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História de: Tânia André Lisboa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

A entrevista aborda o início do trabalho de Tânia André Lisboa na Petrobras e seu trabalho de 20 anos como sindicalista, fortemente voltada para defender os direitos dos trabalhadores da Petrobras.

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História completa

P/1 – Então, gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.


R – É Tânia André Lisboa. Nasci no Rio de Janeiro no dia 27 de setembro [ou novembro] de 1950.


P/1 – E quando você entrou na Petrobrás, Tânia?


R – Entrei na Petrobras no dia 03 de Março de 1979.


P/1 – Entrou pra que função?


R – Pra auxiliar de escritório, trabalhar no antigo Detran que já não tem mais dentro da Petrobras. 


P/1 – E sempre ficou como auxiliar de escritório? Como foi sua carreira?


R – Não, foi passando o tempo fui promovida à ajudante. Depois assistente e encerrei minha carreira no último nível de assistente, em 13 de Março, não, 13 de Fevereiro de 2003.


P/1 – Em que área você estava?


R – Aí já tinha voltado pro Edise [Edifício Sede da Petrobras], eu estava na área financeira, em 1981 eu fui pra Fronape, Frota Nacional de Petroleiros, que eu morava em Realengo e via aquele ônibus passar e nem sabia que Frota Nacional de Petroleiros era Petrobras, e ela surgiu na frente da Petrobras, ela é primeira. E por conta da condução, de auxiliava, né, me transferi pra Fronape, onde eu trabalhei lá na área de manutenção de navios. Chegamos a ter lá cerca de 79 navios, agora nem sei se tem 20. Depois fui pra área de compras, trabalhei na área de compras também, trabalhei na área financeira e trabalhei, isso na Fronape, né, na área, também, pessoal. Agora, o que eu tenho orgulho de dizer é que todas essas minhas transferências fui eu que quis, nunca saí por pressão, eu que quis mesmo me transferir porque eu gosto de estar mudando, mas aí em 1997, eu me transferi pro Edise de volta, aí fui pro financeiro no Edise, onde eu terminei.


P/1 – E quando você se interessou pelas questões dos trabalhadores?


R – Desde sempre. Desde muito nova, desde 1968 eu já estava aí, na briga, saindo naqueles nossos embate aí de rua, então sempre fui envolvida. Meu pai era comunista e vivia nesse meio, então eu vivi desde que nasci, é o meu meio, só que eu nunca fui pro lado partidário, eu só gosto da política trabalhista, da política sindical, não me envolvi com outro tipo de política. Claro, evidente, sempre dei apoio ao PT [Partido dos Trabalhadores], tá, trabalhei pra eles, sempre trabalho, quando eu vejo um candidato que me interessa me envolvo sem custo nenhum pra eles, de graça, pensando sempre no que ele venha trazer, não só pra mim, como para a sociedade como um todo.


P/1 – E quando você procurou o Sindipetro [Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro] ou o Sindipetro te procurou pra filiação, como é que foi?


R – Não, eu sempre me filiei. Sempre fui filiada ao Sindicato. Em qualquer órgão que eu participei sempre me filiei ao sindicato, sempre fui participativa. Nunca estive dentro do sindicato, em contrapartida entrei em 1999 e não saí até hoje [risos]. Estou na quarta gestão como diretora do Sindipetro RJ. Entrei por um deslize, não sabia nem que tinham colocado meu nome pra direção e acabei ficando.


P/1 – E quando, antes, logo no começo quando você não era da diretoria, como era a relação sua com os diretores, tinha alguma relação? Como é que era?


R – Direta, sempre fiz parte de grupo de base, de CIPA [Comissão Interna de Prevenção de Acidente], sempre participando. Todo movimento que envolvia o trabalhador eu estava presente, isso eu tenho certeza, com fotos inclusive, se tiver necessidade, como comprovar. Na minha ficha mesmo, da empresa, se pouco você vai ver ou licença médica muito nada, falta acho que quase nenhuma, mas todas as greves presente.


P/1 – E você notou alguma mudança, assim, com alguma diretoria do Sindipetro?


R – A mudança na direção acho que veio através do tempo, porque a coisa política, principalmente sindical, mudou totalmente. Não é mais o que era antigamente, embora a gente tinha uma repressão muito maior, mas eu não sei se a favor de quem está hoje no poder. Eram nossos parceiros, tá, a coisa ficou mais difícil pra gente. A gente tem parceiros que a gente andava de braços dados e que hoje a gente passou a ser inimigo, porque o pensamento da empresa nem sempre é o nosso, embora a gente fecharia com ela a todo momento que ela tivesse  pensando em favor do trabalhador, isso eu tenho certeza.


P/1 – E como foi que você foi chamada pra participar da diretoria, da eleição, como é que se deu isso?


R – Foi numa convenção que teve com a FUP [Federação Única dos Petroleiros], com a CUT [Central Única dos Trabalhadores], aliás, desculpa. A CUT fez uma, pra fazer aquele tipo de parceria que: “Ah, junta um grupo aqui, junta um grupo ali.”, talvez pra não deixar pra terceiro pegar. E eu fui pra dar apoio, pra votar mesmo no grupo. E nesse meio, acho que estava faltando gente: “‘Bota’ teu nome aqui pra ajudar porque a gente vai fazer um jogo de cintura, não vão ficar todos”, e eu fiquei, em 1999. Foi a minha primeira gestão. Nessa época, inclusive, eu ainda era da ativa, fui coordenadora do aposentado, e eu acho que foi o, não trazendo pra mim, porque o mérito não é meu com certeza absoluta. Nós tínhamos uma comissão de aposentados muito boa, com o Edir, com a Alcir, e que nós fizemos até agora. Dos últimos movimentos os melhores e mais fortes em relação ao aposentado, que foi em 2001. 


P/1 – E o que a diretoria buscava fazer, qual era a meta?


R – Na época a gente estava com, é, embate com o novo plano, tá, Plano Petros [Plano de aposentadoria da Fundação Petrobras de Seguridade Social], a mudança no Plano Petros, tá, que hoje por sinal a gente tem uma cartilha feita pelo Paulo César que foi uma cartilha, pra mim foi a melhor que nós já tivemos, não tem outra pra substituí-la. Mas que hoje, quem foi o autor, não lê mais a cartilha porque é da direção, faz parte da direção, então acha que quem está dentro da direção tem que pensar, direção que eu digo, dentro da empresa, tem que pensar junto com ela. Então o pensamento dele mudou, mas naquela época fizemos juntos, pra mim, até agora nos últimos anos o melhor movimento em termos de aposentado, tá? De botarmos mais de mil praticamente, constantemente na porta da Petros ou onde nós estivermos.


P/1 – E essa cartilha, como é que se distribuía?


R – É, distribuía, se eu soubesse o assunto teria até trazido porque é uma das que eu guardo com maior carinho, porque está bem elaborada, tá? 


P/1 – E qual foi o melhor momento que você viveu no sindicato?


R – Ó, eu acho que nem foi o melhor momento como diretor, foi na época que eu não era ainda direção. Quando em 1990, 1995, 1992, 1993, foram os momentos de realmente que a gente estava reunido, é, os petroleiros pensando numa linha só e executando. A gente não precisava de muita reunião, porque sabíamos qual é, o que iria acontecer, então a gente estava bem junto e não tínhamos essa informação que temos hoje através da internet e no entanto, a gente estava muito mais unido do que hoje, com todo esse tipo de informação. Talvez a política mesmo, a mudança fez com que a gente mudasse, a gente não tem essa união de pensamento como tínhamos antigamente.


P/1 – E quais eram os desafios daquela época?


R – É, como sempre o salário, né, os direitos, que muitos deles já foram vendidos, tá, porque quando oferece e talvez as pessoas sem conhecer. Quando eles oferecem um dinheiro em troca desse direito eles descem e esquecem que o direito não é seu, é do outro que vai vir. Como hoje temos novos sem determinados direitos que nós temos, né, e o direito não é meu, é do cidadão, então ele não pode deixar de existir. Então era um dos maiores embates eram os direitos que estavam sendo vendidos, alguns no Rio de Janeiro nós conseguimos. O (AVP?) nós conseguimos _________________ mas em outros estados não e assim foi indo, né, a coisa foi mudando muito, até mesmo a situação da empresa hoje é outra, acredito que se a gente botar na balança não é uma empresa brasileira mais.


P/1 – E quais eram os meios de luta, assim, como é que vocês se organizavam?


R – É, o comunicador nosso era o telefone, não tinha outro, era o telefone. Email não existia em 1992, hoje nem me lembro mais, mas a maior comunicação que a gente tinha era o telefone mesmo e quem, o problema, a vantagem nossa no Rio de Janeiro é porque a sede é aqui, então a locomoção da gente era da sua casa pra aqui, pro centro. O pessoal de fora é que sofria um pouco mais, porque precisa de dinheiro pra estar se locomovendo, né, mas na realidade era o telefone. Pelo menos era o que eu fazia, principalmente quando a greve estava forte fora do Rio de Janeiro, sempre me posicionei a favor de quem estava fazendo a greve, mesmo que eu fosse a única do órgão a fazer a greve. Isso aconteceu inúmeras vezes, porque se tivesse uma ____________ parado, uma Paulínia parada ou quem quer que fosse, eu estava parada também, mesmo que fosse só eu.


P/1 – Você falou em greve, qual greve mais lhe marcou?


R – A 1995, a 1995 marcou bastante. Tiveram várias, mas a de 1995 marcou bastante.


P/1 – Por quê?


R – Eu não sei se o poder de luta estava maior ou a gente estava tão unido, a gente estava bastante inflamado, embora não saiu do jeito que a gente queria, mas 1995 foi bastante importante pra mim.


P/1 – Você lembra de alguma coisa específica, assim, que aconteceu naquela greve que te marcou muito?


R – Eu queria resgatar uma música que a gente tinha que eu gostaria até de colocá-la no nosso aniversário de 50 anos, mas ainda não consegui. A música é bem interessante, estava começando o hip-hop, mais ou menos, e a gente pegou a música, o próprio autor fez uma letra pra gente, e a gente bancou aquela o tempo todo e ela ficou marcada, é como se fosse o nosso hino.


P/1 – Sabe cantar, sabe reproduzir?


R – Não, não sei [risos]. Eu vou conseguir isso de volta que isso marcou bastante, pelo menos pra mim.


P/1 – E você ficou satisfeita com o que se conquistou naquele ano?


R – Não, nós até não conquistamos. Nós ficamos no embate, houve uma assinatura que depois voltaram atrás, tá, na época, se eu não me engano, do Vassourinha, como é o nome dele? O Presidente Vassourinha.


P/2 - Jânio Quadros?


R – Oi, não, Jânio não, eu tô  até confundindo, é o Topetinho, não é o Vassourinha não, é o do topete.


P/1 – Itamar?


R – É, é, que o Ciro voltou atrás, aquela confusão toda, uma coisa que já estava assinada deixou de ser e aí ficou marcado por conta disso. Mas a nossa luta foi muito bonita naquela época, muito bonita mesmo.


P/1 – E qual foi a maior conquista, assim, que você viveu nesses anos? Se 1995 não foi uma, não teve grande conquista qual foi a maior que você viveu, assim, dentro do sindicato?


R – É, como atuante, era a facilidade que eu tenho, embora sempre trabalhei na ponta, sempre trabalhei direto com a direção ou com, não sei porque eles me davam essa liberdade de trabalhar com eles, não sofri repressão nenhuma, tá. Fiz brincadeira que eu acho que eu extrapolei, porque até pegar aqueles babadores de avião pra colar neles quando entrasse, isso sem excluir ninguém, fosse quem fosse, superintendente ia levar um babador lá pra dentro. Então houve críticas até de colegas por conta disso, houve uma época que o superintendente cercou uma grade, porque era grade, eles tinham que passar pela grade pra ir almoçar e ali eu sozinha fazia a baderna, aí ele cercou a grade, o Albano, pra que eu não visse eles passarem. Foi pior, porque eu escrevi onde estava cercada [risos]. Então assim eu vivia, ali dentro com tudo isso eu acho que a maior coisa que eu tenho mesmo em relação à empresa é a confiança, tá, isso eu sei, tenho certeza que eu adquiri e é uma herança que eu levo, tá? Eu sinto orgulho em dizer pra todos, todos que eu trabalhei, sem exceção, tá, de chefe, todos eles confiavam em mim, então é uma das vantagens que eu estou levando, trouxe e espero não perder com o movimento sindical, que às vezes você perde isso, né, porque o próprio amigo teu, o colega, duvida daquilo que você está dizendo. E eu só conheci o sindicato, porque até então eu andava junto com eles, viajava com eles e não conhecia o que era o sindicato. É totalmente diferente daquilo que a gente conta lá fora e pensa que é, totalmente diferente. Eu vejo amigos que hoje são inimigos, tá, amigos mesmo. Eu mesmo tenho um amigo, que só não deixou de ser meu amigo, mas a gente passou a pensar totalmente diferente. Era quem eu, eu tenho uma vantagem que eu tô  dizendo da confiança, ele já é antigo, ele agora perdeu a direção pra gente, mas eu dizia ao pessoal, que onde tiver o nome dele pode votar, que tá valendo a pena, quer dizer, era uma pessoa só mas que pra mim fazia o peso dentro da direção, e com isso eu ganhava muito votos, tá. Porque as pessoas confiavam em mim e diziam: “Ah, a Tânia tá mandando votar”, e era aquilo que eu dizia. Só que quando você entra, você vê que a coisa é diferente, tá, a troca de favores existe até dentro do sindicato, como é no parlamento aí, é igualzinho, não tem diferença, tá, ainda mais quando se tem grupos diferentes. E é o que está acontecendo com o sindicato hoje em dia, nós temos três grupos diferente lá dentro. Os independentes do qual eu pertenço, tem o pessoal que é mais arraigado à política direta, porque nosso grupo nós não fazemos parte de política partidária, ajudamos, mas não fazemos parte direta, e tem o pessoal do PSTU [Partida Socialista dos Trabalhadores Unificado] também. Então quer dizer que, é válido, tá, acho que é válido porque a diferença é válida, até mesmo pra construir, tá, mas já pra decisão é um pouco mais difícil.


P/1 – E quando se deu essa divisão, assim, dentro do sindicato?


R – Nessa direção. Aliás, a divisão sempre houve. Sempre houve aqueles ligados a partido e sempre houve os independentes, tá? A gente sempre veio junto, só que dessa vez, agora a gente brigou pra que tivesse um espaço pra eles também, tá, que eu acho que é válido. Não são a maioria, como nós também não somos lá dentro, somos a minoria, tanto eles quanto nós, nos dois juntos não damos a maioria, quer dizer, aí fica a disputa.


P/1 – E como era nos anos 1980, assim, porque a conjuntura política do país também era outra.


R – Era outra. É, tudo muda, né, a política realmente...


P/1 – Como era no movimento sindical naqueles anos?


R – É isso que eu tô  te dizendo, nesses anos, antes de 1999 eu participava junto. Tem o Ênio, hoje que é diretor, era uma pessoa que até me, se eu tivesse acompanhado o que ele dizia talvez eu tivesse muito mais a dizer pra vocês, mas eu não sou aquela pessoa de anotar as coisas em detalhes, como edição, mas é, eu não tinha convivência dentro do sindicato, nenhuma, a não ser quando eu via alguma coisa. Já fiz até mesmo concurso de denunciar, aí eu ia, mas assim, participar com eles direto, só quando tinha os nossos encontros anuais ou quando tinha algum embate tipo greve, alguma coisa pra fazer desse estilo, mas direto no sindicato, é de diretor pra cá, aí é que eu passei a conhecer o sindicato de fato.


P/1 – Alguma greve nos anos 1980 te marcou Tânia?


R – Não, a greve era muito rápida, né, mas existia, a gente fazia uma paralisação maior porque a gente estava com esses que estão lá dentro junto, né. Eu, Gabrielli [Sérgio Gabrielli], isso tudo era junto, então facilitava, hoje nós estamos brigando com nós mesmo, então a coisa fica muito mais difícil. Hoje mesmo temos, nós rompemos com a Federação e hoje, no entanto, pra acertar a situação da PLR [Participação nos Lucros e Resultados] vamos sentar juntos. Não sei se é do agrado da FUP, mas hoje a chamada Frente Nacional dos Petroleiros,  que é a qual a gente está junto, somos seis sindicatos, hoje vão sentar pra ver se chega ao finalmente em relação à PLR dos ativos e estamos, aí, preparando, já estamos preparados, claro e evidente, se a coisa não sair, pra paralisação segunda-feira.


P/1 – E na sua trajetória no movimento sindical, quando você acha que o movimento político ficou mais tenso, mais difícil, assim, a luta do trabalhador?


R – Eu tô achando hoje a, o sindicato muito afastado dessa luta. Eu não vejo mais aquilo. Porque na época que tem até 1968, até 1970 e pouco nós tínhamos um sloganzinho que era: “O arco e flecha”. Independente daquele trabalhador que estivesse parado, todos nós iremos parar, independente do que fosse. Por isso que chamava arco e flecha, porque um não vive sem o outro. Então essa coisa acabou, eu não sei se foi essa trajetória da era militar, né, que mudou a cabeça. Talvez hoje a gente vá buscar os jovens, né, porque é o que aconteceu. Até antigamente eu dizia que a minha geração não ia deixar nada, hoje eu já digo que a minha geração vai deixar um presidente trabalhador, né, porque eu dizia sempre pro grupo “Essa geração não vai deixar nada porque a gente briga, briga, briga e não deixa nada marcante, né, que marque. A não ser as músicas do Chico Buarque de Holanda, essas coisas que a gente viveu bastante nessa época, né?”


P/1 – Você acha que então vai deixar agora?


R – Agora pelo menos eu posso dizer que deixou um presidente trabalhador, não sei se está sendo bom ou se está sendo ruim, mas pelo menos isso aí a gente mudou, né?


P/1 – Você falou do envolvimento dos jovens recente, eles estão envolvidos?


R – Olha, eu sinto muito pouco. Só aqueles rebeldes, tá, os mais rebelados. E outra coisa que eu tô sentindo é a falta do jovem de classe média mais baixa porque você vê irrigado nesse movimento que a gente tem contato nas UNE da vida, a gente sempre vê que alguma pessoa que tem uma vida mais privilegiada e que talvez esteja revoltado mais com a sua vida familiar do que qualquer outra coisa, aí trás isso pro seu mundo, é o que eu estou enxergando, pode ser até que eu esteja enganada, mas tá faltando, aquele jovem da minha época que pela dificuldade que tinha saía em busca de uma coisa melhor como cidadão, né, um emprego melhor pra si ou se preparar pra um concurso público, ________ era com tudo, né? Porque o que a gente vê hoje é deixando até de ter um privilégio, um passeio ou qualquer outra coisa pra fazer um curso pra poder passar num concurso público, tá? O ideal acho que está fora de órbita no momento.


P/1 – E com o governo Lula o que você sentiu de diferença no movimento sindical?


R – Como eu tô dizendo, eu tô sentindo nesse governo, principalmente, que o movimento sindical teve uma decadência, tá, eu acho até por eles terem sido sindicalistas como a gente. Eu também tenho uma frase que eu lembro bem que o Lula, antes de receber a faixa, eu queria até resgatar, alguém deve ter essa gravação dele, ele ainda não tinha dado como presidente, mas já sabia que ia ser a primeira vez, que ele disse bem, bem, é, claro “Façam pressão porque senão eles vão fazer.” e nós não fizemos movimento nenhum. Ele tá quase no final do segundo mandato e qual o movimento que se fez? Eu acho que nenhum. Então eu acho que ele não tem nem muita culpa porque ele jogou no ar: “Façam pressão.” Já que ele fez coligação com ABC. a pressão tem que vir da gente porque esse pessoal que tá junto dele é o pessoal que precisa da gente também. Então a pressão faltou, tá faltando a pressão, então o movimento sindical e essa reforma sindical que não se define também, essa abertura que deram pra central, eu não sei se vale pra mim. Eu pra mim no meu pensamento não vejo porque tirar algum direito dos sindicatos passando pra central. Eu acho que a Central [CUT] pra mim é só pra unir todos, não pra ter mando de voz do trabalhador. 


P/1 – Então você é contra a divisão que teve das centrais?


R – Eu sou, eu sou. 


P/1 – E Tânia, vocês são de um sindicato mas que também é de uma empresa de governo, né, e como é ser sindicalista de uma empresa de governo, né?


R – Só que esse governo tá, entre aspas, aí porque hoje quem manda são os acionistas, tá, hoje quem manda são acionistas e não tem alternativa. São eles e a gente tá lendo a cartilha, você vê, acabou dizendo, as coligações que foram feitas. Nós fizemos valer a briga no início, quando o Lula entrou, pra não dar o poder à determinadas pessoas e não houve jeito porque determinado partido tinha os seus direitos e cada um foi pondo suas cadeiras por conta de seus partidos e da parceria que tinha sido feita, aí eu acho, é difícil, tá, mas não impossível. Acho que como trabalhador eu acho que a gente tem que ter o mando, de mandar mesmo, tá, e a gente tá deixando é na mão dos outros.


P/1 – E como é ser mulher no movimento sindical, Tânia?


R – Eu gostaria que vocês assistissem uma reunião do sindicato [risos], porque é difícil, tá, quando mais você não pertence ao grupo majoritário. Não é nada diferente desses locais que eu te falei agora, tá? É, é aquela expressão, eu acho até meio chata “Quem tem o poder tem a força.”, mas o poder ali não é o poder de sábio, de nada não, é o poder de quantidade, que levanta seu dedo, vota e tem pessoas que preferem pensar pela cabeça dos outros, então vota junto e pronto, não tem. Nós já tivemos problema até mesmo depois do acordo assinado, onde hoje nós não temos ela como diretora, mas pra mim era uma pessoa, agora mesmo deu o toque da PLR pra gente, que tem algumas coisas nas entrelinhas que a gente só foi ver depois que a Federação assinou, aí teve que voltar atrás. A sorte é que o nosso grupo não tinha assinado, então pra FUP não ficar ruim, eles voltaram atrás, tá? Tava prejudicando o pessoal de turno, né, eles tinham esquecido deles e são esses detalhes, mas eles estão fazendo que eu digo, eu acho que a Federação hoje, a Federação e Petrobras é uma só, agora mesmo nós recebemos à primeira mão enviada pela Petros, porque a FUP não tem o cadastro de empregado nenhum, porque quem tem o cadastro de empregado é os sindicatos. E tem mais, os sindicatos não sabem quem repactuou ou não, e eles estavam telefonando exclusivamente pra quem repactuou, então a parceria está clara entre a Federação, a Petros, e a Petrobras. Pois é, a coisa fica mais difícil porque quem teria que estar do nosso lado está fazendo o jogo junto deles. 


P/1 – E a sua militância sindical interferiu na sua vida pessoal, Tânia, como é que você conciliou?


R – É, eu sou casada, quer dizer, casada entre aspas porque eu não sou casada oficialmente mas vivo há 27 anos com um português comerciante [risos]. Mas como ele me conheceu já assim porque como eu disse pra você, embora eu tenha mais nove irmãos, ninguém se envolveu nesses movimentos, nenhum deles, mas eu não sei se eu era muito ligada ao meu pai, mas sou envolvida desde que me entendo como gente. Era, quando criança, preparando as nossas festinhas, com a dificuldade que a gente tinha, era catando lá. Esse negócio de “catar”, vender ouro, a gente já fazia com 11, 12 anos pra ter a nossa festa junina, ter o nosso bloco de carnaval, e sempre envolvida com a comunidade num todo, tá? Sempre envolvida desde nova.


P/1 – Seu pai, o que ele fazia?


R – Meu pai pertencia aos arrumadores de cais do porto, aquelas pessoas que carregavam saco nas costas lá. Quer dizer, lutava com bastante, mas uma das coisas que ele sempre quis fazer e fez em relação aos filhos, foi que nenhum dependesse do outro, porque quando ele veio do norte pra cá dependendo do irmão, ele foi muito maltratado e ele conseguiu, todos nós trabalhamos, podemos ajudar um ao outro, mas cada um vive com o seu, tem condições de viver com o seu rendimento, e isso ele conseguiu com os dez.


P/1 – E ele te levava, assim, pra movimento de greve, alguma coisa?


R – Não, eu, eu na realidade, eu sempre vivi envolvida por eu mesma. É movimento hippie, tudo que foi movimento eu vivi. Vivi por livre e espontânea vontade, até teve um probleminha, agora, por eu não ser casada, mas eu sou católica apostólica romana, praticante mesmo, e a Igreja me exclui de comungar. Fui perguntar ao padre, conversar com ele, né, não sei se tá valendo, porque eu queria comungar, né, muitos anos sem comungar, e fazer a benção também. Daqui a pouco eu vou fazer 60 anos e o padre me pergunta quantos anos eu tenho, eu falei 58. Aí ele vira pra mim e: “Ah, quando não se tem mais vida sexual ativa pode comungar”, eu nem perguntei a outra parte e saí. Então eu sempre me envolvi por eu mesma, sempre fui, eu tenho três irmãs acima, três abaixo, elas sempre andaram juntas e eu sempre andei sozinha, então sempre estive na rua sozinha, sempre andei muito na rua, pra isso eu tenho 14 afilhados e nenhum é de irmão, tudo de amigos, então agora mesmo a minha afilhada fez 40 anos essa semana. Então, sempre envolvida na rua, os movimentos eu fui abraçando. O movimento mesmo do Fora Collor, o primeiro movimento que nós fizemos na Rio Branco com 20 ou 30 pessoas no máximo, achava que aquilo não ia pra frente, mas a mídia mais do que depressa, que queria, abraçou aquilo e aquilo foi pra frente. Então quer dizer, sempre envolvida em alguma. Tem a Cantra também ali no Saara que também faço parte da Cantra,  sou sócia de lá também.


P/1 – Cantra, o que significa?


R – É, sei que das mulheres do Saara, qualquer coisa parecida, mas elas fazem um trabalho muito bonito, muito bonito com o pessoal ali do Saara distribuindo camisinha, inclusive trazendo as meninas mais pobres, dando a ela o poder de fazer uma faculdade, elas são muito bacana, muito bacana mesmo. O movimento de mulheres do Saara.


P/1 – Luta popular, alguma coisa te marcou assim, algum momento, alguma situação?


R – É, eu sempre fiz o movimento da, até trouxe pra mostrar pra eles, quando foram pedir um auxílio lá, eu desconfiei, é. Moradores, que a gente tem movimento de moradores, sempre fiz parte. Nunca fui, assim, de festa, baile, essas coisas, mas movimento sempre fui presente. Sempre, todos eles. É, em 1968 eu estava com 17, 18 anos e a gente fazia da Central do Brasil à Padre Miguel a pé, aquilo era normal pra gente, então é movimento desde que eu me entendo como gente. 


P/1 – Alguma conquista te marcou nessa luta dos moradores, assim?


R – Olha, eu não vi grandes conquistas propriamente dita, porque a vida do brasileiro não mudou, é, a não ser que hoje você tem televisão em todos os barraquinhos e isso tudo, mas conquista, conquista, foi a nossa eleição do presidente, né, que eu tô  dizendo que essa que foi a mudança da minha geração, né. Que a gente abraçou com garra, mas enfim.


P/1 – E quais são suas perspectivas pro Sindipetro do Rio de Janeiro, como é que você vê o Sindipetro no futuro?


R – Eu me vejo me despedindo dele no final do ano, tá, acho que eu não vou nem fechar essa gestão. Não tenho condições mais, eu acho que tudo tem o seu tempo, tem a sua época e a sua hora e eu acho que eu já era pra ter me afastado. Não houve, não me afastei por causa de política mesmo, de o que eu costumo, eles chamam de corrente e eu chamo de facção, tá, porque não deixa de ser uma facção, é igualzinho. Não tem diferença não, só não pega o R15 e essas coisas, mas é a mesmíssima coisa. E eu vi que a gente precisava não deixar a Federação voltar e aí eu continuei por conta disso, mas não tenho mais aquele entusiasmo, acho que até por conta da idade eu acho que a coisa muda mesmo. Espero que a coisa, as coisas venham bem melhor, eu acho que a juventude, como vocês, têm tudo pra mudar, e eu acho que vale a pena, não fiz grandes conquistas dentro da empresa por conta desse meu envolvimento. Não que ele me atrapalhasse com a direção, mas eu mesma não me dedicava, né, tanto que eu sou nível superior e não saí de nível superior dentro da empresa, nunca me prontifiquei a fazer uma prova pra sair de nível superior, nunca esquentei com isso, né? Mas, inclusive, eu trouxe até minha cartinha que eu fiz de despedida quando eu saí da empresa, trouxe até pra mostrar pra vocês. Quando eu saí eu fiz uma carta que o próprio presidente, da época,  voltou pra falar comigo, né, e me proporcionou, talvez, alcançar um poder aquisitivo que talvez meus pais mesmo não pensassem, né. Embora eu acho que eu poderia ter alcançado muito mais se eu tivesse vivido o empenho de querer alguma coisa à mais pra eu mesma, a não ser que eu passei  a viver pra um grupo, pra um todo e sempre foi assim, eu sempre vivi assim, não tem jeito.


P/1 – Tem alguma coisa, Tânia, que eu não perguntei que você gostaria de dizer? Alguma coisa que você gostaria de registrar?


R – Propriamente dito, acho que você perguntou tudo e eu falei mais ou menos a situação que nós nos encontramos agora em relação à participação da Federação dentro da empresa, que tá prejudicando o trabalhador e eu acho que isso tá sendo visto. Nós não conseguimos abraçar outros sindicatos ainda, porque o poder aquisitivo, e eu acredito até que a empresa não possa afirmar, ajude, porque eu estive no Pará, pra fazer a campanha lá. Fazendo tudo a pé porque a gente não tinha condições financeiras pra bancar, e nós tínhamos lá gente da Federação com carro e com motorista. E eu tenho certeza que a Federação não tem esse dinheiro, tem alguém bancando. E por isso que eu digo, é igual política aí fora, quem tem poder consegue. E eles conseguiram, não conseguiram no Pará porque a gente tem o Agnelson, que tem um carisma muito grande lá com o aposentado e a empresa continua com o peso nas costas muito grande que são os aposentados, que acho que hoje nós somos 70 mil. E onde o aposentado apoiar é esse que ganha, é esse que ganha, eu tenho certeza disso, onde o aposentado vier junto ninguém leva, porque nós somos um número muito grande, estamos vivendo muito mais, tá? Eu tô  com seis anos, mas eu tenho colegas com 20 anos de aposentado e vivendo ainda, então onde estiver o aposentado, ainda não viu o aposentado, gostaria realmente que a Petrobras visse, a própria empresa, eu sou de um grupo que aí está. A minha decepção que é o grupo chamado 78, 79, tá, e que todas as outras empresas estatais reviram e deram direito a se aposentar com menos de 55 anos. Eu me aposentei com 52, que eu como sempre eu digo, já disse, meu pai foi um espelho e ele dizia pra nós todos os filhos: “Perdesse um braço, perdesse uma perna, perdesse uma vista, mas não perdesse a razão.” E eu quando me aposentei eu estava saindo cinco e quinze de casa pra pegar as oito, então achei que eu estava perdendo a razão porque o negócio é um engarrafamento que eu acho a pior coisa que existe, pra mim é, então preferi me aposentar, já tinha os 30 anos, não tinha os 55 que a Petrobras, a Petros me obriga, não a lei porque a lei nos deu esse direito, tanto que tanto o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], o Banco do Brasil, a própria Companhia Telefônica, todos reviram isso e só a empresa Petrobras, o único problema pra mim com ela foi esse, não ter revisto isso. E nós não somos muitos, acho que muitos somos uns três mil, não somos mais que isso, com certeza não pesa pra empresa, poderia ter sido resolvido e pode ainda ser resolvido, porque determinadas pessoas do meu grupo já fez os 55 anos, que já temos 30 anos que teria fechado lá dentro, então já tem 55 anos, quer dizer, não vai nem ser pra maioria desses três mil, vai ser pra um número menor que ela solucionaria esse problema. Resolveu em parte com uma repactuação, onde ele te dá um benefício e pra que você aceite esse bem, ele te dá um dinheiro, então quando acontece isso, esse bem não é bom, é ruim. E com certeza é ruim pra quem repactuou, lamento, e temos tido lamentações lá mesmo embora elas continuam batendo que é boa a repactuação e foi a única coisa que eu posso me lamentar é poder não ter me aposentado com o direito de ter o meu salário completado nos 90% do que eu tenho direito porque não tinha 55 anos de idade e os 30 anos de serviço eu fiz.


P/1 – E o que você achou Tânia de ter dado esse depoimento aqui pro Memória Petrobras?


R – Interessante, eu gostei, já tinha visto falar porque eu tenho o Chopp, que é um amigo em comum, ele já fez isso, né, até ele tava reclamando que botaram ele trabalhando na Reduc [Refinaria Duque de Caxias], ele nunca trabalhou na Reduc, mas é, acho que é válido principalmente pra gente, pelo menos a gente percebe que ainda tá fazendo parte dessa família Petrobras, dessa família petroleira, né, porque vocês são da Memória Petrobras, não petroleira em si porque a gente tem outras empresas, né?


P/1 – É, a gente é do Museu da Pessoa, né? Tá bom, obrigada viu Tânia.


R – Agradeço também de ter lembrado e conto com vocês no dia 20, que é sexta-feira, pro nosso chorinho e dia 25, em nossos 50 anos que aí vai valer a pena, né? Cinqüenta anos pode não pesar muito, mas quando a gente fala meio século, pesa bastante, a gente vê que o tempo é muito maior do que falando 50 anos. Obrigada.

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