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História

“Viver é uma oportunidade única”

História de: Rosely Ayaco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/08/2021

Sinopse

Avós e pais imigrantes japoneses. Nascimento em São Paulo. Queda aos 2 anos e 10 meses, que levou a hemiplegia direita. Infância dedicada a re-aprender a falar, comer e andar, e em busca de independência. Decisão de sua mãe em colocá-la no balé e piano para ter equilíbrio e mexer os dedos. Primeira viagem sozinha, aos 17 anos, primeiro momento de exercitar sua independência. Faculdade de Fisioterapia marcada por apoios e dificuldades. Trajetória profissional mesclada pela vida pessoal. Especialização em hidroterapia no Japão. Abertura de sua própria clínica nos anos 2000. Pioneirismo na área de hidroterapia. Casamento. Dificuldade em engravidar e maternidade de trigêmeos. Gana pela vida. Pandemia. Planos para o futuro.

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História completa

P/1 - Vamos lá! Rosely, pra começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento.


R- Olá! Meu nome é Rosely Ayaco Ishikawa Kunitake. Nasci no dia 26 de março de 1962. E eu sou de São Paulo.


P/1 - E qual o nome dos seus pais?


R- O meu pai Kazuo Ishikawa. E minha mãe, Rosa Satiko Ishikawa.


P/1 - E o que eles faziam?


R- Os meus pais? Eles eram tintureiros. Eles são imigrantes japoneses. E eles foram pro interior de São Paulo. E depois eles vieram pra capital. E todos eles eram tintureiros.


P/1 - E onde eles nasceram?


R- O meu pai nasceu em Shimane, na província de Shimane, no Japão. E a minha mãe nasceu em Presidente Prudente.


P/1 - E você sabe como eles se conheceram?


R- Eles são frutos de casamentos que chamavam-se de miai, antigamente. Que as famílias organizavam os casamentos. Então, eles são dessa geração. Mas o meu pai já conhecia a minha mãe. Antigamente... hoje ainda tem, também, alguns clubes japoneses, alguma coisa assim. Então o meu pai já conhecia a minha mãe de longe.


P/1 - E como você os descreveria?


R- Eles, enquanto pai e mãe? Enquanto casal?


P/1 - Os dois, é.


R- Eram fantásticos, assim. Apesar de eles terem se casado por miai, por arranjo de casamento, eu acho que o meu pai sempre foi apaixonado pela minha mãe. E era interessante, porque eles tinham uma relação bem interessante. Não era aquela coisa distante, sabe, que você vê em casais japoneses, assim. Eles se davam bem. Tinham aquelas coisas de casal, normal. Mas o meu pai é o filho mais velho de uma estrutura japonesa. Então, existem muitas obrigações de família, tal e que a esposa tem que compactuar com isso. Então, era bem interessante essa... Como fala? Não sei te dizer. Eles tinham que ter um... Não é rotina, também não é obrigação, não me vem a palavra agora. Mas eles eram muito legais, muito, uma família que centralizava muito a família, que valorizava muito a família, a união de família. E, enquanto pais, eles eram, assim, sensacionais.


P/1 - E você tem irmãos?


R- Tenho. Eu tenho três irmãos homens, mais velhos. Eu sou a caçula. O meu irmão mais velho é oito anos mais velho. O outro, sete. O outro, quatro anos.


P/1 - E como é a relação entre vocês?


R- Como? Ah, é ótima. Como eles eram bem mais velhos, então eu sentia muito essa coisa da irmãzinha. Eles cuidavam muito de mim e era bem gostoso, assim. Mas, por serem mais velhos, também, então no começo, a distância é grande, então cada um está num mundo diferente. Mas como a nossa família é muito unida, a gente estava sempre muito junto. E como nós fazíamos parte de um grupo parecido, então, cujos pais eram amigos, os filhos eram amigos. Então a gente sempre estava muito junto. E, à medida que a gente foi crescendo, ficamos mais unidos. Nós sempre fomos unidos. Não sei se pelos meus pais ou por eles cuidarem de mim. É interessante essa dinâmica.


P/1 - E, Rosely, você sabe a história dos seus avós? Você chegou a conhecê-los?


R- Sim. Eu morava com os meus avós paternos. Porque, como o meu pai era o filho mais velho, ele que cuidava dos pais, então eu morava com eles. Mas, assim, o meu avô faleceu quando eu tinha seis e a minha avó, quando eu tinha sete. Então foi rápido. Mas eu lembro muito mais da minha avó. Porque eu era muito grudada com ela. E todos os primos falam que eu era muito mimada pela vó. (risos) Mas, assim, como a gente morava junto, você acaba tendo essa lembrança mesmo da avó, graças a Deus. Eles vieram pro Brasil, esses meus avós paternos e foram pras plantações, os cafezais. O meu pai veio junto. O meu pai tinha sete anos. E sofreram bastante. A imigração não foi fácil. Mas lutaram muito pra chegar aonde chegou. Eu admiro, eu fico vendo a história, eu vejo a história, aqueles filmes da imigração japonesa. E é daquele jeito mesmo, como eles contavam pra gente, que eles vieram num navio, num porão do navio, que aí algumas pessoas iam morrendo no caminho. E que eles não sabiam o que iam encontrar aqui, mas a situação no Japão também era tão ruim, que eles imigraram. Mas eles vinham com um sonho de voltar pro Japão. Só que eles nunca conseguiram voltar, porque a história não era bem o que contavam, (risos) eles não conseguiram trabalhar como imaginavam. E eles passavam por uma casa de imigração, aqui. E depois eles eram levados pras fazendas. E é interessante que há pouco tempo teve a festa da imigração, se você entra com o nome da família, tem exatamente o navio que eles vieram, com quem eles vieram, sabe, pra que fazenda eles foram. Bem interessante. E lá passaram mil dificuldades. Eu lembro que o meu pai contava que ele não tinha, mal tinha roupa, calçado. E os meus pais sempre gostaram muito de esportes. E o meu pai gostava de correr. Então ele corria descalço e nunca perderam essa vontade do esporte, tanto que eles estimulam muito os meus irmãos. Então é bem interessante isso. Até eles conseguirem vir pra São Paulo. Porque, segundo os filmes que você assiste, eles recebiam um X, só que metade desse X, mais da metade, ia pro dono da fazenda. E assim ia. Eles eram surrupiados. Então nunca que eles conseguiam uma certa quantia, pra poder voltar pro Japão, com um valor interessante pra recomeçar a vida. Mas, no fim, os anos foram passando, as famílias foram se formando e aqui eles ficaram. E eu lembro que o meu pai, quando voltou pro Japão, ele já deveria de ter uns sessenta anos, talvez. Porque o sonho deles sempre era voltar, um dia, pro Japão. Então, eles, nossa, lutavam, lutavam, lutavam e juntavam dinheiro, pra tentar esse sonho. Porque antigamente era muito caro poder ir pro Japão. Ainda é, né? (risos) E eles voltaram. E aí o meu pai falou assim: “Eu sou brasileiro”. Ele não se identificou mais com aquilo. É japonês, temos todas as raízes, a nossa família é bem tradicional japonesa. Mas como eu sou ainda a primeira geração, depois, ainda é bem enraizado. Mas eles viram que a vida deles era aqui mesmo, e que eles formaram a vida deles e se enraizaram aqui. E, assim, os meus avós faleceram cedo, pra mim, então eu não tenho muita coisa, assim, deles. 


P/1 - Você falou que era bem próxima da sua avó. Você lembra de alguma história, alguma atividade que vocês faziam juntas?


R- Ahh, juntas? Como eu era pequenininha e a minha vida de infância não foi lá muito legal, porque eu estava sempre em tratamento, em hospital.  Então, o que eu lembro dela é dela fazendo papinha de maçã. Até hoje eu lembro disso, porque eu tinha muita dificuldade de engolir, então ela raspava a maçã pra eu comer. Então, essas coisas carinhosas que ela fazia. Então, eu dormia com ela à tarde. Aquele soninho da tarde, era com ela que eu dormia. Então, essas coisas gostosas. Os pais da minha mãe, como eles moravam mais distante, a gente só visitava de final de semana, então eu não tinha muito contato. Mas eles são, os pais da minha mãe, de Fukuoka. São imigrantes, também. Ali tem uma história longa, bem complicada. Mas muito bonita, também. É interessante como todos os imigrantes têm uma história de sofrimento bem grande. Um ficou no Japão, o outro voltou. E até você acha que você vai poder voltar logo pra buscar o filho, mas não consegue. E assim se passam dez, vinte, trinta, quarenta anos, até você conseguir rever esse ente querido. Mas é um pouco isso.


P/1 - E que costumes, quais são os costumes principais da sua família? Vocês têm?


R- Assim, a gente costuma comemorar todas as festividades juntos. Até, agora na pandemia, está bem complicado, porque é tudo on-line. Nós ainda não nos encontramos. Eu morro de saudades deles. A gente se vê online em todas as oportunidades. Então, como nós somos uma família grande, nós somos quatro... Espera aí... Quatro, sete, dez, quinze, dezesseis, acho. Então todo mês tem um aniversário (risos). Então a gente sempre comemorou os aniversários juntos. Dia das Mães, Dia dos Pais, sempre juntos também, Natal, Ano Novo. E uma coisa que pega muito, que a gente tem o hábito: nós temos o hábito de cultuar os antepassados. Então quando você vai no Dia das Mães, no Dia dos Pais, primeiro a gente vai ao cemitério e depois a gente vai comemorar. E é muito triste passar o Dia das Mães, o Dia dos Pais, Finados, Natal e a gente está aqui. Essa vez, no Dia dos Pais, foi a primeira vez que eu fui no cemitério, mas ainda não fui com eles, porque eles ainda estão isolados. E só fui eu. Ai, que sensação horrível. Cadê o resto da família? Parece que a gente fica amputada, assim, sabe? Mas fui. Fui. Mas é um hábito que nós temos, de irmos juntos, as quatro famílias, pro cemitério e depois comemorar. Aí sempre fazemos um almoço ou um jantar. Aí a gente fala que a gente é igual família de italiano, porque a gente fala mais do que a boca. Então, (risos) fica todo mundo sentado, conversando e a coisa vai longe, até o fim do dia. E aí come sobremesa e toma café e faz não sei o que e assim vai. Então, isso é uma coisa muito gostosa, de ter a família muito próxima. Nós somos, realmente, muito unidos. E depois que os meus pais falecerem, eu tinha muito medo que isso não continuasse, porque a minha mãe era muito centralizadora. Ela gostava que tudo fosse em casa, todas as reuniões de amigos, o que fosse, não tinha problema, era pra ser em casa. A gente morava nos fundos da lavanderia. O meu pai tinha a tinturaria. E a gente morava nos fundos. Mas dava pra juntar toda a macacada. Os amigos vinham e a minha mãe gostava disso. Então a gente sempre... A casa muito cheia. E ela sempre fez questão disso, tudo. Então eu tinha muito medo de que, quando eles falecessem, isso não acontecesse mais. Mas acontece. A gente continua muito unido. Mesmo com eles falecidos, a gente continua unido, igual. Isso é muito legal. E eu tenho uma sorte muito grande de... Outra coisa difícil é você ver e eu tinha medo disso, que os meus irmãos se casassem e se separassem da gente. Isso acontece muito. Mas isso não aconteceu. Eles se casaram e a gente continua junto. As minhas cunhadas são ‘dez’. E é uma coisa que eu acho que é uma benção, porque é difícil você ver isso numa família. Então isso ajuda bastante, a gente está sempre junto.


P/1 - E, Rosely, você sabe a história do seu nascimento? Como foi escolhido o seu nome?


R- Não sei. Quer dizer: a minha mãe chama-se Rosa. Então, eu acho que a Rosely veio daí. (risos) Agora, como que “Ayaco” surgiu, eu não sei. Assim, normalmente, os nomes japoneses são escolhidos e você vê se dá certo o seu sobrenome com o seu nome. Eu não sei se o meu foi feito isso. Mas Ayaco, a letra do meu nome é “filha da cultura”. Então, o pai ou o avô escolhe o ideograma, e vê se dá certo com o seu sobrenome. Eu fiz isso com os meus filhos, também. Você pega o nome que você escolhe e vê se dá certo com o sobrenome e junta ali. Não sei se foi feito assim. Mas o meu nome eu acho que foi escolhido pela minha mãe. Eu acho, não tenho certeza. (risos) E como foi o meu parto, eu também não sei. Você sabe que quando, depois de um tempo, eu fiquei curiosa com isso, mas aí eu já não tinha mais como perguntar pra minha mãe. (risos) Eu sei que eu nasci de parto normal.


P/1 - E você comentou que teve uma infância conturbada. 


R- Sim.


P/1 - O que aconteceu?


R- Quando eu tinha de dois para três anos, dois anos e dez meses, eu tive uma queda, brincando. No dia 25 de janeiro, no feriado. Disse a minha mãe que estava um dia muito nublado. Então, ela não deixou que eu fosse ao clube com a minha tia, que costumava nos levar pro clube. E nós ficamos brincando em casa, eu e os meus irmãos. E a minha casa estava em reforma. Então, lá no fundo tinha uns caibros assim. E aí acho que eu era levada, já (risos). Eu fui subir nas madeiras. E aí me desequilibrei. E, como era uma lavanderia, tinha uma bacia lá em cima, que normalmente tinha roupa. Aí diz que eu me segurei naquilo, achando que era um pesinho pra eu segurar, mas estava vazia e aí eu caí pra trás e bati a cabeça. Só que tantas crianças batem a cabeça. Sabe, não era de uma altura tão grande também, estava perto da altura de uma janela normal. Mas, às vezes, é a maneira como se cai, onde se bate. Eu bati aqui, a lateral. E aí diz que eu chorei muito, tarãrã. E a minha avó me fez dormir. E diz que o que não podia era dormir. Então, a minha mãe dizia que eu tinha, depois ela soube que aquilo era uma convulsão, que eu me debatia muito e tal. Aí ela me levou pro hospital, pro Hospital das Clínicas. Só que, naquela época, não existia ressonância, nem tomografia. Tiraram raio-x, falaram que não era nada e me mandaram de volta pra casa. Quando eu voltei pra casa, diz a minha mãe que eu caí, assim, com a cabeça. E eu acho que, aí, eu já estava em coma. Aí levou correndo pro hospital e fizeram uma cirurgia de emergência. A sorte é que o neurologista que me atendeu à noite, estava lá de manhã. Diz que era um neurologista alemão. Eu não sei quem é, gostaria muito de saber. Mas ele operou. Ele falou pra família que era uma cirurgia de risco, que eles não sabiam o que eles iam encontrar. E que eles assinassem um acordo que, se acontecesse alguma coisa, eles sabiam que era uma cirurgia complicada, de risco. E assim foi, operou. Eu fiz uma cirurgia. Fiquei um tempo, uns meses em coma e não voltei tão rápido, porque eles tiraram um hematoma que tinha. A sorte é que o hematoma era extradural, como a gente chama, então ele não infiltrou. Foi mais pela batida, então ficou aquele hematoma e fez uma lesão razoável. E, quando eu voltei do coma, ia voltar pra casa, diz que a minha mãe falou pros meus irmãos, assim: “Olha, a sua irmã vai voltar um pouco diferente”. Aí diz que, quando eles me viram: “Como assim, um pouco diferente?”. Eu não sentava, eu não falava, eu não comia, eu tinha pouco movimento, eu tinha uma paralisia facial importante. Então, eu bati o lado esquerdo e fiquei com lesão do lado direito. Eu sou hemiplégica direita. Então eles estranharam muito. E nada, nada, eu era a irmãzinha. Eu sou a caçula. E daí começaram, a minha mãe tinha uma garra incrível, sabe, os meus pais. E fizeram de tudo. A gente não tinha recurso financeiro, naquela época. Então, eu fui tratada pelo hospital público, pelo Hospital das Clínicas e pelo Sesi. Fazia fisioterapia nos dois lugares. Então, a minha mãe que me levava no Hospital das Clínicas, de ônibus. Naquela época não tinha ônibus que ia até lá. Então, ela descia no Largo... Eu morava no Itaim Bibi. E, pra chegar no HC, você parava, o ônibus, no Largo de Pinheiros e ia andando a [Rua] Teodoro [Sampaio], até lá em cima. E ela me carregando, porque eu ainda não andava. E quando era pra ir no Sesi, que era no Ipiranga, o meu pai ia de carro me levar. Então foram longos anos. E a minha mãe sempre foi aquela durona, aquela japonesa durona, que falava assim: “Não. Você vai aprender a se virar”. Então, a preocupação dela era que eu fosse independente. Então tudo ela fazia eu fazer de algum jeito. Assim como eles lutaram muito, com vários tipos de tratamentos, assim, possíveis, ao alcance deles. Porque eu fui desde curandeiro, espírita, cirurgiã, massagista, tudo o que você possa imaginar eu fui. Porque chegou num certo momento... Demorou pra eu recuperar a fala, ter mais facilidade pra comer, porque aí eu babava. Eu falava, ninguém entendia nada. Pra eu sentar, a minha mãe me sentava, eu caía, aquelas coisas. E os meus irmãos me tratavam normalmente, não tinha essa regalia e não tinha “coitadinha”, não, isso nunca teve. Todos, assim, linha dura. E eu até, quando eu era pequena, eu falava assim: “Caramba. Ô vida dura, não?” Mas foi a melhor coisa essa linha dura deles, pra que eu me tornasse independente. Então foram longos anos. Longos anos, mesmo. Eu lembro dos tratamentos no HC, eram muito difíceis. Naquela época era assim: amarra um braço, pra mexer o outro. Eu usava talas na mão, porque a minha mão não abria de jeito nenhum. Então, eu tinha uma órtese, que na época era de madeira, né, pra amarrar a mão aberta. E usava a bota. Mas era assim: um passo e uma queda, um passo e uma queda. Tanto que chegou num momento que o médico falou assim: “Olha, não tem mais o que fazer com ela”. E a minha mãe não se conformava com isso. Então, ela me colocou no balé e no piano. Aí eu queria morrer, no piano. O que era aquilo? Que tortura! Porque ela tirava o aparelhinho da mão. E a professora era fantástica, ela tinha uma paciência! Ela mexia dedinho por dedinho, em cada teclado do piano. Só que aquilo era de uma dor, era uma coisa, (risos) que eu queria morrer. Mas ia todos os dias. Eu ia e cada dia - era perto de casa - um irmão tinha que me levar. Então cada dia era um que me levava, pra eu não cair na rua. E aí, como eu caía muito mesmo, a professora de piano tinha um curativo, já. Só que, antigamente, o merthiolate ardia muito. Jesus amado! Eu queria morrer com aquele merthiolate da professora (risos). Mas ela já me esperava com o kit, porque ela já sabia que eu ia chegar com o joelho desse tamanho. E era assim, foi assim, aprendendo devagar, aí vai, toca com um dedinho, depois toca com dois dedinhos e assim vai. Eu era muito pequena. Eu comecei com cinco anos, o piano. O piano e o balé. E no balé que eu aprendi a ter equilíbrio, sabe, a ter força, porque a professora me colocava na barra e ali eu tinha que fazer os exercícios. Mas eu gostava muito do balé. Porque eu sempre gostei de dança. Aí eu amava aquilo. Aquilo era o máximo. E, assim, eu creio que eu desenvolvi muito fazendo essas duas coisas: piano e balé. Até que eu lembro que teve uma vez que a minha mãe colocou um sapato, ela falou assim: “Eu vou te pôr um sapato. Vou tirar essa bota do seu pé”, pra uma audição de piano. E, na hora que eu entrei no palco, era um sapato branco anabela, eu nunca esqueço, de verniz. Na hora que eu entrei no palco, zummm, escorreguei, caí com tudo (risos). Aí eu olhei, assim, pra professora e comecei a chorar. E a professora falou: “Vai. Vai”. E aí eu levantei e fui. Toquei chorando, mas toquei. E voltei. Assim, tenho vários episódios engraçados, mas várias coisas aconteceram. E era muito gostoso porque, no balé, de uma certa forma, eu tinha uma certa autonomia, porque eu podia fazer com a outra perna. Eu podia fazer uma pirueta com a perna boa, eu podia fazer várias coisas com a perna boa. Mesmo que o braço não levantasse muito, não importava. Mas eu gostava muito, muito. E o meu tratamento foi basicamente, realmente, o balé e o piano. E a fisioterapia foi curta. O que é uma pena não existir muito naquela época. Porque há cinquenta e tantos anos atrás, não tinha, mesmo. E teve um médico infeliz do Sesi, que falou assim pra minha mãe: “Olha, agora não tem mais o que fazer com a sua filha. A sua filha não vai conseguir andar direito”. Só que, quando você é criança e você está vendo aqueles casos no hospital, você fala assim: “Nossa, será que eu vou ficar desse jeito?”. Eu tinha o maior fantasma disso. Eu olhava aquilo, eu falava: “Nossa, será que isso vai acontecer comigo?” E ele falou pra minha mãe, mesmo, que não tinha o que fazer, que foi quando ela resolveu fazer de tudo comigo, de tudo o que estivesse ao alcance dela. Eles eram tintureiros, então tinha aquele cesto de roupa em frente à tábua de passar. Era uma cesta de vime, eu lembro. Eu lembro que o meu pai me colocava ali na cesta de vime e ali eu tinha que fazer os exercícios, pra ele ver. Porque eu tinha ódio dos exercícios (risos). E ele me colocava lá. E, enquanto eu não fizesse todos os exercícios, eu não podia sair de lá pra brincar, não. Tinha que fazer. Então, assim, com tudo isso, com todas as dificuldades físicas que eu tinha, você acaba sendo discriminada pelas crianças. Então, essa parte é muito complicada, porque bullying sempre existiu. Eu acho que faz parte do ser humano, sei lá. A criança acaba nem fazendo de propósito. Mas hoje eu acho que a gente conscientiza melhor os filhos. Eu sempre falei muito isso pros meus filhos. Mas antigamente eu acho que os pais também nem sabiam que isso acontecesse, sei lá. Mas essa coisa de você ser discriminada ou você ser a coitadinha, quanto mais coitadinha eu era tratada, mais ódio eu ficava. Eu falava: “Ai, que coitadinha, o quê!”. E tinham as crianças malvadas também. Então isso me entristecia muito. Eu era uma criança muito triste. Mas eu não queria que os meus pais vissem isso, porque eu via o quanto eles lutavam pra cuidar de mim. A minha mãe trabalhava a noite inteira para poder me levar nos tratamentos de dia. E você via essa luta. Ela deixava a comida ali, meio pronta, na panela de pressão, tudo junto, pra poder voltar e já dar almoço pro resto da família. E depois ela passava roupa à noite, lavava roupa à noite. Não era uma vida fácil. Então eu não queria mostrar isso pra eles, que eu era triste. Mas, assim, ali na calada da noite, né, nossa, eu chorava muito, muito. E, ao mesmo tempo, nós tínhamos um quarto só, nós quatro. Então eu também ficava muito quietinha ali, porque eu não queria que ninguém visse que eu estava triste. Mas foi indo. Porque, assim, ao mesmo tempo, eu era muito querida pelos meus irmãos. E ninguém me dava muita folga. Mas assim, por exemplo: a minha mãe... Demorou pra eu andar, pra eu ter uma liberdade, assim, mais de marcha, poder sair sozinha, demorou um pouco. Eu lembro que, pra eu poder sair sozinha, assim, eu tinha uns doze anos, por aí, eu acho, que uns amigos vieram falar com a minha mãe. E falavam assim: “Deixa a sua filha, que a gente acompanha até a escola”. Esse tipo de coisa. Mas foram alguns anos difíceis. E, na rotina de casa, por exemplo, a minha mãe não dava moleza, não. Eu tinha que fazer. Porque cada um tinha uma tarefa, na minha casa. Um arruma, um lava, um mexe e outra ajuda na lavanderia. Eu nunca ajudava na lavanderia, sempre em casa, que era nos fundos. Mas, por exemplo: eu tinha que, de alguma forma, ajudar a minha mãe na cozinha. E era muito difícil, porque a danada da minha mão não obedecia. Mas a minha mãe fazia eu fazer. Ela cuidava pra que eu não pegasse uma faca afiada, coisas assim, difíceis. Mas ela fazia eu fazer, por mais difícil que fosse. E aquilo me dava uma dor aqui, imensa. Mas não tinha problema, eu tinha que fazer. E pra aprender. Ela falou assim: “Você pode ser milionária, um dia. Mas, se você não souber fazer, você não sabe mandar. O que adianta? Você tem que saber”. Então ela fazia eu fazer. Tinha que fazer tudo, arrumar a cozinha, tinha que lavar a cozinha porque, antigamente, o assoalho, você passava o escovão no chão. Então tinha que fazer isso. Tinha que ajudar em tudo. E na hora de... Aí eu falava assim: “Ah, mas as coisas de cozinha só eu que tenho que fazer, por que os meninos não fazem?” E aquela história de família japonesa, também. (risos) Mas, na hora de comer, por exemplo, era tudo contadinho. A minha mãe separava nos pratos o que cada um podia comer. Não era à vontade. A gente não tinha uma vida fácil. Aí, assim, aquela coisa, aquela brincadeira de irmão, que um pega o outro, do prato do outro, tinha muito disso. Mas uma coisa que até hoje eu como pouco, porque eu tenho dificuldade, era de comer laranja. E a minha mãe falava assim: “Ah, não consegue descascar? Não come”. E aí ela falava que, como eu não conseguia descascar, eu tinha que cortar em quatro e comer assim, a laranja, que era mais fácil. Só que eu não gostava, porque eu não conseguia engolir direito. Aí o meu irmão ia lá, dava uma disfarçadinha e ele descascava pra mim. Então tinha essas coisas, essas camaradagens entre irmãos. Eles, acho que ficavam com dó, iam lá e faziam. Então essas coisas eram divertidas, porque um irmão fazia pro outro. Tudo o que, assim, de movimentos muito finos, é mais difícil pra mim. Se é uma coisa mais global, ok, eu faço. Mas essas coisas mais pequenininhas, é difícil: cozinhar, picar, cortar. Hoje eu sou super adaptada. Mas, quando eu era pequena, era muito mais difícil. Hoje eu cozinho bastante. Eu gosto de cozinhar. E aí, há pouco tempo, uma das minhas amigas de infância falou pra mim: “Vou te contar uma coisa. A sua mãe sempre falava pra gente que não era pra te ajudar. E isso doía tanto na gente, que a gente ficava olhando a sua dificuldade, mas a gente não te ajudava”. Eu falei: “Jura que a minha mãe falou isso?” “Falou. Não era pra te ajudar. Você tinha que aprender a se virar”. E foi bom, porque eu aprendi a me virar. E, quanto mais difícil era a vida, mais força eu tinha pra chegar em algum lugar. Eu tinha metas. Então, assim, eu era judiada, assim, por umas pessoas, mesmo da família, assim. E eu falava assim: “Ah, meu dia vai chegar, gente”, sabe assim? Porque eles podiam ter facilidades físicas. Mas eu ia ter que conseguir pelo intelecto mesmo, que era a única coisa que eu ia poder ter. Então eu falava assim: “Nossa, eu vou ter que conseguir. Eu vou ter que conseguir”. E assim foi indo, porque aí eu fui estudando. Eu sempre tive bastante amigos. Tinha essa facilidade, graças a Deus. Que tenho até hoje, amigos de infância, muitos amigos. Muito gostoso. Eu tenho bastante. O que mais que eu posso contar? (risos) Os meus irmãos…


P/1 - Rosely, como... Diga, diga. Desculpa.


R- Não. Pode falar.


P/1 - Queria saber como era a sua casa. Vocês moravam no fundo e vocês dormiam no mesmo quarto. Mas como era?


R- Tinha, assim, a lavanderia na frente. E tinha a garagem do lado, lateral. E o meu sonho era, sempre, ter uma casa de verdade. Não morar nos fundos de uma casa, que tivesse um portão de aço. Porque era um portão de aço. E eu sempre sonhava em ter uma casa. Assim como a minha mãe também queria ter uma casa. Lógico, porque toda mulher quer. Então, vinha, assim, a lavanderia na frente. Aí tinha a entradinha da casa, assim, tinha a sala. Eram duas salas. Aí nessa sala tinha o meu piano, que a minha mãe custou muito pra comprar também, esse piano. Quantos anos eu tinha, será? Não lembro. Ela demorou pra comprar, porque era uma coisa muito cara, antigamente. Hoje também, eu não sei quanto custa um piano hoje. Mas ela comprou esse piano. Tinha esse piano. Aí tinha a sala de jantar. Aí vinha o quarto dela. Depois vinha a cozinha. Aí tinha um banheiro para todos. Éramos seis, um banheiro. Aí vinha o quarto, que era o nosso quarto. E tinha um quartinho atrás, de bagunça. Era isso. E do lado... Ah, não. Tinha o quarto da mamãe, aí tinha a cozinha e depois o banheiro. Aí nessa lateral, entre o banheiro e o nosso quarto, era a outra parte da lavanderia, onde lavava a roupa e estendia a roupa, era aí. É aí que eu caí. Foi aí.


P/1 - E você lembra do primeiro dia da escola? 


R- Não lembro. Eu fui normalmente, com sete anos. Seis anos era o pré-primário. E entrei com sete anos na escola. Eu lembro, assim, como eu tinha uma certa dificuldade pra me locomover, os meus irmãos estavam na mesma escola também e então eles me ajudavam, pra ir pro banheiro, pra voltar, pra essas coisas. Mas não lembro. Não lembro, mesmo.


P/1 - E teve algum professor ou professora marcante?


R- Na escola? Não. Na escola, não. Eu odiava as aulas de educação física. Porque era um martírio e tinha que fazer. E aí, se tinha que fazer, era mais bullying ainda. Mas, naquela época, não tinha outra escolha, você tinha que fazer ou tinha que fazer. Não podia deixar de fazer. Então, de alguma forma, como é que você vai jogar vôlei, por exemplo, entendeu? É complicado. Mas tinha que estar lá. Então a aula que eu mais tinha ódio era a educação física. Mas naquela época tinha aula de orfeão, tinha aula de religião, tinha aula de economia doméstica. Tinham coisas diferentes, que não tem hoje em dia. Não. Durante a escola eu não tive nenhum professor que me marcasse, não. E aí, voltando a aquele médico que falou pra minha mãe que eu não ia melhorar, depois que eu me formei na faculdade, eu fui lá falar com ele. Eu voltei lá e eu falei: “Olha, o senhor lembra de uma criança, assim, assado e cozido? Pois é. Essa criança sou eu. E eu sou fisioterapeuta. E eu gostaria que o senhor nunca tirasse os sonhos de uma criança. Mesmo que ela não fosse conseguir. O senhor não sabe. Sabe, a pessoa pode tantas outras coisas. Não precisa ser fisioterapeuta. Mas pode tantas coisas. Agora, se você joga um balde d’água, assim, numa criança, dependendo do estado psicológico dela, ela cai de vez”. Então, nossa, fui lá e falei um monte e fui embora. Tomara que ele nunca mais... É que demorou muito pra eu conseguir chegar nesses anos. Mas foram quantos anos? Eu devia ter uns sete anos. Então foram quinze anos. Quanto estrago ele não deve ter feito durante esses quinze anos. 

Então, aí um episódio divertido é que, quando eu queria muito aprender inglês, que eu tinha muita dificuldade, uns amigos me ajudavam. Só que eu tinha que subir num ônibus, porque era lá na [Avenida] Paulista, lá na [Rua Coronel] Oscar Porto. Tinha que ir de ônibus. Só que, como é que sobe num ônibus. Mas aí esses amigos se comprometeram com a minha mãe, que eles me levariam, eles me colocariam no ônibus e me desceriam do ônibus. Então era bem legal isso. Porque aí eu ia sem ela. Eu já tinha uma certa liberdade. Eu tinha quinze anos, já. Quinze anos. Isso foi muito legal.


P/1 - Como foi esse momento pra você de poder ter mais liberdade?


R- Ah, gente, é muito bom. E eu era muito rebelde (risos). Eu queria, eu queria, eu queria. Tudo era pela minha liberdade. Eu queria isso, eu queria aquilo. Então eu ficava maquinando como eu ia conseguir fazer. Liberdade era tudo: andar, dançar. Um grande passo na minha vida, de liberdade, na verdade, foi tirar carta, porque você dirigir, são as suas pernas. A dificuldade que eu tinha em andar, caminhar, correr, com o carro eu não tinha. Então era uma beleza. Só que, naquela época, pra tirar carta, era outro parto, era difícil. Os médicos muito despreparados. Só tinha um tipo de carro que podia, que existia, automático, que era Dodginho, ou aquele Galaxy, grande. Só tinham esses dois carros. Mas pra você tirar carta, gente, os médicos te humilhavam tanto. Era super complicado. Mas foi assim, nossa, a minha grande liberdade, dirigir. Eu amo dirigir. Amo. E tenho dificuldades, assim: o meu lado direito, eu não tenho a visão lateral do lado direito. Então sempre que eu arranho o carro, é do lado direito. Mas eu não estou nem aí, também. Eu arranho na parede, eu arranho não sei o que, ah, eu não estou nem aí, viu? Eu estou mais é feliz, porque eu estou dirigindo e que eu vou pra lá e que eu vou pra cá. Acontece mesmo, então eu sempre procuro estar dirigindo do lado direito. Pra eu não ter que pegar o carro do lado, de atracar com algum carro. Então eu sempre tenho esse cuidado. Ou eu viro com a cabeça. Porque eu só descobri que eu não tinha essa visão, esse campo, o campo... tem um nome isso, eu não lembro. Eu só descobri isso quando eu fui fazer o exame de carta. Eu não sabia que eu não enxergava. Porque eu era tão adaptada, que eu não sabia mesmo. Eu falei: “Nossa, desde quando eu sou assim?” Mas pra mim não tinha problema nenhum, porque eu virava a cabeça e enxergava. O que mais? Pra mim, a liberdade, assim, nossa, era tudo. Era tudo, dirigir. E aí quando eu tinha dezessete anos, eu tinha muita dificuldade de aprender inglês, de aprender línguas, apesar de falar japonês, mas muita dificuldade. Aí eu falava assim: “Meu Deus, parece que eu nunca vou aprender isso”. E eu fazia União Cultural. E gente, eu repetia, eu não aprendia aquele negócio. Eu falei: “Não é possível”. Até que surgiu uma oportunidade de ir para os Estados Unidos, com bolsa, pela União Cultural. Então, tinha uma prova pra você fazer, de conhecimentos gerais, e quem passasse até o quinto lugar, ganhava a viagem de graça. Eram, se eu não me engano, quinze vagas. E quem passasse até o quinto, poderia ir de graça. Porque eu não poderia ir pagando, eu não teria essa condição. Mas quando surgiu essa prova, eu falei: “Nossa, mas é agora”. Eu lembro que era cinquenta qualquer coisa, que tinha que pagar pra fazer a prova. Eu pensei: “Nossa, eu não vou pedir pra minha mãe, porque ela não vai deixar”. Aí eu pedi pro meu irmão mais velho. Ele estava indo pro Japão, com bolsa. E eu contei pra ele, eu falei assim: “Ai, você me dá esse dinheiro pra eu fazer a prova?”. Aí eu fui, fiz a prova. Eu só contei pros meus pais que eu fiz a prova, depois que eu passei. Porque eu fui fazer a prova e eu falava assim: “Meu Deus, e agora?” Eu olhava pra aquele salão repleto de adolescente fazendo a prova, eu falava: “Ai, Jesus” (risos). Mas eu falei: “Não, Deus, eu só posso ir dessa forma. Eu tenho que ir. Eu tenho que ir, porque eu tenho que aprender essa bendita língua”. E olha, eu sei que quando ligaram na minha casa, pra contar que eu tinha passado, eu não acreditei. Meu Deus, mas eu dava pulos de alegria. Aí eu fui contar pros meus pais, eu falei: “Olha, sabe o que é? Eu fiz uma prova pra ir pros Estados Unidos. E eu passei. Eu posso ir?” (risos) E eles: “Como, pode ir? Agora vai”. Mas foi tão engraçado.


P/1 - E como foi essa viagem?


R- Nossa, foi ‘dez’. Porque, assim, eles falaram assim: “Mas você, a gente não pode pagar”. Eu falei: “Não, mas não vai pagar nada. Eles vão pagar tudo, porque eu passei até o quinto lugar”. Então eles vêm entrevistar a sua casa. Porque você vai ficar ali numa família que tem o mesmo nível social que você. Então eu fiquei numa família simples, lá. E eu fiquei em Kansas. Mas sabe o que era uma família maravilhosa? Maravilhosa. Eles moravam numa casinha de madeira, era uma graça. Tinham duas filhas. E eu, realmente, não entendia absolutamente nada de inglês. E fui morrendo de medo. Imagina, eu tinha dezessete anos. Eu nunca tinha viajado. Nunca tinha pegado avião. Meu Deus! Eu estava morrendo de medo. Mas eu queria tanto, tanto, que eu falei: “Não, eu vou”. E eu lembro que eu entrei no avião, eu tremia. Aí um senhor que estava do meu lado, falou: “Você nunca pegou avião?” Eu falei: “Não” (risos). Aí foi. A família foi me buscar, em Kansas. Era assim: tinha o pai, a mãe. O pai era marceneiro. A mãe era enfermeira. E tinham as duas filhas, que uma tinha a minha idade, dezessete e a outra tinha quinze, que iam ficar na mesma escola que eu, porque a escola é pública lá nos Estados Unidos. E aí foi bárbaro. Bárbaro. Nossa, eles super cuidavam de mim. O meu pai americano tinha passado a guerra no Japão. Então ele tinha histórias pra contar. Era uma família muito diferente. E, assim, eu era de uma família japonesa linha dura. E eles eram extremamente carinhosos. E eu não estava acostumada com isso. Então o meu pai vinha e me abraçava, eu escorregava. Porque eu não estava acostumada. (risos) Eu falava: “Jesus”. Mas eles eram muito fofos. Muito. E a minha mãe... quando eu fui pros Estados Unidos, eu tinha ouvido falar de uma cirurgia que tinha. E que, talvez, eu pudesse voltar com os meus movimentos normais. E eles sabiam que eu tinha uma hemiplegia. Aí quando eu cheguei lá, eu contei isso pra minha mãe americana e ela falou assim: “Tá. Eu vou conseguir uma consulta pra você, num centro bom, aqui perto. E a gente vê se realmente existe isso”. Porque, se existisse, assim, os meus amigos, todo mundo aqui, falavam: “Ah, a gente junta dinheiro e a gente vai mandar pra você”. Mas quando eu finalmente consegui essa consulta, ele explicou que não existia isso, que era uma cirurgia com gelo seco, que eles tinham me falado. Ele falou que não existia, que eu já tinha uma sequela, mas que eu já era super bem adaptada, que estava ótimo. Que eu não precisava de mais nada pra me reabilitar. Fiquei arrasada. Chorei o dia inteiro, a noite inteira. Aí, no dia seguinte, contei pros meus pais. Contei por carta, porque por telefone era muito caro, naquela época, então eu mandei por carta. Aí eu falei: “Bom. Tá bom. Então é assim que eu vou ser. Não tenho mais esperança de...”. Porque eu sempre tive esperança de que eu pudesse voltar a ser normal, entendeu? Que eu pudesse ter a mobilidade normal, que eu pudesse fazer as coisas. E é engraçado, quando a gente tem... não sei as outras pessoas, mas eu sempre tive uma fantasia que eu queria ser normal por um dia. Eu só queria saber como era, sabe, ser normal por um dia: comer, se vestir, ir no banheiro. As coisas, sabe, as pequenas coisas. Porque tudo é difícil: pegar em um talher é difícil, se vestir é difícil, abotoar é difícil, escrever, tudo é mais difícil. E eu tinha esse sonho. E aí, quando o médico falou isso, eu falei: “Bom, não vai ter esse dia. Então, é assim que vai ser, então vamos em frente. Acabou. Acabou o sonho. Vamos, vamos sonhar com outra coisa!” E aí, olha, eu chorei aquela noite inteira e falei: “Agora chega. Agora eu vou lutar do jeito que eu sou mesmo. É desse jeito que eu vou ser (risos). Não vai ter, não tem milagre. Vamos em frente. O milagre já está feito. Eu já estou ótima, super adaptada”. E o fato de eu ter conseguido ir pros Estados Unidos, pra mim foi uma glória. Porque aquelas pessoas que viviam fazendo bullying comigo na escola, tal, eram burras de doem (risos). Então elas iam super mal na escola. E que, na verdade, a gente acabava compensando de outra forma: “Já que eu não consigo fazer uma coisa, eu vou estudar”. E eu ter ido pros Estados Unidos, eu falava: “Nossa, nem acredito que eu consegui isso”. E, quando eu voltei... ah, e quando eu fui pros Estados Unidos, eu já sabia o que eu queria. Naquele último ano do colégio, eu encontrei, eu estava procurando alguma coisa que eu trabalhasse com pessoas. Então eu queria fazer ou Psicologia, eu queria ajudar o ser humano. Eu tinha pensado em fazer Pedagogia para deficientes. Alguma coisa nessa área. Em último caso, eu faria Letras. E fiz Pedagogia, Psicologia... aí, Medicina eu sabia que eu não podia fazer, porque eu não poderia fazer cirurgia jamais. Então isso eu já tinha descartado. Aí eu encontro uma amiga, no terceiro colegial, na escola e eu falei: “Ai, Eunice, o que você faz? Ela: “Fisioterapia”. E eu: “Como? Existe isso?” Ela falou: “Existe”. Eu falei: “Mas não precisa fazer a faculdade de Medicina?” Ela falou: “Não. Existe a faculdade de Fisioterapia”. Eu falei: “Não acredito”. Aí, nisso, eu já fiquei toda empolgada, toda feliz. Eu falei: “Será que eu posso fazer Fisioterapia?” E eu fui conversar com um médico, um professor de neurologia lá do HC, da Pinheiros, perguntar pra ele se eu poderia fazer a faculdade. Ele falou: “Olha, eu não vejo impedimento nenhum. Acho que vai ser difícil pra você, mas que impeça você de fazer, não. Só vai ser muito difícil”. Eu falei: “O senhor tem certeza?” Ele falou: “Tenho”. Aí eu fui na AACD [Associção de Assistência à Criança Deficiente], fui num monte de lugar, eu falei: “É isso que eu quero”. Então eu já sabia que eu queria isso. Mas, antes disso, eu queria ir pros Estados Unidos. Aí eu fui, voltei. Não prestei vestibular. Voltei. Fiquei seis meses lá. E, naquela época, você ficar seis meses fora, nossa, era a glória. Aí voltei. E fiz seis meses de cursinho. E eu tinha que entrar na faculdade de todo jeito, porque eu já tinha ficado seis meses fora. Aí eu... como fala? Fiz o cursinho, estudei que nem uma louca. Conheci pessoas incríveis no cursinho. Até arrumei namorado no cursinho (risos). Aí eu falei: “Nossa”. Eu já sabia o que eu queria. E eu sabia que eu queria estudar em Campinas, porque eu queria sair de casa. Eu não queria voltar pra casa. Eu queria sair de casa. E naquela época tinha três faculdades. Tinha a USP, tinha Campinas, tinha São Carlos e tinha Piracicaba. São Carlos, era no meio do ano. A USP eu não queria e também não ia conseguir entrar (risos). Eu falei: “Então ou é Piracicaba, ou é Campinas”. E eu queria ir pra Campinas. Prestei em Campinas e entrei. Yes! Fiquei super feliz, era tudo o que eu queria. Aí a minha mãe…


P/1 - E, Rosely, o que te encantou em fisio?


R- Em fisio? Eu já tinha passado por tantas coisas, por tantos tratamentos. Eu achava que eu ia poder ajudar as pessoas, porque eu sabia o que o paciente estava sentindo. E, no primeiro momento, o que eu mais queria era fazer uma criança andar. O fato de você ter essa liberdade de andar é uma coisa que só quem nunca teve, sabe. É muito importante você ter essa liberdade. Andar, seja lá como for. Mas você poder andar com as suas pernas, literalmente, sabe, é incrível. Você ver uma criança poder andar, ai, gente, é muito emocionante. Então, eu tendo essa experiência, eu achava, eu queria muito poder ajudar alguém a andar. E ajudar a tirar a dor. Porque, assim, o deficiente tem muitas dores. Poder tirar um pouco dessa dor. Porque você tem dor física e tem dor de alma. São duas dores que o deficiente tem (risos). Então eu achava que eu ia poder ajudar, era a melhor forma de ajudar. Eu prestei a Psicologia e prestei a Pedagogia e eu entrei. Era tudo em São Paulo, é lógico que eu não queria ficar em São Paulo (risos). Mas eu queria fazer fisio. Eu queria poder ajudar, de alguma forma, a pessoa ter menos sequelas, menos dificuldades na vida. Porque a vida já é difícil por si só, pra todo mundo, normal ou não. E aí você vai aprendendo, durante a vida que, mesmo que você tenha algum problema, todo mundo tem problema. Só que os problemas vão mudando. E o que eu conhecia eram os problemas físicos. O quanto era doído você não conseguir pegar uma xícara. O quanto era doído você derrubar o sabonete. Essa pequenas coisas. Você não conseguir pegar em um talher, sabe, a comida escorrer. As pequenas coisas, mesmo. Então eu tinha muita vontade de ser fisioterapeuta. E quando eu soube que eu podia ser, eu falei: “Ah, gente, mas é isso que eu quero. Eu vou poder fazer tanta coisa" E foi por isso que eu segui na Fisioterapia. Só que, quando eu cheguei lá e os meus pais não poderiam pagar também, eu falei: “Não, mas eu vou ajudar. Eu vou trabalhar”. E de final de semana, eu trabalhava com o meu irmão, a gente vendia cosméticos. E eu tinha uma pele ótima. Então, eu fazia demonstração. Eu vendia muito, muito. Eu vendia e o meu irmão entregava os produtos. Era muito legal, fazia aquelas reuniões, tanãnã. E deu um bom dinheirinho, deu pra ajudar bastante (risos). E aí, quando eu cheguei na faculdade, o primeiro ano foi super legal, fui super acolhida. Tinha uma professora com sequela de paralisia infantil, que dava aula de neurologia. E super me acolheu, uma fofa, ela chamava Rosinha. Só que, no final deste ano, o que aconteceu? Mudou o diretor. Ele foi, acho que ele saiu do país, o Fernando Villar. E entrou um outro coordenador da faculdade. Aí começou a minha tortura, porque ele dava aula de Cinesiologia. E ele não concordava que eu fizesse a faculdade. Aí ele me chamou e falou assim: “Olha, Rosely, eu sei que a sua segunda opção era Computação” - porque eu era boa de Matemática - “Você pode escolher o curso que você quiser, que eu te dou. E você sai da Fisioterapia”. Eu falei: “Olha, professor, é o seguinte: eu não tenho pretensão de sair da Fisioterapia, não. Se o método de vocês fazerem a seleção está errada, eu passei. Por que eu não posso. Eu passei e não vou sair da faculdade. Não vou sair”. Ele falou: “Não, mas não vai dar pra você, barari, bororó, tororó, tororó”. Eu falei: “Olha, eu não vou sair. Não vou sair”. Então só que esse professor ia ser o meu professor no segundo, no terceiro e no quarto ano. Então foi muito difícil, porque ele me perseguiu, direto. E a média lá na PUC, era sete, pra passar. Então não adiantava tirar dez e zero, entendeu? Era muito complicado. E era assim, notório, todo mundo sabia que ele estava na perseguição, porque tinha provas práticas. E, na hora da prova prática, ele ferrava comigo. E era sempre em dupla. Nossa, quantas duplas minhas não brigaram com ele. “Professor, faz essa pergunta pra mim”. Mas ele fazia de propósito, gente, pra ver se eu desistia. E aí foi perseguindo, perseguindo, perseguindo. No segundo ano da faculdade, que eu tive aula de – acho que foi no segundo – massoterapia, também era difícil. Mas a professora, que era da cadeira, ela aceitava que eu fizesse, mas a assistente dela, não. Então, nossa, uma vez, na hora da prova, eram várias duplas e você caía ou com uma professora ou com a outra. E eu caí com a outra. Ai, Senhor! Ela falou assim: “Não vai passar”. Eu falei: “Mas, professora, eu consigo fazer com uma mão só” “Mas não pode”. E aí foi aquela polêmica. E eu, pra poder passar, gente, eu passava horas, noites, estudando e treinando.  E eu morava numa república, que nós éramos três no mesmo curso. Então uma ajudava a outra. Todo mundo ajudando ali, a treinar. A gente treinava muito. E, quando isso aconteceu, a professora de neuro falou assim: “Rosely, eu vou tratar você. Eu vou tratar e você vai conseguir terminar a faculdade”. Ela foi muito legal, inesquecível, a Ivana. Aí ela pegou um menino do último ano, que fazia estágio, pra me atender, que era meu amigo, até. E ele ia me atender na república, duas vezes por semana. Ela me atendia. Pra eu conseguir, porque eu ficava muito espástica, muito dura, aí que a minha mão não obedecia mesmo. Aí teve uma discussão lá, entre os professores e a professora que era da cadeira me passou, na massagem. Aí eu falei pra professora, eu falei: “Olha, professora, eu posso usar outras técnicas. Eu não preciso fazer exatamente isso pra trabalhar, não é? Sabe, será que eu vou ter que fazer só isso? Não dá pra fazer outra coisa?” Aí a professora: “Lógico que pode. É que a assistente está cheia de história, das nove horas. Não, você vai passar”. Esse foi um empecilho, mas aí nunca mais cruzei com essa professora, graças a Deus. E a professora que era a chefe dessa cadeira, ela era da psiquiatria, de terapia corporal, então eu a tive por muitos anos. E depois eu fiz uma pós com ela, também. Muito legal. Uma pessoa que me ajudou muito, muito, muito. E até no último dia da aula de psiquiatria dela, ela dava um papelzinho pra cada aluno. E o papelzinho que ela me deu foi: “Permita-se”. Achei, assim... nunca esqueci. Porque, ao mesmo tempo que você está lá lutando, você se boicota muito também. Então... e aí esse professor, que me perseguiu até o último ano, nossa, foi muito sofrido, gente. Que tortura! (risos) Mas que tortura! E aí, assim, existiam uns estágios que eram feitos no hospital e eu caí com ele na ortopedia, por muito azar. Porque eu podia cair com outros professores, mas eu caí com ele. Mas, no final, passei. Ele judiou muito, mas passei. E uma parte muito difícil era a parte respiratória, mas os professores foram ótimos. E eu falava assim, pro professor, eu falei: “Olha, professor. Eu juro que eu nunca vou trabalhar na UTI. Odeio a UTI. Eu não vou trabalhar. E a minha mão não funciona, porque eu não vou conseguir ser rápida”. Você pega, entuba, desentuba, nananã. Eu falei: “Não, professor. Eu nunca vou fazer isso. As manobras de respiratório, eu sei que eu não posso fazer, eu não vou fazer”. Mas eles foram ótimos, eles me passaram. E eu era boa na teoria, então ia tudo bem. E, no final, quando eu me formei, na hora de ganhar o diploma, quem me deu o diploma? O professor (risos). Eu olhava aquilo, eu falei: “Eu não acredito que vai ser ele que vai me dar!” Porque são vários professores. E aí, cada um vai dando pra um aluno, cada um e aí vai indo. Aí, na hora que chegou a minha vez, eu falei: “Ai, não. Não é possível”. (risos) Mas ele que me deu. Ele já é falecido. Depois de uns dez anos de formada, eu encontrei com ele. Porque aí, depois, eu fiz muitas coisas, mas eu encontrei com ele num congresso de docentes, que eu dava aula na faculdade. E ele virou, assim, pra mim, ele falou assim: “É, Rosely, eu tenho ouvido falar muito de você”. Eu falei: “É, professor?” Ele falou: “É. Você conseguiu”. Eu falei: “A duras penas, professor, mas eu estou chegando lá. Eu vou conseguir o meu objetivo”. Mas foi, assim, a minha glória, eu ter encontrado o professor naquele dia e ele admitir que eu podia ser fisioterapeuta. (risos) Olha, porque foi uma longa caminhada. Mas que bom que ele tinha ouvido falar de mim.


P/2- Sim.


P/1 - E, Rosely, como foi, pra você, morar longe dos seus pais, longe da sua família?


R- Maravilhoso (risos). Foi muito bom! Você tem que se virar. Mas era tudo o que eu queria. Eu queria pôr à prova que eu podia viver sozinha. Não era isso que a minha mãe queria, que eu fosse independente? (risos) Eu queria ser independente. Eu queria ter a minha vida. E uma ótima experiência é você morar fora, mesmo. Foi muito legal, muito. E eu era, mesmo, independente. Eu fazia de tudo. Mas lógico que houve vários empecilhos. Então, assim: o ônibus era difícil, algumas coisas eram complicadas. Mas, olha, super bem. Super bem. E, naquela época, não tinha celular. E nem tinha telefone na república. Então a gente tinha que ir no orelhão, telefonar pra família, pro namorado. Mas foi muito legal, gente. Eu acho que todo mundo deveria ter essa experiência de morar fora. Eu até queria muito que os meus filhos tivessem estudado fora de São Paulo, mas ninguém quis. Eu estimulo todo mundo, eu acho que estudar fora de casa é tudo de bom. Tem que estudar. Tem que ir pra outro país. É muito legal. É um frio na barriga, tem hora que você passa por cada perrengue! Mas é uma experiência única. E só você pode viver, entendeu? É uma coisa que não dá pra você passar, essa experiência. É muito legal. Muito legal.


P/1 - E depois de formada, como começaram os trabalhos?


R- Então, quando eu me formei, aquele último ano, fica todo mundo: “Como é que vai ser? Eu vou conseguir? Não vou conseguir?” E quando eu me formei, a minha professora de Pediatria, que é uma fofa, virou pra mim e falou assim: “Olha, Rosely, se você acha que foi difícil até agora, daqui pra frente vai ser muito pior. Porque quando você receber o seu diploma, você é mais uma. E se tiver que escolher entre você e uma pessoa normal, você não vai ser escolhida. Você saiba disso”. Eu falei: “Ah, tá bom, professora”. E aí uma vez eu fui, a gente foi tentar um estágio numa clínica da Terezinha Ikeda, que era ‘famosésima’ em Campinas, aí ela falou assim: “Vocês querem estágio?”. Aí a gente perguntou: “A senhora paga o estagiário?” Ela falou: “Pagar? Mas nunca. Vocês é que têm que me pagar, pra eu ensinar”. E, na época, a gente ficou ofendidíssima. Mas hoje eu entendo porque ela falou isso, (risos) o quanto que estagiário dá trabalho. E a responsabilidade que você tem que ter com o estagiário. E a gente não pegou estágio lá, não. (risos) Mas aí a gente tinha uma parceria entre as amigas. Todo mundo ia ser competitiva lá fora. Mas a gente tinha um grupinho, que depois que a gente se formou, a gente tinha um grupo de estudos, toda semana que, quando aparecesse algum caso que a gente não soubesse tratar, a gente levava pro grupo. Porque qual é a dificuldade, quando você se forma? Você não sabe. Você não sabe tudo. Só que você é mais um. E você e o de dez anos formado, lá fora, é a mesma coisa. Então, só que aí, você não pode falar pro outro que você não sabe. Mas no nosso grupo de estudo, a gente podia falar: “Gente, caso cabeludo! Não sei nem por onde começar”. E esse grupinho foi por um ou dois anos, a gente ficou, toda semana, estudando juntas. Muito legal. Somos amigas até hoje. Mas a gente começou assim. E como eu sabia que a minha vida ia ser muito difícil, eu pensei: “Eu tenho que ter algum diferencial”. E, quando eu estava fazendo estágio na maternidade, eu vi um bebê com Síndrome de Moebius, muito grave, muito grave. E ele era espástico, super rígido. E eu cheguei lá no berçário, na UTI, até, bem na hora do banho dele. Quando eu o vi dentro da banheira, eu falei: “Não acredito! Como melhora!”. Aí eu falei, desci correndo, aquele dia, fui falar com a professora, eu falei: “Professora, professora, eu quero o material de hidroterapia”. Ela falou: “Não tem”. Eu falei: “Como não tem? Eu vi um bebê lá na banheirinha, agora. Como ele melhora! Isso, aquilo, aquilo, aquilo. Nossa, ia ser o máximo”. Ela falou: “Olha, Rosely, que eu saiba, não tem”. Eu falei: “Não tem?” Bom, eu sei que eu vim pra São Paulo. Fui na... como é que chamava aquela biblioteca lá da Unifesp? Bom, fui lá, pesquisei. Realmente, tinha uma folhinha falando sobre hidroterapia. Eu falei: “Não é possível que não exista nada”. Aí fui na AACD, porque eu sabia que tinham uma piscina lá. Era uma educadora física que fazia uma adaptação nos deficientes, na piscina. Eu falei: “Nossa, eu já sei o que eu vou fazer. Eu vou fazer hidroterapia”. Porque aí, além de melhorar muito, era um meio onde eu não ia ter tanta dificuldade. Porque a água, em si, já ia me ajudar, eu ia poder trabalhar com uma mão só. Eu falei: “Nossa, é isso. É isso que eu quero”. Aí comecei a pesquisar, pesquisar, pesquisar o que fazer. Aí liguei pra minha família dos Estados Unidos, que a minha mãe era enfermeira, eu falei: “Olha, eu quero fazer isso, isso e isso. O que a senhora acha?”. Aí ela falou: “Olha, essa área é melhor no Japão”. Eu falei: “Ah, é? Está ótimo, então”. Então eu estudei muito aquele ano pra prestar a bolsa pro Japão, porque tem bolsas de estudos do governo japonês. Bom, estudei, estudei, estudei, estudei, estudei. Toda noite eu ia na bendita aula de japonês. Fiz a prova. Eu falei: “É isso que eu quero”. Fiz a prova, passei. Só tinha uma vaga. Passei. Cada província tem um X número de vagas pra estudante, no Japão, entendeu? E a província do meu pai tinha uma vaga. Passei. Falei: “Beleza”. Aí, o que aconteceu, logo depois? Depois de um tempo que eu tinha passado, veio uma ligação em casa, até o meu pai não sabia nem como me falar, falando que eu não tinha passado no exame médico. Aí eu falei: “Como é que é?” “Não, você não pode. Fisioterapia, não pode ser deficiente”. Eu falei: “Como assim?”. Não pode. Eles não aceitam. No Japão o deficiente não pode ser fisioterapeuta. O deficiente só pode fazer acupuntura e massagem. Que é o deficiente visual, sabe, que faz massagem. Eu falei: “Eu não acredito. Não é possível. Não é possível”. Bom, aí o que eu fiz? Chorei feito não sei o que, eu fiquei revoltada. Eu falei: “Meu Deus, como assim que eu estudei que nem uma louca, passei em primeiro lugar e eu não vou? Ahh, não. Não é possível. Não é possível”. Bom, o que não tem remédio, remediado está. Aí, o que eu fiz? Fui trabalhar. E uma amiga minha, que era amiga do meu irmão mais velho, trabalhava numa escola de natação, que estava abrindo lá no Sumaré. Que já era uma escola antiga de Pinheiros, eles estavam com um mega projeto. E ela me apresentou pra esse dono. Fui lá conversar com ele e tal. Falei tudo o que eu achava, do meu sonho, da hidroterapia, disso, daquilo, parara, parara, parara, falei, falei, falei. Ele olhou pra mim, ele falou assim: “Tá. Eu vou deixar você fazer isso”. Eu falei: “O senhor vai deixar?” Ele falou: “Vou”. Eu tinha feito um cursinho ali. Eu sabia muito pouco. Mas eu queria fazer a fisioterapia na água. Aí eu tinha um projeto de avaliar, de fazer profilaxia. Eu fiz um monte de coisa nessa escola. Aí conversei muito com ele e tal, aí ele falou: “Não, eu vou acatar esse seu projeto”. Eu falei: “Ah, legal”. Aí, eu estava indo embora, ele falou assim: “Posso te perguntar uma coisa?” Eu falei: “Pode”. Ele falou: “Você sabe nadar?” Eu falei: “Não”. Ele falou: “Como assim, você não sabe nadar?” Eu falei: “Não. Exatamente por isso que eu quero trabalhar com isso. E falei pro senhor que preciso sempre de dupla, ser eu e uma educadora física. Exatamente porque eu não sei nadar”. (risos) Ele falou: “Eu não acredito”. Eu falei: “Eu sempre tive dificuldade, eu nunca pude nadar, por ser deficiente e as pessoas não saberem me ensinar. Porque, como eu sou espástica, o espástico afunda. Porque ele fica rígido. Então eu nunca consegui nadar. Nunca”. Aí ele falou assim: “É mesmo?” Eu falei: “É. Mas, se eu ficar no raso, não vai ter problema”. (risos) E aí, o que ele fez? Ele foi fantástico. Ele mandava o motorista. Ele falou assim: “Eu vou te apresentar pro Mestre Rosa, que é um mestre...”.  Nossa, era um senhor que ensinava a nadar com a técnica zen. Era um italiano, até. E o mestre dele era um japonês, que era o mestre Sato, lá da USP. Bom, ele era tão fantástico, esse meu chefe, que ele mandava o motorista dele me levar. Era no Sumaré, ele me levava até os Jardins, lá na Rua Grécia. E eu tinha aula duas vezes por semana, pra aprender a nadar. E eu aprendi rapidinho, com ele. Na primeira aula, eu consegui ir pro fundo. Eu não sei se era de tanto que eu queria aprender (risos) ou se o professor que era muito bom. Mas foi fantástico. Fantástico. Tanto que a minha mãe, que não sabia nadar, também foi depois, aprender com ele. Ela já era uma senhora. E aí eu aprendi. Esse meu chefe, gente, eu sou grata a ele, o resto da minha vida. Porque ele me deu tantas chances, ele me abriu tantas portas! E ele exigia muito de mim. Ele falava assim, pra mim: “Olha, Rosely, você vai crescer dez anos em um”. Mas ele judiava muito de mim, porque ele me colocava à prova toda hora. E aí eu trabalhei um ano e juntei muito dinheiro, pra poder ir pro Japão, por conta própria porque, por prova, eu nunca ia passar, eles nunca iam deixar. E, nisso, eu conheci um professor japonês que tinha vindo pro Brasil. E ele falou: “Olha, o dia que você for pro Japão, me procura, se você quiser, não sei o quê” “Ah, ótimo”. Eu estava com todos os endereços. E o meu irmão tem uma amiga que mora em Osaka, que trabalha exatamente com deficientes, com educação física. Então foi o primeiro lugar que eu fui, foi lá. Eu juntei dinheiro. Eu comprei a passagem. E eu tinha - olha que louca que a gente é, quando a gente é jovem - mil dólares, pra ficar um ano no Japão. Eu falo: “Gente, eu não sei como a minha mãe deixou”. Acho que a minha mãe não tinha noção do perigo da coisa (risos). Eu sei que eu fui com mil dólares e a passagem de ida e volta do Japão. Fui. Fui procurar essa amiga. Aí ela falou assim: “Então, sabe, Rosely, tem um problema: eles não aceitam deficientes”. Eu falei: “Eu não acredito. Então é verdade, mesmo?” Ela falou: “Eles não aceitam”. Eu falei: “Não é possível. Que mundo preconceituoso é esse, pelo amor de Deus!” Aí, a minha mãe tinha um irmão que morava no sul do Japão. Eu fui lá visitá-lo. E ele falou mundos e fundos pra mim, ficou muito bravo. Ele falou assim: “Você não sabe que aqui no Japão, as coisas são diferentes do seu país? Não é assim tão simples. Você não vai conseguir. E não sei o que, não sei o quê”.  Falou, falou, falou, falou, falou: “Você vai acabar se prostituindo. Você vai não sei o que, não sei o quê”. Eu falei: “Ah, o senhor não vai me ajudar? Tá bom, então. Tchau”. (risos) Aí, nossa, ele estava muito bravo, mas ele estava preocupado comigo. Aí voltei porque, quando eu fui pro Japão, eu fiquei na casa do irmão da minha cunhada por um mês, até eu conseguir o que fazer. E já estava acabando o meu dinheiro também. Aí ele falou... eu lembrei desse professor que tinha vindo pro Brasil. Fui lá. Aí ele falou assim: “Olha, Rosely, realmente aqui no Japão, o preconceito é muito grande. Eles não permitem, mesmo. Infelizmente o Japão tem esses problemas, não é como no Brasil”, falou, falou, falou. Ele falou assim: “Se você quer muito fazer esse curso, eu vou te apresentar pra uma pessoa que é diretora do hospital, onde é o maior centro de cursos de hidroterapia e de fisioterapia no Japão. E, se essa pessoa não te aceitar, você não tem mais chance. Por que eu acho que ela vai te aceitar? Ela foi a primeira mulher fisioterapeuta no Japão. E ela sofreu muito, muito preconceito. Então, ela foi estudar nos Estados Unidos. Ela sofreu demais. E ela é a mulher mais poderosa dentro da fisioterapia, aqui no Japão. Ela é a diretora desse centro. E ela é a diretora do Conselho de Fisioterapia no Japão. E assim vai. Então eu vou escrever uma carta pra ela. E vou ligar pra ela, vou contar o seu caso. E você vai lá. Se você convencê-la, boa sorte. Senão, pode ir embora”. Nossa, eu falei: “Meu Deus do céu, a minha última chance”. Eu fui lá. Marquei com ela, fui. Ainda falava mais ou menos o japonês porque, assim, uma coisa é falar no Brasil. Lá é outra coisa. Aí expliquei pra ela, tudo o que eu passei e tarara, que meu tio falou isso, nana nana nana, que eu prestei a bolsa. Contei tudo. Mas que a única chance que eu tinha na vida de ser uma profissional e ser alguém na vida, era aprender aquele curso. Eu tinha que aprender pra voltar, porque no Brasil não tinha hidroterapia. E era a chance de eu ser alguém. Era a chance de eu ajudar alguém. E qual era o problema de eu poder fazer o curso? (risos) Aí ela olhou pra mim, ela só me ouvindo, ela falou assim: “Tá. Vamos ver o quanto que é essa sua vontade”. Aí eu falei assim pra ela: “E o meu dinheiro está acabando” (risos). Aí ela falou assim: “Não, eu vou deixar você ficar aqui no dormitório do hospital. Você come no hospital. E você vem todos os dias, aqui, fazer o estágio. E aí você faz o curso. Vamos ver. Eu vou deixar você ficar um mês, aqui. Aí depois a gente conversa”. Bom, eu me matava. Aí fui lá pro dormitório. Todo mundo me ajudou a montar o dormitório. Lá no Japão você pega as coisas no lixo, televisão, geladeira, tem tudo no lixo. (risos) Aí montei o meu quarto, tal. Aí comecei. Todo mundo olhava pra mim, de lado, assim: “Nossa, quem é essa louca”. Aí foi, foi, foi, foi, foi. Me matei. Estudava pra caramba, à noite. E tinham vinte e quatro fisioterapeutas. E o fisioterapeuta-mor que era, assim, a vedete do Japão, tinha acabado de voltar da Europa, com o curso de hidroterapia. Então ele estava fresquinho, pra ensinar. Ó a minha sorte, aí. Aí ele me ensinou muito, eu fiz o curso. E aí, além da hidroterapia, eu fiz outros cursos. Aí ele falava assim: “Olha, Rosely, essas técnicas são difíceis pra você fazer. Vai ser bem difícil, você vai ficar com muita dor”. Eu falei: “Não tem problema. Eu quero aprender. Depois eu vejo o que eu faço. Primeiro eu aprendo, depois eu vejo se dói, se não dói. Aí tudo dói, mesmo. Não tem problema”. (risos) Aí ele deixou eu fazer os cursos, ele me treinava. E, no Japão, tem uma hierarquia. Você não pode chegar perto das pessoas, de qualquer pessoa. Você só pode de cima pra baixo e vai indo. E aí eu tive a sorte de poder estar com o mestre, eu falei: “Nossa, não acredito”. Foi muito legal. Aí passou um mês, a diretora falou assim: “Tá bom, eu vou deixar você ficar”. Aí ela viu que eu estava séria lá, que eu queria mesmo aprender. Então, daí pra frente, nossa, eu fiz muita coisa pra conquistar aqueles fisios. Porque lá, um estagiário ou alguém que vem de fora, não conversa com todo mundo. Ah, pois eu conversava com todo mundo (risos). Aí, eles lá têm um hábito de tomar chá. Então de manhã você serve chá pra todo mundo. Só que, assim, é quem é bem de baixo que faz isso. Eu falei: “Ah, mas eu faço. Pode deixar que eu faço”. (risos) Aí eu levava chá pra todo mundo, já conversava com todo mundo. E fui, assim, conquistando as pessoas. Fui conquistando aos poucos. E começou a ter muito curso. E como eu tinha facilidade com o inglês e lá era o centro de cursos, internacional, eu fazia as traduções do inglês pro japonês. Foi uma maravilha. E aí eu dava aula de inglês pros fisioterapeutas, eu ganhava um dinheirinho. Fui ganhando um dinheirinho, assim. Aí eu tinha um amigo que morou muitos anos nos Estados Unidos e tinha uma comunidade americana lá perto do hospital onde eu estava. Aí eu ia de fim de semana atender esses amigos dele e ganhava outro dinheirinho. Eu atendia no mar. Ah, eu fui me virando. Fui me virando. Aí, quando a minha chefe, a diretora, soube que eu estava fazendo isso, ela ficou brava. Ela falou: “Você está aqui pra estudar”. E o que ela descobriu? Que esse meu tio lá do sul, era da cidade dela. Olha a coincidência! E esse meu tio era uma pessoa muito importante nessa cidade. Ele foi uma pessoa muito sofrida, porque foi o filho que foi deixado no Japão. E ele passou pela guerra e ele sofreu demais. Ele ficou sozinho lá. E ele construiu um império. Ele ficou muito rico no Japão. Mas sofreu demais, demais, esse homem. É uma pessoa admirável. E ela falou assim: “O quê? O seu tio é esse senhor? Eu sei quem ele é”. Bom, aí o que eu soube, depois de um tempo? Que ela mandou uma carta pro meu tio falando do meu desempenho, que eu era super esforçada, que eu era isso, que eu era aquilo, pararan, pararan, pararan. Aí o que aconteceu? Ele mandou um dinheiro pra mim. Aí eu falei: “Mas eu não quero o dinheiro do meu tio” (risos). Ela falou: “Você quer, sim. Você quer. Você vai aceitar esse dinheiro. E você vai estudar e parar de ficar fazendo essas coisas que você está fazendo no fim de semana”. Aí eu falei: “Mas eu nunca vou poder devolver esse dinheiro” “Não tem problema. Ele tem muito. Você fica com esse dinheiro” (risos). Eu falei: “Mas eu não quero dever nada pra ninguém”. Ela falou: “Você larga a mão de ser orgulhosa” (risos). Aí ela falou: “Você vai aceitar. Eu vou abrir a conta pra você. E o dinheiro está aqui. E eu vou abrir a conta. E você vai usar esse dinheiro. E você vai ter uma vida um pouco mais fácil aqui”. Porque, no começo, eu perdi dez quilos no Japão. Eu não tinha dinheiro pra comer. Então eu estava economizando tudo. E eu sempre fui gordinha. Imagina que perder dez quilos, nossa, é uma façanha (risos). Mas eu estava passando maus bocados. E eu fui emagrecendo, emagrecendo. E todo mundo ia olhando isso, aí cada um vinha e trazia uma coisa pra eu comer. Eles eram muito gracinhas. Aí vira e mexe, eles me convidavam pra comer na casa deles, coisa que não é comum no Japão. No Japão eles são muito reservados. Mas, comigo, eles eram ótimos. Eles me levam pra viajar. Eles faziam o diabo, gente. Teve um congresso de fisioterapia, eles me levaram, me colocaram por baixo dos panos. Olha, as coisas que aconteceram durante esse ano foram maravilhosas. Eu conheci muita gente, fiz muita coisa. E aí quando chegou no final de um ano, o meu professor falou: “Olha, Rosely, já está na hora de você ir embora”. Eu falei: “Não, professor”. Porque não tinha internet, não tinha telefone. Era uma semana pra carta ir, uma semana pra carta voltar. Eu falei: “Professor, se eu tiver uma dúvida, como é que eu vou falar com o senhor?” Ele falou: “Você já sabe bastante. Agora, está na hora de você ir pro seu país e fazer isso no seu país”. Eu falei: “O senhor tem certeza?” Ele falou: “Absoluta. Você vai pro seu país e vai ter as suas dúvidas. Porque aqui você está ótima”. Eu já fazia de tudo lá no hospital que eu estava. E aí eu vim embora. Mas foi tão legal, tão legal! E a minha chefe, uma coisa que me honrou muito na minha despedida, falou: “Ah, vai ter a sua despedida, né?” Então, eles fazem assim: tem uma despedida, aí depois encerra - é uma cerimônia, tal - e eles vão pra um barzinho. E de lá eles pulam pra um outro barzinho e assim vai. E, normalmente ela vai nessa despedida e acabou. E você acredita que ela foi pingando, de bar em bar, até o fim, a noite inteira? Todo mundo falava assim: “Nossa, a gente nunca viu isso”. Mas ela se afeiçoou muito a mim e eu a ela. E foi o máximo. Foi o máximo. Depois, eu voltei em 1987. Aí já voltei e já fui trabalhar, não sei como. No dia que eu cheguei no Brasil, uma pessoa que eu tinha conhecido lá naquela outra escola soube que eu tinha chegado no Brasil. E ele me ligou naquele dia, convidando pra eu trabalhar na escola dele. Eu falei: “É mesmo? Olha, mas eu quero, eu tenho uma outra visão hoje. Eu quero fazer uma coisa diferente”. Ele falou: “Não. Pode fazer o que você quiser”. E lá eu fiquei doze anos. É isso mesmo. 1997, 1999. É. E aí, nisso, eu tive vários estagiários. Aí fui dar aula na faculdade, porque eu queria ensinar o que eu aprendi, que não adiantava nada eu ter aprendido uma coisa e não passar pra frente. Então eu fui dar aula na faculdade. A hidroterapia ainda não era valorizada. Muito menos pós-graduação. Muito menos graduação. Aí os médicos também não acreditavam. Eu ia visitar os médicos, eles olhavam pra minha cara, assim: “Não sei. Hidroterapia. Ah, tá”. Eu falava: “E não é põe na água que relaxa, não. Existe física. Existe método. Existe ciência”.  E eu lembro que uma amiga, uma grande amiga minha fez, um dia, uma palestra. Não foi ninguém. Eu falei: “Ai, gente. Está difícil”. Mas aí olha, eu sei que foi indo, foi indo, foi indo e foi indo. E eu tive uma estagiária que eu fui banca, na faculdade, e ela veio ser a minha estagiária, tudo e ela me propôs uma sociedade, para abrir a clínica que eu tenho hoje. Aí eu falei: “Nossa, mas como assim?”. Aí ela falou... e ela é super simples, uma graça. Mas ela era ótima aluna. Ela falou: “Ah, Rosely, eu queria que você fosse minha sócia”. Eu falei: “Sócia? Só que é o seguinte: eu não tenho dinheiro pra montar uma clínica”. Ela falou: ”Mas você tem um nome”. Aí eu já tinha bastante paciente. Aí ela falou assim: “Não, Rosely, você entra com o seu nome, com os seus pacientes”. Eu falei: “Nome? Pacientes? Como assim?” Aí conversando com o meu irmão mais velho, eu falei assim, pra ele: “Escuta, ela está me convidando pra uma sociedade. Eu não tenho onde cair morta. E ela está falando pra eu entrar com o meu nome, com os meus pacientes?” Ele falou assim: “Você pensa que nome não vale nada?” Eu falei: “Mas como assim? Ela quer... é um empreendimento caro. Como assim?”. Ele falou: “Não, Rosely, o seu nome vale. O que você construiu, vale”. Eu falei: “Você tem certeza?” “Vale. Vale”. Aí eu tive uma reunião com o pai dela, eu falei: “Olha, meu senhor, eu fico muito feliz com um convite desses, mas eu não posso. Eu prefiro ser funcionária de vocês. Eu vou me dedicar da mesma forma. Eu vou estar muito feliz em estar num lugar onde seja um lugar ideal de trabalho”. Ele falou: “Não, Rosely. O que a gente está propondo pra você, é uma sociedade cinquenta, cinquenta, mesmo”. Eu falei: “Mas eu não estou entendendo” (risos). Olha, foi muito difícil de cair a ficha, pra mim, de que isso podia ser viável. De eu não entrar com dinheiro. Como assim eu não ia entrar com dinheiro? Mas eu tinha muito paciente. Hoje eu entendo, eu sei como é a coisa. Mas naquela época, isso foi em 1987, 1997... 1997. Aí nós ficamos um ano procurando um lugar. Primeiro uma casa adaptada, aí não tinha piscina. Aí a gente procurou um terreno pra construir. E pra construir como eu achasse ideal, entendeu? Então, isso eu tinha: modelos, sonhos. Quem não tem, né? Sabe, aí eu falava assim: “Nossa, meu Deus, eu não acredito que eu vou realizar esse sonho”. Porque era um sonho você poder ter uma piscina ideal. Era muito sonho, gente.  Porque já onde eu trabalhava, já era muito bom, mas eu poder ter um local onde eu pudesse só trabalhar com a fisioterapia, eu falei: “Não, não é possível, gente”. Era tanta alegria. Nossa, era tudo de bom. Era tudo de bom. E aí a gente, eu coloquei lá o que eu achava, os meus sonhos, como tinha que ser a clínica, assim, assado e cozido. E  eles compraram a ideia. Foi assim... tivemos muitos empecilhos. A piscina... aí ficou pronto em dois anos. Ia ficar pronta em um ano, ficou pronta em dois anos. E consultamos arquitetos. Aí tinha arquiteto especializado em hospital e outro em escolas. E aí a gente pegou o que estava especializado em hospital. E ficou muito legal. Quando aquilo foi ficando pronto, eu falava assim: “Meu Deus, será que eu vou dar conta de gerir isso?” Só que aí, não é mais “será”, eu tinha que dar conta, entendeu? (risos) Nossa, mas foi muito, muito legal. E no primeiro ano, a gente teve um problema sério na piscina, de vazamento. E nossa, aconteceu, tem muita história naquela clínica. E, nisso, no primeiro ano que a gente estava lá, três professores meus, dos vinte e quatro, lá, vieram pro Brasil. E aí eles conheceram a clínica.  Mas eles ficaram... e um deles era um dos professor-mor, lá. Ia ter um congresso no Brasil. Aí ele falou assim... ah, no dia da minha despedida, a minha chefe falou assim: “Daqui a dez anos, vocês vão ouvir falar da Rosely”. Eu olhei pra ela, falei: “Nossa, está viajando”. Aí o professor falou: “Rosely, a nossa diretora não falou que daqui a dez anos, a gente ia ouvir falar de você?” Ele falou assim: “Olha o que você alcançou!”. Porque uma coisa privada daquele tamanho, que é a minha clínica, é quase impossível no Japão. Ele falou assim: “É inacreditável onde você chegou”. Eu falei assim: “Então, professor, mas é que, assim, é tudo de sonhos, de trabalho, de...”. Eu sempre trabalhei com o coração. Eu nunca trabalhei pelo financeiro. Eu falo, quando o estagiário vem, eles acham que eu estou falando balela, mas eu falo: “Gente, o dinheiro vem. Mas o primeiro não pode ser o dinheiro. O primeiro tem que ser as suas metas, os seus objetivos, os seus sonhos. Senão não vale nada do que você trabalha”. E, nossa, mas o meu professor ficou tão feliz, mas tão feliz! Ele falou: “Você realizou o seu sonho, Rosely”. Eu falei: “Olha, professor, é incrível. Mas, aos pouquinhos, eu fui conquistando. Fui dando aula. Fui ensinando”. Ensinei. Tem muita gente boa por aí. Muita, graças a Deus, que eu consegui ensinar. Dar aula não é fácil. A sua mãe, eu não sei se ainda a sua mãe dá aula. Mas é difícil. E a gente sonha, quando a gente dá aula. Só que quem disse que o aluno quer aprender. Então você se doa, você se mata. Você quer que ele seja um bom profissional. Pelo outro, porque, assim, mais um terapeuta que você... você não consegue abraçar o mundo. Então cada bom terapeuta que você põe no mercado, é mais vinte que ele vai atender. E assim vai. Porque não adianta só uma pessoa ser boa. Não adianta. Aí o pessoal fala assim: “Nossa, Rosely, mas você ensina tudo”. Eu falei: “Eu ensino tudo e mais um pouco. É o seguinte, gente, eu só tenho uma mão, vocês têm duas. Então, vocês têm que ser melhor do que eu. Gente, tem muito o que ensinar. Mas vocês precisam querer. Então, querer trabalhar, querer ajudar, querer salvar, querer, é tudo o que move a gente. Então, se vocês têm duas mãos, dois pés. E uma boa cabeça, gente, vamos em frente. Dá pra gente trabalhar muito. Dá pra gente ajudar muita gente. Por mais que eu queira ajudar, quantas pessoas eu posso atender? Cinquenta, cem, no máximo. Não mais do que isso, gente. Mas isso tem que se multiplicar através de vocês.” Tem muita gente que tem uma cabecinha assim, que fala: “Imagina, vou esconder o leite”. Ai, que pobreza (risos). É muito triste isso. Você tem que expandir. Você tem que crescer o método. E aí, por muitos anos, eu dei aula. Só que depois de alguns anos, o professor, o grande professor - o maior centro de hidroterapia é na Suíça, tá? - da Suíça começou a vir pro Brasil, pra dar curso. Inclusive, ele deu lá na nossa clínica, uma vez. Aí desde então, eu parei de dar aula. Eu falei: “Gente, agora eu não preciso mais”. Agora, o professor vem, vai ensinar. Porque, na verdade, assim, eu tentava dar aula, tal, mas eu sou muito adaptada. Só que, eu olhando, eu sei se a pessoa está fazendo certo. Mas agora, se o professor estava vindo da Suíça, eu não precisava mais dar aula. Eu falei: “Gente, agora eu vou parar. Vou parar de dar aula. Vou parar de dar curso. O Johan está vindo pro Brasil, uma pessoa incrível. E vocês estão em ótimas mãos. Enquanto existir o Johan, está maravilha”. Então há anos ele vem a cada dois anos pro Brasil dar curso. E eu tenho contato com ele. Ele é uma graça. E assim fui crescendo, crescendo, crescendo. E cá estou eu, muito feliz. Nesse ano que eu tive essa proposta de abrir a clínica, eu feliz da vida: “Ah, vamos abrir, tararan, tararan”. Encontramos o terreno. Quando começou a construir, o que aconteceu? Fazia nove anos que eu estava tentando ter filhos. Eu não conseguia. E fazia nove anos que eu tratava, fazia, fiz tudo o que é tratamento que você possa imaginar: inseminação, temperatura, proveta, vira de ponta-cabeça, vai no curandeiro, faz o diabo, faz reza. Bom, naquele ano, eu não engravidei? Eu falava: “Me Deus do céu, e agora?” E mais: eu já tinha feito mil tratamentos com vários óvulos, com isso, com aquilo. E o médico dizia que era muito difícil engravidar, mais de gemelar, essas coisas, que era só trinta por cento. Eu falei: “Ah, está bom. Como eu não consigo mesmo, quem sabe gêmeos”, tal. Quando deu certo, o tratamento, eram quatro. Eu falei: “Como é que é?” O médico falou assim: “Você está grávida de quatro”. Eu já não enxergava mais nada naquele ultrassom. Eu falei: “Quatro? Quatro?” Mas no mês seguinte um deles regrediu. Mas, mesmo assim, eram três. Aí eu falei com a minha sócia: “Olha, Adriana, eu tenho uma coisa pra te contar”. Ela falou: “É?” Eu falei: “É. Eu engravidei” “Nossa, que legal, não sei que lá”. Ela já tinha um menino, parará, parará, parará, parará. E eu falei assim: “Não, mas tem mais: são três”. Ela: “Meu Deus do céu! E agora? Você quer desistir?” E eu falei: “Eu não” “Você que desistir?” Da sociedade, né? Eu falei: “Não. Eu vou até o fim. Eu não sei o que vai acontecer. Mas eu vou até o fim”. Aí ela ficou super preocupada, tudo. Mas olha, apesar da gravidez de risco, eu fui até o fim. As crianças nasceram de trinta e seis semanas. Foi super tranquilo. Foi uma gravidez ótima. Porque eu estava tão feliz, tão feliz, que nossa! E eu tinha um paciente de TI, que falava assim: “Rosely, você já é uma profissional. Você é casada. Você é feliz. O que você tanto quer ter filho? Pra que ter filhos? Com tantas dificuldades físicas, vai ficar tão complicado. Você já pensou como você vai levar uma gravidez com três... normal”. Ele não sabia, ainda. Quando ele soube que eram trigêmeos, ele falava assim: “Meu Deus, Rosely, como você vai carregar três filhos na barriga com esse físico?” Eu falei: “Ah, vai dar tudo certo, o senhor vai ver. O senhor vai ver, no fim vai dar tudo certo”. E eu fui muito bem até o fim. Não tive problema nenhum. Nenhum.


P/1 - E como foi se tornar mãe? O que a maternidade representou, na sua vida?


R- A maternidade? O sonho da minha vida era ser mãe. Eu sempre brincava que eu não ia casar, mas que eu queria muito ser mãe. E o meu marido, até, era muito divertido. E, quando ele queria casar, eu falava assim: “Não, eu não quero casar. Não, eu não quero casar, porque viver comigo é muito complicado”. Ele falou: “Quem falou?” Eu falei: “Eu estou falando. Porque eu sou adaptada, tal. Você vai ter que se adaptar a muita coisa”. Ele falou: “E qual é o problema?” E aí eu falava: “Não, não, não, não, não. Eu não quero dividir a minha vida com ninguém, não. É muito difícil viver comigo”. Ele: “Não. Não. Não”. Bom, ele insistiu. Eu falava assim: “Não. Não quero”. Ele falou: “Tsc. Vamos ver se você não vai querer”. (risos) Bom, no fim a gente casou. E foi muito legal. Ele, assim, era alucinado por criança. E eu sempre quis ser mãe. Eu sempre quis sentir o bebê na minha barriga. Todo mundo falava: “Por que você não adota, Rosely?” Eu falei: “Porque eu queria ter na minha barriga”. Aí vai, fala, fala, fala. E eu lembro que por isso que eu tentei muitas vezes. Eu fiz cinco provetas. Então foi muito difícil. Eu fiz três inseminações. Aí ele falou assim, quando a gente... eu queria ser mãe, eu falei. Quando chegou num ponto, o médico falou assim: “Olha, essa é a última vez que você vai conseguir”. Porque eu tinha feito uma cirurgia, assim, no decorrer da nossa vida de casado, eu tive muitas cirurgias, muitos tumores. E um dos tumores era no ovário. Tive na mama, tive no ovário. Muitas cirurgias. E, quando eu tive no ovário, eu tirei um ovário e fiquei com a metade do outro, só. Por isso que era difícil engravidar. Eu já sabia que ia ser muito difícil. Aí o médico falou assim: “Olha, se não der agora, você tem que fazer ovodoação”. Eu falei: “Não. Se é pra fazer ovodoação, aí eu adoto. Porque aí é muito egoísmo meu. Aí eu acho que tem muita criança pra adotar. Já que não vai ser, vamos lá”. Mas aí eu engravidei dos três. E, assim, é muito lindo ser mãe. É um sonho. Engraçado que hoje a meninada não sonha ser mãe. Mas os meus filhos, as meninas não têm esse sonho de menina, de mãe. Ainda eu brinco, eu falei: “Nossa, será que eu não sou uma boa mãe? Para ela não querer ser mãe?” (risos) Mas elas falam assim: “Ah, ser mãe dá muito trabalho, mãe, Deus me livre!”. Mas é muito lindo ser mãe, aquela coisa, aquela...  e aquela coisa: quando você tem um bebê, você vai aprender a ser mãe, entendeu? Você aprende quando ele nasce. Então você é tão crua quanto ele. Você aprende muito, muito com uma criança, muito. E o que sempre brinco, que eu falo que filho tem que vir um de cada vez, porque senão, quando você erra com um, você tem a oportunidade de não errar com o outro.   Agora, quando você tem três de uma vez, você faz tudo errado (risos). Aí já fez. Já fez tudo errado. Mas você tenta, à medida do possível, ser coerente, tudo. E quando você tem um bom marido, isso ajuda muito. O meu marido era fantástico enquanto pai, enquanto... Um super companheiro. Então foi uma experiência incrível. Apesar de ele ter vivido pouco com a gente, porque as crianças tinham onze anos quando ele faleceu. Mas ele foi incrível. Então a gente viveu uma maternidade, uma paternidade, assim, muito, muito linda. Depois, sem ele, ficou um pouco difícil. Mas... ficou bastante difícil, porque as crianças eram pequenas. Mas eu acho, eu falo pras crianças: “Nós não somos os primeiros, nem os últimos. E isso pode acontecer. E faz parte da vida. É a vida, né? Vamos em frente”. Mas, olha, a maternidade é a coisa mais linda que você possa imaginar.


P/1 - E como foi o casamento de vocês?


R- Muito legal também. Difícil, porque a gente era duro (risos). Então, a gente começou com uma casinha, com um apartamentinho sem nada. Tudo no chão. A gente tinha um colchão no chão, umas almofadas no chão. O armário da gente era caixa de maçã (risos). A gente tinha todo o armário da cozinha e do quarto, era caixa de maçã. Aí a gente tinha uma arara e um fogão, uma geladeira e a máquina de lavar. Beleza, estava ótimo. Ótimo. A gente sempre falava, a gente levou cinco anos pra conseguir fazer armário. E, nossa, a vida era dura (risos). Mas era muito legal. A gente passou por muitas dificuldades, de saúde, disso, daquilo. Mas a gente tinha muita harmonia, muita. Foi muito legal. A gente era muito companheiro. Ele era uma pessoa incrível. Eu falo: “Puxa, as pessoas boas vão logo, mesmo” (risos). Assim, ele era uma pessoa que, quando eu conheci, ele era amigo do meu irmão, do meu irmão segundo. Ele foi na minha casa, numa festa. Aqui em casa sempre tinha festa. Eu falei: “Nossa!” Eu falei pro meu irmão: “Onde você encontrou essa peça rara, essa figura?” Ele era muito divertido e eu sempre gostei de pessoas divertidas. Não sei se porque a minha vida tinha sido mais dura e eu era muito séria, eu queria que alguém me fizesse rir. E ele era muito engraçado. E bom. Sabe quando você vê uma pessoa boa. Eu falei: “Nossa, era o que eu estava procurando”. Super bom, super... nossa, muito gente, muito... uma pessoa que acrescenta muito. Ele tinha uma espiritualidade, assim, incrível. Não era religioso, mas ele era... você olhava pra ele, você falava assim: “Nossa, é a bondade”. E as pessoas sempre brincam comigo, falam assim: “Ai, Rosely, você acredita em Papai Noel. É impressionante!” Eu falei: “Ai, gente, mas eu prefiro acreditar que tem que ter um ser humano bom no mundo. Porque senão, gente, você vai viver como, né?”. Tem que ter. Eu sei que tem muita maldade, mesmo, mas eu prefiro não ver essa maldade. Eu prefiro ver de uma outra forma a maldade das pessoas, sei lá. Eu acho que tem sim, tem. A gente passa na empresa, em tudo. Mas eu prefiro ter um outro olhar da vida. Porque senão do que valeu a gente viver. E eu acho, assim, que viver é, realmente, uma oportunidade única. E é muito rico a gente ter essa oportunidade, viver. Quantas experiências, quantas pessoas você encontra! E nada acontece por acaso. Então, eu acho muito linda, a vida.


P/1 - E, Rosely, junto com os seus filhos, a clínica foi crescendo.


R- Foi.


P/1 - Como foi isso? Quais foram os seus maiores desafios, como empreendedora, e os maiores aprendizados?


R- Nossa, muito difícil! Porque, exatamente, as crianças... quer ver? Um ano, quando eles tinham um ano, a gente inaugurou a clínica. E eu tinha combinado com o meu marido, quando eu aceitei, eu falei: “Olha, você consegue segurar a onda? Porque eu vou empreender num negócio, que eu não sei o que vai acontecer”. Quando a gente fez as contas, eu sabia que o que eu tinha de paciente, o que eu ganhava, pagava a conta básica da clínica, entendeu? Mas e o resto, né? E depois, pra gente? Mas eu sabia que o básico eu ia conseguir pagar. Então, no começo ia ser difícil. Então eu combinei com ele que ele segurava a onda e eu ia crescendo. Ele era engenheiro civil. Ele me ajudou muito. Aí eu engravidei, que foi um susto. Eu falei: “E agora?” Geralmente, você guarda dinheiro pra engravidar. Só que eu já tinha gastado todo o dinheiro em tratamento. Eu falei: “Meu Deus do céu, alguma coisa tem que acontecer. Vai ter que dar certo”. Tanto que eu fiquei pouco tempo de repouso, eu voltei logo a trabalhar. Autônomo não consegue ficar quatro meses, seis meses, não dá, tem que voltar a trabalhar. Mas foi uma trajetória interessante. Olha, vou te falar uma coisa: eu rezei muito, viu?   Porque eu falava assim: “Deus, eu pedi tanto pro Senhor, um filho, mas tanto, o senhor me deu três (risos). Já que meu deu três, me dá trabalho pra sustentar esses três. Eu não nego força pra trabalhar, mas eu preciso de paciente”. Mas você sabe que a clínica foi crescendo, foi crescendo, fui dando conta. As crianças ficavam no berçário. Era uma correria, uma loucura. Vai, no começo eu dava de mamar e voltava e não sei o quê. E aí, depois, eu deixava as crianças no berçário, deixava cedinho e ia buscar no fim da tarde, voltava pra casa. E era aquela maratona. Mas a gente foi crescendo junto. E quando você tem uma meta, objetivos, e você tem vidas ali, você vai. Você vai. E aquilo foi crescendo. A clínica foi crescendo aos poucos, ganhando força, crescendo, crescendo. Não foi fácil. Realmente, não foi fácil. Mas juntas, eu tenho a minha sócia, graças a Deus, ela é muito fiel, cuidadosa. A gente é muito parecida, nesse sentido. O meu irmão falou pra mim, uma vez, logo no começo: “Olha, uma sociedade termina quando os objetivos mudam. Quando você tem a mesma meta, o mesmo objetivo, a sociedade sempre vai existir”. Porque eu morria de medo que não desse certo. Isso é uma coisa que é muito comum entre nós duas: a gente pensa muito no próximo, em ajudar o próximo. Lógico que a gente gosta de ganhar dinheiro. Mas primeiro é o paciente. Então isso dá muito certo. Porque, se não pensasse assim, não ia dar certo. Então a gente nunca vai ser milionária. Mas a gente é realizada. Muito realizada. E, nisso, os filhos dela foram crescendo, os meus também. E, como eu nunca fui uma pessoa de ter muito dinheiro, não sei o que, eu me viro com o que eu tenho. A gente foi crescendo, foi crescendo. E as crianças entendem que não dá pra ter tudo. Mas o que a gente tem é bom. E é o suficiente. Eles sempre estudaram em escolas legais, que eu achava legal estudar. Depois que o meu marido faleceu, aí ficou complicado, porque pagar três escolas (risos) é bem complicado. E eles tinham bolsa na outra escola. Só que, depois que o me marido faleceu, acabou. Porque a bolsa era no nome dele. Eu falei: “Eu não acredito. Ele morreu, acabou”. Eu falei: “Nossa Senhora!”. Isso porque era uma escola católica. Então o mundo caiu ali. Eu tive que procurar outros recursos. E tive muitos problema com as crianças mudando de escola, tal, mas tive que aprender. Depois que ele faleceu, ficou bem difícil. Bem difícil. Mas deu pra levar. Eu falei: “Vamos em frente”. Na semana seguinte eu já estava trabalhando. “Vamos. Vamos pra escola. Vamos. Vamos embora. Vamos embora. Não dá pra parar de viver, não. A vida é assim mesmo. Tem os seus percalços. E eu vou ter que me virar. Como, eu não sei”. Só que assim, como o meu marido era muito companheiro, como os meus irmãos diziam, que ele me mimava demais, ai, meu Deus, foi difícil eu voltar pra realidade (risos). Porque, realmente, ele fazia muita coisa pra mim, muita coisa. E uma das coisas difíceis pra eu começar, foi eu lidar com o Banco, essas coisas que eu não gosto de fazer. Mas tem que encarar. Hoje eu faço tudo com o pé nas costas. É mais uma coisa que você tem que fazer. Tem as coisas da casa, da empresa, não sei o quê. Mas sempre dei conta. Sempre dei conta, graças a Deus.


P/1 - E, Rosely, quais os nomes dos seus filhos e do seu ex-marido?


R- O meu marido chamava-se Lauro Fumiaki Kunitake. Aí as crianças: Vinicius Haru Kunitake, Camila Naomi Kunitake e Carolina Mitiko Kunitake. Eles nasceram pequenininhos. Mas cresce rápido.


P/1 - E me conta uma coisa: qual foi o momento mais marcante nessa sua trajetória, como uma mulher empreendedora? Você consegue pensar em algum?


R- Mais marcante? Nossa! Eu acho que um dos grandes desafios é você saber lidar com uma sociedade. Isso é muito marcante, eu acho. Você saber administrar isso. Eu acho que não é fácil. Não é fácil. Mas nós estamos juntas há - a clínica tem 21 anos - 26 anos nós estamos juntas. São 21 anos de sociedade. É um grande aprendizado. É um grande desafio sempre, sempre. Porque eu falo que a sociedade é um casamento sem amor, é um casamento só de dinheiro. É um casamento de metas, objetivos. Mas ainda bem que é um casamento, no nosso caso, de sonho profissional. Então o nosso amor é esse: é o nosso amor pela nossa profissão. E é um aprendizado, como é um casamento. Não é fácil. Agora, uma coisa que marcasse a clínica? O que marcou muito a gente são os desafios. Então a gente muito ingênua, cheias de sonhos, tal, querendo trabalhar, então, assim, você leva rasteira de funcionário, a clínica quebra. Mas graças a Deus, no começo, os nossos maridos – o dela é incrível, também – nos ajudaram demais. Pra tudo eles estavam lá, pra ajudar a gente, sempre. Porque mulher, duas mulheres não entendem nada da coisa prática. E tanto o meu marido, como o dela, eram maridos, assim, proativos. Então, era uma beleza. Ajudaram muito. Porque a gente teve muito problema com a construção, de quebrar, de não sei o que, de funcionário que passou rasteira na gente. E aí a gente fica decepcionada. Você fala assim: “Puxa, como assim? A gente se doou tanto, a pessoa vai e faz uma coisa dessa?” Porque a gente sempre acabava agindo com o coração também. Aí a gente se estrepava. Mas eu acho que o maior desafio da clínica é a clínica dar certo. Sabe, a clínica sobreviver, é o reconhecimento de pacientes e de médicos, que a gente é séria. Eu fico muito feliz, quando pessoal fala: “Nossa, a gente ouve muito falar de vocês”. Quando falam que o caso é difícil, tem que vir pra cá. Isso é muito gostoso. O reconhecimento de que a gente faz um trabalho sério. Talvez a gente não seja os melhores, não. Mas a gente tenta fazer o melhor pelo paciente. E isso a gente faz. A gente faz, a gente estuda, a gente faz reunião clínica. Eu trouxe um esquema que tinha no Japão, de reunião clínica, que eu achava incrível, que eu acho que dá certo. Então a gente tenta o melhor pro paciente. Então, eu acho que isso, esse reconhecimento dos médicos - e é de boca em boca – e pacientes, é muito gratificante. Você ver um paciente melhorar da dor, é muito gostoso. Você ver diminuir o sofrimento do outro, é muito legal


P/1 - Queria te perguntar isso: se você tem alguma história de algum paciente que, de alguma forma, tenha te marcado.


R- Ah, vários. Vários. Vários. Eu já tive casos muito difíceis. E cada caso é um caso. A mesma dor lombar é diferente, de um paciente pra outro. E o que mais deixa a gente muito feliz, é quanto mais rápido você tira essa dor do paciente, mais feliz a gente fica. Então eu já tive casos gravíssimos. Eu não sei te precisar um, especificamente, porque são tantos casos, muito difíceis. Isso eu fico muito feliz, de receber esses casos e deles confiarem na gente assim, eles depositam na gente, ao mesmo tempo, é uma responsabilidade e tanto. Mas é muito gostoso você receber um paciente que foi indicado por alguém. É muito legal. E muitas vezes, você já atende, ao longo... eu tenho 36 anos de formada, já atendi avô, avó, bisavô, filho, neto. Então você vê que você fez um bom trabalho, que você deixou uma sementinha. Isso é muito legal, é muito gratificante. 


P/1 - E como a pandemia afetou, seja a sua vida pessoal e profissional?


R- Nossa! 


P/1 - Eu já vi que afastou alguns encontros familiares, né?


R- Ai, isso é duro. Mas, assim, apesar de ter afastados encontros familiares, eu nunca fiquei tanto tempo com os meus filhos. Porque os meus filhos foram filhos de berçário, de ficarem na escola o dia inteiro. Sabe que foi muito legal, da parte pessoal, aqueles dois meses que eu fiquei aqui, trancada em casa? Foi muito legal. Assim, aproximou muito, cresceu muito o relacionamento. Foi, nossa, muito, muito bom. Eu não posso falar que foi ruim, não. Pra mim foi muito bom. E financeiramente foi um desastre. Mas eu sempre fui uma pessoa muito precavida. Só que você ter lastro pra tantos meses de pandemia, não é fácil. Mas a gente correu atrás de empréstimo, de não sei o que, pra salvar a clínica. Eu sei que muita gente não conseguiu manter a clínica aberta. Mas a gente, graças a Deus, a gente conseguiu sobreviver. E depois daqueles dois meses, fechado mesmo, a gente voltou meio período, mas aí o paciente não voltava. A gente tentou manter os funcionários até dezembro. Aí em dezembro, a gente viu que a coisa não ia melhorar. A gente teve que mandar metade do pessoal embora. Foi muito duro. Eu tinha funcionários, olha, super antigos. Essa é uma característica nossa: as pessoas que entram, ficam por bastante tempo, graças a Deus. Mas a gente teve que dispensar, porque a gente trabalhava das sete da manhã às nove da noite. E não dava, não dava pra manter todo mundo, porque não tem paciente pra isso. Aí a gente estava trabalhando só seis horas, não dava. Aí agora, agora começou a melhorar. Mas, mesmo assim, a gente está trabalhando oito horas, só. A gente trabalhava catorze horas. Então a gente tinha dois turnos de funcionários. Agora a gente só tem um turno. Então metade foi embora, com o coração na mão. Mas todos entenderam, lógico que teve que ser uni duni tê, vai fazer o que. Mas a gente sobreviveu. Ali, linha dura. E aqui em casa, isso foi uma coisa interessante. Os meus filhos estão fazendo estágio e eu falei pra eles: “Olha, a mamãe não está mais tirando o que a mamãe tirava”. Então, todo mundo ajudando em casa. Então os salários de cada um, ajudou demais. Quem diria? (risos) Ajudou demais em casa. Todo mundo ajudando. Isso foi muito legal. Nossa, eu falei: “Nunca imaginei que eles fossem me ajudar tão cedo” (risos). Mas não foi fácil. E não está sendo fácil. A pandemia ainda vai durar um tempo. E eu sei que a clínica não vai voltar ao que era, porque a gente tinha um movimento muito legal. Mas eu sei que vai voltar. Porque as pessoas confiam no nosso trabalho, graças a Deus. Vai voltar. É uma contingência, os velhinhos estão com medo. E eu trabalho basicamente com geriatria. Então eu pensei que depois que eles se vacinassem, eles fossem voltar. Mas eles estão com medo, eles não querem voltar. Eles ligam, eles falam: “Olha, Rosely, eu vou esperar mais um pouco”. Hoje mesmo eu recebi uma mensagem de uma paciente com sequela de paralisia infantil, ela falou: “Olha, adoro vocês. Fico super preocupada com vocês. Mas a gente ainda está isolado”. Então acho que esse ano eles não voltam. Então muitos são assim. Mas eu acho que a confiança, isso tudo está preservado.


P/1 - E o que a sua clínica e a sua profissão representam, na sua história?


R- A clínica é, assim, um presente de Deus, eu falo, é a realização de tudo o que você possa imaginar de um terapeuta, assim, é você chegar até aí. Porque não é simplesmente ter dinheiro e montar uma clínica. Só com isso você não mantêm. Mas eu acho que é, assim, é um presente de Deus. É a realização de tudo o que eu plantei. Assim, realmente é fruto de todo um trabalho, ao longo desses anos todos. E eu nem me dou conta. Às vezes eu falo: “Nossa, 36 anos”. Não parece que faz tudo isso, porque parece que foi ontem que eu me formei, que eu estou aí na vida, lutando, batalhando. Eu sempre batalho com a mesma emoção, com a mesma força, com a mesma energia, querer isso, aquilo. Não é porque eu estou mais velha que: “Ah, chega. Está bom”. Não. Pra mim todo dia é um dia. Então é assim: realmente representa o fruto de tudo o que eu plantei, de tudo o que eu sonhei. É muito gratificante. Muito gratificante mesmo. E ser fisioterapeuta é a coisa mais linda do mundo. É uma profissão tão bonita, que você pode fazer tanta coisa. E eu sou muito grata aos meus pais, à minha família, às pessoas que me apoiaram, que me ajudaram. Porque a gente não consegue as coisas sozinha. A gente só consegue porque todo mundo ajuda muito. Eu não consegui chegar aqui sozinha. Lógico que tem que ter um esforço nosso, mas muita gente me ajudou. Muita gente me apoiou. E eu sou muito grata. Porque ser fisio é uma benção. É uma alegria de viver. É muito legal. E poder passar um pouco da minha experiência, através do meu trabalho, é uma experiência de vida, você poder dar um pouco de força pro próximo. Porque tem tanta gente que vem tão caidinha. E, ao mesmo tempo, eu pensava: “Será que o paciente vai ter coragem de ser meu paciente?”. Porque tem paciente que vem e que não sabe que eu tenho essa deficiência. E que se depara e que assusta. É muito engraçada a reação de cada um. Tem gente que sabe e já vem. Mas tem gente que não sabe. Então, às vezes, ele fica tão desconcertado, que aí alguns verbalizam, outros não. Alguns não percebem. É variado. Mas uma dúvida que eu tinha era essa: se o paciente ia querer ser tratado por alguém que tinha uma deficiência. Eu tinha muito esse medo. Porque é lógico que eu não faço igual ao outro, eu não consigo fazer. Então, eu sempre brinco com os fisios que trabalham comigo, porque eu falo que todo mundo é o meu braço direito. Eu preciso de muitos braços direitos. Porque eu só tenho o esquerdo, o pessoal brinca. Mas é verdade. Porque, assim, eu consigo fazer até um certo ponto. Mas eu não consigo fazer tudo. Mas também as pessoas não conseguem. Então eu morro de inveja das pessoas normais poderem fazer. Mas eu faço do meu jeito. E aí até foi engraçado, essa semana, eu estava atendendo uma paciente pós-operatória e eu estou dividindo com uma fisio, com uma fisio que trabalha comigo e ela falou assim: “Nossa, Rosely, a sua mão é tão levinha”. Eu falei: “É mesmo?” Ela já é minha paciente há muito tempo, só que ela foi operada de uma outra coisa agora: “E a mão da outra terapeuta é tão pesadinha”. (risos) Eu falei: “Nossa, eu nunca pensei. Olha que interessante! É um feedback que eu nunca tinha ouvido”. Eu sei que eu tenho algumas facilidades, em algumas técnicas, eu tenho mesmo, porque eu faço há muito tempo. E faço basicamente com uma mão só e me adaptei e ok, mas ali era uma fisio básica de pós-operatório, eu falei: “Nossa, olha que interessante!”. E essa fisio minha é maravilhosa, mas eu nunca imaginei que eu ia ouvir uma coisa dessa. Então é interessante isso. Ser fisio é o meu sol. E, quando eu conheci o meu marido, eu falava pra ele assim: “Primeiro, na minha vida, era a fisioterapia”, que ele tinha aparecido depois, porque ele queria casar logo. E eu falava que não, que eu tinha que fazer o meu curso no Japão, senão eu não casava. Então eu sempre brincava com ele. Ele falava: “Já sei. Primeiro você gosta da fisioterapia, depois de mim” (risos). Eu, realmente, amo a minha profissão. Amo. Sou muito feliz de conseguir ser fisioterapeuta. De poder fazer alguma coisa. Eu sou muito feliz.


P/1 - E quais são os seus maiores sonhos, hoje em dia? 


R- Agora? Eu acho que é, assim, ver os meus filhos bem. Se Deus quiser, a clínica vai andar. Cuidar, ter uma vida saudável. O que mais? A gente vive muito em função dos filhos. O que eu mais sonho é em vê-los felizes. É eles estarem encaminhados. É a coisa que eu mais quero, é que eles encontrem, realmente, o seu caminho e sejam felizes. Cada um do seu jeito, mas que eles sejam muito felizes. Então, assim, eu ainda... o pessoal brinca comigo: “Ai, Rosely, você não vai arrumar nenhum namorado?” Eu falei: “Eu não tive tempo pra isso ainda não” (risos). Mas é porque eu ainda estou vivendo muito em função deles. Mas sonho muito que a clínica ande, continue crescendo. Crescendo, não em tamanho, assim. Mas que ela fique firme com essas metas, com esses objetivos. Que a gente tenha menos percalços, que a gente tem. Que a gente cruze menos pessoas maldosas, (risos) que a gente cruza. É duro isso. Atualmente a gente está com uma equipe enxuta, muito legal, muito do bem. Aparentemente, porque é duro você trabalhar sempre com o pé atrás. Mas agora eu quero ser feliz. Eu quero ter saúde. Eu quero ver as crianças felizes. É isso que eu quero.


P/1 - A gente está acabando, mas queria te fazer, ainda, duas perguntas.


R- Pode falar.


P/1 - A primeira é se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar mais alguma história, alguma coisa que eu não tenha instigado?


R- Eu acho que não. É tanta história que a gente tem na vida. Mas eu acho que não.


P/1 - E queria saber o que você... diga.


R- Não. Pode falar.


P/1 - Não. Por favor.


R- Não. Não é nada.


P/1 - Tá. E o que você achou de ter contado a sua história pra gente, passado essa tarde com a gente?


R- Muito gostoso. Muito gostoso. Eu estava lembrando, o meu TCC na faculdade era sobre o manuseio do hemiplégico, o resultado do manuseio do hemiplégico adulto. Então era o meu caso, mostrando que a criança pode chegar a um adulto feliz, entendeu? Então eu estava me vendo, agora, falando com vocês, voltando um pouco isso, né? Porque agora eu estava falando pra vocês um resultado de uma trajetória profissional. E ali, eu estava começando uma trajetória, enquanto ser. Então eu mostrava assim: “Olha, você pode se vestir sozinha. Você pode comer sozinha. Você pode cozinhar”. Então eu fui mostrando todas as atividades da vida diária, que você é capaz de fazer. Então eu estava comparando eu adulta e uma criança, no meu TCC. E agora eu estava, você fazendo essas perguntas, recapitulando a minha vida profissional, de como comecei e como eu cheguei. E tem muito ainda pra conquistar. Tem muito pra aprender, muito. Eu estudo sempre. Eu estou sempre fazendo curso. Porque sempre tem alguma coisa a acrescentar. Nessa pandemia, eu fiz muito curso, porque as técnicas novas vão acontecendo e você vai acrescentando ao seu repertório. E o repertório da gente nunca é grande demais, sempre falta. Então tem muito que estudar.


P/1 - Rosely... diga.


R- Eu gosto de estudar. Eu gosto do saber. E quanto mais você sabe, mais você vê que você não sabe. Então aquilo vai dando uma agonia. Eu fui assistindo os cursos, eu falei: “Nossa, quanta coisa que eu não sei!”. Mas muito bom.


P/1 - Quero te agradecer demais por essa tarde, por esse começo de noite. Eu nem vi o tempo passar. Desculpa. Já são quase vinte pras sete, acredita?


R- Nossa! Sério?


P/1 - Desculpa o horário.


R- Imagina. Olha, muito obrigada. Eu espero que acrescente alguma coisa aí, no trabalho de vocês.


P/1 - Com certeza.


R- Agradeço muito, muito por esse convite. Me senti muito lisonjeada, viu? Eu falei: “Nossa, que chique!” (risos). Muito obrigada!


P/1 - Não. Mas, de verdade, foi muito gostoso. Foi uma aula. E quero muito, daqui a pouco, agora ainda não dá, mas te conhecer. Quero que você venha nos visitar. Poder se abraçar. Eu gosto muito de abraços.


R- Se Deus quiser! Ah, eu também. Mas muito obrigada, viu? Muito obrigada. E que isso, eu espero que esse trabalho de vocês faça que as pessoas valorizem a vida, que vejam que viver é muito bom, seja lá como for. Que essa gana pela vida é muito legal. Que isso é que faz valer a pena viver.


P/2- Rosely, você estava falando, só vinha na minha cabeça uma frase que você falou que, pra mim, é o que resume, assim, muito sinteticamente, a sua vida, que é “viver é uma oportunidade única”.


R- Sim.


P/2- E daí você tem que fazer a sua vida acontecer.


R- Exatamente. Exatamente.


P/2- Muito obrigada por compartilhar!


R- Imagina, Bruna. Imagina. Obrigada vocês, viu? Foi um grande prazer.

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