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História

Viver é uma decisão que eu tomo todos os dias

História de: Sephora Ferreira de Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/02/2021

Sinopse

Sephora é uma síntese da mestiçagem brasileira, na sua ascendência tem negro, branco, caucasiano e índio. É a mais velha entre 3 irmãos. Filha de militar da Aeronáutica; Na infância, saiu de Natal para São José dos Campos, em São Paulo; Viveu no Ceará, no Rio Grande do Sul e hoje vive em Recife, Pernambuco. Formou-se em Arquitetura. Versátil na profissão.

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História completa

Desde que eu comecei minha vida sexual eu fazia exames preventivos, eu fazia colposcopia ótica, fazia preventivo contra o câncer, eu sempre fiz isso, sempre me cuidei. E tinha descoberto um HPV, tinha feito tratamento, sabe, e tinha ficado boa, e quando eu passei esse tempo fora, eu fiquei sem fazer meu preventivo, né. Quando eu voltei, eu protelei um pouco isso e quando eu fui fazer meu preventivo, descobri que eu tava com câncer de útero. Foi um preventivo muito bem feito, porque tava muito no começo, isso salvou a minha vida, mas eu tive um adenocarcinoma, que é um tumor devastador, é um câncer devastador, ele é mortal mesmo. Se ele é descoberto tarde, ele não tem cura mesmo, ele é muito difícil de curar. Como eu tava muito no início, então eu tive tempo de fazer o que chama de conização, tirar um pedaço do útero. O médico foi muito legal, porque ele disse: "você é muito nova”, eu tinha 34 anos. “Você é muito nova ainda, você pode ter filho. Você quer ter filho?”, e eu disse: “quero”. E aí fizeram aqueles exames todos pra saber se tinha foco, se não tinha, aí deu tudo certo, tudo livre e eu fiquei boa. Quarenta dias depois, eu descobri um nódulo na minha mama direita, voltei correndo pro médico e aí ele pediu um ultrassom, fiz o ultrassom e o ultrassom deu que era um nódulo fibroso, eu comecei a fazer um tratamento desse nódulo fibroso com remédio natural, e nada do negócio ir embora, o nódulo crescendo. Três meses depois eu fiz outro ultrassom, de novo veio o mesmo diagnóstico. Isso era, abril eu descobri, final de abril eu descobri, maio eu fiz o exame, o ultrassom, em agosto eu fiz outro exame, que foi o que deu o segundo diagnóstico, que era nódulo fibroso. Quando foi em setembro, logo no começo de setembro, ele começou a aumentar muito, o nódulo, e aí um dia ele amanheceu, ele tava roxo aqui, um negócio gigante, parecia um limão, saca? Um negócio grande, aí eu acordei com o Horário e disse: “Horácio, vamos no hospital que isso não tá normal, não tá normal” e a gente foi pro hospital. Cheguei no hospital, aí na emergência o médico olhou, aí chamou ginecologista, oncologista, mastologista, cirurgião plástico… Aí eu disse: “doutor, eu não sou médica, mas isso não é um nódulo fibroso, isso é uma coisa muito pior”. Aí quando eles olharam, apalparam, olharam, isso era 10h da manhã, às 11h eu tava sendo operada, só deu tempo de eu ligar pra minha família e dizer: “vou ser operada agora”, mesa de cirurgia direto! Tipo, fazendo exame de sangue, fazendo eletroencefalograma, tudo pra fazer, 11h eu tava na mesa de cirurgia, aí eles tiraram o tumor, tiraram um pedaço do seio, mandaram pra análise e eu fiquei três semanas esperando o resultado, porque se desse o resultado positivo, eu teria que fazer outra cirurgia. E aí veio a notícia de que era um tumor devastador, era outro tumor daqueles, tipo, que se fosse descoberto um mês depois não tinha mais jeito, porque ele era super invasivo, né, e eu fiz a cirurgia, eu fiz a mastectomia radical, que eles chamam, né, tirei o seio todo, todos os nódulos linfáticos e fiz a histerectomia, então adeus filhos, né? Ovário, útero, trompa, tudo! E aí, fiz a cirurgia, me recuperei da cirurgia, 15 dias depois eu tava fazendo radioterapia. Tava casada com Horácio, tudo, ainda. Mas o casamento estava em crise, eu já não sabia o que fazer, a gente perdeu tudo o que a gente tinha, porque a gente fechou o negócio, claro, não tinha condição de continuar. E quando a gente fechou o negócio, a gente teve que pagar as indenizações. Nós ficamos sem nada, um centavo, a gente não tinha um centavo, né? Aí a gente vê, aí nesse momento a gente vê os amigos né, quem são os amigos, né? E aí eu me lembro que eu tava nessa situação, e sem grana, sem poder trabalhar, Horácio não podia trabalhar, ainda conseguiu dar umas aulas, mas ele não tinha como trabalhar oficialmente, né, e aí os amigos se juntaram, os amigos artistas, todos, se juntaram, fizeram um bingo pra mim, pra arrecadar dinheiro. Eles fizeram dez caixas, com dez surpresas dentro, e as surpresas eram trabalhos, quadros, gravuras, CDs, livros. E aí foi um sucesso, foi um sucesso. Consegui na época arrecadar, acho que em torno de cinco mil reais, era muito dinheiro pra época, sabe, e aí eu consegui pagar umas dívidas, consegui pagar minhas dividas, né, consegui ainda economizar um pouquinho. Nessa época o Horácio já tinha decidido que ia embora e aí foi aquela decisão difícil, “se você não pode me ajudar, também não me atrapalha”. Eu quero ficar viva, eu quero dar certo na vida, né, e a gente se separou, então infelizmente o “na saúde, na doença” não funcionou. Funcionou na alegria e na tristeza, funcionou na pobreza e na riqueza, mas na saúde e na doença não funcionou. Aí a gente, né, na época isso foi muito difícil pra mim, mas eu entendo, ele não tinha estrutura, ninguém pode ser obrigado a viver uma coisa que não tem condições de viver, né. Aí foi quando Horácio foi embora e eu fui para os EUA, passei uns dois meses lá e voltei pro Brasil. Quando eu voltei pro Brasil, que eu fiz o meu segundo controle, eu tava com câncer de pulmão, aí descobriram quatro nódulos no meu pulmão esquerdo. Um era do tamanho de um limão e os outros três eram menores, e aí era metástase da mama. Eu não fiz reconstrução de mama, porque na época os médicos disseram que não era aconselhável, porque como o meu tumor era muito, muito invasivo, muito forte, se colocasse a prótese ou alguma coisa, poderia camuflar algum tipo de coisa em algum exame. E eles estavam certos, porque eu tive metástase no pulmão, e aí o prognóstico era o pior possível, tipo: vamos fazer o que é possível. Esse foi o prognóstico. Eu me lembro que receber a primeira notícia foi um choque, de eu estar com câncer. Receber a segunda notícia… “Você tá com câncer de mama”, tipo, o gato subiu no telhado, o gato caiu do telhado, coisas assim desse tipo, sabe. E aí quando eu recebi a terceira notícia, eu disse: “não me deem a quarta, porque eu não vou conseguir, esse é o meu limite”. Aí eu fiz uma quimio cavalar, era uma quimio aplicada uma vez por mês, que era muito forte a dose. Imagina, há vinte anos atrás o tratamento era muito diferente do que é hoje. Então eu não podia ter uma febre, eu não podia ter uma gripe, eu não podia ter uma infecção, eu não podia nada, né. E aí assim, foi terapia, foi força de vontade, foi tratamento espiritual maravilhoso, agradeço muito. E foi vontade de viver, cara! Foi decisão, sabe. Eu me lembro que quando eu cheguei na minha terceira quimioterapia, eu tava tão acabada, eu tava tão destruída, eu tava tão cansada e tão traumatizada, com todas as furadas que eu tinha levado, porque não era só a quimio, eram todos os exames que eu tinha que fazer semana a semana, até chegar a próxima quimio. Eu não podia ver agulha, aliás, até hoje eu não posso ver agulha na minha frente, que eu ainda tenho dificuldade, mas assim, eu me lembro muito bem que eu fiz a pergunta pra mim mesma: “você quer?” Eu me lembro que eu tava fazendo terapia, e aí eu disse pra minha terapeuta assim: “eu não aguento mais, eu não aguento mais… Não aguento mais, eu não sei se eu vou conseguir, eu não aguento mais, tô acabada, eu não consigo dormir, eu não consigo funcionar, eu não consigo descansar, eu penso no tratamento, eu penso nos exames, eu não consigo mais, eu tô careca, eu tô gorda, eu tô feia, eu tô inchada”, né. Toda animada, era uma animação, ninguém sabia o que eu tava sentindo. Na rua era uma animação, em casa era quietinha, porque eu tava na casa dos meus pais e graças a Deus eles puderam cuidar de mim, mas eu tava acabada, eu tava destruída por dentro. Aí eu me lembro que eu falei: “não sei se eu vou aguentar”, mas aí ao mesmo tempo eu disse: “eu tenho que tomar uma decisão, se eu quero viver ou se eu quero morrer”. E aí nessa hora eu disse: “Eu quero viver! Eu não vou morrer, eu vou viver!” E aí mesmo sofrendo pra caramba, eu fui buscar, não sei ainda, uma força pra eu continuar esse tratamento. E aí eu fiz a quarta quimioterapia que foi tenebrosa. Aí tipo, consegui fazer a última quimioterapia e disse: “agora eu vou rezar, eu vou me trabalhar, pra que, quando eu fizer os meus exames eu não, não vai ter mais nada, não vai ter mais nada, não vai ter mais nada”. E aí eu fiz, um mês depois, a tomografia e aí não tinha mais nada! Eu tinha feito uma tomografia, o tratamento tava funcionando, mas eu ainda tava com nódulos, quando eu fiz a segunda tomografia, não tinha nada. Os médicos não acreditaram na época, eles não acreditaram no que eles tavam vendo. “Sephora, isso é milagre”, eu escutei isso: isso é um milagre Sephora, o seu prognóstico era muito ruim, isso foi um milagre, o que aconteceu!” Foi a minha vontade de viver, foi a minha vontade. E aí eu, quando recebi a notícia de que eu não tinha mais nada, eu tava bem… Aí eu disse: “Ah, agora eu vou viajar!” Aí eu comemorei, né?

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