolidoro e Marquini tinham glebas de terras próximas e os meus avós moravam próximos, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. O meu pai acabou conhecendo a minha mãe, casaram-se e tiveram três filhos. Eu, que sou o mais novo, e mais duas filhas, a Maria Joana, que mora em São Paulo, e a Heloísa, que mora em Piracicaba.

Todo o meu crescimento foi na região de Piracicaba, mais especificamente na cidade de Piracicaba. Toda a minha infância, até pelo fato do meu pai ter indústria, fiz meu crescimento escolar no SESI, em Piracicaba, no SESI 85. Para mim, o SESI sempre foi uma escola espetacularmente organizada e eu estudei toda a minha infância no SESI e, mais posteriormente, fiz o meu curso técnico na Fundação Municipal de Ensino, lá em Piracicaba, como técnico de Edificações. Depois, eu fui cursar a universidade fora de Piracicaba. Prestei e passei no vestibular da Universidade Federal de São Carlos [UFSCAR], no curso de Engenharia de Produção e eu dei início a toda à minha carreira profissional. 

Desde jovem, na verdade, eu gostava das áreas de Exatas e mais especificamente das áreas de projeto, de desenho. Desde a minha infância, eu me lembro que os meus pais sempre nos fizeram estudar música e, tanto é assim, que as minhas irmãs são professoras de música, são pianistas, e eu também, por conseqüência, tive de estudar música. Naquela época não havia métodos muito, vamos dizer assim, afáveis para uma criança estudar piano. Então, você fazia dois, três anos de escala para depois começar a tocar as primeiras musiquinhas. Nesse processo, foi muito engraçado, porque eu comecei a estudar música, fiz três anos de piano, mas minha vocação sempre foram as áreas de desenho e de projetos. Então, falei para o meu pai: “Não quero mais estudar piano, eu quero ir fazer desenho”. Fui estudar desenho, estudar pintura e fiz toda a minha carreira profissional nesta área. 

Também, naquela época, comecei a pintar, a expor. Eu expus quadros tanto no museu de Piracicaba, com dez anos de idade, 11 anos de idade, como expus em Sorocaba [SP], no ABC [região da Grande São Paulo] também já muito jovem. Eu fiz todo esse processo na área de desenho, pintura até os meus 15 anos. Depois, entrei na universidade e acabei parando com isso, infelizmente, eu parei com a minha vocação de pintor. Mas eu sempre trabalhei com projetos, sempre direcionei a minha vida para a área de projetos. 

Eu comecei a fazer o curso de Engenharia de Produção em um período muito interessante do país, por quê? Porque foi em um período de transição entre o Regime Militar e a redemocratização do país. Eu fui criado em Piracicaba, em uma família absolutamente tradicional. Meu pai tinha uma pequena indústria de móveis, minha mãe cuidava da casa e também fazia vestidos de noiva, sempre foi uma grande batalhadora, ajudando o meu pai. Costurava muito bem, então, ela fazia muitos vestidos de noiva e ajudava na nossa renda doméstica. Então, fui criado neste ambiente, eu saí deste ambiente para São Carlos, onde, naquela ocasião, estava em um processo muito acalorado de discussões políticas. Eu cheguei justamente nesse ambiente, em que estava em processo a discussão da Anistia, a formação dos partidos, já havia o PMDB. Naquela época já existia também o PDS, se não me engano, justamente na época que o movimento sindical começou a se fortalecer e houve também o surgimento do PT. Eu peguei essa transição. Eu comecei na Universidade em 1977 e saí em 1982. Eu acho que foi um período muito rico da minha fase porque eu estava em uma Universidade a qual não havia apenas os cursos de Exatas, mas também havia cursos de Humanas, de Biológicas e um momento muito efervescente da Universidade, mais especificamente de São Carlos, onde o movimento estudantil sempre foi muito forte. Para mim, foi um período de transição interessante e difícil ao mesmo tempo, porque eu saí de um processo familiar bastante tradicional para um processo universitário bastante turbulento. Foi, vamos dizer assim, uma experiência muito interessante, tínhamos palestras com os políticos que estavam chegando, sendo anistiados, nós tínhamos discussões políticas sobre participação na abertura do processo. Foi um período em que a Universidade também entrava muito em greve por discussões ou por diferenças políticas ou questões salariais dos professores. Então, foi um período muito rico e muito turbulento ao mesmo tempo. E foi um período de aprendizagem. Aprendizado de viver em comunidade, em uma comunidade universitária e também em aprender a viver com a diversidade. Eu acho que este foi um dos meus grandes ganhos ao passar pela Universidade Federal de São Carlos, aprender a conviver com as grandes diferenças ideológicas, culturais e, para mim, foi muito rico esse período em relação a esse aspecto.

 

P/1 – Você falou muitas coisas interessantes e eu vou voltar só um pouco. Eu queria entender o por quê do seu pai incentivar tanto a música, a arte. Ele tinha um gosto já? Ele tocava alguma coisa?

 

R – Não. Na verdade meu pai era uma pessoa muito simples, uma pessoa que foi criada na lavoura e, depois, meu avô veio para a cidade e meu pai começou a se qualificar na área de mecânica. Meu pai tem apenas os estudos primários e creio que esse era um desejo dele para os filhos, pelo fato dele não ter tido oportunidade de estudar o que eventualmente ele gostaria de ter feito. Cursar uma escola normal, fazer uma faculdade, coisas assim. Então, ele projetou isso nos filhos e desejava isso ardentemente, de maneira que ele não poupava esforços para formar os filhos de maneira adequada. Eu sempre tive a imagem do meu pai como uma pessoa muito obstinada, no cuidado com a família e com a educação dos filhos. Tanto é assim, que as minhas irmãs, uma formou-se professora também, a outra, além de se formar professora de piano, formou-se em Engenharia Civil e eu fui para a área de Engenharia. Embora meu pai tivesse uma pequena indústria, limitada, sempre no Brasil, qualquer tipo de indústria, indústria pequena mantém-se a base de muito esforço, com muita luta. Então, apesar de tudo isso, ele sempre nos incentivou e não poupou esforços para isso. Isso foi muito marcante na minha infância, na minha adolescência e na minha juventude. Porque, de fato, o meu pai tinha recursos muito limitados para me manter, por exemplo, fora da cidade. Você tem despesas de moradia, de livros, com alimentação, com uma remuneração bastante limitada. Ele não me falava, mas eu via o esforço brutal que ele fazia para que eu pudesse cursar uma universidade importante, boa. Isso realmente, para mim, foi fundamental e muito marcante.

 

P/1 – Eu ia perguntar exatamente isso. Como foi sair de uma cidade pequena e ir para uma cidade maior? O cuidado dos pais, eles iam te visitar, você voltava?

R – Foi um período de transição. Para mim, foi uma transição difícil. Eu sempre fui criado dentro de uma ética familiar bastante cuidada, vamos dizer assim. Uma ética família com valores conservadores muito sólidos e, de repente, estava em outro ambiente, onde os valores eram sempre questionados e a forma de participação... Realmente foi muito difícil, no começo, a adaptação a essa transição. Mas à medida que eu passei a vivenciar este outro ambiente, passei a conhecer, a participar, a ler, você começa a entrar em outra escala de amadurecimento, a qual os seus valores são ampliados, porém as suas raízes são fortalecidas. As raízes de contato familiar, de valores básicos, de ética, de trabalho, de respeito. 

Realmente, para mim, são as raízes que movem as pessoas e as pessoas movem as organizações. Então, o que está por trás de grandes organizações, de grandes projetos e empreendimentos são os valores e, para mim, são esses os valores: o respeito, a ética, o trabalho, a valorização, valores que eu aprendi em casa. Com a Universidade esses valores se ampliaram? Ampliaram, mas os valores básicos de casa foram fortalecidos.

 

P/1 – Você morava sozinho?

R – Não. Na universidade eu morava em 11. Quer dizer, em casa, tinha as duas irmãs e na universidade, passei a ter 11 praticamente irmãos, né? Porque quando você mora junto com uma pessoa é uma coisa, mas quando mora junto com duas e quando mora junto com 11 pessoas, toma uma dimensão que você tem de aprender a conviver com 11 pessoas, 11 cabeças diferentes. Eu, por exemplo, não fumo, mas havia pessoas na minha casa que fumavam. Eu tenho dificuldade em estar com pessoas que fumam por causa da fumaça. Mas nós tivemos de aprender a conviver. As outras 11 faziam cursos diferentes. Cada um na minha república tinha um determinado curso. Sempre havia gente de outros cursos na minha casa estudando, porque nunca tínhamos prova no mesmo dia. Sempre era um grande turbilhão. Isso também me ajudou a aprender alguma coisa que é fundamental no ser humano: a tolerância. A tolerância com as diferenças. Hoje, temos uma carência nessa questão da tolerância com as diferenças.

 

P/1 – Alguma história engraçada deste período?

R – Olha (risos), eu me lembro que como éramos em muitas pessoas, havia uma feira perto da nossa república e uma das pessoas foi à feira e havia alguns animais vivos na feira. Eu me lembro que ele comprou um pato. Um patinho tão engraçado, quando ele trouxe, todo mundo acabou gostando dele, deixávamos o pato solto na casa. Nós não nos tocamos, porque a cada passo, ele fazia a sujeira dele. Depois, aprendemos a conviver com o pato e ele teve de ser um pouco disciplinado. Mas era muito interessante. Quando era pequeno, ele precisava nadar e como era uma casa antiga, havia vários banheiros, e em um deles tinha uma grande banheira. Para não deixar o pato sempre andar e para que ele pudesse nadar um pouquinho, enchíamos a banheira e deixávamos o patinho nadar. E a coisa mais gostosa, mais engraçada era que colocávamos o pato na borda da banheira e tinha uma rampa. Percebi que o pato andava na borda, daí ele se soltava e ia escorregando na rampa (risos). Era um episódio muito engraçado porque muita gente de outras repúblicas ia em casa, então, o pato acabou virando uma atração da nossa casa. O pato foi crescendo e todo mundo trazia comida do restaurante da escola para o pato. Ele cresceu, cresceu e, no fim, não dava mais para tê-lo, porque ele ficou um patão. Daí o levamos para a escola, onde tinha um grande lago e também uma criação.  Nós tivemos de levar o pato para a escola. Depois, não sei que fim teve o pato, se ele teve a sua família com os seus patinhos ou se virou almoço de final de semana (risos). Mas foi uma coisa muito engraçada essa história do pato. 

 

P/1 – Legal. E você fez toda a faculdade em São Carlos...

R – Sim, fiz toda a faculdade em São Carlos. No final da faculdade, como eu sempre gostei da área de projetos, dessa área industrial, eu tive uma disciplina muito marcante na minha vida. Não só a disciplina, mas o professor que me deu essa disciplina foi uma pessoa que me marcou pelo resto da minha vida profissional.  Ele dava aula aqui em São Paulo, na USP, na Engenharia de Produção da Poli [Escola Politécnica] e lecionava em São Carlos também. Esse professor chama-se [Guilherme] Ary Plonsk. Ele foi uma pessoa que marcou muito a minha vida profissional e, principalmente, o início da minha vida profissional. No processo de finalização do curso, eu me identifiquei tanto com a disciplina que ele: “Olha, Adilson, antes de você se empregar em algum lugar, você fale comigo”. Quando eu estava terminando esta disciplina e o ano na escola, começaram a surgir possibilidades de trabalho. Surgiu uma oportunidade efetiva de trabalho, eu falei com ele, que falou: “Não vamos lá.Vai lá conversar comigo em São Paulo e, quem sabe, a gente acerte de nós trabalharmos juntos.” No fim, eu vim fazer entrevista em São Paulo e acabei trabalhando com ele em São Paulo. Eu nunca tinha morado em São Paulo, era início de 1982. Eu já tinha vindo aqui evidentemente, mas, para mim, São Paulo era algo fora do meu ambiente, do meu dia-a-dia. Passei a morar em São Paulo com alguns conhecidos, que estudaram em São Carlos e vieram morar aqui. Comecei nessa empresa, que existe até hoje e, na época, era uma empresa, creio, subsidiária da Camargo Correa, era o Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores. Foi onde iniciei a minha carreira profissional. Essa empresa foi marcante, por que foi onde comecei a dar os primeiros passos em projetos. Na ocasião, o foco dessa empresa era grandes projetos para o governo. Barragens, projetos de saneamentos, grandes projetos na área ambiental e na área elétrica também. Eu fui trabalhar diretamente com esse professor, que era o chefe do departamento e nessa empresa, conheci algumas pessoas muito interessantes. A minha primeira amizade aqui em São Paulo foi também uma pessoa que esse professor contratou. Era também um estudante de Engenharia de Produção da Poli e nós começamos juntos. Na verdade. foi o meu primeiro amigo em São Paulo chamado Michael Robiseck (?). Ele me recebeu muito bem, embora tivéssemos culturas diferentes. Eu vinha de uma cultura do interior, de família de descendentes italianos e ele veio de uma cultura tipicamente paulistana, uma família que tinha uma criação de cultura judaica. Ele me recebeu muito bem e foi o meu grande amigo aqui, nesse período. Eu não conhecia ninguém. Foi assim que eu me introduzi na vida aqui, em São Paulo. 

Eu passei nessa empresa um período inicial da minha carreira profissional. Mais ou menos no final, no meio de 83, final de 82, o Brasil iniciou um grande problema que ficou histórico, a dívida externa. Um problema muito sério, onde Brasil estava com uma forte dívida externa e houve toda a intervenção do Fundo Monetário Internacional [FMI], e o Brasil passou a cortar investimentos públicos. Essa empresa em que eu trabalhava vivia muito dos investimentos públicos. Então, nessa ocasião a empresa começou a reduzir seu número de funcionários e eu percebi que eu não teria um desenvolvimento profissional adequado lá, em função da restrição de projetos. Eu conversei com o meu chefe e ele concordou comigo e acabei indo buscar novas oportunidades profissionais. 

 

P/1 – A sua turma da faculdade foi para que ramo? O que o Brasil oferecia naquele momento?

R – Nesse período do Brasil, entre 1976, 1977, 1978, foi quando o Brasil estava em um processo inflacionário muito grande, as pessoas aprenderam a conviver com a inflação e a ganhar dinheiro em função da inflação. Naquela época, para a modalidade da Engenharia de Produção havia uma demanda muito forte para engenheiro de produção no mercado financeiro. Algumas pessoas da minha turma foram trabalhar no mercado financeiro. Eu diria para você que quase a maioria foi para o mercado financeiro ou para departamentos financeiros em empresas. Uma minoria foi para a indústria. Porque naquela época a indústria estava vivendo um começo de um forte processo recessivo. O Brasil tinha parado de crescer. Era o final da década de 70 e entrou em um forte processo recessivo. Então eu fui um dos poucos que foi para a área de projetos industriais.

 

 P/1 – Daí então você saiu dessa empresa, conversou com o seu chefe. Você já tinha um olhar para onde queria ir...

R – Na verdade eu comecei a participar de alguns processos seletivos e foi interessante, porque vi um anúncio em uma escola que estava fazendo. Eu iniciei um curso de Mestrado e li um anúncio que estavam buscando recém-formado. Eu liguei para essa empresa e eles me disseram que estavam no final do processo seletivo, que estavam praticamente encerrando, mas estariam dispostos a conversarem comigo. Dirigi-me a essa empresa, fui bem recebido, participei do final do processo seletivo e, para a minha surpresa, acabei sendo escolhido para a vaga de assistente de diretoria, para trabalhar diretamente com o proprietário da empresa. Era uma construtora que tinha um bom nome, na época, era muito forte em São Paulo e também atuava no mercado financeiro com uma corretora de valores. Chamava-se Schahin Cury. Muitos anos depois, houve uma separação na sociedade e, hoje em dia, chama-se apenas Schahin. Então, eu fui trabalhar na antiga Schahin Cury, na área de engenharia diretamente com o proprietário da empresa, que foi um grande empresário do setor no Brasil, uma pessoa que me marcou muito também, ensinou-me muito e eu devo muito do que eu aprendi a ela também, que é o Senhor Salim Schahin, o proprietário da empresa. Eu sou muito grato a ele por muita coisa que ele me mostrou e ensinou. E ele proporcionou que eu participasse dessa grande mudança que a empresa teve. Na época, a empresa tinha um grande fortalecimento na área de construção civil e, também, estava se fortalecendo na área financeira, tinha uma corretora de valores muito forte e estava buscando novos mercados de atuação, novos mercados de trabalho. Foi onde comecei a trabalhar, estudando novos segmentos para que a empresa pudesse diversificar o seu negócio. Na ocasião, estudamos vários tipos de negócios, estudamos o negócio de agro-business, o negócio da mineração, o negócio da energia também. Dentro de energia estudamos, mais especificamente, a área de exploração de petróleo. Por quê? Nessa ocasião, a Petrobras estava iniciando o seu processo de abertura para novas empresas participarem de exploração de petróleo no Brasil. Existiam poucas empresas particulares que trabalhavam com a Petrobrás. Nós começamos a participar desse processo. Preparamos toda uma sistemática de cadastramento de qualificação junto a Petrobrás e passamos a participar de algumas concorrências. Eu, evidentemente, tinha feito Engenharia da Produção e precisei estudar bastante, tive de viajar, aprender porque a minha formação não era Engenharia de Petróleo. Acabei tendo de estudar e aprender com consultores, viajando, para prepararmos toda uma fase de concorrência. Participamos de duas concorrências na ocasião e dentre as que participamos para prestar serviços de exploração de Petróleo a Petrobras, nós ganhamos dois projetos, quase que ao mesmo tempo, com intervalo de alguns meses. Ganhamos duas concorrências e, depois, que ganhamos essa concorrência, eu fui instado pelo proprietário da empresa a tocar um desses projetos. A equipe era formada por mim e mais algumas pessoas. Não tínhamos um corpo de pessoas preparadas, então, eu fui dirigir um desses projetos. Foi quando eu me lancei na área de energia, mais especificamente, na área de exploração de petróleo e fui coordenar um dos projetos que ganhamos. Esse projeto era basicamente trazer grandes equipamentos ao Brasil, na área de exploração de petróleo, mais especificamente, nas áreas de produção e complementação de postos de petróleo e de reparo de postos de petróleo. E o outro projeto, concomitante a esse, era, dado esse projeto inicial, construir um projeto semelhante aqui no Brasil. Era trazer o equipamento e a equipe, aprender a operar e, ao mesmo tempo, formar mão-de-obra local e construir equipamento local. Então, coordenei, basicamente, os dois projetos e nós iniciamos essa coordenação do projeto no Norte do Brasil, mais especificamente em Natal [RN]. Eu organizei uma base de operação em Natal e nós esperávamos este equipamento, tanto em offshore em alto mar, no litoral de Natal, como em offshore no litoral em Fortaleza, há praticamente 150 quilômetros da costa. Logicamente, precisei transferir o meu domicílio de São Paulo para Natal e foi quando eu saí da vida paulistana para o Nordeste.

 

P/1 – Foi sozinho?

R – Fui sozinho, mas como todo descendente de italiano quando vai ao Nordeste, volta casado (risos). Eu acabei voltando a São Paulo depois. Conheci minha esposa e tive o meu filho lá. Era uma realidade muito diferente. Porque eu fui criado no interior de São Paulo, fiz toda a minha faculdade no interior de São Paulo, fui morar em São Paulo e, depois, fui para o outro lado do Brasil. Onde a cultura, os hábitos, as relações são diferentes. Foi outro tipo de abertura que eu precisei ter. Tive de enxergar pessoas, olhar o país sobre outro foco, que é o de enxergar o Nordeste dentro do Nordeste, diferente de você ver o Nordeste a partir de São Paulo. Daí eu pude perceber a grandiosidade e a diversidade que é o país. Eu amo o Nordeste, não só por ter conhecido a minha mulher, pelo meu filho ter nascido lá. Mas eu fiz grandes amizades, grandes parceiros e foi um momento muito marcante da minha vida. Eu passei lá um bom período da minha vida. 

Depois do período de instalação dos projetos, eu operei esse projeto por alguns anos e, depois, tomei a iniciativa de voltar a São Paulo. Eu estava carente de uma reciclagem profissional, então, voltei a São Paulo para, depois, trabalhar aqui. A empresa convidou-me para fazer um trabalho em outra área, dentro da mesma empresa. Nessa volta a São Paulo, procurei me reciclar, fui buscar curso de pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas e foi muito importante também. Passei a aprender outras coisas, além das áreas de operação industrial e de projetos. Eu tive mais contato com a área de mercado, na área mercadológica, e na área de Marketing e Finanças. Foi o que aprendi um pouco mais na Fundação Getúlio Vargas. Nesse período, eu trabalhei no mesmo grupo, porém em outra área, na área financeira, mais especificamente, na corretora de valores. Nessa época, o grupo Schahin estava diversificando ainda mais os seus negócios na área financeira e decidiu montar o Banco Múltiplo e, nessa ocasião, eu recebi o convite para participar da estruturação do Banco Multiplo Schahin Cury. Então, da área de petróleo eu vim trabalhar diretamente em um banco, estruturando a área financeira dentro do banco.

 

P/1 - Eu não posso deixar de perguntar, como é trabalhar em alto-mar, com o petróleo? Você chegou a ir para alto-mar?

R – Eu diria para você que foi um dos períodos mais apaixonantes da minha vida. A Petrobrás, também, é uma empresa belíssima. Eu tive muita ajuda da Petrobrás, principalmente pela Engenharia de Campo da Petrobras, divisão da Petrobrás, em Natal, que me ajudou muito. São pessoas formidáveis e foram grandes parceiros nossos. 

Eu sempre falo que não existe atividade industrial com o nível de emoção da área de perfuração e exploração de petróleo. É outra escala de emoção, são outras escalas de valores, de pessoas, de atitudes e a experiência que eu tive nesse setor, marcou profundamente para o resto da minha vida. Uma vez, eu estava iniciando lá, tinha 24, quase 25 anos, e já gerenciava duas operações, era novo de tudo. Eu lembro que estava embarcando uma vez e havia pessoas mais velhas comigo, estávamos esperando o helicóptero. Foi uma das primeiras vezes que eu estava embarcando e o pessoal estava batendo papo também: “E você?” “Não, você vai gostar deste setor. Você é paulista né?” E o pessoal brincava comigo: “Ô paulista! Você vai gostar de trabalhar com a gente. E você vai ver, esse negócio de petróleo é que nem uma cachaça. Depois que se toma, nunca mais se esquece e você vai ter que tomar pra sempre.” Essa foi uma frase que realmente marcou muito. Como cachaça... E de fato é. Porque é uma atividade maravilhosa, emocionante; só que é outra escala de valores, de atitudes e de posturas das pessoas. É uma atividade que exige muito risco, tomada de decisões muito rápidas e você não tem chance de falhar. Uma falha pode custar a sua vida ou de toda uma plataforma. Exige atenção, um perfil e uma atitude diferente e exige, principalmente, um companheirismo diferente. Esses fatores marcaram e influenciaram muito no resto da minha vida profissional.

 

P/1 – Qual é a sensação? Você chega e qual é o cheiro com o vento batendo...

 R – Olha, é um cheiro de mar misturado com fumaça de óleo diesel. Cheiro de petróleo... O petróleo tem um cheiro específico. É uma mistura de aromas que eu gostava, era uma mistura de amoras que eu gostava.  Um vento gostoso, uma brisa... Chega a noite, cai bastante a temperatura. À noite você olha para o mar e, muitas vezes, principalmente no litoral de Fortaleza e Natal, em alto mar, você vê os golfinhos procurando peixinhos pra comer. É um ambiente muito diferenciado. Eu me apaixonei por este ambiente. Eu diria para você que até hoje sou apaixonado por essa atividade e me marcou muito.

 

P/1 – Você chegava a ficar quanto tempo lá?

R – Eu gerenciava a operação, não ficava embarcado o tempo todo. Ficava vários dias, mas eu não era operador de equipamentos. Os operadores trabalhavam, na minha época, 14 por 14, 14 dias embarcado e 14 dias fora. Ou 30 por 30. Eu passava uma semana, dez dias, porque gerenciava a operação. Eu tinha também todo um controle de contrato que fazia junto a Petrobrás.  Então, havia o Chefe da Sonda de Produção I e o Chefe da Sonda de Produção II. Eu gerenciava essas duas pessoas, esses dois sites em alto mar.

 

P/1 – Você falou em desafio, que precisava ter um tempo de resposta muito rápido no caso de algum problema. Houve alguma situação em que você pensou: “Puxa, o que vou fazer agora?”

R – São casos do dia-a-dia, né?  Vou te citar um exemplo, contando um pouco da história e misturando um pouco com a minha história de vida: uma vez nós tivemos um problema em um equipamento. Quebrou o equipamento e todos os equipamentos eram importados, porque, naquela época, quase não se produzia equipamento de petróleo no Brasil. Já da plataforma, contatar o fornecedor, via fax, no exterior. Ele colocou a peça no avião, nos Estados Unidos e, muito rapidamente, depois de 48 horas, chegou aqui no Brasil. Eu, pessoalmente, fui buscar essa peça no aeroporto de Natal e, coincidentemente, quando eu estava pegando a peça, vi uma morena que me chamou a atenção. Depois, acabei conhecendo essa morena que, hoje, é a minha esposa.  Essa peça, então, ficou marcante (risos). Depois, eu tive um relacionamento com ela, tivemos um filho e enfim... 

As coisas eram muito dinâmicas. Você tem de pensar e acertar. É por isso que você tem de estar com a pessoa certa, no momento certo. Você não  pode se dar ao luxo de pensar muito, precisa pensar assertivamente na área de petróleo, porque os valores são muito... Cada barril de petróleo, hoje, deve estar na faixa de 80 dólares. A Petrobrás conta a produção por hora, então, cada minuto que você deixa de produzir, você perde. Se o petróleo não sai do poço, você perde. Você está pagando todo aquele custo de pessoal e o petróleo não esta saindo. É assim que eles medem a performance. São barris por hora.

 

P/1 – E como foi sair de alto mar, de toda essa adrenalina e voltar para o escritório, né?

R – Na verdade, eu me casei, e como estava com uma atividade muito intensa... Eu estava em uma fase profissional em que necessitava de uma reciclagem educacional, ampliar um pouco o meu escopo de conhecimento. Foi quando eu decidi parar um pouco com essa atividade, embora tenha sido muito apaixonante e tenha me identificado muito. Mas eu voltei a São Paulo, porque São Paulo, de fato, é um centro onde você encontra opções educacionais muito boas e eu decidi por esse caminho, para que pudesse ampliar um pouco o escopo da minha formação escolar.

 

P/1 – E você falou que foi para o mercado financeiro?

R – Sim, na mesma empresa. Eu passei três anos nessa fase onde eu tive contato com dinheiro, fui um pouco operador de tesouraria. Aprendi a mexer com todo esse fluxo, a operar o mercado e entender o valor do fluxo de dinheiro na atividade industrial. E isso me ajudou muito, porque, hoje, eu enxergo uma atividade industrial como um fluxo de tesouraria, um fluxo de dinheiro. Ou seja, você tem a matéria-prima, você a processa, vende e se demorar para processá-la estará pagando um custo maior do que, na verdade, deveria ser. Hoje, eu enxergo a atividade industrial como um grande fluxo financeiro, graças ao período que eu passei dentro do Banco, tomando dinheiro do mercado e emprestando dinheiro também. Essa foi uma fase fundamental da minha vida, embora tenha sido curta, mas foi um período de aprendizagem muito profundo sobre a área financeira.

 

P/1 – Em São Paulo, não?

R – Em São Paulo. Depois desse período, eu voltei para a área industrial. Foi quando iniciei a minha atividade na área de alimentos. Naquela ocasião, surgiu uma possibilidade de voltar para o interior, meu filho estava pequeno e eu queria ter uma vida um pouco mais adequada para o meu filho. Ele estava tendo um problema muito sério com a poluição. Estava acostumado com Natal, veio para cá e não se adaptou ao clima, com a poluição. Eu sempre estava no Pronto Socorro com ele, levando-o para fazer inalação, uma série de coisas, e achei por bem sairmos de São Paulo, mesmo porque estava querendo voltar para uma atividade na área de projetos, para uma atividade industrial. O mercado financeiro foi importante? Foi, aprendi muita coisa, mas não seria aquilo o objeto do meu desenvolvimento profissional. 

Foi quando voltei para Piracicaba, surgiu uma possibilidade de trabalhar em uma fábrica da Fleischmann Royal em Piracicaba. À época, a Fleischmann Royal, aquela que fazia o Fermento Royal e a Gelatina Royal, era a proprietária da Nabisco. A Nabisco era a maior fabricante de biscoito no mundo e tinha recentemente comprado uma indústria familiar de biscoito em Piracicaba. A Nabisco começou a mudar a fábrica, introduzindo produtos novos e necessitavam de novos profissionais na área industrial e de projetos. E foi na época em que fui a Piracicaba, surgiu essa possibilidade, e eu passei a trabalhar na Fleischmann Royal, mais especificamente, na fábrica da Nabisco, com a fabricação de biscoitos. Se você pergunta: “Mas o que você entendia de biscoito?” Eu não entendia nada de biscoito. Eu entendia muito de gestão industrial e de equipamentos, mas nada entendia de biscoitos. Evidentemente, tive de fazer curso, precisei ler, estudar, estar com os consultores. Naquela ocasião, a Nabisco contava com um time forte, que vinha para o Brasil ensinar e participar de processo de melhoria de produto. Sempre gostei de estar com pessoas mais idosas para a minha formação profissional. Procurei absorver de todas as pessoas que vinham à fábrica fazer algum produto, mexer em algum processo, colava nelas para realmente absorver o máximo.  Com isso, eu fui me desenvolvendo na área de biscoitos, na área de panificação e, evidentemente, eu tive de estudar, fazer cursos, participei de muitas feiras, fiz muitas visitas internacionais para conhecer outros processos e eu me apaixonei pelo setor de alimentação. Eu acho que a cachaça do petróleo, que eu tomei lá atrás, virou uma cachaça na área de alimentação. Apaixonei-me pelos produtos na área de alimentação e lá eu tinha um foco muito forte na área de novos processos, novos produtos e instalação industrial. 

Pelo fato da minha função estar muito ligada à área de novos processos industriais, eu tinha um contato muito forte com o pessoal de marketing. Toda vez que tinha um projeto de lançamento novo, nós estávamos sempre junto com o pessoal de marketing e, com isso, eu desenvolvi um sabor pela profissão na área de manufatura de biscoitos muito grande. Isso fez com que eu gostasse muito do negócio e, hoje, sou um apaixonado. Da mesma forma que eu era, no início da minha carreira profissional, pela área de petróleo, hoje, sou apaixonado pela área de panificação e de biscoitos.

 

P/1 – Nessa sua trajetória, você já conhecia a White Martins? Já tinha ouvido falar? 

R – Sim, já tinha ouvido falar. Para você ter uma idéia, lá atrás nós estávamos desenvolvendo um produto, um biscoito. Quando você fazia a massa, precisava manter a massa do biscoito em uma baixa temperatura e, com isso, uma das alternativas que usamos, na época, era usar gases de baixa temperatura, por exemplo, o CO2, para que a temperatura fosse reduzida. Então, eu já tive a oportunidade de trabalhar com essa empresa, justamente para a elaboração de massas de biscoito. Foi uma aplicação muito específica na época.

 

P/1- Na Nabisco?

R – Sim, na Nabisco. Depois, eu trabalhei em outras empresas, também na área de biscoitos e sempre havia uma aplicação ou outra. O gás inerte é aplicado dentro do pacote de embalagem. O nitrogênio é um gás inerte para guardar, manter as características de produtos, tanto de sabor, como de crocância. Isso faz com que o produto permaneça como se estivesse sendo fabricado hoje. A White Martins sempre esteve presente nesse segmento, aportando tecnologia e conhecimento técnico. Sempre foi uma empresa que deu uma assistência técnica muito forte, muito boa, muito profissional e muito ética. Isso sempre me chamou a atenção na White Martins.

 

P/1 – Eu ia te perguntar exatamente isso. Nas empresas que você passou, era uma necessidade que vocês percebiam e chamavam a White porque precisava de algo específico ou era uma coisa que o mercado já conhecia e vocês só utilizavam.

R – Nesse caso especifico, não era muito comum no mercado brasileiro, há 20 anos. A Nabisco sempre foi precursora no Brasil em inovações em biscoito. Hoje, outras empresas aplicam, mas naquela ocasião eles foram os precursores desse uso... Pelo fato de não ser muito comum na ocasião, a White Martins nos deu uma boa assistência técnica, trouxeram técnicos de fora também, enfim, sempre se aplicaram em inovações tecnológicas no segmento de alimentos.

 

P/1 – Depois, você saiu da Nabisco e passou...

R – Eu passei por outras empresas na área de biscoitos, tão fortes quanto a Nabisco e eu sempre mantive a minha carreira profissional na área de alimentos. Hoje, realmente é a paixão da minha vida, são produtos diferenciados. Depois dessa trajetória, passei a trabalhar aqui. Eu recebi uma proposta da Bauducco para estar aqui desempenhando o papel de Diretor Comercial, cuidando das fábricas do ponto de vista industrial, na Bauducco. Identifiquei-me muito com a empresa, porque têm valores muito sólidos em relação às tradições de qualidade, de atendimento ao consumidor, de inovação tecnológica e, principalmente, de surpreender o consumidor. A Bauducco é uma empresa que tem no seu DNA, no seu berço, a característica de surpreender o consumidor com produtos diferenciados e com produtos que, realmente, façam a diferença para o consumidor. Diferença tanto no ponto de vista da alimentação, como do ponto de vista do sabor, da crocância. Você tem uma experiência diferente quando come um produto Bauducco. Isso me chamou a atenção. Essas características, esses atributos fazem parte do DNA da empresa, do DNA do proprietário da empresa, dos seus filhos. Esse clima realmente me apaixonou. Veio ao encontro do que eu gosto e do que acredito: fazer produtos de excelência e, mais do que excelência, produtos que surpreendam o consumidor. Hoje, não basta ter qualidade, nem descendência. Você precisa ter produtos que surpreendam o consumidor. Que o consumidor tenha uma experiência diferenciada com o produto, uma sensação diferente, um momento diferente. O nosso foco aqui é que o consumidor que experimente um produto Bauducco, realmente se surpreenda com o produto, essa que é a nossa meta, esse é o nosso foco e o que buscamos no dia-a-dia. E é essa paixão que nós criamos em nossos colaboradores. Para trabalhar aqui na Bauducco, precisa ter paixão por produto, por excelência e precisa ter paixão, principalmente, em surpreender os consumidores. É o que nós buscamos.

 

P/1 – Fale, então, um pouquinho mais da Bauducco. Que processo é esse até o panetone sair da fábrica e chegar na nossa mesa?

R- Na verdade, que o panetone aqui é um grande momento, uma grande festa. Embora nós tenhamos muito trabalho, trabalhamos 24 horas, sábado e domingo. Para você ter idéia, em uma fábrica nós temos em Extrema, no Sul de Minas Gerais, recebíamos 80 caminhões por dia de matéria-prima e sai, praticamente, 70 caminhões por dia de produto acabado. É um movimento gigante, tanto de matéria prima, como de pessoas. Nós temos hoje, dentro das fábricas, aproximadamente três mil colaboradores, contando com todas as fábricas, 24 horas por dia, sábado e domingo. Então, a campanha do panetone é um momento muito belo, um momento muito bonito. Principalmente, quando você vê a farinha, as frutas, todos os ingredientes sendo misturados. O panetone sendo colocado na forminha, aquela massa belíssima, amarelada com as frutinhas. Depois, você vê o panetone crescendo, aquela coisa que era pequenina, cresceu... E para esse crescimento é usado um fermento absolutamente natural, não tem nada de artificial. É um fermento que vem da empresa de 50 anos atrás. É o mesmo fermento e o mesmo processo de 50 anos atrás. Depois, você vê o panetone entrando no forno, saindo do forno e respirando esse aroma saboroso do forno. É algo muito especial para nós, para quem vê e participa desse processo.

 

P/1 – Você falou um pouco da estrutura do panetone, por exemplo. Mas para outros produtos é a mesma estrutura das fábricas?

R – Nós temos linhas diferentes. Temos linhas especiais para o panetone, para o biscoito, para cookies e para wafer também. Hoje, para você ter idéia, nós somos o principal fabricante de panetone no Brasil e na América Latina. Nós somos o principal fabricante de wafer e um dos principais fabricantes de biscoitos, também no Brasil. Nós somos o principal fabricante de torrada, de rocambole e de bolos também. Temos liderança em vários segmentos da panificação e na área de biscoitos.

 

P/1 – Vocês têm fábricas no Brasil todo?

R – Temos duas fábricas aqui, próximas do nosso edifício, no nosso escritório central, que fica na Rua Endres [Guarulhos]: a fábrica de wafer e a fábrica de bolos e de panetone. Nós temos uma terceira fábrica em Guarulhos, no bairro de Bonsucesso, onde nós temos torradas e rocamboles. Lá temos a maior linha de torradas no mundo. Na fábrica do sul de Minas, no município de Extrema, nós temos a maior linha de panetone do mundo. E também temos as linhas de biscoitos em Extrema.

 

P/1 – Você conhece a história, dizer como se deu a parceria com a White Martins? 

R – A parceria com a White Martins... Nós sempre usamos os gases da White Martins nos processos que envolvem toda a parte de manutenção. Mais especificamente, temos um projeto, que foi feito há alguns anos com a White Martins, que é a nossa estação de tratamento de efluentes, um projeto desenvolvido pela White Martins. Alguns equipamentos também são fornecidos pela White Martins e é um conceito que eles desenvolveram e usamos até hoje, inclusive tendo a assistência deles. É um projeto de tratamento de efluentes com membrana. O fluído entra, passa na membrana e, depois, obtém o fluído praticamente limpo. O projeto de todo esse processo foi feito pela White Martins.

 

P/1 – São algumas fábricas, alguns escritórios? Como é isso?

R – Temos um cuidado com essa questão de efluentes em todas as nossas fábricas, porém cada fábrica nossa tem um determinado processo. Esse projeto foi desenvolvido com a White Martins, que nos trouxe a tecnologia das membranas, uma tecnologia muito moderna, usada na Europa. Uma tecnologia que permite a você ter o controle de saída do seu efluente de forma muito constante, algo que nos ajudou muito. Todo esse processo visa você tomar o seu efluente da sua fábrica, água de restaurante, água de banheiro, de lavagem de mãos, de lavagem de equipamentos. Esse processo vai para uma cuba de uniformização, um tanque de uniformização e, a partir disso, esse processo passa por uma separação. Depois dessa separação, o próprio fluído passa pelas membranas, onde sai de um lado um fluído mais limpo, adequado às normas ambientais e do outro lado sai os resíduos. Na verdade é um processo muito moderno que eles nos ajudaram a estabelecer na fábrica de Extrema, por ser uma fábrica maior, nova e mais moderna. Atualmente, vamos passar por um processo de reciclagem e, inclusive, de ampliação desse modelo.

 

P/1 – E isso foi uma exigência que partiu de vocês?

R – Na verdade, toda atividade industrial tem de se adequar a determinados parâmetros de emissão de gases e de emissão de efluentes. Por meio desse projeto, o nosso objetivo foi adequar às normas existentes para que você tenha uma sustentabilidade do seu processo produtivo, do seu trabalho.

 

P/1 – Há quanto tempo você fazem esse tratamento de efluentes?

R – Já estamos com este tratamento de efluentes há mais de cinco anos 

 

P/1 – E a White Martins é só parceira no sentido de fornecer gases para o tratamento de efluentes e manutenção?

R – Sim, nós compramos gases deles para atividades em manutenções que nós temos. Em alguns produtos que fizemos no passado já utilizamos gases da White.

 

P/1 – E conta um pouquinho da sua rotina, como é o seu dia-a-dia hoje.

R- A minha rotina no dia-a-dia é muito diversificada. Nossas fábricas trabalham 24 horas por dia. 24 horas por dia tem caminhão entrando, entregando matéria-prima e caminhão saindo para o nosso depósito central e para os supermercados. Acima de tudo, 24 horas por dia, há consumidores comendo os nossos produtos. Ou seja, 24 horas por dia nós estamos expostos com os nossos consumidores. Requer uma dinâmica muito forte, tanto na manutenção dos seus sistemas de qualidade, atuando ponto a ponto na fábrica, como na manutenção das inovações perante os seus consumidores. Hoje, nós somos certificados por uma certificação internacional chamada BRC, que significa British Retail Council. É uma certificação inglesa que, basicamente, faz uma varredura nos seus processos de trabalho para que todo o seu procedimento seja certificado de qualidade. A partir disso, nós podemos ter uma confiabilidade de produção maior, tanto é assim que exportamos para diversos países no mundo. Exportamos muito para o Japão e para os países da Ásia. Nós exportamos também para o Oriente Médio, para a África e exportamos muito para a América Latina e para os Estados Unidos. Hoje, se você vai em supermercados Walgreen, nos Walmarts dos Estados Unidos, no Round Sale, você vai ver os nossos panetones e os nossos produtos. Um americano pode se dar ao luxo de comer um panetone Bauducco em sua casa. Pode ser dar ao luxo de comer um wafer Bauducco com uma certificação internacional do BRC, do British Retail Council.

 

P/1 – E as fábricas são aqui?

R – Sim, as fábricas são aqui no Brasil. Isso, de certa forma, enche-nos de alegria e orgulho ver um panetone, um biscoito wafer nas gôndolas do Walmart, nos Estados Unidos, nas gôndolas do Walgreen. É muito gratificante para o nosso trabalho e nossos colaboradores sabem disso e curtem, vamos dizer assim. Se cada colaborador aqui tivesse um facebook para isso, eles apertariam o curtir, né? (risos)

 

P/2 – Voltando a sua relação com a White Martins, que equipe você precisa dispor na sua empresa quando ela vem com esse assunto de tratamento de efluentes?  Que periodicidade vocês tem de dispor para atendê-los? Que tipo de profissional o senhor dispõe e que tipo de profissional vem para atender a demanda na área de efluentes? 

R – Eles nos atendem em dois aspectos. No aspecto de projetos, em alguma modificação que, eventualmente, faríamos na estação, a White aporta conhecimento técnico para a sua equipe de engenheiros e também para a área de manutenção e assistência técnica. Nas fábricas, temos o nosso pessoal técnico, nosso pessoal da Engenharia para recebê-los e discutir uma proposta, uma inovação, uma manutenção técnica específica. Nesse aspecto, temos uma relação muito cordial e muito boa. Nas ocasiões em que estive presente, sempre foram muito boas e do nosso corpo técnico, também, sempre ouvi falar muito bem do atendimento que a White nos presta.

 

P/2 – E os equipamentos? O senhor falou em membranas, mas não há necessidade de gases na purificação desses efluentes? É só o equipamento mesmo?

R – Nós temos o equipamento, fornecido pela White Martins e, muitas vezes, temos a parte de oxigenação dos nossos efluentes. A White também participa desse processo.

 

P/1 – E existe um porquê de ser a White Martins a parceira? Qual é o diferencial?

R – Creio que o diferencial seja o atendimento. A White Martins realmente tem se dedicado à área de tratamento de efluentes e tem desenvolvido muitas opções e muitos projetos nessa área. Eles detêm um conhecimento forte na área e foi por isso que, na ocasião, a empresa, decidiu buscar essa tecnologia.

 

P/1 – E fora do ambiente de trabalho, como é o Adílson? Em casa, nos momentos de lazer...

R – Fora do ambiente de trabalho, até pela minha própria formação familiar, tenho uma convivência muito forte com a minha esposa e o meu filho, que são os amores da minha vida. A minha esposa teve um papel fundamental na minha vida. Eu sou muito grato a ela por ter contribuído muito para o meu crescimento, do ponto de vista pessoal e do ponto de vista profissional. E ao meu filho também. Eu sou apaixonado pelos dois. Tenho um filho que mora em São Paulo, está terminando o curso de Economia na PUC [Pontifícia Universidade Católica] e, diferentemente do pai, ele já escolheu uma área para ganhar dinheiro. Ele trabalha no mercado financeiro (risos). Nesse aspecto, ele foi mais inteligente, já foi direto onde tem o dinheiro. Hoje, ele trabalha na área financeira, na bolsa de mercadorias de futuros, dentro do Banco HSBC. Desde os 15 anos, isso sempre foi objeto da vida dele. Aos 15 anos, eu dei a ele uma carteira de ações. Falei: “Bom, eu quero que você aprenda a começar a conhecer economia, a começar aprender com ações“ Com 15 anos, ele multiplicou essa carteira sozinho. Ele ia a uma determinada agência bancária, em Piracicaba, que tinha uma sala de ações onde as pessoas mais idosas iam aplicar as suas ações. Ele ficava conversando com as pessoas mais idosas e fazia as suas operações. Quando ele não ia ao banco, fazia por telefone. Então, ele se apaixonou pela área financeira, pela área de mercados de capitais e decidiu fazer Economia. Prestou e entrou na PUC. Hoje, ele mora aqui em São Paulo e trabalha no Banco HSBC, como trader. Estagiário ainda, mas ele falou que vai ser o melhor trader. Eu sempre o incentivei a ser sempre o melhor. Eu sempre falo para ele: “Olha, filho...” ele se chama Leonardo, “Filho, a nossa vida é construída como uma parede, você tem que colocar um tijolinho, depois você coloca outro tijolinho. É assim que se constrói uma parede. Muitas vezes, aquele tijolo que está lá embaixo sofre muita carga. Então, aquele tijolinho de baixo precisa ser bem colocado para, futuramente, poder resistir a parede toda”. Eu sempre procurei passar a ele esse tipo de mensagem para que ele não pense que a nossa vida é construída sem dores. A nossa vida tem muita alegria, mas muitas dores também. Muitas vezes, você tem de chorar no travesseiro sozinho. Faz parte da vida, faz parte do crescimento. Eu falei para ele: “Quando você for para São Paulo, estudar, morar sozinho, enfrentar o mercado de trabalho, tem dia que você vai estar sozinho. Tem dia que você vai receber uma bronca do chefe, porque você não fez o trabalho direito e você vai ter de aguentar, ter de se superar”. Eu sempre procurei ensiná-lo dessa forma e, graças a Deus, ele tem captado a mensagem e tem crescido pessoalmente e profissionalmente. Eu o amo muito, e torço muito e luto para que ele faça do objetivo profissional dele, um ganho de vida para ele. 

Minha esposa é jornalista por formação. Quando estávamos em Natal, ela trabalhava em jornal. Ela trabalhou um pouco em televisão. Depois, veio a São Paulo e ficou sem atividade. Por que aqui em São Paulo, o exercício da função de jornalismo nos grandes meios de comunicação é muito difícil. Ainda mais para uma pessoa vinda de fora, de outra região... Nessa ocasião em que moramos aqui, ela ficou praticamente parada, sem exercer o seu trabalho. Depois, mudamos para Piracicaba, ela passou a fazer outro curso, Fonoaudiologia e, hoje, ela é fonoaudióloga, especializou-se na recuperação de pessoas com AVC e isso se tornou uma paixão da vida dela. Ela é apaixonada por essa profissão, hoje, é a atividade dela. 

Nos finais de semana, eu passo basicamente em casa, com a família. Vamos viajar de vez em quando e, aos domingos, freqüento as reuniões da Igreja em Piracicaba, sou um cristão. Eu gosto particularmente de estudar a Bíblia e o que realmente me norteia é a palavra de Deus. Porque sem a palavra de Deus, você fica um pouco sem rumo, sem norte. Eu aprendi isso na vida e procuro, realmente, ser fiel a palavra de Deus. É o que me dá vida, energia, alegria e faz com que permaneçamos sólidos, independente do que aconteça a nossa volta. É preciso ter uma boa estrutura e a boa estrutura, para mim, é a palavra de Deus que está contida na Bíblia.

 

P/1 – Vocês conseguem visitar o Nordeste de vez em quando?

R – Eu sou apaixonado pelo Nordeste. Gosto daqui, por que eu sou apaixonado pela Bauducco. Mas entre morar aqui, em Guarulhos, e morar em Natal, a minha opção é por morar em Natal. Eu sou apaixonado pelo Nordeste. Eu diria para você que o meu coração é meio paulista e meio nordestino.

P/1 – Conte-nos algum aprendizado que você tirou de toda a sua trajetória? De ter saído do interior, ter virado um diretor industrial. Como é que você lidou com isso? 

R – Aprendi que é preciso aprender com as pessoas. Não só aprendizado do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista das pessoas. Precisamos aprender a ser gente, não nascemos sabendo ser gente. Começamos esse aprendizado em casa, depois, aprendemos a ser gente com outras pessoas também. Às vezes, eu percebo que as pessoas deixam de aprender a ser gente com outras pessoas. Na minha trajetória profissional, sempre procurei aprender tecnicamente com pessoas das mais diferentes formações. Desde uma pessoa que tem pouca formação técnica, porém é um grande prático no dia-a-dia de uma produção, como pessoas que tem uma alta formação técnica, mas não tem prática. Por outro lado, eu também aprendi a ser gente tanto com pessoas simples, como com pessoas mais sofisticadas. Foi um pouco do que aprendi com o meu pai. Meu pai era uma pessoa muito simples, não tinha uma grande formação escolar, porém, ele sabia se portar tanto diante de uma pessoa extremamente simples, e aprendia com ela, como diante de uma pessoa que tinha um grau de instrução maior ou uma pessoa sofisticada. Uma coisa que me tocou muito foi quando, infelizmente, o meu pai falecer. Ele teve câncer de próstata, e o identificou muito tarde. Ele faleceu novo, com 74 anos, e isso mexeu muito comigo... Mas uma coisa que me chamou muito a atenção no falecimento do meu pai e é algo que eu conto para muitas pessoas. No velório dele, eu não imaginava que o meu pai tivesse um espectro de amizades tão grande.  Vieram desde a pessoa mais simples, como o vendedor da feira perto de casa com quem ele comprava as coisas do dia-a-dia, como pessoas de um poder aquisitivo maior na cidade. Ele tinha uma variedade de amizades muito grande e eu vi isso na trajetória do meu pai, como ele lidava e aprendia com as pessoas, como ele respeitava e valorizava as pessoas. Eu cresci vendo isso na minha casa, como ele tratava os seus funcionários, os colaboradores, os clientes e como ele tratava das coisas dele de casa. Foi isso que aprendi com a vida. 

O ser humano precisa aprender a ser gente. Voltando ao que eu falei para você antes. Por que eu gosto de ler e estudar a Bíblia? Porque a Bíblia traz a trajetória de uma pessoa, tanto de Gênesis, como Apocalipse, traz trajetórias de pessoas que aprenderam a ser gente. Há diversos exemplos. Abraão, o Rei David... São pessoas que aprenderam a ser gente. Isso é o que me chama mais atenção na vida e acho que seja, realmente, a beleza da vida.  Aprender a ser gente com as pessoas. É o que eu valorizo aqui, valorizo nos meus funcionários. Acho que, acima de tudo, independente da formação técnica que a pessoa tenha, o importante é o caráter da pessoa. Caráter, para mim, é uma coisa que você forma e leva às pessoas. Por exemplo, o que eu posso te dar? Eu posso te dar agora um panetone gostoso, que você vai levar para casa e comer, mas o que você vai levar de mim? Vai levar uma relação que eu possa te potencializar, possa ajudar a você a ser mais gente. Eu acho que esse é o nosso papel, ajudar as pessoas a ser mais gente. Mais calorosas, mais carinhosas, mais amorosas, mais receptivas. Ajudando a ser um cidadão mais completo. 

Acho que nós temos um pouco de carência, hoje, no Brasil disso. As pessoas serem cidadãos um pouco mais completos. Infelizmente, nós temos carência de modelos desse tipo.  Na nossa vida, na vida política, vemos uma carência. Acho que essa é a raiz dos grandes males do Brasil. Carência de modelos de cidadãos. Não acho que a violência seja o nosso principal problema. A violência é o efeito, mas a causa disso são essas carências de cidadãos em que eu possa me espelhar. Então, hoje, você vê um jovem e ele precisa ter um espelho. Que espelho um jovem tem hoje? Eu vejo pelo meu filho. Se eu não estivesse sempre ao lado dele, que espelho ele teria... Ele iria ligar a televisão e escutar mais um caso de corrupção ou ligar o rádio e escutar mais um caso de corrupção. Um cara passando a perna no outro e tal. Qual é o modelo que temos para os cidadãos que estamos formando? É o que nós temos de construir. Construir cidadãos com valores. É isso que preservo, e procuro fazer nas minhas relações. Infelizmente, eu não posso mudar esse país, o meu voto não está sendo suficiente. Nós estamos vendo pessoas que não são adequadas para assumirem cargos, tomando decisões para o destino de milhões de pessoas. Pessoas que não tem um bom procedimento. Mas o que eu posso fazer é com você, com os meus colaboradores, a minha relação com a minha chefia, quer dizer, no meu entorno. A minha esposa, o meu filho. Eu posso influenciar o meu entorno. Se cada um procurar influenciar um pouco o seu entorno, nós criamos uma grande onda e uma grande onda pode mudar. Eu posso mudar, pode mudar o meu entorno, mudar a cidade e mudar o meu país.

 

P/1 – Depois dessa conversa cheia de valores, o que achou deste projeto da White, em parceria com o Museu da Pessoa, de contar a história dos 100 anos da White, da industrialização do Brasil, por meio de um projeto de memória com a participação de colaboradores, clientes, concorrentes...

R – Tenho certeza que é um projeto que traz às pessoas o benefício de conhecer valores. Conhecer os valores que estão por trás dos setores. Eu acho que isso vem muito ao encontro do que são os valores da White Martins, uma empresa muito tradicional no país, uma empresa que sempre teve uma trajetória de vida transparente, uma trajetória de vida limpa. Isso traz ao país, pessoas e valores que se coadunam, que interagem com o processo White Martins e é o que precisamos em nosso país. Nós precisamos resgatar valores de pessoas e de cidadãos. Nós não vamos construir um país do jeito que estamos vendo as coisas acontecerem hoje, se nós não resgatarmos valores e cidadãos. É nisso que eu acredito e eu parabenizo a White Martins por ter buscado essa instituição, o Museu da Pessoa, para construir esses depoimentos. Isso precisa ficar para as gerações, sem dúvida.

 

P/1 – O que você achou dessa experiência, da conversa?

R – Eu achei muito legal, muito bacana. Parabéns! Agradeço a atenção de vocês. Na verdade, eu falei um pouco mais do que o previsto. Inclusive, eu tenho de me desculpar com várias pessoas, com quem eu tinha um compromisso agora... Acabei me empolgando com o projeto e entrando em alguns detalhes que, a princípio, não falaria. Sou uma pessoa um pouco comedida, às vezes, até um pouco tímida, mas acabei me empolgando com o projeto, da mesma maneira que me empolgo com os nossos produtos da Bauducco. Talvez tenha falado um pouco demais... 

Mas, parabéns, e espero que algumas palavras, que alguma coisa que nós falamos possa tocar o coração de alguém. É isso que eu espero.

 

P/1 – Obrigada, parabéns pela sua história.

R – Obrigado.

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