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História

"Você que vai jogar de centroavante!"

História de: José Douglas Dallora
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2013

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História completa

P- Nome completo, local e data de nascimento, por favor.

 

R- Meu nome é José Douglas Dallora. Eu nasci em vinte de março de 1936, em Guaxupé, sul de Minas Gerais.

 

P- E seus pais, por favor. Nome completo e lugar de nascimento.

 

R- Caetano Dallora, meu pai é italiano, nascido em Verona, veronês, e minha mãe brasileira, Regina Parussulo Dallora. Tenho oito irmãos, todos vivos. Uma família muito grande e eu sou o filho caçula, o último dos nove, sou o nono filho. E por você saber que... Sendo filho de italiano, obviamente nascido em Guaxupé, uma cidade distante, né, uma cidade que fica a 300 km de São Paulo, mas em 1936 esses 300 km significavam 3.000 km, não tinha estrada, não tinha meios de comunicação, o rádio era aquele rádio antigo, aquele rádio enorme que você ouvia com válvula, difícil pra se ouvir alguma coisa, alguma notícia de São Paulo. O jornal chegava sempre com três, quatro dias após o acontecimento, e eu me tornei são-paulino vivendo em Guaxupé no meio de uma família de palmeirenses por influência de um grande amigo meu, um amigo da minha idade, dois anos mais velho, chamado Ronaldo Xavier, que está lá em Guaxupé ainda, ainda vivo, e é um moço inteligente, farmacêutico, cujo pai, Francisco Xavier, também era um são-paulino ferrenho. E eu como convivi muito com o Ronaldo, convivi muito na casa do Ronaldo, com os pais do Ronaldo. Eu me influenciei demais com aquela performance que o São Paulo cumpria, aquele esquadrão que o São Paulo tinha na época, de 43, 44,  45. É bicampeão, é Leônidas, é Remo, Teixeirinha, e eu me influenciei demais. O meu pai insistia muito pra que eu ouvisse os jogos do Palmeiras, mas eu não tinha o menor interesse, eu sempre me voltei ao São Paulo, a influência daquele esquadrão foi muito grande pra que eu me tornasse são-paulino. E depois, convivendo muito com futebol, sempre gostei muito de futebol, joguei futebol, nunca fui um bom jogador, mas sempre gostei de jogar.

 

P- Mas de que forma? Na rua, com...

 

R- Joguei nas equipes infantis lá da cidade de Guaxupé, juvenis, e eu tenho um irmão que jogou muito bem. É o irmão mais velho, Mário, que jogou muito bem. Mas eu não. Sempre fui um “grossão”.

 

P- Você jogava em que posição?

 

R- Centroavante. Então joguei naquela época de ginásio, de colégio, e vim a São Paulo em 1952, para fazer o curso colegial. Então o colegial... Nós não tínhamos colegial em Guaxupé, eu terminei o ginásio em um ginásio de irmãos lassalistas, que tinha em Guaxupé, fiz quatro anos lá no ginásio e depois vim, para... Em 52, 53, 54, para completar o curso colegial.

 

P- Antes de a gente chegar a São Paulo, gostaria que o senhor me descrevesse como era a cidadezinha de Guaxupé. Como era a rua que o senhor morava? Como era a vizinhança, era uma cidade de muitos imigrantes italianos, como era?

 

R- É, Guaxupé é uma cidade que fica bem na divisa de São Paulo. Você saindo de São Paulo, vai aqui por Campinas, Mogi Mirim, vai à Casa Branca, São José do Rio Pardo, próximo de Mococa, São José do Rio Pardo, a primeira cidade depois da divisa é Guaxupé. Daqui lá são 300 km, você vai 290 dentro do Estado de São Paulo e apenas dez quilômetros em Minas, porque você já entra no município de Guaxupé. É uma cidade muito alegre, é uma cidade bonita, é uma cidade pequena que hoje deve ter lá cinquenta, sessenta mil habitantes. É uma cidade na qual nós tínhamos um bom futebol, tinham umas equipes boas lá de futebol, mas que não disputavam os campeonatos mineiros, nem de primeira nem de segunda divisão. Disputavam ali os jogos amistosos com as cidades vizinhas, o Radium de Mococa, que sempre teve um grande time que jogou até na divisão especial de São Paulo, sempre ia a Guaxupé, então a minha cidade. Ela é uma cidade linda, uma cidade bonita, adorável, alegre. Eu tenho uma família imensa, muitos irmãos, muitos sobrinhos, até hoje. Hoje minha família é enorme lá. Mas voltando ao início de 1943, 44, 45, praticamente eu era o único são-paulino da família. Mas hoje nós temos uma imensa quantidade de Dalloras que são são-paulinos, acho que por influência minha.

 

P- Como a família via o senhor torcer para o São Paulo?

 

R- É, ninguém bloqueou, ninguém me impediu, porque não tinha como impedir. Era uma força muito grande. Isso não existe como impedir. Meu pai tentou, fez, me contava, dizia o seguinte: "Olha, eu vou a São Paulo, eu vou assistir o jogo no Pacaembu, o Pacaembu é um estádio imenso, mas é imenso". E eu olhando, olhando, observando ele contar aquela história, e ele me dizia que o estádio era tão grande, mas tão grande que tinha um jogador do Palmeiras, o Canhotinho, que era pequeno, né, o Canhotinho, que ele lá de cima, do último degrau, o Canhotinho ficava desse tamanhinho, que ele quase não enxergava o Canhotinho de tão grande que era o estádio. E eu ficava perplexo de ouvir a história, aquelas histórias. Mas a minha cidade é uma cidade excelente, tem um belíssimo campo de futebol, tem um estadiozinho muito bonito, e eu vivi dentro desse campo jogando. Jogava, e jogava... Jogava no colégio, jogava no... Sempre participei, organizei de campeonatos, eu me metia em tudo, eu organizava, ia à Rádio Clube e fazia o comentário dos jogos dos campeonatos que eu montava.

 

P- Com quantos anos isso?

 

R- Isso já com... Depois, com uns dezoito anos, eu participei terrivelmente: eu chegava à Guaxupé nas férias, porque eu fazia o científico aqui, quando eu voltava lá, tinha que organizar os campeonatos de férias. Chegava lá, eu montava os times, distribuía as camisas e ia jogar. Eu montava o campeonato para jogar. Se eu não montasse, não tinha jogo. Então eu sempre tive essa inclinação muito grande de organizar, de fazer as pessoas participarem, sentava na máquina e ficava batendo regulamento, sabe? E eu que determinava o regulamento, aí eu convidava as pessoas: “Ó, você vai ser o presidente do tribunal de justiça”; “Viu, você vai ser o diretor do departamento de arte”. Então, eu mesmo definia tudo e depois eu ia jogar. Eu deixava eles dirigindo... (riso) Então quando eu chegava em Guaxupé, o pessoal dizia: "Ó, o Dallora chegou, agora nós vamos ter o campeonato". Para você ter uma idéia, lá tinha uma equipe que chamava Independente. A equipe que eu jogava, que era a equipe... E tinha uma equipe que era a Sociedade Esportiva Guaxupé, que era a mais forte da cidade. E eu não participava da Sociedade Esportiva Guaxupé, eu participava do time mais modesto, desse Independente.

 

P- Mas por que o senhor participava do Independente?

 

R- Porque eu não era um bom jogado, como jogador eu era de segunda linha. Então para jogar na Esportiva precisava ser jogador de primeira linha. O meu irmão jogava na Esportiva, porque era um craque, mas eu não, eu era um jogador mais ou menos... Então eu jogava lá na... Mas eu mais administrava do que jogava. Aí resolveram fazer em Guaxupé uma São Silvestre. Foi muito interessante, porque em Guaxupé tinha um italiano, o Finetti, que ele era diretor da Polenghi. A Polenghi é uma indústria de queijos, de laticínios, e lá em Guaxupé é uma região que tem muito gado, muito leite, muita vaca leiteira, então tem muito leite naquela região. Então o Finetti resolveu fazer a grande São Silvestre. Ele gostava de dirigir esporte, fazer atletismo, ele pegou três, quatro atletas e começou a preparar os atletas pra ganhar, obviamente, a São Silvestre. Porque Guaxupé é uma cidade que tem uma avenida muito bonita, uma avenida de pista dupla tem um jardim no meio, uma beleza, uma cidade bonita. E pra correr tinha que ser naquela avenida, então no dia da corrida tinha a cidade em peso na avenida para ver a grande corrida de São Silvestre. Mas eu, sabe o que é que eu fiz? O Independente era muito fraco. Aí eu peguei os atletas do Independente e fui treinar escondido. Eles treinavam na avenida, e eu treinava numa avenida bem distante, para que ninguém soubesse que eu estava preparando uma equipe fortíssima. E ninguém sabia na cidade que eu tava preparando um tremendo de um blefe em cima deles. Aí treinei esses atletas, e eu tinha uma caminhonete de um irmão meu, pegava a caminhonete punha os atletas dentro, levava pra treinar à noite, sabe? Tudo escondido. Chegou no dia da corrida foi gozadíssimo porque a cidade lotada, todo mundo apostando nos atletas do Finetti. Chegou lá os meus atletas chegaram em primeiro, segundo, terceiro, quarto... (riso) Eles não entendiam como é que eu tinha feito. Porque eu havia treinado escondido, né? Aí um irmão meu que era muito metido a querer apostar: “Porque o Finetti, não sei o que...”. Eu peguei esse meu irmão e disse: “Vem cá, se você quiser ganhar algum dinheiro, vai apostar nos meus atletas”. “Você é louco, onde já se viu...”. Falei: “Vai, que cê vai ver”. Chegou lá não deu outra. Ganhamos tudo, né? Então eu fazia dessas, eu sempre gostei de dirigir. Quando eu fui fazer o Tiro de Guerra em Guaxupé, o pessoal já estava me esperando. Porque eu fiz três anos aqui o colegial, em 52, 53, 54. Em 55 eu voltei pra Guaxupé pra fazer o Tiro de Guerra. E o gozado é que estava todo mundo me esperando lá no Tiro de Guerra pra eu montar outra vez as equipes de esportes. Cheguei lá, eu montei. Teve uma passagem muito interessante, eu tava tentando o vestibular aqui em São Paulo...

 

P- A família incentivava seus estudos na capital?

 

R- Claro. Meu pai sempre forçou, incentivou muito os filhos a estudar.

 

P- Qual era a profissão do seu pai?

 

R- Meu pai era industrial. Ele tinha um armazém de café, de rebenefício de café. Ele recebia o café dos fazendeiros, os fazendeiros colhiam e limpavam o café, o café vinha ao armazém e meu pai rebeneficiava o café, preparava esse café pra exportar. Então meu pai fazia todo o trabalho pra colocar o café em condição no Porto de Santos pra exportação. E ele tinha torrefação de café também. Nós fomos criados num ambiente de café, mas eu sei que quando eu vim para São Paulo em 1952, eu me liguei demais ao São Paulo. Em 1952 o São Paulo estava no Canindé e eu, com dezesseis anos, saía da Celso Garcia, porque eu morava aqui na Avenida Celso Garcia, e pegava um bonde às quintas-feiras. Quinta-feira era o dia do coletivo do São Paulo. Então eu pegava um bonde, ia até a Rua São Caetano, pegava outro bonde que me levava até o Canindé. O Canindé, nessa época, tinha apenas um campo. Um campo de treino, esse campo tinha aquele gradil de madeira, não era alambrado nem nada. Tinha um gradil e tinham dois ou três degraus de arquibancada, mas não era pra jogo, era só pra treinamento, pras pessoas verem o treinamento. E eu ia muito ver treino. Toda quinta-feira eu ia ver os treinos pra saber quem ia jogar no domingo, então o Poy, De Sordi, Mauro, Maurinho, Gino, Albê, Genésio, a chegada do Canhoteiro no São Paulo... Eu assisti a chegada dele em 1954, fui ver o treino. Então em 52, 53 e 54 eu vivi intensamente o São Paulo porque eu estava em São Paulo. Depois eu voltei pra Guaxupé, em 55, pra fazer o Tiro de Guerra, o serviço militar. E aí eu me distanciei um pouco do São Paulo porque fiquei em Guaxupé. Depois em 56, 57 e 58 eu fiz odontologia na cidade de Alfenas. Alfenas é próxima de Guaxupé, é cidade de Minas, uma cidade universitária, tem muitas faculdades. E terminado o curso de odontologia que eu vim pra São Paulo em 59, 60. Aí eu comecei a viver o São Paulo novamente. Entrei como sócio do São Paulo, já era no Morumbi, né?

 

P- O senhor entrou de sócio em 1960?

 

R- Por aí. Aí eu caí dentro do São Paulo, montei um consultório dentário e comecei a viver intensamente o São Paulo. Trabalhava de segunda, terça, quarta, feito um louco no consultório, até a noite, mas sábado e domingo eu estava no São Paulo, jogando, administrando... Logo que eu cheguei ao São Paulo eu já assumi a diretoria de futebol social. O São Paulo tem um futebol social muito bem organizado. Esse futebol é para os associados, não tem nada a ver com o futebol amador ou profissional. Então esse campeonato tem um belo de um campo, todo gramado, iluminado, tem dois campos até. E esse campeonato é dirigido aos sócios. Então você tem os campeonatos com os meninos, infantil, juvenil, tem os adultos, os veteranos, só de sócios. Ali joga velho, barrigudo, joga grosso, joga todo mundo. E eu dirigi esse futebol por muitos anos, acho que uns dez anos. Fiquei lá como diretor de futebol social. Depois eu fui convidado a participar do Conselho Deliberativo do São Paulo, em 1966, e até hoje continuo no conselho, sou conselheiro vitalício... Mas em 1968, o Cláudio Aidar me convidou pra dirigir o futebol profissional. Então em 1968 eu assumi pela primeira vez o futebol profissional.

 

P- Voltando um pouco, em 1960, quando o senhor entrou de sócio do São Paulo, podia descrever como era o clube naquela época?

 

R- É, o clube estava iniciando. As dependências sociais estavam ainda iniciando, as piscinas, não se tinham ainda as condições que se têm hoje, né? Mas nós tínhamos um campeonato interno já, um campo de futebol, tinha as quadras de tênis, as piscinas, e logo que o São Paulo inaugurou a parte social eu entrei como sócio, e logo no segundo ano eu já fui convidado para dirigir o campeonato interno de futebol. Então eu tinha no campeonato interno os meninos, porque eu tinha muitos assessores, muitos colaboradores, alguns colaboravam com as equipes menores, e nós tínhamos o departamento de árbitros, o tribunal de justiça e até hoje tem isso. É uma estrutura muito bem montada para dar aos sócios esses campeonatos organizados. São muitas equipes que eles têm lá dentro e tal. Então eu fiquei muitos... Eu montava uma equipe, uma seleção dos meninos, uma dos jovens e uma dos veteranos para competir com outros clubes como o Pinheiros, o Paulistano, interclubes, nada de profissionalismo. Então a equipe de infantis que nós conseguimos montar foi uma equipe fantástica, isso em 1969, 1968. Nós montamos uma equipe que ficou na história do São Paulo, uma equipe fantástica. Aí o Roberto Petre e o Eli Coimbra resolveram fazer o primeiro campeonato dente de leite aqui em São Paulo e nos convidaram para participar, mas nós já tínhamos uma equipe muito forte, muito boa. Então nós fizemos um jogo de apresentação no Morumbi, dentro do estádio, com os meninos de treze, quatorze anos, e o Laudo Natel esteve lá como presidente, todos os diretores e em seguida o Eli Coimbra e o Roberto Petre começaram, não me lembro que canal de TV eles trabalhavam, acho que era a Tupi, eles começaram a montar, e montamos esse campeonato dente de leite e o São Paulo deu um show. Cada jogo que o São Paulo disputava no campo do Nacional, ali na Comendador de Souza, tinha lotação total do estádio porque todo mundo ficava vidrado no jogo dos meninos, e desses meninos um deles se sobressaiu muito, foi o Muricy. Ele era o grande jogador dessa equipe e chegou ao profissional, foi campeão com o São Paulo em 1975 pela equipe principal, depois sofreu uma contusão e eu acabei vendendo o Muricy ao Puebla do México onde ele jogou uns três, quatro anos, depois retornou e agora recentemente está dirigindo as equipes juniores do São Paulo, e há uns dias atrás estava dirigindo até a equipe principal, com as férias do Telê Santana. Então o Muricy foi criado comigo, foi criado no São Paulo, desde 1968, quando ele era um menino de doze anos, e esse trabalho de base é que começou a nos interessar muito, para que o São Paulo iniciasse um trabalho de base mesmo, para criar o atleta, para formar o atleta.

 

P- Nessa época, quem era a equipe de trabalho do senhor no clube?

 

R- A equipe era muito grande, o Jorge Lugaibe, o Jaime Franco, tínhamos o Willie Jacone, o... Enfim, eu teria que lembrar tantos nomes. Porque eles, dentro do departamento social, nessa equipe que dirigia o futebol social, eu tinha uma equipe enorme, são elementos que alguns cuidavam dos meninos menores, alguns cuidavam dos juvenis, outros cuidavam dos adultos outros cuidavam dos atletas mais veteranos, e todos eles participavam de torneios internos e externos contra equipes de outros clubes. E esse trabalho não tinha o objetivo de trazer nenhum jogador para a equipe principal do São Paulo, tinha o objetivo de dar condição de divertimento, não era um futebol competitivo, era recreativo. Então até hoje nós temos isso lá, e muito bem implantado. Em 1994 nós temos lá o campeonato interno, os meninos participando. Eventualmente, um ou outro menino, filho de sócio, pode até ser guindado ao futebol amador e chegar ao time principal, mas não é o objetivo deste trabalho, o objetivo é dar recreação ao sócio, fazendo com que eles participem deste campeonato. Então eu fiquei mais ou menos oito anos dirigindo essas equipes como diretor de futebol interno do São Paulo, mas, simultaneamente, em 1968 eu fui convidado pelo Cláudio Aidar a assumir o departamento de futebol profissional, então eu acumulei, em sessenta e oito, o futebol social, porque desse eu não abria mão de jeito nenhum, eu adorava aquilo, e o futebol profissional. Foi quando nós fomos buscar o Diede Lameiro, que foi o técnico nessa época, o São Paulo contratou Téia, Miruca, e nós não tivemos um grande time nessa época. O São Paulo não tinha bom time em 68. Depois eu saí do futebol profissional junto com o Cláudio Aidar no início de 70, e foi quando assumiu a diretoria de futebol o Manoel Poço. Ele tinha como colaborador direto o Herman Cuesta, o São Paulo havia saído de um grande lançamento do Paulistão... O Paulistão foi um grande maná, que deu ao São Paulo condições de terminar o estádio, então o Paulistão foi aquele sorteio, aqueles carnês, que foram aprovados na época pelo Delfim Neto, o São Paulo lançou uma série de cem mil carnês e nós tivemos que reunir o conselho, a diretoria para autorizar o lançamento desses cem mil carnês, porque a responsabilidade era muito grande do clube. Isto talvez o governador Laudo Natel já deve ter dito na entrevista que ele veio aqui, mas nós acabamos lançando cem mil carnês e cinco dias após lançou-se o segundo lote de cem mil, porque a procura foi tão grande, naquela época não existia loteria, não existia nada disso, e o interesse do público foi tão grande pelos carnês que o São Paulo foi parar na oitava série, oitocentos mil carnês foram lançados, e com isso o São Paulo construiu o anel do estádio, terminou o estádio completamente, e também conseguiu algum dinheiro para poder comprar jogadores. E o São Paulo, que havia sido campeão em 1957, já há treze anos não ganhava títulos, ficou um período muito grande se sacrificando muito para a construção do estádio. Então existia uma comissão chamada comissão pró-estádio, que todo dinheiro que se venda de títulos, venda de cadeiras cativas, era revertido para o estádio. O futebol era pobre, paupérrimo, então o time de futebol era um time discretíssimo. Então, você nota que, na história do São Paulo, se começou em 43/44 com um supertime, com Leônidas, Remo, Teixeirinha, e veio na década de 40 e 50 com grandes times. Depois, em 57 ganhou o último título. Depois, ficou treze anos sem ganhar um título, porque na época vem a “Era Pelé” e só Pelé, e Pelé. Então, o Laudo Natel, que era presidente, ele dizia assim: “Enquanto o Pelé existir eu vou construir o estádio”.

 

P- Mas isso é uma coisa interessante. O que significava para o São Paulo investir em um estádio e não investir na compra de jogadores, no crescimento do time?

 

R- Isso foi uma meta estabelecida pelos homens do São Paulo na época que deram prioridade ao estádio. O São Paulo investiu tudo no estádio e o futebol ficou com equipes discretas disputando o terceiro, quarto, quinto lugar. Quando chegou 1970, o São Paulo havia saído daquele grande evento do Paulistão e conseguiu concluir o estádio. E com o saldo, talvez daqueles carnês, o São Paulo investiu num grande time. Aí o São Paulo contratou o Gerson, contratou o Toninho... O Gerson veio do Rio, do Flamengo, o Toninho veio do Santos, o Edson do Corinthians e o Forlán havia sido contratado recentemente. E o São Paulo montou um time muito forte, e é exatamente em 1970, quando o Brasil foi campeão pela última vez. Campeão do Mundo no México. Então quando o São Paulo comprou o Gerson, ele chegou aqui no início do ano de 1970, o Gerson teve muita dificuldade de adaptação na equipe do São Paulo nos meses de fevereiro e março, antes de ele ir para a copa em junho, e foi aí que o Manoel Poço... Porque quando eu saí da diretoria de futebol em 1968 assumiu o José César Dias, um são-paulino extraordinário, inclusive tem até dois filhos lá no conselho, o Ciro Penas César Dias e o... São dois filhos dele que estão lá hoje. O César Dias é falecido. O César Dias ficou um ano mais ou menos e depois entrou o Manoel Poço. Em 1970 ele assume já com o Gerson, o Toninho... O Pedro Rocha ainda não, ele chegou só em 71, e montou-se um bom time, o São Paulo sagrou-se campeão, com Zezé Moreira como técnico. O São Paulo sagrando-se campeão o Zezé Moreira acabou não permanecendo, saiu, veio o Oswaldo Brandão, com essa estrutura, com Manuel Poço, com Herman, com... Oswaldo Brandão conseguimos o bicampeonato, aí já com o Pedro Rocha, que veio para reforçar essa equipe que era uma equipe fortíssima, e o São Paulo conseguiu o bicampeonato em 71. Em 72 o São Paulo vendeu o Gerson ao Fluminense, ele não quis mais ficar no São Paulo. Houve aí uma passagem interessante, que quando o Gerson chegou ao São Paulo ele ficou com uma má impressão do time porque o time estava muito mal, mas aí ele foi para a Copa e, durante esse período, o Manoel Poço assumiu o departamento de futebol e fez uma reformulação na equipe, enquanto o Gerson estava na Copa. Quando o Gerson sagrou-se campeão do mundo, o São Paulo preparou uma recepção, uma homenagem ímpar ao Gerson, uma coisa sensacional que o emocionou profundamente o Gerson, porque nenhum dos campeões do mundo de 70 recebeu uma homenagem como a do Gerson, uma coisa muito bonita, uma festa sensacional. Deram a ele uma placa de ouro maciça, cravejada de brilhantes, uma coisa linda, ele chorou e naquele momento ele disse que ele daria a vida dele para conseguir um título para o São Paulo. E ele não conseguiu um não, conseguiu dois. Ele conseguiu o de 70 e o de 71, aí ele procurou o Henri Aidar e disse: "Presidente, minha missão terminou aqui no São Paulo, eu gostaria agora de voltar ao Rio, eu, conseguimos ganhar aí estes dois títulos..." aí o Henri facilitou e ele foi para o Fluminense. Aí o São Paulo ficou com um time mais enfraquecido, obviamente, sem o Gerson, mas assim mesmo o Oswaldo Brandão se afastou e veio como técnico o Alfredo Ramos e nós conseguimos fazer uma boa campanha, mas não chegamos ao tricampeonato, nós perdemos o tricampeonato, mas ficamos invictos. O interessante é que você fez o campeonato, ficou invicto e não sagrou campeão. Porque na decisão com o Palmeiras o jogo terminou em zero a zero, resultado que deu o título ao Palmeiras. Isso em 72. O Manoel Poço se licenciou, eu estava dirigindo o futebol amador, juvenis e infantis, acumulando ainda o futebol social, porque desse eu não abria a mão, era o meu "hobby" que eu gostava demais. Aí o Manoel pediu que eu assumisse interinamente o departamento de futebol, em 1972, mas eu peguei o futebol e a equipe já estava um pouco envelhecida, pois o Gerson já tinha ido embora, o Toninho já estava em fim de carreira porque foi comprado já com 30 anos, o Pedro Rocha já não era moço, o Paraná já estava em fim de carreira, o Dias... Foi quando veio o Telê em 73. O Telê tem uma dificuldade muito grande porque essa equipe já estava em fim de carreira e o Telê não teve como, ele ficou muito pouco tempo no São Paulo, uns seis meses, e o Telê por o maior esforço ele não conseguia fazer aquela equipe jogar, porque era uma equipe manhosa, jogadores veteranos, e ele falou: “Dallora, prefiro ir embora, volto em outra oportunidade, porque essa equipe não dá para mim dirigir não”. E o Telê saiu, o Poy assumiu. O Poy já havia dirigido antes do Telê, e depois, não querendo ser técnico, ele preferiu que o Telê assumisse. Como ele não quis ficar o Poy reassumiu. E nós ficamos com uma equipe razoavelmente boa, nós reformulamos a equipe e saímos vice-campeões brasileiros em 1973.

 

P- Quem entrou na equipe nessa reformulação?

 

R- Nós compramos o Chicão, o Waldir Peres... O time ganhou nova força atrás. Já havia o Teodoro, o Nelsinho, esse que foi técnico do Corinthians há pouco tempo, então nós montamos uma equipe muito boa em 1974 e eu, que entrei praticamente para ficar um ou dois meses para ficar como substituto pro tempore para substituir o Manoel Poço, e com ele não querendo retornar esse meu período temporário ficou oito anos. E eu acabei ficando oito anos seguidos como diretor de futebol, do final de 72 até 80. Em 1978 o Henri Aidar ainda era presidente, até 78, quando Dr. Galvão foi eleito presidente. Então eu falei: “Dr. Galvão, eu não quero continuar no departamento de futebol, porque já estou cansado”, o departamento de futebol desgasta muito... E ele: “Não, fica comigo porque eu estou assumindo a presidência agora, você fica comigo aqui mais dois ou três meses”, e eu acabei ficando dois anos. Quando acabou o primeiro mandato do Galvão em 80 é que ele me liberou do departamento e que entrou o Jaime Franco, o Fernando Casal Del Rei e eu passei a vice-presidente do clube, então ficou o Galvão como presidente, eu como vice e o Jaime como diretor de futebol, e o São Paulo sagrou-se bicampeão também em 80 e 81, com o Jaime, com o Fernando e tal.

 

P- Antes de a gente falar do senhor como presidente, vamos falar do senhor como diretor de futebol. Por que dessa interinidade o senhor virou titular do departamento?

 

R- Porque eu já havia sido diretor de futebol em 68 com o Cláudio Aidar e eu fiquei ali, pelo menos, uns oito ou dez meses. Quando o Cláudio não pode continuar, eu me retirei com ele, mas continuei como diretor de futebol amador, e acumulando o futebol amador com o social. Aí assumiu o José César Dias, em seguida o Manoel Poço, e foi ele o condutor da equipe junto com o Henri Aidar, que era o presidente, e foi o condutor da equipe que foi bicampeã em 70 e 71 e vice-campeã invicta em 72. No final de 72 o Poço pediu licença, aí o Henri me pediu que assumisse interinamente. Eu fiquei o final de 72, o início de 73 e, como o Manoel Poço não quis reassumir, o Henri veio e me disso: "Ó Dallora, então cê assume definitivamente e não mais interinamente”, e eu acabei ficando oito anos. Então em 1974, o Poy. Em 75 nós montamos um bom time, fomos campeões. Em 75 nós ganhamos o título contra a Portuguesa na decisão por penalidades, e que nós tínhamos o Waldir Peres, Chicão, ainda tínhamos o Samuel, o Arlindo, o Gilberto, Paranhos... Nós tínhamos uma equipe forte, tinha o Serginho, o Zé Sérgio. Em 76 a equipe caiu, em 77 nós contratamos o Rubens Minelli como técnico. Nós trouxemos o Rubens Minelli que estava no Internacional de Porto Alegre, e eu não conhecia muito o Rubens Minelli pessoalmente. Eu fiz uma vez uma viagem pro Rio Grande do Sul pra contratar um jogador do Internacional e o Rubens Minelli era o técnico do Internacional, e um técnico muito badalado, o Inter era um time fortíssimo, já tinha ganhado campeonatos nacionais e o Minelli era o supertécnico na época. Eu fui à casa do Minelli, bati na porta, sem conhecê-lo. Conhecia por jornal, né, bati na porta do Minelli e disse: “Minelli, eu sou o Dallora do São Paulo”. “Ah, como vai, tudo bem? Entra...”. Aí o filho do Minelli, o Rubinho, falou: “O senhor veio contratar meu pai?”. O Minelli ficou assustado, porque o Minelli, para o São Paulo naquele momento... Era muito difícil o São Paulo tentar contratar o Minelli porque o Minelli estava num estágio muito alto. E o filho dele falou... Aí o Minelli começou a rir e falou: “Vem ver o quarto do meu filho aqui”. E o quarto só tinha fotografia do São Paulo. E o menino, hoje ele é dentista formado, e o Rubinho me disse: “Não, o senhor precisa levar meu pai pro São Paulo”, e aí se abriu uma possibilidade de trazer o Minelli. E o Minelli me levou aquele dia ao estádio do Beira-Rio, porque eu queria conversar com os diretores pra ver se eu conseguia contratar o Escurinho, que era um jogador que interessava ao São Paulo. E o Falcão, nessa época, o Falcão tinha jogado aqui a Taça São Paulo de Futebol Juniores. E o Falcão ainda não era uma grande estrela ele não era um astro, um jogador conhecido. Ele estava pintando. Aí eu chego lá, essa é uma passagem muito interessante, porque o diretor de futebol, o Dalegrari, Artur Dalegrari, o Artur me chamou de lado e me perguntou: “Você se interessa na compra do Falcão? Porque nós temos aqui o Batista, temos o Paulo César Carpegiani, temos o Caçapava, temos muitos jogadores, e o Falcão vai ter muita dificuldade pra entrar na equipe”. E aí eles nos pediram na época três milhões de cruzeiros, que era coisa muito alta, nós não tínhamos a mínima condição. E eu liguei pro Henri Aidar, e o Henri falou: “Ô, mas seria fantástico, né?”. Mas nós não tínhamos condição. E depois com essa amizade que eu fiz com o Minelli, nós tivemos uma janela de conversação, e o Minelli acabou vindo pro São Paulo em 76, 77. E nós nos sagramos campeões nacionais, pela primeira vez, né? Em 77, cujo campeonato terminou em março de 78, com aquela memorável partida contra o Atlético Mineiro, no Mineirão, em que nós não pudemos jogar com o Serginho porque o Serginho recebeu uma suspensão por um ano por ele ter agredido um bandeirinha no jogo contra o Botafogo em Ribeirão Preto, jogo que antecedia as finais, praticamente. Então foi muito interessante também essa passagem desse jogo memorável em Belo Horizonte. Porque o São Paulo jogou contra o Botafogo em Ribeirão, e o Serginho agrediu o bandeira, porque o Serginho... O Sócrates havia feito um gol irregular no São Paulo. E os nossos jogadores ficaram muito revoltados porque a bola havia saído pela linha de fundo e o Terto, que havia jogado no São Paulo e que hoje é funcionário do São Paulo, o Terto foi, cruzou a bola, a bola havia saído uns trinta centímetros. E a defesa do São Paulo parou. E o Sócrates subiu, cabeceou e fez o gol. O juiz deu o gol. Então criou-se um ambiente muito hostil pro jogo. No segundo tempo o Serginho empata o jogo. Ele empata e o juiz sai pro meio do campo, e o bandeira ficou... Quando o Serginho estava eufórico com a conquista do gol, que ele viu o bandeira... Ele virou e foi em cima do bandeira. Chegou lá ele deu um cascudo, acho que um... Um chute, não sei. E em seguida, nós fomos jogar com o Operário em Campo Grande, que o Operário era último jogo nosso, se nós ganhássemos do Operário, iríamos pra grande final. Nós jogamos com o Operário aqui no Morumbi, o Serginho jogou ainda, não havia ainda sido julgado. Nós ganhamos de três a zero do Operário aqui. Aí fomos pra Campo Grande para jogar a última partida que antecedia a grande final. Chegamos lá veio a notícia da suspensão do Serginho por um ano. E o Serginho não pôde entrar em campo lá em Campo Grande. Nós então fomos para o campo sem o Serginho, perdemos por um a zero, mas classificamos porque havíamos ganhado aqui de três. E nos classificamos pra grande final. E na grande final o Serginho não podia jogar. O grande jogador do Atlético Mineiro era o Reinaldo e o Reinaldo também estava com uma suspensão. Então os grandes astros, os grandes jogadores nem do São Paulo nem do Atlético iam jogar a grande final. Nós deixamos o Serginho aqui em São Paulo e fomos pra Belo Horizonte para o jogo. Chegamos lá, nós vimos pela televisão e nós fomos recebidos pelo Cruzeiro, porque o Cruzeiro e o Atlético são inimigos mortais, então o Cruzeiro tem a Toca da Raposa, que é uma concentração muito bonita, e o Cruzeiro nos colocou na Toca da Raposa para nos dar as melhores condições possíveis, pro São Paulo, pra bater no Atlético, que era o inimigo mortal dele. Chegamos lá, vimos pela televisão, isso foi no sábado, o jogo era no domingo, que tinha o presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva da CBF, que estava lá em Belo Horizonte, e o Atlético estava tentando um efeito suspensivo para que o Reinaldo jogasse e o Serginho também. Nós ficamos apavorados, porque o Serginho estava em São Paulo e o Reinaldo estava lá ao lado deles, estava dentro do vestiário. Aí eu liguei pra cá, no domingo de manhã, o jogo era domingo às quatro da tarde. No domingo pela manhã eu liguei na casa do Muricy, o Muricy estava aqui, estava contundido, falei: “Muricy, vai na casa do Serginho, passa no Morumbi, pega o material dele, põe a chuteira dele, o calção, meia, põe... Leva no aeroporto, frete um avião, dê um cheque seu, põe o Serginho no avião e manda ele pra cá”. Porque vai que o homem consegue o efeito suspensivo, você imagina conseguir o efeito suspensivo e joga o Reinaldo e não joga o Serginho! Nós estávamos mortos, nossa torcida nos matava, um absurdo acontecer um negócio desses! Aí fretamos, o Muricy fez tudo certinho, pegou o Serginho, levou para o avião, colocou no avião, o Serginho chegou lá em BH, ele chegou branco, porque estava um tempo horrível e o avião foi balançando, ele chegou lá branco. Nós já sabíamos que não havia efeito suspensivo, não houve o efeito suspensivo. E aí criou-se um ambiente interessante, porque todos achavam que o São Paulo havia conseguido um efeito suspensivo e que o Serginho jogaria. Quando nós percebemos que todo mundo achava que nós tínhamos o efeito suspensivo, eu peguei um papel que não tinha nada escrito e mostrei pra imprensa que realmente eu tinha o efeito suspensivo, entendeu, e que o Serginho ia jogar. Aí criou-se um teatro. O Serginho chegou no estádio, tinha 100 mil pessoas. E a nossa equipe tinha consciência absoluta que o Serginho não ia jogar. A nossa equipe sabia, inclusive já tinha feito a preleção. O Minelli fez uma preleção extraordinária na Toca da Raposa. Porque o Atlético Mineiro já era campeão por antecipação, eles iam jogar pró-forma, iam jogar contra o vento, porque eles não consideravam o São Paulo como adversário, e o Atlético era um furacão, o Atlético já era campeão. E o Minelli em cima desse ambiente de já ganhou, ele fez um trabalho psicologicamente muito bom em cima dos jogadores e os jogadores sabiam que o Serginho não ia jogar. Mas todo mundo achava que o Serginho ia jogar. Quando o Serginho chegou, nós mandamos ele pro vestiário, trocou roupa, ficou aquecendo, como se fosse entrar. E a imprensa dizia: “Ele vai jogar”. E eu dizia: "Vai, porque eu tenho aqui o efeito suspensivo". Mas não tinha nada, foi um show! E lá no vestiário do Atlético, eles diziam: “Então o Reinaldo vai jogar também, põe a roupa no Reinaldo” - punha a roupa no Reinaldo, o Reinaldo também aquecia – “Não, não põe porque vai perder os pontos, tira a roupa do Reinaldo, dá pro outro”. Então eles criaram um ambiente terrível dentro do vestiário. E o nosso estava tranquilo, porque o que nós estávamos fazendo era cena. Foi interessante porque isso mexeu muito com a equipe do Atlético. E o São Paulo acabou... Talvez isso tenha ajudado muito para que o São Paulo conseguisse o título de campeão. Então fomos campeões contra o Atlético. A recepção que o São Paulo teve aqui, foi um negócio impressionante, nunca vi na minha vida. O avião que o São Paulo retornou de BH não pôde descer em Congonhas por questão de segurança, porque a torcida do São Paulo queria invadir a pista, era uma coisa de louco. Então nós descemos em Viracopos e viemos de ônibus pela estrada. E o povo começou a ir pra lá. Quando nós cruzamos, que a torcida ia pra lá pra Campinas que eles viram que o ônibus estava voltando pra São Paulo, eles viravam o carro na contramão, e vinham pela contramão da Anhanguera. Quando chegamos em São Paulo foi uma recepção impressionante porque ninguém poderia imaginar que o São Paulo poderia se sagrar campeão. Então 76, 77, o Minelli continuou ...

 

P- O senhor costumava acompanhar sempre o time? O senhor assistia ao jogo dentro do campo?

 

R- Sempre, sempre. Assistia ao jogo dentro do campo, junto com o técnico. Em oito anos... Eu iniciei o Sylvio Pirillo. O Sylvio Pirillo, em 1968, o Diede Lameiro, o Zezé Moreira, o Oswaldo Brandão, o Poy, que ficou muitos anos comigo. Todo esse período entre a saída do Telê e a entrada do Minelli, o Poy ficou quatro ou cinco anos como técnico. Ganhou o título de 75, né? Depois veio o Rubens Minelli, Mário Giuliatto, depois veio... Quem veio? Tivemos o Vail Mota, anteriormente então todos esses técnicos, o Telê, Mário Travaglini, esses técnicos eu convivi muito com eles porque... Nos bastidores, nas preleções... Então eu devo ter aí uns quinze anos de preleção de técnico, né? De ouvir preleção, orientar equipe...

 

P- Mas o senhor fazia isso por quê? Por que isso era uma exigência do cargo ou era uma coisa do senhor enquanto torcedor...

 

R- Era uma exigência do cargo. O diretor de futebol é responsável pela equipe. A diretoria, o presidente, o vice-presidente, eles não vão lá, vão eventualmente ao vestiário dar uma força pros jogadores, mas o diretor de futebol é o responsável. Tem o técnico, os preparadores físicos, os médicos, a equipe toda de futebol, né? Então você não pode em hipótese alguma deixar isso à deriva, tem que estar sempre junto. Junto com o técnico, assessorando, orientando. E isso o São Paulo sempre fez, todos os diretores de futebol do São Paulo sempre acompanharam muito de perto os trabalhos dos técnicos, dos preparadores físicos. E eu acho que isso é importante.

 

P- O senhor, como diretor de futebol, tinha poder de decisão de mudar um jogador?

 

R- Não. Nunca. O São Paulo respeita demais as funções. A função do diretor inicia aqui e termina ali, do técnico de futebol, você tem que respeitar a do técnico, do preparador físico, a do médico, do psicólogo, as funções são fundamentais para que você tenha uma equipe de trabalho. Obviamente, se alguma coisa não está andando bem aí há interferência do diretor. Então eu vou contar uma passagem aqui de um técnico que brigou com o médico, não vou citar os nomes. Então os dois brigaram, né? E eu percebi que a briga estava trazendo consequências negativas à equipe. Então eu reuni os dois, perguntei: “Você como técnico, tem condição de continuar trabalhando com o médico?”. “Não, por mim tudo bem”. “E o senhor poderá também continuar trabalhando com ele?”. “Não, também tudo bem”. “Então, o São Paulo não pode ser prejudicado com a briga de vocês. Se vocês tiverem condição de continuar trabalhando na sua função de médico, na sua de técnico, e sem prejuízo à equipe, então vocês continuarão. Então é dessa maneira que nós agimos. Você... Jamais um diretor do São Paulo interferiu na escalação de qualquer jogador, mas também eu não estou dizendo só por mim. Estou dizendo pelo Manuel Poço, pelo César Dias, pelos outros que me antecederam, pelo Fernando Casal Del Rei, que hoje eu... E também pelo Jaime Franco, todos os que assumiram a direção de futebol, todos eles tiveram sempre uma conduta mais ou menos igual, sempre teve uma filosofia idêntica, né? O São Paulo sempre teve uma filosofia muito firme de como dirigir, do comportamento dos dirigentes, e isso vem lá de 1930 e veio até hoje, sempre respeitando os adversários, sempre querendo, exigindo honestidade, exigindo arbitragens honestas. Essa gritaria toda do Telê sempre foi a nossa também, o nosso discurso: de que vença, mas se vença com méritos. Então o São Paulo sempre conseguiu com méritos. Nunca foi buscar subterfúgios para conseguir uma conquista. Tanto é que você nunca ouviu falar que o São Paulo usou isso ou aquilo, o São Paulo exige disciplina dos jogadores, exige que a sua comissão técnica cumpra os seus contratos, trabalhe com afinco com os jogadores, e sempre exigindo arbitragens decentes, honestas, e cumprimentos de regulamentos, para que vença o melhor. Desde que você perca pra um melhor você tem que respeitar, mas nunca você aceitaria perder sabendo que foi burlado. Essa sempre foi a nossa filosofia. Nós já chegamos a brigar terrivelmente com presidente de federação. Eu estive na federação com o Dr. Galvão, discutimos violentamente com o presidente da federação, que era o Nabi Abi Chedid na época, porque sentimos que os nossos interesses estavam sendo burlados, então fomos lá violentamente mesmo. Mas respeitamos sempre as conquistas dos nossos adversários quando elas são limpas. Agora, saiu do trilho, aí o São Paulo briga mesmo.

 

P- Relembrando as conquistas do senhor nos anos 70, a gente podia falar um pouco da grande série invicta e campeonato de 75.

 

R- Em 1975, o São Paulo manteve uma série invicta muito longa, talvez a maior série invicta da história. Mas essa série iniciou-se em 1974 no Pacaembu, em um jogo até pequeno, o São Paulo vinha numa crise, não conseguia bons resultados, e nesse jogo no Pacaembu o São Paulo venceu e acabou vencendo os últimos jogos da temporada de 74, iniciou a temporada de 75 vencendo, e terminou vencendo o campeonato paulista de 75 invicto. E nessa época nosso time era Chicão, Pedro Rocha, Muricy, Mirandinha... Tínhamos o Zé Carlos Serrão, Arlindo, Waldir Peres... Não era um superesquadrão, mas era um time que se dedicava muito e depois desse evento de 1975, da grande série invicta que o São Paulo teve, tivemos uma queda de produção da equipe. E quando chegou o Rubens Minelli, praticamente ele remontou a equipe. Então em 75 nós tínhamos Nelsinho, Paranhos, Arlindo, Gilberto, e toda essa zaga foi desfeita. O Nelsinho e o Gilberto foram vendidos pro Santos, o Paranhos foi embora lá pro Norte, o Arlindo foi pro São Bento de Sorocaba, e o Minelli remontou o time trazendo novos jogadores, inclusive na decisão do campeonato no Mineirão, em 77. A zaga era Getúlio, que era recém-contratado, tínhamos o Tecão, lá em Belo Horizonte jogaram Getúlio, Tecão, na quarta zaga o Bezerra, e na lateral esquerda o Antenor. Então não tinha nada a ver com aquela zaga do time que fez aquela série invicta enorme. Esse time foi totalmente desfeito na época do Minelli. Então o São Paulo recicla muito, você tem que estar sempre reciclando. Então em 76 o São Paulo foi campeão, em 77 campeão com o Minelli, depois 78, 79 não conseguiu grandes resultados, e então veio praticamente a época em que eu assumi a presidência em 82, o Dr. Galvão indicou meu nome e eu acabei sendo eleito. Candidato único, nós não tínhamos oposição naquela época. Então eu assumi a presidência em abril de 82. Nós tínhamos um grande time na época que eu assumi, porque nós vínhamos de um bicampeonato de 80, 81, que era exatamente quando o Galvão montou um time muito forte com o Waldir Peres, o Getúlio, o Oscar, Darío Pereyra, Marinho Chagas, então eu mantive essa equipe na época de presidente. O Galvão assumiu a presidência em 78 e eu continuei com o Galvão como diretor de futebol em 78 e 79, mas nós não conseguimos grandes resultados. Em 80 o Galvão foi reeleito, eu fiquei como vice-presidente e o Jaime Franco e o Fernando Casal Del Rey assumiram a diretoria de futebol. Aí, no final do meu mandato como diretor de futebol, nós conseguimos vender alguns jogadores no México, o Muricy, o Milton Cruz, o Muller, o Muller que é irmão desse Muller, chamava Lucas, e nós vendemos esses jogadores no México e fizemos um caixa suficiente para comprarmos alguns jogadores importantes. Então a base do grande time que foi bicampeão em 80, 81, na presidência do Galvão, foi contratada com a venda desses jogadores no México, então nós fizemos um fundo de caixa e compramos o Renato do Guarani, uma compra muito importante, e contratamos o Assis, contratamos o Nei, que era um zagueiro do Botafogo, o Paulo César que era um ponta do Botafogo, contratamos o Ailton Lira do Santos. Em abril de 80, o Galvão foi reeleito, eu saí da diretoria de futebol e entrou o Jaime e o Fernando. Em seguida o Ailton Lira foi vendido para a Arábia Saudita por 400 mil dólares que era uma quantia bastante alta naquela época. E com isso o São Paulo fez caixa pra comprar o Oscar que era o zagueiro que jogava no Cosmos de Nova York. O São Paulo sempre teve interesse de contratar o Oscar enquanto ele esteve na Ponte Preta. Eu e o Dr. Galvão chegamos a ir pra Campinas pra fechar o negócio do Oscar com a Ponte, mas exatamente no dia em que nós estávamos fechando o negócio, chegaram os diretores do Cosmos de Nova York e nós não tivemos a mínima condição de concorrer com o Cosmos. E o Cosmos levou o Oscar lá pros Estados Unidos, mas, passado aí algum tempo, o Oscar não se adaptou ao Cosmos. Eu já não era o diretor de futebol, já era o Jaime Franco. Aí nós vendemos o Ailton Lira e criamos condição de contratar o Oscar. O Jaime Franco foi à Nova York, contratou o Oscar e ainda de quebra trouxe o Marinho Chagas. Então nós montamos um time com Waldir Peres, Getúlio, Oscar, Darío Pereyra e Marinho Chagas. Tinha Almir, Almir Eriberto, esse Paulo César, Renato, Serginho, Zé Sérgio. Montamos um time muito forte, e esse time sagrou-se campeão em 80 e bicampeão em 81. Em abril de 81 o Dr. Galvão passou a presidência a mim, eu tinha a responsabilidade de dar o tricampeonato ao São Paulo. O que nós nunca tínhamos conquistado, aliás, nunca conquistamos um tricampeonato. E não dei sorte como presidente. Na minha gestão de 82/83, o São Paulo chegou à final com o Corinthians e perdemos as duas finais. Nós perdemos a primeira num jogo eletrizante no Morumbi. O Corinthians tinha um time muito forte também, que tinha Biro-Biro, Sócrates, Zenon, Casagrande, era um time muito bom, e nós fomos muito prejudicados pela arbitragem também, e acabou com o Corinthians nos tirando o tricampeonato. Em 84 nós chegamos à final com o Corinthians novamente, perdemos novamente, aí já com o Careca, porque eu, como presidente, que comprei o Careca do Guarani. O São Paulo não tinha fluxo de caixa, não tinha caixa pra comprar o Careca. Então o mecanismo que nós encontramos pra viabilizar a compra do Careca, o maior centroavante do futebol brasileiro na época, eu acabei vendendo o Serginho pro Santos, o Santos nos comprou por alguma coisa em torno de 400 mil dólares, e eu contratei o Careca por 600 mil dólares. Nós entregamos ao Guarani os 400 mil dólares que recebemos do Santos e mais o passe do Éverton, um excelente jogador, e pra viabilizar a vinda do Careca eu tive que sacrificar o Éverton. E o Éverton não queria ir pro Guarani em hipótese alguma, foi uma cena impressionante porque ele não queria ir, e acabou indo a contragosto, para viabilizar a vinda do Careca. Porque a contratação do Careca foi muito traumática, porque entraram empresários europeus, entrou o Palmeiras, o Palmeiras nos atrapalhou muito, nós levamos trinta, quarenta dias pra concretizar a contratação do Careca. E o Careca, no São Paulo, ele jogou algumas partidas muito boas e vindo depois, na grande decisão contra o Corinthians, o Morumbi estava com 120 mil pessoas, o Careca estava aquecendo, estava preparado pra jogar, já havia sido feita a súmula do jogo com o nome do Careca, e o Careca aquecendo sentiu uma dor terrível na perna e não pôde jogar, nós tivemos que correr atrás do representante do jogo, substituir o Careca pelo Marcão, um centroavante enorme, um grandalhão, criou-se um ambiente muito ruim, porque esse ambiente, na véspera, no dia, no momento do jogo, né, substituir o grande jogador que era o Careca. Então nós perdemos também o bicampeonato. Nos meus dois anos de presidência, eu não fui muito feliz em grandes conquistas porque nós não ganhamos títulos, só tivemos esses dois vice-campeonatos que foram justamente com o Corinthians. O que eu fiz na minha administração que até hoje repercute muito bem foi uma reforma administrativa. Reformei o clube, fiz um cronograma novo do clube, nós recadastramos todos os associados, o que não se fazia há vinte anos, e dentro dessa reforma administrativa criamos a diretoria administrativa, que hoje é uma das diretorias mais importantes que tem no clube, que não existia antes, né? Então fizemos uma reforma grande e eu não pretendi a minha reeleição. Eu não queria, aliás, a eleição.

 

P- Por quê?

 

R- Pelos meus afazeres, pelos meus problemas, eu tenho que dar aula, tenho faculdade, tenho fábrica. E o problema é que o presidente do São Paulo, todos os presidentes que vocês vão entrevistar aqui... Os ex-presidentes que virão aqui, o Laudo Natel, o Dr. Galvão, Henri Aidar, o Carlos Miguel, Juvenal Juvêncio, o Pimenta, são homens que têm muito melhores condições financeiras do que eu. Eu me considero o presidente plebeu do São Paulo. Porque a minha origem foi humilde, foi uma origem de arquibancada, e no São Paulo, um clube conservador, pra um mineiro, vindo de Guaxupé, chegar a presidente do São Paulo, através das arquibancadas, porque eu vim como um torcedor e entrei no São Paulo sem conhecer absolutamente ninguém, e fiz a minha carreira dentro do São Paulo com muito trabalho, com muito amor, e cheguei à presidência do clube, o que me honra sobremaneira. Obviamente eu sempre entendia que eu não podia assumir a presidência do São Paulo, porque o São Paulo é uma coisa muito grande. Você sabe muito bem que as leis do país impedem que os clubes, os dirigentes, recebam qualquer honorário, então o presidente, os diretores do clube não são remunerados. Você faz por diletantismo, porque você gosta, você faz aquilo por amor. Quem recebe e ganha muito bem no clube é o técnico de futebol, é o preparador físico, os médicos, os jogadores ganham fortunas, mas os dirigentes não. Os dirigentes, por lei, são impedidos de ganhar. Então você tem que trabalhar, tem que dar aula, tem que cuidar dos teus negócios, e responder por um clube que hoje, a previsão orçamentária do São Paulo hoje é de um milhão, 1.100.000 de dólares por mês. Então são quinze, dezoito milhões de dólares de responsabilidade por ano. Então, o problema é o seguinte: a presidência de um clube, ela... Os clubes do Brasil, a própria lei impede que os dirigentes recebam qualquer honorário. E eu, como professor, sentia numa dificuldade tremenda de assumir uma responsabilidade tão grande em um clube em que o orçamento gira em torno de quinze a dezoito milhões de dólares por ano, um professor responder por isso... Então eu pensava, eu sofria muito intimamente, em pensar que um dia me faltasse o dinheiro pra poder pagar a folha de pagamento.

 

P- Então na época que o senhor foi presidente, o senhor trabalhava... O senhor é professor de universidade.

 

R- Continuo sendo.

 

P- Qual é a universidade?

 

R- É a Organização Santamarense de Educação e Cultura, OSEC, em Santo Amaro. Eu estou na OSEC desde 1970, esse é o vigésimo quinto ano que eu estou lá. E tem uma indústria também que eu sou sócio, que eu respondo pela indústria. Eu sempre entendi que o presidente de um grande clube desse, ele tem que ser um homem poderoso, um homem que em um momento de dificuldade ele pudesse socorrer o clube. O São Paulo é tão grande, é tão diferente dos outros que até o Dallora pôde ser presidente do São Paulo. Talvez o Dallora não pudesse ser presidente da Sociedade Esportiva Guaxupé, porque no final do mês não teria dinheiro pra pagar os seus funcionários e o Dallora teria que pôr dinheiro do bolso. E o São Paulo é tão grande, tão bem estruturado, que até o Dallora pode ser presidente, porque não há necessidade de o presidente colocar um tostão sequer no São Paulo, porque o São Paulo é autossuficiente, ele é muito bem administrado. Então até um pobre pode ser presidente do São Paulo. Em muitos outros clubes é preciso que seja um homem poderoso, rico, porque no momento que faltou dinheiro para pagar a folha, ele vai no seu fluxo de caixa, no seu caixa particular e... Isso acontece muito no futebol. E aconteceu até no São Paulo nos momentos de vacas magras, quando da construção do estádio, em que pessoas tiveram que se cotizar pra ajudar o clube. Hoje o clube é autossuficiente. Caríssimo, jogadores caros, um time bicampeão do mundo, um time que tem jogadores hoje que jamais na minha época de diretor de futebol poderia imaginar que um jogador do São Paulo fosse ganhar o que ganha hoje, porque naquela época não existia a mínima possibilidade de se pensar nisso, o futebol evoluiu muito, evoluiu extracampo. Porque dentro das federações, e nas confederações, o futebol continua pobre. Os clubes, pra subsidiar, pra manter essas grandes equipes, eles tem que buscar receitas alternativas, tem que pegar a TAM, pegar patrocinadores, agora bolar o shopping, tem que encontrar receitas alternativas para aguentar a sustentação de uma equipe cara. Ser bicampeão do mundo é uma coisa que te onera, um jogador bicampeão do mundo ele é bicampeão do mundo, ele quer fazer prevalecer esse valor dele. Você viu as dificuldades imensas que o São Paulo teve nesses últimos dias pra renovar o contrato do Müller, do Cafu, porque são jogadores caros. E o São Paulo tem mantido e tem conseguido mantê-los. Eventualmente tem que se vender um, que é o Raí, teve que ser vendido, Antônio Carlos foi vendido, o Pintado, eventualmente se vende pra fazer um fundo de caixa pra poder manter essa estrutura alta. Mas o Dr. Pimenta, ele numa gestão bastante profícua, bastante inteligente, de grandes conquistas. Porque o São Paulo jamais conseguiu tantas conquistas como nesses quatro últimos anos, ele foi buscar também receitas alternativas, e uma delas é exatamente o shopping que está sendo construído lá no térreo do Morumbi, que talvez viabilize uma receita bastante interessante e venha a colaborar pra manutenção do grande status de grande time de futebol. Mas se você depender de bilheterias, depender de campeonatos regionais, você não faz um time de terceira categoria. Só pra te dar um exemplo, o São Paulo, neste campeonato paulista que está em andamento, já havia realizado dez jogos e nos dez jogos não havia conseguido colocar em caixa nem dez mil dólares. E o São Paulo cobra cento e vinte mil dólares pra jogar uma partida na Argentina. E aqui está jogando de graça. Porque nesses campeonatos... É muito importante que se faça uma alteração profunda na estrutura do futebol brasileiro. O Flamengo já está minguando, coitado do Flamengo, porque ele não aguenta essa estrutura de jogar um campeonato pobre no Rio. O campeonato do Rio tem que fazer como no domingo, que deu 100 mil pessoas, que deu 500 mil dólares de renda. Pra sustentar uma estrutura dessa, é preciso que dê 500 mil dólares de renda. Aqui no Morumbi deram 340 mil dólares São Paulo e Palmeiras. Seria necessário que os jogos todos, de domingo a domingo, tivesse 30, 40, 50, 60 mil dólares de receita, pra você manter um esquadrão do naipe deste que o São Paulo mantém. Então como o campeonato é fraquíssimo, você vai jogar com o Ituano, com duas mil pessoas no Morumbi, zero de renda. Vai jogar com o Ituano em Itu, a renda é do Ituano. Vai jogar com Santo André em Santo André, lota o estádio, mas a renda é do Santo André. O Santo André joga no Morumbi não vem ninguém. Então faz dez jogos, zero de receita e uma despesa fixa de 400, 500 mil dólares. Então é inviável manter dentro de um país como o Brasil, que já é um país em crise, você manter um esquadrão como esse que o São Paulo mantém. O Palmeiras pode manter porque ele tem a Parmalat, que investe milhões de dólares. Mas o São Paulo é ousado demais.

 

P- A sugestão do campeonato seria a diminuição do número de clubes dos regionais ou o fim dos campeonatos regionais e fazer campeonatos nacionais como foi a Copa União?

 

R- Deixo dar um toque nessa história de campeonatos. Acho importante isso de fórmulas e soluções. Na minha ótica, a salvação do futebol brasileiro, a única saída para o futebol brasileiro é uma elitização do futebol. Não existe como fazer futebol carregando centenas de clubes pequenos. Os clubes grandes não têm como subsidiar tanto clube pequeno. A grande idéia seria a seguinte: você faria um campeonato nacional extremamente valorizado com dezesseis clubes, os maiores do Brasil, São Paulo, Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Santos, os grandes do Rio Grande do Sul, nos moldes do campeonato italiano. E você faria paralelamente a esses campeonatos nacionais os campeonatos regionais, como se chamasse uma fase de classificação. Esses campeonatos regionais sem os times grandes. Na Bahia, não estariam nem o Bahia nem o Vitória. No Rio Grande do Sul, não estariam o Inter e o Grêmio. E os times pequenos jogariam bastante, porque jogariam uma primeira fase, uma segunda, uma terceira, e os grandes jogando o grande campeonato nacional. De domingo a domingo. Com isso você teria um calendário, teria o seu carnê, teria quinze jogos porque são dezesseis clubes, teria quinze jogos de ida e quinze de volta. Os quinze jogos de volta aqui no Morumbi, teriam só dois por mês. E o calendário permite vender o carnê antecipado. E grandes eventos! Porque um domingo viria o Flamengo, depois de quinze dias viria o Fluminense, depois de quinze dias viria o Bahia, depois de quinze dias viria o Internacional de Porto Alegre, entendeu? Com isso todos os quinze dias teriam grandes arrecadações. E às quartas-feiras você teria as Copas. Às quartas-feiras teriam a Copa América, a Libertadores da América, a Supercopa, a Recopa, a Copa dos Campeões, a Copa do Brasil. O Palmeiras hoje tá jogando hoje de terça, quinta e domingo, terça, quinta e domingo, porque? Porque está disputando Copa do Brasil, está disputando Libertadores, né? Então, você só entraria no Campeonato Paulista, os grandes clubes, isso eu digo do Brasil todo, não só de São Paulo, todos os estados, somente entraria no playoff. Somente entraria na decisão do campeonato. Depois de selecionados durante sete meses de jogos, os times pequenos selecionariam seis para, juntamente com os grandes clubes, fazer as grandes decisões do campeonato regional e sair o campeão regional. Com isso você reduz fundamentalmente o número de jogos dos campeonatos regionais e faz com que esses jogos sejam importantes. Você não pode, com uma equipe como o São Paulo, entrar em campo sem trazer um tostão, um cruzeiro. Você tem que trazer 30, 40 mil dólares pra poder subsidiar essa estrutura caríssima. Hoje mesmo eu vi a previsão orçamentária do São Paulo, são dezoito milhões de dólares para o ano de 1994.

 

P- Na sua época de presidência como era?

 

R- Na minha época era bem mais modesta, uns seis, sete milhões de dólares. Quinhentos mil dólares por dia. Era dinheiro também, muito dinheiro. Só que o São Paulo tem receitas alternativas. O São Paulo tem as concessões, tem a publicidade estática, os associados, tem a receita social... Você tem receitas importantes que te dão condição de tocar o clube independente da receita do futebol que é a mais importante. Então o futebol hoje tem receitas alternativas também que é a publicidade da camisa, que é o contrato da TAM, o contrato da Pênalti. Então ainda dá pra conseguir outros resultados para poder subsidiar essa estrutura pobre. Porque no dia em que eles mudarem o calendário do futebol brasileiro, em que o Flamengo não precise jogar com o Itaperuna, com aqueles times lá, e jogue sempre com time grande, o Flamengo vai ficar rico, dificilmente vai vender um jogador para o exterior, porque ele não vai precisar vender, nós vamos ter grandes times aqui e o futebol brasileiro vai ficar milionário, vai ficar rico, não há necessidade, concluindo essa fórmula em que você disputa um campeonato nacional rico, nos moldes do campeonato italiano ou espanhol, jogos aos domingos, as grandes equipes do futebol brasileiro, às quartas-feiras, Supercopa, Recopa, Copa dos Campeões, Libertadores, todos esses torneios internacionais, e os grandes clubes jogariam somente os playoffs, somente as decisões dos campeonatos regionais, isso em todos os estados, na Bahia... O Bahia e o Vitória entrariam somente na final do campeonato baiano. Eles vão fazer muito dinheiro, porque somente vão jogar as partidas decisivas, e aqui em São Paulo seria a mesma coisa. Os grandes clubes não seriam sacrificadíssimos em jogos como o São Paulo jogou o ano passado, retrasado, jogando cem partidas num ano, um verdadeiro massacre, e o pior é que jogando sem renda, sem receita. Obviamente, se você disputa uma Libertadores da América, o São Paulo leva no Morumbi cem mil pessoas numa quarta-feira. Jogou São Paulo e Flamengo numa quarta-feira, deram cem mil pessoas. O São Paulo jogando uma Libertadores da América no Morumbi numa quarta-feira com um clube do Peru tem trinta, quarenta mil pessoas, e a televisão paga muito bem. E o campeonato paulista você não recebe praticamente nada da televisão, você não tem receita. “Ah, mas jogou agora domingo deu 300 mil dólares”. Um jogo. Nós já fizemos dez. Um jogo pra dar cem mil dólares pro São Paulo, quando você tem uma despesa bruta. Se não se fizer uma reforma profunda, os clubes não se aguentam. E o São Paulo está se aguentando porque na venda de alguns jogadores ele vai encontrar a receita do déficit operacional dele. O São Paulo tem um déficit operacional. A receita dele não atinge a despesa. E essa despesa só é equilibrada com a venda de algum jogador. E o São Paulo eventualmente pode entrar numa situação difícil no momento que não conseguir mercado pra algum jogador.

 

P- Professor, o senhor teve uma participação muito importante na formação da carreira de alguns jogadores como o Mirandinha e o Serginho. Vamos falar um pouquinho do Serginho.

 

R- O Serginho começou comigo e com o Poy como técnico nos juvenis, o Serginho iniciou mesmo na Portuguesa de Desportos e ele foi dispensado numa peneira porque ele era muito mole, muito grande, perna muito longa, e o técnico da Portuguesa mandou ele embora falando: “Você não vai jogar futebol em lugar nenhum”. Aí ele foi fazer um teste no São Paulo e o Poy gostou demais, porque ele era alto, e o Poy começou a adaptá-lo. Ele jogava na ponta-esquerda. Chegou a jogar nos juvenis, nos juniores, bom jogador. Depois nós emprestamos o Serginho pro Marília pra ele adquirir um pouco de experiência, quando ele voltou do Marília ele já entrou no time praticamente, no time principal. Ele e o Mauro. O Mauro era também um crioulo, também como ele, amigo dele, e os dois entraram no time na época que o São Paulo comprou o Mirandinha. E eles chegaram a jogar juntos esses três crioulos: o Mauro, o Mirandinha e o Serginho, num jogo em Goiás. O time de Goiás na época tinha um grande esquadrão e pela primeira vez o São Paulo pôs três crioulos enormes, três crioulos fortes que era o Mauro, o Mirandinha e o Serginho. Eles liquidaram com o Goiás, foi um show. Parece que foi três a zero, mas é interessante que não deu sequência, porque aí nós fomos a Brasília, no jogo seguinte, e lá em Brasília o Serginho sofreu uma fratura do perônio. Ele não pôde jogar mais e ficou uns sete, oito meses parado. Quando o Serginho voltou, aí foi o Mirandinha que fraturou a perna.

 

P- Como foi isso?

 

R- Então. Quando o Serginho voltou da fratura, ele foi para São José do Rio Preto pra ficar no banco no jogo contra o São Paulo em São José do Rio Preto. Foi em 74, depois da Copa do Mundo de 74. Aí o Mirandinha sofreu uma fratura violentíssima lá em São José do Rio Preto, e o Serginho estava no banco. Eu corri pra socorrer o Mirandinha, eu e o Dr. Dalzell Freire Gaspar, que era o médico, pegamos o Mirandinha, levamos a um hospital da cidade, e o jogo continuou. O São Paulo estava vencendo por um a zero, gol com o Mirandinha, e a origem do Mirandinha é São José do Rio Preto, ele nasceu e se criou lá, e foi fraturar a perna lá na terra dele, em São José do Rio Preto. Aí nós fomos pra um hospital, e nós estávamos lá no hospital, o Mirandinha gritando de dores terríveis, uma fratura violentíssima de perônio e tíbia, uma fratura cominutiva, terrível, e o jogo continuou. Aí eu fui até a porta do hospital e vi o público que vinha do estádio. Já tinha terminado o jogo e eu não sabia o resultado, porque quando eu saí estava um a zero para o São Paulo. E vinham os torcedores do América, bravos porque tinham perdido, e eu perguntei pra um deles. Não sabiam quem eu era, né? Perguntei: “Como é que foi o jogo São Paulo e América?”. “Ah, foi três a zero. Quebraram um crioulo lá, eles pegaram um outro crioulo que estava no banco e puseram lá e esse outro crioulo fez dois gols na gente”. Que era exatamente o Serginho. Então, exatamente naquele dia em que o Serginho substituiu o Mirandinha, o Serginho começou a subir dentro da carreira dele no São Paulo. E o Mirandinha ficou três anos seguidos sem jogar futebol.

 

P- Por causa dessa fratura?

 

R- Por causa da contusão. Sofreu várias cirurgias, entendeu? Então o Serginho cresceu muito e virou um grande artilheiro. E o interessante, que eu sempre digo isso a todos, o Serginho viajou comigo o mundo todo. Nós viajamos muito, e o Serginho sempre foi um excelente rapaz. E ele tem uma conotação de baderneiro, um jogador difícil, ele tinha realmente, no final de carreira dele, ele começou a ter uns repentes bravos dentro do campo, essa vez que ele agrediu o árbitro, eu gritava com ele, ele parava. O Serginho, ele era meio temperamental, mas um excelente moço, excelente rapaz. Foi um grande jogador, um grande jogador... Aí ele chegou pra mim: “Professor Dallora, eu precisava ir embora, já tô aqui há muitos anos, doze, treze anos, o senhor precisa facilitar pra eu ganhar meus 15%”. Foi quando eu consegui fazer esse negócio casado com o Guarani. Que eu vendi o Serginho pro Santos, pegando 400 mil dólares mais ou menos e comprei o Careca por seiscentos. Porque o dia em que eu vendi o Serginho, um torcedor ligou na minha casa e me ameaçou, mas eu já tinha comprado o Careca. Eu estive no escritório do atual presidente da federação, Eduardo José Farah, que o Farah era um homem bastante simples, humilde, era um advogado, muito amigo, ele era ex-presidente do Guarani, e o presidente do Guarani vinha de Campinas, o Tavares, conversar comigo que eu era o presidente do São Paulo, para tentar acertar a compra do Careca. Ele, a venda do Careca ao São Paulo. E marcou o encontro no escritório do Farah. Era um escritório de advocacia aqui na Avenida Nove de Julho. E eu fui até o escritório do Farah, o Farah conversou muito comigo, e acertamos a compra. Nós fizemos toda a documentação da compra do Careca e incluindo o Éverton. Eu tinha condição de comprar agora, porque eu tinha os 400 mil dólares, que não era dólar, era cruzeiro que equivalia, que o Santos pagaria, eu transportaria todos esses títulos ao Guarani e daria o passe do Éverton e do Luis Miller. Então nós compramos o Careca dessa maneira. E o Serginho saiu do São Paulo porque ele queria ganhar os 15% dele, mas é um moço extraordinário, um moço que eu carrego lembranças excelentes dele. Foi um grande goleador, grande jogador de futebol.

 

P- O senhor tinha uma relação de amigo com esses jogadores, tinha uma relação mais íntima?

 

R- Sempre tive uma relação muito boa de respeito, de muito respeito, eles sempre me respeitaram muito, e até hoje, até hoje, o Mirandinha, ele faz uma festa danada quando me vê, porque eles viveram uma vida praticamente juntos, e o Serginho também, sempre que eu o vejo. Agora nós temos no São Paulo o Gilberto, que é técnico lá, o Muricy é técnico, temos o Nelsinho também que foi jogador do São Paulo que é técnico, o Terto, o Gino que trabalham dentro do São Paulo. Então nós temos muitos ex-jogadores que estão lá conosco até hoje, né?

 

P- Você já foi muito padrinho de casamento, padrinho de batismo de jogador?

 

R- É, bastante. Porque cria certa amizade. Eu sempre tive uma postura de dar todo o atendimento, todo respeito, mas sem muita intimidade. Sempre tive um relacionamento muito bom com eles, e você tem que ser muito leal, muito leal, para eles terem respeito por você. Saber que você é um elemento que responde naquilo que eles... O jogador de futebol precisa disso. Não é interessante que você vá à boate, que você saia com ele, que faça programa, você tem que ter certa distância para você fazer respeitar e eles te respeitarem. Sempre fui assim, minha vida toda. Nunca fui assim um amigo íntimo de jogador, mas todos eles me respeitavam profundamente. E até hoje, porque essas amizades muito... Às vezes te tira a autoridade. No momento que você quer tomar uma atitude de respeito, de disciplina, você fica tolhido pela amizade profunda. Então não é interessante um dirigente de futebol manter uma amizade muito estreita com o jogador. Mas o respeito, fazer se respeitar, e eles entenderem que você é extremamente leal em tudo o que você fala a ele... Aí você tem... Os jogadores você tem...

 

P- Aí o senhor falou de um evento que uma vez um torcedor telefonou pra casa do senhor ameaçando. Isso acontecia muito, os torcedores se permitiam esse tipo de coisa?

 

R- Esse torcedor me ameaçou e disse: "você é que vai jogar agora de centroavante". O pior é que eu tinha o contrato do Careca no bolso. Eu já tinha o contrato do Careca, mas eu não podia dizer a esse torcedor que já tinha contratado o Careca porque faltavam detalhes e não era interessante ainda divulgar. Ele me agrediu com palavras terríveis, entendeu? Aí, vinte ou trinta dias depois disso, concluiu-se a contratação do Careca, e esse torcedor veio e me abraçou, agora sim, você contratou um jogador pra substituir... E o problema é o seguinte, o futebol vive de resultado. Ele vive em função de resultado. Não adianta, você leva público no estádio, não é porque você faz grandes eventos, leva grandes artistas. Você só leva grandes públicos ao estádio de futebol quando você tem um grande jogo de futebol. É quando o público sente realmente que tem duas grandes equipes que vão dar espetáculo. Já inventaram mil e uma coisas pra levar público para o estádio. Não existe: a única coisa que existe é o espetáculo do futebol. O São Paulo e o Palmeiras é um grande espetáculo porque o Palmeiras tem um grande esquadrão, caríssimo, a base da seleção brasileira está justamente nos dois times. Obviamente você sempre tem grandes espetáculos.

 

P- Falando em espetáculo, qual foi o grande jogo da sua vida. Se o senhor pudesse escolher um jogo inesquecível...

 

R- Inesquecível foi esse do Mineirão. Esse foi impressionante! Nós entramos numa situação de desvantagem total e conseguimos vencer o Atlético dentro do Mineirão. Aquela conquista foi a primeira, né? A primeira vez que o São Paulo conseguiu um campeonato nacional, a nossa chegada em São Paulo foi histórica, um negócio impressionante, o público às três horas da manhã, toda a população são-paulina na rua, os canais de televisão com os carros na frente, o câmera em cima de um carro, deitado com a câmera, correndo na frente do ônibus, e aquele povo imenso, uma loucura. Quando chegamos ao estádio do Morumbi, mas eram milhares, abriram as portas do estádio para o público entrar, eles encheram o estádio pra poder saudar os campeões, foi emocionante. Porque foi a primeira. Agora o São Paulo ganha muito... Nós, eu acho que o são-paulino nunca foi tão feliz como nesses últimos anos. Porque o são-paulino tem ganho, ganho, ganho. É campeonato paulista, são campeonatos nacionais, é campeonato sul-americano, campeonatos mundiais, então o São Paulo aprendeu a vencer e tem uma estrutura muito boa, e essa estrutura, e todos esses ex-presidentes que você vão entrevistar, todos eles, têm méritos na implantação. O Laudo Natel dedicou a própria vida pra construir o estádio, ele dedicou-se profundamente, porque o estádio deve ter dado ao Laudo anos terríveis, muitos cabelos brancos pra concretizar aquela obra monstruosa. Outros presidentes que vieram pra complementação dessa estrutura fantástica que o São Paulo tem hoje, a construção da sede social, a construção do Centro de Treinamento eu participei diretamente porque eu como diretor de futebol durante oito anos, eu não via como o São Paulo evoluir sem um centro de treinamento. Porque você não tinha como treinar no estádio. O estádio não é um local pra treinamento, o estádio é pra ter uma belíssima duma grama pra poder fazer jogos e abrir aquilo pintado com uma grama maravilhosa, não é lugar de treinamento, né? E com o Dr. Galvão nós conseguimos a área de 45 mil metros aqui na Barra Funda que nós construímos o centro de treinamento, e eu, nos meus dois anos, me sacrifiquei muito pra iniciar a obra do centro de treinamento.

 

P- O senhor é que iniciou o CT?

 

R- Quem iniciou foi o Galvão. O Dr. Galvão em 1980 mais ou menos, nós recebemos a área do então prefeito Reinaldo de Barros. E o Galvão, quando ele pegou a área, ele ficou praticamente um ano pra preparar a área, aterrando, colocando terra pra levantar o piso. Eu nos meus dois anos eu investi muito pra fazer muro, pra fazer um campo, porque nós não tínhamos muita condição de... Depois o Carlos Miguel Aidar, que me sucedeu, fez um contrato com a Brahma e cedeu à Brahma dez anos de concessão de vendas exclusivas no estádio em troca da construção total do Centro de Treinamento. Então foi construído o prédio com dezesseis apartamentos, um prédio muito bom como um hotel cinco estrelas, e os campos todos, toda a parte... Todo o acabamento do estádio foi construído com a Brahma, e esse contrato com a Brahma já deve ter aí uns oito anos, daqui a dois anos esse contrato encerra e o São Paulo terá oportunidade de fazer um novo contrato muito bom com a Brahma, e o centro de treinamento foi uma vitória fantástica. E todas essas grandes conquistas estão na razão direta dessa estrutura. Além do estádio, o centro de treinamento é uma coisa impressionante. Hoje nós temos... O Raí quando foi agora pro Paris Saint Germain, ele declarou lá que fica perplexo de ver hoje, lá na Europa, que um clube do Terceiro Mundo como o São Paulo tem uma estrutura de clubes que nem lá existe. Então o São Paulo tem uma estrutura porque todos esses homens ex-presidentes que estão sendo entrevistados, que darão sua contribuição aqui no Museu da Pessoa, todos eles têm uma parcela muito grande pra que o São Paulo conquistasse e chegasse ao ponto que chegou hoje.

 

P- Professor Dallora, já que estamos nos descontos, queria que o senhor fizesse uma avaliação da sua gestão na presidência.

 

R- A minha gestão teve apenas dois anos porque eu não quis me candidatar à reeleição. Nós temos dois ex-presidentes que não se reelegeram: eu e o Juvenal Juvêncio. Desses presidentes, o Dr. Galvão ficou quatro anos, o Dr. Henri ficou seis, sete anos, o Laudo ficou muito mais... E nos meus dois anos já disse a você que nós não conseguimos grandes conquistas porque nós tivemos dois vice-campeonatos, que são os dois vices que nós conseguimos em 83, 84, e ampliamos no meu período o Centro de Treinamento, e fiz a grande reforma administrativa que o São Paulo usufrui.

 

P- Pra gente ir encerrando, hoje se o senhor fosse técnico do São Paulo, como o senhor montaria um time.

 

R- É muito difícil pra um dirigente falar sobre times, entendeu? Nós somos torcedores, mas não temos muito direito de escalar times. Porque o técnico é pago, é muito bem pago pra dirigir o time. Então a responsabilidade é dele.

 

P- A escalação do São Paulo de todos os tempos.

 

R- O São Paulo de todos os tempos: o São Paulo teve grandes goleiros, né? Eu vi jogar o Gijo, foi um grande goleiro na década de 50, o Poy foi um grande goleiro... O Poy foi goleiro do São Paulo durante doze anos, foi um goleiraço, um senhor goleiro, uma personalidade muito forte, um homem extraordinário.

 

P- Poy. Lateral direito?

 

R- Talvez tenha sido o De Sordi que foi campeão do mundo, né? Nós tivemos o Getúlio, mas acho que eu ficaria com o De Sordi. O Oscar como zagueiro central, porque nós tivemos Renganeschi, nós tivemos Mauro, tivemos grandes zagueiros centrais. É uma temeridade você montar uma seleção dessas, porque você tem jogadores extraordinários. Mas mais do meu tempo foi o Oscar. Oscar, Dario Pereyra, que jogaram no meu período, quando eu era presidente, quando fui diretor de futebol. Essa defesa foi uma das melhores defesas que o São Paulo teve. O Getúlio, Oscar, Dario Pereyra e Marinho Chagas. Grandes jogadores... Era muito difícil fazer um gol nessa defesa, muito difícil!

 

P- E o meio de campo.

 

R- O meio de campo, nós nunca tivemos um volante de nível seleção, um super, a não ser o Bauer, né, na época do Bauer. Nós tivemos Almir, nós tivemos Nenê, nós tivemos alguns volantes discretos mais muito interessantes que lutavam muito, mas realmente nessa posição teve o Édson, que jogou bem, mas talvez o Gerson foi talvez o maior meio que o São Paulo teve. É difícil pra mim porque eu não vi jogar o esquadrão de 43, o Luizinho, o Sastre, Leônidas, o Teixeirinha, então esses jogadores devem ter sido extraordinários. O Bauer, Rui, Noronha, então eu não vi. A minha geração foi mais recente e esses jogadores... E nós ficamos 13 anos com uma equipe muito discreta. Foi de 57 a 70. Depois de 70 é que surgiram os times mais fortes, que veio o Pedro Rocha, o Toninho Guerreiro.

 

P- Mas o que passou pela mão do senhor, como é que a gente montava esse meio de campo e esse ataque?

 

R- Ah, o Gerson acho que seria o meia-esquerda, né? O Gerson, o... Deixa eu ver... O ponta esquerda, o Zé Sérgio foi fantástico, o Serginho foi um grande centroavante, o Careca também foi outro centroavante extraordinário, como é que você escala o Careca e não escala o Serginho, e o Renato foi um grande meia, jogou muito bem, ganhamos grandes títulos com o Renato e tal, mas eu realmente me sinto em dificuldade em montar uma seleção dessa, porque são muitos os bons jogadores.

 

P- Ainda bem, né...

 

R- Inclusive esses que tão jogando hoje, porque hoje nós temos uma meninada nova aí, excelente... Tem o Müller, tem essa safra toda aí, Raí, a safra dessa última fornada aí, né? Tem inclusive esses meninos que estão jogando agora, André e Doriva, todos esses foram criados no São Paulo. Eu disse o seguinte: esse jogo do São Paulo e Palmeiras, o São Paulo entrou com o Zetti, o lateral direito, o Vítor... O Vítor foi criado no São Paulo, o Glauber não, mas o Gilmar foi criado aqui, e o André foi criado aqui. Doriva foi criado aqui, Müller foi aqui, o... Quem mais... Tinham seis dos onze que jogaram que foram criados dentro do São Paulo. Isso é uma beleza, né? Você ter mais de 50% do time de origem das escolinhas do São Paulo. E tem os reservas praticamente todos que são também, né? Está ok?

 

P- O senhor gostaria de deixar mais alguma coisa registrada?

 

R- Acho que não, falamos bastante!

 

P- Então obrigado.

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