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História

Vocação para o ensino, paixão pelo esporte

História de: Milton Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Depoimento de Milton Teixeira para o Museu do Santos F. C. em 1999. Milton fala sobre sua família, a perda da mãe para a tuberculose, a mudança para Santos e vocação para o ensino. Os estudos, o primeiro trabalho nas alfândegas como fiscal e a dedicação à educação, desde os primeiros cursinhos que montou, a compra da Escola Santa Cecília e a formação do que hoje é a Universidade Santa Cecília (UNISANTA) em Santos. A presidência no Santos na era pós-Pelé, a contratação de ídolos como Serginho Chulapa e o título em 1984. A diretoria no voleibol santista e a mensagem de educação e ensino como indissociáveis.

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História completa

P/1 - Museu do Santos Futebol Clube. Entrevista Milton Teixeira, Santos, 31 de Março de 1999. Entrevistado por José Santos e Fábio Franzini. Boa tarde, Senhor Milton...
R - Boa tarde.
P/1 - Gostaríamos de começar nossa entrevista pedindo para o Senhor falar seu nome completo, data e local de nascimento.
R - Eu me chamo Milton Teixeira, nasci em Caraguatatuba, a 16 de outubro de 1930. Filho de Nicolau Teixeira e de Dona Benedita Rodrigues Teixeira, ambos falecidos, infelizmente.
P/1 - O senhor poderia falar um pouco dos seus pais, o que eles faziam, a origem deles?
R - Meus pais são de origem muito modesta, meu pai era pescador lá em São Sebastião. Minha mãe, de Ilhabela. Naquele tempo, nesses lugares não havia escola, então os caiçaras são muito inteligentes, mas careciam de instrução. Meu pai veio para Santos, solteiro, casou aqui em Santos, conheceu minha mãe aqui em Santos, e foi trabalhar no cais do Porto como estivador. E assim foi. Trabalhou 40 anos como estivador e se aposentou na profissão. Minha mãe morreu muito cedo, devido à tuberculose, naquele tempo era comum tuberculose e havia falta de antibióticos, quem contraía tuberculose... Era praticamente uma doença fatal, não havia jeito. Eu, graças a Deus, sobrevivi, embora tenha mancha no pulmão com a infiltração do bacilo de Koch. E tive outro irmão, ainda mais velho, chefe da família, que foi obrigado a secar um pulmão, tragicamente, mas ainda teve uma resistência adiantada, desencarnou com quase 58 anos, mais ou menos. Meu pai teve a necessidade de casar uma segunda vez, porque tinha cinco filhos pequenos. Viúvo com filhos pequenos e casou com a nossa empregada, com a empregada de casa, que era uma doméstica, que veio auxiliá-lo. Meu pai tinha 45, mais ou menos, ela era novinha, tinha 19. Meu pai gostava de moças jovens, como todo caiçara, assim ele criou uma nova família. E por ironia do destino, a madrasta nunca aceita os filhos de outra mulher. Então meu pai teve que manter duas casas, com uma mulher só. Uma com a sua esposa legítima, que seus filhos estavam nascendo, que são quatro, e os demais ficaram sob a tutela do meu irmão mais velho, também Nicolau, numa outra casa, também alugada. Mas mantínhamos uma cordialidade. Mais tarde, quando crescemos, com esse meu irmão mais velho, que era o chefe da família, Nicolau, também o nome do meu pai, resolveu reunir todos os irmãos, incluindo a minha madrasta e meu pai. Fomos estudar logo cedo numa escola do governo, um grupo escolar, Grupo Escolar Barnabé, aqui em Santos. Depois, pela pobreza, começamos a trabalhar cedo, com quatorze anos de idade, numa casa cafeeira, e lá fiquei por largo tempo. Gostava de ensino, sempre gostei de ler, de ensino e mantinha turmas preparatórias para o Banco do Brasil, na minha casa. Casei cedo, casei com 19 anos, a primeira vez, tenho quatro filhos do primeiro matrimônio, Sílvia, Lúcia, Cecília e Marcelo, a par e passo com essa atividade, montei um cursinho preparatório para alfândega, para criar curso de Fiscal Federal, que na época, ainda é o emprego mais rentável do Brasil, porque nós tínhamos participação nas multas. A gente multava e o fiscal ganhava 50 por cento, aplicando essa multa. Então havia interesse pecuniário, né? Nessa andança, sempre mantendo o cursinho, eu vi que uma escola estava à venda no Bairro do Macuco, bairro popular, eu comprei o fundo de comércio da escola, falida, com quarenta alunos, só mantinha o antigo... Curso primário. O fundamental, né? Hoje primeiro grau. E lá, mantinha cursos à noite para o Banco do Brasil e depois eu criei uma turma para preparar-se para alfândega, para esse cargo de fiscal. E os alunos: “Ah, Milton, presta concurso! Você é tão preparado...” E eu também prestei o concurso. Passei e fui nomeado para a alfândega de Itajaí. Então eu vendi a escola, a escola primária, e o moço que a comprou, Deus o tenha em boa memória, em bom lugar, não tinha todo o dinheiro para pagar. Estava saindo do seminário, da igreja, professor em uma escola religiosa... Um dos papas resolveu, através do editum, dizer: quem não quer ficar na ordem pode sair. Quem é muito pecador, gosta de mulher, gosta de sair à noite, do convento, pode sair. E saíram quase 50 por cento. Ele saiu entre os 50 por cento e sem emprego, não tinha profissão. Então ele veio e: “Olha eu não tenho todo o dinheiro, só tenho a metade para comprar sua escola.” Tá bom. Então vamos ficar sócios. Ele falou: “Pois vamos ficar sócios.” E eu fui para Itajaí, como fiscal federal. Mas a escola tava na minha cabeça, noite e dia, lá em Itajaí. Consegui voltar para Santos, adido por um ano e resolvemos criar o primeiro curso secundário, o ginásio, no tempo do ginásio, e não havia espaço para os dois. Aí, fomos ampliando, criamos o curso técnico de contabilidade, o curso normal e num belo instante nós soubemos que a Escola Monte Serrat estava falida e a venda o prédio. Eu não tinha o numerário, o meu irmão mais velho, que é iluminado, que tenha em bom lugar, disse: “Compra, vou ao banco levantar o dinheiro. Você gosta de ensino, vamos comprar o prédio.” E nós compramos o Monte Serrat, que tinha apenas quatrocentos alunos. E o Santa Cecília já tinha seiscentos. Quando eu fui tomar posse do prédio, os alunos quebraram tudo, no Monte Serrat, porque não aceitavam que uma escola do Macuco, pobre, pudesse comprar uma escola elite. Quebraram tudo, danificaram tudo. Eu peguei a chave do prédio, levei a São Paulo, isso em outubro de 1969, levei ao dono da escola, um senhor muito distinto, narrei o acontecido e lhe disse: “Olha, eu quero o prédio vazio no dia primeiro de janeiro”. “Mas, doutor Teixeira, o senhor não vai poder aguentar a pressão”. “Eu vou tentar. Se eu não tiver o numerário, eu devolvo o prédio e volto para o Macuco.” Que era a nossa origem, né? Fiquei acumulando a alfândega, como fiscal federal, e a escola, simultaneamente. E meu sócio não quis seguir, não quis ficar com o outro lado.” E, por ironia do destino, na alfândega eu era requisitado, parecia uma tentação de Deus, para os cargos mais importantes, inclusive chefe do armazém de bagagem, que dava mais dividendos para os fiscais. Foi por isso que eu não tentei deixar a alfândega. Eu fazia minhas fundações e parece que..., não, não, vai para a escola e eu decidia a escola. Mais tarde, naquele ano... Aí vieram mil alunos, só no boqueirão. Nós precisávamos de setecentos só para pagar a primeira prestação e no primeiro ano, só com a mudança vieram mil alunos. Aí me entusiasmei, fiquei na alfândega, como fiscal federal, chefe da bagagem, e do Santa Cecília. Tive sorte, que contei com bons auxiliares. O professor Reginaldo Ramos, meu irmão, meu amigo já desencarnado, a professora Mercedes Vieira, que está em São Paulo, trabalhando, o professor Otávio Filgueiras, que foi meu diretor no colégio, era um velhinho de cabelos brancos, rígido, linha dura e ele era inflexível, mas tinha uma fraqueza também, como todo homem, como todos nós, como todos mortais, né? Ele saía da escola a noite, e ia namorar no José Menino. Namorar, tinha prazer em namorar. Ficava ali, já viúvo, e ficava namorando. E, um dia, eu passeando de carro, encontrei meu professor, meu diretor, ali. “Pô, mas o senhor devia estar na escola e está aqui?”. “Mas doutor Teixeira, já deixei minha obrigação”. Aí eu falei assim: “Mas professor Otávio, aqui é a obrigação melhor que existe, que é a do espírito.” ( Risos ). Aí eu entrei no time dele também. Entrei no time do professor Otávio. Mas foi uma criatura notável, porque a sua filha, a  Tereza Filgueiras... e hoje a nora dele é juíza... juíza não, promotora, é implacável. E um filho meu, praticou aí uma diabrura e foi punido pela neta dele. Agora... Coisa do destino, da vida, né?  Então, criamos depois a primeira faculdade, que foi a de engenharia, depois a segunda e assim fomos ampliando o leque. Um belo dia, um prefeito da cidade, Deus o ache em bom lugar, que é um documento, tenho que falar a verdade aqui, ele ameaçava tomar as escolas superiores de Santos. Santa Cecília, CEUBAN , menos a Lusíada porque ele dizia que era uma fundação, da qual ele fazia parte. E ele ameaçava e era regime militar na época, tinha toda a força, porque ele era interventor, em Santos. Um dia ele dizia que ia dar o pulo do gato e numa formatura da Lusíada, da Fundação Lusíada, da Medicina, eu fui lá na formatura para saber qual era o pulo do gato. Como é que ele ia tirar nossas escolas, nossas faculdades. Foi eu e a professora Rosinha. O restante não teve coragem de ir, se acovardou, eu fui lá defendendo a minha família, o meu domínio, né? O meu clã. E ele dizia, ameaçando no discurso, que os donos de escolas cobram e vamos mudar a lei. Os militares. Mas ele nunca teve o peito de levar avante a sua idéia porque nós íamos enfrentá-lo em todos os campos possíveis. Mesmo no regime militar. Aí a idéia não se efetivou, a professora Rosinha fundou, cuidando da sua área, aí eu propus a ela: “Professora Rosinha, eu acho que temos que nos cuidar e criar uma universidade, para ficarmos mais sólidos”. E: “Mas, de que forma?”, “A senhora manda no seu botequim e eu mando no meu botequim. Tem uma linha divisória. Lá manda a senhora e os seus filhos, e aqui mando eu e meus filhos. Concorda?”, “Concordamos.” E assim conseguimos criar a chamada Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes. Por que Santa Cecília é a empresa mantenedora do Santa Cecília e Bandeirantes do outro grupo. Então criamos uma sigla com esse nome, UNICEB  e tocamos o barco assim. Cada qual tomando conta da sua área. Por ironia do destino, um senhor que estava sentado, que foi governador do Estado..., ele acabou indo trabalhar com a Rosinha, na área de Direito. E recordamos todas essas facetas, do ensino, né? Com o crescimento dessa associação, nós resolvemos tentar uma separação. De uma, criarmos duas universidades. É difícil. Criar uma já é difícil, imagine de uma criarmos duas. Nos pusemos a campo, com muita dedicação, procuramos alguns amigos que nos ajudaram, o deputado (Athiê Jorge Cury), que era um servidor de Santos, incansável, incansável, um homem solteiro, né? E fazia da política a sua arte. Da política e do Santos. Athiê foi goleiro do Santos, em 1929, 30. Foi goleiro da Seleção Paulista, foi goleiro da Seleção Brasileira, naquele tempo, então Athiê tinha conosco uma grande ligação através do esporte do Santos. Eu era do voleibol e eu tinha um amigo, chamado Roberto Luz Machado, que criamos uma seleção de voleibol, que excursionou pelo mundo todo. Um esporte meio marrom, porque o pessoal não podia ganhar... Hoje não, hoje são profissionais. E muito bem remunerados. O atleta que pratica voleibol hoje, ganha muito mais do que o jogador de futebol. E o patrocínio é muito grande. E o tape vai para o mundo todo. O futebol é o primo pobre do esporte. Porque há muitos clubes, clubes fracos e sem quadro associativo... Então nós criamos... O Athiê Jorge Cury nos ajudou demais na Universidade. Nós precisamos fazer uma separação, criamos da UNICEB duas universidades. E eu disse: isso é loucura, é impossível, regime militar, você não vai conseguir nunca, conseguir isso... Vamos tentar. O nome nós já temos, e como vamos conseguir. E nos pusemos a campo. E assim nós partilhamos a UNICEB na UNISANTA... Como é que chama a outra, Imaculada?... A UNIMES. De uma nós fizemos as duas. E a família Viegas cuida da sua universidade e nós cuidamos do Santa Cecília. Par e passo, meu filho Marcelo é sempre empolgado com esporte, eu fui sempre esportista, ligado ao esporte, já tínhamos equipe de natação. Ele resolveu criar a equipe de natação, da escola, profissional, semi-profissional e um time de basquetebol, que existe lá. Aí, eu disse, já que estamos nessa área, vamos criar a faculdade de educação física também. É muito jovem a escola, tá começando, mas com bons frutos. E adotamos, nós e os filhos, uma política para o Santa Cecília no seguinte lema: difícil entrar, mas é mais difícil sair, ainda. Então essa política foi aplicada especialmente no carro-chefe nosso que é a engenharia, da qual nós temos todos os ramos da engenharia. E hoje, graças a essa política, as indústrias do Grande ABC mantêm bolsistas em nossas universidades. Porque é uma escola que funciona de manhã e a noite. Então é um tabu. “Ah, escola de engenharia a noite, isso é absurdo!” Era que nem medicina, era proibido. O direito não. O direito, como era literatura, se tolerava, mas engenharia e medicina não. “Nós vamos criar engenharia a noite aqui.” Encontramos resistência muito forte. Mas também propusemos a implantação da nossa marca: duro para entrar, duro pra sair. E aquilo fez com que as indústrias do Grande ABC de São Paulo passassem a manter bolsistas na nossa casa. E hoje nós recebemos todas as noites mais de cem ônibus de bolsistas do Grande ABC e São Paulo. O Grande ABC sofreu uma perda por causa desse regime político, o regime monetário, houve uma queda muito grande e as indústrias fugiram um pouco. Mas nós mantemos ainda um bom número de alunos dessa área. 
P/1 – Seu Milton, hoje a universidade oferece quantos cursos diferentes?
R – Agora você me pegou... Mais de vinte cursos, fora a pós-graduação.
P/1 – E a Educação Física é uma das mais novas...
R – É a caçula. Educação Física, Fisioterapia e Odonto. Está vendo? Nós já estamos entrando na área médica, também... tá no terceiro ano. Então nós, nossa família, temos o cuidado de irmos devagar e firme... e não criar moleza para o aluno, porque na prática da vida, no mercado profissional, vence o melhor. Na competição quem é o grande atleta? Pelé, o homem do século. Por quê? Porque não havia outro igual, aplicado ao treino, aplicado no jogo, não gostava de perder. E nós tínhamos essa política, uma política esportiva. Não perder, ganhar sempre, se possível. Quando não, empatar. O empate já é uma derrota... e manter essa autoridade. Como exemplo, no Santa Cecília, em todas essas formaturas a família comparece. E sempre alguém é homenageado... e o respeito que os alunos têm pela família é fora do comum, porque eles melhoraram o padrão de vida comercial, passaram a ser graças à escola. Hoje nós recebemos de São Paulo cem ônibus, todas as noites, mais ou menos. Esses bolsistas... e com nossos diplomas, graças a Deus, nós temos, formamos, trabalhando nos Estados Unidos, que é um mercado difícil, mas temos lá trabalhando, temos alunos trabalhando na Inglaterra, na França, no Canadá, em Israel, com o nosso diploma e com o credenciamento da embaixada brasileira no setor. É uma vitória que nós gozamos e procuramos manter essa chama que faz dessa distância um bolsão universitário.
P/1 – O senhor vai permitir recuar no tempo e eu queria que o senhor contasse pra gente como foi o seu primeiro contato com os esportes, com a bola.
R – Eu fui trabalhar numa firma inglesa, chamada M. Johnson & Company, eu tinha 13 anos de idade. Família pobre, precisava trabalhar, os irmãos... e lá os rapazes praticavam o remo, então o Anthony Pimenta, que é de origem inglesa me disse: “Milton, nós precisamos de um patrão, que fosse menino, para comandar o nosso “Ioli”. “Ioli” é uma guarnição que tem no remo, estreita, que vai o patrão, que tem que ser... corpo leve... fazer as batidas, como nas galeras romanas. Um, é esse lado, dois, é esse lado de cá, para firmar a remada, porque um rema de um lado e outro rema do outro. Fui lá para o Vasco da Gama, na Ponta da Praia... E o pessoal disse... Aí arrumei uma namoradinha. Adolescente, menino levado, arrumei uma namoradinha muito bonitinha, naquele tempo o que fazia de mais era pegar na mão da menina e dar um beijo. Hoje meu filho dá o beijo e dorme com a namorada. Os tempos passaram. Do remo, eu queria ser nadador mas já havia passado da idade. A natação começa com oito, nove anos de idade. Quem tem catorze, quinze, já tem tempos mais baixos, pelo tempo que o corpo ficou rígido para a prática. Aí o pessoal da natação foi jogar basquetebol, lá no Vasco da Gama. Mas o Vasco era um time imbatível, da família  Mariani, muito tradicional e ganhava os títulos aqui de Santos, do interior e  meu amigo disse: “Olha. Milton, aqui nós não vamos ter vez. Vamos jogar no Brasil Futebol Clube?” Que é na Vila Sapo. Que é no Macuco, na Educação Física da Rosinha, hoje. Aí nós fomos jogar no Brasil Futebol Clube... atravessava um areião, a pé... trabalhava durante o dia e treinava à noite. Comecei a jogar basquete no Brasil. Aí fui indo e conheci minha primeira mulher, numas andanças da escola noturna. Conheci minha mulher, dona Nilza Teixeira e ela me entusiasmava. “Olha, não joga no Brasil, vem jogar no Atlético, perto da minha casa.” O Brasil era na chamada Vila Sapo, era escuro a noite! Era no Macuco. Era no Macucão, né? E o Atlético era aqui na Washington Luís. Tava começando com o ginásio, 1948. Quer dizer, eu já estava com 18 anos. E já estava noivo para casar, imagine... com dezoito anos. 
P/1 – Ah, já tava noivo?
R – Tava noivo já, de aliança no dedo direito. Porque nós não tínhamos, como hoje, essas facilidades. Então a moça... Posso falar pornografia aqui, velada?
P/1 – Pode.
R - O que a gente fazia de mais era pegar no seio da moça, e aquilo estimulava uma adolescente. Porque os seios... É onde nós mamamos na infância, então cria uma... Não uma patologia, uma síndrome, do homem, o leite materno, né? Então a minha noiva, a minha namorada, não passava daí e você com 18 anos tá pegando fogo. (Risos) Tem que derrubar paredes com 18 anos. No nosso tempo não era como hoje com essa liberdade total, que havia ainda os prostíbulos em Santos. Então a juventude ia no prostíbulo uma vez por semana para descarregar, não tinha jeito. Senão você estoura, né? É diferente da mulher. A mulher vai criando romantismo, chora, se despinguela toda... Nós damos vazão. Aí a minha sogra, italiana, calabresa, muito esperta, Deus a tenha em um bom lugar, Leonidia Luzi Pirilo que eu tenho no coração eternamente, me preparava um café com leite... toda noite eu ia lá namorar e tinha bolachinha, bolo de fubá, eu... tá como eu quero, tá como o diabo gosta. Amassa a menina e ainda tem a refeição depois! Eu disse: Ai, que beleza! Mas aquilo vai viciando. Você toda noite pega aqui, pega ali e ainda vem a sobremesa, né? E aquilo foi e nós naquela dificuldade de não ter mãe e o pai casou a segunda vez, trabalhando e praticando esporte... Aí acabei casando, é inevitável, né? Me casei cedo.
P/1 – O senhor trabalhava e aí teve um impulso para casar.
R – É, já trabalhei com treze anos. Aí, precisava casar. Porque meu pai morava com a minha madrasta e nós morávamos na casa do meu irmão mais velho, que era o chefe dos irmãos. Eu falei: o casamento deve ser uma beleza, uma coisa eterna, o amor é eterno. Casei mas fiquei praticando o basquetebol ainda e estudando à noite... o segundo grau, o chamado segundo grau, hoje. Cursava o segundo grau, casado, mas já tinha cursinhos preparatórios, com 18 anos. Ia preparar os alunos no quarto dos fundos, não cobrava nada. O pessoal vinha para entrar no curso preparatório. Concluí o segundo grau, à noite, jogando basquetebol e o meu irmão mais velho falou: “Vamos montar uma mercearia. Que dá dinheiro.” Eu falei: “Mercearia, Nicolau? Tá, vamos.” Fizemos, então, três irmãos. Nicolau, Nelson e eu, Milton. Os outros não quiseram, saíram fora. Então montamos a mercearia, aqui na Senador Feijó, número 69/71. Chamava-se Casa Frutibel, porque é uma marca argentina. Frutibel, produtores de maçã, no Rio Negro, na zona fria, muito romântica, montamos essa mercearia. Eu ficava na mercearia como gerente, meu irmão ia para o despacho, o outro ia para as docas, eu ia para a escola à noite, ainda, saindo da mercearia, ainda ia jogar basquetebol. O pessoal do atlético, o Milton Ruiz, que era o nosso técnico, ele achava que eu jogava mais ou menos, mais ou menos bem, que era técnico do time, ele ia nos buscar com a perua do Atlético. Naquele tempo era um luxo um clube amador ir buscar jogador de perua, de condução. Que nós pegávamos ônibus, nós pegávamos bonde para poder ir treinar e jogar. O Atlético foi inovador, alugava uma perua e ia buscar seus atletas. Ficava bonitinho, roupa trocada, né? Aquele começo de mordomia, mas não se ganhava nada. Já casado, vindos os filhos, ligado ao esporte, ao basquetebol, criei amor pelo Atlético, sempre me empolgava por aquilo, achavam que eu deveria ser presidente do clube, do Clube Atlético Santista, que está no meu coração. Mas eu era muito jovem, então os mais velhos, foi uma briga, uma cisão, e me diziam: “Olha, não entra nessa briga. Você sai fora, você será presidente daqui a quatro anos. Por enquanto é a vez do Emílio Justo.” Família tradicional, família do Osvaldo Justo, deputado. E eu disse: “Não, eu vou concorrer. Eu tenho meu grupo, eu vou concorrer.” Esportista, na flor da mocidade. Foi um período bom do Atlético, porque eu como diretor do social, trouxemos na época os melhores artistas do mundo, aqui no Atlético. Imassu Macchi, Gregório Barrios, vários artistas do cinema...
P/1 – Como é que é?
R – Imassu Macchi, a soprano, a primeira do mundo, né? Aquilo foi uma apoteose. Eu fazia do Atlético a minha casa e aquela vaidade própria da mocidade, eu queria ser o presidente mais novo do clube, como foi meu filho do Santos, anos mais tarde. Aí fomos pra briga, foi uma baixaria, porque aqueles dois grupos se digladiavam. Eu e o Emílio Justo, que éramos candidatos, ficamos sozinhos num canto, conversando. E os grupos opositores, que eram ferrenhos, de rivalidade, se atacavam, quase se pegavam lá na assembleia. Eu perdi a eleição. Graças a Deus eu perdi a eleição. Perdi por quatro votos. Foi 37 a 33. Eram 70 conselheiros, aí o Emílio veio: “Milton, você vem, não vai sair do clube, tal, tal...” E eu, garoto, isso foi em 1960, eu tinha 30 anos de idade. Aí: “Não você fica aqui, eu faço dois anos e você assume o Atlético.” Não, não. Nunca mais fui ao clube. Fiquei com o orgulho ferido, orgulho de criança, de bobo, de idiota, de jovem. Aí falei: perdi, não ponho mais os pés lá. Eu vou levar a capricho isso. E comecei a me dedicar mais, graças a Deus, ao ensino. Ao ensino e mais tarde à alfândega. Fazia curso preparatório e prestava concurso para alfândega. E numa dessas preparações, para agente fiscal federal. Os alunos disseram: “Oi, Milton, você está tão bem, vai conosco prestar o concurso pra nos dar moral.” Mas eu não vou entrar, é muito pesado, são muitas matérias. Aí fui prestar o concurso, passei e fui chamado. E fui nomeado para Itajaí. Levei uma das filhas pequenas comigo, que era meu xodó na época. Era e é.
P/1 – O senhor tinha quantos filhos?
R – Eu já tinha quatro filhos pequenos. Era meu xodó e é, ainda hoje, o meu xodozinho, né? Eu não vou dizer o nome, para não ferir os outros. Levei-a comigo para Itajaí e anunciei a venda da escola. E o sócio, que era, não tinha o dinheiro e disse: “Não, fica com a metade aqui, fica meu sócio, vamos trabalhar juntos e tal.” E eu entreguei a escola pra ele. Um belo dia que eu estava com a minha filha no hotel. Eu ficava no hotel, uma turma nova, começava no imposto federal, eu estava no hotel conversando no restaurante, veio um senhor, um contínuo, um moço inexpressivo até, falava errado, sem dente, modesto: “Que é que você faz, garoto? O que você faz, ô de olhos azuis?” Eu falei: “deve ser homossexual.” Esse cara vai me encher a paciência, quer ver? Não. “Você trabalha na alfândega? O que você faz aí?” “Eu sou fiscal.” “De onde você é?” “De Santos.” “Então me paga uma batidinha aí.” Eu paguei uma batida e falei: “vou até embora, esse cara vai me pegar no pé.”  Aí disse: “Você quer voltar pra Santos?” Eu falei: “é lógico, o meu sonho é esse! Mas o senhor faz o que?”. “Eu sou motorista do ministro da justiça.” Que era lá de Santa Catarina. Eu não vou dizer o nome por questão de respeito, né? Ele disse: “Eu vou falar com o senhor ministro. Você quer ficar adido por um ano em Santos?” Eu falei: “esse cara tá me gozando.” Falei: “quero, tá. Quanto vai custar?” “Que que é isso? Você tá me ofendendo?” Eu disse: “não, tá bom.” Aí eu fui para a alfândega, trabalhar, dali a uma semana vem uma carta. Da nossa agência, o comando era no Rio de Janeiro. Hoje é em Brasília, mas era no Rio, né? “O Senhor Milton Teixeira, fiscal, assim, assim, está adido por um ano na alfândega de Santos. Eu quase tive um colapso. Eu falei: “desgraçado!” Eu fiquei com pena do homem, né? Ah, eu vou procurá-lo. Eu liguei pra ele: “o senhor me desculpe, tal, tal...” “Isso é só o começo.” Ele dizia pra mim. Eu falei: “por que?” “Não, eu tinha amigos em Santos...” Essas pessoas que, serviço contínuo. Aquele que quebra todos os galhos. A gente não avalia essa força. Como na escola, tem o motorista, que  faz o contínuo o dia todo, que é o caso do Richard, né? Se bem que ele é tímido. Eu tenho um outro motorista, o Joaquim, aquilo é uma matraca, fala tudo. Então é o faz tudo, aquele que quebra todos os galhos, e sabe todos os seus segredos também. A vantagem do Richard é que ele não fala, ele é calado. O outro não, o outro tem que andar com cuidado, que  aquele solta a língua mesmo.. Então esse contínuo é quem me conseguiu a transferência e vim para Santos por um ano. Aí, não queria, porque já tinha largado a escola, já. Deixei com esse meu sócio... Ah, fica lá pra ele, uma escola primária só, tem só 500 alunos, não tem problema. Aí eu voltei, então vou voltar para a escola, aí eu vou voltei para a escola. Como eu não queria a profissão na alfândega, que é uma linha dura, um padrão de vida, eu era chamado para os cargos mais disputados. Com o movimento militar, com a revolução, eu fui chamado lá na inspetoria, e o inspetor disse: “Você, moço, vai chefiar o armazém de bagagens”. “O armazém de bagagens? Por que?” “Porque, lá é o mais perigoso.” “Mas, quero linha dura lá no armazém de bagagens”, o inspetor me disse. “Ah, tá bem.” Linha dura, não passava nada. Eu podia até aqui contar um detalhe, eu não sei até que ponto esse museu vai ser visto, fiscalizado e investigado. Vamos meditar um pouco, vou consultar meu anjo, se me permite falar esses detalhes importantes, pormenores importantes. Aí, assumi o armazém de bagagens e fazia a noite, mas trabalhava na alfândega e ia tocando a escola durante o dia, até que  o Monte  Serrat apareceu, estava a venda o Monte Serrat, e nós compramos. E eu ficava na alfândega e na escola. E aí comecei a pedir licença na alfândega. Por incrível que pareça, era requisitado para os cargos mais  importantes da alfândega.
P/1 Seu Milton, qual paralelo, como é que o Santos apareceu na vida do senhor? 
R. Eu era ligado sempre ao voleibol, sempre, e não ligado ao futebol. Eu fui atleta de basquetebol, praticante de basquetebol, joguei no Brasil, joguei no Atlético, joguei no Vasco, e nunca fui ligado ao futebol e, uma vez ou outra, pegava minha filha, a Sílvia, no colo e ia ver o jogo do Santos, gostava do Santos, todo mundo gosta do Santos. E o Santos perdia sempre, não é aquela máquina de hoje. Então, num belo dia, um amigo meu, chamado Gastone Righi, que tinha sido meu aluno no cursinho e era advogado do seu Modesto Roma, presidente dos Santos, e o seu Roma estava meio adoentado. Na história dos Santos eu vou dizer que, o seu Roma foi o maior presidente de todos os tempos. Eu comparo Modesto Roma à Urbano Caldeira, na mesma grandeza. Tanto é verdade, que ele era um homem milionário, através das empresas, de Ricardo Jafet, que era presidente do Banco do Brasil, e ele injetava no Santos o dinheiro dele. As arquibancadas que tinha ali no Santos, quer dizer ainda existem, ele que construia... faliu. O Roma faliu, e me fez presidente, e numa briga que eu ganhei interna, que é clube, disputas, ele foi chamado de “ladrão, fora, fora, fora e fora”, e assim, morreu até disso, de desgosto. Na minha opinião, comparo Modesto Roma à Urbano Caldeira, pela sua grandeza. Foi ele quem me levou para o Santos. Eu era do Atlético, veja bem, do Atlético, do vôlei e do basquete, acabei caindo no futebol.
P/1. Isso na década de sessenta? 
R. Mais. Setenta. Setenta, é. O Pelé estava encerrando a carreira, entende? Então, o Santos já perdeu seu grande atleta, que era o Pelé. E o seu Roma não deixava o Coutinho, o Zito... O Zito deve ter contado isso para vocês. O seu Roma fazia do Santos, quis fazer do Santos, e fez, o melhor time do mundo, de todos os tempos. Essa seleção brasileira de hoje aí, guardadas as proporções, levava uma do Santos. O Santos jogava por música.
P/1.  Sem dúvida.
R. Porque eram atletas super preparados, bons profissionais e amor à sua camisa. Então, num ano o Santos foi campeão paulista, brasileiro, sul-americano e mundial, em sessenta e dois. E repetiu a dose. Foi bicampeão do mundo. Hoje para ser campeão paulista, coitado, faz isso e não consegue porque os tempos são outros. Então veja a grandeza do presidente, que morreu na miséria, porque doou tudo ao Santos, foi colocando... Era descuidado. Eu tomei cuidado. Aí eu falei: “vou pular fora antes que eu fique sem escola até.” E o meu filho também quase cai nessa, por que... Hoje já mudou um pouco a política, porque hoje o presidente compra o passe do jogador e é dele o passe. E é muito justo. Eu acho justo isso, quando ele vende um jogador, ele tira o seu dinheiro que ele investiu e dá o lucro para o clube. Mas, no caso do Roma, e no meu caso também, eu injetava e não tirava, você entendeu? Nós compramos, nos anos 80, faz o que, dezoito, dezenove anos? Eu, me desculpe, eu falar “eu” pessoalmente, a minha família... Compramos Rodolfo Rodrigues, compramos Paulo Isidoro, compramos Lino, compramos Serginho, do São Paulo. E o Serginho, é curioso, o Santos não tinha centroavante, eu falei: “vou buscar o Serginho”. Ele é um goleador nato, mas, bagunceiro, mas um garotão, uma pessoa fantástica, homem de grande caráter. Sérgio Bernardino. Eu falei: “eu vou comprar, vou buscar o Serginho, falta no Santos o Serginho.” Ai conseguimos. Quando nós compramos o Serginho, com o dinheiro da família Teixeira, que é meu dinheiro, o presidente do São Paulo, o Dallora, ele chorava, por dar essa liberação do Serginho. Ele queria sair do São Paulo. Então ele me disse assim ainda: “Ô, Milton! Você está levando o meu filho mais velho”. E com o Serginho, fizemos aquele time forte que conseguiu ganhar o título paulista, em cima do Corinthians, nosso arquiinimigo, com cento e dezesseis mil pessoas no estádio. Hoje vai cinquenta mil! Cento e dezesseis mil pessoas no estádio e o Santos foi campeão contra tudo e contra todos e ganhamos, graças a uma manobra que nós temos na federação, com o presidente da federação José Maria Marin, que foi governador do estado de São Paulo. Ele é são paulino e muito amigo nosso porque muitas vezes, essa amizade, ele disse: “Milton, vem aqui no sorteio que a arbitragem já está escalada. É que o Santos quer outra arbitragem.” Eu falei – isso é bom gravar, que isso é um documento precioso - “Porque? Não tem isso no futebol, tem?” Na copa do mundo teve isso agora na França, o Brasil foi ludibriado, por falta de habilidade perdeu o título por que os franceses foram espertos. “E vem aqui que nós vamos escolher um árbitro.” Aí, eu liguei para um árbitro. Liguei para ele, era o Dulcídio, José de Assis Aragão! Ele tinha feito um gol contra o Santos, a bola foi no pé dele e ele fez gol.
P/1 – No jogo com o Palmeiras.
R – Isso. Eu quase bati nele, no estádio. (Risos). Coitado, não tinha culpa, ele fez gol, não foi intencional, aí eu liguei pra ele: “Aragão...”, você já tá no meio, o meu professor seu Modesto Roma, que era o maior, sabia tudo sobre futebol, dos bastidores. E é bom, porque prepara para a vida. Prepara para o amor, futebol, e prepara para o comércio. Futebol é uma universidade de pós-graduação americana. Eu disse: “Aragão, você quer ser juiz da decisão do campeonato?” “Presidente, não me fala isso!”. “Não estou contra você. Você fez o gol, mas você vai”. “Se eu apitar esse jogo eu vou para a FIFA!”. Veja só, ele contava ponto para ir pra FIFA, ele tinha interesse em apitar bem. Ele disse: “Tá bom. Mas o árbitro já está escalado”. “Quem vai ser?” “Vai ser o Dulcídio.” “Não diga! Não tô sabendo.” “É, vai ser.” “Mas vão me escolher.” “Tudo conversa!” Aí, eu baseado na filosofia do seu Roma, procurei uma amiga minha, amiga do coração, da escola, que tinha amizade com o presidente da federação, com o Marin, Guarujá, jantar, ela ia junto com ele. Devia ter algum envolvimento ou não, mas isso não me interessa, não sei se tinha ou não tinha ou se apenas era uma amizade de irmandade. Eu liguei pra ela: “Preciso da sua ajuda.” “Porque?” “Vai escalar, lá, o juiz e eu queria que o teu admirador me ajudasse.” “Ah! Milton ele já está escalado.” Ela acompanhava, né? “Ele já está escalado, mas vou ver o que posso fazer. Vamos a São Paulo.” Levei o Zito... Ele não contou aqui, ontem, isso? 
P/2 – Não. Isso não.
R – Não contou, decerto com receio. Levei o Zito e levei o Cassio, que foi jogador do Santos e era diretor de futebol. Levei os dois. E falei: “Eu não vou entrar em cena, entram vocês, tá?” Aí, o Corinthians foi lá pra reunião, o Marin presidindo, pra escolher. Não é como hoje, que esse presidente resolve tudo e liquida, não. A gente brigava, né? O presidente da Federação, não o do Santos. Abrimos a reunião, um grupo de lá, um grupo de cá... Tudo cinema. Eles já tinham no bolso o Dulcídio, o Corinthians. E já escalado! E o Santos queria mudar, queria por o Aragão, que fez o gol contra o Santos e queria apitar. Abriu a cerimônia, o Zito falou, vai falar com o presidente. “O Santos escolhe Dulcídio Wanderley Boschilia!” Foi uma bomba! Já engavetou o cara, o pessoal do Corinthians. Fiz cinema, né? Aí, esse rapaz da Democracia Corinthiana: “Vamos pensar.” “Não abro mão! O Santos quer Dulcídio ou não entra em campo!” Aí o “Zito, não dá palpite aqui, Zito! Quem fala aqui é o presidente! Eu que pago as contas! Eu sei onde arde. É no meu que arde!” Ainda fiz o sinal. (RISOS) Aí o Zito... aquele cinema todo, ele e o Cassio ficaram quietinhos, né? Foram lá fora, ligaram para não sei quem, ligaram pra outro, tal, tal. O Waldemar Pires, que era o presidente do Corinthians, veio com a resposta: “O Corinthians quer o José de Assis Aragão!” Eu virei a mesa, bati no copo: “Eu não aceito esse ladrão, de jeito nenhum! O Santos joga sob protesto! Mas joga! (RISOS) Senhor Presidente da Federação, o Santos joga sob protesto!” “O senhor não escala aqui, quem escala é o presidente! Tá escalado o Aragão!” O Marin, que era nosso amigo, são-paulino, aceitou. Ele queria ir para a FIFA, não roubou, não. O Santos era mais time do que o Corinthians. Time por time, era o Santos. Rodolfo Rodriguez, Serginho, uma máquina de jogar futebol! Máquina! Só o time dos anos sessenta é que era igual. Aí, fomos para o jogo, ficamos eu e o Zito no vestiário, tomando um uísque. “Eu não vou ver o jogo, Zito. Eu não vou ter coragem.” Nem ele. Ficamos no vestiário o meio tempo todinho. O primeiro tempo. E o relógio não passa. Aí vem o meio tempo. Quanto está? Zero a zero. Estamos ganhando.
P/1 – Só precisava do empate?
R – Só precisava do empate. Estamos ganhando. Vamos manter o empate? Aí o Rodolfo falou um nome feio, o Rodolfo, um uruguaio daqueles, espanhol, daquele tipo calabrês, né? Falou um nome feio. “La bola não entra! Que se entrar dou um soco no cara!” Então aquela atmosfera foi criando ânimo nos jogadores, aquela garra nos jogadores. Veio o segundo tempo, o João Paulo chutou uma bola, a bola ia entrar e o Aragão adiantou um passo. Já tava no campo, já. A bola bateu no pé dele e saiu. Muito bem, aí quando veio assim, eu tava todo de branco, eu falei: “Nossa Senhora do Monte Serrat nos ajudou, somos devotos e como devotos acendemos umas velas, fazemos promessa, defumador...” Aí, numa hora ele falou: “Presidente, o senhor não pode ficar aqui no campo. Fora!” Aí faz um sinal, assim. “Estamos quites né, presidente? Já paguei o gol, né?” (RISOS) Assim mesmo. Assim mesmo o Aragão fez. Quer dizer, talvez tenha sido não intencional. 
P/1 – Deu um, tirou outro, né?
R – Aí o Santos marcou, o gol do Serginho. 
P/1 – Como é que foi o lance? O senhor se lembra?
R – Foi do lado esquerdo. O Santos atacava do lado de cá do Morumbi e o Corinthians do lado de lá. Mas o Márcio Rossini e o Dema... Grande jogador o Dema! Grande volante! Grande, grande, grande! Eles tinham um estilo de dar um toque de bola maravilhoso, e o Márcio é um grande xerife! Então, ele pegava o João Paulo e entrava com tudo. João Paulo sumiu do jogo. Arturzinho sumiu! O Santos joga pesado, firme! Com garra. Chegava junto. Num lance pela esquerda o Paulo Isidoro, serviu o Serginho, aí teve um corner, centraram e a bola caiu no pé do Serginho, no pé esquerdo dele, que é o bom. Ele só sabe chutar com o pé esquerdo, com o direito ele é “cego”. Só para pegar bonde, o direito. Ele tocou, um a zero Santos. O Santos precisava do empate, o Corinthians precisava de dois gols para ganhar. Impossível. E o Santos, depois fez o segundo gol. Não recuou, não. Eu fui para a beira do campo e falei para o Castilho, o técnico: “Não recua, seu treinador, seu Castilho. Não recua, não. Massacra! Massacra!” Ele viu a nossa voz de presidente. E o Zito veio comigo, também. Devia estar aqui o Zito, hoje! Aí o Zito veio junto. “Vamos massacrar, vamos fazer outro, senão perdemos!” Aí o Santos foi acuando o Corinthians, Paulo Isidoro, Serginho, Lino... Foi um passeio de bola. Um vareio de bola! A galera do Corinthians, a fiel corinthiana, começou a abandonar o estádio. Liquidou com o Corinthians aquilo. Foi psicológico. Porque o Santos não dava espaço. Começou a abandonar o estádio e o Santos começou a tocar a bola. Aí ganhamos de um a zero. Oitenta e quatro.
P/1 – E como é que foi a festa, depois que o juiz apitou?
R – Eu fui para o vestiário com o Zito, eu gosto de tomar uma dose de uísque, três dedos de água, dois de uísque, ou vice-versa. Aí eu falei: “Zito, eu vou tomar a garrafa toda!” (RISOS) Na tensão nervosa! Aquilo é uma loucura! Aquilo é uma loucura! Futebol é uma loucura. É pior do que amar uma mulher e não ter como tê-la! Tomamos uns três uísques, eu e o Zito, viemos embora e havia a passeata da vitória, aqui em Santos. Eu estava tão desgastado fisicamente que ainda tive força para subir a escada do Monte Serrat. Vim com meu carro e meu motorista, ele é santista também, subi a metade da escada, não aguentei. Aquele dia todo, a véspera, acendi minha vela ali e fui embora. O pessoal fez a festa, eu fui pra casa dormir, não participei da festa. Não tinha mais força física, nem espiritual. Mas a cidade pegou fogo, foi todo mundo. A Praça da Independência ficou coalhada de gente, carros, buzinaços e foi até de madrugada. Depois fizeram uma sessão solene e em decorrência disso e de outras atitudes o Conselho me concedeu o título de Grande Benemérito, do qual eu sou o sétimo. Só tem seis beneméritos, eu sou o sétimo do Santos. Parou aí. É um número cabalístico o sétimo. Com a vitória em cima do Corinthians, nosso arqui-inimigo.
P/1 – Seu Milton, então nós vamos voltar aqui, no tempo, começamos pelo fim, né? Eu queria que a gente voltasse a 83 e o senhor contasse como começou a sua gestão de presidente. Como o senhor encontrou o Santos, o que o senhor começou a fazer nesse primeiro momento.
R - O regime do Santos, como de todos os clubes do Brasil, são regimes amadores. Agora melhorou um pouco, com a Parmalat que, por exemplo: eu comprei metade do time do Santos, na época. Rodolfo Rodriguez, Paulo Isidoro, Serginho, Dema, e vendi todos os jogadores e dei o dinheiro para o Santos. Hoje não faria isso, que o jogador é meu! Meu filho, como presidente, recentemente, ele teve uma atitude idêntica e vendeu um jogador que o Santos não podia comprar. Almir. O Juan Figer comprava todos os jogadores, e o jogador é dele. Foi oferecer Almir para o Santos. O Santos não podia comprar. “Marcelo, compra, filho! Compra que é um bom jogador!” Ele comprou. Então fui na sessão do Conselho do clube e disse: “Olha, o Santos não tem dinheiro para comprar o Almir. Meu filho, Marcelo Teixeira, que é o presidente do clube, vai comprar o passe desse jogador, mas o passe é dele e do Juan Figer, meio a meio.” Todo mundo concordou, palmas, tá, tá, tá, e o Almir jogou aí. Jogou uns tempos. É um grande jogador, né? Aí, o Figer resolveu vendê-lo. Um grande empresário. E consultou o Marcelo. E o Marcelo: “Não! Não faça isso!” E o Juan: “Não. Vou ter que vendê-lo.” Depois de dois, três anos. E vendeu o jogador e nos pagou pelo empate do dinheiro. Até hoje, no egrégio conselho do Santos Futebol Clube, acusam o meu filho de uma fama imerecida, que é um rapaz, de ladrão. Porque foi sócio do Figer no passe do Almir. Imagine você que desmoralização para o Santos, não para o meu filho. Caluniam um jovem idealista, como ele é. Ele ficou meio abalado: “Ah, pai...” “Não, filho. Continua. Isso é assim mesmo! Você não viu nada ainda! Isso é da vida! É bom essa porrada que você tá levando agora! Vai levar outras.” Ele vendeu o atleta e hoje isso é moda. A Parmalat compra todos os jogadores, põe no Santos, vende e dá uma banana pro Santos. E cobra o empréstimo, ainda. E ele comprou o jogador e emprestava para o Santos de graça. Nós compramos Rodolfo Rodriguez, seis, sete, vendi e deixei no Santos o dinheiro. Não faria isso hoje. Não comprei o jogador e daria. Não. É um investimento. Trouxe para o clube, o dinheiro é meu. 
P/1 – Quando o senhor chegou, resolveu reformular o time e fortalecer. Como é que o senhor chegou a esses jogadores? O senhor tinha olheiros, ou o senhor é que intuiu... Como é que eles apareceram?
R – Eu sou do meio esportivo. Eu sou ligado ao voleibol, basquetebol, pratiquei basquetebol, nadei também um pouco, então esportista tem outra visão do esporte. Todo presidente de clube tem que ser esportista na mocidade. O esportista tem essa visão. Vêm os olheiros e indicam. Mas o bom é você contar com um ex-jogador de grande quilate. Eu tive a felicidade de escolher o Zito. Primeiro: grande atleta. Campeão do mundo, pelo Santos, duas vezes. Capitão da Seleção Brasileira, campeã do mundo, time imbatível em qualquer circunstância. O time do Zito não perdia na França. De jeito nenhum. O jogo não terminaria, mas o Brasil não perderia. A moral dos jogadores, essa de hoje, não! É guerra! Vamos comer grama! E o Zito, presenciei no Santos ele sacar da camisa e o crioulo, que é o maior atleta do mundo, vocês sabem quem é, não vai aparecer outro igual, em compleição física, em qualidades, não existe outro igual, que nem o Pelé, o Zito pagava a camisa, como capitão do time, tirava assim, toda enlameada, às vezes com sangue: “Olha aqui, nego safado, como é que tá minha camisa! Ou tu joga dentro do campo, ou tu não joga mais no Santos!” Aí o crioulo, baixinho assim, marcava cinco. Seis gols. É um atleta que tinha essa dignidade. É o Zito. Falam do Pelé, que é realmente o maior atleta do mundo, mas na minha ótica de presidente do Santos, de presidente do Conselho, de Grande Benemérito, o Zito é o símbolo do Santos, como é Urbano Caldeira. Nunca vi coisa igual. Nós íamos para o vestiário, uma ocasião, eu não era mais presidente, era presidente do Conselho e o presidente era aquele árabe, aquele que foi afastado, Miguel Kodja. Fomos para o vestiário, pra ver o jogo, me deu lá uma comoção e o Zito também estava nervoso, eu acabei na enfermaria. O doutor Braga que me atendeu. Tal a emoção do futebol. Aquilo é uma loucura! Você vai se empolgando, começa a chutar a cadeira no jogo, chutar assim, a dar tapa, o goleiro faz, você faz assim, a bola vai passando você faz assim, você tem uma tensão nervosa nos noventa minutos. Só quem é esportista e que é ligado ao futebol profissional, tem amor na coisa, é que não vive isso. O seu Roma morreu pobre. Os filhos do Seu Roma nem vão ao clube. O Modestinho, que ainda está vivo, e o Carlos Roma já morreu. Os netos vão, ainda. São dois fortes, brigam pelo clube, gostam do clube. Então, perdi o fio da meada...
P/1 – O senhor entra em 83 e começa a montar um time que se tornaria forte, inclusive vice-campeão brasileiro em 83.
R – Fomos roubados, hein? Fomos roubados.
P/1 – Que time era esse? O senhor poderia contar quem eram os jogadores, de onde eles vieram?
R – Rodolfo Rodriguez. Nosso goleiro, antes, era o Marolla, mas o Marolla era bom, mas, né? Era o Rodolfo Rodriguez, Márcio Rossini e Toninho Carlos... 
P/1 – Seu Milton, que jogadores, então, o senhor trouxe para o Santos?
R – Primeiro eu comprei o João Paulo, no tempo do seu Roma, que era um atleta franzino do São Cristovão. Comprei o passe e dei para o Santos, 1976. O passe do João Paulo fomos nós que compramos, naquela época. Quando nós pegamos em 83, fomos convidados pelo Hernesto Vieira da Silva para ser vice de futebol, o time estava numa pior. Aqui na Vila Belmiro, o Santos jogou contra o Noroeste e perdeu em casa. Quase quebraram o estádio, a torcida, quase. Aí o Hernesto Vieira me convidou para ser vice de futebol. Eu não ia aceitar, porque vice é sempre vice. Então o Hernesto Vieira era o presidente, em 83 e eu era o vice-presidente. Eu disse: “eu vou agir.” Porque a minha ligação com o Douglas Machado, que é da época do voleibol, que é diretor do Santos. Então eu falei: “O Santos não tem goleiro, vamos comprar Rodolfo Rodriguez.” Mandei o meu genro, Antonio Sales Penteado, lá no sul, no Uruguai e compramos o Rodolfo Rodriguez por 120 mil dólares. Porque o passe era mais baixo naquele tempo e o Santos não tinha dinheiro. Eu cacifei. Aí o Santos precisava comprar um volante, porque não tinha volante. Aí tava o Dema, dando sopa, foi morar em São Vicente, essa terra abençoada, só tem gente fina. Trouxemos o Dema. Já tinha o Rodolfo, apareceu o Márcio Rossini, então passamos a fazer a espinha dorsal do time. Nós e o Zito, porque o Zito é um boleiro. O Zito é quem entende da malandragem, né? Foi ele quem jogou na Seleção Brasileira, capitão do time e tal. “Milton, temos que fazer a cruz. A espinha dorsal: o goleiro, o zagueiro central, o volante, que vai e vem, e depois os laterais que é pra guarnecer, né? E o Chiquinho. Aí, estava à venda o Paulo Isidoro, brigado no Grêmio, não tinha pra comprar, aí falei com Fábio Khoffi, comprei Paulo Isidoro. Dei um almoço pra ele na minha casa. Fiz o contrato com ele. Dei as luvas. O Santos ficou de me pagar esse dinheiro, até hoje não pagou. Mas um dia vai pagar. Comprei o Pulo Isidoro, aí já tinha a espinha dorsal. O São Paulo estava atrás do Pita, que era o sonho do São Paulo, que o Pita era nosso, era bom jogador, né? E ele está radicado até hoje no São Paulo, não ficou radicado ao Santos, o Pita. Criado na Vila Belmiro, ele. 
P/2 – Prata da casa, né? 
R – Prata da casa. Ele e o João Paulo. Aí o São Paulo propôs trocar o Pita e nos daria o Serginho no meio da transação, uma composição. Nós estamos sem centroavante e o Pita está sem ambiente, ele quer sair do Santos. Aí eu falei: “Então, você me dá mais coisa. Me dá Serginho, Humberto e Zé Sérgio.” “Não! Pelo amor de Deus, não me fala isso!” “Não! Só faço negócio se nós compormos com o Serginho, Humberto e Zé Sérgio.” Que era o ataque do São Paulo. Um bom ataque do São Paulo, né? E mais a defesa que a gente tinha, com o Márcio e o Rodolfo Rodriguez. Eu falei: esse time vai ser campeão do Brasil. Na minha óptica, né? Aí, vai, não vai, vai não vai. Fui à casa do Pita. “Pita, vai para o São Paulo, lá é melhor que o Santos, tá pagando melhor que o Santos. (RISOS)” “Ah, tem razão.” “Vai ganhar quinze por cento no passe, e tal.” Aí o Pita começou a ficar do nosso lado também, pra ir pro São Paulo. E eu queria o Serginho, que era um artilheiro nato, é artilheiro nato, fantástico. Aí o São Paulo entrou. Quando eu fui buscar o passe do Serginho, em São Paulo, o Dallora chorava. Da amizade que tinha pelo Serginho, que o Serginho começou no São Paulo, mas aprontava muito.
P/1 – Ele foi o maior artilheiro do São Paulo, até hoje. 
R – Até hoje. E no Santos também. Quem mais? Antoninho, talvez, não tenho estatística pra isso. Eu falei: “Serginho, você quer ir pro Santos?” “Vou, que eu gosto do Santos! Adoro o Santos. Agora, presidente, tem uma coisa: quero ir pra praia, no Sábado quero tomar uma birra, não quero me concentrar.” Aí eu falei: “Porra! Não pode, Serginho!” “Não vou transigir. Você ganha os jogos?” “No campo é comigo! No campo é comigo!” E é verdade. Grande atleta! 
R – (...) E ama muito as filhas, as meninas. Um pai maravilhoso. Aí eu trouxe o Seginho, foi uma apoteose, aquilo deu aquela chama! O maior centroavante do Brasil! Isso em 83. Veio para o Santos. O Dallora chorava e eu ficava contente aqui. Montamos a espinha dorsal. Rodolfo, Márcio, Dema, Paulo Isidoro, Serginho e Humberto, tá formado. O resto vai preenchendo, né? Esse time era imbatível. Aí, quando eu comecei o mandato, o Santos foi campeão, ganhamos alguns títulos na América do Sul, na Europa, havia convites. Fomos jogar no Japão e ganhamos a Taça, no Japão. Isso foi em 86. Aí, eu já estava cansado de injetar dinheiro, cansado também de futebol, você não dorme, tensão nervosa, um desgaste muito grande, emocionalmente, você é apaixonado, você não é empresário, você é apaixonado. Sabe lá Deus quantos maços de vela eu acendia para Nossa Senhora do Monte Serrat, para o Santos empatar, nem ganhar o jogo. Depois, meu filho presidente, no meu quarto, quanto eu implorava aos anjos, não deixe o Santos perder. Aquela crença que existe, né? Não pudemos segurar mais. Já era uma máquina! Se nós tivéssemos esse patrocínio que há hoje, da UNICOR, que agora caiu um pouquinho, começa a injetar e não aguenta, tem que vender o time. E mais os nossos associados, e mais o Pelé, para injetar... Porque o sócio, o simpatizante, o torcedor, quer ver a vitória do clube, não quer saber do jogador. Ele quer o time ganhando em casa, pra ele tomar a cervejinha, bater na mulher, se perder o jogo, não é isso? Que fica emocionado, né? E desafogar as mágoas. Não conseguimos segurar o Serginho. Eu disse: eu vou encerrar a minha carreira como dirigente de futebol. Aí, meu filho, teimoso, pegou o Santos. Penou um pouco, não conseguiu ser campeão, mas fez uma boa campanha. 
P/1 – Quando foi que o Marcelo...
R – Marcelo foi em 91, 92, 93, depois veio o Kodja, teve aquele problema com o Kodja, foi acusado injustamente, teve lá um processo no Conselho, que eu acho um absurdo, porque o Miguel Kodja pode ter muitos defeitos, não é meu amigo, não estou falando porque tenho simpatia por ele, mas se fez lá um processo contra um presidente que, basta ser presidente para trabalhar. Acho que está na hora de o Santos rever essa posição e dar ao Kodja o lugar que ele merece no clube, como esse presidente. Agora com essa transformação de UNICOR e Parmalat, o futuro do futebol é isso. Vai ter empresa que vai comprar os jogadores, os jogadores, atletas, são da empresa: da Pelé Sports, de quem quer que seja, do Zito S.A. A empresa cede ao clube, em troca de alguma coisa, valoriza o seu atleta ou não, depende. Tem uma contusão, perdeu o atleta. E vende, depois, para a Europa, que é o mercado mais forte. Que lá a moeda deles é vinte vezes mais forte que a nossa moeda. A gente fica: “Ah, lá é a maior fortuna!” Não é. É que lá o padrão de vida é outro, na Itália. Na Itália, na Inglaterra, outro padrão de vida. Há jogos que a renda são cem milhões de dólares, um jogo. Coisa astronômica, né? Com a tendência do futebol profissional é isso. As empresas tomarem conta do espetáculo. Como é o basquetebol americano. Vem lá o Magic. O passe é dele. Faz o que bem entender. A tendência do futebol profissional é essa, e manter o espetáculo, que o futebol, em si, é uma paixão. Como todo esporte, né? É uma paixão. A pessoa vai lá, se empolga. Eu, ultimamente, voltei a ver os jogos do Santos. O presidente Samir me convidou, o Pelé... “Milton, volta pra lá. Vamos fazer essa equipe associativa, tal.” Mas antes eu não conseguia ver jogo do Santos. Eu via o pontapé inicial e ia embora. Ligava o rádio no carro, primeiro tempo, como está? Um a um, dois a um, tá. No fim... entendeu? Uma tensão que nem um amor feminino nos leva a isso. É um jogo, você fica empolgado. É impressionante. Eu espero que o meu filho Marcelo não seja mais presidente do Santos, mas tem um outro que vai ser presidente do Santos, que é o Milton Teixeira Filho. Ele é fanático pelo Santos. Ele, contra a minha vontade, pega o ônibus e vai a São Paulo ver jogo. E fica no meio da galera. Ele é árabe, ele é agitado, ele quer a bagunça. 
P/1 – Que idade ele tem? 
R - Meu menino está com 17. Esse aí vai ser presidente do clube, tenho a certeza. E já é conhecido, lá. Conhecido das torcidas. Ele já começou muito cedo e quando chega: “Ó, lá vem o Miltinho! Ó o Miltinho, lá!” A galera já o recebe carinhosamente. Mas teve um acontecimento que eu quero contar pra vocês. O Santos jogava no campo da Portuguesa, um jogo importante. Só que nós tínhamos mudado esses medalhões. Em 86, mais ou menos. E colocamos os mais novos dos juniores para jogar. O Santos perdeu por um a zero para a Portuguesa de Desportos. Eu tive sempre com a torcida um grande prestígio. No tempo do Roma, no tempo do basquete, na derrota eu ia no meio deles e não acontecia nada. Então Marcelo, que já era o presidente, disse: “Papai, vamos para o vestiário e vamos sair pela porta do fundo.” Mas no campo da Portuguesa não tem a lateral do fundo. Ficamos presos. Entre o vestiário e a galera. E a Torcida Jovem, que é a mais fanática de São Paulo, a que nós mais ajudávamos, em fogos, em camisetas, ta. “Vamos pegar o presidente, Vamos pegar o Marcelo, vamos pegar o Milton Teixeira do Conselho, aqueles bandidos! O Santos perdeu por causa deles!” Eu falei: “Filho, a coisa tá feia, né?” Eu estou de branco, ( ____ ) no estádio. Chamei o delegado. “Ó, Milton, só tem uma solução: você vai sair no carro de preso. No carro de preso, abaixados, você e seu filho.” E saímos, os dois, deitados, no carro de preso. A torcida brecou o carro, com aqueles bambus: “Cadê os Teixeira, aqueles bandidos, aqueles filho disso, daquilo.” O delegado: “Já foram embora! Vamos dispersar!” E foram embora. Nos levaram até longe. Eu tinha um motorista, que faleceu, chamado Milton, meu xará, né? E eu tinha uma Mercedes azul. Eu gosto de Mercedes azul, é um prazer que eu tenho. Outros gostam de mulheres, eu gosto da minha Mercedes. Eu gosto de mulher, de vez em quando. Das minhas filhas, principalmente. Aí, chegando na rua, perto da fábrica, o guarda falou: “Já saíram.” Aí peguei o carro do Milton. Mas o Milton tomava todas. Todas as “caipiras” ele tomava. Ele já tava pra lá de Bagdá. “Não tá firme, então eu vou levar o carro!” “Não! Patrãozinho, estou bem, estou bem.”, e tal. “Os bandidos já foram embora.” Aí vem a torcida. “Oh, Deus me livre da cruz” Bambus, mais de mil! “Milton Teixeira! Filho disso, filho daquilo! Marcelo Teixeira! Vamos virar o carro deles!” E veio aquela malta! Meu filho! Um temor, né? “Milton, manda bala!” Aí ele rodou. “Patrãozinho, fica calmo! Fica calmo, que eu conheço aqui o ambiente, tal... aqui tem uma fábrica... já chegamos lá!” Ai, tá, tá, tá. “Ih, patrãozinho. Deu zebra!” “O que que é?” “Rua sem saída!” (RISOS) Eu falei: “Ah, meu filho! Eles vão nos matar, bebida, outra coisa, né? Eles estão com os olhos esbugalhados! Eles vão nos matar! E agora? Milton, volta aí, vai em frente, roda e tenta burlar ali.” Uma quadra antes, que tinha saída, né? Esse grupo era pequeno. Mas tinha mais de mil. Tudo com aqueles bambus das bandeiras, atrás de mim e dele. Eu era presidente do Conselho e ele da Diretoria. Deitamos de novo e eles vindo, correndo atrás do carro! Não sei que força que eles tinham. Força diabólica, né? “Milton, vai em frente, não para, vai em frente!” Aí saímos dessa. Aí falei: “Marcelo, você vai fazer um juramento comigo.” “O que é pai?” “Nunca mais nós vamos no estádio ver um jogo do Santos.” (RISOS) Nós podíamos ser esmagados. Eles ficam tresloucados. Impressionante! Aquele foi um episódio inesquecível. O meu filho ficou uns dois meses assim: “Ah, papai, o senhor tem razão. Dessa vou desistir. Vamos no esporte amador que é melhor.” (RISOS)
P/1 – Senhor Milton, o senhor estava contando no intervalo um episódio que aconteceu na final do brasileiro, Santos e Flamengo.
R – No Rio? 
P/1 – É.
R – Nós fomos na casa do... Ali já foi tudo armado, tudo armação que houve. Foi em 83. Eu era vice-presidente. O Flamengo precisava ser campeão. O time do Zico, do Junior, um timaço. Tinha um goleiro argentino muito bom, muito bom. E o Santos também, um time, de igual para igual. O Maracanã lotado. No começo do jogo, os flamenguistas jogavam urina nos torcedores do Santos, uma barbaridade! Fomos almoçar na casa do Saad, que é um grande empresário do Rio. Ele me chamou para um canto e disse: “Olha, Teixeira, vocês não vão ganhar o jogo hoje.” E eu: “Por quê?” “De jeito nenhum. O Flamengo vai vender vários jogadores. Tá numa pior. Precisa ganhar o jogo e está tudo armado. Nós vamos ganhar de qualquer jeito. E fomos para o estádio. Ao meu lado estava o Márcio Calves, que era jornalista da Tribuna, ainda é um dos chefes da redação, e tremia que nem vara verde. Meu amigo Fernando Oliva, que Deus o tenha em um bom lugar, vereador, meu grande amigo, do meu lado também. O Fernando Oliva fumou três maços de cigarros, naquele jogo. Três maços de cigarro num jogo! Veja o que é o futebol. A emoção. Fomos na casa do Saad, ele deu aquele banquete e tinha uma moça que se afeiçoou comigo, achar que eu era uma pessoa simpática a ela e era muito ligada ao pessoal ali. Uma morena muito bonita, até. Fomos na praia, lá embaixo, conversar e eu, malandro velho, aproveito a hora do amor para falar também sobre a parte do esporte, me interessava, né? E disse: “Escuta. O que tá ocorrendo aí, doutor Milton, o senhor tire o cavalinho da chuva, que o Santos não vai ganhar o jogo hoje. De jeito nenhum, porque o Flamengo já acertou tudo. O Flamengo precisa ser campeão. Ele vai vender o elenco todo, depois, pra saldar as dívidas.” E eu não levei aquilo muito a sério. “Tá, à noite eu volto, pra gente conversar, tomar um uísque, tomar um guaraná. Tá bem, então.” Aí fomos para o jogo. O que fizeram com o Paulo Isidoro, com Serginho. Aquela briga, que ele se envolveu. Tudo provocado. Foram até presos, o Paulo Isidoro, o Serginho e o Dema foram presos. Aquilo foi um roubo caracterizado. O Santos foi furtado, no Maracanã, perante 170 mil pessoas. Não tinha doutor que desse jeito. E o Flamengo foi campeão. Pois isso é futebol, para o qual você precisa estar preparado. Então você vê essas coisas e diz o seguinte: “Ah, eu não vou mais me meter em futebol. Isso é loucura. Vou cuidar da escola, que é o meu botequim e ponto final.” De repente você volta, você vê? É uma paixão! Como toda paixão, momentânea, e só se cristaliza quando é amor puro. De Urbano Caldeira é amor, porque ele mandava lavar os calções. Numerava as camisas. Urbano Caldeira era fiscal federal da alfândega, também. Foi ele quem levou as ovelhas para aparar a grama do Santos e largar o dejeto, as fezes das ovelhas e o campo da Vila era um tapete, no tempo do Urbano Caldeira. Eu considero ele o maior dirigente do Santos, de todos os tempos, não o conheci, mas pela história do Santos. Depois, eu qualifico o Athiê Jorge Cury , também um grande dirigente, político...
P/1 – O senhor pode contar um pouco, para quem não conhece, quem foi o Athiê? 
R – O Athiê Jorge Cury era um corretor de café, que veio de Piracicaba. Não tinha estudos, filho de imigrantes árabes, difícil, naquele tempo, foi ser corretor de café. Um homem bonito, um moreno muito... goleiro do Santos, nos anos 28, 29. Amigo dos donos do Parque Balneário, da família Fracarolli. Santos era uma cidade de primeiro mundo. Porque havia o jogo. Havia o Parque Balneário Cassino, havia o Atlântico Hotel Cassino, havia o Guarujá Cassino. Então, havia muita movimentação de capital estrangeiro na cidade. E a praça cafeeira, que era riquíssima, na cidade. O Athiê era corretor de café, amigo do pessoal que frequentava o Parque, porque ele era amigo do dono, do Fracarolli e goleiro do Santos, no tempo do romantismo. O Athiê foi o primeiro homem que teve um automóvel, uma baratinha conversível e quando o Santos ganhava ele subia no carro – isso contado por ele, porque eu não era nascido ainda – “Lá vem Athiê!” Então ele cantava a música, do Athiê com a baratinha. E, com o tempo, Athiê, através do futebol, convidado pelo presidente Jânio Quadros, para ser oposição, você sabe, nessas manobras políticas, ele foi ser deputado. Primeiro estadual, depois federal. A ele eu devo muito, também, na Universidade. Na criação dos primeiros cursos, quando a coisa fervia e em Brasília não se conseguia, eu ia ao escritório dele. “Athiê, vai me ajudar, lá. Eu preciso abrir tal curso e tô encontrando oposição de Piracicaba, das cidades concorrentes, do Mackenzie, de São Paulo, da própria USP...” “Vamos lá!” “E o Athiê gostava da Mercedes, minha secretária, essa moça aqui, loira. Ele gostava porque era a Jorgina, que era a secretária do Athiê e a Mercedes minha secretária. Ficávamos juntos, jantávamos juntos, família, né? E nessas horas políticas eu jogava a Mercedes, eu ficava lá atrás, e o Athiê jogava a Jorgina e ficava atrás. Elas iam e faziam os pedidos, nos ministérios políticos. E assim nós conseguíamos, nós, não, todas as escolas de Santos, devem ao Athiê a implantação dos cursos e os sindicatos também. Ele era um freelancer, o Athiê. Jogava na oposição ou na situação, como sempre foi um homem apaixonado pelas coisas do Santos, pelo Bloco do Bola. Aqui em Santos tinha o Bloco do Bola, né? Aquelas coisas melódicas, dos violões, das flautas... O Bilu, que foi goleiro do Santos, e o Salu, que foi massagista do clube, eles faziam aquele Bloco da bola alvinegra, que era um esplendor. Não há mais, hoje na cidade. Eu falo em homenagem a essas pessoas, que fizeram do Bloco do Bola, a alegria do carnaval, a pureza do carnaval, não das drogas, do vício. Da pureza de cantar, de brincar, expandir sua alegria. O Athiê tinha esse condão, de jogar nos dois times politicamente. Ele conseguia para o Santos as grandes coisas. Várias vezes o Pelé seria vendido para o exterior, eu era diretor de voleibol do Santos, e ele dava o soco na mesa: “Se o Pelé for sair do Santos, eu renuncio para a vida toda do Santos. O Santos nunca vendeu o Pelé. Valeria quanto o Pelé hoje? Cem milhões de dólares? Montaria um novo time, na época, que havia vários times na Europa querendo comprá-lo. Ironia do destino, depois o Santos permitiu, pela idade, que ele fosse jogar nos Estados Unidos. O Cosmos. A Warner, que é um poderio judaico do cinema, da arte, queria montar um time de futebol nos Estados Unidos e levaram alguns brasileiros. Mas não deu certo. Como o Pelé tava em fim de carreira, encerrou a carreira dele, deu a volta olímpica na Vila, comoveu todo mundo, o pessoal chorou... Quem viu, viu, quem não viu, não verá outro igual e é uma verdade isso. Ele foi para os Estados Unidos. Ele, a Rose, o Edinho, ainda pequeno, menino e, através da Warner, se filiar ao Cosmos. O De La Serra era o gerente. Não tinha o futebol americano, não existia. Tinha o beisebol, menos o futebol. E o crioulo introduziu o futebol nos Estados Unidos. Nós fomos jogar, essa passagem é muito interessante, com o Cosmos no Giant Stadium, que é de beisebol, adaptado para o futebol e antes os americanos ofereceram um banquete, toda. Ficou combinado o seguinte, o Pelé jogaria meio tempo para cada um. No primeiro tempo o Santos fez um a zero. Não, o Cosmos fez um a zero. O Santos empatou, um a um. O Pelé jogava nos dois times, primeiro em um e depois no outro. Mas jogando para o Santos ele não vestiu a camisa como ele vestia sempre, entende? Não sei se vocês me compreenderam. Ele não fazia aquele esforço que ele fazia dar o murro no ar, que era característico. E nós perdemos o jogo de dois a um. No final do primeiro tempo eu fui ao vestiário e fui falar com ele. “Ô, crioulo!” Naquele tempo eu chamava ele de crioulo, mas é Pelé, né? “Crioulo, esse cara tá nos roubando, o juiz inglês.” Ele com a camisa do Cosmos: “Isso é lá do De La Serra, eu sou jogador aqui e bé, bé, bé...” E o inglês tava lá, que o juiz ia ser o, era um que nós levamos, que era da Federação. Ele se vestiu todo, se paramentou, fez aquecimento, aí me chamou. “Milton, eu não vou ser o juiz. O juiz vai ser um inglês.” Não deixaram ele ser juiz. Ele foi ser bandeirinha, pois já era um esquema montado, muito bem montado. Política e financeiramente. Nós perdemos por dois a um, o jogo. Tem outras passagens que eu não posso revelar aqui porque são coisas muito recentes ainda. 
P/1 – O senhor pode contar uma passagem do futebol, um caso anedótico do futebol? 
R – Do futebol? Teve uma dessas, lá do Cosmos mesmo, os jogadores, coitado, que são de origem modesta, muitos deles, nós ficamos num hotel da Quinta Avenida. Um hotel bonito que tem lá. Plaza. O pessoal tomou todas, abriram a geladeira e tomaram todas. Caipira, brasileiro, o jogador, tomaram todas. Quando chaga o dia seguinte, veio a conta para o Santos pagar e os jogadores apavorados, que cada um pagava a sua conta. Eu fui falar com eles. “Crioulo, olha essa conta aqui.” “Ah, Milton, aqui é a América.” “Cada um paga a sua. (RISOS) Problema seu. Cada um paga a sua.” Foi uma boa lição. Não tem nada disso que é tapinha nas costas, não. Profissionalismo mesmo. Então ele se fantasiou todo, aqueceu, fez a gente comprar uma chuteira inglesa, fez todo o mise en scene. Daí a um pouquinho ele veio aonde eu tava, junto com os jogadores, sentado, com o Ailton Lira. Aí ele disse: “Milton, eu não vou ser o juiz.” “Como não vai ser o juiz? Você é da FIFA! Só pode ser juiz da FIFA!” E americano não tem juiz na FIFA. Aí fui lá no vestiário americano conversar com o Pelé. “Milton, você senta na cadeira com o De La Serra e com o pessoal.” Aí fui conversar com eles. “Olha, o juiz é nosso. É da FIFA” “O Santos manda no Brasil. Aqui quem manda é o Cosmos. O juiz vai ser esse e tá acabado!” Eu fiz aquela ameaça de não jogar, pra ver se... Não colou. Aí foi um juiz inglês. Roubou pra caramba! Contra o Santos. Fez o diabo, o cara. Tem outra passagem interessante. Hoje é anedota, mas naquele tempo era... O Cosmos nos ofereceu, para os atletas, um refrigerante. Lá não tem esse negócio de toma aqui que nós pagamos. Lá, nada é de graça, dá, dói. E tá muito certa essa política, eu acho. Eu tô no quarto, porque perdemos o jogo e eu tô pê da vida, né? Perdemos o jogo, oitenta mil pessoas no estádio, o estádio é de beisebol, aí vem o Ailton Lira: “Ô, Teixeira, vai lá no bar que tão querendo nos cobrar a conta.” E jogador de futebol não gosta de pagar nada. É deles isso. Eu desci no bar, meu inglês arranhado, tal, e o Pelé tá com a Rose, o De Le Serra, toda a comitiva festejando o feito para o futebol mundial. Foi um feito, aquilo. Porque todas as agências de notícias noticiaram o jogo. Deu manchete no mundo todo. Aí eu fui lá: “Ô, Pelé. Eles tão querendo cobrar.” “Milton, aqui é a América. Até as nove horas o Cosmos pagava. Agora são nove e cinco, quem paga são os brasileiros.” Não tinha nada tratado. Conversa. Aí eu falei com o De La Serra. A mesma coisa. “Até as nove horas é por conta do Cosmos, nove horas e um é por conta do Santos.” Aí eu falei pro pessoal: “Olha, vocês pagam essa.” “Ô, nós não temos bicho!” não tem bicho. Essa é uma passagem que hoje a gente ri, mas na hora... 
P/1 – Seu Milton, eu queria que o senhor contasse um pouco da sua passagem no Santos como diretor do voleibol.
R – Muito bem. Eu nunca fui diretor de voleibol no Santos. Eu era presidente da Liga Santista de Voleibol. E o Roberto Machado, que era meu amigo do Atlético, brigamos na eleição, que eu perdi a eleição, ele resolveu ser técnico do Santos. E foi para o Santos, o Douglas, e eu fiquei na Liga de Voleibol. “Dá uma ajuda aqui, que eu quero montar um time do Santos semiprofissional.” Eu falei: “Douglas, isso é loucura! Voleibol não tem campo pra isso. Pode dar um emprego, uma caixinha, mas pagar os caras pra jogar não é possível. Não é hora disso, é só o futebol que pode. Natação, vôlei, basquete? Não, é impossível isso.” E hoje a natação é toda profissional. Inclusive no Santa Cecília. Cada um tem o seu cachê, sua bolsa de estudo e isso é necessário porque treina dez horas por dia, como é que vai fazer? Dez, mais cinco de estudo, já passou o dia. Então, nós perdemos a eleição no Atlético, eu fui para a Liga de Vôlei eleito e o Douglas foi ser técnico do Santos. Mas ele colocava mais dinheiro do que tirava. E lá ele conheceu uma moça, que é Helena  e é nossa professora e que depois se tornou esposa dele, mãe dos seus filhos. Na liga de voleibol ele me dizia: “Milton, você precisa ajudar o Santos no que é possível.” Nós tínhamos feito algumas excursões com a seleção do Santos, amadora, para Portugal, Espanha, Argentina, nós bancávamos. Como fiscal federal na alfândega, eu aprovava legalmente as rifas e púnhamos o carro na rua. No dia em que ia correr a rifa, nós tínhamos sete postos e sorteávamos um carro só. Pra vender, né? E com isso fazia o dinheiro e levava o time à Europa. Assim com o voleibol da liga e, depois com o Santos, a mesma política. Então ele resolveu trazer do Rio os melhores jogadores. Vitor, Décio Viotti, Paulo Russo, Nicolau Russo, um timão. Seleção Brasileira depois, né? E montamos um time e ele disse: “Agora precisamos fazer uma excursão. Senão o pessoal vai ficar inquieto.” E nós fazíamos esse movimento de rifa na liga e no Santos, embora o nosso coração estivesse no Atlético, no voleibol. Mas como eu perdi a eleição para presidente, acabamos esquecendo. Fui ficando na Liga, e ele no Santos. E ele sofria quando iam jogar Atlético e Santos, xingavam: “Vendido! Isso e aquilo!” Ele pegava o seu ordenado, de técnico, e dava para os jogadores, rateava com os jogadores, amadores, né? “Vamos fazer uma excursão para a Alemanha Oriental, a Alemanha comunista.” Vamos para a Alemanha Ocidental, Portugal, que é a nossa casa, uma maravilha! Fizemos lá seis jogos e ganhamos todos, porque era um time muito forte, o Santos, e fomos à Alemanha Oriental enfrentar a Seleção da Alemanha campeã olímpica. Quando eu arrumei os jogos, essa parada é indigesta. “Vamos enfrentar ou não vamos, Douglas? Ou pegamos o melhor do mundo ou não pegamos!” Passei a ficar sério porque entrava no Guiness, né? Ele disse: “Você acha? Então tá! Então tem o time.” O time já era semiprofissional, treinava de manhã e de noite. À tarde iam para a escola, fazer cursinho e tal. Fomos para a Alemanha Oriental. No lado ocidental ganhamos todos. Chegamos à Alemanha Oriental, no estádio tinha cinco mil soldados comunistas pra torcer pela Seleção da Alemanha. Eu tremia até pela nossa sorte de passar pelo Muro de Berlim, sair, aquela relação diplomática ainda estremecida, né? Mas eu tinha uma idade meio arrojada nesse tempo. Milton, Daniel, Jorge Abud e o Douglas. Os três já morreram. Graças a Deus só tem eu vivo. Morreram moços, né? Chegamos ao estádio, aquela coisa toda, aquela torcida impressionante... Final da história: Santos três, Seleção da Alemanha um. Aí, o técnico nos chamou, um inglês: “Vocês nos arrumaram um abacaxi, viu?” “Por que?” “Porque alguns jogadores vão para a Sibéria.” De castigo! Um tipo de punição. Impossível! O time do Santos, mas o Santos, como tinha muito nome, o futebol, eles respeitavam. “O Santos de Pelé! O Santos de Pelé!” Todo mundo, na Alemanha Oriental. Metemos três a um na seleção campeã olímpica! Então veja a base do time do Santos, que é hoje o time que aí está. Só que esse, hoje, é profissional como o nosso também era. O nosso era meio profissional. Trabalhava meio período e ganhava uma ajuda de custo. A gente fazia rifa de tudo. E o Douglas foi quem iniciou esse movimento. Quando havia jogo Santos e Paulistano, Santos e Atlético, a torcida adversária jogava moeda na quadra, pra dizer que o nosso time era mercenário. Hoje não, imagine. O Tande, esse timaço que tem, do Brasil, profissão deles. E tá certo, tá correto. Então essa é a passagem do voleibol que marcou nossa vida. 
P/1 – Que títulos vocês conquistaram?
R – O Santos foi campeão paulista, brasileiro e sul-americano. 
P/1 – O senhor se lembra dessa decisão, do sul-americano?
R – Do sul-americano foi contra a equipe argentina, em Buenos Aires. Metemos três a zero, em cinco sets. Não demos chance. O time era muito bom. Muito bom. O Paulo Russo jogava. Paulo Russo, Nicolau, Décio Viotti, muito bom, Sérgio Barcellos. Eram jogadores meio profissionais, já. Treinavam oito horas por dia. Por isso tinham essa categoria, enquanto o nosso time do atlético eram amadores, treinavam uma hora por dia. Eles jogavam dois sets e não tinham mais resistência. Aquele voleibol do Santos, hoje, seria campeão do Brasil, sem dúvida alguma e, talvez, das Américas, tal a sua qualidade. Eu levo, ainda como mensagem derradeira, muita fé nesse trabalho que o Santos está levando a efeito, agora. A curto prazo, eu estou certo de que haverá uma mudança na estrutura do futebol. O futebol, como na Europa, vai pertencer a empresas, firmas e o Santos, certamente, seguirá esse caminho. Que é o principal clube do Estado, pra nós. Haverá uma mudança estatutária e não pode, realmente, acompanhar esse sentido amadorista. Hoje nós entregamos à UNICOR, não é isso?  Ela compra o jogador e tira proveito. O Palmeiras tem a Parmalat, que compra os jogadores. São dela, os jogadores, não é do Palmeiras, não. O Palmeiras só dá as camisas e ela arca com todas as despesas e o lucro. Ela promove o jogador no Palmeiras e vende. A hora que isso ocorrer, que o futebol for realmente profissional, eu quero ser o primeiro presidente do clube a dar o nome da nossa universidade, a UNISANTA, ao Santos Futebol Clube, a empresá-lo também. No sentido de tornar o Santos campeão paulista, brasileiro, sul-americano e mundial, se Deus quiser. 
P/1 – Seu Milton, hoje que atividade o senhor está exercendo? 
R – No esporte, apoiando meu filho só na parte da natação e no basquete. No Santa Cecília, só. É minha vida. Na universidade. 
P/1 - E qual é o seu cotidiano hoje, lá na universidade? 
R – Eu chego às oito horas e saio às oito da noite. E sábado e domingo. Eu casei com o Santa Cecília. O Santa Cecília é minha verdadeira esposa, entende? Porque eu comecei no ramo da educação muito cedo. Comecei a dar aula aos dezesseis anos. Isso está nas minhas veias. Eu gosto de ir às salas de aula. Ontem houve na escola um debate espírita, numa sala, num teatro e outro debate acadêmico sobre direito, com vários juízes, numa outra sala, então nossa universidade está num patamar distante daquela da Rodrigues Alves, do porãozinho, do curso primário, primeiras letras. Hoje os juízes, desembargadores, são nossos funcionários, também. Não funcionários empregados, mas com sua inteligência vêm ministrar seus conhecimentos nos cursos. Ali é minha vida. Eu vivo aquilo ali, me renovo ali dentro. Aquilo ali está no meu sangue. E meus filhos também têm uma tendência, graças a Deus.
P/1 – Eles também trabalham com o senhor?
R – Todos. Eu tenho quatro filhos de origem árabe, que a minha esposa é árabe. E os meninos trabalham na escola. O Milton Teixeira Filho, esse meu filho que é um grande amigo que eu tenho. Tem o Mohamed, que tem o nome do profeta, mas é mulherengo e ordinário, é vaselina. (RISOS) Tem o Abdullah e tem o Munirzinho, que é uma bondade que Deus me mandou também, né? Trabalham na firma, menos o Munirzinho, que não trabalha ainda. 
P/1 – Ele ainda é novo.
R – Não. Ele nasceu com uma pequena retração cerebral e, na hora do parto, faltou oxigênio para ele, na hora do parto. Tá com treze anos de idade agora, mas graças a Deus está indo bem. Está com as pernas atrofiadas. Nasceu assim. Deus mandou assim. 
P/1 – Seu Milton, então pra gente terminar, eu queria que o senhor falasse de como o senhor se sente, envolvido aqui, no meio desse trabalho de preservação da memória, contando aqui a sua vida, ajudando a escrever a história do Santos e tendo a sua história preservada no Museu do Santos.
R – Eu fui presidente da Academia Santista de Letras, essa atividade intelectual que eu sempre gostei. Então, par e passo à minha atividade esportista esteve sempre a atividade de educador. Sempre. Nós temos a obrigação de preservar a memória. Porque é imagem que fica para os que vêm. É o passado, mostrado com suas falhas e suas vitórias, às gerações que surgem. Como exemplo. Na qualidade de educador, eu me sinto educador, também, eu bato muito nessa tecla, de preservar a memória, de mostrar os erros que nós cometemos. Em todos os sentidos. Minimizar esses erros, procurar acertar e passar para as novas gerações. Para que um dia, quando se for prestar contas a Deus Todo Poderoso, também receber uma pena branda. “Não cometeu tantos pecados, ele aliviou, então tá. Não vai para o caldeirão do inferno. Vá aqui para o purgatório, vá.” Não temo desencarnar, sendo espírita praticante, confesso, eu creio na reencarnação do espírito. Com a alta saída, porque há tantas desigualdades aqui, tantos desencontros, e a reencarnação é a forma de você melhorar seu espírito. Se você conhece um amor, que talvez tenha sido seu amor, numa outra encarnação, mas com barreiras. Essas alianças que se faz, nesses atalhos que Deus nos manda, é no sentido de purificar o nosso espírito. Todos nós. Todos. No meu campo, que é a educação, trabalhar com a minha família. É um ramo difícil, delicado. Você tem que estar presente com o aluno, hoje, para dizer: “Olha, a droga é uma droga mesmo! Não serve! É um desserviço! É um meio fácil dos vigaristas ganharem dinheiro e sacrificarem o seu potencial espiritual!” Nós, como educadores, que somos da escola esportista, ou melhor, vou até terminar com uma frase latina, do tempo de Roma: Mens sana in corpore sano. Mente sã em corpo são. Se você não tiver uma mente pura, não adianta o corpo atlético. Vai ser um corpo contaminado. Então tem que ser uma mente pura, de bons princípios, com muito amor no coração, que vai fazer seu corpo são. Essa é a escola esportista. A educação e o esporte, que não pode estar dissociado. Eu acho que é a minha mensagem. 
P/1 – Seu Milton, a gente quer agradecer a sua entrevista e esperamos, no trabalho do Museu do Santos, entrar em contato com o senhor.
R – Com todo prazer. Será uma honra pra gente. Mas vou cobrar meu cachê, hein?

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