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História

Vocação para o voluntariado

História de: Paulo Guilheme Martins da Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/09/2014

Sinopse

Paulo Guilherme é um engenheiro que dedica boa parte do seu tempo ao voluntariado. Esta vocação para o voluntariado começou na Pastoral de Jovens, passou pelo CVV, pela Febem, pelo Lar Infantil Allan Kardec e acabou despertando em Paulo o desejo de criar uma ONG para ajudar na educação das crianças. Em seu depoimento, ele recorda as brincadeiras de infância com os primos e como os brinquedos de montar despertaram nele o interesse pela Engenharia. Ele lembra as dificuldades no curso de Engenharia Elétrica na Escola Politécnica da USP e o início profissional.  Fala sobre a criação do Instituto Educadores Sem Fronteiras, sobre o trabalho desenvolvido ao longo desses anos e como a ONG foi beneficiada pelo Criança Esperança ao receber verba para adquirir material para o laboratório no projeto Alquimia dos Saberes

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História completa

Meu nome é Paulo Guilherme Martins da Rocha, eu nasci em São Paulo, no dia 7 de agosto de 1960. Minha mãe era do interior de São Paulo e o meu pai era de Pernambuco. O meu avô morreu quando meu pai tinha dez anos.  Meu pai serviu na Base da Aeronáutica em Salvador e depois veio aqui pra São Paulo. Ele nasceu em Garanhuns e trabalhou na indústria, sempre ligado a controle de produção. Meus pais se conheceram na pensão onde ele almoçava. Minha mãe é professora e foi até se aposentar. Eles casaram em 1957, moraram um pouco na Lapa e rapidamente mudaram pro Alto da Lapa. E a minha mãe está até hoje na casa do Alto da Lapa, ficou mesmo, criou raízes e ficou por lá. Eu sou filho único. As brincadeiras eram com os primos, tinha uma porção de primos lá, eles supriam a falta de um irmão, uma irmã pra brincar. Eu adorava coisas de montar, sempre. Eu acho que isso acabou até influenciando em fazer Engenharia. Brinquedos com peças, parafusos, porcas pra montar, tudo isso me fascinava. Adorava. Minha bicicleta também foi outra companhia importantíssima porque era o que me permitia sair de lá e desaparecer pelo mundo. A gente passava as férias em Tietê. Entrei na escola com 6 anos. O nome da escola era Reinaldo Ribeiro da Silva. Ela fica na Vila Anastácio, no começo da Marginal Tietê, na frente do rio. Ia de ônibus com a minha mãe, porque ela dava aula nessa escola. E era uma escola estadual, escola pública no tempo que a escola pública era boa. Os programas da adolescência era você ouvir música nos dias de semana que não dava pra sair, não dava pra fazer nada, era acompanhar o Jacks o Caleidoscópio até dormir, começava meia-noite o programa, e quando dava, principalmente a gente costurava junto com os trabalhos de equipe, a gente sempre dava um jeito de parar em algum shopping.  

Eu entrei na Poli. E foi interessante porque foi uma outra mudança também de tudo. De colegas, amigos, programas, classe social, preocupações, era bem diferente. Era bem diferente. A exigência era diferente. 1978 foi meu primeiro ano lá. Isso tudo o pano de fundo é ditadura militar. Como tinha as aulas de Educação Moral e Cívica, na faculdade também se percebia a repressão mal disfarçada. Os textos que não podia ler, as músicas que não podia cantar. E tinha toda uma trilha sonora, nesse período da ditadura militar foi muito rico, então, o gosto musical pro lado brasileiro também foi meio moldado por isso. E lá na faculdade tinha o pessoal que era desconectado da música brasileira, o que pra mim foi muito estranho. O pessoal até sabia, mas não curtia, não gostava. Ou o pessoal que só curtia isso e aí cortava o lado Inglaterra, Beatles e tudo o mais. Foi ótimo porque se antes a nota máxima era dez, agora a nota máxima passou a ser dois, três. E não importava o quanto você estudasse.  Eu queria Elétrica. E se eu não pegasse Elétrica eu ia sair, eu não ia fazer outra coisa, não tinha o menor interesse em Engenharia Civil, não tinha o menor interesse em Metalurgia. Passei lá pra Elétrica e fiquei na Elétrica, e comecei a estagiar quando estava na faculdade. Então eu fazia duas coisas, eu estagiava e eu dava aula particular, então, acabei quase que me sustentando não tanto pelo estágio. O primeiro estágio acho que foi na Klöckner em Alphaville.  O último estágio levou ao primeiro emprego.  Foi numa empresa chamada Combustol, fica na Estrada do Jaraguá.

E por essa época, pouco depois de sair da faculdade, foi uma época de começar a querer trabalhar mais pro lado social, foi um período que alguns colegas estavam em grupos de jovens de igreja, Pastoral dos Jovens e tudo o mais. E eu sempre acompanhei minha mãe até os 11 anos nas missas de domingo e depois comecei a questionar demais e ela me dispensou das missas. Eu tive amigos que foram muito engajados com a Igreja Católica e com movimento, aquele pessoal assistencialista mesmo, de levar comida em favela, tudo o mais. E isso de certa forma pra mim começou a despertar, finalmente, uma percepção de que dava pra contribuir de alguma forma, fazer alguma coisa. A primeira contribuição não teve nada a ver com estudo, porque eu acabei indo parar no CVV. O meu plantão era à noite, então eu saía do trabalho e ia lá pro plantão. E você chegava com aquilo que você achava que eram problemas e os problemas que vinham do outro lado da linha eram tão maiores do que os seus que você, era uma maneira de rever ou de reposicionar a sua visão, os seus problemas, instantaneamente. Acho que eu resisti um ano. E depois começou a ter muita viagem, eu não conseguia, eu tinha que faltar e começou a ficar complicado, então parei. Então o trabalho de voluntário em um abrigo era aos sábados. E assim como no CVV, cada dia era uma história, coisas assim fantásticas.  

Eu tive oportunidade de sair do país, a primeira vez que eu saí do país foi a serviço. Essa primeira ida foi a serviço, foi pra passar dois meses nos Estados Unidos. E naquela época tinha uma empresa chamada Republic, que já não existe mais, tinha um passe livre pelos Estados Unidos. Então eu passava a semana trabalhando e o fim de semana era meu.  Agora estou numa empresa chamada Rockwell Automation, que é uma multinacional americana na área de automação industrial. Entrei em novembro de 1986 lá, estou até hoje.

Eu voluntariava na Febem e saí porque a Febem acabou. Eu fui até o dia que fecharam o portão lá: “Não tem mais. As suas crianças, uma foi pra Jaú, outra foi pra Bauru, outra foi pra não sei onde”. Eu fui procurar um lugar pra ir. Eu tinha alguns amigos que conheciam alguns orfanatos, ninguém aceitava trabalho voluntário, uma coisa estranha. Bati em umas dez portas diferentes e nada. Comecei a procurar pela lista telefônica. E ligava: “Não, não, nós não queremos voluntários, a gente tem o nosso pessoal aqui”. Estranho. Lá pelo sétimo, oitavo, eu cheguei num abrigo no Jardim Ângela e a resposta foi totalmente diferente: “O quê?! Você é um voluntário procurando um lugar pra trabalhar como voluntário? Pode vir. O que você puder fazer aqui é bem-vindo, vem pra cá, vem conhecer, ver se você gosta”. E eu fui e encontrei um abrigo onde tinha umas 30, 40 crianças e o casal que mantinha com muita dificuldade. O trabalho que eles faziam, eles tinham um centro espírita junto e eles mantinham aquilo tudo com muita dificuldade. E eu acabei me apaixonando por lá, então, da Febem eu fui pra lá. E no começo era muito parecido com a Febem, porque as crianças eram pequenas, então, era recreação mesmo, era ir pra brincar, pra conversar, pra empinar pipa, pra fazer um monte de coisa. Elas foram crescendo e eu, que sempre gostei de dar aula particular, fui vendo que eles começaram a ter coisas na escola que elas estavam tendo dificuldade, comecei a ajudar a parte da escola também. O abrigo chama-se Lar Infantil Allan Kardec. E depois, o que aconteceu depois disso? Aí montamos uma ONG.  Não é uma escola, porque não vai dar diploma; o problema não é o diploma, é aprender. Um lugar que você fosse pra aprender, já pensou que legal? Então, não é uma escola. É um absurdo, porque deveria ser a escola. Vou aprender, então é uma escola. Não é uma escola, o lance não é o diploma, o lance é você aprender. E a gente começou os Educadores sem Fronteiras ali. Isso foi em 2007, há sete anos que começou. E a ideia era ter um lugar onde se tornasse prazeroso o aprender. Quando a gente começou, os pontos que a gente sabia que seriam importantes, que se mantêm, os nossos pontos, pilares, do que a gente quer fazer lá. Então, por exemplo, a aula tem que ser interessante, de aula chata chega. Cada aula você tem que trazer pra eles alguma coisa que seja muito interessante, muito diferente, muito cativante. É bom que tenha um pouco de diversão também, então se não sai nenhuma gargalhada na sala do lado eu fico até preocupado, tem que ter, tem que ter alguma coisa que o pessoal dê risada. As turmas são pequenas, são todas as matérias. A gente cobre todas as matérias e a gente separa do que é ensino fundamental do médio. Eu e a Nádia começamos e a Nádia teve que sair logo depois, porque ela começou o curso dela, que ela lutou tanto pra fazer, começou a exigir, até pra Licenciatura e tudo o mais, uma dedicação em tempo que não permitia que ela fizesse o trabalho junto, então ela saiu. Nós temos professores que são contratados. A gente tem o título de Oscip. Nós alugamos um espaço do outro lado da rua do abrigo, onde estamos até hoje. O primeiro recurso veio do Citibank. Porque a gente procurou uma consultoria do terceiro setor que mostrou como era o arcabouço jurídico, que aquela ideia tinha que virar um projeto. Houve todo um trabalho. A Carol Zanoti, ela participou disso também, dessa construção, e com um projeto embaixo do braço a gente começou, então, o desafio de tentar conseguir apoio financeiro. E alguém conhecia alguém que conhecia alguém no Citibank. “Olha, parece que tem a possibilidade.” A gente tinha esquematizado em três partes tudo o que a gente precisava pra começar. “Ah, vamos pedir só um terço então, mais fácil, é mais possível que eles aceitem” “Não, vamos pedir dois. Pede dois, porque se faltar um vem pelo menos um e a gente começa” “Vamos pedir os três! Pede tudo de uma vez”. A gente foi, colocou o projeto todo com eles e eles gostaram e aprovaram. Foi muito legal. Então o pontapé inicial foi de onde vieram os projetores, os computadores, as carteiras e a gente começou. Esse foi o primeiro apoio. São adolescentes principalmente, pessoal de sétima série, oitava série, ensino médio. E também o pessoal que já completou e quer voltar pra aprender. Você não pode se inscrever só pra uma parte, você entrou, você entrou pra tudo. Por exemplo, o Citibank não faz uma manutenção ao longo do tempo, é pontual, então é uma coisa com começo, meio e fim. Eles ajudaram a gente, deram um empurrão no começo, mas eles se retiraram. E a gente foi trabalhando a captação em outras empresas. Então veio o Banco Fibra, veio o HSBC, vieram outras empresas que seguiram tocando o projeto. Eu acho que se contar desde o começo acho que 500, 600, mais ou menos, já passaram. Porque as turmas são pequenas.

Nós nos candidatamos e fomos contemplados pelo Criança Esperança, então a gente passou o ano de 2012, 2013 foi começo, acho que foi mais a fase final do trabalho, 2012. Durante um ano eles ajudaram um projeto específico dentro dos Educadores sem Fronteiras. O projeto chamava “Alquimia dos Saberes”, ele era voltado ao lado prático, experimental, então alguns laboratórios que a gente ganhou deles pro pessoal poder manipular coisas e não só aprender em livros. E também o “Expedições do Saber”, que era levar o pessoal pra lugares onde eles pudessem interagir com esse tipo de informação. No caso um pouco mais voltado, era voltado ao lado Química, Física e Português, então tinha um Laboratório Linguagem também, a gente brincava com as palavras, então tem o Museu de Língua Portuguesa, então tinha umas coisas meio fora do esquadro. Você fala em Alquimia parece que vai ser só Física e Química e de repente nós estávamos vendo as palavras lá, fazendo alquimia com as palavras. É muito famosa a existência do projeto Criança Esperança, a gente já sabia que eles faziam esse tipo de trabalho há muito tempo. E nós nos inscrevemos pra isso, pra tentar ser premiado, vamos dizer assim, escolhidos, por eles. E eles gostaram do projeto. Fizeram uma série de perguntas, trocamos muitas informações e  foi efetivado e ficamos por um ano com eles. Nesse programa foram 128 crianças atendidas. O impacto tem alguns efeitos colaterais que não são o nosso objetivo principal, eles acontecem, mas nós não nos norteamos por isso. Como educadores hoje são só seis, sendo que dois são voluntários e quatro são CLT.  Tem 120 cidades do Brasil que entraram em contato conosco pedindo pra gente ir pra lá.

Minha esposa dá aula de dança e de yoga. Então ela tem uma atividade com detentas através da dança. Minha filha está agora com 27 anos. Essas ONGs, na verdade, muitas delas estão realizando sonhos. Aquelas que lidam com pessoas, que estão ajudando, seja criança, seja idoso, essas ONGs estão tentando levar pros atendidos alguma coisa que está faltando pra eles, que a ONG acha que pode suprir, pode ajudar, e o Criança Esperança ajuda, dá o meio pra você fazer. Porque se você não tiver a força da grana que ergue e destrói coisas belas não rola, você pode estar cheio de vontade, com grandes planos, mas pra transformar em realidade tem que ter o Citibank da vida, ou tem que ter um Criança Esperança da vida pra tornar realidade.

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