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Vivendo para a juventude

História de: Marcelo
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Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Marcelo é o filho caçula de um carpinteiro e uma dona de casa. Passou a infância de maneira humilde, o que levou a aflorar sua criatividade. Marcelo, junto com seus seis irmãos, confeccionava seus próprios brinquedos. Também lembra com nitidez do episódio da construção da sua casa, evento que engajou toda a família. Com quinze anos, se assume homossexual para os pais, e recebe afeto e acolhimento. Com essa força vinda da família, vive uma adolescência tranquila, e com dezoito anos entra para a militância LGBT. Sempre quis ser professor, sonho que acaba realizando na criação da Adhons, ONG que luta contra a discriminação e dá suporte à comunidade LGBT de Sergipe. Hoje é pedagogo da ONG, que se une ao ViraVida. No Projeto ViraVida ele se apresenta como um catalisador de anseios dos jovens que sobrevivem da exploração sexual.

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História completa

Tive uma grande sorte por ser o único filho e ter a compreensão dos meus pais sobre a minha homossexualidade desde cedo, em uma época muito difícil. Na década de 1970, ser um filho homossexual não era como hoje. Ser filho de carpinteiro e de uma dona de casa, o mais novo, e ser filho homossexual em uma época de ditadura militar e ainda ser acolhido. Fui bem criado e justamente por ter sido o único filho tive que aprender a ajudar meus pais cedo e a ter esse limite da compreensão do quanto a família é importante para nós.

 

Aprendi cedo com meus pais a ter que trabalhar, a ajudar, até porque fui filho de pessoas humildes. Tive que ajudar o meu pai a carregar o material para botar na carpintaria; ajudar a minha mãe a lavar roupa para poder ganhar dinheiro. Uma das primeiras casas que nós moramos fomos nós que construímos. Eu mesmo ajudei quando pequeno. Isso está muito forte em minha memória. Os filhos ajudaram a construir a casa, uma construção da família. Ainda hoje eu passo, de vez em quando, e vejo a casa que ajudei a construir. Lembro das minhas irmãs e irmãos carregando pedra. Isso foi importante para a nossa formação. Isso tudo fez a compreensão do que sou hoje. 

 

Na minha infância, tive que aprender a fazer brinquedos com materiais reciclados para poder brincar com os outros jovens. Fazíamos bola de papelão e o chamado patinete, que era um brinquedo de madeira. Eu acho que isso foi muito forte em mim: criando pipa, indo tirar pilha de coqueiro para poder recortar e fazer aquela pipa com papelzinho, colar, criar cola. Fazíamos cola com água, farinha e sal. Era farinha, um pouco de sal e água quente. Tínhamos que criar até a cola para fazer o brinquedo. Isso foi muito legal. Paralelo a isso, existia o fato de ter que dividir as minhas tarefas de brincadeiras, de jovem com a responsabilidade de casa. 

 

Acho que a partir do momento que tive que dividir essa responsabilidade da construção da casa com os meus pais, de ajudar a minha mãe, isso foi um alicerce para a construção da minha homossexualidade, no sentido de dar um direcionamento à minha vida como um todo. E nesse processo comecei a me descobrir, a perceber que olhava para outros meninos de uma forma bem diferente e bem responsável. A partir do momento que comecei a descobrir e a ter relações homoafetivas, a partir dos quinze ou dezesseis anos, abri com os meus pais essa relação que tinha acontecido. 

 

Eu sempre fui muito aberto e sincero. Sentei para conversar numa maturidade que acho que hoje talvez eu não tenha. Talvez eu não tivesse essa noção na época. Coloquei de uma maneira aberta que tinha desejo por pessoas do mesmo sexo. Acho que estava um passinho na frente em algumas situações. Numa época que não tinha ONG, nem essa luta aberta pelos direitos humanos, eu já me afirmava como homossexual. Já dizia que era homossexual, que queria enfrentar o preconceito e lutar contra a discriminação. Não tinha noção de organização, mas consegui me afirmar. E acho que o fundamental foi esse respeito que adquiri na minha própria família. 

 

Daí foi essa construção, essa ideia. Levei esse processo até chegar ao ponto de aceitar um namorado na minha casa, para conversar com a minha mãe e foi muito natural por parte dela. Comecei a adquirir a chamada respeitabilidade da sociedade e das pessoas que estavam à minha volta, com o meu ato de responsabilidade. Aos dezessete para dezoito anos entrei na luta pelo movimento social, junto à luta pela redemocratização do país em 1984, nos resquícios da ditadura militar. Ingressei na luta por um país mais livre, pela volta dos grêmios, fui representante da UBES, a União Brasileira de Estudantes Secundaristas. Junto a isso tinha a minha homossexualidade, e estava sempre pautada na responsabilidade. Conquistei um espaço de respeito, de aceitação muito grande em todas as esferas da minha vida.

 

Por isso, a história da Adhons passa um pouco também pela minha história de vida. Foi quando em 1985, lendo um artigo sobre a questão da homossexualidade, homossexualismo, tinha visto que o Conselho Federal de Medicina, em 1985, começou a abolir o termo homossexualismo, pois era considerado uma doença. A partir daí comecei a ler, a pesquisar, estudar e a organizar-me sobre a minha orientação sexual. Comecei a estudar mais sobre mim, o que eu era, quais eram meus objetivos enquanto homossexual. Foi quando no ano de 1998 eu conheci o Dialogay, que é o primeiro grupo do estado e segundo mais antigo do país. Ingressei na luta imediatamente e não pensei duas vezes. Quando vi a organização, eu disse: “É aqui que eu vou ficar. Aqui é o meu caminho e é nesse processo que vou estar”. Em 2000 comecei a ir para fóruns específicos sobre homossexualidade, como encontros, seminários e foi quando eu comecei a perceber: “Ainda preciso descobrir mais sobre mim mesmo”. Achei pouco e queria mais. Queria ser presidente de uma ONG LGBT e estar à frente das coisas. Foi uma decisão que tomei porque também já tinha perdido alguns amigos vítimas de homofobia, que foram assassinados de uma forma bárbara. Em alguns casos tive que ir ao IML, pessoas conversaram comigo: “As pessoas estão morrendo por...” Foi quando ouvi a palavra homofobia e comecei a entender que fui vítima da homofobia também, pois é uma coisa que todo homossexual quando se expõe de uma maneira... Eu já fui agredido, já fui ameaçado por telefone.

 

Quando você bate numa pessoa e não derruba, só fortalece. A cada agressão que eu levo, é um incentivo para que eu continue. Sou muito assim. Se você disser que esse caminho tem espinho e esse não tem, mas esse vai ajudar os homossexuais a se livrar e se libertar, eu não tenho dúvida que vou pisar nos espinhos. É uma coisa minha mesmo. Então, quando acontece isso, sinto-me fortalecido para continuar. A minha orientação sexual é explícita. Não admito que, em um país onde se preservam as leis e a democracia há um índice alto de assassinatos de homossexuais. Isso é inadmissível e não vejo racionalidade num país como esse que lidera o ranking de assassinatos no mundo. Aí entra o “Educando para a Diversidade”, que foi uma ideia minha enquanto autor e idealizador. Porque não dá para trabalhar cultura, violência, o respeito à diversidade se não ter educação de base. E quero que fique registrado aqui a minha indignação pelo cancelamento do ‘kit homofóbico’ no Brasil. Precisamos ter educação de base para que as pessoas tenham respeito à homossexualidade.

 

Hoje em dia, não sou só um professor, até porque estou fora da sala de aula por uma opção minha. Mas sou um ser humano e não só mais um técnico. Costumo dizer que existem mais técnicos do que... Os técnicos hoje estão muito tecnicistas. Eles são muitos mais técnicos do que professores. Então, sou muito mais humano, vivencio o lado humano das pessoas, do ser. Acho que há uma debilidade minha, que é ao mesmo tempo uma fortaleza, porque a minha história com esses meninos do Adhons se identificou mais. Percebi que não poderia ser o presidente da ONG. Teria que ser o Marcelo gay igual a todos eles para poder entender a linguagem, como eles vivem e falam. Muitas vezes nos colocamos num patamar e não vivenciamos. Acho que sou muito mais militante e eles se identificam muito mais comigo do que com o professor, com o pedagogo.

 

O jovem é um processo de conquista. Temos de conquistá-los. Todos os técnicos são esforçadíssimos, pessoas que batalham para ajudar. Talvez tem alguma dificuldade ou outra, pois nada é cem por cento. Quando há alguma dificuldade com eles de compreensão de algumas coisas, ou mesmo conflito de um jovem para com o outro, estou sempre tentando intermediar. Quando acontece de algum faltar, também estou junto com a equipe técnica acompanhando. Como tenho uma aproximação maior de vivência com eles, isso facilita a visita e o contato com os técnicos. Eu sirvo como uma interlocução, porque convivo tanto com esses jovens, que, muitas vezes, são excluídos e se identificam comigo por ser homossexual, no linguajar, na forma de sorrir. Acabo passando as informações do que eles sentem e como estão agindo. Por exemplo, teve uma época que um deles achou que não estava se sentindo bem acolhido. Trabalhei com ele dizendo que era uma coisa da cabeça dele e que o pessoal é bem acolhedor. Aí ele começou a entender. Convivi tanto com eles, que o que eu puder ajudar no cotidiano da visita, dos técnicos, da convivência da facilitação, em alguns momentos existem algumas dificuldades, mas estou à disposição.

 

O ViraVida é um espaço de acolhimento que deixa esses jovens à vontade e onde eles se sentem acolhidos. E eles não se sentem rejeitados, o que acho o mais legal do Projeto ViraVida. Estava vendo a gincana que eles fizeram do Seminário Nacional: os jovens LGBT fazendo shows de transformismo, a coisa que eles gostam. Continuamos nessa parceria até hoje. E vejo de uma forma muito louvável. Tenho percebido a abertura dos técnicos para aceitarem esses meninos. Em nenhum momento colocam dificuldades. Percebo que eles fazem muito esforço para atender e isso tem que ficar registrado. Porque as novas instituições LGBTs vivenciam uma dificuldade muito grande de sobrevivência. Não é fácil. Precisamos de infraestrutura, de condições e de técnicos. Acho que o SESI tem contribuído com a infraestrutura que a instituição dá ao projeto, bem como o acompanhamento. É preciso uma ação continuada. Eles precisam de profissionalização e acho que o SESI tem incentivado a inserção no mercado de trabalho. E a ONG LGBT, além do preconceito, que é muito grande e a falta de incentivo também é. A discriminação é muito grande. Quantas vezes fui atacado… Conto no livro quando as crianças e os adolescentes chegaram lá... Sempre ligaram a homossexualidade à pedofilia. Todo homossexual é ladrão, corrupto. As pessoas acham isso. Então a parceria com o SESI traz esses jovens, faz o acompanhamento e a capacitação profissional, coisa que a nossa ONG, por exemplo, juntou-se com uma equipe de professores do SEBRAE para darem a capacitação profissional a eles, que estão gostando muito disso. Essa turma que entrou agora tem conversado comigo bastante e falado que já tem diploma, certificados e estão se inscrevendo para fazerem cursos e no mercado de trabalho. Isso é superimportante. A autoestima dos jovens sobe. Essa parceria com o SESI é nesse aspecto. 

 

Hoje em dia, ainda sonho com um país sem homofobia, onde a educação de base seja tratada com respeito e que a criança tenha uma educação de base para o respeito da diversidade sexual. Sonho um dia que todos, como eu, respeitem a individualidade de cada ser. Sonho que todas as pessoas que sofrem com a sua homossexualidade e que não podem colocar para fora como eu fiz… Queria um país em que todos os homossexuais pudessem falar o que são e o que sentem de verdade. Assim, teríamos um mundo menos preconceituoso e menos homofóbico. Estamos em todos os lugares do mundo, desde a adolescência à terceira idade. É esse o meu maior sonho.

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