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História

Visitar as famílias do mundo

História de: Cláudio Marques da Silva Neto
Autor: Carlos Eduardo Fernandes Junior
Publicado em: 12/07/2019

Sinopse

Em sua narrativa aborda a vida familiar e a infância em sua cidade natal (Caculé), fala do sonho de ser jurista e de como se tornou professor a partir de fevereiro de 1990, após a insistência de uma tia que morava em São Paulo, tendo como fato marcante a história da mudança que ajudou a fazer na vida da aluna Regiane, garota de sete anos, negra, tímida e discriminada pelos colegas. Conta a trajetória de seu pai como funcionário da rede ferroviária federal e representante sindical. Descreve o trabalho realizado com os imigrantes na escola, da notoriedade que ele ganhou e dos desafios enfrentados. Por fim, fala do projeto de montar uma instituição para formar crianças pobres em um projeto que conjugue saúde e educação.

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História completa

Há um fato que marcou muito a minha trajetória na escola. Tinha uma garota negra que estava sentada. Ela estava no segundo ano e eram os primeiros dias de aula. Ela estava retraída no fundo da sala e ficava com o narizinho escorrendo. Todo mundo a discriminava na sala de aula. Eu fui perguntar: “Oi, tudo bem? O que está acontecendo?”. Ela falou que não estava bem, que ninguém gostava dela na escola, que ninguém brincava com ela, que as pessoas a chamavam de mal vestida e começou a chorar. Eu pedi para falar com a mãe dessa menina e ela veio conversar comigo, a mãe foi e conversou comigo: “Ela sente muito, a gente é muito pobre, as crianças da escola não gostam de conversar com ela”. Aí eu entendi e conversei com a turma sobre isso. Depois eu fui falar com ela de novo: “Escuta, como são essas coisas? É o seguinte, vamos tentar brincar com todo mundo junto! Vamos tentar isso?”. Conversei com os coleguinhas, todo mundo começou a dar apoio para ela, ela começou a brincar. E a mãe... As pessoas ficavam preocupada: “Ah, porque ela é muito desleixada, Cláudio, você vê o nariz, fica escorrendo, e ela vem suja para a escola, rasgada”. Eu falei: “Não, gente, isso é uma questão de autoestima, a gente precisa dar essa confiança para ela”. Falei: “Vamos apostar. A partir do momento que ela se integrar, ela pode mudar de atitude, porque ela vai estar bem”. E funcionou. Uma semana depois, ela virou outra pessoa. E a mãe dela foi falar comigo, falou: “Olha, professor, você fez a minha filha mudar, porque eu não sei o que aconteceu, ela virou outra pessoa. Agora ela quer se cuidar, ela quer vir para a escola, ela quer vir brincar, ela fala com as coleguinhas”. O que aconteceu? Disso tem uma coisa que eu tenho até hoje na minha vida, essas visitas às famílias. Eu comecei a visitar a casa dos meus alunos. Foi lá que eu tive essa percepção de que a gente tem que ir para a família dos alunos. Eu comecei a visitar outras crianças, porque assim, no caso dela eu vi que tinha se manifestado e a gente pôde fazer alguma coisa, e talvez tivessem outras crianças que não. E aí eu tinha uma agenda que visitava a casa de todos os alunos. Eu visitava, queria conhecer, ia com uma pranchetinha lá, trazia informação, tentava entender como eram aquelas coisas. E isso me marcou tanto, que até hoje, como diretor, eu tenho visita. Faço questão de visitar as casas dos alunos, não como professor mais, mas como diretor. Porque às vezes você precisa entender o que está se passando com as pessoas para você poder de fato acabar com a opressão. Porque eu não vejo como algo que eu ajudei uma criança a deixar de ser coitadinha e ser alguém. Não, eu ajudei a acabar com a opressão, que era aquilo que atrapalhava a vida dela. Com ela não tinha nada de errado, tinha errado com o que estava em volta. No primeiro momento das visitas, a gente ficava receoso, porque as pessoas não sabiam direito o que a gente queria, se era realmente pressionar. Mas a partir do momento que ficou claro que as visitas tinham um propósito de entender mesmo como são as crianças e os adolescentes em casa, e não ir lá para dar bronca nos pais, isso ficou bom de fazer. E o que acontece hoje? Já tem mães e pais que pedem a visita. Tem pessoas que falam: “Não, tem que visitar”. Até aluno. Teve um caso interessante o ano passado com o João, que por alguma dificuldade, eu fui fazer a visita, conversei com a mãe, foi uma visita longa, de repente o aluno volta para a escola com o apoio que a gente dá, ele foi bem, tirou dez numa prova. No outro dia tinha uma garota brigando porque queria a visita do diretor, porque o outro teve a visita, tirou dez, ela queria que o diretor fizesse a visita também. Já teve mãe que falou: “Olha, diretor, a gente quer que você vá lá a minha casa. Você vai visitar e me avisa, que eu faço um bolo para você”. E acontece isso, a gente vai fazer as visitas, as famílias se preocupam em receber, tem pai que faz tapioca, a gente toma café. É marcante, porque eu sei que é uma coisa importante. E desde lá, de 1990, eu sei que isso é uma coisa importante, a relação que a escola tem que estabelecer com a família. Elas não são coisas distintas ou concorrentes, e também não pode ficar uma acusando a outra: a escola acusa a família, a família acusa a escola. Elas têm que trabalhar junto. E trabalhar junto é a escola entender a família. A família não tem tanta obrigação de entender a escola, porque em grande medida, a escola também exerce certa opressão sobre as crianças e sobre as famílias. Eu pesquiso indisciplina, eu sei disso. Então a gente tem que ter essa compreensão de tentar entender o que se passa, conversar com todo mundo. E uma coisa que acontece nessas visitas, a gente não fala em problema de disciplina, não fala em problema que o aluno tá vivendo, a gente vai lá para entender mesmo. Como é essa criança lá na família, o que pode fazer. Então nisso não tem problema. Em relação às famílias, é isso, elas recebem muito bem as visitas e entenderam qual o objetivo delas. É para contribuir mesmo, fazer essa ponte entre a família e a escola.

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