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História

Vivendo num país fraterno

História de: Nichan Bertezlian
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Origem da família. Infância na Síria. Imigração com a família para o Brasil. Educação religiosa e lembranças dos lugares onde morou na infância. Escola e trabalho na fábrica de calçados de seu pai. Trabalho de representação comercial no ramo de calçados. Viagens pelo interior do Estado e formas de pagamento. Aquisição de fábrica de calçados. Casamento. Sonhos. Importância do registro de seu depoimento. Atividades de lazer. Autorretrato.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

O meu nome completo é NichanBertezlian. Parece que a preocupação dos meus antepassados foi tamanha pra me identificar, deram a mim a obrigação de carregar duas vezes a identificação do armênio porque o 'ian' é um sufixo que se agrega ao sobrenome do armênio para que, onde quer que ele tenha nascido, onde quer que ele possa estar, ao pronunciar o seu nome e sobrenome, o 'ian' o qualificará pra sempre no conceito das pessoas ouvintes de que realmente ele tem a sua origem na velha e distante Armênia, que foi um dia, por vontade de Deus, o berço da atual civilização.

INFÂNCIA

Eu, por acaso, depois do massacre otomano, nasci na cidade de Aleppo, na Síria. De onde aos meus cinco anos, aproximadamente, fui carregado pelos meus pais ao lado da minha família com quatro irmãos, meu pai e a senhora minha mãe, pra ser transferido para o Brasil. Como eu nunca tinha visto o mar, a primeira cidade que nós havíamos que ir era no Líbano, porque em Aleppo não havia porto. E quando pela vez primeira eu me deparei com o mar, achei aquilo uma coisa assombrosa! Havia sinais de luzes acendendo e apagando que eu não sabia o que eram, e soube posteriormente, porque a admiração se me calou, tinha vergonha de perguntar, sabia que eram os remos dos barcos que ao se reluzirem contra o sol, que era por volta do meio-dia; conforme aqueles remos se adentravam na água do mar apagavam-se as luzes, quando saíam os remos da água se acendiam duas luzes! Nesse tempo eu fui acolhido pela minha tia que morava já lá no Líbano e que nós havíamos que naquele dia embarcar para o Brasil. Então, nesse dia foi a primeira luta minha com os meus primos que hoje são elementos de destaque na odontologia brasileira. Então, eu gostaria de lembrar-lhes uma pequena passagem porque eu sempre fui um homem muito revoltado e muito briguento. Eu me lembro como uma pequena, como uma nuvem de lembrança que um dia em Aleppo meu pai chegou trazendo uma carroça cheia de frutas pra minha casa. E eu querendo fazer uma chantagem, talvez chorando e tal, então o meu pai falou: "Por que você está chorando?" "O meu amiguinho me bateu." Que eu estava no curso primário, não é nem primário, é infantil, e eu estava achando que meu pai ia me beijar, me abraçar porque eu estava chorando. Qual foi a minha surpresa, levei uma surra! E disse: "Se outra vez que eu te ver chorando, eu te mato." E começou a pancadaria. "Que nunca mais você venha aqui chorando, se tiver qualquer conta com alguém na rua, no colégio, onde quer que seja, trata de acertar, mas nunca chore." A partir desse dia, mudou a minha vida, eu passei a ser um elemento agressivo e a minha briga foi uma constante em tudo que se me cercou e até hoje. Apenas, eu dou graças a Deus que um dia eu encontrei o caminho da vida, o professor Pedro Voz, do Ginásio Oswaldo Cruz, que ao invés de me expulsar mudou totalmente a minha filosofia, a minha psicologia, porque ele achou que eu era um santo. E eu imaginando que ele era um bobo, mas pra acertar o conceito dele eu comecei a me moderar, o meu comportamento. Às vezes, a minha senhora me diz que eu devia ser padre tanta a mudança que teve na minha vida.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

O armênio daquelas regiões todas buscava uma sobrevivência! Até no inferno que fosse, do mundo, mas que pudesse sobreviver. E talvez se convenceram que eu não sei porque da decisão deles de vir ao Brasil, à América. Onde imaginando eles que depois de um espaço, de um tempo, fizesse uma América, a fortuna e voltasse àquela Armênia pra onde nem eu jamais aos 74 anos de idade tive oportunidade de voltar. Só posso voltar um dia a um passeio porque a minha vida felizmente está alicerçada, plantada, tem as raízes neste país.

VIAGEM DE NAVIO

Não tinha naquela ocasião, na década de 20, nenhum porto onde o navio pudesse se atracar. O navio ficava ao longo do largo do oceano e os passageiros haviam que ser transportados através de grandes barcos onde levavam aproximadamente 50 passageiros por vez até o navio. E era um navio preto, alto, eu nunca tinha visto um navio, e tinha uma escadaria de ferro até as águas do oceano. Então, meu saudoso pai pegou as minhas mãos, me pôs primeiro na escadaria de ferro que havia que subir até o navio. Qual não foi o meu susto uma hora quando o meu pé escorregou daquela escada e eu fiquei um peixe na mão dele. Felizmente, depois embarcamos. Mas durante a trajetória deste barco que nos levou até o navio, havia um grande número de imigrantes armênios que viemos juntos no Navio Guarujá. Eles tinham aquele alaúde e cantavam, cujas músicas ainda se me entoam ao ouvido. E por aí e sempre eu fui envolvido pela música, pela arte, porque a minha saudosa mãe que havia que costurar roupas me colocava diante da máquina dela, de costura, me ensinando a tocar bandolim, e ensinando a cantar músicas sacras.

INFÂNCIA

Quando eu nasci minha mãe pediu pro meu pai suplicando que o meu nome fosse Nichian, que é o nome do meu avô materno. A minha mãe estava preocupada porque todo nome Davi para ela parece que o menino morria, ela tinha essa impressão. Qual não foi o acontecido que a minha tia contou que um dia eu estava à morte e que estavam providenciando o meu sepultamento, nesta noite a minha mãe ficou a noite inteirinha suplicando, chorando a Deus que: "Se desse a este menino a vida, eu a entregarei à Igreja Armênia." Eu não sabia, eu soube disso quase aos meus 70 anos. E daí a minha mãe todo domingo me levava a Igreja Armênia, na Rua Florêncio de Abreu, uma concessão do casal Ryskallah Jorge. Ele deu aos armênios a oportunidade de ter a primeira igreja, que eu comecei a frequentar aos meus seis anos e aprendi toda a música sacra, para o orgulho e satisfação da minha mãe, que nunca me contou o porquê. Assim foi que começou a minha introdução na Igreja Católica Apostólica Armênia, do qual fui um servo até os meus 24 anos de idade. Depois de casado, entendi eu, que eu nunca mato ninguém, não roubo ninguém, que pecado que eu tenho pra todo domingo ir à igreja? Sem saber do pecado que eu estava fazendo porque não sabia da história até então.

VIDA NO BRASIL

Naquele tempo o imigrante armênio, e imagino que todos os imigrantes, alugavam uma casa e em cada aposento desta casa morava uma família, com filhos e tudo. Cada senhora, mãe de cada família, tinha um fogãozinho feito de lata de água ou lata de azeite com tijolos, pra acender o carvão e fazer a comida, fazer o café, fazer o leite. Cada senhora tinha seu fogãozinho particular. Cada família ordenadamente havia que usar o toilette, os banheiros que era um só pra cinco, quatro, às vezes, até pra seis famílias. E assim começamos uma vida onde toda noite e toda manhã havíamos que rezar e agradecer a Deus. E que hoje, com tanta saudade e felicidade, eu me lembro como era feliz aquela vida porque os nossos pais estavam muito felizes rodeando com alegria os filhinhos porque estavam vivendo num país fraterno, amigo e com todas as condições de sobrevivência, com todos os direitos de cidadania. Eu morei em uma fazenda em São Miguel Paulista e depois que eu saí de lá vim morar na Rua da Conceição, onde tinha um senhor sapateiro e aquilo era tudo bosque. Hoje eu estou com o escritório quase em frente daquele local. Esse coitado desse senhor, esse sapateiro, ele nos alugou um aposento. Eu era pequenininho, um dia estava fazendo pipi e a senhora dele abriu a porta do banheirinho. Eu era moleque atrevido, chamei-a de prostituta porque ela abriu a porta. A senhora me deu umas palmadas na bunda. Daí nasceu, infelizmente, uma situação difícil porque o meu pobre pai tinha que arrumar uma outra casa, tinha que mudar e pra mudar ninguém alugava mais casa pra quem tivesse crianças. Então, meu pai encontrou um fabricante de malas, na Rua Santo André, e pediu a ele que se alugasse um aposento pra ele. O senhor perguntou se ele tinha filhos. Ele disse que não e conseguimos mudar. Fomos pra lá, na Rua Senador Queiroz. Nós fomos levados à casa de uma tia porque nós não pudemos ir junto com a mudança porque o locatário também morava lá. Como isso foi num dia de semana, até domingo nós ficamos na casa da tia. No domingo fomos nós e os dois primos pra lá. E qual não foi a surpresa do locatário. Uma surpresa horrível, mas chamou meu pai na segunda-feira e disse: "O senhor não disse que não tinha filhos?" "Mas eu disse que eu não tinha filhos, eu não tenho filhos." "Mas como, e aquela criança?" "É da minha mulher." Assim justificou e ficamos mais por lá durante alguns meses, sempre intimados a mudar. Fomos morar na Rua Anhangabaú, perto da fábrica do meu pai. Lá moramos de 1934 a 1937. Em 1937, nós fomos morar pra Rua São Caetano, 551, onde hoje é uma agência do Bradesco. E lá conheci muita gente das imediações.

ESCOLA ARMÊNIA

A partir do momento que estive na Escola Armênia, nos idos de 1927, 1928, eu conheci uma entidade esportiva do mundo armênio, que preparava o homem armênio para o esporte e para o mundo, para que ele fosse um homem, homem no sentido completo da palavra. Esta foi a primeira sociedade da qual eu fui escoteiro. Posteriormente, eu fui um dos fundadores da Sociedade Juvenil Armênia. Depois eu fui convidado pra ingressar na Sociedade Armênia da Mocidade. Posteriormente, quando esta sociedade também pereceu, aliás, antes do perecimento dessa sociedade também existiu a Sociedade dos Órfãos Maturecidos, Sociedade dos Órfãos Conscientes, já emancipados. Nessa época, eu já era um homem que cantava nos interiores, em rádios, etc., sonhei e aspirei que existisse a música armênia no rádio, que não havia! E foi uma luta tremenda, até que se conseguiu que foi uma realidade. Depois dessa sociedade, eu fundei a Sociedade Recreativa e Cultural, depois fui fundador da Sociedade Brasil-Armênia, participei na fundação da União Geral Armênia de Beneficência, é uma entidade que se fundou durante a Primeira Guerra Mundial para que se cuidasse de todos os órfãos, de todas as entidades, de todas as necessidades que se fizessem ao longo dos tempos pela gente remanescente daquela tragédia toda que assolou a milhão e meio de almas. Fui dos fundadores da Associação Nacional dos Juízes Classistas do Brasil. Hoje, sou convidado, e faço parte uma chapa que será sufragado semana que vem, mas eu nada sei. Foi por aí que eu participei de todas as sociedades Armênias de São Paulo e do Brasil, quiçá. Esta é uma pequena pincelada a respeito de tudo isso. Hoje eu tenho um grande orgulho de saber que felizmente com tanto sacrifício fui fundador da Sociedade Artística Melodias Armênias.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

A Rua São Caetano nessa época era uma rua estreita, tinha trilho de bonde e era cheio de lojas pobres. Em 1944, eu me casei e saí daquela casa, fui morar num apartamento, sem poder até. Em 1948, eu fui despejado dessa casa por não poder mais pagar o aluguel. E no dia do despejo comecei a xingar a Deus, perguntando o que que ele queria de mim, com os meus móveis na calçada. Aí, estava sentado numa meditação profunda, um córrego passava pela calçada, sarjeta, e eu perguntei a mim: "Mas você quem é, seu Nichian? Você é um bobo." Eu já era formado em Ciências e Letras pelo Ginásio Oswaldo Cruz, trazia comigo o orgulho no peito de ser um cidadão formado em ginásio, que era raro. Mas, eu era artista, já tinha trabalhado em filme brasileiro, da Edson Filmes do Brasil, na Rua José Bonifácio. Eu já tinha fundado a Sociedade Artística Melodias Armênias, eu já tinha sido radialista, ator, cantor, mas a minha vida não vencia porque eu não sabia viver dentro das minhas circunstâncias. Eu estava parecendo o nosso governo do Brasil nos últimos tempos, que gastava muito mais do que ganhava. Não me enquadrava dentro das minhas condições. Queria viver com os milionários, e os milionários me faziam pagar as contas. A partir de quando eu entendi que eu era um cara qualquer, um bobo, que eu não era nenhuma expressão humana, aprendi a coordenar e administrar o meu bolso dentro das minhas possibilidades, passando a viver uma vida pacata dentro dos recursos permitidos. Daí pra frente a minha vida começou a mudar. Estou lutando até hoje, correndo, correndo sem olhar pra trás.

EDUCAÇÃO

A primeira escola minha foi Prudente de Morais. Uma das passagens jamais esquecíveis por mim foi quando a um 14 de novembro, devia ser de 1928, se adentrou à sala o inspetor Casimiro. Na minha família, ninguém sabia dizer um vocábulo português, só se falava armênio porque não tinha como falar outro idioma. E os meus pais se comunicavam por gesticulações, e de repente o inspetor entra na sala, todo mundo de pé naquele tempo, e em cada aula não tinha senão meninos ou meninas, não eram salas mistas. Ele entrou, mandou sentar e eu infeliz de vergonha do meu nome Nichan, que sempre era qualificado de turco e todo dia quebrava o pau na escola, na saída. Nesse dia, não sei porque, pus meu nome de Alexandre. Olha que bronca eu arrumei na minha vida. Alexandre! Era o primeiro aluno da lista! O inspetor se adentrou, pegou a lista na mão, perguntou pela professora dona Ercília que aula era, se era aula de História do Brasil. Ela confirmou. Voltou a ver a lista e falou: "Quem é Alexandre?" Opa, de pé, mas eu estou tremendo, mas eu nem falo bem português, falo só xingação. Disse: "Meu filho, quem foi Rui Barbosa?" Mas meu Deus, o que sei eu? Estou de pé, falei: "Rui Barboso..." Quá, caiu a classe, pela pronúncia. Eu olhei pra trás pra marcar quem estava rindo. Quando eu voltei, a professora estava rindo e o inspetor também. Então, eu devo ter pisado na bola! Eu falei: "Rui Barboso, era uma homem barbudo." Falou: "Está bom meu filho, está muito bom, pode sentar." Isso foi uma luta tremenda [aprender português] e a cada noite o maior amor eu dediquei pra aprender numa pressa incessante de buscar a necessidade de poder ser eloquente. Porque eu tive uma professora, a dona Nair, que graças ao amor que a ela teve, eu tive um caderno de cem páginas com nota dez de caligrafia. E eu estou pronto pra escrever a caligrafia pro mundo ver como é que se escreve o português, com modéstia e humildade sempre. Na Escola Armênia eu tive a ousadia um dia de xingar as maiores blasfêmias pra um professor-diretor e esse me espancou, tal, me rolou duas escadas, os dois lances de escada. Quando eu fui parar lá baixo, comecei tudo de novo, a xingação. Aí não teve outra alternativa porque eu era um diabo. Eu tinha que ser expulso! Isso não é procedente, não é uma coisa normal, eles tinham razão. Meu pai era membro da escola, era membro da igreja e teve que ter o dissabor de ver o seu filho expulso e muito bem feito. Na época, toda manhã na saída da escola eu voltava lá pra bater pras crianças. Um dia, pra escapar das garras do tal diretor saí correndo, era uma rua estreita a Avenida Senador Queiroz, onde tinha um depósito de ferro velho. Naquela época tinha uns caminhões da CGT, aqueles caminhões enormes. Pra escapar das garras daquele diretor, que se me pega me bate, eu passei entre as duas rodas em movimento de um caminhão da CGT, na época. E não fui atropelado! Eu era o menino sempre que tinha a medalha das corridas, sempre.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Eu estudava e trabalhava. Estudava e viajava. Eu viajava já pelo Brasil todo em busca do pão da família, porque o único gato que o meu pai tinha pra caçar, nem cachorro tinha, era gato, era eu. E ele me colocou na estrada da vida. [Eu trabalhava na fábrica] do meu pai, na Rua Anhangabaú. Eu quebrava as máquinas porque quando os operários saíam para o almoço eu queria trabalhar nas máquinas, mas eu não sabia. Um dia havia uma máquina de pontear que é aquela que costura o sapato, era uma máquina de procedência alemã composta de mais de 500 peças, depois eu dominava totalmente essas máquinas. Durante o almoço a fábrica fechava, eu ficava escondido, todo mundo imaginando que a fábrica estava fechada, mas eu estava lá dentro, e peguei essa máquina, quis costurar um sapato. Aquilo deu uma explosão infernal! Eu levei um susto desgraçado sem saber o que fazer, porque eu estava dentro da fábrica, a fábrica estava fechada, eu não tinha como sair. Esperei até a fábrica abrir. Eu estava escondido e quando a fábrica abriu, eu saí do banheiro lá do fundo, cheguei e sentei numa máquina de escrever. Era Remington, que meu pai comprou por 20 mil réis pra eu aprender a escrever. Aí chega o italiano que era o ponteador mais famoso, que quando as máquinas quebravam, da colônia armênia, eles chamavam pra consertar. Naquele tempo, o empregado havia que conhecer a máquina pra poder trabalhar e eles trabalhavam por produção. Então, o cidadão chega, a máquina arrebentada, um sapato na máquina. Ficou louco: "Mas diabo, pomarola, porcadio." E xingou a Nossa Senhora e xingou tanto, gente, e começou a brigar com todo mundo lá pra saber quem foi que fez aquilo. E eu lá, na distância ouvindo quieto feito um gato, safado, nunca souberam quem fez aquilo de verdade. Larguei da máquina de escrever, porque ele tinha que dar um jeito na máquina senão não ia ganhar o dia. Sei que no futuro quando eu fui representante de alguma fábrica de calçados, do saudoso Samuel Asdurian, um dia teve greve na fábrica e o pessoal começaram a arruinar todas as máquinas e eu tinha vendido horrores, mas nessa situação a fábrica não ia poder entregar as mercadorias pro fim de ano, eu não podia sofrer esse desgaste, porque não entregar mercadoria no fim do ano pra um comerciante que está esperando o que se lhe comprou, e prejuízo de outros que ele deixou de comprar, você sentenciou a sua morte como representante. Eu não tive outra alternativa, tive que colocar a mão nas máquinas e o pobre Samuel estava assustadíssimo sem saber: "Pelo amor de Deus, já está tudo encrencado aqui, mas você entende alguma coisa disso?". Eu falei: "Vamos até a Rua Anhangabaú", no Duarte Callado que vendia peças de máquinas. Chegamos lá e eu pedi: "Me dá uma garganta da máquina de grampear, me dá um martelo, me dá uma faca." Pegamos, voltamos pra fábrica, desmontei aquilo tudo, montei e comecei a trabalhar. E ele ficou todo feliz: "Mas como você conhece tudo isso?" Digo: "Devo tudo isso ao meu pai." Estava conversando com ele no escritório e eu vejo o montador pegando nas chaves pra mexer nas peças. Saí correndo, abandonei o papo com ele: "Olha, o senhor não me mexa em nada." "Ah, mas queria regular." Eu disse: "O senhor não precisa regular nada." Dei um reaperto nas peças de novo, peguei as chaves da máquina, trouxe para o escritório, e falei pro Samuel: "Você me tranca isso aqui e não me dá pra ninguém, eu vou estar aqui..." Porque eu não tinha mais como trabalhar, toda a produção estava vendida, então, eu fiquei tomando conta da fábrica. No dia seguinte, peguei a máquina de pontear, desmontei tudo, montei de novo, porque os homens tinham mudado as galerias – mudar uma galeria desarranja tudo. E assim eu fiquei até o fim do ano, toda a manhã o Samuel passava na minha casa, me apanhava e eu ia pra fábrica, fiquei até a última entrega dos pedidos, das encomendas. E essa foi umas façanhas de 1950 ou 51, não me lembro.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FÁBRICAS DE CALÇADOS

Eu representei Fábrica de Calçados Murad, dos Irmãos Muradian, representei Calçados Santa Maria, da família Luciano e muitas outras. Eu normalmente vendia na capital. Onde eu fui preparado, lapidado de ser um homem diabólico que sou porque cada cliente que eu chegasse ele tinha aprontado uma pra mim. Esse foi o meu maior exercício durante 30 anos. Um dia um dos clientes me fez um clamor, um suplício. Disse-me: "Nichan, pelo amor de Deus, quando é que eu vou me livrar de você?" Porque se eu estivesse num freguês ou ele comprava... Eu respondi pra ele: "Pra você se livrar de mim tem três condições: ou você compra, já fica livre, se você realmente não quiser comprar, você pode se suicidar, aí eu não vendo pra defunto, se você não tem coragem de se suicidar... Manda me matar. Mas se você me mandar matar não tenha dúvida que eu vou te esperar lá no São Pedro, quando você chegar lá um dia, vai ser muito rápido porque cem anos lá passa muito rápido, você vai ficar numa fila pra entrar no paraíso. Aí você vai ver um grande anjo de roupa branca, fazendo a seleção das pessoas, quem vai pro inferno e quem vai pro paraíso, e no meio da fila vai aparecer o anjo guarda e você vai dizer: quem é aquele que tá lá na mesa? Aquele é um tal de Nichan, ele é o chefe aqui. Aí ele não teve outra alternativa, teve que comprar e nós fomos almoçar.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – A FÁBRICA DE SAPATOS

Em 1967, tive a ousadia de levar o meu filho Ricardo comigo a uma das fábricas que me solicitou, que tinha mais de 10 mil pares de estoque, que é muito estoque na época para ser colocado. Os filhos do proprietário eram todos crianças naquele tempo e ele me pediu por favor de colocar esse estoque, o que eu me propus a ajudar. Quando cheguei lá, me doeu o coração pelo preço que ele me deu, porque ele estava perdendo muito dinheiro, eu conheço o ramo. Resolvi de repente ir colocando esse produto a um preço muito insignificante, mas a dor do coração me fez com que eu fosse à fábrica de formas e pedisse a eles pra me ajudarem a fazer uma nova forma e aqueles cortes, aquele material ser colocado numa forma que fosse aceito pelo público. E de repente, no dia em que levei o meu filho comigo pra fazer uma visita, pela vez primeira, a fábrica estava entregando as formas. Qual não foi a minha infelicidade que ao me adentrar na fábrica o dono começou a me xingar horrivelmente. Nós éramos grandes amigos, ele me ajudou muito no tempo que eu passava a lágrima e fome, o que aconteceu? Nessa discussão, o meu filho Ricardo disse assim: "Pai, o senhor é bobo." Digo: "Por que, meu filho?", "Qual é a moral dessa história que o senhor faz modelo, faz forma, faz blé, blé, blé..." Falei: "Mas ele é meu amigo, entre nós cabe qualquer..." "Como seu amigo?" Eu falei: "Eu compro a fábrica dele" "Como o senhor compra a fábrica dele e é empregado dele?" Essa palavra se me gravou e me transformou num homem congelado. Não tive mais condições de vender nada, "o senhor empregado", e a consciência, o cérebro começou a girar. Mas não se me restou alternativa nem possibilidade de pegar em uma mala de amostras, de repente, chega o despejo de um armazém que eu tinha na Rua Cachoeira, naqueles dias resolvi colocar lá uma fábrica de calçados e assim aconteceu. Tantos me pediram, suplicaram que eu não fizesse isso porque eu era homem pra vender milhares de pares de sapatos. "Como é que você vai fabricar quantos pares aqui? Você não tem recurso." Eu falei: "Eu vou fabricar dez pares, 20 pares, mas vou fabricar." Todo mundo achou que eu era louco. E um dos grandes amigos meus, de saudosa memória, disse assim: "Você é um bobo, porque você não sabe das tragédias, das convulsões, das dificuldades que você vai encontrar como empresário." O que é verdade, e é até hoje essa verdade. Eu falei: "Eu estou procurando o maior dos infernos pra encontrar lá o maior diabo, que eu quero acertar a minha vida com ele, eu não tenho medo." Não levou dois meses e eu estava atolado, perdido, arrebentado. Um sábado, eu fugindo do mundo, fui pra fábrica já resolvido a abandonar esta fábrica, insuportável diante do comportamento de tantas coisas que eu não tinha mais como suportar. Eu estava totalmente revoltado e inconformado e as lágrimas se me rolaram. Estou sozinho dentro daquela fábrica no escritório, num plano superior, e de repente se me desfila a imagem daqueles homens que tanto me suplicaram pra que eu não me metesse aí e das respostas que eu lhes dei. Então, a moral me revoltou e disse-me: "Você rapaz, seu covarde, seu ingrato, que a ninguém ouviste e a eles respondeste que você queria o maior dos infernos pra encontrar o maior diabo do mundo, que você não tinha medo, como é que fica agora, seu safado, covarde, como é que você vai falar com eles agora, porque que você falou muito?" Hoje, me preservo a falar. Aí as lágrimas continuaram. "Agora você resolva: ou você morre ou você vence. Se você morrer, morre como homem e se você vencer também serás um homem, pra nunca mais você dar uma de bom. Pode morrer." Saí de lá feito um gato, sem moral, sem ânimo. Busquei o domingo que era o dia seguinte pra poder me recompor. E humilhado diante de mim mesmo às 7 horas da manhã estava naquela fábrica na segunda-feira. A luta continuou

NAMORO E CASAMENTO

Eu estava dormindo numa noite e havia um casamento no nosso vizinho. Meu pai, como foi um homem sempre de muitas relações e amizades, não tinha vontade de ir a este casamento. Então, me tirou da cama na marra pra ir ao casamento, eu e minha irmã Maria, indo lhe representando e representando a família. De repente, lá chegando eu vi uma jovem com uma roupa estampada amarela, parecia um sol, mas não sabia quem era porque era difícil eu não conhecer algum armênio. Até hoje, se me derem o sobrenome eu direi quem é o pai, quem é o avô, digo tudo. Aí eu chamei a Maria, digo: "Quem é aquela menina lá?" Minha irmã diz: "Não sei." "Então, procura saber quem é." Era a filha de um dos homens mais conhecidos e até por mim porque poucos imigrantes passaram por São Paulo que um dia não tiveram que ser acolhido, endossado, ajudado pelo meu sogro. "Mas como, é filha do senhor Astur?" "É, me informaram assim." Eu nunca tinha visto ela e não havia lar que eu não tivesse me adentrado como precursor, fundador do Sama, e que eu precisava buscar apoio de todos os armênios pra instituir o programa da Sociedade Artística Melodias Armênias, o qual foi fundado na Rádio Cruzeiro do Sul, entoando as músicas armênias a 15 de agosto de 1942, às 14 horas, num domingo que eu não pude estar presente porque estava numa fazenda gravando um filme da Edson Filmes do Brasil. Eu era um homem conhecidíssimo e conhecia todas as famílias. Não sei qual foi a ironia do destino que eu não conheci a Adele. Quando soube de quem era filha, fiquei feliz. Naquele tempo nenhuma moça podia dançar sem a outorga, sem a autorização do pai ou da mãe. Fui lá, pedi licença, pedi a ela pra dançar. Eu estava dançando com ela, ela estava com o sanduíche na mão e estava com o sanduíche no meu ombro. Quando eu vi, eu mordi o sanduíche dela. Não soube, no dia, que ela tinha jogado fora esse sanduíche que eu tinha mordido. (risos) Assim foi, mas eu com muito cuidado porque já tinha pedido quatro moças em casamento e não deu certo. Eu tinha uma honrabilidade e amor próprio, entendi que dessa vez ia mais devagar ao pote pra não quebrar. Falei pro pai, meu sogro, que eu ia fundar um novo programa de músicas e precisava de uma pianista, se ele permitia que eu fosse com a minha irmã à casa dele pra fazer os ensaios, no que se me concedeu. Olha que safado, hein? Que ia arrumar um novo programa, que ia fazer ensaios, se eu podia ir lá com a minha irmã. Naturalmente, ele concedeu. Mas a minha intenção era outra, fui lá, fiz o ensaio, conheci a família. Acabei me casando com ela. Me casei com essa moça a 11 de novembro de 1944, ficando seis anos sem ter um filho, louco, louco pra ter um filho na vida, mas sempre quieto.

FAMÍLIA

Meus cunhados, minhas cunhadas, e tudo mais, todos os descendentes do meu sogro moram no meu coração, porque um homem na minha idade não pode guardar nem mágoas nem ressentimentos nem pode deixar de adorar qualquer criatura humana. Quanto mais daqueles que um dia tirando do seu seio, me entregaram uma menina aos seus 18 anos. SONHOS O meu maior sonho e suplício a Deus, que me coloque nos caminhos da ONU para que lá eu possa com a sabedoria do Pai, com a serenidade que Ele possa me dar, colocar à mesa a situação de um país que se chama Armênia, e simultaneamente também de um outro, que se chama Brasil. Para que seja traduzido em todos os idiomas o meu pronunciamento sobre a Armênia, os seus direitos esquecidos, de tantos massacres e de tantos patrimônios que foram engolidos. E também pra colocar no seu lugar devido, merecido, honrado e divino, porque Deus é Brasil, e Brasil é o sentimento da divindade, do Pai Eterno.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA

Foi um dos momentos mais sublimes de toda a minha vida. Se tudo isso que eu narrei eu tivesse que ir à rua e gritar aos ventos, dizendo que eu sou tudo isso, talvez alguém tivesse que me recolher pra levar num manicômio porque eu devia ser um louco. Vocês é que me deram a oportunidade de viver esses momentos dos mais sublimes da minha existência e que eu jamais me cansaria de ficar cinco dias, dez meses com vocês pra falar de tantas coisas que trago na aprendizagem da vida ao longo dos 74 anos.

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