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História

"Virou a vida mesmo"

História de: João
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nascido no sertão nordestino, João foi criado apenas pela mãe, conhecendo o pai só depois dos doze anos de idade. Desde cedo lutou para trabalhar, estudando por pouco tempo. Se recorda da escola como um lugar de disciplina, onde a palmatória era livre. Seu casamento começa a piorar depois que começa ele beber, o que o leva ao divórcio e também à prisão. Hoje em dia trabalha como vendedor de pamonha e tem fé de que sua filha encontre um caminho melhor através do ViraVida. 

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História completa

Minha mãe, quando deixou o sertão sozinha e foi morar na capital, carregava uma criança na barriga e outra no colo, que era eu. Na capital, foi trabalhar de lavadeira na beira do rio perto de casa. Eu ficava em casa, cuidava do meu irmão menor enquanto ela estava no trabalho. Era uma vida simples. Lembro dela com saudades. 

 

Quando eu fiz nove anos, comecei a trabalhar. Meu primeiro trabalho foi carregando malas na rodoviária. Com o dinheiro que ganhava, eu comprava bolo, bolacha, suco, soda, coxinha e outras coisas. Meu tempo era dividido entre brincar na rua, ir à escola e trabalhar na rodoviária. Cresci trabalhando. Em casa eu não apanhava, mas na escola tinha palmatória.

 

Na minha vida, já trabalhei de tudo. Vendi papel na feira, aluguei balança, fiz frete, carreguei balaio pesado, vendi frango assado e areia branquinha da praia pra arear panela, fui feirante, trabalhei em loja, fui embalador em supermercado, funcionário de restaurante, de churrascaria e de cartório. Já fui porteiro, vigia e garçom. Agora eu trabalho vendendo pamonha e canjica. Sempre gostei de trabalhar. Adoeço quando não trabalho.

 

No estudo, fui até a quinta série. Saía de casa de madrugada, ia pra feira. Saía da feira pro colégio e do colégio pra feira de novo. Naquela época, quem fazia o quinto ano, Virgem Maria, era quase professor! Aguentei enquanto pude, mas depois não deu mais e deixei a escola.

 

Só fui conhecer meu pai de verdade aos doze anos, na casa do meu padrinho. Eu estava no cinema assistindo a um filme do “O Gordo e o Magro” e foram me chamar. Disse que não ia, queria terminar de ver o filme. Fui, mesmo a contragosto. E a partir de então, passei a visitá-lo nas férias. Ia pra casa dele de trem, na primeira classe. Meu pai morava em outra cidade e trabalhava na estrada de ferro. O meu padrinho era maquinista. Eles me colocavam na primeira classe.

 

Minha esposa eu conheci na praia. Encontrei com ela e num simples olhar deu nisso. Vivi com ela até quase completar bodas de prata. Foram quase 25 anos de casados. Recentemente a gente se separou. Tivemos uma filha que foi muito paparicada. Depois, adotamos outra com papel passado, a caçula de sete anos. Também tivemos muito trabalho e muita briga. O problema era a bebida. 

 

Eu comecei numa bebida muito feia. Acho que queria fugir dos problemas de casa. Só que a bebida não resolve problemas, só piora. Me sentia mal porque não tinha o amor da esposa, nem da filha. Aquele carinho, sabe? Meu pai morreu na cachaça e picado por cobra, não queria acabar como ele. Cheguei a cair na rua, a ser palhaço, motivo de galhofa. Até apanhei da mulher e da filha, não vou negar. As brigas eram toda hora, teve briga que acabou na polícia, cheguei a ser preso duas vezes. Quando você bebe e fica com raiva, tudo pode acontecer!

 

Só acabei com a bebida quando ouvi um conselho de uma senhora idosa, que mudou minha vida. Ela disse: “Meu filho, ame primeiro você mesmo, depois ame suas filhas e a sua mulher.” Entendi o que ela disse e parei. Parei de beber já faz cinco anos. 

 

Nunca gostei dos namorados da minha filha. Desse último não posso nem ouvir falar. O rapaz é novo, bonito, mas comida bonita não enche o estômago. O cara foi morar dentro de casa. Pedi a ele pra deixar as drogas, ele não aceitou. Ela sabe que ele usa, mas ela não usa, não. Até hoje não vi, não soube de nada, não notei. 

 

Hoje moro sozinho num cubículo e sinto a solidão de não ter mais o amor da família. Mas dinheiro pras minhas filhas não falta. Apesar de estar só, me sinto bem comigo mesmo. As reuniões e as atividades de que participei com minha filha mais velha, que entrou para o ViraVida, me ajudaram muito. Todo mundo lá gosta de mim. As professoras, as meninas e as mães gostam de mim. Eu conheci gente com problemas piores que os meus, vi que não estou sozinho. 

 

Eu fazia questão de participar. Até me vesti de Papai Noel numa festa de Natal! As professoras, as psicólogas do projeto Vira Vida, são especiais! Desde o primeiro dia, desde a festa de abertura do curso abri a minha mente. Vi que ia ser bom, que não era falsidade.

 

O projeto Vira Vida me deu força. Eu não era de falar mas hoje converso com todo mundo. Minha filha mudou o pensamento também. Eu sempre disse pra ela: “Vai sempre em frente, pois eu vi que aqui a raiz é boa, está sendo bem adubada, sendo regada, vai prosperar.” Agora ela é uma menina melhor, está trabalhando na Caixa Econômica Federal, voltou pra casa, mora com a mãe e a irmã. No momento, estou afastado dela. Não aceito seu novo companheiro, de quem está grávida de uma menina. Mas sou o pai dela até o fim da vida. Ela me chama de painho até hoje. 

 

Hoje eu sonho em terminar minha vida ao lado delas, minhas filhas e, agora, minha neta. Elas são tudo pra mim. Pra acabar, eu digo que gostei tanto desse Projeto, que acho que eu vou voltar a ser adolescente pra poder arrumar uma vaga. Eu já passei dos cinquenta, mas vou lá e dizer que eu tenho dezessete. 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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