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História

Você é o seu único limite

História de: Natália Evelyn dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2022

Sinopse

Natália Evelyn dos Santos nasceu em Barra Bonita, São Paulo, em 1988, com artrogripose, uma síndrome rara caracterizada por múltiplas contraturas articulares. Fez várias cirurgias na infância, desacreditada pelos médicos que não poderia andar devido a sua deficiência, depois de muito esforço e ajuda dos seus pais, conseguiu começar a andar aos 6 anos. Sofreu preconceitos durante toda a vida devido a sua condição, mas com muito apoio psicológico adquiriu confiança para encarar os desafios. Casou-se com Wiliam e teve dois filhos, uma menina, Vitória,  e Davi, um menino com hidrocefalia e autismo. Começou a fazer lettering com a boca por hobby, o que depois se tornou sua profissão e sustento.

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História completa

Eu tenho uma deficiência chamada artrogripose, ela limita os membros superiorese os membros inferiores, então eu não tenho movimento nas mãos e tenho poucosmovimentos nas pernas. Tenho dezessete cirurgias por todo o corpo, desde bebezi-nha, para melhorar. Então foi muita fisioterapia, hidroterapia, comecei a andar comandador, para depois conseguir andar sem o apoio dele, com muita ajuda dos meuspais. Hoje eu me locomovo, ando tudo certinho, mas demorei, comecei a andar comquase seis anos de idade, e os médicos diziam que eu não iria andar.

Passei por muito preconceito para conseguir estudar em uma escola pública. Meuspais tiveram que brigar na justiça para que isso acontecesse, mas, depois de matri-culada, me senti normal, igual aos outros. Eu tinha meus amiguinhos, dava até brigaporque todos queriam ficar do meu lado, nunca me excluíram depois disso, sempreme incluíram em tudo.

Eu queria ser professora quando crescesse, mas o meu maior desejo era ser inde-pendente. Apesar das minhas limitações, não gostava de depender de ninguém, e euqueria fazer as coisas sozinha.

Conheci o meu esposo na minha adolescência, eu falo que o meu pai foi o nossocupido. Ele trabalhava com o meu pai, que chegava em casa, comentava dele, chegava lá na oficina que eles trabalhavam e comentava de mim. Começamos a namo-rar e pessoas próximas chegavam para ele e diziam que ele tinha que arrumar outra namorada, que fosse normal, porque se ele ficasse comigo teria que cuidar de mim,teria que fazer as coisas da casa. Só que desde pequena fui muito bem preparadapsicologicamente para evitar constrangimentos futuros. Hoje conto isso porque faz parte da minha história, mas não é algo que me machuca.

Estamos indo para doze anos de casados, ele é uma pessoa que me apoia muito emtudo, se alguém virar e falar você não consegue fazer isso, ele fala: “Você consegue”.

No começo do nosso casamento, era o Willian que fazia tudo. Ele me ajudava a to-mar banho, fazia comida, lavava roupa. Daí uma época eu falei, espera aí, agora queestamos morando na nossa casa também quero fazer as coisas, quero aprender,porque quando eu morava com a minha mãe ela não me deixava fazer nada.Minha primeira profissão registrada foi na transportadora Risso, eu trabalhei porquatro anos lá, depois ganhei minha menina, voltei a trabalhar, mas não aguentei, euqueria ficar com ela e acabei pedindo a conta. Depois que Davi, o meu segundo filho,nasceu, com hidrocefalia, voltei a trabalhar na Risso por mais um ano e sete mesescomo auxiliar de escritório, mas por ele ser especial, ele vivia doente e novamentesaí. Em março de 2020 ele passou mal, descobriram que estava com a válvula entupida pela terceira vez.  

Foi tudo de uma vez né, nem tínhamos nos recuperado do susto da cirurgia deemergência do Davi e entramos em pandemia, crianças em casa, toda aquela si-tuação de que a gente não sabe o que vai acontecer amanhã, e eu mexendo no ce-lular, vi uma imagem de uma moça que tinha feito umlettering. Eu escrevo com aboca, e eu sempre gostei de escrever na época de escola as capas de trabalho, eugostava de enfeitar as coisas, e me chamou a atenção aquele desenho de letras,que é olettering. Comecei a fazer como uma terapia para mim, um refúgio naquelemomento de pandemia.Comecei oletteringcomo umhobby, conforme eu ia postando nas minhas redessociais, eu postava no Facebook e Instagram, o pessoal começou a perguntar, “quelindo, é você que faz? Como você faz?”. Daí comecei a gravar, porque o pessoal nãoacreditava que era eu quem fazia. Comecei a gravar vídeos desde o início, fazendocom o lápis, finalizando com a caneta e escrevendo com a boca, e nesses vídeos aspessoas começaram a perguntar valor, como que faziam para comprar.

Eu fui absurdamente reconhecida por marcas de canetas, por marcas de cadernos,por papelarias. Tenho várias parcerias, sou embaixadora de uma marca de caneta.Hoje é a minha profissão e é uma das minhas fontes de renda. Meus quadros fo-ram para fora do país, eu fico muito feliz em falar disso, porque eles chegaram naIrlanda, no Japão e nos Estados Unidos, já fiz encomenda para esses três países epro Brasil todo.Eu nunca me imaginei trabalhando com a minha letra, que viraria uma profissão usara minha letra, e hoje eu me encontrei, eu já não me vejo fazendo outra coisa.Espero que minha história seja motivadora para todas as pessoas, que as ajudemquando estiverem desanimadas, quando estiverem querendo desistir. Tem uma fra-se que levo para minha vida que é: “Você é seu único limite”, e acredito nisso, que agente precisa depender somente de nós e não das outras pessoas.

 


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