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História

"Você não perde nada sendo honesto e trabalhador"

História de: Orlando Leoni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Entre memorias da sua juventude, dos tempos em que trabalhou de alfaiate e relatos da sua carreira como bancário, Orlando Leoni relembra momentos importantes de sua vida e conta como viveu seguindo o maior ensinamento que aprendeu com seu pai: ser honesto e trabalhador.

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor Orlando.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Orlando Leoni, nascido em Bariri, estado de São Paulo, em 19 de março de 1921.

 

P/1 – O nome dos seus pais e dos seus avós.

 

R – O meu pai chama-se Leoni (Cataldo?) e minha avó, aliás, minha mãe, Maria (Sidigalis?). Os meus avós? Os meus avós tem o Miguel, que era o pai do meu pai. A minha avó eu não lembro, ela faleceu antes de eu conhecê-la. E o outro, da minha mãe, esse no momento eu não lembro também porque ele morreu, aliás, numa viagem para a Itália foi jogado dentro do mar. Então, procurei esquecer até dele porque eu gostava muito dele.

 

P/1 – O senhor comentou com a gente lá fora sobre uma troca, né, de ordem do nome do seu pai. Como que foi isso, o senhor poderia falar um pouquinho mais?

 

R – Porque o italiano da Itália, o sobrenome que nós usamos hoje é nobre lá. Por exemplo, o meu pai aqui no Brasil chama (Cataldo?) Leoni, mas quando ele veio da Itália veio com o nome de Leoni (Cataldo?). Tanto que as nossas certidões é tudo Leoni (Cataldo?), mas com o nome brasileiro que seria (Cataldo?) Leoni.

 

P/1 – E o senhor disse que metade da família ficou com o sobrenome.

 

R – É, dois irmãos o cartório registrou errado. Registrou errado e somente foi estabelecido o erro quando eles foram chamados para o serviço militar. Aí não trocaram. Os documentos eram tudo militar, ficou.

 

P/1 – E eles ficaram com o sobrenome de (Cataldo?)?

 

R – (Cataldo?)

 

P/1 – Certo. E qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R – O meu pai fabricava calçados, tinha uma pequena fabriquinha na cidade de Bariri. Que anteriormente morou muito em Ribeirão Bonito, durante a febre amarela ele mudou para Bariri. Tanto é visto que todos os meus irmãos nasceram em Ribeirão Bonito, eu nasci em Bariri. Minha mãe era prendas domésticas, só cuidava dos filhos em casa, mais nada.

 

P/1 – Certo. E dos seus avós, o senhor lembra com quem que eles trabalhavam, o seu pai comentava?

 

R – O meu avô que morreu durante a viagem para a Itália, ele tinha um sítio. Tanto é que foi passado para um irmão, depois para um irmão da minha mãe. O outro gostava de tomar o seu vinho. Já estava com idade, só tomava vinho. Tanto é que ele morreu com um copo de vinho na mão.

 

P/1 – E qual é a origem do nome da família, o senhor sabe?

 

R – Leoni é um nome comum na Itália. É que nem aqui Silva e tal. E (Sidigalis?) tem muito também. Eu conheci muitas pessoas aqui em São Paulo com o nome de (Sidigalis?) e não tinha, a origem deles eu não sei. Apenas sei que minha mãe era napolitana e por sinal cozinhava muito bem.

 

P/1 – Certo. O senhor tem irmãos?

 

R – Vivos não, estão todos falecidos.

 

P/1 – Quantos irmãos o senhor teve?

 

R – Eu tive quatro irmãos e quatro irmãs.

 

P/1 – E todos nasceram no Brasil?

 

R – Todos no Brasil.

 

P/1 – Todos no Brasil?

 

R – Porque os meus pais, quando vieram da Itália vieram como imigrantes e foram morar em Ribeirão Bonito. Lá que ele ficou conhecendo a minha mãe, que tinha vindo também. Acabaram casando-se lá.

 

P/1 – Certo. Vamos falar um pouco da sua infância agora. Como que era a rua, o bairro que o senhor morava lá em Bariri?

 

R – A minha infância foi a infância melhor que pode uma criança ter, que é ampla liberdade, mas um respeito mútuo com os pais. Minha mãe olhava assim para mim e eu já sabia o que ela queria dizer. Fui levado da breca. Roubei muita fruta da turma, pescava muito, gostava de pescar. Tanto é que até poucos anos agora eu tinha rancho na barragem do Rio Tietê, eu e um irmão que veio a falecer. Então dissolvemos. Mas a minha infância foi uma infância maravilhosa. Eu gostaria que as crianças de hoje tivessem um décimo da infância boa que eu passei. Na escola, em todo lugar eu tinha amizade com todo mundo. Era muito respeitado por todos, isso sempre fui, e também dava o respeito a todos.

 

P/1 – O senhor brincava na rua?

 

R – Ah, sim. Com aqueles carrinhos, com aquelas rodas em pneumático, mas sem fazer maldade de nada, que meus pais não admitiam. Eu sinto-me feliz por causa disso. Agora os filhos meus também são muito educados, trabalhadores. Porque meu pai me ensinou boas coisas na vida: “Meu filho, você seja honesto e trabalhador”. Tanto é que eu vim a trabalhar no banco aqui em São Paulo, quando eu pedi demissão a diretoria mandou me chamar, não queria que eu saísse. Eu sempre mantive aquela tradição. E respeitar as pessoas idosas. Até lá dentro da organização era tudo pessoas de idade. Hoje, infelizmente, estão todos falecidos. Mas sempre estimado, ganhava muitos presentes deles, vinho. Ainda esta semana abri um vinho de cento e poucos anos, vinho do porto, que eu ganhei de um cliente. Mas a minha infância foi uma maravilha por causa disso. Aprendi tanta coisa na minha infância.

 

P/1 – O senhor tinha muitos amigos?

 

R – Ah, sim. Tinha amizade com todo mundo. É lógico que eu tinha amizade com a criançada. A criançada me adorava porque se tinha algum malandro que queria bater num outro eu nunca deixava. Eu achava que não tinha que brigar.

 

P/1 – E como que era a casa do senhor, da sua família?

 

R – Uma casa imensa, cada um tinha o seu quarto. A mesa do almoço tinha uns dez metros de comprimento e quando se almoçava, almoçava todos juntos na hora do almoço. Isso era minha mãe, quem sofria era a minha mãe. Eu acho que é isso, simplesmente isso. Não posso me queixar da minha infância não.

 

P/1 – Era uma casa grande então, pra tantos irmãos.

 

R – Eu tinha o meu quarto.

 

P/1 – Era no centro da cidade, lá de Bariri?

 

R – Ah, sim, no centro. Em 1929, quando nós morávamos na primeira casa, estourou uma represa na cidade e minha casa ficou com dois metros d’água. Perdemos tudo. Felizmente a minha madrinha tinha um pequeno sítio e falou: “(Cataldo?), vai lá, cuida daquilo até você conseguir acertar a vida”. Fui pro sítio e passei a minha infância no sítio. Foi maravilhosa também. Roubava goiaba todos os dias. Mas eu não tenho que dar queixa de nada não.

 

P/1 – E quais que eram as brincadeiras preferidas do senhor?

 

R – Ah, jogar bola. Tinha um quadro de futebol, um quadrinho lá e eu ia jogar bola e bola ao cesto, que hoje é basquete. Então jogava no grupo. Jogava-se, lá tem um campo imenso, jogava lá. Até que eu vim a jogar futebol, cheguei a jogar em quadros bons. Inclusive eu fui convidado pra treinar no Palmeiras, eu não quis ir porque eles não queriam me pagar nem a pensão. Então eu não...

 

P/1 – Olha. Então o senhor era bom de bola?

 

R – Felizmente. Todos os meus irmãos jogaram sempre no primeiro quadro lá da cidade, jogavam bem mesmo. É, acho que é coisa da própria natureza da pessoa, né?

 

P/1 – E além de jogar bola o senhor falou que gostava de pescar também.

 

R – Ah, pescar, é, pescar. Tinha um rancho na barranca do rio com o meu irmão, chegava a pegar peixes grandes. Nós tínhamos um motor, subia no motor. Meu irmão era um pescador de mão cheia com caderneta até de pesca de Santos. A gente levava aquela vida maravilhosa, 100% barranca de rio. ________. Se eu disser qualquer coisa sobre a minha infância que fosse mal eu to mentindo.

 

P/1 – Foi tudo ótimo?

 

R – Foi tudo uma maravilha.

 

P/1 – E como que era o cotidiano do senhor, da sua casa, da sua família com tantas pessoas? Como é que era o cotidiano quando o senhor era criança?

 

R – Chegava a hora de ir pra escola, tinha que ir pra escola.

 

P/1 – O senhor ia de manhã ou à tarde?

 

R – De manhã, não tinha problema. Aí, quando voltava da escola, a minha mãe dava a liberdade, mas tinha que fazer as lições primeiro, depois dava a liberdade. Aí a gente farreava com a molecada  _____. Era uma beleza, viu? Tudo que eu passei na vida foi bonito.

 

P/1 – Então o senhor chegava da escola, almoçava.

 

R – Almoçava e ia brincar. Fazia as lições e ia brincar. Depois, à noite, chegava e ia pra casa, mas tudo dentro do horário marcado pelos meus pais. Quando eu me tornei mais moço eu ia pra um bar, tinha que saber a hora que eu ia chegar e minha mãe estava lá me esperando. Não era como a mocidade de hoje não. Chegava aquela hora minha mãe estava lá esperando, ou o meu pai. Se passasse do horário eu não saía mais.

 

P/1 – Disciplina.

 

R – Ah, tinha disciplina. Os italianos gostavam de disciplina. Eu tinha uma mãe que cozinhava que era uma maravilha. Napolitana, fazia uma polenta que ficava até, deixava a gente doente. Mas foi até a época que eu completei dez anos, ele não deixava a gente na rua. Então me pôs numa alfaiataria pra aprender o ofício. Nesse ofício fiz boas amizades também. Trabalhei até 18 anos. Dezoito anos fui trabalhar no banco como contínuo, entregar correspondência, fazer limpeza. Depois de uns anos, dois anos mais ou menos, prestei exame, passei pra funcionário, mas transferido para São Paulo.

 

P/1 – Ta. Vamos então começar. Quando que o senhor iniciou os seus estudos?

 

R – Meus estudos? Eu com oito anos já estava na escola.

 

P/1 – Certo.

 

R – Completei depois de quatro anos. Com 12 eu saí. Fiz muitos cursos aqui em São Paulo.

 

P/1 – E essa escola que o senhor, como que era essa escola que o senhor fez lá em Bariri.

 

R – Era o que hoje não existe nessas escolas aí. Essas escolas que estão aí não chegam nem, mas nem nos pés do que era. Era um regime, os professores. Haja vista que você, no segundo ano, já escrevia sobre certos artigos. Tinha que escrever tudo, tudo. Era duro, viu? Eles não perdoavam. O diretor, que Deus o tenha em bom lugar, era ali. Tratava a gente com carinho, mas ali. Nunca fui chamado na diretoria pra nada.

 

P/1 – E as matérias, o senhor lembra-se das matérias que o senhor tinha?

 

R – Matéria? No segundo você já fazia todas as operações de cálculos de matemática, tudo, tinha que fazer tudo. Davam muito ditado, que hoje parece que não dão mais. É um erro. Ditando é que a criança escreve direito. E tinha que todos fazer toda a lição porque era puxado. Tinha a hora do recreio, você ia lá jogar bola com a turma. Roubar manga também, que tinha uns pés de manga lá no _____ da escola. Eu acho que foi uma vida maravilhosa.

 

P/1 – Era uma escola grande?

 

R – Ah, tinha uma, duas, três, quatro, cinco, seis, dez salas de aula e era uma escola muito boa, mas não (regou fora de série?).

 

P/1 – O senhor lembra o nome da escola?

 

R – Ah, como é que era o nome? Atualmente eu não me lembro. Por sinal uma pessoa, um professor muito estimado lá. Isso faz 70 e tantos anos, é muita coisa, já fugiu da memória.

 

P/1 – Certo. E, assim, quais as melhores lembranças que o senhor tem desse período da escola?

 

R – As melhores lembranças foi o professor (Bartô?) que era bravo, ele não perdoava não. O aluno tirava ele fora do sério, ele baixava no braço, não tinha perdão não.

 

P/1 – Batia no aluno?

 

R – Ele dava uns tapas logo, _____ não. Ele era fora do sério, o professor (Bartô?). Mas era um senhor professor. Eu tinha uma professora que chamava Mariazinha também, era maravilhosa. Uma paciência com a turma. O que mais que eu não tenho? Se eu for falar qualquer coisa mal deles eu estou cometendo um grande erro.

 

P/1 – Todas as lembranças são boas?

 

R – Ah, são ótimas. Eu tenho uma infância, eu falo, eu tenho uma infância e uma mocidade bela e uma vida de casado ótima, que eu tenho uma esposa maravilhosa. Pra  me aguentar por 55 anos tem que ser muito ______.

 

P/1 – E como que o senhor considera que essa escola, essa formação escolar influenciou na sua vida profissional?

 

R – Influenciou porque eu sabia escrever bem. Foi só aprender a escrever à máquina. E na minha terra, que por sinal só tinha uma máquina de escrever, que era do prefeito. O prefeito era muito amigo meu, falou: “Nico”, me tratava como Nico. E colocou o escritório dele à disposição pra eu aprender a escrever. Foi quando eu aprendi a escrever que eu vim prestar exame em São Paulo depois, quando tinha 18 anos. Eu não posso dizer nada de mal da minha história.

 

P/1 – Então quer dizer que o senhor foi lá à casa do prefeito aprender datilografia?

 

R – Aprender datilografia, família Masson.

 

P/1 – E era raro, assim, não era todo mundo que tinha esse privilégio?

 

R – Ah, não. Ele soube que eu estava na escola, ele me chamou. Sabia que eu tinha entrado, precisava aprender, ele me chamou: “Ta aqui a chave do meu escritório”. Aliás, eu deixei de frequentar depois a casa dele quando estava em São Paulo porque quando eu cheguei aqui tinha uma filha dele, me trazia, quando eu estava lá me trazia café, pão, tudo. Quer dizer, a menina gostava de mim. E quando estava em São Paulo ela faleceu, não fui nunca mais à casa dele.

 

P/1 – Olha. O senhor se lembrava com saudades dela?

 

R – Nem na rua eu passava mais.

 

P/1 – Olha. Senhor Orlando, vamos falar um pouco da sua adolescência, daquela época que começam os namoros, né? O senhor tinha um grupo de amigos depois que o senhor veio pra São Paulo?

 

R – Ah, eu tive uma turma de amigos aqui, mas era não pra... A gente ia pra cabaré lá na Praça Princesa Isabel, tinha um cabaré lá.

 

P/1 – Sei.

 

R – Que a gente ia lá dançar, sabe? Era a mocidade.

 

P/1 – Esses amigos moravam perto? Quem eram os amigos?

 

R – Moravam na pensão, era companheiro de pensão.

 

P/1 – O senhor veio, morou em pensão?

 

R – Ah, sempre morei em pensão.

 

P/1 – Ah, ta.

 

R – Eu tinha os amigos. Trocava constantemente porque muitos mudavam. Tive muitos bons amigos como o Delfino, que, aliás, não sei mais da vida dele, a família Delfino. Era de Jaú, mudou aqui pra São Paulo. Eram maravilhosos os filhos dele, também dentro daquele regime do meu pai também. Ele era muito bom, tanto é que quando eu saía aí se hospedava na casa dele lá em Jaú. E foi isso. A gente tinha uma turminha assim de passagem porque a gente, quem mora em pensão está sujeito àquele rodízio.

 

P/1 – Rotatividade, né? E como que era a diversão? O senhor ia nesse cabaré, o que mais que o senhor fazia? Como é que o senhor se divertia?

 

R – Ah, dançava baile, futebol, assistia muito futebol. Naquele tempo eu ganhava só porcaria por mês, viu?

 

P/1 – Sei.

 

R – A gente às vezes pegava o bonde da corrida pra não pagar 200 réis porque não tinha 200 réis pra... Eu cheguei a tomar chuva de onde é o Banespa atualmente, lá na Praça _____, onde é a Federação Paulista de Futebol, na Brigadeiro Luis Antônio, debaixo de tempestade porque não tinha 200 réis pra tomar o ônibus. A vida era dura, viu? Eu fui ter automóvel depois de casado muito tempo. Os meus filhos já completaram 18 anos, já tinham o seu automóvel.

 

P/1 – Então o senhor gostava de jogar futebol?

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – De dançar?

 

R – Era muito amigo do Leônidas, que por sinal ele está vivo ainda. De vez em quando nós almoçamos juntos, jantamos juntos. Conheci muito jogador de futebol, tinha amizade com eles. Comentarista, eu conheci também o Pedro Luis. Pedro Luis inclusive me deu uma carteira de repórter de campo. Eu entrava dentro do Pacaembu. Aquela mocidade. Sempre encontrei amigos, inimigos nunca encontrei ninguém.

 

P/1 – Que ótimo.

 

R – No banco era estimado por todos. Tanto é que hoje eu já não vou mais pra cidade. Eu ia pra cidade me encontrar com esse que era o meu contínuo, queriam que eu fosse almoçar com eles. Porque eu me especializei em imposto de renda. Renda mesmo assim ainda tem um alto funcionário do Banco do Brasil aposentado, mais um aposentado Sabesp, que não quer que outro faça a declaração de renda. Eles pegam o carro, vem em casa pra eu fazer.

 

P/1 – Até hoje?

 

R – Até hoje. Eram aquelas pessoas de idade. Então no meu tempo me tratavam como filho. Ganhava muitos presentes deles, sou sincero. Bom, eu não posso me queixar da minha vida.

 

P/1 – Bom, o senhor falou que praticava esporte. O senhor continuava jogando futebol mesmo aqui em São Paulo?

 

R – Ah, sim. Mas depois passei a jogar futebol lá na praia. Eu gosto de praia, tanto é que até hoje tenho uma casa lá na praia.

 

P/1 – Mas durante esse tempo que o senhor trabalhava aqui em São Paulo o senhor também jogava futebol?

 

R – Ah, jogava com a turma do banco. Jogamos muito futebol no Banespa, aí na Avenida Santo Amaro. Eu jogava pro banco.

 

P/1 – Sei.

 

R – E a gente divertia sempre pra chuchu.

 

P/1 – Era o time do banco mesmo?

 

R – Era o time do banco mesmo.

 

P/1 – Certo.

 

R – Tinha aqueles campeonatos. Até uma vez fomos suspensos porque levamos um pau com o Banco Noroeste. Terminei que eu saí correndo na Avenida, _______ correndo porque senão quebrava um pau desgraçado porque _____. Mas jogava contra outros bancos, era uma beleza, _______.

 

P/1 – E todo final de semana vocês iam jogar futebol então?

 

R – Jogava no sábado, no domingo.

 

P/1 – Ia treinar e depois tinham os campeonatos?

 

R – Não tinha treino não, já ia direto.

 

P/1 – Já ia direto.

 

R – Eu trabalhava no banco, você trabalhava bem sossegado assim, chegava o contador: “O senhor está prorrogado por duas horas”. O pior é que não ganhava nada ____. Então você não podia marcar nada, dentro daquele horário você não podia marcar nada. Namorar então...

 

P/1 – Também não podia?

 

R – Ah, não podia. Não podia porque não podia marcar encontro, nada. Foi uma vida meio puxada, mas divertida, viu?

 

P/1 – E vamos falar um pouco como que era a moda da época, senhor Orlando? Como é que vocês se vestiam na época, o que era?

 

R – A moda era terno e gravata. Então aqui no banco não se admitia trabalhar sem gravata, mesmo internamente, e chapéu.

 

P/1 – Ah, tinha a moda do chapéu?

 

R – É. Um par de galochas porque chovia, aquela garoa, e uma capa, aquelas capas de borracha que tinha antigamente. Hoje não, hoje tem umas capas modernas. Eram umas capas de borracha, você tinha que sempre levar ela junto. Você saía do banco estava aquela garoa. São Paulo hoje não tem garoa, São Paulo hoje acabou tudo isso. Mas tive uma mocidade muito boa também. Depois conheci, namorei muito.

 

P/1 – É?

 

R – Eu era namorador de primeira. Podia ter casado com moça riquíssima, dona de fazendas, mas não quis só porque ela atrasou no encontro comigo.

 

P/1 – Olha, o senhor era exigente.

 

R – Eu, até hoje. Eu vou, eu digo que vou chegar às oito horas, quando é dez pras oito eu estou lá. Não admito atraso. Hoje já não pode mais contar com isso por causa das condições, mas naquele tempo podia contar.  Mas eu namorei pra chuchu, namorei que não teve jeito.

 

P/1 – Conta um pouco pra gente como é que foi essa.

 

R – Ah, essa eu fiz.

 

P/1 – Eram namoros longos ou eram paqueras?

 

R – Não. Desde a infância eu tive namorada.

 

P/1 – Desde a infância?

 

R – É. Eu ia pra São Paulo e tudo mais. Um dia eu desci do trem na minha terra e minha tia falou: “Orlando, vem cá”, ela era minha madrinha também de batismo, “Vem cá. A sua namorada anda flertando com fulano aí, vieram me contar”. Então eu fiquei lá à noite e encontrei-a flertando com outro. Desmanchei na hora. Tanto é que ela casou com esse rapaz depois. E agora, namoros assim. Teve uma, Itapuí, namorei. Muito boa moça, mas o pai dela tinha uma raiva de mim porque eu era filho de pobre, por isso que eu acabei desmanchando também. Depois, futuramente, eu andei beliscando um ou outro, mas acabei conhecendo a Vilma. Por sinal os avós dela, os avós da Vilma eram amigos da minha mãe, tanto que tinha crochê feito pela minha mãe. Eu tenho a fotografia dos velhos, dos meus pais, tirado por ele quando casou, tirou. Em Ribeirão Bonito isso. Foi sempre bom. Namorava esses namorinhos assim, era comum. Isso não tinha...

 

P/1 – E nessa época, além, o senhor disse que ia ao cabaré, ia jogar futebol, mas o senhor frequentava lanchonete, tinha algum outro ponto de encontro?

 

R – Não, tinha. No Largo São Bento tinha um lugar que fazia uma, nós comíamos aperitivo lá, mas fazia umas linguiças fritas espetaculares. Tinha lá no Largo São Bento. Hoje já derrubaram o prédio.

 

P/1 – E o senhor ia com os amigos ou com as namoradas?

 

R – Sempre era a turma do banco.

 

P/1 – Sei.

 

R – Aquela turminha do banco. Ia muito ao Pinguim tomar chopes. O Pinguim era na Libero Badarò, você ________. Então nós íamos a turma tomar chopes à noite e nós pegávamos sempre a mesa perto do Anhangabaú, ficava olhando. Ficava nada, era porque a gente tinha aquelas bolachinhas pra marcar. De vez em quando a gente jogava uma fora.

 

P/1 – Pra pagar menos?

 

R – Pra pagar menos. A gente vivia tudo, um ordenado miserável por mês. Até que tirava suas casquinhas.

 

P/1 – E qual que foi seu primeiro namoro mais sério, seu Orlando?

 

R – Bom, o namoro mais sério foi dessa menina da minha terra.

 

P/1 – Sei.

 

R – Estava flertando com outro, eu acabei descobrindo.

 

P/1 – Ah, ta.

 

R – Acabei na hora, também não quis mais saber. Acabou, acabou. Esse foi o namoro mais sério. Depois o último namoro mais sério foi com essa aqui.

 

P/1 – É? Então conta um pouco como que o senhor conheceu sua esposa.

 

R – Minha esposa, eu fui morar na casa da Dona Silvia, uma mulher que tinha uma bela casa na Rua Dr. Pinto Ferraz, hoje é Madre Cabrini, e ela cedeu um quarto pra mim e pro Antônio, sobrinho daquela escritora colombina. Nós morávamos juntos. E no outro quarto morava o Antônio Guarnieri e o Tomás, moravam no outro quarto. E ela morava em frente. Esse Guarnieri dava em cima da minha mulher querendo namorar ela. Então eu apostei com ele meia dúzia de cerveja que eu tirava, ia namorar ela. Eu apostei com ele, ele perdeu e eu bebi a cerveja. Acabei casando. Foi o que aconteceu, que é o seguinte, os avós dela foram em cima dos avós...

 

P/1 – Do senhor.

 

R – É. Mas eles vieram me ver. Quando vieram da Itália foram tudo parar em Ribeirão Bonito e Brotas.

 

P/1 – Sei.

 

R – Eu conheci muito Brotas, ele vinha dançar lá na minha terra e às vezes tomava banho até em casa ____. Aí depois acabei conhecendo a Vilma dessa maneira.

 

P/1 – E as famílias já se conheciam?

 

R – Já se conheciam. Quando foram encontrar-se já se conheciam. Foi uma festa. E no mais acabei gostando dela, acabei casando.

 

P/1 – E deu tudo certo?

 

R – Deu tudo certo. E estou há 55 anos casado, não tenho nenhuma queixa dela.

 

P/1 – O senhor quer colocar como que foi esse tempo de casamento assim?

 

R – Ah, o casamento foi um casamento simples. Eu casei no Coração de Jesus, que ela queria casar lá, mas um casamento simples. Casei no Coração de Jesus fazendo a vontade dela. E tenho três filhos. O primeiro uma mulher, chama Maria Rita de Cássia. Depois o segundo filho é Orlando Leoni Júnior, que os pais são tudo já. E depois teve José Luis Leoni. Por sinal esse é ainda solteiro, está morando comigo, está com 40, mas comprou apartamento e tudo que vai casar.

 

P/1 – Netos?

 

R – Eu tive sete mulheres e um homem. Tenho atualmente quatro bisnetas morando no interior.

 

P/1 – Família grande.

 

R – Família grande.

 

P/1 – E vamos falar um pouco mais do dia do seu casamento. Como é que foi o dia do seu casamento, o senhor se lembra?

 

R – Eu saí da pensão e fui à Igreja. Ela morava na Dr. Pinto Ferraz.

 

P/1 – E não teve festa?

 

R – Não. Teve uma festinha interna lá, da família. Foi uma festinha, por sinal eu guardo boas recordações. Foi uma maravilha, viu?

 

P/2 – Veio toda a família?

 

R – Veio o meu pai, minhas irmãs vieram. Meus irmãos já era mais difíceis de sair da cidade, trabalho e tudo, né?

 

P/1 – E depois que o senhor se casou o senhor foi morar aonde? Como que era o cotidiano de casamento?

 

R – Depois do casamento eu fiquei morando onde ela morava. Tinha dois quartos, um era o meu _____. Naquela época, como o ordenado era pouco, eles me ajudaram muito. Eu também aprendi a fazer camisas. Então eu tinha uma clientela de camisas. Fazia colarinho, ganhava. Lá mesmo costurava e eu fui alfaiate _____. Depois fui melhorando. De lá eu fui morar no conjunto bancário lá em Santa Cruz. De lá eu fui morar na Rua São Gabriel, esquina com a Nove de Julho. Comprei lá a prestação. Depois acabei comprando esse onde eu moro atualmente, a prestação também.

 

P/1 – É um apartamento?

 

R – É um apartamento. Comprei um apartamento grande porque tinha a minha sogra, tinha as filhas, tinha os rapazes.

 

P/1 – Moravam todos com o senhor?

 

R – Moravam, lá na Santa Cruz moravam. Depois comprei esse daí com suíte, tal, tal. Hoje estou só eu, minha senhora e o meu filho que quase não para lá porque tem o escritório dele. Ele está noivo, sai todo dia. Não almoça em casa, só eu e minha senhora, minha companhia.

 

P/1 – A casa fica grande.

 

R – E espero morrer na companhia dela.

 

P/1 – E onde que é a casa, o apartamento do senhor atualmente?

 

R – Na Avenida Dr. Altino Arantes, a avenida que eu _____

 

P/1 – Certo. E como é que foi assim a experiência de ter o primeiro filho, como é que, o senhor ficou emocionado? Conta um pouco pra gente.

 

R – Foi... Sabe, a gente fica abobado, esse é o ____. A pessoa fica meio abobada. E nasceu a filha.

 

P/1 – A filha foi a primeira?

 

R – A primeira. Depois nasceu...

 

P/1 – Como é o nome?

 

R – Maria Rita.

 

P/1 – Sei.

 

R – Depois nasceu o segundo, que é o Júnior, Orlando Leoni Júnior. Depois de dez anos nasceu, 11 anos nasceu esse outro aí, José Luis Leoni.

 

P/1 – Então, e como que era? Assim, depois que o senhor se tornou pai o quê que mudou na sua vida. Assim, o senhor gostava de brincar com os filhos? Como é que foi?

 

R – Eu levava muito pra passear e eles estavam sempre comigo passeando. Aonde eu ia eles iam no carro. Depois fui melhorando a vida, comprei um carrinho e eu levava eles pra passear, depois levava. Durante esse tempo eu também, a minha filha casou, ficou só o que estava na faculdade e menor. Mas eu ia lá, eu viajava muito, fazia muita viagem. Tanto é que eu fui a Buenos Aires de carro.

 

P/1 – Com os filhos?

 

R – Com um deles, o mais novo. O resto já não queria. Agora, Rio Grande do Sul ia sempre os três. Botava dentro do carro e ia embora pra ____, pra todas aquelas cidades boas do Rio Grande do Sul a gente ia. Fui muito pro Paraná também, _______ carro pro Paraná, Santa Catarina. Pro Rio de Janeiro eu fui diversas vezes, de carro. Fui para, aí meus filhos já eram bem maiores, fui pra Araxá, Caldas Quentes. Eu conheço tudo ali, Ribeirão Preto, tudo, eu conheço tudo.

 

P/1 – O senhor viajava nas férias com os filhos?

 

R – Depois que eu me aposentei, nas férias sim.

 

P/1 – Quando eles eram crianças?

 

R – Ah, sim, sempre. Eu fui o segundo a ter a Volkswagen do Brasil. O meu filho ____ era pequeno, ele viajava atrás do banco assim.

 

P/1 – Hum, sei. E quais as brincadeiras assim que o senhor fazia com os seus filhos? O senhor levava pra passear onde? Quando o senhor não viajava o senhor ia passear onde, brincava do que com eles?

 

R – Ah, brincava de jogar bola. Inclusive tudo que era possível a gente fazia. Ia pescar, já levava os filhos pra aprender a pescar. E tudo que eles queriam eu comprava. Brinquedo eles tinham à vontade. Eu ia pra Foz do Iguaçu, via aqueles brinquedos estrangeiros, eu comprava aos montes pra eles. Eles escolhiam lá. Os meus filhos também não podem se queixar de mim não.

 

P/1 – O senhor foi um paizão então?

 

R – Ah, fui, procurei ser. Tanto é que essa minha neta que está aí com vocês, ela vive dentro da minha casa. Até o pessoal diz que eu sou o queridinho dela e ela é a minha queridinha.

 

P/1 – Me fala um pouco da sua vida profissional agora, senhor Orlando. O quê que levou o senhor a escolher a carreira de bancário? Como que foi, o quê que motivou o senhor? O senhor trabalhava antes como alfaiate. Como que foi essa passagem, essa mudança?

 

R – Foi uma passagem porque era um emprego melhor. Então fizeram, o (Taranjo Donateli?), por sinal Deus o tenha em bom lugar, arrumou pra eu ser contínuo no banco, entregar correspondência. E foi quando, depois, tinha uma família também, Leoni, em minha terra, tinha o Dr. Nelson Leoni, por sinal, que Deus o tenha, sofreu um desastre feio. O Nelson era muito amigo meu. Então ele me chamava de primo porque o pai dele e o meu pai nasceram na mesma cidade da Itália, _____, então me chamava de primo. Eu admirava muito ele. Então falava _____. Então ele me ensinou português. Eu tenho um irmão que tinha sido convidado pra ser professor de caligrafia do (The Fran?). Também esse me ensinou. Depois teve aquela felicidade de encontrar a família (Masson?), que o meu pai, o (Masson?) me ofereceu a máquina pra eu poder aprender a escrever.

 

P/1 – Mas então, teve alguma... O senhor disse que o salário era melhor, né? Então, teve uma pressão familiar ou foi uma opção sua?

 

R – Ah, não, não, foi uma pressão. O meu pai achava que eu devia melhorar. O meu pai sempre procurava melhorar os filhos. Eu acho que eu _____, não me arrependo não.

 

P/1- E quais que eram, quando o senhor começou a carreira de bancário quais que eram as suas expectativas?

 

R – Ah, melhorar. Ser auxiliar, depois de auxiliar passei pra contador e contador, no qual eu cheguei no banco de São Paulo.

 

P/1 – Daí o senhor se tornou contador então?

 

R – Do banco.

 

P/1 – Certo.

 

R – Da agência. Embora não seja formado, mas eles davam o título. Lá do banco em São Paulo eu saí em 39, que eu fui... Não, 39 não, 42 eu fui pra outro banco que estava abrindo aqui em São Paulo, o Banco ______, que por sinal já. No ______ eu trabalhei lá uns anos e depois ele fracassou. Quem comprou foi o Banco (Mercantil?) de São Paulo, um ______. Então eu fui convidado para ir trabalhar num outro banco. Mas o diretor do banco soube, perguntou se era verdade. Eu falei: “Não, eu fui convidado a ganhar quatro contos a mais”, quatro mil. Naquele tempo não tem ____. Então ele falou: “O senhor me espera até o fim do mês”. Chegou o fim do mês ele me pediu cinco mil ____ e me passou pro ______ e aí no _____ eu fiquei. Era muito estimado, desde a diretoria. Uma vez, quando eu pedi demissão o diretor (dono?) do banco mandou me chamar, não queria que eu saísse. Mas eu já estava cansado de banco, quarenta anos dentro de banco, queria sossegar. Foi quando me aposentei.

 

P/1 – Então o senhor trabalhou a maior parte do tempo num banco só, foi o Comind?

 

R – Foi o Comind.

 

P/1 – E do Banespa o senhor disse, o senhor jogava futebol no Banespa, mas o senhor não trabalhava no Banespa?

 

R – Não, eu jogava no campo do Banespa.

 

P/1 – Ah, ta. Então quer dizer que foi o banco que o senhor mais, praticamente a sua carreira foi no Comind?

 

R – No Comind.

 

P/1 – E o Comind não existe mais, outro comprou, como que foi?

 

R – Não existe. O Comind foi encampado por diversos bancos, o Bradesco, Mercantil.

 

P/1 – Hum hum. Bom, o senhor começou a trabalhar com quantos anos mesmo, que o senhor disse, no banco?

 

R – Em banco, 18 anos.

 

P/1 – Dezoito anos?

 

R – Quando eu completei 18 anos. Naquele tempo não aceitava menor de idade.

 

P/1 – E antes o senhor trabalhou como alfaiate?

 

R – Como alfaiate.

 

P/1 – Com quantos anos? Qual que foi o...

 

R – Como alfaiate eu trabalhei dos 12, mais ou menos, há 18 anos, seis anos.

 

P/1 – E como que era esse primeiro trabalho, senhor Orlando? Era lá em Bariri numa alfaiataria de quem?

 

R – Primeiro foi do Aguiar, Vitor Aguiar. De lá eu fui pra ______. Lá foi quando eu saí. Por sinal dois patrões maravilhosos. Vitor Aguiar também era daqueles que os filhos, tanto é que o filho dele chegou, se não me engano, diretor do Mackenzie, o Ciro.  E esse filho veio morar aqui em São Paulo justamente na época que eu estava morando numa pensão. Então eu vivia na casa dele, mantive a amizade a mesma coisa.

 

P/1 – E o senhor lembra-se do seu primeiro dia de trabalho como alfaiate? Como que foi?

 

R – Foi que minha mãe me levou lá. Ela combinou lá com o alfaiate pra poder não me deixar viver na rua. Aí eu arranjei na brincadeira, na rua.

 

P/1 – Já começava a trabalhar desde criança?

 

R – Já desde aquele tempo. E nada de ficar com o dinheiro, tinha que prestar conta do que ganhava livre. Naquela época, teve uma época que o meu irmão trabalhava e ajudava a sustentar a casa e ele se machucou e não podia ficar, não estava trabalhando. Então eu trabalhava dia e noite na alfaiataria fazendo calça. Cheguei a ganhar 500 mil réis por mês. Era dinheiro que ______.

 

P/1 – Então o quê que o senhor fazia? Conta um pouco pra gente o que o senhor fazia lá na alfaiataria.

 

R – Na alfaiataria eu fiz desde saia, tailleur de mulher, batina de padre, farda de militar e calça e paletó e (cometa?). Isso fiz também. Eu aprendi tudo.

 

P/1 – O senhor aprendeu lá mesmo?

 

R – Ah, lá mesmo na alfaiataria. Ele se firmou, ele era um homem maravilhoso. O italiano entendia mesmo das coisas e me ensinou tudo.

 

P/1 – Que bacana, né?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor ia como até o emprego, da sua casa até o emprego?

 

R – A pé, era perto.

 

P/1 – Era perto?

 

R – É.

 

P/1 – O senhor ia sozinho?

 

R – Ah, sozinho. A gente não tinha aquela maldade nada lá não. Não tinha medo de nada. Só passei medo uma vez. Quando eu era garoto, ia pra escola, tal. Ia de manhã e voltava. Eu já estava morando quando teve a enchente lá, inundou minha casa. E eu, um dia tive uma festa lá na minha terra, que é festa de São João, e eu fiquei na cidade e depois não tinha jeito de ir pra casa sozinho. Eu peguei e falei: “Vou ter que ir embora”. Peguei e fui. Quando passei lá na encruzilhada lá, tinham matado um fulano lá e diziam que lá apareciam uns porcos vivos que era a alma dele. A gente já passava meio... Aí vou passando, me passa dois porcos. Eu falei assim, eu saí feito louco. Cheguei em casa, se demorava cinco minutos eu demorei meio minuto. No dia seguinte, na hora de ir pra escola o meu pai: “Você não vai pra escola?” “Não, só se o senhor me levar até lá”. Quando nós vamos passando lá _____ ela falando então: “Porco ____. Eu quero saber quem foi os bandidos que me soltou todos os porcos ontem à noite”. Fui ver o que era o espírito.

 

P/1 – Inventavam história que os porquinhos.

 

R – Diziam que eram os porquinhos. Certamente de dia tinham soltado os porquinhos _____ e ele passou na minha frente.

 

P/1 – Mas o senhor, quando foi trabalhar de alfaiate o senhor já tinha terminado de estudar?

 

R – Não.

 

P/1 – Então o senhor ia à escola...

 

R – Ia à escola.

 

P/1 – E depois ia trabalhar. Então o senhor trabalhava só à tarde, é isso?

 

R – É isso. Aprendi a chulear primeiramente, depois fui pregar botão, fui aprendendo.

 

P/1 – E depois que o senhor parou de estudar o senhor continuou trabalhando na alfaiataria um tempinho ainda?

 

R – Ah, sim, trabalhei até 18 anos.

 

P/1 – Certo. Daí o senhor trabalhava o dia todo então, depois?

 

R – Aí trabalhava o dia todo.

 

P/1 – E o senhor almoçava onde?

 

R – Almoçava em casa.

 

P/1 – Em casa mesmo?

 

R – Ah, sim. Isso era sagrado. Minha mãe fazia questão que eu fosse almoçar.

 

P/1 – O senhor começava a trabalhar, qual que era o horário do trabalho?

 

R – Eu não tinha horário. Geralmente a gente chegava, ia oito horas pra alfaiataria, saía de lá 11 horas pra almoçar, quando era meio dia, meio dia e pouco já estava de volta.

 

P/1 – Horário comercial?

 

R – Horário comercial.

 

P/1 – Ta. Bom, e o senhor lembra do primeiro salário? Como que foi, o que o senhor fez com ele? O senhor ficou contente, como que foi?

 

R – O primeiro salário que eu recebi, ficava contente com esse salário, mas ficava mais contente porque eu dava na mão da minha mãe, da minha mãe até quando, depois, ela faleceu. Então era o meu pai, dava na mão do meu pai. Quando eu queria ir ao cinema ele pegava e me dava o dinheiro. Ele já ia lá, comprava a entrada e já deixava no bilheteiro pra eu entrar. O meu salário foi sempre controlado, tanto é que eu tenho um controle medonho hoje. Meus filhos falam: “Você ____” “Tem que ser”.

 

P/1 – O senhor não tinha mesada, nada?

 

R – Não, que mesada? Mesada era a mesa na cabeça se não andasse direito.

 

P/1 – Então trabalhava pra ajudar a família?

 

R – Ah, sim, tinha que ajudar em casa, não tinha conversa não.

 

P/1 – Certo. Mas se o senhor queria ir ao cinema, se divertir, liberava o dinheiro.

 

R – Liberava.

 

P/1 – Ta. E, bom, o senhor disse que começou a trabalhar com 12 anos na alfaiataria.

 

R – Na alfaiataria.

 

P/1 – Foi até os 18, né? O senhor já conhecia os donos da alfaiataria antes de começar a trabalhar?

 

R – Não, conhecer eu conhecia porque a cidade é pequena, se conhece todo mundo.

 

P/1 – Sei.

 

R – Eu já conhecia.

 

P/1 – E era um estabelecimento comercial mesmo?

 

R – Ah, sim, o dele era __________ grande, inclusive vendia materiais. Eu aprendi muito com isso.

 

P/1 – Que material que vendia?

 

R – As casimiras, botões.

 

P/1 – Ah, ta. Vendia tecido.

 

R – Tudo que era de alfaiate ele vendia.

 

P/1 – Os acessórios. E como que foi a sua primeira impressão assim da empresa, quando o senhor chegou lá, da alfaiataria? O que o senhor sentiu?

 

R – Ah, sabe que ele era muito bom, o senhor _____ era um homem espetacular _________.

 

P/1 – O senhor se sentiu bem de chegar lá?

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – Mesmo...

 

R – Você tinha lá a Casa Leoni, que era aquele, como eu disse anteriormente, ele tinha uma loja espetacular, loja grande mesmo. Eu chegava lá, tinha um tal de Antônio Leoni, me dava muito com ele também. Então ele: “Vai lá e escolha lá. Escolha do seu gosto e depois...” Se eu quisesse roubar eu roubava, mas não tinha jeito de ser ladrão. Escondia na meia, depois que estava lá _____ pra ele e pronto. Pra ver como é que era a confiança.

 

P/1 – A sua função, então, na alfaiataria, o senhor começou como auxiliar.

 

R – Não, é, auxiliar, né, aprendiz.

 

P/1 – E depois o senhor se tornou um profissional?

 

R – Exatamente. Mas depois abandonei, quando eu fui pro banco.

 

P/1 – Quanto tempo que o senhor ficou de auxiliar?

 

R – Ah, ali a gente acaba aprendendo tudo, né? A gente já vai aprendendo tudo, passar roupa, fazer tudo. Eu acho que não tem tempo marcado.

 

P/1 – Não dá pra definir isso?

 

R – Não dá pra definir.

 

P/1 – Certo. Bom, a gente já está encaminhando pro final, senhor Orlando. Vamos, assim, se o senhor pudesse, tivesse que mudar alguma coisa na sua vida, na trajetória da sua vida, o quê que o senhor mudaria?

 

R – Procurava, se pudesse procurava estudar.

 

P/1 – Estudar mais. O senhor gostaria de estudar o que?

 

R – Infelizmente... Ah, contador. Infelizmente, quando eu vim pra São Paulo só tinha Álvares Penteado, cobrava 130 mil réis, naquele tempo, pra estudar. Eu morava em pensão, ganhava 250, como que eu ia? Pagava 150 de pensão, não podia estudar. Então... Agora, a única coisa que eu fazia era ler. Machado de Assis tem 31 volumes, li duas vezes de ponta a ponta.

 

P/1 – Olha.

 

R – Eu lia mesmo, gostava. E outros livros, José de Alencar ____.

 

P/1 – O senhor comprava os livros?

 

R – Não. No Banco de São Paulo tinha uma biblioteca espetacular e a gente, de manhã a gente entrava ____ no banco por causa do horário. A gente ia lá, ficava lendo lá. A biblioteca era no próprio prédio, ficava estudando. Depois, mais tarde, no Comind eu fui auxiliar de contador, no Comind. Depois fui pra gerência lá porque eles quiseram implantar o Imposto de Renda. Então eu fui. Era aquela união. Eu conheci até o Delfim Neto, o pessoal. A minha vida foi maravilhosa, não tenho o que reclamar não.

 

P/1 – Certo, mudaria pouca coisa então.

 

R – Ah, pouca coisa.

 

P/1 – Acrescentaria o estudo, né?

 

R – É, o estudo era mais.

 

P/1 – E, assim, ao longo da sua vida o quê que o senhor poderia dizer que foram as lições que o senhor tirou?

 

R – Lições?

 

P/1 – O que o senhor, assim, passaria como mensagem pras pessoas ao longo do que o senhor aprendeu ao longo da sua vida?

 

R – Eu aprendi uma coisa muito grande, respeitar o ser humano, e eu respeito. Respeito mesmo, bastante, principalmente pessoas idosas. Hoje sou idoso, eu sei a dificuldade deles, que eles têm na vida. Então eu mudaria só, minha vida não tem nada a mudar, sinceramente.

 

P/1 – Uma mensagem, assim, do senhor pra deixar pras pessoas.

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – O quê que o senhor gostaria de deixar como mensagem?

 

R – Ser honesto e trabalhador, foi o que meu pai me ensinou.

 

P/1 – É o mais importante?

 

R – É. Procuro estudar o máximo possível porque hoje o homem sem estudo não é nada, nada, nada, nada. E eu, dentro da organização do banco, aprendi muita coisa. Discutia leis com o pessoal e não era formado. Até um advogado falou: “Mas como? Você discute leis, você não é advogado” “Não, aprendi lendo”, falei pra ele.

 

P/1 – O senhor estudava de alguma forma.

 

R – É, ficava lendo. Aí ele, o advogado, pegou comigo no negócio. No fim eu dei o cartãozinho, falei: “Vai lá no Ministério do Imposto de Renda e procura o fiscal fulano de tal, fala que é o _____”. E foi lá e fez. O fiscal falou pra ele: “O quê que o seu Leoni falou?”, ele me chamava de seu Leoni. “Não, ele disse isso e isso” “Então, é isso que eu vou falar pra você”. Agora, este advogado teve uma humildade fora de série. Ele voltou da Secretaria da Fazenda, estendeu a mão: “Leoni, você estava certo. Desculpe”. Eu aprendi essas coisas que eu te disse, ser honesto e trabalhador. Com essa mocidade, ser honesto e trabalhador vocês não perdem nada ___. É tão gostoso você entrar num lugar, ficar de cabeça erguida do que esconder a cabeça.

 

P/1 – É verdade.

 

R – É o que eu passo pros meus filhos hoje. Trabalho. Tem o mais velho, a moça é aposentada atualmente do Banco do Brasil. Formou-se também. Naquele tempo era professora que tinha. O outro é engenheiro civil formado pela USP. O outro é formado contador e administrador de empresas. Tem seu escritório, namora uma moça espetacular, graças ao bom Deus. Agora vão se casar. Estão esperando entregar o apartamento. Mas não tem... Minha filha maior mora no interior. E esse, o Júnior é o pai da Natália, muito bom rapaz. Graças a Deus não tem o que mudar.

 

P/1 – O senhor se considera um homem realizado?

 

R – Ah, sim. Só lamento, se eu voltar pra mocidade, se eu voltasse eu ia estudar, estudar o máximo possível. Essa é a mensagem que eu passo pra mocidade. Que esse negócio de coca, essas coisas, isso aí é perdição. O sujeito vicia, acabou.

 

P/1 – Com certeza.

 

R – Não tem mais, acaba tudo. Acaba com a pessoa. Eu perdi amigos por causa disso aí, e não foi por falta de conselho. Aconselhei. Que diz que conselho se dá com vontade, recebe quem quer. Perdi grandes amigos. Esse negócio de, uma coisa que eu nunca, a turminha dizer: “Ah, você não é homem”. Eu prefiro não ser homem do que ficar perdido pro resto da vida. Não fumo, não bebo. Bebia socialmente, isso eu bebia mesmo. A gente lá na praia, a gente se não toma uma caipirinha não fica sossegado. Mas isso...

 

P/1 – Certo. Senhor Orlando, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Eu achei ótimo porque a gente muita coisa passou já na vida.

 

P/1 – Bom, a gente vai finalizar. O que o senhor achou de ter participado dessa entrevista, ter contado a sua vida?

 

R – Eu achei ótimo porque, além da minha vida, eu procurei dar bons conselhos pra quem quer. Obviamente conselho segue quem quer. Não tem mais nada que eu possa dizer assim.

 

P/1 – Foi importante pro senhor ter dado esse depoimento?

 

R – Ah, foi.

 

P/1 – O senhor se sentiu bem?

 

R – Oh, otimamente bem. Graças a Deus eu me sinto feliz.

 

P/1 – Deixar sua história aí gravada pras pessoas, né?

 

R – Daqui muitos anos a gente, a mocidade ali vai ser já idoso, vai falar: “Ele tinha razão”.

 

P/1 – Senhor Orlando, então o Museu da Pessoa, nós em nome do Museu da Pessoa agradecemos imensamente pelo seu depoimento.

 

R – Eu espero que tenham ficado satisfeitos.

 

P/1 – Obrigada, muito satisfeitas.

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