Busca avançada



Criar

História

Viver e Fazer

História de: Jonathan Luke Hannay
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2014

Sinopse

Filho de diplomata, Jonathan Luke Hannay narra seu nascimento e primeira infância em Bruxelas na Bélgica. Aos oitos anos de idade foi estudar em colégio interno onde aprendeu a endereçar e escrever cartas. O único meio constante de comunicação com sua família era através das cartas que enviava aos seus pais todo domingo. Em sua primeira ida à Jericoacoara se apaixonou pelo local, além de passar muitas de suas férias na região chegou a morar na cidade. Cursou Antropologia na Universidade Columbia, Nova Iorque, onde começou a sua atuação com pessoas em situação de rua. Concluiu a sua graduação na [USP] Universidade de São Paulo, período em que deu início ao trabalho com crianças em situação de rua no Brasil. Trabalhou para a ONU [Organização das Nações Unidas] em Moçambique e desde de seu retorno ao Brasil é líder da ACER - Associação de Apoio à Criança em Risco.

Tags

História completa

O meu nome é Jonathan Luke Hannay, eu nasci em 15 de Fevereiro de 1968 na cidade de Bruxelas na Bélgica. O nome do meu pai é David e da minha mãe é Julian. Sou de uma família britânica, o meu pai é filho de escocês, a mãe dele era judia inglesa. Ele foi criado até certa idade na Escócia e depois foi para a Inglaterra. A minha mãe é inglesa, do norte da Inglaterra, foi criada primeiro lá e depois no sul da Inglaterra. Os meus pais se conheceram no Iran e se casaram lá. A minha mãe foi uma esposa profissional, na época em que eles casaram não era possível marido e mulher trabalharem juntos, ou um, ou outro, a minha mãe desistiu da vida profissional dela e sempre acompanhou o meu pai na vida diplomática dele, desempenhando o papel de esposa profissional. Tenho três irmãos, dois mais velhos, o Richard e o Phillip e um mais novo, o Alexander.

 

Vivi na Bélgica até os meus oito anos de idade, eu era muito de ir para parque, andar, correr, subir na árvore, andar de bicicleta, sempre nos parques de Bruxelas. Eu saía com a minha mãe, fazia compras, ia para padaria, para o açougue, no açougue se comprava manteiga porque a manteiga era dois blocos gigantes, era com sal ou sem sal, aí eles pegavam uma pá para tirar e pesava. UmA comida que eu gostava era lebre, que é uma comida típica da Bélgica, duas vezes por ano nós íamos para a casa da diarista dos meus pais, que ficava no interior, para almoçar, um almoço tradicional que ela oferecia, geralmente era lebre. Aos oito anos eu fui para um colégio interno. Foi a primeira vez que eu andei de avião, eu andei com o meu irmão, nós pegamos o avião, chegamos em Londres, pegamos o metrô, depois pegamos ônibus, para ir a um ponto em Londres para pegar ônibus para o colégio. Foi uma grande aventura junto com o meu irmão mais velho, aliás, com os meus dois irmãos mais velhos. No colégio a gente estudava de segunda a sábado; na segunda, terça, quinta e sexta nós tínhamos aula de manhã e de tarde, havia um período grande de almoço e para prática de esportes a tarde, então eu sempre estava praticando diversos esportes e tinha também outras recreações. E de quarta e sábado nós tínhamos meio período. Na primeira semana em que eu cheguei na escola eles nos ensinaram a escrever cartas, como endereçar e como escrever, aí todo domingo nós tínhamos a obrigação de escrever carta para os pais, todo domingo eu escrevia carta para os meus pais e recebia, obviamente porque eu só os via nas férias, então a comunicação era assim. Eu colocava carta no correio em uma segunda, na terça já chegava na casa dos meus pais.

 

Ao sair da escola eu consegui um emprego através de um amigo, um estágio em um hotel cinco estrelas em Miami, eu ia para lá, alguns meses antes de efetivamente ir, o gerente geral do hotel que estava dando essa vaga foi enviado para Dubai, isso em 1986, era no meio da guerra Iran e Iraque, Dubai não era aquela coisa que as pessoas veem hoje (risos), era bem simples, só tinha cinco hotéis. Eu acabei passando um ano lá e lá eu disse: “Nossa, essa é uma vida boa, eu acho que vou entrar no ramo de hotelaria”. Foi lá que eu comecei a trabalhar com brasileiros que me convidaram para vir ao Brasil, para viajar, conhecer. Em 1989, eu vim para cá pela primeira vez, passei sete meses andando pelo país e aprendendo a falar português. O meu pai foi enviado em 1990 para Nova Iorque, foi o último trabalho dele, ele ficou lá até 1995. Eu acabei fazendo faculdade de antropologia na Universidade de Columbia em Nova Iorque, eu fiz três anos lá. Eu estudava nos Estados Unidos e passava as férias de verão no Ceará, em Jericoacoara, quatro meses por ano e ainda hoje eu continuo. Na época não tinha energia, não tinha água, não tinha banheiro, não tinha nada dessas coisas, tinha cacimba e mato, era bem simples mesmo. Eu gostei das pessoas, da simplicidade, eu ia pescar com o pescador, eu vivia e acabei estabelecendo relações familiares lá. Não tinha comunicação, tinha os Correios na cidade próxima, mas lá foi muito impressionante porque eu chegava a receber carta da Inglaterra em cinco dias, eu mandava carta, cartão postal porque eu passava meses lá, eu mandava ou para os Estados Unidos ou para a Inglaterra e funcionava, chegava na cidade ou alguém que vinha da cidade trazia todas as cartas que chegavam para as pessoas do povoado e ia distribuindo.

 

Depois eu descobri que eu poderia fazer um ano da faculdade aqui no Brasil e transferir os créditos, eu fiz um ano, de 1993 a 1994, aqui na USP [Universidade de São Paulo]. Foi em Nova Iorque que eu comecei de fato a fazer o trabalho que eu faço até hoje, como voluntário eu trabalhava em um abrigo para famílias sem teto em Nova Iorque, trabalhando com as crianças, eu fiz isso durante três anos. Quando eu vim ao Brasil para estudar na USP eu comecei a trabalhar na Pastoral do Menor da região Sé com crianças de rua. Era um abrigo noturno para crianças de rua, funcionava das oito da noite às oito da manhã, isso em 1993 ou 1994, só durou seis meses, depois fechou. Lá tinha chuveiros, colchonetes, cobertas, nós oferecíamos uma refeição a noite, café da manhã, lugar seguro, banho, eles dormiam e faziam curativos, isso era o que eu fazia, éramos geralmente em três ou quatro pessoas que dormiam lá com cerca de 80 a 150 crianças e jovens. Quando estava terminando a faculdade fui trabalhar em Moçambique para as Nações Unidas em 1994, eram as primeiras eleições pós-guerra civil. Como eu falava português, eles precisavam de bastante gente, eu estava em Nova Iorque e fui fazer a entrevista com o Kofi Annan que na época era chefe das forças de paz pelo mundo e eu passei, trabalhei por quatro meses em Moçambique, na divisão eleitoral da ONU [Organização das Nações Unidas] e lá que eu decidi voltar, em 1995, para cá.

 

Hoje eu lidero uma ONG [Organização Não Governamental], uma organização de desenvolvimento comunitário em El Dourado, Diadema, eu estou junto a essa organização desde 1995. Inicialmente nós trabalhávamos com crianças de rua, mas estávamos embutidos em um bairro, em uma região com muitos problemas, muita violência, no final dos anos 90, era a região mais violenta da cidade e do Estado de São Paulo. Então tinha muita demanda, muita necessidade. Nós abrimos um centro comunitário em 2001 e a partir de 2003 uma nova diretoria decidiu que a necessidade era muito grande. Então deveríamos focar no desenvolvimento humano e comunitário daquela comunidade que a gente vem trabalhando até hoje. Estamos desenvolvendo cada vez mais, trabalhando com educação, com cultura, com assistente social, com desenvolvimento econômico, com esporte, com o protagonismo juvenil que é o que fazemos hoje com relações com organizações na África, na América Central, América do Sul, na Europa. Intercâmbio de pensamentos, de construção de bases metodológicas, com diferentes coisas assim. Eu não sou muito sonhador, eu sou muito de viver e ir fazendo as coisas, então eu diria que o meu sonho mesmo hoje, profissional, é de ver esses os programas da ONG espalhados não por uma questão minha, mas por uma questão que eu vejo que eles podem fazer, podem melhorar a vida de pessoas e é claro que tem muitas crianças e muitas famílias que podem ter uma vida melhor com o auxílio desses programas. O meu sonho é no prazo de três a cinco anos os ver operando em outros lugares.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+