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História

"Viver é mais importante que existir"

História de: Wilson Guilherme Ebenau
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/03/2010

Sinopse

Wilson, nascido na cidade de São Paulo, no bairro da Luz em 1958, narra sua história com a cidade. Uma São Paulo totalmente diferente, anterior ao trânsito intenso e caótico, as grandes obras de remodelação, uma cidade já grande, mas que permitia às crianças um espaço de aventuras e travessuras. Conta também sobre sua viagem à Chicago, suas dificuldades e adaptações em um país cuja língua era pra ele muito pouca conhecida. Wilson conta também sobre sua trajetória profissional e relações familiares.

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História completa

P - Wilson, para começar eu queria que você falasse o seu nome completo, local e a data de seu nascimento. 

R - Meu nome é Wilson Guilherme Ebenau, eu nasci em São Paulo, na capital, no bairro da Luz, no dia 2 de junho de 1958. 

P - E qual o nome completo dos seus pais? 

R - Meu pai é Eitel Friedrich Ebenau e minha mãe Edma Rodrigues. 

P - E o que eles faziam? 

R - Meu pai era comerciante e minha mãe do lar. 

P - E qual é a origem dessa família? 

R - Bom, o meu pai é de origem alemã. Ele veio muito pequeno para cá, da Alemanha, e morava em Curitiba. Aí meu pai casou-se lá, e tudo o mais, aí acabou se divorciando. Na época era muito complicado isso. E ele mudou para São Paulo. Quando ele mudou para São Paulo, veio constituir os negócios dele, tocar os negócios dele por aqui, ele acabou conhecendo minha mãe. Então foi aí que eu surgi. 

P - E você tem irmãos? 

R - Tenho. Por parte de pai eu tenho dois irmãos, um que mora nos Estados Unidos e outra que mora em Curitiba. E, por parte de pai e mãe, mais uma irmã, que mora em São Paulo também. 

P - E qual é a ordem desses nascimentos? 

R - É o seguinte. A irmã mais velha, a Norimar, depois vem o Ericson, que é o segundo. Depois, do segundo casamento, eu e a Glaucia, que é a mais nova de todos. 

P - Então você é antes do caçula? 

R - Exatamente. Eu sou o mais velho do segundo casamento. 

P - E o que você lembra? Como você descreveria a sua mãe e o seu pai? 

R - Formidáveis. Era uma família, assim, muito unida. Então o meu pai era muito presente e muito família. Cuidava muito. Para você ter uma ideia, com 20, quase 25 anos de casamento, eles saíam para dar volta no quarteirão de mãos dadas. Então ele fazia questão de pegá-la, dar a voltinha e tudo o mais. Ele era muito presente, muito amigo, muito parceiro. Ele ao mesmo tempo em que ensinava a liberdade, dava as responsabilidades dessa liberdade. E estava sempre dando o suporte, a correção, para o caminho correto. E minha mãe era muito mãezona, cuidava bastante, fazia os mimos da mãe, aquele negócio todo. 

P - E como era essa casa? A primeira casa que você tem lembrança de infância? 

R - Bom, eu nasci num conjunto de vilas que fica exatamente atrás do antigo Quartel da Força Pública, onde tem a ROTA [Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar] ali agora, no bairro da Luz. Ali deve ser a Rua Gabriela Sá Barbosa, número 29. Era uma casa pequenininha, modesta, típica da época. Na verdade eu tenho lembrança dessa casa porque depois nós retornamos para o mesmo bairro depois de alguns anos. Mas eu nasci ali, com um ano de idade meu pai quis mudar, porque eu já estava começando a andar e ele queria uma casa com quintal grande. Então nós fomos morar em Santana. Ficamos morando lá até os meus três anos de idade, mais ou menos e depois retornamos para o mesmo bairro, só que numa outra casa, numa outra vila. Era um conjunto de vilas, tinha umas seis ou oito vilinhas. Eu tinha nascido na Gabriela, aí eu fui para a Benedita. 

P - Aí você tinha o que? Você era pequeno ainda? 

R - Eu tinha três anos de idade. 

P - Três anos. 

R - Eu me lembro muito bem disso, porque nessa época eu tive uma apendicite aguda. Então eu me lembro muito bem, porque foi uma época que eu sentia muitas dores, depois fui parar no hospital, eu fui submetido a uma cirurgia de apendicite. Ela foi muito grave, acabou suturando na hora da abertura. Então isso tudo foi muito traumático, e me fez lembrar. Então por isso que eu lembro dessa ida e vinda da... quer dizer, ida nem tanto. Mas o retorno de Santana para o bairro foi muito marcante em função disso. 

P - E como era esse bairro, assim, para as crianças? Do que você brincava? 

R - A gente brincava de pega-pega, esconde-esconde, era brincadeira de pião... O que eu mais me lembro era o pega-pega, esconde-esconde no final da tarde. Porque juntava mais ou menos uns 20 ou 30 garotos de uns sete anos até os 14, todos eles brincando de pega-pega e esconde-esconde. A coisa durava uma eternidade. Então era uma coisa muito boa, uma lembrança muito boa. Outra lembrança boa é que eu estudava no colégio Santo Antônio do Pari. Ele era do outro lado do Rio Tamanduateí. Então eu voltava a pé, com oito anos de idade eu voltava a pé de lá para cá. E quando chovia era uma farra, porque a gente vinha não escondendo da chuva, mas sim no meio da sarjeta, chutando a água e espalhando a água para tudo quanto era lado. Aí chegava em casa, a minha mãe: “Ah, meu filho Vai ficar resfriado” E a gente feliz da vida porque tinha tomado o maior banho. E era muito marcante, porque na época, atrás da escola, tinha a fábrica Bela Vista, de doces e balas. Então a gente ficava na aula sentindo o cheirinho daqueles doces e daquelas balas, era uma loucura. Aí voltava para casa comendo tudo quanto era doce, tudo quanto era bala. 

P - E você lembra de algum amigo específico que te marcou, dessa época de infância? 

R - Foram dois amigos. Um era o Rogério, que ele era o filho do dono do bar, que atendia ali, o bar, padaria, que atendia a região, que a gente tinha bastante contato. E o outro, eu não me recordo exatamente o nome, mas eu gostava muito da farra que a gente fazia por conta de andar de bicicleta, pela região. Então a gente andava de bicicleta, ficava andando, andando, andando. É Toninho. Era o Toninho, que a gente ficava andando de bicicleta os dois juntos, todo o tempo. Porque o Rogério os pais não deixavam andar de bicicleta. Então, para umas coisas a gente brincava com um, para outras com o outro. Então era os dois que eu mais lembrava. 

P - Então as brincadeiras eram da porta da casa para fora? 

R - Ah, sim. Mesmo porque as casas eram muito pequenas ali. O quintal era muito pequeno, quase não tinha quintal. Então a gente brincava na rua mesmo. E uma coisa que eu lembro (risos) bastante é que a minha irmã... eu tenho uma diferença de sete anos para ela... Meu pai tinha uma fábrica... nessa época, meu pai tinha uma fábrica de camisas, ele fabricava camisas “volta ao mundo”. Era uma camisa muito famosa na época, foi a primeira camisa de tecido sintético. Então, na casa onde eu nasci era onde era a oficina de camisas. E eu morava nessa outra casa quando nós voltamos. Então minha mãe ficava cuidando da oficina de camisas. E eu pegava a minha irmã, punha no carrinho de bebê, eu ia para a vila, que tinha uma descida, eu ia lá na ponta da descida, deixava o carrinho lá embaixo, e vinha correndo para pegar o carrinho sozinho. (risos) Aí daqui a pouco vinha a minha mãe me puxando pela orelha, porque alguém obviamente ia contar para ela: “Olha, o seu filho está fazendo arte lá em cima.” (risos) Era essa farra que eu fazia. E quando chovia também, eu pegava o carrinho, e ia com o carrinho, com ela às vezes, ou sem ela, sair para passar nas poças d’água com o carrinho, para ver a água espalhar. 

P - Você falou do Tamanduateí nessa época de chuva. Fala um pouquinho mais dele. 

R - O Tamanduateí era um rio que a gente ficava muito preocupado com ele, por causa das enchentes na época. Mas o mais legal disso tudo era antes, que tinha, em frente ao colégio Liceu de Artes e Ofícios, tinha a Estação da Cantareira do trem. Essa é uma parte que me marca muito mesmo. Então tinha o trem, não era Maria Fumaça, ele já era a óleo, mas ele fazia o trajeto dali e ia até o Horto Florestal. Eu não sei, não me lembro se ele fazia para outros lugares. Mas o que mais me marcou era para o Horto Florestal. Então eu saía com meu pai, pedia, enchia a paciência do meu pai para nós irmos até o trem, porque nós sentávamos lá, de repente: “Béémmm”. Eu lembro parece que eu estou sentindo a coisa. Sentava naqueles bancos de madeira, duros, e tudo o mais, quando tocava a campainha eu ficava super emocionado porque a gente já ia sair. Então, o trem saía da Cantareira, não existia ponte da Cruzeiro do Sul, era só uma pinguela, que atravessava onde o trem atravessava. Então eu ficava bem na janelinha, porque quando passava para cima do trem, você não via o trilho, você só via a água lá em baixo. Então, para mim, aquilo ali era uma distância, um rio enorme, e saía. Aí o trem: “Prprprpr”, até o meio do mato, no Horto Florestal. Aquilo para mim era uma maravilha. Se deixasse eu ia todo fim de semana passear no trem. E ia para a estação e queria ver os trens. Tanto é que hoje eu sou ferromodelista. Então eu faço a maquete, esses negócios todos. Então, o Tamanduateí, nessa época, era assim, não tinha ponte na Cruzeiro do Sul. Eu participei ativamente da construção da ponte na Cruzeiro do Sul. Porque eles estavam fazendo a ponte e a gente ia brincar na ponte, atravessar a ponte, tal. Eles faziam os andaimes para a construção da ponte, a gente ficava brincando de pega-pega, esconde-esconde, atravessava para o outro lado do rio pelos andaimes. Porque por cima não tinha graça. Tinha que ser pelos andaimes. Então, era completamente diferente do que ocorre hoje. Outro ponto interessante era uma outra brincadeira que nós fazíamos... como a minha mãe já não está viva, ela não vai saber, então... (risos) eu posso contar. Os caminhões vinham pela Avenida do Estado, eles subiam a Rua Jorge Miranda, que é a rua do Quartel da Força Pública. E nós ficávamos ali na Avenida do Estado esperando os caminhões virem, porque eles subiam lentamente, a gente corria e se pendurava na carroceria. A gente chamava de “chocar caminhão”. “Vamos chocar caminhão” A gente se pendurava no caminhão e ia subindo, subindo, subindo, até a Tiradentes. E lá na Tiradentes a gente pulava, que senão ele pegava velocidade e não dava para pular. Então pulava e saía correndo para esperar o próximo, para ficar subindo. Até que a mãe de algum dava bronca, aí a gente saía correndo. Uma outra coisa interessante é que na Rua Jorge Miranda era o Hospital da Força Pública, se eu não me engano. E por conta acho que das revoluções, e tudo o mais, o pessoal acendia muitas velas ali, para os mortos da revolução. Então era sempre uma procissão, um monte de vela, um monte de gente. Em dias específicos. Eu era muito garoto, não sei exatamente quais. O pessoal ia lá e acendia muitas velas. A gente ia lá, esperava, pegava as velas e fazia bonequinho de cera, fazia uma farra total 

P - E o que você lembra, assim, da escola? Que lembranças marcantes tem da escola? 

R - Da escola... O meu primeiro dia de aula foi muito interessante, porque nós chegamos eu tinha seis para sete anos. Como eu faço aniversário em junho, eles autorizaram a minha entrada com seis anos na escola. Que senão na verdade eu estaria com oito. Com seis anos eu fui para a escola, era uma criançada chorando, chorava, chorava, aquele negócio todo, e minha mãe falando: “Meu filho, você não vai chorar?” “Não, eu não vou chorar não.” “Está tudo bem?” Eu: “Está tudo bem. Eu vou entrar então.” Ela: “Pode entrar, então.” E eu saí correndo. Saí correndo, tropecei, a lancheira caiu, a maçã rolou, foi um... Ela ficou apavorada, e eu: “Não, pode ficar tranquila. Está tudo bem.” Juntei todas as coisas e fui para a aula. Esse foi o primeiro dia de aula. E depois uma coisa também que eu lembro foi a minha primeira paixãozinha. Eu me apaixonei para uma menina lá, acho que ela devia ser do... Eu estava no primeiro ano do primário, ela devia estar no terceiro, segundo, alguma coisa assim. Ela tinha um cabelo bonito, e tal. Então aonde ela ia eu ia atrás, e ficava olhando. Então, era um amor platônico. 

P - E um professor, assim, que te marcou? 

R - Foi a professora do segundo ano primário, Dona Neri. Marcou negativamente, infelizmente. A primeira professora foi a Dona Elizabeth, professora do primeiro ano. Eu tenho boas recordações, eu tinha notas boas, eu passei com louvor, aquele negócio todo, com 96 de média. Eu lembro até hoje. E eu sei que quando eu fui para o segundo ano, empolgado, aí eu coloquei a medalhinha do mérito do primeiro ano, tal, quando eu cheguei lá a professora: “Pode arrancar esse negócio aí, aqui não precisa nada disso.” Para um garoto de sete para oito anos. E muito bem. E assim foi indo, foi indo. Só que o seguinte, durante o ano não só eu, mas vários alunos, a gente chegava a fazer xixi na calça, na sala de aula, porque a professora não permitia que nenhum aluno saísse para fazer xixi. Então não foi um, nem dois, nem três. De 35, 40 alunos, pelo menos a metade da classe fez isso. Então era uma lembrança muito negativa. Então, realmente foi muito ruim a lembrança que eu tenho da escola. Acaba marcando uma lembrança negativa. 

P - E você era bom aluno, você gostava de estudar? 

R - Olha, no primeiro ano eu gostava, eu estava motivado, e tal, tudo o mais. No segundo ano não. Aí eu perdi o tesão pelo estudo, não quis saber mais. Bom, conclusão, no terceiro ano mudou a professora, minha mãe chegou a conversar com a professora, falou: “Olha, ele está assim, assim, assado.” E tomei pau no terceiro ano primário. Porque não tinha a menor vontade de ir para a escola. Eu imaginava que eu ia encontrar de novo aquilo lá. Aí uma vizinha dava aula em um colégio estadual próximo. Eu não me lembro o nome da escola, mas era bem próximo da vila ali. E ela falou assim para mim, eu me lembro da conversa: “Olha, deixa ele comigo, que eu vou motivá-lo novamente.” E assim eu fui para lá. E eu fiquei estudando um ano lá. Eu fiz o segundo terceiro ano, a repetência, eu fiz com ela. Então ela, com muita paciência, foi indo. Eu nunca retomei aquela empolgação toda pelo estudo, mas melhorei muito. Eu nunca mais tomei pau. 

P - E como que foi mudar de escola? 

R - Ah, foi um alívio. Foi legal, foi muito bacana. (risos) É que lá só me dava recordação do que era ruim. Então, foi muito bacana. Ainda mais eu sendo tratado... Eu estava em uma escola pública e com um tratamento muito particular, por conta dessa amizade da minha mãe com a professora. Então eu tinha esse tratamento particular. Nós só não demos continuidade porque nós mudamos daí, do bairro da Luz, para a Vila Olímpia, isso em 1969. 

P - Uau, é uma senhora mudança 

R - É. Eu tinha nove anos, oito para nove anos. Aí fiquei morando lá um tempão também. 

P - E o que você sentiu, assim, de diferente? 

R - Horrível, porque eu não tinha os amigos. Era tudo novo. E eu sentia falta daquela brincadeira, dos amigos. Eu reclamava: “Aqui eu não tenho amigo nenhum” “Calma, meu filho, você vai achar.” E lembro até hoje quando eu fiz o primeiro amigo, “Êêê Fiz meu primeiro amigo” (risos) E obviamente era só questão de tempo. Nós mudamos em época de férias, então não tinha escola, não tinha nada. Estava na rua, a molecada estava lá. Aí depois que fui para a escola fui fazendo, fui montando, aí... 

P - E a escola também era na Vila Olímpia? 

R - Era na Vila Olímpia. Eu me lembro do nome, Aristides de Castro. Era uma escola municipal. Eu fiz o terceiro ano. Coincidentemente, a minha vizinha de casa era professora na escola. Só que ela dava aula para a quarta série. E eu estava na primeira. Mas mesmo assim tinha um cuidado. 

P - E o que você lembra da Vila Olímpia nessa época? 

R - Ah, da Vila Olímpia? Da Vila Olímpia é muito legal. Então o que acontece? Hoje, onde é o Banco Santander, que é o antigo prédio da Eletropaulo, é onde eu nadava. Nadava literalmente. Por quê? Naquela época, eles faziam a dragagem do Rio Pinheiros, para limpeza do assoreamento do rio, para a Usina de Elevação de Traição. Então, eles dragavam, o rio não era poluído como é hoje, obviamente. Eles jogavam a água nesse bota-fora, que é o prédio da Eletropaulo hoje. Passados dois dias, toda aquela areia, toda aquela terra se sedimentava, e ficava aquele piscinão. E a gente nadava ali. Então, nadava, era uma farra danada. Não existia marginal, não existia Avenida dos Bandeirantes, nada disso. A rua, que eu morava numa rua de terra, não tinha esgoto e não tinha luz na rua. Era fossa, e tal. E de vez em quando, na Vila Olímpia, passava a boiada subindo, assim, pela rua. Quem diria... 

P - E aí você continuou nessa escola até terminar o primário? 

R - É, até a quarta série. Aí eu saí dessa escola, e fui para o Liceu Coração de Jesus, que é no centro da cidade. 

P - E aí como você ia para a escola? 

R - De ônibus, sozinho. Pegava de manhã o ônibus, ia para lá, voltava, era uma alegria. 

P - E qual era o trajeto da Vila Olímpia até o centro? 

R - Ele saía da Rua Ministro Jesuíno Cardoso... O ponto final do ônibus era no final da rua que eu morava, Rua do Rocio. Só que se eu pegasse ele no ponto final, ele dava uma volta muito grande. Então eu esperava ele nessa Rua Ministro Jesuíno Cardoso, que era só atravessar uma rua, que aí ele já tinha dado toda a volta. Eu pegava ele ali, subia toda a Rua Ministro Jesuíno Cardoso, Rua Clodomiro Amazonas, depois Rua Tabapuã, Avenida Nove de Julho, Avenida São João e Duque de Caxias. Então na Duque de Caxias, em frente à rodoviária antiga, hoje onde é a Sala São Paulo ali, descia ali, atravessava a rodoviária antiga, e ia para a escola. Que era a duas quadras da Duque de Caxias. 

P - E você já tinha alguma afinidade por alguma matéria, que você gostava de estudar? 

R - Eu tinha afinidade aversa, não gostava de matemática de jeito nenhum. (risos) Engraçado, na verdade é o seguinte, eu vim descobrir isso mais tarde. Eu sou muito auditivo, aprendo muito pelo que eu ouço. Eu não tenho a paciência para a leitura. A leitura me dá sono e tudo o mais. Mas se você me conta uma história, eu fixo. Tanto é que para as provas eu pedia para minha irmã contar a história de Dom Casmurro, todas elas. “Conta história para mim. Eu vou ter prova amanhã, conta a história para mim.” E ela contava a história. E eu tirava nota boa. E ela ficava louca da vida, porque ela lia o livro, e tirava nota menor do que eu. (risos) Eu tirava nota boa por conta disso, dela contar as histórias. Então eu ficava na classe, eu achava aquela história... eu não prestava, entre aspas, muita atenção, porque para mim estava muito... acho que fácil demais, entendeu? Muito maçante. Então o professor falava, explicava, e eu ouvia aquilo lá e estava bom. Eu chegava em casa, eu jogava os livros no sofá, e “vamos jogar bola”. “Mas a prova é amanhã. Meu filho, você não vai estudar?” Eu falava: “Isso aqui eu já sei, isso aqui eu já sei, isso aqui eu já sei. Então pronto, então vamos para fazer a prova... Quanto que eu preciso tirar? Sete? Está bom.” E tirava sete. “Quanto precisa tirar?” “Três.” Eu tirava três. Eu era um cachorro. Em vez de estudar e tirar nota, eu fazia a prova para tirar três. E assim eu fui indo, e passei o tempo. Quando eu fui fazer cursinho, aí sim... Eu tinha um professor muito legal no cursinho e a gente aprendeu matemática bastante, e aí foi onde eu me identifiquei mais com a matemática. Tanto é que quando eu fui fazer... eu tinha meu filho já com um aninho, eu fui fazer engenharia. Aí eu fui fazer engenharia, e cálculo um, cálculo dois, que era aquela matéria que o pessoal queria a morte, eu tirava dez de média. Não é que eu sou um gênio não, é que eu fui estudar com 35 anos de idade a engenharia. Então eu estava com outro objetivo. Aquilo lá para mim era muito fácil. Eu me dedicava, estudava e tirava dez de média. Depois os colegas queriam me bater, mas tudo bem. 

P - Wilson, e voltando um pouquinho para essa época de colégio, de juventude, conta um pouquinho o que vocês faziam para se divertir.

 

R - Bom, a mais marcante foi a época do Liceu Coração de Jesus. Eu era semi-interno. Porque, como eu gostava muito de jogar bola, meu pai falou: “Você vai estudar. Então fica na escola.” Então eu entrava às sete da manhã e saía às cinco da tarde. Então a parte da manhã era a parte de estudos. Então, a parte de estudos a gente fazia forquilha para atirar nos outros colegas, para acertar o cara de trás, e tal, e tudo o mais. Quando era dez para o meio dia a gente saía para o almoço. Então saíamos correndo para o refeitório. O colégio é muito grande, então ele tem um campo de futebol de campo no meio, que é a quadra, que é a área de... fora as quadras poliesportivas, e tudo o mais. Então a gente saía de um lado, atravessávamos para o refeitório até o outro. Saíamos correndo e pegávamos a fila do refeitório. Chegando no refeitório, meio dia em ponto ele abria. Quando ele abria, nós saíamos correndo e íamos para a mesa, pegávamos o bife, lambíamos o bife, e punha de volta, e pegava a Coca-Cola, tomava e voltava. Porque a gente não podia tomar, tinha que rezar primeiro. Mas a gente garantia, porque sempre pegavam na gente. Então estava garantido o nosso ali, e tal. Aí rezava, tudo direitinho, sentava e vamos comer. Então aí vamos comer, você comia tranquilinho. Mas queria pegar, porque já tinha, entre aspas, babado na Coca-Cola, ou no guaraná, na caçulinha, na época, e no bife. Então... aí comíamos. Comíamos, e “vamos para o futebol”. E aí nós jogávamos. Quando tinha... que o professor liberava calção... camisa, calção e meia, era a festa. A gente ia para o futebol de camisa, calção e meia, aquele negócio legal. Quando não era o dia do nosso jogo, a gente brincava de pega-pega e esconde-esconde também. Só que a gente brincava pela escola inteira. Então a gente subia na torre do sino... Um belo dia um escorregou da escada, caiu pendurado na... se segurou na corda do sino, então, fora do horário, o sino “Blelém, blelém, blelém...” Foi uma correria, porque o padre vinha pegar quem estava fazendo arte. Então era um esconde para cá, esconde para lá. Um outro... nós subimos no sótão da escola, o rapaz não sabia andar no sótão, ele pisou no estuque fora da madeira. Então, desceu tudo lá para baixo, no quarto do padre. E assim era. 

P - E eram só meninos? 

R - Só meninos. Era um colégio exclusivamente de meninos, tanto é que não tinha faxineira. Eram faxineiros, professores, homens e os meninos. Só meninos. Quando tinha festa na escola, que iam as irmãs, era uma farra. Parecia coisa de louco, ficava todo mundo gritando, aquele negócio todo. 

P - E como é que fica a paquera então, a relação com as meninas? 

R - A gente saía da escola na hora do almoço, e ia para o Nossa Senhora do Loreto, que era a duas quadras dali, que era exclusivamente de menina. Então a gente ia para lá esperar as meninas saírem, para ficar paquerando, namorando, e tal. Ou quando tinha encontro de jovens, a gente ia para a festa, encontrava as meninas das outras escolas no encontro de jovens. E aí fazia a paquera. 

P - E aí, depois do Liceu, você foi para o colégio? Ou o colégio foi inteiro no Liceu? 

R - O colégio foi inteiro no Liceu. Aí eu comecei a trabalhar. Eu fiz o ginásio todo. Aí eu comecei a trabalhar e fui fazer o colégio todo no Liceu à noite. Mas aí não estava dando. Eu saí, e fui para uma escola estadual perto da minha casa. Aí eu trabalhava durante o dia, no Anhangabaú... 

P - E o que era esse primeiro trabalho? 

R - Olha, o primeiro trabalho foi com 14 anos, eu fui ser balconista. Eu vendia peças de plástico técnicas. Meu pai trabalhava, além de ter a... na época já não tinha mais a fábrica de camisas... ele trabalhava com vendas, numa indústria de plásticos. Então ele atendia essa loja, e por conhecimento o cara me deu, durante as férias, um trabalho lá. Um trabalho meio período nas férias, voltei para a escola. Mas aí eu fui ser office-boy no Klabin Irmãos e Companhia, indústria de papel do Klabin, que era aí na Praça Ramos de Azevedo. Na verdade o prédio é de frente para o Anhangabaú, esquina com a Praça Ramos de Azevedo. Então eu era office-boy lá. E lá tivemos experiências ruins porque foi a época do incêndio do Andraus e o incêndio do Joelma. E eu estava as duas na rua, bem lá na frente dos dois. Porque a gente fica na rua, começa a ver o auê, a molecada vai ver o que está acontecendo. Então fomos ver essas duas tragédias. E era um negócio horroroso mesmo, muito ruim. 

P - E como era o cotidiano de um moleque de 14 anos, office-boy, por São Paulo? 

R - Na verdade eu fui um pouquinho mais velho, no ano seguinte, com 15, é que eu fui office-boy. Ah, era muito interessante, a gente andava pelo centro da cidade, no começo era tudo muito novo, depois você entende a movimentação do centro. Então andava por aquelas ruas, da 7 de abril à 24 de maio, 15 de novembro, Boa Vista. Fica muito em casa, entendeu? Então a gente entendia quem eram os punguistas da época, a gente, de andar, já sabia quem eram os bandidos, e tal, aquele negócio todo. E aprendia... na época tinha um problema muito sério. O Anhangabaú tinha carros, andavam os carros por lá. Existia uma passagem de nível que se chamava “o buraco do Ademar”, que foi uma passagem que passava por baixo da Avenida São João, era o Anhangabaú e embaixo da Avenida São João. Se não me engano acho que era a Passagem Prestes Maia. Enfim, não me lembro. Mas o conhecido mesmo era “o buraco do Ademar”. E ali tinha atropelamentos todos os dias. Fora as pessoas que se suicidavam saltando do Viaduto do Chá, em cima da avenida. Então a gente tomava muito cuidado para evitar esse... porque a gente conhecia. A gente estava lá e sabia. Quando alguém ia atravessar, a gente até avisava: “Olha, aí não, porque você vai ser atropelado. O carro vem de lá, você não vê.” E a gente demovia algumas pessoas de encurtar o caminho para fazer a volta. Então nesse sentido era legal. E às vezes a gente fazia uma brincadeira. Então, quando juntava dois moleques, a gente parava na frente do prédio: “Cuidado! Agora vai” Ficava olhando para cima. Ah, juntava umas quatro ou cinco. “Olha lá, apareceu, apareceu” E a gente saía, ficava aquele negócio, ficava um monte de gente, tudo olhando lá para cima. E era assim só para rir. Então a gente fazia molecagem. (risos) 

P - E você lembra o que você fez com seu primeiro salário, com o primeiro dinheirinho? 

R - Comprei um relógio para a minha mãe. Foi um presente para ela. Isso foi o primeiro dinheirinho. Depois disso, aí eu comprei a minha moto. Eu tinha 16 anos. Que eu queria moto, queria moto... Meu pai dizia: “Você é maluco? Vou te dar um revolver, mas não vou te dar moto.” “Não, mas eu quero.” Aí, como eu tinha 16 anos eu não podia ter financiamento. Aí cantei um amigo meu de dentro do escritório, falei assim: “Olha, eu vou comprar a moto e vou pôr no seu nome. Pode ser?” Só que é o seguinte: o gerente do escritório era compadre do meu pai. E obviamente ele ficou sabendo. Quando estava lá, que ia fazer o negócio... um garoto de 16 anos, ganhando meio salário mínimo, que na época tinha isso, meio salário mínimo, não podia ter muito recurso. Então eu ia comprar que moto? Uma tranqueira daquelas. Na hora que eu estava concretizando o negócio, meu pai falou assim: “Pára, pára, pára. Você não vai comprar essa porcaria.” E aí então ele me ajudou a comprar a moto. Aí comprei uma moto zero. Paguei as prestações dela, tudo direitinho. Tinha o dinheirinho da entrada, paguei. Se não me engano era 180 reais a prestação. Eu ganhava 220. Então você imagina como é que era. Para pôr gasolina era uma loucura. Mas foi legal. 

P - E aí nessa época da moto já era mais jovenzinho. 

R - 16 anos. 16 para 17. 

P - E o que você fazia de diversão? 

R - Bom, nós íamos para os bailinhos das garagens. Nós tínhamos os amigos da região, eu era o que tinha moto. E eu sempre gostei muito de dançar, de festa, era comigo mesmo. Paquerava, era uma farra. Então tinha o nosso grupo, a gente chamava de “a turma do granfino”. Então, juntava esses dez, 12 meninos e meninas. “Ah, hoje vai ter uma festa na garagem não sei de quem.” Vamos para a garagem. Eu ia para o Mingau do Sírio, para o Mingau do São Paulo. Mingau era o baile vespertino, a matiné desses clubes. E a gente ia para lá e tal. E de noite ia para as garagens das casas dos amigos. E era muito bacana, dançava, arrumava namorada. 

P - Você lembra das músicas dessa época? 

R - Ah, foi o... Nessa época, foi o rock, tipo Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin, essas coisas todas. E um pouquinho mais tarde era o Saturday Night Fever, que era Banana Power, Papagaio, Ta Matete. Maravilhoso também, muito bom. 

P - E a estética? Como as pessoas se vestiam? 

R - Eu fazia a minha moda. Eu era meio um ponto fora da curva. (risos) Como eu me sentia legal, eu me vestia. Agora, as pessoas gostavam de... antes dessa, era calça boca de sino, no Liceu Coração de Jesus. Então era calça boca de sino, que tem uma boca larga, que cobrisse o sapato. Então se você desse uma abaixadinha e cobrisse o sapato estava legal, sabe? Então essa era a moda na época do que? Dos 13, 14 anos. Aí mais para frente, aí não. Aí calça jeans, e uma camisa de anarruga, esse negócio todo. 

P - E aí você falou que você foi para o cursinho. 

R - isso. No cursinho eu já não trabalhava mais no Klabin, falei para o meu pai o seguinte: “Olha, pai, eu vou fazer cursinho para prestar vestibular.” Prestar vestibular para Engenharia. “O senhor consegue me bancar?” Que aí eu já tinha carro, tinha carro, tinha moto, depois ia fazer cursinho e prestar vestibular. E ele: “Você vai estudar?” Eu falei: “É, vou fazer cursinho.” “Mesmo? (risos) Pode fazer, eu banco.” “Legal.” Aí parei de trabalhar para fazer cursinho. Mas voltei logo a trabalhar. Porque quando a gente começa a ter essa independência financeira, não dá mais. Então eu voltei a trabalhar, prestei vestibular, aí eu entrei, em vez de entrar em Engenharia, entrei em Economia, na FAAP [Fundação Armando Álvares Penteado]. Não, perdão... Eu não entrei na faculdade no primeiro ano, aí eu voltei a trabalhar, comecei a trabalhar, eu trabalhava com vendas, meu pai faleceu em 1980. No ano seguinte ao falecimento dele eu entrei em Economia, na FAAP. 

P - E como foi essa virada para ser universitário? 

R - Ah, foi legal. Eu tive uma decepçãozinha também... (risos) no primeiro ano da faculdade. Um professor de Direito, já acho que estava no meio do ano, não estava muito legal, eu falei: “Professor, me dá licença”, e fui saindo tranquilamente, para ir no banheiro. “Onde o senhor vai?” Eu falei: “Eu vou ao banheiro.” “O senhor não vai.” Eu falei: “Ah, vou.” (risos) “O senhor está atrapalhando a aula.” Eu falei: “Não, eu estava saindo quietinho, o senhor que parou a aula para interromper a minha saída.” “Mas o senhor não vai sair.” “Ah, vou sair. Se eu não for sair, eu vou fazer aqui no cantinho.” E fui para o cantinho e fiz “chchchchch”. Não fiz. Mas eu simulei. Que aula que estava tendo mais? Nenhuma. Estava todo mundo gritando, aquele negócio todo. “O senhor está atrapalhando a minha aula” “Mas, professor, eu só queria ir ao banheiro, mais nada. E eu vou ao banheiro.” Porque ele estava segurando a porta. “Se o senhor sair o senhor não entra mais.” Eu falei: “Tudo bem. Não tem problema, mas eu vou ao banheiro.” (risos) Aí eu fui ao banheiro, e tal. Aí não tinha mais aula, aquele alvoroço. Aí eu voltei. Quando eu voltei, que quis entrar, aí foi a gritaria: “Deixa” Acabou a aula, e tal. Eu falei: “Mas, caramba, o banheiro é meu problema.” (risos) 

P - E você escolheu Economia sozinho ou existia alguma tendência familiar? 

R - Eu escolhi porque não tinha outro, foi a segunda opção, e porque eu entrei nessa. Tanto é que eu parei o curso e não dei continuidade. Eu era muito inquieto para ficar fazendo Economia. Não dava. Tinha que ser uma coisa mais ativa. Tanto que aí eu fui fazer Comunicação Social na Anhembi-Morumbi. Um curso muito legal, muito bacana, e tal. 

P - Mas isso mais tarde? 

R - Foi no outro ano. É, no ano seguinte. 

P - E você falou que você teve um filho. Nessa época você estava... 

R - Não, nessa época eu só namorava. Aí eu fui, resolvi morar nos Estados Unidos. “Vou para lá.” “Mas o que você vai fazer lá?” “Vou aprender inglês. Vou fazer Comunicação Social, que eu quero fazer Marketing. Fazer uma especialização em Marketing lá, e tudo o mais.” “Mas você não fala inglês.” “Tudo bem, eu vou aprender.” E “eu vou, eu vou, eu vou, eu vou.” Aí fui. Não falava absolutamente nada de inglês. 

P - Que cidade? 

R - Chicago. Aí eu encontrei com meu irmão lá. Porque é o seguinte, eu vim saber da existência do meu irmão quando eu tinha 18 anos de idade só. Então eu não sabia que ele existia. E eu descobri a existência dele porque de repente chegou uma carta para o meu pai, o remetente “Ericson Ebernau”. E eu: “Pô, ele tem um parente nos Estados Unidos e eu louco para ir para os Estados Unidos. Ninguém me fala nada, vocês são todos loucos...” Não sei o que. Aí minha mãe desesperada, saiu da cozinha, de repente ela volta chorando. “O que está acontecendo? Pára, pára. O que foi?” “Olha, se você quiser ficar bravo, você fica...” E chorando. “Pára. Fala direito.” “É o seguinte: o seu pai já foi casado, e teve um filho.” Eu falei: “Pô, que legal. E vocês não me falaram nada?” Eu acho que ela se chocou mais com a minha reação, porque eu acho que eles imaginavam que nós, eu e minha irmã, fossemos brigar, aquela rebeldia, aquele negócio. Eu falei: “Pô.” “Não é que seu pai largou, não é nada disso. Separou, teve outra família.” “Ah, isso é um problema... você não casou com ele? Você sabia disso?” “Sabia.” “Então problema seu e dele.” Para mim, nesses 18 anos de existência, nada a reclamar. Então, para mim está tudo bem. 

P - Daí ganhou um irmão em Chicago. 

R - Ganhei um irmão em Chicago. Ele já sabia obviamente da nossa existência. Então nos falamos por telefone e ele vinha para cá para visitar a gente. Ele vinha no final do ano. Em 1980 ele viria no final do ano. Eu fiquei sabendo uns dois anos, uns três anos antes. E meu pai faleceu em agosto. E aí eu encontrei com a minha irmã no velório do meu pai. E com meu irmão no final do ano, que estava programada a vinda dele. Eu fiquei assustado. Quando eu o vi no Aeroporto. “É muito igual a mim. Caramba!” Foi uma surpresa muito agradável e assustadora ao mesmo tempo. Não dá para falar que não é irmão. Aí, tal, nós tivemos uma empatia muito legal, muito bacana. E quando eu fui, eu fui para lá, procurei por ele, tal, tudo o mais. E ficamos próximos ali, aí eu fui trabalhar lá, arrumei emprego. A esposa do meu irmão me ajudou a arrumar um emprego lá, aí fui para a escola. Primeiro eu arrumei um emprego. 

P - De que? 

R - Arrumei um emprego de garçom num restaurante mexicano. “Você já foi garçom alguma vez?” “Já, lá no Brasil sempre fui garçom.” “É, então está bom. Então pode ir atender a mesa.” Eu falei: “Putz, como eu vou fazer isso aqui... Não, espera, se eu não souber ser garçom... eu posso não ter experiência, mas se eu não souber chegar lá e falar bom dia, oi, como você está, o que você quer, eu estou perdido. Então vamos embora.” Aí a mulher, dona do restaurante: “Você nunca foi garçom.” Pelo jeito como eu peguei a bandeja. Mas aí eu fui lá, não sei o que. Eu falava que eu era brasileiro. “Mas o que esse brasileiro está fazendo num restaurante mexicano?” E eu: “Ah, eu arrumei esse emprego...” “Mas onde você é do Brasil? Onde você mora?” “São Paulo.” “São Paulo, São Paulo...” Eu falava: “Rio de Janeiro.” “Oh, Rio” Então, para eles eu morava no Rio de Janeiro e era amigo do Pelé. Estava tudo em casa, tudo legal. Amigo não, mas já tinha estado, conhecia o Pelé. E a pergunta mais frequente é se tinha muitas cobras na rua. E aí, como não tinha muitas cobras, eu falava: “Olha, a distância da minha casa até a Floresta Amazônica é um pouco maior do que daqui até a Califórnia.” Aí eles ficavam “Oh” Mas, enfim... E eu sempre muito dado, conversador, esse negócio todo, tinha clientes cativos, ganhei muita gorjeta por conta disso, atendia bem o pessoal. Eu não atendia bem, eu falava com eles com desenvoltura, aquele negócio todo, errava o inglês, pedia para eles me corrigirem. Mas eu sempre estava melhorando. Então, eles sentiam essa melhora no inglês e ficavam confortáveis e gostavam de lá. E minha sessão era cheia. 

P - Aí depois você mudou de trabalho? 

R - Aí eu arrumei um outro, junto com esse. Eu fui trabalhar em um hotel. Aí eu trabalhei em um hotel, na área de convenções. Eu montava as salas de convenção. Eu trabalhava com um grupo de mexicanos, e o chefe era um americano. Como eu era interessado no inglês, e tudo o mais... eu falava que não falava espanhol. Eu sabia falar, porque obviamente é muito próximo, aprendi rápido. E meu irmão tinha uma autoescola no bairro mexicano também, então quando eu ficava com ele eu ficava falando em espanhol, aquele negócio todo. Mas para os mexicanos eu falava que eu não falava espanhol, porque eu queria aprender o inglês. Mas é muito próximo. “Fala alguma coisa em português.” Aí eu falava. “O que você falou?” “Que você é uma pessoa muito bacana.” “Não entendi nada.” “Está vendo como é muito diferente? Não dá.” “Então vamos falar inglês.” 

 

(troca de fita)

P - Wilson, você estava contando da sua ligação com o inglês, lá em Chicago. 

R - Aí eu procurava falar inglês, para aprender inglês. E com isso, como os mexicanos se restringiam muito à língua deles, eles achavam que quem tinha que falar espanhol eram os americanos, e não eles inglês. E eu achava o contrário. Eu achava que não. Eu estou aqui na terra deles, eu tenho que me aproximar ao máximo. Então eu melhorava cada vez mais o meu inglês e procurava. Então eu tinha um contato maior com essa chefia por conta desse meu desenvolvimento com o inglês. E aí eu saí da montagem de salas, fui para a recepção. E junto com isso eu saí desse restaurante que eu estava, fui para um outro um pouco melhor, mexicano também. E trabalhava com os dois juntos. Aí fiquei trabalhando um tempo, fiquei dois anos lá. Uma lembrança muito forte é o frio que faz em Chicago. Então, eu peguei um dia com 50 graus abaixo de zero. Eu estava nesse restaurante trabalhando à noite, e as rádios falavam: “50 graus”, eu falei: “Eu vou lá saber o que é isso.” Eu peguei e saí, fui para a rua. E eu olhei: “Ah...” Você sai e entra, não tem o menor problema. E entrei. “Tudo bem, tudo bem.” O meu carro estava estacionado atravessando a rua. Era o estacionamento. Eu falei assim: “Bom, agora eu vou embora, terminou o expediente.” Troquei a roupa, coloquei luva, luva e luva. Porque era uma luva de algodão, uma de lã, e a luva de couro. Aí eu tinha o ceroulão, duas meias, calça jeans, casaco, casaco, e outro casaco. Bom, “vamos embora? Vamos embora.” Aí, eu fui para o carro. Quando eu cheguei no carro, eu fui abrir a porta. E não consegui abrir a porta, porque era tão frio, que a borracha colou na porta. Então eu não conseguia abrir a porta. Aí eu falei: “Então eu vou para o outro lado.” Fui pelo outro lado, puxei também, mas eu consegui abrir. Entrei no carro e dei a partida. “Uó-ó-ó-ó...”, “Uó-ó-ó-ó...” Por que? Óleo congelado, a bateria congelada. Pensei: “Eu dou um tempinho para a bateria se recompor e dou outra partida.” E nada. Falei: “Não vai dar, eu vou embora.” Quem disse que eu saía do carro? Eu não conseguia abrir os dedos assim. Então eu não conseguia enfiar o dedo na maçaneta da porta para sair. Eu não morri congelado porque, por Deus, tinha umas pessoas vindo do restaurante também, para o estacionamento pegar o carro deles, e eu: “Socorro, Socorro!” Eles me tiraram, eu saí, assim, carregado, fui para o restaurante de volta, para esperar reaquecer, para poder ir para o carro pegar. Não morri porque não era a hora, e tal. 

P - E é um inverno muito longo também, né? 

R - Muito longo. Ele começa em novembro e vai terminar só em março. E frio, muito frio, muito frio. A minha primeira neve foi emocionante também, porque... Foi levezinho. Foi em novembro, eu estava indo para o trabalho, dia 11 de novembro de 85. Então eu estava dirigindo, indo para o trabalho, e aí começou a nevar. E nesse ano, na passagem de ano... não, no Natal, desse ano, nevou tanto que a gente saía, andava e atolava, com a neve até o joelho. Era muito interessante... é tudo uma farra, 24 anos, 25 anos. Entra na neve, chuta, quando entra em casa estava tudo legal, tudo congelado, quando entra na casa, que tá o aquecedor tudo ligado, começa a derreter tudo, aí seu sapato molha, molha tudo. A neve é linda quando você está numa choupana, com uma pessoa, uma companhia legal do lado, tomando um vinho, e ela caindo lá fora. Mas quando você tem que trabalhar todo dia, pisar na neve, hum... só estando lá para ver como é que é. 

P - E como foi a decisão de voltar para o Brasil? 

R - Bom, aí eu voltei... eu ia voltar... falei: “Bom, faz dois anos que eu estou aqui. Eu vou voltar para encontrar com a minha mãe, os amigos...” A saudade é muito grande, muito grande. Porque todo esse período de desenvolvimento, de adolescência, de constituição, de desenvolvimento profissional, pessoal, você passa aqui. Então lá é tudo muito diferente. Não é melhor nem é pior. É muito diferente. E a gente fica preso às raízes daqui. Então eu falei: “Vou voltar para matar a saudade da turma toda.” Aí eu vim em dezembro, para passar Natal. Lá um frio danado, aqui um calor daqueles. Aí no calor, aí é tudo festa, porque eu voltei com algum dinheirinho, tinha economizado uma grana legal. Eu voltei com algum dinheiro, então vamos passear. É passeio, Natal, aí todo mundo chama para aquilo, chama para isso. “Eh, saudade”... Ia voltar em janeiro. “Não, vou ficar mais um pouco.” Aí chegou o carnaval. Aí eu, que adoro um carnaval... “Ah, vamos passear, vamos para Florianópolis...” Não voltei mais. Aí arrumei uma namorada, aí fiquei namorando, aí não voltei mais. Aí fiquei por aqui. 

P - Em que ano você voltou para o Brasil? 

R - Em 86. Então eu voltei para cá, tinha uma namorada, e tudo o mais, mas não dava certo. Já sabia que não ia namorar com ela, casar com ela. Aí fui trabalhar no Hotel Transamérica. 

P - Que fica aonde? 

R - Que fica na Marginal. 

P - Ah, lá no final da Marginal? 

R - Na verdade, é no meio da Marginal, perto do centro empresarial. Perto da Ponte Transamérica. Então fui trabalhar com eles, eu era contato do Hotel, e a gente fazia... aí tinha eventos, tinha contatos... E eu conheci a minha esposa lá no Hotel. Daí eu conheci, começamos a namorar, aí me casei... 

P - Como ela chama? 

R - Caroline. Me casei com a Caroline, tal. Aí nós ficamos seis anos casados, o meu filho nasceu... 

P - Vocês casaram, assim, na igreja? 

R - Na igreja, tudo direitinho. Ela, a princípio, não queria, que ela era muito tímida. Então eu falei assim: “Olha, nada contra, mas eu acho que isso é um negócio muito legal, principalmente para as mulheres. Você entrar de noiva... Não que não seja para mim também, eu vou estar participando dessa cerimônia toda, eu acho muito legal, acho que vale a pena fazer.” “Está bom, então vamos fazer numa capelinha muito tranquilinha.” “Está bom.” Ela queria um negocinho escondido. Mas ela foi se empolgando, se empolgando, nós acabamos nos casando numa capela lá em Aldeia da Serra. Não sei se vocês conhecem, subindo a serrinha, lá tem uma capelinha muito bonitinha, pequenininha, tal, e tudo o mais. Foi muito gostoso, foi muito bonita a cerimônia, tenho boas recordações, legal. Então ela também gostou, ficou legal. Então eu acho que foi importante. Porque, para a família, é importante você ter todas essas etapas cumpridas. E ela gostou também, e foi legal. Casamos, e... 

P - E vocês foram morar aonde? 

R - Nós fomos morar no Campo Belo, que é onde eu moro hoje. Eu já tinha essa casa lá, nós casamos e fomos para lá. Aí ela queria engravidar já logo na lua de mel, eu falei: “Não, vamos namorar casado.” Aí namoramos, e tal. E eu segurava um pouco, tal. Eu me casei com 33 anos de idade. Aí meu filho nasceu eu tinha 35. E eu meio que acelerei, porque a minha mãe ficou muito doente. Ela teve um câncer no útero, e tal. Eu falei: “Puxa vida, ela queria ver o neto. Ah, vamos adiantar esse negócio.” E encomendamos. Aí ela já estava grávida, e tal, mas não deu tempo. Ela morreu dia 30 de novembro de 92, e ele nasceu em 7 de maio de 93. Então acabou não dando certo. Mas enfim... 

P - Como ele chama? 

R - Ele chama Felipe. Um orgulho. É muito legal. Igualzinho o pai. Estudioso para caramba, tira nota... (risos) Ele, quando ver isso aqui, ele vai dizer: “Ah, é? Você enche o meu saco, e você não estudava” Mas ele é muito legal. Eu não posso falar nada, porque ele não é nem um pouco... ele está com 16 para 17 anos, não é nem um pouco aborrescente. É um menino que estuda, eu não preciso ficar enchendo a paciência dele para ele estudar. Eu imagino que eu seja um parceiro dele, muito grande. Uma coisa que me comoveu bastante foi quando ele chegou para mim, há pouco tempo atrás, e falou: “Papai, como é gostoso conversar com você.” E eu falei: “Ai, meu Deus do céu” Isso indica uma proximidade legal. Então eu disse: “Meu filho, eu acho que é esse o caminho. Você tem que ser independente, eu não sou eterno. Eu não estou aqui fazendo nenhuma despedida, não é nada disso. Mas os fatos são esses. Eu posso durar, cinco, um mês, um minuto ou dez, 20 anos. Agora é importante que você tenha independência e saiba fazer as coisas, independente de mim. Agora conte comigo para o que eu puder te orientar da melhor maneira possível. O papai erra, mas todas as vezes que ele errar, saiba: foi na melhor das intenções de fazer o melhor para você. Então discute, se você achar que está errado senta, conversa comigo, e vamos tocar o pau.” 

P - Você acha que a paternidade mudou alguma coisa na sua vida? 

R - Não, não mudou... Não é que não mudou, obviamente muda. Mas eu não sinto aqueles negócios: “Ah, eu era assim, o filho...” Eu não sou muito de ficar: “Ai, o filho...” Não. Não tem nada disso. Foi muito legal, foi importante. Quantas coisas eu tive que deixar de fazer em comparação ao tempo que eu não era pai. Puxa, foi um ônus. Agora o bônus que veio em função disso foi muito maior. Então, quer dizer, teve uma escolha, eu renunciei a um monte de coisas por essa escolha. E foi muito prazeroso. Porque você realmente deixa de fazer um monte de coisa para ser pai, e ganha outras tantas. O fato de ele chegar e falar isso que ele falou agora para mim, com 16 anos, é impagável. Ou quando ele falou pela primeira vez: “Papai”, é impagável. Quando ele é pequenininho, que tem algum problema, ele corre para você, é só quando você é pai que você sabe. Agora eu nunca fui, assim, aquele super protetor, “Não, não pode fazer isso. Vai cair” Eu falava: “Meu filho, você vai cair.” E caía. É parte do aprendizado. Obviamente eu não deixava ele na beira do abismo, que aí ele vai cair, bater a cabeça... 

P - E aí vocês se separaram? 

R - É, aí nós nos separamos, ele tinha dois aninhos. Aí eu me casei de novo. Nós ficamos seis anos casados. Eu me casei de novo, fiquei mais dez anos casado. Aí essa minha segunda esposa tinha dois filhos também. Me separei da segunda esposa, e agora casei de novo. 

P - Como era o nome da segunda esposa? 

R - Elza. 

P - Dez anos? 

R - Dez anos. 

P - Dez anos de Elza. E aí vocês foram morar aonde? 

R - Nós morávamos ali próximo ao Carrefour da Marginal Pinheiros. É Granja Violeta que chama o bairro. Ficamos morando ali nesse apartamento... 

P - Com os dois filhos dela? 

R - É, porque na verdade ela já morava lá. Eu tinha essa minha casa, e ela tinha os dois filhos. Como eles já estavam estruturados lá, e tal, eu falei: “Então eu venho para cá e pronto. Vamos para lá, é menos custo.” Porque apartamento é mais custo, tem o condomínio. “Ah, não...” “Então está bom.” Ficamos lá. Aí ficamos os dez anos lá. Aí me separei, voltei para essa minha casa. Então fiquei lá, depois de um tempo encontrei a minha atual esposa. A minha atual esposa eu a conheci há 20 anos atrás. 

P - Aonde? 

R - Então, quando eu voltei dos Estados Unidos. Eu a conheci. Ela tem 13 anos de diferença. Mas naquela época ela era muito garotinha. Eu brinco que dava cadeia. (risos) 

P - (risos) 

R - Eu trabalhava em uma empresa, enquanto eu não arrumei emprego no Transamérica, eu trabalhava numa empresa que era de promoção. Então fazia promoção de expositor de supermercado, esse negócio todo. E a gente contratava o pessoal, a gente contrata a equipe e vai trabalhar, fazer essa campanha, faz a outra, e tal. Numa das campanhas veio essa moça. Ela era garotinha, tinha 14 anos, e tal. Mas trabalhava que era uma maravilha. Falei: “Nossa, que legal.” Aí eu começava a passar as coisas para ela, e vinha com o resultado prontinho. Eu falava: “Puxa, que bom, né?” Então obviamente a gente se aproxima mais. Mas eu não tinha o menor olhar de homem para mulher para ela. Eu tinha outra namorada, estava em outra. E muito bem. E aí o que aconteceu? O pai dela separou da mãe, largou a família, eles começaram a passar necessidade. Aí eu me aproximei mais ainda exatamente para poder direcionar os trabalhos. Sabia que ela trabalhava bem, ela desenvolvia o trabalho, então: “Vem, vem fazer o trabalho, que está precisando.” Aí punha ela, punha a mãe dela para trabalhar. Foi indo, foi indo. Aí eu acabei saindo dessa empresa, fui trabalhar no Hotel Transamérica, e eles ficaram por lá. E a gente mantinha contato de “oi”, não sei o que. Aí quando tinha um, por exemplo, o primeiro trabalho, que ela foi trabalhar numa empresa no Werner Lambert, ela pediu para eu ajudar com o currículo. Eu montei currículo, levei para fazer a entrevista, orientei, aquele negócio todo, e pronto, fui embora. Aí ela casou. Eu já tinha casado com a mãe do Felipe. Aí ela casou também, tal, e nos separamos. Aí, coincidentemente, foi uma coincidência muito grande, eu estava em casa, tinha me separado da segunda esposa, ela ligou... Antes disso foi o seguinte, eu e meu cunhado... meu cunhado era representante da Polaroid no Brasil. E nós tínhamos um encontro para fazer com um cliente na área de fotografia. Eles marcaram em um restaurante. Ele falou: “Vamos no meu restaurante?” “Está bom. Vamos.” E nós fomos lá fazer reunião. Quando eu cheguei no restaurante, eu comecei a olhar, falei: “Nossa, esse restaurante aqui deve ser o irmão dela, da Jucélia. Porque pelo que ela me falou, onde era, é aqui.” Aí eu perguntei: “O dono daqui é o Gilson?” “Sim.” “Ah, então deixa meu cartão.” Deixei meu cartão. Aí eu falei: “Fala para ele me ligar, para ela me ligar.” Aí passou o tempo. Aí um belo dia, eu estou em casa, já separado, ela pede o cartão para o irmão e me liga. E fala assim: “Wilson? É a Jucélia.” “Ô, como você está? Quanto tempo” Aquela conversa. “O que você está fazendo?” “Ah, trabalhando, e tal.” “Você está casado?” “Não, eu me separei.” Ela: “Nossa, eu também. Agora você não me escapa.” Aí eu falei: “Ah, é? Que bom. Então vamos nos encontrar.” E estamos juntos. (risos) 

P - Que legal.

R - É, interessante. Então foi uma história de 20 anos atrás, que a gente acabou se encontrando agora. 

P - E isso já faz quanto tempo? 

R - Quatro anos. Já faz quatro anos. 

P - E hoje, profissionalmente, você faz o que, Wilson? 

R - Hoje eu tenho um restaurante, que é na Vila Olímpia, que é na casa onde eu morava, que passava a boiada pela Rua do Rocio, subia, onde eu nadava no Banco Santander. Hoje é um restaurante, é uma região muitíssimo movimentada, com prédios, completamente diferente, na região. 

P - Como chama o restaurante? 

R - Paleoh. 

P - Que cozinha que é? 

R - Olha, é uma cozinha moderna... Nós começamos lá com picanha na pedra. Então nós fazíamos picanha na pedra. Nós servíamos uma travessa de madeira com uma pedra de granito, super quente, e nós colocávamos a picanha, e servíamos isso para o cliente. Era um sucesso, era legal. Mas como foi ficando mais comercial a região, então tinham muitos escritórios, as meninas principalmente, quando iam lá, e quando viam aquele negócio... escondiam o cabelo, exatamente o que você fez. Escondiam o cabelo, punham o cabelo... “Pelo amor de Deus”. Então era muito legal, os homens queriam ir, mas as moças não iam. Então nós começamos a ter um problema de frequência. E a gente falou: “Nós precisamos dar uma ajustada nisso.” Aí, na época, eu me separei da Elza, e minha irmã entrou de sócia comigo. E nós decidimos então... estava muito difícil fazer essa decisão, porque a gente fazia pesquisa, e 50% das pessoas: “Não, deixa como está.”, 50% falava que não. Porque dava problema, e pingava o óleo no punho do executivo. “Vamos mudar, vamos mudar.” E daí nós tivemos um sucesso danado. Então, nós mantivemos as carnes. A gente trabalha com carne de primeira linha. Então nós mantivemos a qualidade das carnes, e começamos a implantar uns novos pratos. E o serviço da carne também mudou. Não vinha mais daquele jeito. Ela era feita na pedra, mas na cozinha. Então já vinha em um prato, empratado, feito. E não tinha mais esse problema. Então nós eliminamos isso, aí tivemos sucesso, implantamos novos pratos, esse negócio todo. Então hoje nós temos risoto... Alguns pratos que saem muito lá são as carnes, o risoto sai bastante, e nós temos um ravióli recheado de mozzarella também que é muito bom. O pessoal gosta bastante. 

P - Wilson, se você tivesse que olhar toda essa sua história agora, que está fresquinho na cabeça, o que você acha que é mais importante para você hoje, na sua vida? 

R - Viver, não existir. Viver. Porque tem gente que vem e existe. Existe, mas não faz nada. Viver é muito bom. A gente aproveitar cada simples minuto, e dar o devido valor que merece. 

P - E quais são seus sonhos ainda? 

R - Olha, os meus sonhos é finalmente morrer com a minha família. Com família, família. Pai, mãe, a minha atual esposa. Ela não tem filhos. Desse primeiro casamento ela não tem. Então, a gente está planejando agora, quem sabe, um irmãozinho. O meu filho com 17... Eu vou ser avô do meu filho, mas tudo bem. (risos) Mas mesmo assim, olha, passa o tempo, aquele negócio todo, se vier vai ser tudo diferente, tudo muito legal, vou deixar ele fazer tantas outras coisas, mas vou fazer tantas outras novas. Então vai ser muito legal. 

P - Que legal. Tem alguma coisa que você deixou de contar, que a gente não perguntou, que você queria deixar registrado? 

R - Que eu me lembre assim, não. Eu acho que a gente fez um apanhado breve de tudo. 

P - O que você achou de contar a sua história? 

R - Eu achei legal, achei interessante, é bacana. Eu acho que esse momento, o fato, por exemplo, de a gente comentar sobre onde eu nadava e o que é hoje, o que vai ser daqui a dez, 20, 30 anos, quem é que vai poder acreditar? Então esse é um depoimento que eu acho que, se a gente tivesse mais, ia ser muito legal para a gente estabelecer essas comparações. Por exemplo, uma estação de trem em frente ao Liceu de Artes e Ofícios. Você vai lá hoje, é um monte de gente passando para todo lado. Você nem imagina que aquela Cruzeiro do Sul não era uma rua, era um trilho de trem. Que a gente brincava, fazia festa junina no meio da rua, com fogueira no meio da rua. Em São Paulo você não vê mais isso. Então isso é um negócio que é muito interessante. Talvez a gente veja isso na periferia, com mais frequência, mas não sei. Jogar bolinha de gude... Eu não vejo um moleque jogando bolinha de gude. E as calçadas não eram cimentadas, a gente fazia o buraquinho lá e ficava jogando bolinha de gude. Então essas coisas são muito interessantes. Não é melhor nem pior do que tem hoje. Mas eu acho que era legal, era bacana. 

P - E vale a pena deixar registrado. 

R - Eu acho que vale a pena, você começar a comparar. “Puxa, como a criançada brincava naquela época” Aí nós pegávamos a bicicleta. Aquela região da Vila Olímpia... Hoje tem o Shopping Vila Olímpia. Onde tem o Shopping Vila Olímpia, que foi recém-inaugurado. Foi inaugurado em dezembro de 2009. Naquele local era um local de depósito de entulho. Então nós brincávamos de bicicross. Porque os caminhões iam, os basculantes derramavam o entulho, e ficavam aquelas montanhas. Então, a gente ficava passando nas montanhas, e tal, e ficava fazendo lá. Então a gente vinha com a bicicleta e pulava com aquilo lá. Então era um bicicross. Um negócio que era interessante: Avenida Juscelino Kubitschek, passarela do Fromer. Ali, exatamente ali, eu precisava comprar uma graninha, que eu precisava de uma grana para comprar minha pipa, aquele negócio todo. Meu pai segurava um pouco, minha mãe também. Então... A feira era do outro lado do rio, que ali em baixo da Juscelino Kubitschek passa um córregozinho. Então ali a gente pegava peixinho, guaru, para pôr no aquário, e ia para a feira. Então, a gente atravessava a pinguelinha, que era um tronco de árvore caído, bateram umas tábuas, tal, que a gente passava em cima da pinguelinha, e ia para a feira, que era do outro lado da rua, vinha com o carrinho de feira, então trazia o carrinho das senhoras, que elas tinham um desequilíbrio para passar na pinguelinha, então a gente trazia, passava na pinguelinha, e ganhava um trocadinho por isso. Mas passando a pinguelinha na Juscelino Kubitschek, você passa lá hoje, é muito diferente. 

P - Você vê que a cidade perdeu um pouco as suas referências naturais, de córrego, de rio. 

R - Ah, perdeu completamente. Hoje não tem... De rio da época é o Tamanduateí e o Tietê, e o Pinheiros. Também são muito grandes para canalizar. Mas enfim, o resto todo... 

P - E são rios que não fazem função de rio, na verdade. Porque nessa época era navegável, você podia... 

R - Olha, eu lembro do rio Tietê, na Ponte das Bandeiras, se vocês passarem por lá tem dois mastros... Você ficava observando a regata no Tietê. Então, na época de uma das minhas namoradas, eu conversava com o pai dela, que ele fazia regata lá. Então ele discutia comigo as regatas, que ele fazia no Tietê. Eu não cheguei a participar dessa época, mas enfim. 

P - Está bom, Wilson, muito obrigada pela sua história. 

R - Obrigado vocês. Espero que tenha sido de boa referência. 

P - Nossa, excelente. Excelente.

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