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História

Vitória muito retumbante

História de: Fernando Ferreira Botelho (Fernandinho)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Ascendência portuguesa. Infância no Rio de Janeiro capital. Início da trajetória no Clube de Regatas do Flamengo como jogador. Estreia em um “fla-flu”. Campeonato de 1927. Faculdade de Medicina. Participação em jogos marcantes. Transformação do Cinema e do bairro Ipanema. Fundação do Olímpico Clube. Final da carreira esportista. Boemia.Trabalho no Departamento Nacional do Café e casamento.

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História completa

P/1 – Bom dia, Senhor Fernando.


R – Bom dia.

 

P/1 – Queria iniciar nossa entrevista pedindo para o senhor falar o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Fernando Ferreira Botelho, 2 de março de 1913.

 

P/1 – E o Senhor nasceu em que cidade?

 

R – Aqui no Rio de Janeiro, sou carioca.

 

P/1 – E o senhor nasceu em casa, nasceu no hospital?

 

R – Nasci em casa, na Rua Haddock Lobo.

 

P/1 – O Senhor poderia falar o nome dos seus pais e qual era a atividade deles?

 

R – Meu pai era Antônio Ferreira Botelho, e minha mãe Consuelo Ferreira Botelho. Meu pai tem um passado muito bonito. Ele veio para o Brasil, garoto, foi trabalhar no Jornal do Comércio e em 1915 ele era dono do Jornal do Comércio, era então o Comendador Antônio Ferreira Botelho, era português.

 

P/1 – A origem da sua família é portuguesa?

 

R – Não, só meu pai, minha mãe é campista, a mãe da minha mãe era carioca, nasceu na Rua do Rozo, hoje Rua Ipiranga, ali na Coelho Neto.

 

P/1 – E seu pai é português de que região?

 

R – Trás-os-Montes, meu pai é de Trás-os-Montes.

 

P/1 – O Senhor chegou a conhecer seus avós?

 

R – Não, paternos não, só do lado da minha mãe.

 

P/1 – O Senhor poderia descrever então esta casa onde nasceu? O Senhor passou a infância nela também?

 

R – É, eu passei na Rua Marquês de Abrantes, ali entre Botafogo e Catete, a rua que liga estes dois bairros, foi dali que eu fui parar lá no Flamengo, que era muito perto, na Rua Paissandu.

 

P/1 – E o senhor poderia descrever como era essa rua, Marquês de Abrantes, na época da sua infância?

 

R – Era uma rua que passava bonde para os dois lados, que ligava Botafogo, Jardim Botânico com um pouco de Copacabana, que naquela época iniciava-se Copacabana, né? Era mais ou menos o início, mas eu usava mais o túnel velho, que é ali perto do Cemitério São João Batista. Ainda hoje continua lá o túnel velho.

 

P/1 – E a sua casa, como ela era?

 

R – Era uma casa boa. Vivia bem, meu pai tinha posses, então eu vivia bem.

 

P/2 – Quem morava nesta casa?

 

R – Eu sou filho único do segundo matrimônio do meu pai, eu tinha cinco irmãos: três irmãos e duas moças, só um irmão morava comigo, os outros já estavam se... Antônio que era meu padrinho. Este me levou pela primeira vez a assistir um Fla-Flu em 1919. O campo não era esse do Fluminense, era o mesmo campo, mas era diferente, não eram essas arquibancadas que tem agora.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – O campo era assim meio aberto, eu não vou conseguir descrever bem porque eu era muito garoto, e eu tive a infelicidade de ver o Flamengo perder de quatro a zero, esse jogo em que o Fluminense foi tricampeão, então foi uma coisa que muito me mexeu porque eu já era flamenguista.

 

P/1 – Desde quando e como o Senhor se torna Flamengo?

 

R – É porque a minha mãe era solteira, conheceu a Rua Correia Dutra, morava lá e tinha muitos estudantes, e tinha o Ademar Martins que jogava com o nome de Japonês no Flamengo, a ala mais antiga que ouviu falar muito no Japonês, e o Paulo Magalhães que também jogava futebol, mas era mal, eu não me lembro bem essas coisas, mas eu tenho a impressão, mas que teve______ Flamengo, se chamava Paulo Magalhães, essa gente eu conheci toda. E foi pelo Japonês que eu fui para o Flamengo. Eu entrei no Flamengo em 1925, aí comecei minha vida ali, era pertinho, morava na Marquês de Abrantes, então tanto eu ia pela Marquês de Abrantes quanto pela Rua Índio do Brasil, porque pela Rua Farani tem aquele corte ali que era mais rápido ainda para ir para o Flamengo.

 

P/2 – Então o senhor tinha doze anos?

 

R – É, tinha uns treze anos, né? Comecei a frequentar e fiquei uma vida inteira dentro do Flamengo. Depois fui patrulhar barco lá na praia do Flamengo e acabei até remando, uma vez remei um barco lá, na época era na praia do Botafogo, as competições.

 

P/1 – Senhor Fernando, o senhor poderia contar um pouquinho como era esta sede do Flamengo que hoje já não existe mais.

 

R – Lá na praia? Na praia do Flamengo tinha um rinque muito bom, de madeira, um todo fechado assim, aberto dos lados, mas era um belo rinque, onde davam bailes, davam as festas do Flamengo ali, era o que tinha no Flamengo. A única coisa que tinha era aquele rinque de basquete, era um belo rinque. Em cima, num galpão assim tinha um vestiário, um dormitório que a gente dormia de sábado para domingo, a gente se concentrava ali, mas era uma vez só por semana, então na véspera do jogo, a gente se concentrava ali mais nada. Lá na praia era umas casas velhas muito antigas que ficavam os barcos. Lá eu conheci os “Quadros” todos, tem um que vive ainda até hoje, o Alberto Quadro, né? Eram três irmãos, eu não conhecia eles todos, mas, hoje ele tem... é o mais velho do Flamengo. Esse me ganha!

 

P/2 – E o senhor lembra quando conheceu o Japonês e ele fez o convite para ir ao clube? Como foi isso?

 

R – Ele foi na minha casa e me levou lá no Flamengo, eu queria jogar e me entrosei, né? Eu era um garoto esperto, para época eu era muito esperto, mas eu ficava lá, conhecia os jogadores todos e me entrosava, e tive o prazer de ver o campeonato de 1927, que eu assisti esse campeonato de 1927 e desapareci de casa. Depois deste campeonato, costumavam dar uns banquetes na Galeria Cruzeiro, que tinha um restaurante da Brahma.. Então, conforme tinha grandes jogos o Flamengo fazia um banquete, um jantar. E eu cheguei em casa à meia noite, minha família toda preocupadíssima comigo, porque eu tinha quinze anos mais ou menos e participei deste campeonato. Daí foi que entraram aqueles jogadores todos, que mais tarde foram meus amigos: o Amaro, o Élcio, jogadores de primeira grandeza da época, Moderato, ponta-esquerda...Foi um momento bom pra mim.

 

P/1 – Este campeonato de 1927 que o Flamengo foi campeão, o senhor lembra da campanha, dos jogos...?

 

R – Lembro. O jogo que terminou foi num domingo chuvoso lá na Paissandu e o Flamengo fez o gol a um minuto de jogo, era um bom artilheiro, esperto, esse eu marquei bem. Desse gol foi um final bom porque o Flamengo fez três a zero nesse jogo. Foi um jogo muito marcado.

 

P/1 – E como é que foi a festa? A torcida invadiu o campo?

 

R – É, não era esse público que tem hoje, né? Mas tinha aqueles aficcionados, o Flamengo tinha um torcedor que era conhecido por “Baiano” e então ele ia pela geral, ele tinha entrada franca pela geral, onde tinha aquele rinque, ele gritava: “O baiano chegou”. E ele tinha uma voz muito forte, todo mundo sabia. Era o primeiro que fazia a charanga. Ele foi inédito, não tinha muitos. Então ele gritava, tinha uma voz muito possante. Era uma coisa antiga, a gente grava, eu era garoto, a gente guarda tudo que se passou, né? Eu tive a felicidade de jogar no Flamengo e ver o melhor goleiro que eu vi na minha vida que chamava-se Amado.

 

P/1 – O senhor poderia falar um pouco sobre o Amado?

 

R – Foi extraordinário, me emociona, mas foi um goleiro maravilhoso. Ganhou tudo, ele ganhou o campeonato para o Flamengo. Um goleiro ganha um campeonato.

 

P/1 – Ganha?

 

R – Ganha. Agora, o time joga com ele.

 

P/2 – Quais eram as qualidades do Amado?

 

R – Como goleiro não tinha defeito, tanto alto como por baixo, ele tinha um metro e oitenta e quatro, era uma altura bem alta para um goleiro naquela época, tanto no chão como em cima, naquela época o goleiro era atacado mesmo, não tinha essa coisa...Hoje toca no goleiro, para. Você pegava uma bola, se você fosse arrojado no ar e caísse com a bola dentro do gol, era gol, não tinha nada de falta isso não. Hoje o goleiro é intocável na área. É fácil jogar no gol hoje. O futebol brasileiro progrediu uma barbaridade, mas os goleiros não. Todo mundo está meio entusiasmado com o goleiro do Vasco, o Helton que é um goleiro da época antiga, esperto. Tem que ser esperto, você joga com os braços e com a impulsão do corpo, então você tem que ser mais alto do que o do atacante. Mas os goleiros não saem do gol, eles não querem sair do gol. É difícil.

 

P/1 – Senhor Fernando, voltando ao Amado, o senhor viu partidas em que ele interferiu claramente no resultado, defendeu pênaltis?

 

R – Era um goleiro… Este campeonato de 1927 era um time bom, mas não era o melhor time, mas tinha uma zaga maravilhosa, tinha o Helcio, esse Helcio Paiva era um colosso, um back-central maravilhoso. Hoje em dia os back fazem gols de cabeça, com um back como o Helcio ninguém fazia gol de cabeça porque ele participava das bolas altas, jogava inteligentemente, né? Hoje em dia parece que vai ter uma briga dentro da área para bater corner, reparou isso? Nunca vi isto. Para mim é inédito. Então no futebol tem isso. Agora tem um tal de carrinho que inventaram aí, acabaram com os craques. A pessoa reclama que não tem jogador bom, jogador bom não pode jogar! Ele leva um carrinho logo. É por isso que o futebol está pior tecnicamente.

 

P/1 – Mas em 1927, quando o Flamengo foi campeão, o senhor já fazia parte das categorias de base?

 

R – Não, não fazia ainda não. Eu estava lá, era sócio aspirante no clube. Eu ficava lá, mas comecei me entrosar mesmo em 1929 assim, aí eu comecei a obter oportunidades, fui ser terceiro time, aquelas coisas… Bom, eu devia ter alguma coisa, pois fui aproveitando as fases que me deram.

 

P/1 – E o Senhor começou como goleiro ou jogava em outra posição?

 

R – É engraçado. Eu jogava numa outra posição no time de juvenis, mas era de center-half e o goleiro era um rapaz da Família Sawer, Elídio, esse rapaz se formou em Medicina, mas ele não gostava de bater bola no gol e o Flamengo tinha uma pessoa que tomava conta, que se chamava Júlio Silva. Era um senhor que era especialista em carnaval. Tinha um bloco em que ele saía sozinho, se fantasiava todo e fazia o carnaval dele sozinho. Mas no futebol ele era sério à beça, não dava moleza para os garotos não. Esse menino mesmo aquela ______ e naquele tempo não tinha substituição, eu fui jogar no gol. Aí ficou muito tempo e eu não saí mais do gol.

 

P/1 – E esse jogo em que o senhor entrou no gol, o senhor tomou algum gol ou não?

 

R – Ah, isso eu não estou me lembrando, não sei, aí eu não lembro não.

 

P/1 – Mas o resultado foi bom né? Tanto que o senhor não saiu mais.

 

R – Ah não, não saí mais. Comecei, fui jogar no terceiro time e peguei o Leônidas jogando no Sírio-Libanês. Jogava o Leônidas e o...Aquele que foi treinador, um que era da Marinha, teve projeção à beça, jogava no Sírio-libanês, agora não estou me lembrando dele. Depois fui pegar o Leônidas no Bonsucesso, jogava com o Gradinha, faziam parte da seleção carioca, era o center-four e o “esquerda”, naquele tempo não tinha numeração, né? Seria o dez, doze.

 

P/1 – As camisas não tinham número?

 

R – Não. Hoje o futebol piorou por causa da numeração, porque se você for o dois e eu for o dois, o quatro não pode substituir o dois, porque o quatro não joga na posição do dois, isso não existe. Você se adapta a tudo, né? O único treinador que eu vi, no início, adaptar os times, foi o Flávio Costa. Mudou as posições, mais ou menos, mais dava certo. Mas… Está diferente.

 

P/2 – Naquela época, de quinze, dezesseis anos, o senhor com a ideia de ser jogador de futebol, o que seus pais acharam disto?

 

R – Não acharam nada de mais, eu era bom estudante, não tinha problema nenhum. Eu com dezoito anos já entrei na faculdade de Medicina, então, não deu problema nenhum. Minha mãe gostava de futebol, meu pai não ligava, mas minha mãe gostava muito.

 

P/1 – E, falando um pouquinho de estudos, o senhor estudou em que bairros?

 

R – Eu entrei na Escola de Medicina e Cirurgia ali na Rua Frei Caneca, tem ali a Emaniano. São duas faculdades de Medicina, uma da Praia Vermelha, e esta ali da… Existe lá esta faculdade de Medicina, isto foi em 1932. Eu entrei em março, fiz o vestibular e passei.

 

P/1 – E o senhor chegou a completar o curso?

 

R – Não. Não completei. Fui até o sexto ano, eu não fiz o sexto ano, daí fui trabalhar. Na época o Flamengo era composto de médicos famosos, Ari Miranda… Eu cheguei a trabalhar com o Samuel Pereira na Décima Terceira Enfermaria da Santa Casa, que tem o Darcy Monteiro, que era também o médico, depois ele morreu muito novo, o Samuel, e o Darcy ficou com a Décima Terceira Enfermaria, que era só de homens. Naquela época, era difícil quem não tivesse alguém na Medicina.

 

P/1 – Então o senhor fez cinco anos na Medicina?

 

R – Cinco anos, não fiz o sexto.

 

P/1 – E, como é que o senhor conciliava os estudos e o Flamengo?

 

R – Naquele tempo era mais fácil, porque, segunda-feira você não treinava, você trabalhava só terça, quarta, quinta e sexta, sábado não se treinava, então nesses dias se treinava bastante. Eu peguei bons treinadores, peguei o Ramón Platero, peguei um outro também argentino, depois veio aí o boxer que também era… foi ser treinador físico. E o Flávio sempre com aquele comando, ele não era treinador ainda, ele jogava e tinha o comando, ele gostava daquilo, ele viveu a vida no futebol, era uma pessoa inteligente, honesta, perdi ele agora há pouco tempo, era o último amigo que eu tive, e ele comandava o time da gente, falava, era uma pessoa boa.

 

P/1 – O senhor poderia falar um pouco de quando o senhor chegou ao time do Flamengo, sua estreia?

 

R – Eu tinha um goleiro na minha frente, na época era o Amado, mas não vi o Amado jogar a vida toda. Ele tinha o meu nome, por isso que eu era Fernandinho, ele era Fernando Pinheiro, um bom goleiro. Ele se formou em Medicina, e o pai intransigente, ele era campista, disse: “Por que você não vem jogar aqui?”. Naquele tempo tinha dois clubes em Campos que eram famosos, era o Americano e o Goytacaz, e o pai não abriu mão dele ficar aqui no rio, que o pai era médico também, daí abriu a vaga para mim. Em 1931 eu fui campeão no segundo time, e o último jogo deste campeonato, foi um Fla-Flu, lá na Paissandu. Por surpresa minha, eu cheguei às treze horas para mudar de roupa, pois sempre o segundo time era treze e trinta horas, e o primeiro time era às quinze e quinze horas, porque não havia luz, né? E eu chegando lá no Paissandu meia hora antes e o roupeiro disse: “O capitão disse que você hoje não vai jogar”. Eu fiquei muito aborrecido, eu queria ser campeão, aquele era um Fla-Flu, mas por surpresa minha, logo depois, uma meia hora, quarenta minutos depois o capitão veio falar comigo e disse: “Olha, você vai jogar hoje no primeiro time” eu estreei num Fla-Flu em 1931 e ganhei de um a zero.

 

P/1 – Nossa que responsabilidade, hein Seu Fernando?

 

R – Não sei se foi responsabilidade, mas eu aceitei bem, e me saí bem. No ano seguinte, já em 1932, no campeonato pelo primeiro time, eu tive a felicidade, que para mim foi a maior emoção da minha vida, porque eu ganhei do Fluminense de quatro a zero, e a primeira vez que eu vi o Flamengo jogar com o Fluminense, eu perdi de quatro a zero. Treze anos depois, eu tive esta felicidade. E lá no tal banquete, lá na Brahma, por esta vitória, que foi uma vitória muito retumbante, quatro a zero em cima do Fluminense, eu participei já como jogador, participei da outra em 1927 de cachê (rindo), eu fui lá, tinha muitos amigos, já era muito conhecido dentro do Flamengo. Minha maior emoção no futebol foi esta, porque eu tirei uma forra, não pensei nunca que pudesse acontecer, foi muita coincidência.

 

P/1 – E como é que foi este jogo? O senhor se lembra dos jogadores que participaram?

 

R – Ah, lembro tudo, o goleiro era o Veloso, que foi da seleção de 1930 na reserva do Joel do América, jogava o Preguinho, jogava Teófilo, era um ala esquerda de seleção, que foram à Copa do Mundo de 1930, quem mais? Ah tinha um jogador que era meio de campo, o Demóstenes, que foi o primeiro jogador a sair do Brasil para jogar na Itália, o Ivan, meu amigo Ivan Mariz, que morreu agora uma irmã dele, a Ivete que foi atleta do Fluminense também no Botafogo...

 

P/1 – E do lado do Flamengo, quem jogava?

 

R – Jogava eu Moisés e Mimi, que eram dois backs maravilhosos, jogava o Flávio e o Vicentinho, que depois foi para o Fluminense, Vicente Rondinelli. Nelson, um garoto bom, meia-esquerda goleador, fez três gols neste jogo, o Baianinho, o Vicentino, o Danelson, o Cássio… Bom mesmo eram os dois backs, o Vicentino, que era um bom jogador e o Nelson que era um bom goleador, era um garoto como eu, tinha a minha idade, viemos juntos do segundo time, viemos eu, ele e o Moisés.

 

P/1 – E o senhor foi muito exigido neste jogo?

 

R – Antigamente os goleiros eram bem exigidos, porque não havia setor de tabela, eram jogos muito centrados, esta tabela veio aparecer muito depois, na época do Zizinho não tinha tabela também, o jogo era o jogo jogado, fazia três, levava dois, fazia quatro, era bem assim. O time do Pelé fazia seis e levava três, mas fazia né? O time do Zico também. A tabela reduziu o placar e acabou com o jogo também, e o goleiro não participa. Se você vê o goleiro jogar, ele pega na bola poucas vezes, são poucos chutes a gol, porque hoje não tem jogadores assim de...

 

P/2 – E as bolas eram pesadas também.

 

R – Não, a bola até que não. Eu acho que aquelas bolas Mccgregor eram mais leves.

 

P/2 – Como era...Tinha a Mccgregor...

 

R – E depois veio a bola argentina, essa tal bola que joga agora que é cheia pelo...diferente do pneu do automóvel, né? A outra era enchida de bomba.

 

P/2 – E como eram os treinos?

 

R – Era o primeiro contra o segundo time, como havia jogo toda semana, era uma disputa entre nós mesmos, pois o segundo time queria subir para o primeiro (risos). Acontecia, às vezes subia um, não havia substitutos, entrou no campo, era aquilo, não tinha reservas não.

 

P/1 – E o goleiro, tinha algum treinamento?

 

P/2 – Senhor Fernando, o Amado, que tipo de treinador ele era? Enérgico, paciente?

 

R – Ele era uma pessoa que se preparava, e ensinava os outros a se prepararem, para jogar no gol, então você tinha que imitar, porque, uma pessoa que está em projeção, um goleiro, então, eu tenho que aprender o que ele faz, não é? Eu vou inventar? Se ele é bom eu não vou inventar, tem que copiar. Então eu fui uma cópia, não com o físico que ele tinha. Naquela época, eu tinha um metro e setenta e sete, um metro e setenta e oito, hoje eu estou com um metro e setenta e quatro, na minha idade diminui também. Mas eu me preparava, com um banquinho pequeno que ele fazia assim no vestiário e ficava pedalando, que dava uma impulsão. “Você precisa de impulsão e o resto acompanha.” “Acompanha aqui, você fica bem mais alto que os outros”, dava mais ou menos uns sessenta a setenta centímetros a mais, então o cabeceador não vai pegar essa bola, você indo lá né? 

 

P/1 – Não entendi. Como era o negócio do banco?

 

R – Era um banco que ficava colado na parede, e você ficava pulando, com uma perna e com outra, assim você faz musculação nas pernas e sobe bem. Os braços também ajudam, e cabeça tem que funcionar um pouco, eu acho que o goleiro tem de ser inteligente.

 

P/1 – Quais eram suas características como goleiro?

 

R – Normal. Jogava para engolir as difíceis e pegar as fáceis (risos). Apesar de que as difíceis você ainda pega de vez em quando, né? Agora engolir as fáceis é que fica ruim.

 

P/1 – E tem algum caso em que o senhor tomou o seu “franguinho”?  

 

R – Olha, quem não joga no gol não pega frango, todos pegam. Na minha vida, tem um gol que eu levei, que eu não me esqueço, mas foi esse gol, uma cabeçada de Carvalho Leite, eu podia ter pego esta bola, mas não peguei. Empatei este jogo em dois a dois, era um jogo muito importante para o Flamengo naquele tempo, aconteceu, mais ele era um belo cabeceador. Eu achava que podia ter pego, foi a única também que eu me lembro disto, entre o goleiro e a baliza, ah eu não aceito nunca, brigo com minha mulher...

 

P/1 – E o senhor chegou a defender algum pênalti?

 

R – Peguei sim, peguei. Não houve muitos pênaltis, mas peguei.

 

P/1 – Como é o segredo de você defender um pênalti?

 

R – Não tem segredo, e só você sentir que ele vai bater a bola naquele lugar, aí você leva uma vantagem. Hoje em dia, na televisão, você aprende, você conhece como você joga, a maneira de você bater um pênalti, então te ajuda mais. Eu peguei um pênalti contra o Botafogo, tinham vários batedores, mas quem sempre batia sempre os pênaltis do Botafogo, era o Ever ponta direita que jogava, mas ele batia igualzinho. Eu dizia para o Moisés: “O dia que fizerem um pênalti, eu vou pegar”. Daí eu joguei para um lado, me deu uma vantagem, né? Ele bateu naquele lugar que eu achei que ele iria bater. Foi aí que eu prestei atenção. São coisas que acontecem, mas é difícil ter pênaltis contra, eu não tive muitos pênaltis contra mim não, engraçado.

 

P/1 – Hoje em dia, é muito comum os goleiros se meterem a fazer gols. Naquela época tinha isto também?

 

R – Não. Nunca vi isso. É como uma arma de dois gumes né? Não sei se esse goleiro do São Paulo já sofreu algum gol assim. Teria que preparar um atacante do seu time, para bater as penalidades, né? Não vai ser um goleiro, é que aquele goleiro estrangeiro, como é que é? Paraguaio. O Chilavert tem uma vantagem, ele tem uma força violenta, o Rogério não, o Rogério bate colocado. Eu não aprovo.

 

P/1 – O senhor estava falando de televisão, então eu queria voltar um pouco. Na época do senhor a transmissão do futebol era pelo rádio. O senhor, antes de jogar, quando era mais jovem, acompanhava os jogos do Flamengo pelo rádio?

 

R – Quando eu parei de jogar?

 

P/1 – Não. Antes de estar jogando.

 

R – Eu não tive tempo não. O rádio era muito fraco, mas muito fraco mesmo. No meu tempo já era fraco em trinta e poucos.

 

P/1 – Mas as partidas já eram irradiadas?

 

R – Já eram. Eu me lembro bem daqueles jogos em Bueno Aires em que diziam “mataram este, mataram aquele...”, aqueles jogos entre Brasil e Argentina, né? Não tinha nada daquilo. Aquilo era tudo inventado pelos radiadores, não era nada verdade aquilo. Tinha jogo que era matado sim. Teve um jogo em Montevidéu que foi uma carnificina, mas foi no finalzinho do jogo só, durante o jogo foi bem. Foi no estádio Centenário que era o maior estádio da época.

 

P/1 – Contra quem foi este jogo?

 

R – Peñarol. Um jogão com aqueles campeões do mundo. Isto foi em janeiro de 1933, eles tinham conquistado o campeonato do mundo em 1930, Anselmo, Lorenzo Fernández, uns jogadores bons.

 

P/1 – Estes jogos foram no estádio Centenário. O Flamengo viajou de quê?

 

R – Navio. Não tinha avião nesta época.

 

P/1 – E quanto tempo demorava?

 

R – Quatro dias mais ou menos. Saía, parava em Santos depois em Montevidéu, depois ia para Buenos Aires.

 

P/1 – Bem, Flamengo voltou de lá invicto, né?

 

R – Sim. Jogamos duas partidas. A primeira ganhamos de três a dois, a segunda nós fomos roubados, empatou de um a um e um gol que nós fizemos, a bola entrou mais de meio metro e ele, o juiz, não deu o gol. Não adianta, nós estamos em 2001, eu vou contestar 1933, que eu não engoli a bola, e que o verdadeiro resultado foi dois a zero, mas não foi, foi um a um.

 

P/1 – A bola não entrou e o juiz deu gol? 

 

R – A bola bateu em cima e eu peguei. Se eu estivesse dentro do gol, não podia apanhar a bola. Eu não jogava dentro do gol, jogava mais ou menos um passo fora sempre, então ela bateu e veio para minha mão e eu segurei. Ele marcou o gol. E o ponta-esquerda nosso, que era o Jarbas, fez um gol em que a bola entrou mais de meio metro e ele mandou continuar. Mas nesse jogo o pau comeu feio lá.

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – No final do jogo, antes de acabar, o jogo ficou muito forte. O Flamengo havia levado um reforço o Gradinha e do lado de lá, o irmão do Domingos, que o Vicentinho tinha saído para o Fluminense, esse meio-direita nosso. E aí nós apanhamos emprestado o Gradinha e o Ladinal. Era um time forte, valente, o Flavinho jogava também. O Flávio castigava, tinha o Rubens, tinha o Luciano, jogadores fortes. Naquele campo grande, cheio de gente... Eu estava com vinte e poucos anos, mas já estava calejado de jogar em primeiro time.

 

P/1 – E o Flávio, quando jogava, como ele era em campo? 

 

R – Ele era, como se diz, ele gritava com a gente, brigava. Era um pouco violento, mas não era tão forte assim, um jogador que não quer perder. Brigava com o lateral do mesmo time, que foram campeões em 1927, o Rubens e o Flávio tiveram uma briga feia, um deu uma pancada no outro, coisas do futebol, mas ele comandava. Ele fala muito comigo nesse time que nós tivemos em 1932, que foi um time novo, praticamente novo e que jogava bem, jogava com vontade. O time do Botafogo era um time profissional praticamente, naquele tempo profissional era Botafogo. Foi quando o Fluminense, em 1933 fez a liga de profissional, foi o Arnaldo que armou isso, que comprou aqueles jogadores todos do São Paulo, vieram para o Fluminense, a maior parte dos bons jogadores da época, era o Orozimbo, o Zarzur, não, o Zarzur não foi do Fluminense, Romeu, Tim, Hércules, todos jogadores de primeira grandeza. Jogavam em São Paulo e ele trouxe tudo para cá, o goleiro Batatais, o Machado, trouxe gente boa à beça.

 

P/1 – Essa época, o senhor pegou o fim do amadorismo...

 

R – Eu fui um jogador do princípio do profissionalismo, e peguei jogadores maravilhosos, nesta época… Quando se fala em craques… O futebol é outro? O futebol é outro, agora a personalidade do jogador é a mesma. Cada um joga o que joga. Você não inventa jogo, você tem aquele dom de jogar futebol, tem outros que sabem dar muito carrinho.

 

P/1 – Como o senhor descreveria o regime do amadorismo?

 

R – No Flamengo era normal, a rapaziada toda, tudo estudante, a maior parte. Então não tinha nada assim, como se dizia, não. O meu time era um time normal. Era amor. Amor ao esporte, amor ao jogo. Diziam que outros clubes pagavam os jogadores, o Vasco, o Fluminense depois... O Fluminense não tinha ninguém, por isso perdeu, ficou vinte e quatro anos sem ganhar campeonatos, ficou maluco, né? Queriam ganhar campeonatos. Houve um momento em que… Como iam arranjar jogadores? Do profissional, daí compraram lá de São Paulo. Comprou muita coisa boa do futebol paulista.

 

P/1 – Mas vocês não receberam uma espécie de prêmio, de gratificação?

 

R – Naquela época tinha, como posso dizer, o “bicho”. Mas o bicho era dez reais. E valia dinheiro naquela época, quero dizer, valia...

 

P/1 – Dava para comprar o quê com o dinheiro do bicho?

 

R – Graças a Deus naquela época eu tinha uma vida tão boa em casa que eu não precisava do bicho. Mas tinham outros que precisavam, tinha os estudantes que moravam em… Aliás, esta era a vantagem, tinha os estudantes que vinham de Minas, o Vicentino, o Cássio, o Eloi, todos do interior de São Paulo e Minas, e vinham morar no Flamengo, neste rinque que tinha, no primeiro andar, tinha uma escada que subia, tinha um dormitório bem arrumado para eles. Então, eles não tinham essa despesa que os pais mandavam para eles estudarem aqui, tinham essa vantagem, moravam no Flamengo. Era um benefício. Os times de bairro, inclusive o América era um time bom, na época era um time de bairro, tinha a Tijuca, tinha bons jogadores, mas tinha muita rapaziada que morava lá na Tijuca e jogava lá no América. Eles tiveram um goleiro muito bom, o Joel, eles tinham uma vida boa, ali tinha dois colégios muito importantes, o Batista e o Lafayette, colégios muito bons, terrenos enormes, era uma vida diferente da atual. Não tinha favela. Favela era o morro da favela ali na Central do Brasil, mas aquela não era uma favela, era um morro. Está lá linda até hoje. Tem ruas e tem casas e prédios. Favela não existia. Moravam no subúrbio, mas em casinhas bonitinhas, não tinha favela. Vinham bons jogadores. Tinham jogadores bons naquela época.

 

P/2 – Existia amizade entre os jogadores, fora de campo?

 

R – Não. Tornávamos inimigos, não tinha muito papo. Não tinha muita convivência.

 

P/2 – Me refiro aos jogadores do Flamengo.

 

R – Ah, era uma família.

 

P/2 – Fora os jogos de futebol, que tipo de lazer ou divertimento vocês tinham?

 

R – Naquele tempo não tinha lazer não. Tinha a escola de dança, nada assim de importante, tinha o cinema. O cinema no Rio de Janeiro foi uma… Quando apareceu o cinema falado, o cinema musicado, eu digo, foi uma das coisas mais extraordinárias que apareceu no Rio de Janeiro. Aqueles cinemas ricos, aqueles filmes, shows, aquilo foi uma beleza no Rio de Janeiro, bons cinemas na época, o Odilon, o Império, o Catete, Palácio de Artes, o Cine Mastro que era o melhor de todos. Eu considero o cinema falado, um dos maiores eventos que vieram para o Brasil.

 

P/1 – E o senhor pegou então o cinema mudo...

 

R – Peguei o cinema mudo, depois veio logo o falado.

 

P/1 – E como é que foi a primeira sessão que o senhor pegou em que o cinema já era sonoro? Isto lhe impressionou muito?

 

R – O Carlito foi uma pessoa que chamou muito a atenção na minha mocidade, quando garoto e futuro rapaz, o Rodolfo Valentino, eu guardo tudo aqui, mais ou menos. A transformação para o cinema falado, foi uma coisa louca, aqueles musicais coloridos, foi uma beleza. Sabe quando você vê Hollywood né? Filmes antigos. Eles falam aí, tal, o Fred Astaire foi uma loucura né?

 

P/2 – O senhor frequentava com seus pais, ou com...

 

R – Não, sozinho. Naquela época...

 

P/1 – Em torno de 1930, fizeram um filme sobre o Flamengo, filmaram a sede, o Ademar Gonzaga. O senhor se lembra disto? Dessa sessão? Foi passada lá no Flamengo?

 

R – Não me lembro. Engraçado, disto eu não me lembro. Do Flamengo não. Eu tinha uns amigos compositores na época, o Wilson Baptista né?

 

P/1 – Ah, o Wilson Baptista é seu amigo?

 

R – Meu amigão.

 

P/1 – Vamos falar um pouco dele. Ele tem várias músicas sobre o Flamengo.

 

R – Ele era um flamenguista. O Ary era meu amigo, o Sílvio Caldas, que morreu agora, era meu companheiraço.

 

P/1 – Como é que o senhor conheceu o Wilson?

 

R – Flamengo. Na Rio Branco? Ali existia o Café Rio Branco, onde frequentava a turma do Flamengo. Ali era a fortaleza do Flamengo, chamava-se Café Rio Branco. Então aqueles que eram flamenguistas apareciam, porque ali era caminho para quem vai para Niterói. O Ciro Monteiro. Quem trouxe o Zizinho do Flamengo foi o Ciro Monteiro, que era gente lá de Niterói. Então, o Ciro Monteiro era parente do Cauby Peixoto, e o Cauby Peixoto tinha o Nonô que era um pianista. Isto tudo foi uma introdução do Flamengo. Eu, quando conheci o Ary, ele era do Fluminense e não era Flamengo. Outro grande amigo meu, que também se mudou para o Fluminense: Haroldo Barbosa, Haroldo e Evaldo Barbosa, dois compositores, foi fantástico.

 

P/1 – E o senhor sabe contar a história do porquê o Ary, de Fluminense virou Flamengo?

 

R – Ele ficou contrariado no Fluminense por alguma coisa que ele quis, como o Haroldo Barbosa também ficou contrariado no Flamengo por alguma coisa… Então, quando eu queria provocar o Haroldo, eu dizia: “Haroldo, eu ti vi em 1943, com uma bandeirinha do Flamengo, como é que você mudou?”. Ele ficava… E eu dizia para ele: “Pau que nasce torto, não endireita” (risos). Foi uma pena a morte dele. Todos os meus amigos foram da minha geração. Sabe de quem eu fui muito amigo? Custódio Mesquita e Mário Lago. Eram inseparáveis, só andavam na boemia, juntos. Custódio era irmão do... como é que era o nome dele? O back do Fluminense.

 

P/1 – O senhor está falando aí, de ilustres rubro-negros que conheceu ao longo da vida, né?

 

R – Na boemia, né? Na, boemia. Porque quando eu parei de jogar futebol, eu parei em 1935, eu era novo, estava com vinte e dois anos, aí eu entrei na boemia, e eu era muito conhecido porque jogava no Flamengo, então estas pessoas todas, que eu estou falando, passaram a ser meus amigos. Veja você, eu me casei com trinta e sete anos, foi o meu primeiro casamento, eu estava vendo que não ia me casar, porque a boemia estava gostosa. (risos) Então, com este grupo todo que eu andava, de gente de bem, não eram ricos, eram muito passados para trás, porque eles gravavam, compunham muitas coisas, ninguém tinha dinheiro, nesse tempo era todo mundo duro. Era uma boemia gostosa, a gente ficava sentado ali na Cinelândia, o Sílvio e o Orestes Barbosa moravam em Paquetá, eles perdiam a barca das dez e meia, para ir na das cinco horas. Para as famílias eles perderam a barca, né? Era a primeira barca que ia para Paquetá, para trazer o pessoal que vinha trabalhar no Rio. Então a gente ficava ali na boemia. Eu me soltei, quero dizer, quando eu joguei futebol, eu estava muito concentrado, eu era garoto, não tive boemia nenhuma, mas quando me largaram e eu parei de jogar futebol... Eu era muito conhecido, para aquele clube que tinha naquela época, eu era bastante conhecido, jogava no Flamengo, aquelas coisas e tal, e entrei na boemia.

 

P/1 – Já que o senhor está falando nessa coisa de ser conhecido, a fama que vocês, jogadores do Flamengo tinham, era correspondente a esta coisa de hoje, ou não?

 

R – Não. Não era porque a população não era toda essa que tem aí. Não tinha essa população no Rio de Janeiro. Você não era assaltado, podia andar à vontade solto por aí que não acontecia nada. A vida era uma vida aberta, você ficava conversando na rua. A boemia era boa.

 

P/1 – Mas o senhor era reconhecido, falavam “esse é o Fernandinho do Flamengo!”?

 

R – Até uns vinte anos atrás ainda me reconheciam, recentemente agora, eu achei até engraçado, eu fui ao médico com a minha mulher, ali na Visconde de Pirajá, ela teimou que eu fizesse um check-up. “Mas eu não tenho sentido nada, eu não quero fazer coisa nenhuma, o dia que eu sentir alguma coisa, eu falo.” Aí fui no médico ali, daqui a pouco a moça me chamou: “Seu Fernando, pode entrar”. Tinha um casal sentado, esperando a vez, ele era um português, senhor já, disse: “O senhor não é o Seu Fernandinho?”. Quero dizer, ele devia ter minha idade ou mais do que eu, ele me viu jogar, né? Tanto que me chamou de Fernandinho. Lá no Flamengo, tem uns quatro ou cinco que me viram jogar, porque eu parei muito cedo, parei com vinte e dois anos, comecei cedo e parei cedo.

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – O meu joelho. Eu, nesse período agora, estou dormindo no refrigerado, à noite me deu aquela dor, feito uma dor de… Nunca tive nada de dor, eu tive quando joguei futebol, meus joelhos inchavam, eu tinha de botar aquela agulha para tirar aquele líquido que dava, naquela época diziam que era “joelho d’água”. Mas eu tive dois companheiros de time, um no meu clube, que jogava como Almeida, e o outro no Botafogo, que operaram e ficaram com o joelho duro, perna dura, quero dizer, ficaram puxando a perna, ficaram aleijados e não puderam mais jogar futebol. Não voltaram a jogar e eu… Esse Ariel até se formou em Medicina. Não resolvido, então parei.

 

P/1 – Mas o que teve com o joelho do senhor, foi um incidente de jogo...?

 

R – Eu acho, e tenho quase certeza depois que o tempo passa, que num determinado lance qualquer, chutaram a bola, eu estava caído, meti esse pé, e a bola me pegou na ponta do pé, e eu senti uma dor no joelho no momento. Quero dizer, meu pé torceu, se meu pé estivesse no chão, talvez não tivesse acontecido nada, mas estava no ar, então houve aquela batida. E daí pra cá, andar não me incomodou, mas daí pra cá, meu joelho começou a inchar e, eu ia aos médicos, fazia aqueles tratamentos de termia, aquelas coisas antigas...

 

P/1 – Como é que se chamava o tratamento?

 

R – Termia. Eles botavam umas placas de aço e até que melhorava, fazia aquele aquecimento e tal, depois quando eu voltava a treinar e a mexer… E o meu treinamento, era um treinamento sempre mais violento, o do goleiro, porque eles batem e eu salto para lá, e aquele movimento de perna, e o joelho inchava. Daí eu fui tapeando. Eu que joguei um campeonato inteiro em 1932, em 1933 estava jogando o campeonato… Acho que foi em 1933 que aconteceu isto, ou 1934, não sei. Eu ainda insisti, queria jogar, não queria ficar na reserva. Eu estava habituado a só jogar. Comecei em 1931, jogando, jogando, 1932 jogando, jogando. Jogando campeonatos inteiros. Daí o Flamengo perdeu o Moisés e o Mimi, e o time enfraqueceu bastante, perdemos o Baianinho, que foi para Bahia, o Vicentinho que foi para o Fluminense, o Luciano que foi para o Fluminense. Nesse tempo, o Flamengo teve uma desilusão, mas ganhamos aquele Afonsinho que jogou na seleção, veio o Roberto que era ponta-direita, eram bons jogadores, mas caiu. Os backs eram muito ruins quando saiu o Moisés e o Mimi, ficou muito ruim.

 

P/1 – E, com que técnicos o senhor já trabalhou?

 

R – Bom, o Ramón Platero foi um técnico com quem eu trabalhei muito, em 1931, em 1932. Depois o Flávio começou a comandar o time, depois eu não passei mais deste tempo, veio aquele Kruschner, quando eu parei veio o Dori Kruschner. Não posso nem falar nada. Quando eu vi que não estava dando, que já não ia jogar mais, ia ser substituído, preferi largar, muito chateado, mas larguei.

 

P/2 – Mas continua frequentando o Flamengo, o Flávio Costa, a turma?

 

R – Eu fiquei sempre com o Flávio. O Flávio foi meu amigo, um grande amigo, até agora, até a morte. Nós, quando nos juntávamos, nos beijávamos, muito carinho um com o outro. Ele não me chamava de Fernandinho, me chamava de Botelho, sempre me chamou de Botelho, por que eu não sei. Ele me viu garoto, ele me viu crescer, ele me viu subir, ele me viu tudo. Ele me viu quando fui campeão em 1927, que ele jogava, eu não jogava, não fazia nada, fazia por ele, por um outro lá que era muito meu amigo, o Vadinho que jogava na esquerda e morava perto de mim. Eles me levaram, e eu, como é que se diz, entrei na “farra” deles desde garoto, eu era a pessoa sempre indicada para estar lá. Eu era muito moleque também, muito brincalhão, uma pessoa muito expansiva, por isso eu levava minhas vantagens.

 

P/1 – O Flamengo já tinha uma torcida forte?

 

R – Tinha. Sempre teve uma torcida forte. Foi crescendo com a população, né? Mas sempre foi um time forte.

 

P/1 – E a torcida incentivava vocês?

 

R – Ah, sempre, sempre acompanhava. Antigamente era um “circo de cavalinhos”, né? Jogava no Bonsucesso e Bonsucesso está aí, jogava na Rua Ferrer, não é esse campo do Bangu, é o outro que tinha, ia a Bangu, eles apedrejavam a gente de laranja, no trem, a gente vinha de trem, eles apedrejavam mas não era pedra, era laranja. Tinha muita laranja naquele tempo lá, eles exportavam laranja. São Cristóvão, esse campinho aí, aquilo para o goleiro, era uma maldade, um campo estreitinho, aqueles corner tudo curto.

 

P/1 – E a torcida jogava coisas no goleiro também?

 

R – Não, não. No América era terrível, o gol do América do lado da social, era terrível, se você jogava naquele gol ali, você sofria, Mandaraí, campo duro de se jogar. Fluminense e Vasco, era um doce de coco, mas os outros eram assim, no Botafogo, aquele General Severiano, não era essa sopa, que eles jogam aí não. E valia o goleiro ser atacado e...

 

P/2 – E o senhor chegou a sofrer agressões?

 

R – Eu fui muito preparado por esse Hélcio Paiva, tem umas coisas que eu não posso contar, mas eu fui muito preparado por ele. E eu levava vantagem também, porque era esperto, atrevido, naquele tempo se dizia que a pessoa era atrevida, não era mansinho não, era esperto demais.

 

P/1 – A gente conversa com muitos goleiros, e todo mundo diz que a defesa, a ponte, é uma invenção argentina, dos goleiros argentinos, isto é verdade?

 

R – Hum, não sei.

 

P/1 – O senhor já fazia ponte?

 

R – Não precisava fazer muitas pontes, você chegava na bola antes da ponte. A ponte é para tirar fotografia que é gol (risos). Tem de chegar na bola antes de precisar fazer ponte, né? Chegando mais perto, você não vai fazer ponte! Naquele tempo o jogo era tão difícil para o goleiro, que aquelas bolas centradas você pulava e jogava elas para trás, fazia córner, porque lá o atropelo era grande, você se segurava na baliza, porque eles te pegavam, você jogava e se segurava na baliza. O jogo era mais duro para o goleiro, porque era mais chutado. Eu pegava vinte, trinta bolas num jogo. Não chutam hoje, você vai no jogo, e não chutam. Aquele primeiro tempo do Flamengo ontem chutaram uma bola para o goleiro, e ele fez a defesa, e uma que a bola entrou, né? Não chutam. O Júlio César teve um pouco mais de trabalho, porque a defesa joga um pouco aberta, mas o primeiro gol dele foi fraco. Ele tinha como defender aquela bola. Ele não entrou no entrevero, tem que entrar no entrevero, aquela bola veio, você tem entrar junto.



P/1 – Já que o senhor está comentando o jogo do Rio-São Paulo de ontem, o senhor disputou a primeira edição deste torneio?

 

R – Sim. Eu estava, outro dia, assistindo à televisão, e falavam sobre o Rio-São Paulo e tal, e apareceu o retrato do Waldemar de Brito, que fez trinta e três gols neste campeonato de 1933, um craque. Tinha um irmão que jogava na Argentina, o Petronilho. Depois ele também foi para a Argentina, mas lá quebraram ele, porque ele era bom demais, jogava muita bola.

 

 P/1 – E qual foi a participação do Flamengo neste Rio-São Paulo? 

 

R – Não foi boa, não. Não me lembro bem, mas não foi boa. A gente jogava uns jogos lá em São Paulo, no inverno, o campo ficava molhado, aquele sereno… Eu me lembro do jogo que eu perdi para o São Paulo de três a um, desse jogo me lembro bem. Foi quando eu vi que o Waldemar jogava demais. Mas era um time bom, tinha o Waldemar, tinha o Luizinho ponta-direita, o Araken, o Hércules, um time maravilhoso. Hoje dizem para mim que eu sou saudosista, eu não sou saudosista, o futebol ficou mais rápido, mas os jogadores diminuíram muito. Eu digo, por exemplo, que o maior jogador que eu vi jogar na minha vida, se chama Zico, já é uma geração nova. Eles querem me matar quando eu digo isto!

 

P/2 – E os que falam do Zizinho?

 

R – Bom, ele também foi extraordinário. Eles todos são bons. Tem o Jair da Rosa Pinto, que foi o melhor canhoto que eu vi na minha vida. O Zico fez tudo, passava, fazia gol, armava o time, era um jogador que eu costumo dizer, não era o mesmo estilo, mas parecia com o Ciniro [Nilo?] do Botafogo, que foi um jogador extraordinário. Ele foi campeão em 1925, eu joguei contra ele em 1932, ele tinha sete anos a mais de vida, era demais. Esse time do Botafogo foi um dos grandes times que eu vi jogar, o de 1932. E eles não foram para a liga profissional porque eles ficaram danados, porque eles iam tiram o outro campeonato de 1933. Era um time que não tinha defeitos, digo, defeitos todos tinham, mas era um time bem armado. O time do Zico era um time bem armado. Inclusive o Júnior é um jogador bom, mas não era dos melhores do Flamengo naquela época do Zico, tinha melhores do que o Júnior.

 

P/1 – Gostaria de voltar no tempo, já que o senhor tem essa memória ótima, queria que o senhor descrevesse para quem nunca viu, como era o Flamengo na Rua Paissandu.

 

R – Era um clube normal, aqueles treinamentos de terça à sexta-feira, não faltava nada. Eu me lembro bem que vinha um baú com material esportivo da Inglaterra, aqui não tinha, sabe essas malas grandes de madeira? Vinha de navio. Se fosse agora nesta época em que se troca de camisa, no terceiro jogo o Flamengo não teria mais camisa para jogar! Vinham meias muito boas, ótimas camisas de goleiro, muito boas...

 

 P/1 – Pretas?

 

R – Não. Vinha vermelho e azul-marinho. Tinha também umas brancas, com os frisos vermelho e preto aqui e… Um material esportivo bom, chuteiras… Mas depois nós descobrimos que na Rua das Laranjeiras tinha um sapateiro que fazia as chuteiras do Fluminense, aí começamos a fazer chuteiras lá, e melhorou muito. Aquelas chuteiras que vinham da Inglaterra eram um pouco duras.

 

P/1 – Como eram as chuteiras que vinham da Inglaterra? 

 

R – Eram chuteiras normais, mas era daquele couro forte assim, entendeu? Era bom para o Hélcio que era grande, vestiam bem o Amado, mas para mim já não dava para botar aquela chuteira, era meio dura aquela chuteira.

 

P/1 – Como era o uniforme básico de um goleiro na década de 1930?

 

R – Era um calção branco simples, o Botafogo agora está jogando com um calção branco, eu disse para a minha mulher: “Aquele era o uniforme que eu jogava contra o Botafogo”. Porque agora eles inventaram em dizer que o Flamengo não pode jogar contra o América, com a camisa parecida, que conversa fiada é essa! Eles estão inventando isso! Você sabe qual é um jogador, qual é outro, hoje tem essa história de que confunde o uniforme, ninguém tinha segundo uniforme, todos tinham o primeiro uniforme. Então, eram todos de calção branco, eu me erradiquei muito nas camisas azuis, de três botões, manga comprida, mas eu joguei sempre arregaçando as mangas. Mangas sempre limpas.

 

P/1 – E luvas?

 

R – Não. Não existia. Usava breu. Breu de balão. Socava bem socado o breu, só no dia de chuva, levava dentro de uma toalha, na hora do jogo você ia lá e molhava a mão no breu, naquele farelo, as unhas ficavam que para tirar só com água quente, mas ajudava porque a bola ficava mais agarrada na mão, não corria. Era bom, não sei quem inventou, mas que se usava, usava.

 

P/1 – E o que mais?

 

R – Joelheira, tornozeleira, isto todo mundo usava, isto era normal. Caneleira não, muito pouco.

 

P/2 – E como se cobria? Meia dupla ou com...  

  

R – É, aquelas meias inglesas eram muito grossas, você, colocando duas meias daquelas, ficava bem protegido, porque eram meias boas mesmo. Aqui não se fazia nada para esporte, era tudo importado. Camisa não tinha, eu não sei como é que os outros clubes faziam para ter. As do Flamengo vinham da Inglaterra. Devem ter copiado de alguém, né? 

 

P/1 – As camisas vermelho e pretas vinham da Inglaterra?

 

R – As fotografias que eu tenho, é com camisas inglesas. Teve umas que vieram com uma bolinha branquinha aqui, daí o pessoal chiou um pouco. Mas aí os jogadores dobravam, viravam assim e sumia o branco. E eram boas as camisas.

 

P/2 – Depois vocês tinham de colocar o escudo?

 

R – Nunca usei o escudo. Era muita “frescaiada” aqui botar o escudo. Estávamos jogando no Flamengo, usar o escudo do Flamengo, pô! 

 

P/2 – E quando vocês jogaram aquele Rio-São Paulo, como é que foi a viagem para São Paulo? Onde a equipe ficou em São Paulo?

 

R – Até que nós ficamos bem instalados naquela primeira vez. Fomos para o Esplanada Hotel, era o melhor hotel de São Paulo na época. Isso eu não me esqueci não. 

 

P/1 – E vocês foram de trem?

 

R – Trem. Era sempre de trem, né? Dormia lá, no dia seguinte voltava. Mas o hotel era de primeira.

 

P/1 – E os jogos eram...

 

R – Noturnos. Em São Paulo já eram noturnos.

 

P/1 – No Canindé?

 

R – O único campo em que eu joguei em São Paulo que existe foi o Parque Antártica, o Palestra Itália, todos os outros acabaram, não tem mais. E ele é velho, aquele campo lá é velho. Deve valer uma fortuna, porque ele deve estar dentro da cidade, né? Eu joguei contra o Palestra Itália, era a mesma coisa, mas era o Palestra Itália. Depois da guerra eles acabaram com o clube. E o campo São Jorge, que era do Corinthians, mas esse não existe mais. Não tem mais campo. Dos que eu joguei, só o Antárctica.

 

P/1 – Voltando a falar da Paissandu, o senhor poderia descrever fisicamente, como era o campo? Ele tinha arquibancada? A arquibancada era de quê?

 

R – Ele tinha uma arquibancada de cimento normal, embaixo eram os vestiários, embaixo tinha também um bar e uma sala de troféus, já naquele tempo. Você entrava pela própria Paissandu, do lado esquerdo entrava nos vestiários dos dois clubes, do Flamengo e do visitante, do lado de cá tinha a sala dos troféus e lá no outro lado tinha um bar grande. Agora, a seguir desta arquibancada, tinha uma arquibancada de madeira, e do outro lado também tinha. Atrás do gol do Paissandu, que era esse clube Paissandu que tem agora na Lagoa, já existia lá um time de bocha, jogavam bocha de ferro, um gramado bonito, tempo que o nosso gramado que era castigado, e do lado oposto era a arquibancada da geral, que ficava perto de uma pedreira, que tinha lá uma pedreira grande. Atrás tinha três quadras de tênis, e atrás daquele morro da Rua Pinheiro Machado tinha uma arquibancada enorme de madeira, alta, Os outros campos eram todos parecidos. O do Botafogo era um pouco menor, mas no mesmo estilo do Flamengo, aquela arquibancada, tinha o vestiário embaixo, muito parecido até. Uma arquibancada grande para o lado do Canecão, e uma pequena para aquela rua que corre ali atrás do Botafogo, a General Severiano.

 

P/1 – E, mudando um pouquinho, o senhor vai contar agora um pouco da sua vida, e depois do futebol. Então, o senhor parou de jogar em 1935, e aí que atividades o senhor desenvolveu depois? 

 

R – Trabalhar. Trabalhei quarenta e sete anos.

 

P/1 – No mesmo lugar?

 

R – Sim.

 

P/1 – E onde era?

 

R – Departamento Nacional do Café, depois Instituto Brasileiro do Café. 

 

P/1 – E a sua função lá era qual?

 

R – Fazia uma parte técnica, eu trabalhava na diretoria de exportação. Era uma parte importante do IBC, porque o IBC foi um ministério. Trabalho com o IBC, já tinha saído, acabaram mal, também agora aí que o café está muito por baixo… E o café sustentou o Brasil por muitos anos, comprou embaixadas… Foi o governo Collor que acabou, não foi? Mas eu já estava aposentado.

 

P/1 – E o senhor trabalhou este tempo todo lá. Daí o senhor se casou?

 

R – Casei e fiquei viúvo em 1991.

 

P/1 – E o senhor teve filhos no primeiro casamento?

 

R – Tive um filho. Fernando Ferreira Botelho Filho. Sócio-proprietário do Flamengo, jogou basquetebol no Flamengo. Tenho um neto também dele, o Fábio.

 

P/1 – Está com que idade?

 

R – Tem dezesseis. É minha vida. Moro no mesmo edifício há cinquenta e dois anos.

 

P/1 –  Onde fica o seu edifício?

 

R – Prudente de Morais. Foi o primeiro apartamento de oito andares que foi construído na Rua Prudente de Morais.

 

P/1 – Bem, vamos falar um pouquinho então de Ipanema, pois o senhor viu Ipanema surgir.

 

R – Vi, vi. Eu moro pertinho do Bar Veloso, que hoje é a Garota de Ipanema. Lá eu conheci o Tom, o Vinícius, o Newton Mendonça, grande compositor que com o Tom começou o “Samba de uma nota só”. Eu sou do samba.

 

P/1 – Vamos desde o início. Por que o senhor resolveu ir morar na Prudente de Morais?

 

R – São coisas que acontecem. Engraçado, eu, em 1933, quando fui ser profissional do Flamengo, o Flamengo me deu cinquenta contos. Então eu fui comprar uma casa na Rua Nascimento Silva, custava quarenta e cinco contos. Nesse ínterim eu viajei para Montevidéu, e demorei, ida e volta, fiz duas partidas lá, foi de navio, quando eu voltei a casa tinha sido vendida, a quarenta e cinco. Esta casa fica pertinho de onde eu moro, só que tem uma rua transversal, como a Rua Prudente de Morais é transversal à Visconde de Pirajá, depois vem a Barão da Torre e vem a Nascimento Silva, são quadras paralelas a esta. Aí apareceu, tinha um amigo meu que me ofereceu este apartamento, o Olivier, pela tabela price, aquela coisa antiga. Daí comprei. Fui muito feliz nesta compra, comprei um bom apartamento e está lá.

 

P/1 – Como era Ipanema nesta época?

 

R – Era divino, não tinha nada, era bom à beça, só tinha o meu edifício grandão, eu ficava vendo os telhados das casas, eu via do meu edifício a subida do Niemeyer, hoje eu não vejo nem a praia. São cinquenta e dois anos, sabe lá o que é isso? O Leblon então era muito menorzinho, mas eu andava muito por ali, eu vivia no Flamengo, ia treinar, a gente saía do Flamengo pela Bartolomeu Mitre, ia treinar na praia, corria na areia da praia dali, onde tem a Lagoa, até o Leblon. A gente fazia muito treinamento ali naquela areia. Por ali fiquei, comprei o apartamento, me casei em 1950 e fiquei por lá mesmo.

 

P/1 – Daí o senhor começou a frequentar o Veloso?

 

R – É, o Veloso. Daí apareceu o Tom, mas eu conheci o Newton Mendonça antes do Tom, ele morreu com trinta e quatro anos, tocando piano. Daí aquela boemia sempre… Antes de me casar eu fundei um clube – que eu acho que sou o único ainda vivo do clube – que chama-se Olímpico Clube. Nós fizemos lá na cidade na Rua Álvaro Alvim, depois compramos aqui, esta sede em Copacabana, eu sou o único fundador, 1935. Quando parei de jogar futebol, eu, o Luiz Vinhais, o Prego, o Doutor Oswaldo Gomes, que foi o único jogador do Fluminense, que não foi para o Flamengo em 1912. Foi o time todo menos ele. Mas depois em vim conhecer ele em 1935, ele já era mais senhor, né? Ele foi o primeiro __________ muitos anos, ele era uma pessoa divina, uma maravilha. Era filho daquele professor Alfredo Gomes, muito tradicional no Rio de Janeiro, não era do meu tempo também.

 

P/1 – E como é que era a vida cotidiana em Ipanema?

 

R – Ah, era muito calma, né? Muito calma. Agora não, agora é uma vida louca. Você andava lá à vontade. No meu tempo você colocava um short e saía por ali, ia andar na praia, ainda era garotão nessa época.

 

P/1 – O carioca já tinha essa paixão pelo banho de mar, ou agora é muito mais?

 

R – Sempre foi. Eu tinha prancha de fazer surf de madeira. Era uma madeira que tinha um buraco… Eu comprei isso numa Mesbla aqui perto, mas engraçado que a prancha tinha um bico assim meio para cima, eu era garotão e descia aquelas ondas assim malucas, né? Você se embolava lá de cima, e não tinha garantia nenhuma. Agora não, eles põem aquilo no pé e a prancha vai te levando… Era boa a vida em Ipanema. Tinha uns amigos bons em Ipanema, jogadores antigos, viviam na praia. Como companheiro de praia eu tive o Eurico Vieira de Castro, o outro Vilme que morreu agora, que tinha uma firma antigamente que vendia rádio, não tinha televisão naquela época, Vilme Xavier, jogou muito futebol, mas não ligava muito para futebol, mas jogava no Botafogo há muito tempo, tinha o Carlos Cachaça, o Niemeyer que morreu agora, que era flamenguista, aquela turma toda. Se eu não me casasse eu estava solteiro até hoje, né? E a boemia era muito boa.

 

P/1 – E como era o ritual da boemia desta época? Para onde vocês iam? Onde vocês iam dançar, beber?

 

R – Batalhas de confete, tinha aquelas baratinhas que levantavam atrás, tinha o Djalma Ferreira que tocava um órgão, ele tinha um órgão pequenininho, teve uma boîte aqui, Drinks, que foi uma boîte maravilhosa, ali na Prado Júnior, ia lá, fazia serenata, sempre inventando pescarias, compreendeu? Sempre inventos novos, mas muito pura, não tinha whisky naquela época, na nossa boemia não existia whisky.

 

P/1 – E que bebidas vocês tomavam mais?

 

R – Cachaça, que era boa, aquele vermouth francês ou italiano que eram importados, não tinha nada disso, aqui era a cerveja Cascatinha, que era a cerveja famosa, vida boa. Era uma boemia pura, boa, com estes compositores, com aqueles cantores, o Chico muito maluco. Eu conheci essa gente toda, Lamartine...Todo mundo se reunia num café ali perto da Galeria Cruzeiro. Ali era dos compositores e dos cantores.

 

P/1 – E como é que se chamava este café? O senhor lembra?

 

R – Ah, eu acho que era.. agora é o Mário, que está bem caído. O Mario está com oitenta e nove ou noventa anos, fez agora. Mário Lago. O Albino, o irmão de Custódio de Mesquita, jogou de back no Fluminense, que era pai deste que morreu agora, o Albino que fazia a banda de Ipanema? 

 

P/1 – O Albino Pinheiro.

 

R – Era filho do Albino, que jogou de back contra mim no Fluminense. Eram dois tipos diferentes, o Custódio era um elegante, o Albino era um cavalão forte igual o filho que estava aqui ó, forte. Viveu até agora o Albino, era meu companheiro nos tempos de praia também, não foi companheiro naquela boemia, mas foi agora, ultimamente. A banda dele, de Ipanema tem uns vinte e cinco anos parece. __________ na porta da minha casa.

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