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História

Vó Maria é dez

História de: Maria das Dores Santos Conceição
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Em sua longa entrevista, Vó Maria fala sobre a sua descendência negra de Mendes, interior do Rio de Janeiro, e dos vestígios da escravidão na região. Em seguida, fala sobre a composição de sua família: seu pai violento, sua mãe benevolente e a divisão de trabalho na casa e na roça, junto de seus irmãos. Depois, nos conta sobre suas brincadeiras de criança, sua religiosidade católica, as religiões africanas e conta histórias de eventos sobrenaturais que ocorreram em sua cidade. Mais à frente, Vó Maria conta como chegou em Niterói, aos 12 anos, e lá abriu uma pequena pensão, onde conheceu seu primeiro marido, Maciel. Fala sobre sua morte e sobre presença de diversos elementos do movimento negro brasileiro em sua casa. Adiante entramos no lado sambista de sua vida: como sempre se rodeou de instrumentos e instrumentistas, casou-se com Donga e fez da sua casa um centro fundamental do samba carioca – por isso, fala de diversas histórias e situações descrevendo a vida musical de seu lar, que contava com presenças como as de Clara Nunes, Pixinguinha, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, entre outros. Por fim, Vó Maria fala sobre o lançamento de seu primeiro CD, aos 91 anos, e de seus sonhos para o futuro.

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História completa

Olha, os meus irmãos, um toca saxofone, outro tocava flauta, começou com flauta de bambu, ele mesmo fazendo a flauta, mas ele tocava flauta, esse que morreu da marinha. O outro toca saxofone, o outro toca bandolim, que morreu também. E o caçula, depois que começou com o samba em Mendes, ele começou a tocar tamborim, aquelas coisas, ele não bebia, nunca bebeu, porque não era crente, então eles não bebiam. E ele quando entrou para a escola de samba começou a beber. Mas então eu desde criança, não meus irmãos tocavam como minha irmã não casou logo porque meu cunhado tocava violão. E na época, em 1918, essa irmã mais velha por parte de pai, ela começou a namorar um. E ele tocava violão. Meu pai não deixou ela casar, porque ele dizia que ele era malandro tocador de violão. E eu ia, eu cantava as modinhas para ele, que ele tocava violão, mas sempre cantei na roça. Começamos com a roda, brincava de roda, né, então sempre cantei. E os meus irmãos esses tocam, então sempre nós tivemos a harmonia assim de samba. E quando começou o samba mesmo, o samba, eu, meus irmãos tocando, eu sempre cantei com eles. Agora, quando eu me casei com Donga, eu comecei fazer, porque não tinha. Era o Jacob do Bandolim, a turma toda de choro. Então, o Benedito Lacerda, a turma toda ia para casa. o Donga ainda tinha. O samba ficou, quando eu fui para casa, que era na Almirante Candido Brasil, que ele morava, que ele ficou bom. A casa tava consertando, ficou boa,aí eu trouxe ele prá casa. Ele ficou assustado porque ele nem sabia, porque ele doente, o engenheiro fechou a casa que ele queria. eu, como morava perto mandei acabar a casa. e fiz o samba, e o Martinho da Vila, a Clara Nunes, eles todos, quando acabava o show deles, as vezes eles ficavam lá em casa. E todo dia cinco, aniversário do Donga, fazia uma missa. E todo dia cinco tinha samba. Cinco de abril. Todo cinco de abril tinha samba lá em casa. E começava no sábado ás onze horas, que eu mandava rezar missa prá ele, que ele estava bem. Mandava rezar missa e convidava os sambistas prá ir. Martinho da Vila começou em casa, todos, a Divina, todos começaram, que moravam ali, todos iam lá prá casa. Então, como ele já estava enxergando pouco e o samba começava ao meio dia e acabava no domingo ao meio dia. (CANTA) “Se a dona da casa deixar, eu fico prá jantar”. Aí então, quando o menino disse, eu falei: casa de sambista o copo é no chão! Do sambista do passado. Porque eu sou do passado, mas eu sou do passado. Mas gosto só de samba, só canto samba, e adoro. Então na minha casa, no tempo do Donga, eu freqüentava. A Clara Nunes muitas vezes chegava às quatro horas da manhã. A Clara Nunes me chamava de mãe. Logo que ela começou. Agora, começou o Martinho da Vila, o Paulinho da Viola, esses todos que tocavam, iam todos aniversários dele nós fazíamos samba. Que começava sábado às quatro da tarde, almoço, e terminava no domingo às sete horas, muitas vezes a polícia batia, mas sempre tinha um advogado meu, tinha um da polícia. Aí quando a polícia chegava, o delegado chegava na porta: pode ir embora!Por causa do barulho. Sete horas da manhã! Começou ás quatro horas da tarde no sábado, e eram sete horas da manhã. Porque a vovó entra prá cozinha e faz a comidinha que você quer. Então quase todo mundo diz assim: qual é a comidinha hoje, vovó? Porque aí, mesmo que eu tenha quem faça, quem entra na cozinha sou eu. Se você vier aqui em casa, quem vai entrar na cozinha, apesar da menina saber fazer tanto quanto eu, mas eu gosto de fazer comidinha. Então todo mundo diz assim: vovó, amanhã é aniversário do Donga, o que a senhora vai fazer? Tem samba? Eu falo: olha, meu filho, eu vou fazer um angu à baiana, vou fazer uma comidinha assim, que não dê muito trabalho. Porque a vovó gosta também de chegar, ao menos entrar no samba um bocadinho, né? Porque é gostoso o samba que vocês cantam. Porque quase sempre quem chegava era prá cantar samba novo. Então eu adorava. Mas sempre eu fazendo a comidinha, e ficava mais dentro da cozinha, porque o Donga olhava assim, e tinha o Aniceto que era negro, alinhado, forte, tinha uma voz muito bonita, ele cantava. Ele tinha uma voz tão linda quando ele cantava. Ele cantava uma música muito bonita, então ele gostava de cantar para eu ouvir. O Donga já sabia, que quando ele começava a cantar aquelas músicas ele sempre olhava para mim. O Aniceto, ele olhava prá mim cantando as músicas. A própria secretária dizia: o Aniceto só canta olhando prá senhora! Aí o Donga dizia assim: Olha aí, você está muito aí na sala. Vai lá ver o que vai botar aqui prá comer! Eu dizia: não, eu só vim aqui dar atenção para as pessoas! Porque eu gosto de fazer, ontem eu não fiz, mas eu gosto de distribuir rosa prá todo mundo. E quando eu levava, porque quase nunca ninguém leva a esposa, não. Quando é samba ninguém leva a esposa. Só quem levava era o que tocava o saxofone. Quem era? O Pixinguinha levava a esposa, mas os outros, ninguém leva mulher, não. Lá em casa ninguém de mulher ia, só a Clara Nunes que era cantora, a Divina que morava ali perto, não sabe, que ia. O mais todos os cantores, né? Aí, a vovó de vez em quando chegava lá, porque eu não sei sambar, sabe? Mas miudinho eu sabia fazer. (CANTA) “Devagarinho, devagar, miudinho...” Aí eu saia. “Devagarinho, devagar, “Devagarinho, devagar, miudinho”. Aí ele brigava comigo. Porque a única coisa que eu sabia fazer era devagarinho, cantando.

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