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História

Viva memória de Itaquera

História de: Magdalena Pellicci Monteiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/08/2003

Sinopse

A história de Magdalena se inicia com a trajetória dos familiares que emigraram da Itália para o Brasil. Recorda momentos difíceis pelos quais passaram, tanto lá como aqui, durante conflitos como a Primeira Guerra, a Revolução de 1932 e a Segunda Guerra Mundial. Conta sobre o relacionamento entre as colônias de imigrantes e como a família se estabeleceu no bairro de Itaquera, onde ela sempre viveu. Magdalena evoca lembranças do cotidiano na chácara e na Pedraria União, do lazer e da mocidade, e das principais transformações no bairro, que ela acompanhou bem de perto. Itaquerense de coração, diz como se envolveu com projetos sociais e tornou-se defensora da memória de Itaquera.  

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História completa

P/1 - Dona Magdalena, para começar a entrevista eu gostaria que a senhora falasse para a gente seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Magdalena Pellicci Monteiro, moro aqui na Cidade Líder, Itaquera. Tenho sessenta e cinco anos e minha vida toda foi aqui na região.

 

P/1 - Em que dia a senhora nasceu?

 

R - Dia 31 de março de 1935.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - Orlando Pellicci e Cassinda Pucci Pellicci, italianos.

 

P/1 - Ah, eles nasceram na Itália.

 

R - Nasceram na Itália.

 

P/1 - A senhora sabe onde?

 

R - Em Pietrabuona, província de Pisa, Itália. Meu irmão Remo Pellicci, ele nasceu mesmo na Itália, veio com um ano e meio.

 

P/1 - Ah, é? E eram só vocês dois de filhos ou mais filhos?

 

R - Nós somos em seis irmãos, três homens e três mulheres.

 

P/1 - E os outros nasceram todos aqui?

 

R - Aqui no Brasil.

 

P/1 - Qual o nome dos outros irmãos da senhora?

 

R - O Remo, que nasceu na Itália, né, depois tem a minha irmã Maria, a Brasilina, o Adelindo e o Pedro e eu, três homem e três mulheres.

 

P/1 E a senhora sabe a origem da sua família?  Onde seus avós moravam e o nome deles...

 

R - Tem o nome dos meus avós, mas são todos da Itália, aqui no Brasil só tem a minha mãe e meu pai mesmo, tenho uma tia, que veio antes, que deu a carta de chamada para o meu pai não vir como imigrante, né? Porque papai fez a guerra de 1914, então ele ficou seis anos na guerra e quando terminou a guerra, a Itália estava arrasada, né? Então ele veio como imigrante, mas com carta de chamada, né, então é diferente do imigrante que passa pela imigração daqui de São Paulo. Ele, minha tia, que era a tia Macela, que era a única que estava aqui no Brasil. E aí meus pais não tiveram mais força de voltar e ficamos aqui em Itaquera, né, e fizemos nossa vida aqui.

 

P/1 - Em que ano seu pai chegou, a senhora sabe?

 

R - 1922.

 

P/1 - Vamos falar o nome dos seus avós.

 

R - Meus avós é...

 

P/1 - Paternos.

 

R - Da Itália, né?

 

P/1 - É.

 

R - Seus nomes.

 

P/1 - Seus nomes.

 

R - Era Maria, Pedro, é... Madalena... me passou um pouco da mente é o nome do pai da minha mãe, agora, né?

 

P/1 - Não tem problema não. Mas eles eram todos da mesma região?

 

R - Todos, todos da região da Itália.

 

P/1 - De qual região?

 

R - Pietrabuona.

 

P/1 - Ah, todos de lá.

 

R - É, da Itália.

 

P/1 - Certo. E aí seu pai e sua mãe chegaram aqui já com um filho.

 

R - É, de um ano e meio.

 

P/1 - O irmão mais velho?

 

R - O irmão mais velho.

 

P/1 E eles se estabeleceram onde?

 

R - Aqui perto, em Perus. Depois vieram aqui para Itaquera e ficaram aqui, que era uma fazenda, né, então começou com pedreira, uma pequena pedreira, depois vieram dois irmãos que compraram a pedreira, meu pai era administrador e minha mãe trabalhava como escriturária. Crescemos todos na região aqui da Pedreira União.

 

P/1 - A senhora nasceu aqui no bairro?

 

R - É, eu nasci em Perus e vim para cá com dias.

 

P/1 - Com dias?

 

R - É, e vivi uma vida inteira aqui.

 

P/1 - E lá em Perus qual era a atividade do seu pai?

 

R - Quando ele veio, ele veio como contratado imigrante, né, imigrante chamado, mas mesmo como imigrante, logo começou a trabalhar numa indústria de cimento, que era perto né, e depois ele veio embora para Itaquera e ficou aqui, mas foi pouco tempo que ele ficou em Perus, o resto do tempo mesmo ficou todo aqui em Itaquera.

 

P/1 - Certo.

 

P/2 - Ele conheceu sua mãe lá?

 

R - Minha mãe? Eles se casaram na Itália, né, minha mãe já veio com filho, se casaram na Itália, meu pai veio antes e depois mandou buscar minha mãe com meu irmão.

 

P/2 - E a atividade da sua mãe qual era?

 

R - Minha mãe trabalhava no escritório da pedreira aqui, na Itália era só estudante, né, vida dura da Itália, né, porque estava em época de guerra, então eles sofreram demais.

 

P/1 - O que os seus pais contavam?

 

R - Sofrimento, sofrimento, porque vocês sabiam, meu pai jovem, cheio de vida saiu em grupo de um alvo, né, assim, todos colegas, mais de vinte saíram do país deles e foram para a fronteira e ficaram seis anos.  Foi a pior guerra, guerra de 1914 foi a pior guerra, e depois ele também, como foi um dos combatentes pioneiros, ele conseguiu salvar a parte, como se diz, a parte da luta que eles estavam combatendo que até hoje nós temos uma cruz que ele recebeu da Itália, como um combatente que enfrentou a guerra praticamente sozinho numa parte em que morreram todos, ficou ele e mais dois mutilados. Então são histórias muito tristes do meu pai, meu pai tinha muito sofrimento, muita dor. Depois que ele veio embora, aí a Itália ficou melhor, mas ele teve que vir embora, senão passavam fome, né? Então eles vieram para cá com a intenção de buscar todos os meus tios, chamar a família inteira, né, nem eles aqui tiveram força e nem lá de virem para cá. Quando ele chegou aqui, logo pegou a Revolução aqui, né, de uns tempinhos já pegou a Revolução de 1932 e foi uns tempinhos assim, só sofrimento, mas tem partes alegres também. Meu pai era um homem alegre, para ele não tinha tempo ruim, todas as...

 

P/2 - Ele participou da Revolução de 1932?

 

R - Não, aqui já não. Porque ele era estrangeiro, então estrangeiro não podia. Porque a história de sofrimento, eu acho que muita gente da colônia vai contar para vocês também, sobre uma parte do sofrimento, né, dos imigrantes que estavam aqui no Brasil. Houve uma época em que eles chamavam de quinta coluna, né, os estrangeiros, né, então muitas vezes meu pai pegava o trem no Brás, descia em Alvim, depois andava seis quilômetros para chegar em casa e muitas vezes, tanto o meu pai, como o senhor Bassi, que vocês vão ter a oportunidade de conhecer, e o senhor Joca,  de quem vocês comentaram, eram obrigados a descer do trem e vir a pé, no tempo da Revolução.

 

P/1 - Por que eram imigrantes?

 

R - Eles eram estrangeiros, então italianos, japoneses, eles tiveram uma parte de sofrimento também nessa virada, né? Mas o meu pai conseguiu levantar e criar os filhos.

 

P/1 - O pai da senhora se naturalizou brasileiro ou não?

 

R - Não, não, mesmo meu irmão mais velho também não foi naturalizado brasileiro, senão ele tinha que voltar para servir o exército.

 

P/1 - E tinha que descer lá em Artur Alvim porque aqui tinha uma fiscalização, é isso?

 

R - Não, descia em Alvim porque era a estação mais perto para chegar em casa.

 

P/1 - Ah, é, não era a estação aqui de Itaquera?

 

R - Itaquera, Itaquera ficava um pouco mais longe, então ele descia em Alvim, depois ia para casa a pé, seis quilômetros, porque ele era administrador da pedreira, mas ele tinha que vender a pedra, né? Então um dia sim, um dia não ele ia na Sé, se encontravam ali no Largo do Café. Então eles se encontrava ali para vender as pedras, um dia sim, um dia não ele pegava o trem para ir fazer esse trabalho. É uma vida árdua, né?

 

P/2 - E ele veio da Itália assim com esse emprego garantido?

 

R - Não, não, que quando vem imigrante vem, ele não sabe o que vai pegar aqui, né? Quando descia na imigração então eles levavam para as fazendas, para os cafezais, pedreiras também, só que ele não passou na imigração, certo?

 

P/2 - Ele não foi daquele imigrante típico assim de...

 

R - Que ficasse hospedado.

 

P/2 - Uma noite lá, depois vai para a colônia, né?

 

R - Porque aí então ficaria o nome dele, né, e eu estive lá na imigração e não encontrei nome nem do meu nonno, porque ele veio em 1800 e... antes do meu pai nascer ainda. Então ele trabalhava fazendo a estrada Santos-Jundiaí, estrada de ferro Santos-Jundiaí.

 

P/1 - Conta essa história para a gente, dona Magdalena, do seu avô. Paterno?

 

R - É, pai do meu pai. Então ele trabalhou na estrada, ele veio como imigrante. Então estavam construindo na época a ferrovia de Santos-Jundiaí, então ele trabalhava fazendo aqueles dormentes como eram chamados, né? E ele, inclusive, no último ano em que estava aqui, perdeu uma vista num espinho da onde eles abriam, faziam as picadas, como é que se diz, a abertura das matas para poder descer na serra, né. Vocês nunca foram de trem para Santos?

 

P/1 - Não, eu nunca fiz essa viagem.

 

R - Então nosso passeio de domingo era por aquela estrada, então porque meu nonno ajudou, meu avô.

 

P/1 - A estrada que seu avô construiu?

 

R - Isso. E depois ele teve que voltar, porque perdeu uma vista. Então ele já ficou praticamente inutilizado. Ele teve que voltar para a Itália, aí ele não veio mais para cá. Aí veio a minha tia primeiro, depois veio meu pai, mas já muito depois, né, muitos anos depois. E essa estrada de ferro, que tinha de Santos-Jundiaí, quando nós íamos para a praia era a única condução, então meus pais levavam a gente, pegava o trem no Brás, né, (riso) que saudade disso. (riso)

 

P/1 - Como é que era? Vocês iam final de semana?

 

R - É, no domingo de manhã e voltávamos à noite.

 

P/1 - Saíam de onde?

 

R - Nós íamos da minha casa, eu morava aqui no sítio da pedreira, né, e nós íamos até Carrão e do Carrão tinha ônibus até o Brás e aí nós pegávamos o trem e descíamos para praia e à tarde a gente voltava. Lá tinha o bonde, na estação mesmo tinha o bonde que levava a gente até a praia e depois...

 

P/1 - Lá em Santos?

 

R - Em Santos, em Gonzaga, São Vicente, aquelas praias onde o bonde passava.

 

P/1 - Isso em que ano, que época?

 

R - Mais ou menos, é porque é 1950, né? É, porque nós éramos pequenas ainda, nós, nos passeios, saíamos com meu pai, antes também, em 1945, né, então nós fazíamos essa viagem.

 

P/1 - E a mãe da senhora também ia?

 

R - Ia, nós íamos todos juntos, porque a minha família era toda assim, muito unida, até hoje nós estamos unidos demais, sabe. Nos encontros que nós temos, nós levamos ainda a tradição dos meus pais, sabe, respeitamos a tradição dos meus pais, no dia 19 de março que é dia de São José. Ele tinha uma tradição na Itália, nós até hoje fazemos o mesmo que ele fazia lá na Itália.

 

P/1 - Como que era essa tradição?

 

R - É assim, é uma tradição, porque é dia de São José, então é uma doação que a gente faz de doces, a gente faz um doce de arroz juntado com ovos e noz-moscada, né, e depois é frito e passado no açúcar com canela. É um bolinho tradicional que a gente dá para todas as pessoas que vêm na casa da gente, até hoje. Tinha a tradição do meu pai na pedreira, quando ele tinha os empregados, era feito assim, minha mãe fazia e deixava todos os empregados comerem nesse dia de São José, uma tradição, né?

 

P/1 - Claro. Que delícia!

 

P/2 - E tinha outras famílias?

 

R - Famílias portuguesas, né, que moravam perto, inclusive, tenho três irmãos casados na mesma família, que são portugueses também que vieram como imigrantes, e aí meus três irmãos casaram na mesma família.

 

P/2 - Eram suas vizinhas?

 

R - Eram vizinhas, é vizinha assim, porque a gente mora em sítio, até o vizinho mais perto tem quilômetro para chegar, né? E esse sítio que meu pai comprou em 1936, ele era uma parte da Fazenda do Carmo, a Fazenda do Carmo era do Bento Pires, né, depois foi dividida em partes, Cidade Líder... é que foi vendido para a Cidade Líder, uma parte, né, e Munhoz, e a outra parte foi vendida para o Oscar Americano, que hoje é o Parque do Carmo que foi passado para a prefeitura.

 

P/2 - Eu sei, foi o Oscar Americano que...

 

R - Fizeram uma fazenda só.

 

P/1 - E a própria Cidade Líder era o quê?

 

R - Era uma fazenda, fazia parte da fazenda.

 

P/1 - A família chamava Munhoz?

 

R - É, Francisco Munhoz.

 

P/1 - Então foi dividida em duas a fazenda.

 

R - Foi dividido não, foi dividido em várias partes, né, Vila Carmosina, Colônia, a fazenda era uma só, vinha de Itaquera até Guaianases, São Miguel.

 

P/1 - Era imensa então?

 

R - Era imensa, a fazenda era imensa, eu tenho a história, de repente vocês podem aproveitar.

 

P/1 - E qual era o nome do proprietário mesmo, dona Magdalena, o nome do proprietário?

 

R - Ah, bem antes do Bento Pires tem outros proprietários, mas o que eu me lembro mesmo foi o Bento Pires, pelas escrituras que meu pai tem ainda, né, as fazendas, essa fazenda era muito grande, você pegando a estrada de Itaquera agora, você vai pegar mais coisa, então você vai...

 

P/1 - Mais detalhes.

 

R - ...detalhes.

 

P/1 - Dona Magdalena e antes do seu pai comprar esse sítio, onde vocês foram morar, qual era a primeira casa em que vocês moraram aqui?

 

R - Era em um pedaço de terra que era da fazenda, né, que unia com a fazenda do Carmo, que era do Santos Giovanini, uma família italiana também, que era dona de um pedaço dessa terra, antes dos irmãos Rigghi comprar.

 

P/1 - A senhora lembra da casa da infância, dessa primeira casa?

 

R - Ah, lembro pouco, porque eu era pequena demais, depois nós fomos morar dentro da casa da pedreira já. E a minha irmã mais nova, a Brasilina, ela nasceu ali dentro da Pedreira União, né, e viveu a vida toda ali, vivemos a vida toda ali

 

P/1 - E quantos anos a senhora tinha quando a senhora foi para lá?

 

R - Para onde?

 

P/1 - Para essa casa aí da pedreira.

 

R - Dentro da pedreira?

 

P/1 - É.

 

R - Para dentro da pedreira? Ah, eu devia ter uns três, quatro aninhos, né, na época em que meu pai foi para logo ser administrador.

 

P/1 - Entendi. E como é que era essa casa, a senhora lembra?

 

R - Ah, era casa, já a primeira casa era de madeira, né, e antigamente as casas por aqui eram todas feitas de madeira, e depois nós fomos para uma casa de alvenaria já para dentro da pedreira, né?

 

P/1 - Ficava do lado da pedreira?

 

R - É, dentro, né, dentro.

 

P/1 - Dentro?

 

R - É, ficava pertinho da onde os operários trabalhavam.  Minha mãe na época dava pensão para os empregados, além de trabalhar no escritório, ela trabalhava, ela dava pensão para os operários da pedreira.

 

P/1 - Como é que era a pensão?

 

R - É assim, minha mãe fazia o almoço, né, e todos os operários vinham almoçar na minha casa.

 

P/1 - E eram muitos?

 

R - Ah, era, sei que mais de vinte, né?

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É, sempre mais de vinte pessoas todo o dia. E nós tínhamos muita amizade com os médicos do Brás, então eles conviviam muito com a gente, né, eles é que faziam a consulta desses operários, porque eles trabalhavam, um dos médicos era irmão da esposa do dono da pedreira, os irmãos Rigghi, né? Então aí foi que começou a melhorar um pouco a vida da gente.

 

P/1 - Por que ele tinha que fazer essas consultas dos operários?

 

R - Não, porque ele era um médico... Então, nós tínhamos muita amizade com ele e com todos os médicos do hospital do Brás. Porque o meu pai, ele era italiano, ele levou aquela tradição, ele fazia o vinho e plantava a uva, quando chegava de tarde, apareciam os médicos para vir tomar o vinho do meu pai e comer o franguinho que minha mãe fazia, (riso) frango com polenta, aquela tradição, né? (riso)

 

P/1 - Mas os médicos vinham consultar os operários?

 

R - Vinham, de vez em quando eles vinham.

 

P/1 - Era comum, era uma rotina?

 

R - É, tipo de rotina, né, mas mais era a amizade que nós tínhamos com eles, né? Então havia uma vivência muito boa com o pessoal da colônia, com todos, várias famílias: a família Bassi, Bertozzi, o senhor Joca, os pais davam muito, então ele tinha plantação de pêssego também, né? Porque a vida da gente, quem mora numa fazenda, principalmente quando tem uma família pobre, é, é do que a gente planta que a gente vive, então meu pai plantava de tudo para nós termos fartura dentro de casa, certo, plantava fruta, verduras, feijão, plantava tudo, né?

 

P/2 - Essa fazenda era dentro da pedreira ou já foi...

 

R - Não, a pedreira é que fazia uma parte dessa fazenda, isso há muitos anos, era uma fazenda só, foram divididas em várias áreas, né. Em uma dessas áreas entrou a pedreira União.

 

P/2 - Dona Magdalena, queria que a senhora descrevesse como que é uma pedreira que eu não sei.

 

R - Olha, a pedreira é uma dádiva de Deus, é uma natureza que você só vendo, porque eu falando para você não vai descrever totalmente o que é uma pedreira, uma natureza, é uma coisa que brota, a pedra está ali no meio da terra, inclusive aqui onde está o Metrô, onde nós estamos agora é uma pedreira, certo, do ladinho aqui é a pedreira Itaquera. Então isso aqui, Itaquera, é só pedra, mesmo onde está a estação, essa pedreira de Itaquera unia com a pedreira União por baixo, então foram as duas desativadas, a pedreira União foi desativada já há muitos anos atrás e a pedreira Itaquera foi desativada agora em novembro. Então a pedra é uma coisa que começa, ela nunca termina, são blocos enormes. Elas são estouradas com dinamite e são levadas para o britador, onde faz o asfalto e tudo com a pedra britada, mas para esse processo tem que trabalhar muito, tem que aprofundar, furar a pedra, estourar para depois o cascalho ir para as máquinas para ser moída, né. Porque toda a pedra é britada, né. Então os caminhões grandes vêm buscar e levar. Mas na época que não tinha os maquinários de hoje, as pedras eram tiradas a muque, à força, com marretas, com o estouro da dinamite também, né, que era obrigado. E esse blocos grandes iam para o Rio de Janeiro, e para ir para o Rio de Janeiro tinha um trole aqui, um trem com vagão, e era empurrado, tipo assim, por escravos, não só escravos, por imigrantes também. Esse vagão era empurrado até Itaquera com a pedra, com aquele peso que era puxado por dragas, que eu vou mostrar uma foto aqui agora, para eu explicar para você, senão você não vai entender. São dragas que tinham muita força com correntes puxadas à mão, essa pedra era suspendida, colocada dentro de um vagão, era empurrada aqui da pedreira de Itaquera até a estação de Itaquera, ali passava para o trem e dali do trem, depois que estava dentro do vagão do trem, ia para o Rio de Janeiro, muitas pedras foram para a Itália daqui da região.

 

P/1 - E eram pedaços grandes?

 

R - Grande, tinha sempre a base de vinte toneladas, entende, a pedra menor que tinha, que eles pediam sempre era de doze a quinze toneladas, uma pedra, né, então era um trabalho difícil e aqui onde nós estamos no Metrô é onde eles carregavam as pedras dentro do vagão para serem levadas até Itaquera. Nós temos várias Igrejas aqui na região, todas foram trabalhadas com pedra de Itaquera, e tem a Igreja São Pedro que tem o altar-mor, que foi o meu pai que fez, o altar mesmo foi feito por um bloco da pedra de Itaquera, da pedreira União. E na época também foi restaurada a igreja catedral, e meu pai foi quem ajudou a fazer os degraus da igreja catedral.

 

P/1 - Então essas pedras tinham várias utilidades?

 

R - Várias utilidades. Para tudo, era revestimento, alicerce, é, muro de arrimo, tudo que você imagina era feito com pedra. Mesmo hoje, né, o asfalto com que você vai fazer? Não é com pedra? O asfalto é todo feito com pedra, só que isso aí já é pedra britada. Então depois começaram a vir os maquinários, começaram a britar, né, veio mais recurso. Mas quando o meu pai era administrador da pedreira de Itaquera, além de ser administrador, ele fazia outras atividades, trabalhava com revestimento na Paulista, na catedral, fazia um calçamento com paralelepípedo. Então era feito tudo de pedra. Antigamente não tinha muito asfalto, era paralelepípedo, então eram calçadas todas, ou lajes com lajotas de pedra, né, todas elas eram calçadas assim. E quando foi aberta aqui a avenida Líder, que hoje é uma das vias principais da nossa região que vai para Cohab, para todos os lugares, eu morava na pedreira, e eu vinha a pé, eu morava lá na pedreira, andava seis quilômetros para ir e seis para voltar, para ir à escola Álvares de Azevedo, que era no centro de Itaquera.

 

P/1 - Ali onde é a regional.

 

R - A administração regional hoje. Então eu andava seis, doze quilômetros por dia para ir à escola e não perdia dia, podia estar chovendo, não tinha calçado, minha mãe fazia de couro, do jeito que desse para a gente chegar até Itaquera, lá a gente trocava, punha um tamanquinho para poder entrar na sala de aula.

 

P/1 - Ah, é? E o sapato sujo...

 

R - É, tirava o sapato e ficava, deixava, porque não tinha nada em Itaquera, não tinha, só tinha essa estrada de Itaquera aqui e era só trilho, depois é que foi aberto. Na época que eu ia para a escola até foi aberta a avenida, começou a abertura da avenida Líder, e era comandada também pelo meu pai, eram sessenta carroças e a terra era carregada nas carroças, não existia trator, essas coisas para a avenida, a abertura da avenida, o começo dela foi feito assim.

 

P/1 - Antes o que tinha lá? Mato?

 

R - Mato, é, mata mesmo. Mata de eucalipto. Então a parte aqui,  nós fazíamos divisa com a Francisco Matarazzo, que era só eucaliptal, né, e a parte aqui da pedreira também era só eucaliptal.

 

P/1 - Por que tem tanto eucalipto aqui, tinha?

 

R - Porque é uma região que dá muito eucalipto. Por quê? Porque tem muita água, porque a região de Itaquera é uma região abençoada, se você pegar a história agora você vai saber porque essa pessoa, Oscar Americano, os compradores da fazenda antiga, eles estavam doentes, então eles vieram para cá para se tratar em Itaquera e acabaram ficando aqui.

 

P/1 - Tem também uma história do ar, não é?

 

R - É, por ser um ar puro, por causa das pedreiras, do ar aqui, a água brotava, nós pegávamos água que brotava dentro das minas da pedra. Então, se você quisesse gelar, na época não tinha muita cerveja, mais era vinho, né, então, se queria fazer um vinho gelado era só pôr num balde e soltar dentro do poço e ficava geladinho. Era assim, minha mãe fazia cerveja também, meu pai fazia vinho assim, o pão, tudo era feito em casa, tudo, não tinha nada que dizia assim “sai correndo para comprar”, né? Então era assim a nossa vida.

 

P/1 - E a senhora estava contando da escola, né, que a senhora andava seis quilômetros ao todo para ir e voltar.

 

R - Doze quilômetros, seis para ir e seis para voltar, né, onde eu morava lá tem seis quilômetros até chegar em Itaquera.

 

P/1 - Quais lembranças a senhora tem da escola Álvares de Azevedo?

 

R - Ah, é muito boa, muito boa! As professoras da época, elas eram rígidas, sem dúvida, mas eu não troco meu quarto ano por muitas faculdades de hoje, né, porque é muito válido, os professores eram dedicados, eles eram rígidos, mas eles eram dedicados, a diretora, dona Claudinha, eu lembro dela até hoje. Minhas professoras eram um amor, entendiam a vida da gente, minha vida era muito sacrificada, porque de manhã a gente saía cedinho, ia entregar leite, que minha mãe tinha criação, nós entregávamos leite aqui embaixo no Rio Verde, é um bairro aqui na Cidade Líder. Eu vinha a cavalo, para trazer o leite, eu vinha a cavalo.

 

P/1 - E era leite de vaca?

 

R - Leite de vaca, minha mãe tirava, engarrafava todos, e fazia aqueles tipo bornal, em que colocava os litros de pé e punha em cima do cavalo, e eu subia em cima, eu e meu irmão, e vínhamos entregar leite todo o dia, depois eu voltava para casa, me aprontava e vinha para a escola.

 

P/1 - Nossa! Que hora a senhora saía para ir entregar o leite?

 

R - Ah, saía cedo, quando eram seis horas da manhã já estava na rua entregando leite, é, tinha que fazer isso, tinha que fazer para sobreviver também, né?

 

P/2 - A escola era mista, homem e mulher ou só mulher?

 

R - Não, houve um tempo que era separado, só meninas e meninos, depois, antes de eu completar o quarto ano aí começou a ser mista, meninos e meninas, mas no começo era só meninas.

 

P/2 - Daqui de Itaquera saíam muitas crianças ou ia só a senhora, a senhora lembra disso ainda?

 

R - Ia eu, meu irmão e mais dois filhos dos portugueses, eles vinham a pé até a minha casa e da minha casa nós íamos juntos, iam em quatro, cinco pessoas. Mas quando passava de ano, no começo tinha tempo da gente vir sozinho para a escola, mas não tinha perigo. Eu nunca passei nenhum aperto na minha vida assim, a vida toda, mesmo quando eu era jovem, eu coordenava grupo de jovens, desde os meus vinte anos eu já tinha aqueles grupos de jovens atuantes, é de respeito...

 

R - ...sabe, de respeito, de muito respeito. E então eu pegava as crianças, eu com as irmãs Marcelinas aqui, a irmã Tarcísia, faleceu há pouco tempo, irmã Maria, então nós passávamos nos acampamentos das pedreiras e pegávamos as crianças, íamos pegando, levando criança, pegávamos às vezes vinte, trinta crianças dos colonos, que trabalhavam na pedreira, levávamos para a igreja e dávamos catecismo, e ajudávamos as crianças no que elas precisavam, às vezes até na alimentação, as irmãs me deram muita força, quando elas começaram aqui no hospital.

 

P/1 - Queria que a senhora contasse um pouco mais dos funcionários da pedreira, como é que eram esses acampamentos? De onde vinham essas pessoas?

 

R - É, tinha muitas que vieram de Minas, outras do Norte, né, mas muitos eram nascidos aqui mesmo. Então não tinha firmas aqui na região, o forte do trabalho aqui na região antigamente eram as pedreiras, sabe, abertura de estradas, que depois começou já a melhorar, mas no começo eram olarias e pedreiras. Então, tinham os funcionários que moravam dentro, era um acampamento assim: era um grupo de casas, né, onde moravam os funcionários da pedreira e das olarias.

 

P/1 - Eram casas de madeira, pau-a-pique, como é que é?

 

R - Não, tinha de madeira, mas tinha mais é de tijolo mesmo, porque era olaria, então com os tijolos, que às vezes não tinham condição de vender, eles construíam as casas, sabe. Os tijolos melhores, logicamente, eram vendidos, e os tijolos que eram assim já mais danificados ou vezes não pegavam cor, quase nem faziam as casas. Sabe, eles não tinham assim, como se diz, fartura, quando eles tinham emprego, eles não tinham assim muita fartura. Eles tinham uma vida pobre, mas com pelo menos um teto para morar, né? Meus pais ajudaram muito, ajudaram muito, maus pais eram italianos, às vezes, faleciam algumas pessoas na pedreira, meus pais faziam de tudo, criavam, sabe, minha mãe criou quatro crianças de cor, sabe, eram italianos, não falavam quase o português. E nós tivemos dificuldade de estudo por não saber falar o português, nós misturávamos muito. Tinham paciência, as professoras e diretoras, com isso, porque nós falávamos quase tudo em italiano. Depois, quando começamos já a crescer e conviver com o povo da pedreira, então começamos a falar mais o português.

 

P/1 - Aconteceram acidentes na pedreira?

 

R - Olha, bem poucos, viu, porque eram muito bem organizados. Eram pessoas, muitas analfabetas, mas eram obedientes. Quando a pessoa é obediente - eu sempre falo para o grupo de jovem - quando a pessoa é obediente, ela tem futuro, certo. Respeitar e ser respeitado e ser obediente. Então, eles eram analfabetos, mas eles eram obedientes, então meu pai explicava para eles o que tinha que ser feito e eles faziam direitinho. Então em toda a minha vivência na pedreira eu vi um acidente, certo?

 

P/1 - Por que teve esse acidente?

 

R - A mina, quando fura, a pedra tem que ser furada em vários lugares para depois colocar a dinamite, a espoleta e o estopim, então eles deixam o estopim bem comprido onde eles acendiam e o fogo ia devagar e explodia as minas, nessa hora todo mundo tinha que se retirar e muitos se esconderem da explosão para estourar a pedra, né, e uma vez houve um acidente com um rapaz. Mas acidentes... quer dizer assim... porque são serviços brutos, serviços pesados, mas eu praticamente não vi acidente, só esse.

 

P/1 - E acontecia de quanto em quanto tempo as explosões?

 

R - Ah, isso tinha que fazer todo dia.

 

P/1 - Todo dia?

 

R- Todo dia tinha que explodir a pedreira, explodia pedra todos os dias, todos os dias tinha que ter.

 

P/1 - E acontecia mais de uma vez por dia?

 

R - Não, era apenas uma vez por dia. Era naquele horário, no horário para que as pessoas já se prevenissem, né. Mesmo aqui a pedreira Itaquera, quase não se houve falar que teve acidente, porque é organizado, né, é uma coisa muito bem organizada.

 

P/1 - Que horas eram?

 

R - Ao meio-dia, meio-dia estourava as minas, então todo mundo já sabia que aquela hora não podia ir para lado nenhum, nem ir buscar água, porque a água brotava nas pedras e nós pegávamos água lá na pedreira, né, porque a água do registro, minha filha, veio agora. (riso)

 

P/1 - E como era viver sem luz?

 

R - Nós tínhamos lamparina e era mais o lampião de carbureto, não sei se você conhece o carbureto, talvez vocês não conheçam. E na época, o meu pai tinha o lampião, porque meu pai era estrangeiro, então tinha aquelas ideias, porque na Itália já tinha alguma coisa assim, entendeu, era um tipo de lampião que tinha uma redinha, tipo de uma camisinha, uma redinha que acendia através do fogo do carbureto, então nós tínhamos o lampião. Mais a frente já, quando eu já era moça, então meu pai comprou motor, e a luz era gerada pelo motor, aquela hora acendia as seis, quando eram nove horas assim, então desligava o motor.

 

P/1 - E aí ficava só esse período com luz?

 

R - Só, com luz só esse período.

 

P/1 - Depois todo mundo ia dormir?

 

R - Ah, dormir já, porque todo mundo levantava cedo, né, para trabalhar e meus irmãos também saíam cedo, porque eles iam a pé até Alvim, pegavam o trem para ir trabalhar no centro da cidade, com revestimento em pedra também, né? E assim, eu fiz muito sacrifício para estudar, mas eu fui feliz também, porque teve os tempos tristes, né, de falta das coisas, a gente já estava crescendo, é, ficando moça e não tinha aonde você se divertir...

 

P/1 - Ah, é, como é que era a mocidade?

 

R - ...sair. Sair é assim, nós fazíamos times de futebol (riso) de mulher e dava tanto orgulho para nós, embaixo de chuva, nós jogávamos, todos os domingos tinham jogos, e tinha o cinema Itaquera, mas eu já era moça nesse tempo, né, então meus irmãos levavam a gente para ir ao cinema e ao baile Elite, que era o baile do Carnaval, tinha baile de Carnaval, meu pai deixava ir um dia, se meus irmãos mais velhos levassem, né?

 

P/1 - Era de noite?

 

R - Era à noite. Tinha matinê também, mas como meus irmãos iam todos juntos, então íamos a pé. (riso)

 

P/1 - Ah, é?

 

R - A pé até na Elite Itaquerense, além de seis quilômetros até Itaquera, tinha um ou dois para chegar no Elite.

 

P/1 - Ia de fantasia?

 

R - Às vezes ia, mas eu já não gostava muito, eu não gostava muito…

 

P/1 - Como é que era o carnaval lá?

 

R - Ah, era uma delícia (riso). Uma hora eu ia te falar alguma coisa (riso), é muito bom o carnaval do Elite.

 

P/1 - Tinha músicas?

 

R - É tinha, tinha um conjunto. E os rapazes eram todos músicos de Itaquera mesmo, faziam aqueles grupos. Tinha cordel, faziam aqueles grupos carnavalescos, é, fantasia, homem vestido de mulher, né, era muito gratificante, saíam pelas ruas de Itaquera, ainda de terra, né, as ruas de Itaquera ainda de terra, onde saíam os blocos.

 

P/1 - Ah, o cordão era na rua?

 

R - Era na rua. Carnaval mesmo não era na rua, depois que veio Elite. Às vezes meus pais levavam. Nós tínhamos uma tia que morava na Barra Funda, levava até lá e nós víamos os cordões, as fantasias no meio da rua lá na Barra Funda e depois, no dia seguinte, nós voltávamos para casa de trem, já pegávamos o trem lá no Brás, era assim.

 

P/2 - Quem frequentava o Clube Elite, as famílias mais tradicionais ou todo mundo ia?

 

R - Ah, ia todo mundo, as famílias se uniam lá, nas noites de Carnaval, inclusive todas levavam lanche. A gente se unia, era um piquenique (riso), era uma festa, todas as famílias se conheciam, né, como nos conhecemos até hoje. Então, iam os pais. Meus pais não iam porque não gostavam, né, mas deixavam eu ir com meus irmãos mais velhos. Então a gente se unia nas mesas com todas as famílias itaquerenses, nossa! Que coisa de louco! Era muito bom!

 

P/1 - E essa história do time de futebol feminino, onde vocês jogavam?

 

R - Ah, nós jogávamos lá embaixo no jardim, depois foram já aumentando as vilas, né, Jardim Fernandes, que é lá na Vila Bandeirantes, mas nós íamos jogar lá no Sábbado D'Ângelo, aqui em Itaquera.

 

P/1 - Na rua Sábbado D'Ângelo?

 

R - Não, na sede, hoje é a sede, lá era escola, lá tinha escola da admissão para o Ginásio, era lá onde é o centro dos convertidos hoje.

 

P/1 - Não na Casa Raul Seixas, lá não, né?

 

R - Não.

 

P/1 - O que é lá?

 

R - Lá no Parque Raul Seixas hoje, lá era casa da fazenda.

 

P/1 - Ah, era casa da fazenda?

 

R - Era uma fazenda. Minhas sobrinhas já depois, né, elas também nasceram lá na pedreira, elas estudavam já no Emília, né, que seria Álvares de Azevedo, mas que tinha passado lá para o Emília, e a admissão elas também fizeram lá no Sábbado D'Ângelo, onde hoje é o centro dos convertidos, né?

 

P/1 - Não sei. O que é lá?

 

R - É na avenida Sábbado D'Ângelo mesmo, na rua Sábbado D'Ângelo.

 

P/1 - Mas no centro dos convertidos?

 

R - É uma sede.

 

P/1 - O que é o centro dos convertidos?

 

R - É uma sede de jovens, mas eu nunca me aprofundei.

 

P/1 - Mas é da Igreja?

 

R - Não. É uma seita deles, né, uma seita católica também, mas é, é muito antiga, eu nunca me aprofundei na religião deles. Tinha filhos, alunos meus que frequentavam lá na época, mas eu nunca me aprofundei. Eles são assim um povo mais rígido na religião.

 

P/1 - Sei. E lá nessas casas da sede Sábbado D'Ângelo não tinha um campinho de futebol?

 

R - Tinha uma quadra e nós íamos jogar lá, tanto as moças como os rapazes, jogávamos futebol lá, a gente não tinha nem uniforme, nem nada, né, era de calça comprida, né, bermuda, mas calça comprida, naquele tempo nem calça comprida usava, né? Eu, na época em que trabalhei, no início da Escola Estrela Dia, o professor, diretor da escola não permitiu que nós déssemos aula de calça comprida.

 

P/1 - Tinha que usar saia?

 

R - Era de saia, né? Mas quando nós íamos jogar, usávamos uma calça até o meio da perna, que eu uso hoje, né, mas...

 

P/1 - Nada muito curto, né?

 

R - É, mas nós jogávamos assim, bola para valer. Bem depois de jovem, a gente formava grupos, depois que vieram as irmãs Marcelinas já. Aquilo já melhorou muito, estava com luz, água, em 1951 veio a luz para Itaquera, né, depois veio o telefone, aí começou já aquele negócio, política eleitoral, depois eu vou passar para vocês. E foi assim que Itaquera evoluiu muito, num piscar de olhos que Itaquera evoluiu, mas foi muito empenho dos antigos, a família do Dito Salim também colaborou muito, era uma das famílias italianas que tinha...

 

(PAUSA)

 

R - No momento assim, passar nome de todas as famílias é... mas muitas tinham armazém, tinha o açougue onde a gente fazia compra, então...

 

P/1 - E era onde?

 

R - No centro, ali em frente onde é o Senac. Ali tinha o armazém, e tinha o armazém também do Salim Adi, que é o pai do Dito Salim que é o nosso vereador aí. Tinha o armazém, nós fazíamos compra lá. E os empregados vinham, faziam compra com vale e a minha mãe vinha e pagava no armazém. Você entendeu como é que era? Os empregados vinham, faziam compra com vale, uma certa quantia, aí depois, ou vinha nós, a cavalo, ou vinha minha mãe, meus pais e pagavam os armazéns, que faziam compra aqui no centro de Itaquera.

 

P/1 - E abatia no salário deles?

 

R - Isto, abatia no salário deles.

 

P/1 - Entendi. E esse comércio era perto da estação?

 

R - É, pertinho.

 

P/1 - Como é que se deu o crescimento do comércio?

 

R - Que evoluiu?

 

P/1 - É.

 

R - As famílias antigas foram praticamente se organizando, né, aí começou um posto de gasolina, começou a ter vários armazéns, né, e açougue, então ficou tudo naquele centrinho, depois é que foi expandindo, entendeu, sempre começa um bairro através de uma Igreja, né, de uma estação, então começou como a estação de Itaquera.

 

P/1 - E qual é a igreja principal?

 

R - É a Nossa Senhora do Carmo.

 

P/1 - E a sua família tinha vida religiosa?

 

R - Tinha, tinha, bastante, né, inclusive, meus pais trabalharam muito para as comunidades e uma delas foi essa Igreja São Pedro, que tem na Vila Matilde, a catedral, que meu pai ajudou e nós levantamos a Igreja Cristo Redentor, dali da Cidade Líder, com um grupo de jovem, que na época eu fazia parte e a Igreja Nossa Senhora da Aparecida, na Vila Bandeirante, que lá nós, tijolo por tijolo, nós levantamos aquela Igreja, de domingo...

 

P/1 - E esse lugares fazem parte de Itaquera ou são outros bairros?

 

R - Parte de Itaquera.

 

P/1 - São sub-bairros?

 

R - Sub-bairros. Porque um bairro começa a evoluir desde que você faça alguma coisa, se você faz uma igreja, então já vai, o povo já começa a aparecer, dali você já aumenta, faz uma escola, já começa a cativar as crianças, primeiro era fácil, agora está difícil, né. Então estou dizendo, nós conseguimos levantar essa Igreja Cristo Redentor com grupo de jovem. Na época, nós começamos um grupinho na Líder e “vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”, então nos reunimos com as irmãs do asilo dos velhinhos.

 

P/1 - É aquela cidade dos velhinhos?

 

R - Asilo dos velhinhos. E nessa época aí nós fazíamos grupos em que para poder arrecadar alguns trocadinhos para fazermos a nossa igreja e para ajudar elas a fazerem o asilo, a parte do asilo, nós fazíamos pedágio aqui no farol, aqui no cruzamento da avenida Líder com estrada de Itaquera. Nós fazíamos pedágio ali, sábado, domingo, fazíamos pedágio com bandeira e com aquelas roupas que estavam muito em alta na época, coisas do México, aqueles ponchos, aqueles chapéus grandes de palha. Então nós nos iniciamos desse jeito. E as irmãs, irmã Maria Luíza, ela vinha com alguma idosa e deixava do nosso ladinho ali, então ficávamos o dia inteiro.

 

P/1 - As pessoas entravam lá.

 

R - Pedágio, fazíamos pedágio. Foi como nós ajudamos o asilo e nos ajudou na construção.

 

P/1 - Da igreja.

 

R - Do começo da igreja.

 

P/1 - Isso era o quê? Década de 1960?

 

R - Já é, 60, 59, 55, 55 até 59 não tinha quase nada, né, aí de 1960 para cá já evoluiu muito, aí já foi demais, conseguia às vezes até um pouco a mais para poder comprar as coisas. Porque, como era um grupo de jovens atuante e forte, eles notaram que nós éramos de confiança, que eu desde menina tinha esse jeito de buscar as crianças nas casas e devolvia naquela horinha que eu marcava, devolvia a criança para ensinar a orar, ensinar alguma coisa da vida. Eu era muito pontual, eles confiavam muito em mim. Então, eu levava o ofício às pedreiras, eu ia pessoalmente, tive muito apoio das pedreiras que davam pedras para nós levantarmos a igreja, o asilo dos velhinhos. Pedreira União, pedreira de Itaquera foi a base fundamental para isso, para o asilo.

 

P/1 - Dona Magdalena, a senhora ouviu dizer que no asilo tinham muitos abrigados da Segunda Guerra, russos?

 

R - É, tinha estrangeiros também, né, porque eles, tadinhos, ficavam aí, como é que eles iam sobreviver sem família?...

 

P/1 - A senhora não chegou a conhecê-los?

 

R - Eu vi muitos, pela distância da minha casa para o asilo, para chegar no asilo, a gente praticamente se encontrava no meio do caminho, né, porque eles vinham de lá e nós vínhamos daqui, se encontravam aqui no cruzamento e já era mais difícil de eu chegar lá, mas quando eu ia via que tinha estrangeiros... Eram aplicadas, a irmã Maria Luíza era uma mãe, ela recolhia todo mundo, não tinha esse negócio de dizer é japonês, ou é alemão, ou é italiano, ela ajudava quem precisava, dentro da medida do possível, né?

 

P/1 Falar nisso, quando a senhora estava contando do seu pai com o senhor Yoshioka, como é que era o comportamento dos italianos com os japoneses aqui?

 

R - Não se entendiam muito em língua mas chegavam na expressão, eles entendiam o que um queria do outro, né? Então como eles viajavam muito no trem, porque muitas vezes foram jogados para fora do trem - são coisas doidas que a gente nem deveria estar contando, mas que aconteceu com meu pai - então, eles se uniram, porque eles tinham que vir a pé sozinhos, então eles vinham a pé juntos, conversando, procuravam se entender da melhor maneira. Meu pai italiano, os Bassi também vinha de descendente italiano, mas já falava mais o português, e mais a família do seu Yoshioka e vários japoneses da colônia que tinham mais dificuldades, mas como eles eram muito prestativos, se entendiam, plantavam juntos.  Japoneses vinham ensinar meu pai a plantar pêssego, meu pai ensinava eles a fazer o vinho, e era assim, era aquela comunicação, sabe? Então eles se davam muito bem, tinham muita amizade mesmo com língua diferente, eu fui criada praticamente no meio da japonesada lá na colônia. Eu trabalhei também, em 1960, nas primeiras festas da colônia. Eu trabalhava na Singer, então eu fazia demonstração das máquinas.

 

P/1 - Festa do Pêssego?

 

R - Festa do Pêssego. Então a Singer tinha um box onde eu trabalhava.

 

P/1 - Que mais que tinha na festa do pêssego?

 

R - Ah, todas as firmas montavam box. No começo da festa não tinha nada, era só mesmo o pêssego e convidava o povo para fazer uma festa, né, depois é que foi entrando firmas fazendo box com adubo, com parte da agricultura. Aí que foi aumentando, depois se acabou também. Era de terra, para chegar lá nós íamos com carro, um fordinho 31 que tinha na pedreira. Meu irmão mais novo era motorista do caminhão e nós subíamos tudo no caminhão e íamos para a Festa do Pêssego, se chovia, tinha que por corrente na roda do carro e empurrar, olha, mas era... (riso)

 

P/1 - Era um drama.

 

R- Era um drama que não acabava mais. E para nós - fomos criados assim - não tinha tempo ruim, sabe. É, eu muito menina já dirigia os caminhões na pedreira, ajudava meus pais. Meu pai além de ser administrador, ele apontava ferramenta, sabe, para apontar ferramenta usa-se um fole que eu tenho, que eu vou por nessa exposição, se Deus permitir que eu consiga o caso da memória, eu vou levar um fole. Ele era tipo de uma coisa de couro grande e então você puxava uma corrente, ele fazia o vento para que o carvão coque... Ele é um carvão mais difícil, então colocava todas as ferramentas lá dentro para acender o fogo, acendia e esquentava a ferramenta, tirava em brasa, que nem o ferramenteiro, né, e depois com a maceta, ele amassava e apontava todas as ferramentas, fazia ponta no que era de ponta, fazia lâmina no que era de lâmina, tudo feito no fogo. E então, nós éramos pequenininhas, eu com cinco aninhos já puxava a corrente do fole para o meu pai apontar a ferramenta, a ferradura que colocava nos amimais, né, depois começou com uma outra família, Martins, lá de Itaquera, que fazia a ferradura para os cavalos, né, ele era Martins ferrador.

 

P/1 - Se especializou em ferradura?

 

R - Em ferraduras, porque a condução era charrete, cavalo, carroça. Porque não tinha desvendado a avenida Líder, foi aberta com carroça. Então era necessário que tivesse uma pessoa especializada nesse assunto, né?

 

P/1 - Dona Magdalena, e como é que eram as paqueras aqui no bairro, entre os jovens?

 

R - Era no cinema, lá no centro de Itaquera, né, na estação.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - E depois que veio o cinema, primeiro cinema, ou então na igreja, né, porque ia na missa, né, a missa era em latim e a gente era obrigada a ir. (riso) É que minha mãe, ela fazia as nossas orações, minha mãe rezava em latim e nós respondíamos a segunda parte da oração em português.

 

P/2 - O padre rezava de costas para a plateia?

 

R - Muitas vezes, né. Naquele início, né, tinha muitos detalhes, muita coisa que a gente, tinha que ser  rígido, né, a religião era muito rígida. Eu não fui muito, muito também com religiosidade, né, mas não tinha outra religião, era a católica que a gente conhecia, para você ver que a fazenda do Carmo era da Ordem Terceira do Carmo. É da Ordem Terceira do Carmo, que era fazenda, depois é que foi passando por Bento Pires, depois chegou para o Oscar Americano, mas de primeira era da Ordem Terceira do Carmo.

 

P/1 - Por que um lugar é chamado Iguatemi, a senhora já ouviu falar?

 

R - Já tem, já existe bairro de Iguatemi, todos os nomes daqui da região são indígenas: Ita, Guaianases, Itaquera, vem da pedra, pedra a dormir ou pedra adormecida, como eles dão nome, ita é pedra. Então Itaquera, todas as partes ali têm nomes indígenas.

 

P/1 - Iguatemi era uma chácara?

 

R - Era, era tudo chácaras.

 

P/1 - Era para lá da colônia?

 

R - É bem para o lado direito da colônia, já mais longe, bem para a frente da colônia, Iguatemi, era só chacareiros e olarias.

 

P/1 - Das olarias.

 

R - É das olarias, mesmo lá na Francisco Matarazzo, onde eu morava, tinha a fazenda do Francisco Matarazzo, que era só eucaliptal, mas quando passava da fazenda, no fim da fazenda tinha só olarias. Tinha rios, aqui mesmo onde nós estamos, aqui no Metrô era um rio, onde o pessoal pescava. No dia de domingo a diversão era vir aqui pescar, ao lado da pedreira, então aqui, aqui mesmo onde está a estação Corinthians-Itaquera, era um rio, onde o pessoal pescava.

 

P/2 - Era o rio Jaú (Jacu?), é esse?

 

R - É deve ser o rio Jaú, né, não estou bem ligando, eu tenho também aqui anotado o nome do rio aqui, e tinha um outro rio que agora, lá está a sede CDN, da Cidade Líder, ali era um tanque, era uma mina de água, é um pouquinho para lá da pedreira, e o pessoal se divertia tomando banho no rio, né? E um dia surgiu um jacaré, então até hoje eles chamam de tanque do jacaré. Ainda tem a pedra lá, deixaram a pedra, mas lá hoje é o clube do CDN. Então de domingo assim... Porque em dia de semana, os meninos trabalhavam e muito, não tinha essa de ter sábado e domingo, tanta pessoa mesmo hoje que mora na fazenda não tem sábado e domingo, é tirar o leite, cuidar da criação e de tarde meu pai deixava a gente ir, deixava assim umas horinhas livres, quando eu não ia muito para jogo, para jogar assim, porque formava os timinhos, então ele se juntava lá. Juntava com os colegas de escola, então eles ficavam nadando, daí que eu me lembro do jacaré, né?

 

P/1 - E tinha outras brincadeiras infantis?

 

R - Ah, tinha muitas, tinha aquela de pular por cima do outro, né, tinha tambor de óleo, mas quando estava vazio, a gente  colocava dois calços e punha uma tábua em cima e fazia como giratório, como um tanque hoje, né, ficava um de cada lado, tipo gangorra, só que nós fazíamos um tipo de competição girando em cima do tambor para ver quem ficava mais tempo, né, ou andando em cima do tambor. Então, diversões.

 

P/1 - Então quando ainda era pedreira?

 

R - É, porque lá tinha óleo, né, para os caminhões, tinha uns tambores vazios, a gente aproveitava para fazer brinquedos.

 

P/2 - Você nadava no rio?

 

R - Não, eu mesma não, tenho muito medo de água, eu não ia nadar. No começo minha mãe lavava a roupa, porque tinha a bica, né, então tinha a nascente da água e meu pai colocava os bambus dos grossos e canalizava a água no bambu e onde caía que nem uma cachoeira.  Ia minha mãe, o pessoal da pedreira, né, do acampamento e lavava a roupa, se juntavam todas aquelas senhoras e lavavam a roupa no rio. Depois que foi abrir assim, aí depois começaram... Quando os Rigghi's compraram a pedreira, eles abriam poços, poço mesmo, não poço artesiano, poço mesmo aprofundando. É, tinha pessoas que já nasciam com esse dom, eles andando descobriam onde dava água, então eles furavam dez, às vezes onze metros de profundidade e dava água, e depois colocava o sarilho, um rolo de madeira onde enrolava a corda e a gente virava com a mão, chamava sarilho, né, davam esse nome, e a gente rodava aquela manivela, a corda enrolava na madeira, naquela coisa de madeira e puxava o balde de água do poço.

 

P/1 - Em que ano os Rigghi compraram a pedreira, a senhora sabe mais ou menos?

 

R - Foi 1940 e pouco, eles compraram em 1949.

 

P/1 - Eles que introduziram o poço?

 

R - Eles começaram a fazer as casas, né, os operários,  fazer o poço para ter uma água mais saudável do que aquela do rio que a gente muitas vezes... É, assim, no começo que não tinha, não vivia ninguém, então a água era super limpa, né, mas depois que começa a vir muita gente, então ficavam preocupados, então começaram a abrir poços, cada casa tinha um poço.

 

P/1 - E como é que era para cozinhar?

 

R - Pegava água do poço, tinha fogão de lenha...

 

P/1 - Mas como assim do poço?

 

R - Ah, pegava água da nascente.

 

P/1 - Da nascente.

 

R - Carregava com latas, nós crianças carregávamos as latas de água todos os dias antes de escurecer, para que ficassem todos os baldes e as latas cheios de água. Nós íamos buscar no rio, na nascente, e era uma água cristalina, uma água puríssima. Depois que abriu os poços, então, já pegava lá. É, minha mãe tinha o forno de lenha, fazia o pão, fazia tudo em casa, né, fogão de lenha, mas não faltava nada porque meu pai também tinha criação, então uma vez a cada quatro, cinco meses, matava um porco, né, então minha mãe tinha banha, tinha linguiça, tinha tudo. Não existia geladeira, mas tinha as latas de banha onde a mamãe assava carne e punha embaixo da banha, ficava três, quatro meses sem estragar, era conservada dentro da banha.

 

P/2 - E as frutas, como é que vocês faziam para conservar?

 

R - As frutas, para conservar não, porque era assim, fruta tinha à vontade, então caía, todo mundo comia. Meu pai nunca negou que todos pegassem fruta, sabe, tinha bastante. Ah, meu pai tinha pêssego, eram daqueles pêssegos selecionados, mas primeiro era uva, certo, porque papai fazia o vinho, depois tinha o pêssego, e depois de tudo tinha ameixa, goiaba, e de tudo quanto era qualidade de fruta que você conhece, que existia. Era mato, tinha pitanga, amora, tudo isso, pé de amora, daquelas grandes. Depois que meu pai arrancou os pés de uva, nós fizemos plantação de caqui, então nós vendíamos no mercado municipal, isso já em 1900, já em 70, 65, em 1960 meu pai começou a plantar os pés de caqui,daí para cá era só caqui, até pouco tempo, até 1980 e pouco nós tínhamos caqui, plantava e colhia na época certa, estufava com esse carbureto, que eu estou falando, a serragem e depois nós arrumávamos em caixa e meu irmão levava com o caminhão para o mercado, que é o mercado ali do Parque Dom Pedro, o mercado bem lá embaixo do Parque Dom Pedro.

 

P/1 - E a senhora se casou dona Magdalena?

 

R - Casei em 1968.

 

P/1 - Como é que foi?

 

R - Eu trabalhava na Singer na época e dava aula à noite na Estrela Guia, depois eu conheci meu marido, ele veio de Taubaté, veio também para se aventurar, né, e ele ia para um outro lugar que não fosse Itaquera, depois um colega arrumou para ele trabalhar aqui em Itaquera numa panificadora e aí foi onde a gente se conheceu. Casei em 1968.

 

P/1 - E teve festa de casamento?

 

R - Não, eu não quis festa de casamento porque eu tinha perdido meu pai, eu perdi meu pai em 1967, então eu não fiz festa de casamento porque eu, sabe, a gente cria um ídolo nos pais da gente, então eu não fiz festa, mas meus irmãos... E aí é para ficar para vocês: meu pai era o pioneiro das festas de São Pedro, algumas pessoas que você vai entrevistar em Itaquera vão falar que era Festa Máxima, que era dia de São Pedro e Dia de Reis, dia 6 de janeiro, Festa de Santos Reis.

 

P/2 - Tinha o que lá?

 

R - Então tinha os sanfoneiros, os violeiros, né, que eram da pedreira aqui, iam para minha casa na pedreira. Lá, eles faziam uma festa, dançavam a noite inteira. Dia de São Pedro e Dia de Reis, fazia os Santos Reis, né, aí já foi uma tradição que o papai pegou daqui, certo?

 

P/2 - Dia dos Reis Magos?

 

R - É, foi Dia dos Reis. Então por razão dos empregados da pedreira começou a misturar Festa de São Pedro, depois Festa de Reis, mas a nossa festa era Dia de São Pedro, foi feita, fez cinquenta e três anos que meu pai levantava o mastro com a bandeira das imagens de São Pedro e eu faço isso até hoje, fiz esse ano também em 24 de junho, fiz agora a festa de São Pedro.

 

P/1 - Esses empregados tinham outras tradições além destas que a senhora está contando?

 

R - Não, mais eram essas mineiras, né, de Minas, né, festa de congadas, né, então nós começamos a se acostumar com as festas deles também. Mas era sempre feito lá dentro, porque o povo de lá parecia que era uma família só, “é, nós vamos para tal lugar”, falecia alguém, “vamos todos juntos para lá”, levava os mantimentos para passar a noite inteira nos velórios, sabe, antes de ter o cemitério aqui de Itaquera, o cemitério era em São Miguel, e o povo levava o corpo muitas vezes em lençóis até São Miguel onde era o cemitério.

 

P/1 - Quando foi construído o cemitério?

 

R - É, aqui, não tenho ideia, tenho por escrito, mas assim de mente eu não me recordo agora quando que botaram o cemitério de Itaquera.

 

P/1 - E é longe São Miguel?

 

R - Ó meu Deus, é longe, tem acho que uns vinte quilômetros, daqui de onde eu moro até lá, é longe demais de Itaquera, você nunca foi em São Miguel?

 

P/1 - Não, eu não conheço.

 

R - É longe, é longe. É um bairro que começou, Itaquera começou por São Miguel, né? Então era uma tradição gostosa, dos meus pais, eu tenho recordação, dos meus irmãos que se foram também, que eles sempre foram, nós sempre fomos muito unidos, até hoje, a sobrinhada que está aí nova, todos unidos, se une para uma festa. Domingo já fizemos festa, todos os sábados e domingos têm na casa de um.

 

P/1 - Essa história do casamento também tem onde a gente viu a foto?

 

R - É assim, os casamentos eram feitos na Igreja Nossa Senhora do Carmo e depois tinha a festa na casa dos pais do noivo.

 

P/1 - Ah, do noivo?

 

R - Da noiva ou do noivo, é, a festa sempre era na casa da noiva, mas era sempre unido, porque geralmente os filhos se casavam com famílias, por exemplo, assim, os meus irmãos casaram com três da mesma família dos portugueses, ficavam ali, se conheciam, pegavam amizade, acabavam namorando e casando, e a mesma coisa acontecia com os casamentos. Então a festa era na pedreira, porque lá tinha um galpão onde eram guardadas ferramentas, tambores de óleo, então, quando tinha um casório todo mundo trabalhava, limpava, todo mundo trabalhava para fazer doces e salgados, porque não tinha esse negócio de comprar fora, cada família fazia um tipo de comida e juntava todo mundo para o casamento.

 

P/1 - Mas aí era de filho dos donos da pedreira, não?

 

R - Não, não, não.

 

P/1 - Qualquer pessoa?

 

R - É, de empregados.

 

P/1 - De empregados.

 

R - De empregados, de moradores de Itaquera, né, casava um, ia todo o mundo lá, ajudar, participar do casamento, sabe, famílias mesmo, que nem tem no sul hoje. Eu fui para o Rio Grande do Sul, tem várias colônias onde eu estive que estão ainda com a mesma tradição. Então a tradição era esta, todo mundo se ajudar, todo mundo pobre, mas se ajudava, sabe, porque quando minha mãe tinha muita criação, ela dava para os que tinham pouca ou não tinha nada, ensinava aquelas pessoas que eram humildes e não sabiam nem sobreviver, então mamãe, como tinha um pouco mais de conhecimento de vida, então ela ensinava as pessoas que nada sabiam fazer. Então ela dava uma galinha, aquela galinha já dava ovos, já tinha pintinho, já ensinava a pessoa a sobreviver com aquela criação, entendeu. Ensinava fazer o pão, porque tinha pessoas muito idosas, tinham pessoas, a maior parte eram de cor, e não sabiam fazer, então minha mãe ensinava eles a sobreviver.

 

P/1 - Essas “pessoas de cor” vieram de onde?

 

R - Ah, muitos, muitos natos em fazendas aqui, Fazenda do Carmo. Ali era uma fazenda, tinha muito, inclusive eu tenho um amigo, que é vizinho, que nasceu lá e trabalhou lá. Eram fazendas de perto e que tinham as pessoas que nasciam lá, se criavam...

 

P/1 - Que eram escravos, descendentes de escravos?

 

R - Gente descendente de escravos.

 

P/1 - Seu pai contava, quando ele chegou já tinha acabado a escravidão.

 

R - Tinha a família... Mas os que empurravam pedras nas máquinas aqui, a maior parte eram negros.

 

P/2 - Eram negros?

 

R - A maior parte. E os estrangeiros que viviam aqui, mesmo o pai do Seu Pedro, ele trabalhava de sol a sol, não tinha essa de dar mole. Aqui era a área do trabalho. Eu chegava da escola, tinha que ajudar meus pais, se tinha que plantar para comer, tinha que plantar, você entendeu? Não tinha dia, não tinha sábado, domingo, nada, né?

 

P/1 - Dona Magdalena, depois desse trabalho onde a senhora ajudava seus pais, onde foi seu primeiro trabalho oficial, vamos dizer assim?

 

R - A Singer.

 

P/1 - Singer.

 

R - Trabalhei na Singer.

 

P/1 - Em que ano a senhora entrou lá?

 

R - Porque foi, foi em 1960. Porque foi o seguinte: eu, é, nessas atividades que eu fazia com jovens, com grupos de jovens, em que a gente se unia e fazia essas atividades, eu tive a oportunidade, porque o meu pai era sócio do Círculo Operário de Itaquera, foi a primeira entidade que lidava com operários, ajudava em muitas coisas e, como se diz, a coordenar, a orientar o empregado. Formou-se um grupo de uma associação e formou o Círculo Operário. E lá, o meu patrão, que era o meu professor no Álvares de Azevedo, João Flores, ele veio do interior com a esposa, fixaram-se aqui em Itaquera, formaram-se professores e davam aula no Álvares de Azevedo. E nessa época, ele começou com uma máquina no Círculo Operário, que era um sonho dele, porque ele tinha tido um sonho, uma visão, e ele começou com uma das máquinas. E eu fiquei, e foi aí que eu comecei a conhecer o pessoal do Círculo Operário, porque eu vim aprender corte e costura, começou a se formar essas entidades, é, a ensinar jovem. A primeira coisa que a gente aprendia era costurar. Então eu entrei no Círculo Operário, daí o João me conheceu e falou: “é melhor você aprender datilografia que você tem capacidade, você é meio líder, é bom você começar sua vida, que você não vai poder viver a vida toda no meio daquele mato onde eu morava, né?” Então ele deu essa oportunidade para eu fazer datilografia.

 

P/1 - E onde a senhora fez o curso de datilografia?

 

R - Aqui em Itaquera.

 

P/1 - Tinha um curso aqui?

 

R - É, ele começou, seu João começou a dar aula.

 

P/2 - No próprio Círculo Operário.

 

R - Isso. Depois ele montou, ele mesmo montou uma escola com mais algumas máquinas, ele e a esposa davam aula. Depois foi que ele chamou mais uma senhora, que dava aula, daí começou a aumentar porque já começaram a vir os netos dos antigos de Itaquera. Já começou a estudar um pouco mais os filhos. Tinha o doutor Medeiros que foi uma peça muito importante na nossa região, né?

 

P/2 - Era que ano mais ou menos, dona Magdalena?

 

P/1 - Do Círculo Operário?

 

R - Ah, Círculo Operário está desde, olha, acho que é de 1949 para 1950, ou antes ainda, eu também tenho a história deles, eu tenho a história do Círculo Operário.

 

P/1 - Que outras atividades tinham lá?

 

R - No Círculo Operário? Tinha corte e costura, tinha para escoteiro, tinha...

 

P/2 - Tinha escola de alfabetização?

 

R - Lá começou com uma escola de alfabetização também, sabe, é, tinha várias atividades, aí depois foi que trouxeram um médico... tinha o doutor Sílvio. Já começou a vir pessoas de outros lugares. Doutor Sílvio era do interior, vinha outro de São Manuel, outro vinha de Bauru, outro... Começou a vir mais gente para Itaquera de outros lugares de São Paulo, entendeu. E aí começou a formar já, esses vieram com um pouquinho mais de oportunidade, já tinham um pouco de estudo e estudaram os filhos. Itaquera tem vários advogados que nasceram, se criaram e estudaram aqui para serem advogados, tem várias famílias. E aí foi que eu comecei fazer datilografia, e o professor João também começou a expandir. Nessa roda de grupo de jovem, eu comecei levar jovens para escola, para fazer datilografia também, aí veio o cartório de Itaquera, já montou o cartório e todos os funcionários eram obrigados a fazer um curso de datilografia muito rígido, por sinal, e...

 

P/2 - É quanto tempo o curso?

 

R - Um ano, um ano de curso de datilografia. Aí foi que eu comecei a ajudar eles e comecei dar aula e aprender, me aperfeiçoei na datilografia em todos os pontos, a montar, desmontar uma máquina, porque era obrigado a saber. Se você aprendia o curso de datilografia, você era obrigado a aprender a desmontar a máquina e montar novamente. E na Singer não foi diferente, o grupo que era dono da Singer era de alemães super rigorosos. Eu entrei num curso para poder dar aula, como lidar com a máquina Singer, eu tive que aprender.

 

P/1 - Era máquina de costura, né?

 

R- Aí já era máquina de costura e de bordado também. Então, eu fiz o curso e dava aula para a japonesada, japoneses vinham com os filhos, porque eles não sabiam falar português, então eles traziam as crianças. A crianças já eram alfabetizadas em português na colônia e então as crianças passavam para os pais, já davam aula.

 

P/1 - Os filhos ensinavam para os pais.

 

R - É, eu dava aula, as crianças passava em japonês para a mãe. Ah, e de datilografia também. Eu tinha alunas japonesas que não falavam nada, traziam o pequenininho do lado, e falava, tudo o que tinha que falar as crianças falavam para as alunas.

 

P/2 - Vocês terminavam o curso, recebiam o diploma?

 

R - Tem diploma, eu tenho meu diploma ainda, guardadinho, desde 1960. E então, foi assim que eu comecei a minha vida, comecei a dar aula na escola de datilografia.

 

P/1 - Quantos anos a senhora ficou lá?

 

R - Trinta anos.

 

P/1 - Como é que chamava a escola?

 

R - Escola de Datilografia Estrela Guia.

 

P/1 - Depois acabou?

 

R - Acabou a escola de datilografia, tem uma outra escola que é nova Estrela Guia, que praticamente está usando o nome, porque meus patrões foram embora, eles estão em São José do Rio Preto.

 

P/1 - Mas aí é de computador agora?

 

R - É, tinha datilografia e computação, no fim pusemos computação também, faz uns, desde que saiu computador nós colocamos também. Além de datilografia colocamos computação. Ficou eu e uma sobrinha, que infelizmente faleceu de aneurisma, Aparecida Relvas, que foi professora também por trinta anos, na Estrela Guia, ela começou comigo e só saiu porque faleceu, deu aneurisma e ela morreu na própria escola, Estrela Guia.

 

P/1 - Dona Magdalena, vamos mais para perto um pouco, a senhora lembra da época da construção do Metrô?

 

R - Lembro.

 

P/1 - A senhora acompanhou de perto?

 

R - Ah, eu vinha de vez em quando ver a construção, quando começou, aqui era rio, que eu estou te falando, né, era um rio onde havia pescaria e tudo, aí começaram as obras mais...

 

P/1 - O que eles fizeram com o rio? Aterraram?

 

R - Ah, eles desviaram, porque tem um rio que passa aqui pertinho. Então eles desviam a água, depois que você faz um dreno, você vai desviando a água e acaba, né, secando, aqui foi feito muito bonito, foi uma estrutura muito bem organizada.

 

P/2 - E depois aterraram o rio para a construção do Metrô ou foi antes?

 

R - Para a construção do Metrô, para construção do Metrô, tinha aqui ainda bastante água quando eles vieram, mas já não tinha tanta não, mais era terra mesmo, quando eles começaram aqui, e pedra, né, filha, porque aqui, aonde você cavuca, passou de dez metros, pedra.

 

P/2 - Tinha problema de enchente quando chovia por causa desses rios?

 

R - Tinha em 1960 até 70 e pouco, isso aqui era uma tristeza menina, êta meu Deus! Todo o ano de chuva, aqui era tudo alagado, essa parte aqui debaixo, que era agora, né, essa avenida que vem parar aqui...

 

P/2 - Como é que chama?

 

R- Radial, é o pai do administrador da pedreira aqui, é...

 

P/1 - Dalilo?

 

R - É pai do seu, seu Pedro Dalilo, não é

 

P/1 - Depois a gente olha.

 

R - ...é o antigo dono da pedreira de Itaquera, onde o pai do Pedro Dalilo trabalhava, né, que é o nome da rua ali, era Itaquera-Pinheiros, que passou.

 

P/1 - Era ali que dava enchente?

 

R - Dava, e bastante, ainda dá de vez em quando, sabe, ainda, mas já é menos, né, porque eles alargaram o rio, então a infra-estrutura que está fazendo também já diminuiu bastante, mas ainda assim, se chover muito, ainda alaga.

 

P/1 - O que tinha aqui além do rio?

 

R - Tinha aqui um grupo de casas, inclusive, um menino que estudava comigo e trabalhava no cartório do Jaime, eles tinham uma casa aí, foi soterrada, o Metrô pagou tudo direitinho, e eles moram no centro de Itaquera, tinha um bom grupo de casas, e o restante nem foi preciso mexer, mas essa ponta aqui, né?

 

P/1 - A senhora viu se teve transtorno no trânsito, teve que mudar algum sentido dos caminhos?

 

R - Muita coisa não, né, porque eles fizeram, a Radial foi feita bem antes, né, então a Radial praticamente desafogou todo o trânsito, porque antigamente todo mundo tinha que passar pela avenida Celso Garcia, depois que fizeram a Radial o trânsito desafogou, agora está cheio de novo, mas desafogou completamente, entendeu? E aqui eu acredito que não teve até muito transtorno não, ficou bem fora, né, só mais para o centro, né, para o centro sim, mas aqui em Itaquera eu não achei que pegou muito transtorno.

 

P/2 - A senhora lembra o dia da inauguração do Metrô?

 

R - Ah, lembro, lembro desde as primeiras, quando inaugurou lá no centro da cidade, depois veio para o Tatuapé, né, todas as estações que vinham inaugurando eu sempre acompanhei.

 

P/1 - A senhora ia?

 

R - Ah, eu ia nas inaugurações das estações.

 

P/1 - E daqui de Itaquera, como é que foi o dia da inauguração?

 

R - Ah, foi linda, foi uma emoção só. Na época, o Mário Covas era prefeito, né, e como eu fazia, e faço até hoje, parte de todos os movimentos que protegem Itaquera, então eu recebi um convite para pegar o Metrô lá na Barra Funda e vir direto com a comitiva.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É, eu vim no vagão do Mário Covas, na época Orestes Quércia, né, vim na comitiva dos engenheiros, eu vim conversando com os engenheiros que tinham feito aqui. Eles disseram que protegeram tanto as plantas, que tinha um pé de gabiroba, não sei se você conhece uma frutinha que dá no campo, e um pé de pitanga que ele ficou com dó de arrancar e de passar o trator, ele arrancou e levou para a casa dele e eu nunca esqueço dessa história, de um engenheiro daqui do Metrô. (riso)

 

P/1 - Levou a mudinha?

 

R - Levou a mudinha de gabiroba e da pitanga. Foi muito gratificante.

 

P/1 - E como foi a primeira vez que a senhora andou de Metrô?

 

R - Ah, lembro.

 

P/1 - Qual é que foi a sensação?

 

R - A mesma sensação de quando a  gente conhece uma coisa diferente, né, nova. Você se sente bem, se sente feliz, porque falou: “conseguimos, né, as coisas para o nosso país”, uma luta, né?

 

P/1 - Inclusive o medo.

 

R - Não, não sou muito medrosa não, eu não tenho muito medo não. (riso) Vou frente aos obstáculos até hoje. (riso)

 

P/1 - Vamos falar um pouquinho do seu projeto agora, da Casa da Memória.

 

R - É, meu projeto. Eu, além de ter feito todas essas aventuras na minha vida, né, eu continuo. Já com quinze anos, eu mexia com coisas que trouxessem benfeitorias, porque eu sofri muito no pedaço em que eu estava, muito mato... A gente que era jovem ficava isolado do mundo, então eu sempre fui trazendo coisas para a nossa região. Quando começou a sair os títulos para poder votar, eu consegui através de uma professora de corte e costura, tirar títulos para todos os funcionários da região, da pedreira de Itaquera, através do Círculo Operário que estava lá, então eu fazia aqueles movimentos sem demagogia e sem mexer com ninguém, sempre respeitando, sabe, pegando onde, punha o pé aonde eu acho que posso por. Então desde aquele tempo fui trazendo tudo isso para cá, e agora, como eu fiquei sabendo que estava sendo desativada, a estação Itaquera, para vir esse trem que vai direto, foi inaugurado ali na Dom Bosco.

 

P/1 - O espanhol?

 

R - O espanhol. Eu fiquei preocupada, porque eu falei assim: “eles vão me derrubar a estação”, e a estação está desde de 1965, é um patrimônio. E ela tem uma estrutura muito boa, né, então eu comecei a falar: “meu pai, que eles não derrubem essa estação”, né, e como eu estou estudando no Castelo, eu passo por ali todo dia, aí eu comecei esse movimento assim, desde 1982, eu faço, eu fazia teatro, no Parque do Carmo, que vocês já ouviram falar, Paixão de Cristo do Parque do Carmo, e eu entrei quando ele era capitão e então nós entramos através de igreja, a fazer um movimento, a Paixão de Cristo. “Vamos fazer a Paixão de Cristo, vamos representar a vida de Jesus”, né, e tiveram assim, o grupo fazia aqueles capacetes com lata de óleo, com vassoura dessa de piaçá. Começamos a fazer um movimento, fazendo teatro, ficamos dezesseis anos fazendo teatro dentro do Parque do Carmo, e fomos proibidas no ano passado.

 

P/1 - Em que dia vocês faziam?

 

R - No dia, sempre em abril, né?

 

P/1 - Em abril.

 

R - Na Semana Santa.

 

P/1 - E por que vocês foram proibidos?

 

R - Proibidas porque tem um, tá rodando?

 

P/1 - Tá, se a senhora quiser, depois a gente edita, tira.

 

R - Fomos proibidas porque a gente levava mais de quarenta mil pessoas para o Parque do Carmo, então foi uma tristeza muito grande porque nós fazíamos a Paixão de Cristo, não com o dinheiro dos outros não, com a nossa força e coragem. Nós éramos os atores, nós éramos os diretores, você entende, nós formamos o grupo que eu ajudei a coordenar e fazíamos a Paixão de Cristo. E nessa época eu queria fazer o Museu de Itaquera, comecei a fazer um movimento dentro do Parque do Carmo, não deu certo, eu tive que sair fora. Aí surgiu agora, tá precisando de coisas recentes, que coisas assim passadas eu conseguia até sedes de associações e grupos de terceira idade, grupo de jovens, foi tudo levando para o caminho, para encaminhar o jovem para a vida de hoje, que está difícil. E eu estou preocupada com o futuro agora e muito, porque a situação está feia, você não consegue salvar um jovem, e eu estou perdendo, perdi jovens do meu grupo com drogas, morrendo de AIDS, então a gente vai vendo o jovem se acabando. E eu queria por esse movimento lá na Casa de Cultura, junto com a Casa da Memória, que seria o museu das coisas de Itaquera, porque eu tenho trabalhado muito com escolas, e as escolas, as diretoras vêm me buscar em casa para mostrar as coisas de Itaquera. Então fica cansativo às vezes, porque eu não tenho muito tempo, mas eu vou, eu não deixo de ir. Então as escolas vêm, me pegam em casa, eu vou, mostro as coisas de Itaquera que estão se acabando, praticamente quase não tenho para mostrar, e falo: “olha, querida, isso aqui era isso”, hoje não é mais, aqui era um castelo, existia um castelo aqui no centro de Itaquera, que era a coisa mais linda, não tem mais, aqui a estação vai ser desativada, então eu queria que a estação não fosse desativada, que eles pusessem qualquer coisa, um centro de recuperação para o deficiente, pode até ser. A Casa da Memória onde o aluno possa ter acesso a fazer a história de Itaquera, hoje em dia é um espacinho onde ele vai, vê foto, lê a história, pega no computador, que hoje é o meio mais fácil de nós colocarmos isso para que o jovem de hoje saiba o que foi, o que é, e o que vai ser Itaquera, eu vou e o jovem vai ficar, e eles precisam disso. Então eu não queria que morressem todas as coisas de Itaquera, né, emoção deixa para depois, e eu queria que o jovem um dia soubesse o que foi, para ele dar valor a onde ele nasceu, a onde ele vive, a onde ele come.

 

P/1 - Não, mas é muito bonito.

 

R - Eu estive em várias reuniões, eu estive no gabinete do prefeito, eu já estive com o doutor Marcos Mendonça, o secretário da Cultura do Estado, eu já estive, segunda-feira passada eu estive lá no Morumbi, no Palácio do Governo. Ainda eu fui muito bem recebida, e os projetos estão aí. Aí disse que tinha dez projetos e que o meu era o décimo, só que para saber realmente o que era que ia acontecer, eu fui pessoalmente com os meus colegas e fui na CPTM. Fui recebida pela dona Clélia, ela faz parte do patrimônio da CPTM. E ele me deram muita esperança de eu pegar a casa, porque eu fui uma das que fui pessoalmente, cheguei primeiro, dão apoio para mim, para pegar a casa. Então eu estou aguardando somente uma resposta daí do Estado, porque eu preciso de uma parceria, porque não adianta, eu vou pegar a casa, eu vou lá, se for preciso, eu vou arrumar, limpar e ajeitar, mas não é por aí, né? Tem que ter uma parceria, eu acredito que com o governo, para que eles me deem uma assessoria, para que possa ser realmente uma casa da memória.

 

P/1 - E é governo do Estado, não do município?

 

R - É, do Estado, porque a CPTM faz parte com o Estado, então é por aí.

 

P/2 - É patrimônio dela.

 

R- É patrimônio, e a estação é um patrimônio da CPTM, coligada com o Estado. Então todos esses documentos... isso aqui é apenas uma cópia, os documentos, eu entreguei tudo em mão, o projeto, o que precisava, só que eu sozinha, minha mãe dizia que uma noz dentro de um saco não faz barulho não. Eu entrei com grupo de desenvolvimento de Itaquera, Fórum de desenvolvimento cultural de Itaquera. E aí eu expus as minhas idéias e eles acharam, acataram muito bem, e com receio de todos porque vão demolir a estação, na estação mesmo...

 

P/1 - A população, como é que se posiciona?

 

R - De acordo absoluto de que a estação não seja demolida, a maior parte, e tem alguns que fazem questão que passe a Radial direto.

 

P/1 - Por quê?  A demolição pode implicar no quê?

 

R - Por enquanto eles não podem demolir porque tem que aguardar o que eles vão fazer.

 

P/1 - Entendi, mas se demolir corre o risco de acontecer o quê? Passar a Radial ali?

 

R - Eu acredito que sim, né, porque vai ficar livre, mas a CPTM parece que não está de acordo com a passagem, a CPTM acha que a população tem que se mobilizar e ver realmente o que nós queremos. E nas reuniões que faço, é, toda a semana, eu estou dentro de uma reunião, então a imprensa local tem me dado muito apoio, Casa da Cultura e as entidades, a Elite, Amaury, toda essa parte cultural, SESC, SENAC, está todo mundo dando uma força que eu precisava, mas ele só falava assim (riso), eu sou apenas uma dona de casa, né, que luto pelo nosso pedacinho, tá, e eu não deixei de estudar, porque eu quero me aprofundar mais, me aperfeiçoar melhor nas coisas do nosso bairro.

 

P/1 - Depois que a senhora terminou o grupo escolar, a senhora parou de estudar?

 

R - Não, eu fiz admissão, né, mas depois é aquilo, né, estudei mas não conseguia me formar porque a lonjura... e não tinha condução, que começou...

 

P/1 - É lá no centro?

 

R - É tudo, tudo no centro de Itaquera ou Carrão, Centro, na Sé, naquelas partes, no resto não tinha mais nada por aqui.

 

P/1 - Faz quanto tempo que a senhora voltou a estudar dona Magdalena?

 

R - Eu nunca parei, nunca parei, faço cursos e vou, fiz o Ginásio, mas não que eu não terminasse, mas fiz o Ginásio, certo, e continuei sempre, estudo com meus filhos, acompanhando, sabe, participando de escolas, de grupos e me aperfeiçoando no que eu acho que deve. Agora eu entrei na faculdade, eu me formo já esse ano.

 

P/1 - Ah, a senhora está na faculdade, em que curso?

 

R - Eu fiz, é lá é assim, é um curso livre, então são seis meses, Direito, Fisiologia, Sociologia, plantas medicinais, nós usamos o laboratório, fazemos, aprendemos a fazer na prática as coisas, tudo é na prática, e todas as aulas que nós fazemos, ah, Primeiros Socorros, né, eu me aprofundei mais nos Primeiros Socorros e em Direito, porque é uma coisa que mexe um pouquinho comigo, então eu me aprofundei mais nessa matéria. Agora no ano que vem eu me formo nessa livre e vou entrar na faculdade para valer. (riso) Enquanto eu tiver fôlego, eu vou continuar.

 

P/1 - E assim, só queria descolorar sua paciência só mais um pouquinho. Sobre essa parte mais recente da história de Itaquera, eu queria que a senhora contasse como é que foram as construções das Cohabs, a senhora se lembra?

 

R - Eu tenho, inclusive eu tenho história e tenho as fotos em casa, como surgiram as Cohabs, como vieram as Cohabs, só que você acredita que eu tenho saído a semana inteira para levar crianças para cá, mostra para lá, mostra para lá, e às vezes passa também um pouco de você lembrar coisas assim, de repente, que me perguntem na hora. Eu tenho tudo fotografado, história, acontece alguma coisa eu procuro fazer uma história, certo, por quê, como surgiu. Que nem agora, ontem eu saí da escola, eu fui pessoalmente conversar com uma pessoa que nasceu na casa onde eu vou pegar, se conseguir, a casa para fazer a Ccasa da Memória. Eu preciso pegar a história daquela casa, então ontem eu já fui, já peguei um pouquinho, uma pessoa se prontificou também, porque tem muita história para contar. Seu Washington, não sei, ele já foi vereador por Itaquera, então tem muita coisa para contar. E ele viveu nessa casa da estação, então, eu estou me aprofundando para saber a história dessa casa, como surgiu, quem era ou foram os chefes, porque ali moravam os chefes de trem, chefia, então moravam nessas casas que é da CPTM até hoje, aquele bloco...

 

P/2 - Tinha vila, né, antigamente tinham vilas, as vilas operárias, ali onde é a casa da estação ficava o chefe e aí ao redor tinha umas casinhas...

 

R - E ainda é, ainda é porque eu fui à CPTM e ela me mostrou no computador essa parte que eu te mostrei, é nem mostrei para você, isso aqui é o projetinho que a gente vai fazer, tem que lutar, ai, onde que eu cortei. Isso é recente, que eu tirei sábado.

 

P/1 - Ah, nossa! Foto aérea.

 

R - É, eu tirei, a moça me ajudou a dar em prazo.

 

P/1 - E onde que é aqui?

 

R - Aqui é a estação.

 

P/1 - Ah, tá.

 

R - E a casa.

 

P/1 - Aqui é aquele parquinho, passei por lá.

 

R - Isso, aqui é a nossa avenida, a avenida do trabalhador, dos trabalhadores. Essa foi uma grande vitória, tá, que me desculpem os outros políticos, né, é ele teve força para fazer isso aqui, foi muito...

 

P/1 - Foi o Maluf que fez.

 

R - Foi na gestão do Maluf.

 

P/1 - Foi na gestão do Maluf.

 

P/2 - Não foi ele que fez, né? (riso)

 

R - Gestão do Maluf.

 

P/1 - Foi uma luta muito grande isso aí também.

 

R - Uma luta grande, essa das Cohabs aí também foi uma luta muito grande, viu, de fazer as Cohabs para cá, porque lá mesmo onde eu moro, na divisa lá que era tudo eucalipto, hoje é a Cohab Anchieta, né, que eu moro ali pertinho da Cohab Anchieta.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Aqui, é entre a Cohab Anchieta, entre a pedreira de Itaquera, eu moro aqui na avenida Lima.

 

P/1 - E como é que foi essa coisa da Cohab, porque a Cohab veio para cá, a senhora sabe como é que foi a história dessa Cohab?

 

R - É, acho que é mais por causa dos bancos, né?

 

P/1 - O que mudou na vida do bairro?

 

R - Ah, mudou tudo, né, foi uma virada muito grande, foi uma virada da noite para o dia, né? Porque veio tudo junto, né, aquilo fez uma cidade em pouco tempo num bairro que era mato. Que nem aqui, na divisa aqui da Cohab Anchieta, para chegar em Alvim, aquela parte toda ali era um eucaliptal fechado. Então era triste, quando vieram as Cohabs aquilo ali virou uma cidade em D, como diz o outro, né?

 

P/1 - E aí logo construíram toda a infra-estrutura?

 

R - Toda, toda, que quando veio, veio direto, fizeram aqui, fizeram a Cohab aqui chama um, Cohab dois, né, lá tinha a três, a quatro, todas acho que já abrangem até lá no Iguatemi, quem foi que me fez uma pergunta do Iguatemi?

 

P/2 - Eu.

 

R - Pega toda aquela parte lá, toda, a Santa Etelvina, onde está tendo um bonito trabalho também lá, agora, viu, de uma jovem que também está trabalhando muito lá, meio doidinha assim como eu, que está fazendo uns projetos assim muito bons, e até fiz um trabalho para ela no jornal, porque tem que trabalhar, tem que ser, né, tem que...

 

P/1 - A senhora lembra dos operários levantando os prédios, a senhora chegou a ver?

 

R - É, mas não a conversar com eles.

 

P/1 - Sei. Mas o trabalho deles...

 

R - Passava, via, via, era muito operário.

 

P/1 - Era?

 

R - Eles chegavam e faziam uma vila de casas de madeira, né, tipo como aqui, quando foi construído o Metrô, e ainda tem aqui.

 

P/2 - E era o canteiro de obras.

 

R - Você olha tem o canteiro de obras, então eles vinham, em dois dias eles faziam todas aquelas casas.

 

P/1 - Para eles?

 

R - Caixas de água, tudo, vinha que parecia formiguinha trabalhando. (riso) Aí vinha aquele maquinário já e começaram por maquinários, né, porque, é como eu estou te falando, o sacrifício da avenida... ninguém fez, ninguém fez, essa estrada ela foi tão trabalhosa, tão trabalhosa. Meu pai coordenava, na época, ele era o administrador, então tinha um senhor que morava aqui embaixo, porque tinha os burros, era feito com burros, não era a cavalo, eram burros de carga, né, e eles trabalhavam em olaria, eles viravam aquela máquina para fazer o tijolo, o barro, para fazer o tijolo. Então, quando veio a companhia Líder, eles começaram a vender lotes aqui, a Companhia Líder, que é do, que comprou da fazenda do Carmo, Munhoz, Francisco Munhoz, e eles tinham um banco, um banco ali na Wenceslau Brás, e começaram a lotear, fizeram o loteamento dessa avenida. Então fizeram essa avenida, e era um feito, carregado terra com picaretas, com enxadões e faziam para marcar metragem, quanto que um homem tinha trabalhado, eles deixavam um, tipo uma oca de índio, uma cabana assim de terra média de pino a pino, para ver quanto que ele tinha feito, para receber o empregado, quanto que ele tinha cavoucado, foi feito tudo a mão, meu pai coordenava.

 

P/1 -  Para fazer a estrada da...

 

R - Avenida Líder.

 

P/1 - E essa Cidade Líder é dentro de Itaquera também?

 

R - É, pertence à Itaquera, pertence à fazenda.

 

P/1 - É um bairro.

 

R - Aqui nós estamos na Cidade Líder.

 

P/1 - Aqui é Cidade Líder.

 

R - Aqui é Cidade Líder, avenida Líder, aquela, ela começa...

 

P/1 - Itaquera é muito grande, ela é muita subdivida, né?

 

R - Grande, agora então que uniu Tiradentes, Iguatemi, Etelvina, Guaianases, tudo uniu por causa das Cohabs, então é um mundo aqui.

 

P/2 - Dona Magdalena, a senhora lembra quando chegou a luz elétrica?

 

R - Lembro, foi em 1951 que a luz elétrica chegou.

 

P/2 - É, e o que mudou assim na casa, no cotidiano da casas?

 

R - Nem queira saber, né, igual outro dia, apesar que ficava sempre sem luz, né, tinha um determinado horário, não sei se era o transformador que não gerava o suficiente, mas foi, olha, foi uma dádiva, viu, foi uma conquista a luz. Depois da luz, aí veio o telefone, depois veio a água, né?

 

P/2 - Mas aí assim, na casa, na rotina da casa, vocês iam dormir mais tarde, o que mudou?

 

R - Mas onde eu morava não chegou a luz tão cedo assim linda. A luz para a minha casa chegou já em 1960 mais ou menos, aí meu pai já comprou motor, então nós tínhamos gerador e a luz veio há pouco tempo, ela veio em 1970, 74, mesmo no bairro onde eu morava lá embaixo. eu acho que veio em 1970.

 

P/2 - A senhora lembra de quando chegou a energia na sua casa, qual foi o primeiro eletrodoméstico que vocês compraram?

 

R - Bom, eu tinha um rádio que era movido à bateria de carro, né, que era aqueles rádio amador, eu tinha o rádio, tenho até hoje guardado, por aí no museu. (riso)

 

P/2 - Mas esse é com bateria de carro?

 

R - Bateria de carro.

 

P/2 - Com energia elétrica?

 

R - Com energia elétrica, é, foi...

 

P/2 - Televisão, vocês compraram primeiro?

 

R - Não, não, não tínhamos condições, uma televisão, até foi um irmão meu o primeiro que comprou, mas é tudo lá na casa da Ceci, se reunia tudo de noite e se ajeitava naquela turminha, né, e nós íamos bem longe, viu, íamos assistir televisão.

 

P/2 - É, vocês assistiam?

 

R - A primeira TV.

 

P/2 - Vocês assistiam o quê?

 

R - Eu ia assistir Moacir Franco, tinha um programa de comédia lá, o Moacir Franco, né, então nós íamos lá para assistir, os mesmos programas,  Hebe Camargo, a Tônia Carreiro, né, a gente gostava de ver elas na televisão. E depois,aí com o tempo, quando eu trabalhava, eu comprei a TV, comprei minha televisão, comprei já minha geladeira, né, fui comprando, porque aí eu já trabalhava, ajudava minha mãe, ajudava em casa, né?

 

P/2 - Sei. E a senhora comprou primeiro o quê, primeiro a TV ou a geladeira?

 

R - A TV, comprei a TV, depois, logo em seguida, comprei a geladeira, porque tinha muitos amigos, eles facilitavam, a gente ia pagando quando podia, né. Mas era assim, a gente comprava quando podia, porque não podia, não era esse negócio de “você compra aí, se você quiser deixar para pagar”, você nunca mais paga, né, mas de primeira era um fio de barba que tinha mais do que hoje, uma duplicata assim, né, de cartório. São de confiança, essas famílias que eu tenho aqui, com quem eu tenho amizade, que eu continuei com amizade com os filhos, né, porque eu era assim, eu era menina, mas eu lidava muito com pessoas de idade. Eu dava muita atenção para pessoas de idade, sabe, eu cativava muito as pessoas de idade, ficava conversando, dando atenção, eu queria saber da vida deles, queria saber como é que eles sobreviviam, né, então isso me ajudou muito na minha vida particular, ajuda. Então essas famílias de Itaquera, com todo o respeito, eu amo de, falo de paixão, sabe?

 

P/1 - Dona Magdalena, e o que a senhora mais gosta nesse bairro, me diz aqui?

 

R - Ah, eu gosto de tudo, (riso) tudo que diz respeito à Itaquera eu amo, tudo.

 

P/1 - E o que a senhora menos gosta, tem alguma coisa que a senhora não goste no bairro?

 

R - O que eu menos gosto é de ver assim, às vezes, certos abandonos bem no centro de Itaquera, o que eu menos gosto, assim, eu acho que pessoa, se ela é pobre, está precisando trabalhar e comer, e que ela use um cantinho de Itaquera para fazer isso, para sobreviver, que deixe limpo pelo menos. O que eu menos gosto, e eu fico triste quando vejo é tanta sujeira, a pessoa faz as barracas, deixa aquela imundície, você olha lá na estação de Itaquera, lá embaixo, para você ver como é que está. Então eu acho assim, você ocupa um pedacinho de Itaquera, você veio de lá longe, mais da parte do norte, vem, vem usar o nosso pedacinho de Itaquera, cuida. Fizeram no centro de Itaquera plantações de azaleias, era a coisa mais linda, eu me lembro que tiveram vários administradores de Itaquera, ótimos, certo, eles arborizaram e fizeram tudo canteiro de flor.  Me diz se tem um?! Então, é o que eu menos gosto. Porque eu quero que as pessoas cuidem do que eles estão usando.

 

P/1 - Como que a senhora gostaria que o bairro fosse assim daqui a cinquenta anos, no futuro?

 

R - Que tivesse, não deixasse de ter memória, (riso) entendeu? Porque daqui a cinquenta anos, nós teremos novos, novas gerações, e a gente não sabe o que vai ser o futuro, né. O futuro está muito indeciso, mas vai ter boas pessoas que vão orientar, vai ter, eu tenho fé que vai ter governantes bons, nós temos governantes bons, que poderiam até fazer mais e às vezes deixam para lá. Bom, mas nós vamos ter, vai ter uma virada nessa vida que eu estou vendo como você, como vocês duas aqui na minha frente, jovens procurando resgatar o passado, e eu lá nas escolas lutando. Todas as escolas estão fazendo a memória, a história daquela escola, a história de onde eles vivem com criança de sete anos.

 

P/1 - Isso onde? Lá na Camilo?

 

R - Tem aqui embaixo, na Danilo, eu vi fazer o trabalho muito bonito, eu vi na Escrevivendo, uma escolinha particular que faz tudo que eles dizem assim: “escrevendo e vivendo”. E, lá, eu já fui duas vezes com eles para conhecerem as coisas de Itaquera, e eles fizeram a história do modo deles, então onde eles moram, o que os pais deles fizeram, eles estão resgatando a memória. E várias, a Luzia de Queiroz, fizeram um bonito trabalho com a pedreira de Itaquera, por causa do fechamento, fizeram um bonito trabalho. Agora eu exigi deles nesse fechamento, já é um outro papo, porque a pedreira quando fecha, eles fazem um aterro sanitário, se fizer aterro sanitário ninguém mais vive aqui no pedaço com o mau cheiro do gás, que isso... Aí eu entrei com várias entidades, nós entramos com projetos culturais, fomos assistir os slides do que eles vão fazer e o que vai ser feito, e exigimos em papel por Itaquera.

 

P/1 - Nossa! Dona Magdalena, tinha que ter assim cada bairro tinha que ter uma da senhora. (riso)

 

R - Eu precisava de ajuda.

 

P/2 - Ela precisava mesmo disso.

 

R - Não, sabe por quê? Porque, olha, depois que eles colocam aterro sanitário, porque está unindo a prefeitura com a Galvão, é unido, e eles tem o projeto de em quatro anos terminarem, de em quatro a cinco anos, e vai ficar reto, e vai ter talvez uma faculdade, um shopping, pelo que eu senti lá, lojas de grande porte, porque a região agora já está pedindo isso, né, e a pedreira está fechando porque ela está no meio de uma Cohab, de um Metrô e os estrondos abalam isso aqui, você entendeu?

 

P/1 - Ah, foi por conta disso que fechou?

 

R - É, não, foi o Metrô que exigiu, foi porque ele estava sentindo muita pressão, e é como eu estou falando, morrem os velhos e ficam os jovens, os jovens eles querem mais aproveitar o que os velhos deixaram, né? E eu com esse receio, falei assim: “meu pai, eu vou atrás disso aí porque se fizerem aterro sanitário, nós estamos tudo perdido”. E depois que fez...

 

P/1 - Não tira mais.

 

R - O negócio é fazer antes, sem demagogia, ir saber: “o que vocês vão fazer, vocês vão aterrar a pedreira, posso filmar, posso fotografar, para dar para os jovens de amanhã”, o que é uma pedreira, vocês não sabem nem o que é uma pedreira, entendeu? Os jovens que moram aqui, nasceram aqui, não sabem o que é pedra, não sabem o que é uma pedreira, entendeu? E eu pedi para eles também, encarecidamente, que eles, uma vez por mês, pegassem uma escola da região e permitissem que eles fossem passear dentro da pedreira, até acabar de aterrar vai tempo, e eu fiz isso por escrito, porque senão, todo mundo trabalhando, só vai atrapalhar lá dentro. E eles vão, se Deus quiser agora, para o mês, eu vou telefonar para ele, filho do dono, uma pessoa maravilhosa, e vou ver se eu tenho condições de levar pelo menos uma escola por mês, ou um grupo que se una, ou um grupo de idosos, um grupo de jovens, um grupo de crianças, qualquer coisa, que eles permitam que eles entrem para ver o que eu tirei fotos. Eu não trouxe, filha, porque é tanta coisa.

 

P/1 - Não, tudo bem!

 

R - Eu vou trazer para vocês as fotos que eu tirei agora, mas eu tirei com minha máquina mesmo, mas pelo eu vi que uma ficou mais ou menos, pelo que eu ouvi dizer está igual...

 

P/1 - Com quem que a senhora mora hoje?

 

R - Eu moro com a minha família, com meu esposo, meus filhos.

 

P/1 - Quantos filhos, a senhora tem?

 

R - Tenho dois rapazes.

 

P/1 - Como é que eles chamam?

 

R - Sidney e Vagner, tenho o maior orgulho dos meus bonecos.

 

P/1 - E quantos anos eles têm?

 

R - O Sidney fez trinta e o Vagner vinte e seis.

 

P/1 - Eles já são casados?

 

R - Não, solteiro, um está noivo, se casa agora para o ano, e o outro está comigo. Um cartorário, ele é o braço de ferro do cartório de Itaquera, inclusive...

 

P/1 - A senhora não tem netinhos então?

 

R - Não, eles ainda nascerão. São filhos maravilhosos, sabe, esses filhinhos criados, que falam assim: “enquanto eu não puder manter minha esposa, deixa ela com o pai dela.”

 

P/1 - Tem uma pergunta ainda que é de praxe, mas eu até sei o que a senhora vai responder, mas eu vou perguntar. Qual é o grande sonho da vida da senhora, que a senhora quer realizar?

 

R - Meu sonho?

 

P/1 - É.

 

R - Meu sonho é que continuasse a Paixão de Cristo no Parque do Carmo, porque é um evento que não é cobrado um tostão. Esse povo trabalha, são cento e cinquenta pessoas, grupos de família, que mostram o que é uma cultura, porque é um teatro, mostra uma cultura, porque nós ensinamos eles a fazer os próprios instrumentos de teatro, um chapéu, uma lança, uma cruz de eucalipto. Nós vamos no meio do mato, colhemos a cruz de eucalipto e fazemos a cruz de Cristo, nós fazemos ao vivo, né, demos a renda para as televisões, mais de quinze anos, todas as tevês, todos os canais de televisão vinham, passavam a Semana Santa inteira. Para programação nas tevês, que nós éramos o ponto de partida, São Paulo mostra o Parque do Carmo, foi tirado. É um sonho que eu queria que voltasse mesmo que eu esteja meio cansada, mas eu estou com todas as roupas do teatro e estou com tudo guardado, porque me deram essa parte. E a Casa da Memória. E que fizessem bom proveito da estação, que eu não consegui pegar a estação, a estação, ela tem outros projetos, e pelo que eu estou sentindo vão ser bons também. Que seria um projeto que eu vi nessa última reunião na qual eu estive, da Emprasa, e que diz que o governo vai fazer um centro de reabilitação para o deficiente, através, que é uma unidade, parece que é do Hospital das Clínicas, e como eu lido com deficientes, porque eu estudo, mas eu trabalho também, porque na Castelo tem um projeto Dinda, que abrange os idosos, criança de rua e o deficiente, é, mais é excepcional.

 

P/1 - Mental.

 

R - Mental, né, tem até carro para buscar em casa e nós que somos da terceira idade, nós nos doamos a ajudar. No último ano, né, que eu também preciso fazer um cursinho para saber poder lidar com eles. Até que eu tenho prática nisso, porque eu sempre trabalhei com isso, mas eu tenho que me aprofundar melhor. E que se for possível realizar esse sonho para o jovem, a Casa da Memória e a Casa Cultural, porque nós temos artistas natos aqui em Itaquera, em tudo que você mexe tem um artista, pintura, cantores, músicos, atletas, nós vamos até mandar um para a Espanha agora, no mês que vem, catando dinheiro, vendendo rifa, nós vamos mandar um atleta para a Espanha daqui de Itaquera. Então vendendo rifa, tudo bem, mas eu queria esse espaço para que a Casa da Cultura tivesse um espaço enorme, porque lá tem baile, teatro, música, dança, tem tudo, pôr tudo junto e dar a casinha da memória onde o aluno possa fazer um trabalho de escola decente. É um sonho, é um sonho que mesmo que eu não realize, tenho certeza que você vai realizar. (riso)

 

P/1 - A gente agradece essa entrevista, foi ótima essa entrevista.

 

R - Eu sei que a entrevista vai ser péssima. (riso)

 

 

 

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