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Vinte anos depois

História de: Yara Kiemi Ikemori
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Infância na Vila Matilde, São Paulo. Tradição japonesa e ensino católico. Colégio Estadual Nossa Senhora da Penha. Reunião da turma depois de vinte anos. Faculdade de Agronomia. Estágio e efetivação na Aracruz Florestal. Plantio de eucaliptos. Pós-graduação na Inglaterra. Pesquisa e desenvolvimento de técnicas de melhoramento florestal. Diversificação de produtos e manejo florestal. Criação de Lyptus. Premiações. Aposentadoria. Sonho.

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História completa

 

R – Meu nome é Yara Kiemi Ikemori.

 

P/1 – Ikemori. 

 

R – Isso.

 

P/1 – Tá.

 

P/1 – Boa tarde Yara, muito obrigada por ter vindo aqui à nossa entrevista para o projeto Memória Aracruz. Primeiro, eu queria que você respondesse algumas questões: qual é o seu nome, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome é Yara Kiemi Ikemori, eu sou nascida em São Paulo, capital, no dia 19 de novembro de 1948.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais e o nome dos seus avós?

 

R – Dos meus pais é, do meu pai é Tikara Ikemori e, da minha mãe, Kazuko Ikemori.

 

P/1 – E seus avós?

 

R – Ah, dos meus avós é meio complicado, é, do meu avô materno é Shinasako Tsuji e da minha vó é Sukina Tsuji, e da minha avó paterna é Iwa Ikemori, e do meu avô eu não sei.

 

P/1 – Qual é ou qual era a atividade profissional dos seus pais e dos seus avós?

 

R – Bom, meus avós vieram do Japão como colonos na verdade, quando o governo brasileiro abriu as portas para o desenvolvimento da agricultura no Brasil. Isso foi nos anos vinte. E meus avós eram basicamente agricultores. E, meu pai, ele estudou aqui no Brasil, ele teve essa oportunidade e ele se formou como técnico em Mecânica, e a partir daí ele construiu uma vida e terminou sua vida como industrial, ele tinha uma indústria de papel reciclado em São Paulo.

 

P/1 – Então a origem da família, o Japão.

 

R – Exatamente. 

 

P/1 – E você tem irmãos, se tiver fale um pouco sobre eles.

 

R – Eu tenho dois irmãos, quer dizer, atualmente só tenho uma irmã, eu sou a do meio. Tenho uma irmã mais velha, o nome dela é Meni, ela é formada em Engenheira Elétrica, apesar de que ela não exerce a função, né? Hoje, inclusive, ela dá aula no Senai, de culinária japonesa, aqui em Vitória mesmo, e o meu irmão faleceu em 1991, ele era médico ortopedista.

 

P/1 – O seu nome, ele tem alguma tradução para a língua portuguesa?

 

R – Eu nasci no Dia da Bandeira, 19 de novembro, foi na semana passada até né, e aí o meu nome, nos símbolos, ele tem um símbolo que significa bandeira. Então eu sei que tem muita, assim, piada por cima de mim, né, porque minha irmã fala: “Só dá bandeira mesmo, só dá bandeira”. Então, mas como você escreve bandeira em japonês é “hata”, mas o meu nome não é “hata”, é “ki”. Então, um símbolo, você pode ler você de diferentes maneiras de acordo com a combinação de símbolos. Então meu nome ficou, mas o símbolo do meu nome, o significado do meu nome é em homenagem à bandeira mesmo.

 

P/1 – Agora a gente quer que você fale um pouco sobre a sua infância, descreva a rua e o bairro em que você morava.

 

R – A rua? Faz tantos anos, faz meio século. A rua, eu morei na rua Coronel Pedro Dias de Campos, na Vila Matilde, em São Paulo. Ah, na minha infância eu gostava mesmo era de brincar na rua, né, com meus amigos, com meus irmãos.

 

P/1 – Brincar de quê?

 

R – Ah, de pique, de beisebol, de futebol, de tudo que o pessoal brincava, a gente brincava também.

 

P/1 – E como é que era o cotidiano da sua casa? Você tinha os pais, você tinha os irmãos, como é que era esse dia a dia na sua casa, na sua infância?

 

R – Na minha casa, a gente teve uma educação meio rígida porque a própria família japonesa, ela instiga isso, né? Então de manhã a gente tinha que ir na escola japonesa, estudava Japonês de manhã, almoçava em casa e depois eu ia estudar na escola brasileira, com as irmãs – é uma escola católica, do Primário, das Irmãs Paulinas.

 

P/2 – E alguma coisa assim da religião ou da cultura japonesa que tenha sido mais forte nessa...

 

R – É, porque para mim, quando era pequena, eu tinha muita dualidade, porque meus avós eram budistas, minha mãe era budista, se dizia budista, mas não era praticante, vamos falar assim, meus pais não eram praticantes assim, que nem minha avó era. E eu frequentava escola católica, né, porque era a escola, a melhor escola brasileira que tinha ali na região. Então a gente ia para lá, mas aí eu comunguei, batizei, fiz tudo que um católico faz, mas a minha religião é católica mesmo até hoje.

 

P/2 – Mas seus pais já eram católicos?

 

R – Não, eles continuam sendo budistas, mas criança não entende isso, né? Eu era criança e eu achava que a irmã...

 

P/2 – (...) a maioria eram católicos?

 

R – É, todos católicos, e aí as irmãs naquela época, elas falavam: “É, não vai à missa, faz um pecado e aí você vai para o inferno”. Era desse jeito que acontecia, né? Então para mim, o meu maior medo era ir para o inferno, entende? E a escola na religião budista, ela não dá essa conotação mesmo, né, de pecado, de nada, só dá a palavra assim mesmo de você levar os seus sentimentos, de ser uma pessoa boa realmente, então para mim tinha esse problema.

 

P/1 – Então, começou os seus estudos, você tinha a escola japonesa e a escola católica, como é que era, eu queria que você descrevesse um pouco mais tanto a escola japonesa quanto a escola católica.

 

R – Ah, na escola japonesa a gente ia muito para brincar também, né, encontrar todos os amigos nossos japoneses, meus primos, minhas primas todas, né? Mas a gente tinha muitas atividades, tinha que aprender a ler, escrever, tinha os festejos de origem japonesa, do Japão mesmo, a gente festejava aqui no Brasil. Tinha as comemorações todas, a gente respeitava. Era muito bom, muito mesmo, gostava demais, e que a escola brasileira não tinha muito disso, entende, não tinha muito, era só mais ir à missa, né, e não tinha assim desfile, não tinha teatro, não tinha nada. Então eu gostava muito da escola japonesa.

 

P/1 – E você tem, assim, alguma lembrança marcante desse período da escola, quando você era pequena, uma lembrança que você não esquece?

 

R – Que eu não esqueço?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, que eu realmente não gostava das irmãs, sabe, então acho que isso me marcou muito. Tanto é que depois acho que, é, eu voltei a frequentar a igreja hoje, graças a uma pessoa que é o Carlinhos, meu namorado, meu atual namorado, né, ele é muito católico, ele é praticante, tal, eu voltei, eu gosto, eu gosto, isso me fazia falta mesmo, né? Eu estava tentando encontrar alguma religião, alguma seita para elevar realmente o meu lado espiritual que estava meio que largado às traças, entende, mas eu acho que foi muito devido às irmãs mesmo que eu deixei mesmo a igreja católica. Agora eu voltei.

 

P/1 – E havia na sua família algum incentivo para você seguir determinada profissão?

 

R – Não. Em casa meu pai sempre, ele, a profissão que a gente escolhesse estava bem para ele, entende, mas desde que estudasse, podia escolher o que fosse, cada um escolheu o que quis fazer.

 

P/1 – Agora vamos passar as questões de quando você era adolescente.

 

P/2 – Deixa só eu fazer mais uma pergunta, mas o fato de seu pai ter uma fábrica de papel reciclado não influenciou a você ter vindo depois...

 

R – Na Aracruz? Não, de maneira nenhuma, na verdade, na verdade quando eu era pequena não queria estudar, sabe, vou ter que confessar, eu não queria, eu não queria estudar, porque a minha irmã, ela sempre foi a primeira aluna da classe, o meu irmão pior ainda, se tivesse menos um, né, ele era o, ele sempre foi estudioso, sempre, sempre, e eu tinha que dar um jeito, pelo menos passar de ano eu tinha que fazer isso, né? Então ainda bem que tinha um para puxar e outro para empurrar porque senão não ia não, e eu queria ser cabeleireira, pois é, eu queria que queria, eu amava a profissão, queria mesmo. Aí depois eu me descobri nos estudos foi depois do Ginásio, foi exatamente acho que no Científico mesmo, que aí eu, de repente, eu comecei a gostar de estudar, de repente eu comecei a procurar um monte de coisa, ía atrás de Ciência, adorava Ciência, adorava Ciência e Matemática, adorava.

 

P/1 – Então fala um pouco sobre esse período do Científico.

 

R – Do Científico?

 

P/1 – É, onde você fez?

 

R – Eu fiz o Estadual da Penha, era considerado o segundo colégio estadual de São Paulo mais difícil, eu fiz lá. E lá, realmente, os professores, eles, a escola tinha fama de quem estudasse lá ia direto para a faculdade, entende, porque era realmente puxado, era a melhor escola, não tinha escola particular que superasse essa escola. Primeiro era o Dom Pedro I, e o Estadual da Penha era o segundo, eu estudei nesse da Penha, né?

 

P/1 – E quando você estava no Científico certamente tinha o grupo de amigos, e eu queria que você falasse sobre isso, falasse sobre como é que você se divertia, como é que se encontravam, como estudavam.

 

R – Bom, então eu vou contar um lance muito legal que aconteceu no Ginásio. No Ginásio a gente tinha, na adolescência, né? Estava com catorze, quinze, treze anos, né, nessa época a gente andava em grupo, nós éramos em acho que umas dez ou doze pessoas, só menina. E, ali, um dia nós resolvemos escrever uma cartinha, uma cartinha que ia ficar com uma colega nossa, do que a gente queria ser daqui a vinte anos depois, né, daquela data, vinte anos. Marcamos a data, o local, tudo para gente se reunir, naquela vez. Depois de vinte anos, quando eu já estava na Aracruz, aí o telefone me chamou dizendo que tal reunião ia ser em tal local para abrir as cartas para ver se o que a gente tinha previsto tinha acontecido realmente, né? É, a gente encontrou todo mundo, ninguém tinha morrido, nada, e para você ver, da minha turma só uma pessoa havia se casado, as meninas, que nem eu também, nenhuma delas conseguiu marido, conseguiu marido entre aspas, né? É porque eu acho que a nossa geração foi a geração que deu a reviravolta, porque até a geração da minha irmã, que é dois anos mais velha que eu, elas eram muito assim, seguia muito o que a mãe falava, assim, muito recatada. Mãe prendia muito nessa época, e a da nossa geração começou a rebeldia mesmo, né? Então eu acredito que seja por isso, esse fator é que as mulheres começaram a se emancipar, entende, ver o local delas e sabe, não querer aceitar qualquer coisa e tal, casar por casar, também não era por aí.

 

P/1 – Mas nessa carta vocês escreveram o que que vocês queriam ser do ponto de vista profissional?

 

R – O que, escrevemos, escrevemos como que estado civil também que a gente queria estar, e naquela época a gente queria estar casada, lógico, né, casada com uns dois filhos tal. Eu escrevi que eu faria Medicina, mas eu não fiz, fiz Agronomia. Mas as minhas amigas, a maioria delas também queria fazer Medicina, mas de, é, só duas dali, eu e uma colega minha de origem alemã é que havíamos feito universidade, e o restante das meninas elas tinham feito o normal e tinham parado por ali mesmo, entende? Isso foi assim, para mim foi tipo assim, eu fiquei meio decepcionada, que a gente tinha tanto sonho, tanto sonho, que eu falei: “Poxa”, né? Podia ter estudado, mas algumas iam fazer ainda, sabe, faculdade pode ser que seja problema econômico, alguma coisa assim do gênero e que não deu para elas realmente seguirem à frente, né?

 

P/1 – E nessa época vocês praticavam esportes?

 

R – Nós praticávamos na escola assim, não tínhamos uma atividade fora que, o meu irmão sim, o meu irmão praticava era beisebol, e ele corria muito também, ele chegou a correr na São Silvestre, mas assim, mais por ele mesmo. Lógico, ele nunca ia vencer, né, mas ele adorava, ele treinava todos os dias lá onde ele morava e tal, era uma festa.

 

P/1 – E quando você decidiu fazer Agronomia, quando é que foi isso?

 

R – Bom, eu realmente, eu decidi fazer Agronomia no Científico, foi do segundo ano do Científico eu comecei, eu queria alguma atividade, alguma profissão ligada à Ciência, não importava se fosse Biologia, se fosse Agronomia, entende, mas eu optei por Agronomia, porque, eu realmente eu não sei por quê, meu pai era industrial, né, mas, mas eu acho que eu realmente não lembro porque que eu optei por Agronomia não, não lembro, se tinha alguma, não sei, não lembro.

 

P/1 – E você então foi para outra cidade para fazer o curso de Agronomia.

 

R – Fui, fui para outra cidade.

 

P/1 – Então eu quero que você fale que cidade é essa e como é que foi essa mudança.

 

R – Ah, eu estudei em Jaboticabal, no interior de São Paulo, eu fiquei lá quatro anos para fazer o curso. Eu não tinha outra atividade, eu só estudava lá, morava na casa de uma família japonesa também, né? Ah foi ótimo lá, foi muito interessante, tudo era novidade, primeira vez que tinha saído de casa e tal, né, foi muito bom.

 

P/1 – E então você se formou na faculdade em Jaboticabal, e aí, como é que foi o seu primeiro emprego.

 

R – Foi na Aracruz mesmo. Bom, na faculdade mesmo eu desenvolvia mais trabalho relacionado à patologia de planta, doenças de planta em geral, e esse era o meu métier, é a área que eu realmente gostava e tal, desenvolvia. E depois eu me formei, e eu queria trabalhar, ou com paisagismo que eu acho que sou relativamente boa nisso, ou com floresta. Aí eu comecei a procurar emprego nessa área, mas naquela época, trinta anos atrás era muito difícil uma empresa contratar uma mulher, a verdade é essa, era muito difícil, parece há pouco tempo, mas naquela época não tinha mulher na..., para você ver, eu entrei numa classe com quarenta pessoas na faculdade, só eu de mulher, quando me formei, formei com mais duas que eram, que elas tinham perdido as matérias, né, tinham entrado um ano antes, aí nos formamos sem três. Três mulheres para acho que vinte e cinco rapazes. Então realmente era uma área que ninguém atuava muito não, que as mulheres não atuavam.

 

P/1 – Então, antes de falar da Aracruz, eu queria que você falasse um pouco mais dessa situação na faculdade com a turma predominantemente masculina. Como é que era, você se sentia alijada, você se sentia confortável.

 

R – É, confortável a gente nunca se sente, a verdade é essa, porque o professor vai fazer uma pergunta, a primeira pessoa que ele pergunta, lógico, é a mulher, as damas primeiro, eles falavam, e lá ia. Então a gente sempre tinha que estar mais ou menos preparada para isso, sabe, mas fora isso não tinha problema nenhum não, a mentalidade dos rapazes, de nível universitário é outra, né, não importa a época. Então eles não se sentiam, o homem é assim, quando eles se sentem ameaçados é que eles começam a, né, as incompatibilidades, né, enquanto eles não se sentem ameaçados, tranquilo. Então, com a gente era muito tranquilo, né, tinha uns que não gostavam que mulher, que achavam que não era profissão para mulher, e tinham os outros que achavam o máximo. Então normal, em todo local, né, e isso até hoje acredito que seja, né?

 

P/1 – Então você se formou e começou a procurar trabalho. Como é que foi?

 

R – Bom, eu fui numa empresa de paisagismo em São Paulo, aí eu conheci o Seu Max, aí, nossa, a gente se entendeu muito bem, conversamos horas e horas e ele falou que ele gostaria muito de me contratar. Eu não sei se foi desculpa, foi o quê, entende, mas ele falou para mim que ele gostaria muito de trabalhar, que eu trabalhasse com ele tal, mas como paisagismo era de estrada, ele achava muito perigoso eu ficar no meio de peões, né? Então que ele não achava conveniente, mas que era para procurar o Doutor Edmundo Navarro de Andrade, que era de São Paulo, e que ele também, ele era acionista de uma grande empresa lá em São Paulo chamada Plantar. Aí eu fui para lá, aí eu conversei com ele tal e, naquela época, a Aracruz estava com sério problema de doença aqui nos plantios da Aracruz. Então, e como eu tinha feito Patologia, mais ou menos que encaixou, né, apesar de não ser patologia de eucalipto, eu fiz de Agricultura, né, de vegetais, assim vegetais agrícolas, né, e aí conversamos e deu certo, aí comecei trabalhar na Aracruz.

 

P/1 – Exatamente quando?

 

R – Foi em abril de 1973. De abril a dezembro eu fiquei como estagiária, porque eu não conhecia nada sobre eucalipto, sobre floresta, né, porque minha formação foi em Agricultura mesmo. Aí, então, eles acharam conveniente eu começar a fazer estágio em Viçosa, eu fiz estágio assim em Viçosa, eu fiz estágio em Viçosa, fiz em São Paulo também no Horto Florestal de São Paulo, fiz em Piracicaba, para me inteirar da floresta como um todo. Aí eu fiquei esse período até dezembro como estagiária e com o suporte da Aracruz, mas trabalhando mais assim, estudando fora, né, da Aracruz, e a partir de dezembro de 1973 é que eu fui efetivamente contratada.

 

P/1 – Você foi contratada pela Aracruz Florestal.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – E, quando você foi para Barra do Riacho, as obras já tinham começado? As obras da fábrica?

 

R – Não, não tinha, foi antes.

 

P/1 – Então, como é que era?

 

R – Olha, para falar a verdade, quando eu cheguei, o pessoal foi me apanhar lá no aeroporto, tal, cheguei, peguei a BR 101, achei maravilhosa que tinha acabado de conhecer. Falei: “Meu Deus, em São Paulo não tem uma rodovia igual a essa”. Eu achei, porque tinha acabado de inaugurar, acho que era, foi um mês antes ou dois, foi uma coisa assim, era uma coisa, e eu estava chegando de tardezinha, então você via aquela sinalização perfeita, aquela estrada, um brinco. Eu falei: “Meu, que paraíso é esse, gente”. Eu pensei comigo. Aí depois fomos, passamos em Ibiraçu, pegamos estrada de chão, aí fomos entrando, nunca que chegava, eu falei são só onze quilômetros, né, cheguei em Aracruz, falaram assim: “Chegamos aqui em Aracruz”. Eu olhei, eu tinha a impressão que eu estava entrando numa cidade de cowboy, sabe aqueles filmes que o bandido está chegando na cidade, era igualzinho. Eu falei: “Meu Deus do céu, onde que eu fui amarrar minhas botas!”. Aí, mas aí passou, sabe, porque o telefone não tinha, era via telefonista, iluminação pública não tinha, não tinha asfalto na vila principal, era bem, bem mesmo interior naquela época. Mas hoje você vai lá, você não acredita como está a Aracruz, né, está muito linda, né, a cidade Aracruz.

 

P/1 – Como é que era esse cotidiano quando você começou a trabalhar na Aracruz Florestal? Você ia, morava na cidade?

 

R – Morava.

 

P/1 – Onde?

 

R – Eu morava num hotel da Isamar que chamava...

 

P/1 – Iramar?

 

R – Isamar, bom, não sei, ela só tinha um apartamento, o resto era tudo quarto com banheiro coletivo, né? E esse apartamento ficava para mim, aí eu morei bastante tempo lá, eu morei acho que uns quatro anos, cinco anos, sei lá, por aí. Depois entrou uma assistente social e que veio morar também no quarto, também, nós ficamos morando juntas um tempo.

 

P/1 – E você então saía do hotel em algum transporte para os plantios, como é que era isso?

 

R – Eu tinha um carro, que eles me deram um carro, eu tinha uma rural, é acho que era uma pick up rural Willys, que tinha tração nas quatro rodas e tal, e eu ia, inicialmente eu ia muito com o pessoal, né, porque a floresta é muito grande, a gente não conhece, né, mas depois a gente acaba se acostumando, né?

 

P/1 – E qual era o estado dessas florestas? Você disse que havia dificuldades iniciais como algumas doenças ou pragas, como é que era isso?

 

R – Bom, é, naquela época a Aracruz começou a plantar as espécies, normalmente utilizadas em São Paulo para a produção de polpa de celulose, né, e a gente não tinha o programa de melhoramento, naquela época, genético; e ter uma variedade já adaptada para essa condição e para esperar também a gente ter esse material genético, produzir semente demora dez anos. A empresa não pode esperar dez anos ou vinte anos que seja, entende, ou sei lá. Depois, a partir daí começou a estabelecer floresta, ela arriscou, ela pegou semente em São Paulo que era o único local que tinha semente em grande quantidade disponível para plantios extensivos, comprou e plantou em Aracruz, e ela sabia que fazendo dessa maneira ela estaria correndo um risco, ela arriscou, né? Não quer dizer que não deu produtividade, não deu volume, deu volume, mas como a gente esperava, devido à própria, às condições ecológicas, condições climáticas da região que é bem distinta de São Paulo, é, você ter problemas mesmo, né, dessa natureza. Então nós plantamos basicamente o Eucalyptus grandis, o saligna e o alba; o grandis era moderadamente tolerante ao (câmprio?) do eucalipto, o saligna era altamente suscetível porque o saligna, originariamente da Austrália, onde ele ocorre naturalmente, ele é de região mais subtropical mesmo, então ele realmente, ele não se adapta em qualquer lugar, né? E o alba, ele apresentava uma baixa produtividade devido à heterogeneidade da floresta. Aí paralelamente aos plantios, a Aracruz, ela investiu muito alto mesmo na parte de pesquisa e tecnologia, entende, fizeram várias viagens para a Austrália, foram coletadas sementes lá, trazidas para cá, aí começamos todo um programa de melhoramento.

 

P/1 – Você chefiou a equipe?

 

R – É, eu chefiei.

 

P/1 – Em que época?

 

R – Acho que foi mais ou menos em 1974, 75 acho já.

 

P/1 – 1984, né, quando você chefiou.

 

R – Eu nem sei, 1974, é, 74 eu entrei, né?

 

P/1 – É.

 

R – 1974, não, mas antes mesmo eu comecei trabalhando como técnica na parte de melhoramentos e depois que eu fui promovida para gerenciar um grupo de pessoas, né, da pesquisa mesmo, mas eu acho que foi em torno de 1974, 75 já comecei a me aperfeiçoar na parte de genética de eucalipto, mesmo.

 

P/1 – Como é que foi isso?

 

R – Porque eu fiz Fitopatologia, né, e a Fitopatologia, o que é que ela faz, ela identifica doença, ou se é vírus, se é bactéria, e um meio de controlar muito difícil, com químico, com remédio, não dá para controlar uma área, né, extensa dessas, e quantas vezes você tem que aplicar o remédio, vamos falar assim, né, para controle, e se esse controle refletir ou não, entende, que a única coisa que resolve mesmo é a genética, através da variedade tolerantes ou variedades resistentes à essa doença, entende, então o que realmente a gente precisava era ter o material genético melhorado para essas condições. Foi o que nós fizemos.

 

P/2 – Essas pesquisas começaram antes da sua ida para fazer especialização fora do país, conta um pouquinho de como foi essa especialização.

 

R – Bom, começou antes, bem antes, eu já trabalhava nessa área de, na área de genética, tal, e a especialização eu fiz em 1986, comecei fazendo mestrado, depois eu parti para o doutorado, né?

 

P/2 – Na Inglaterra.

 

R – Na Inglaterra, isso, aí eu basicamente fiquei entre vindas e idas, eu fiquei em torno de seis anos indo e vindo desenvolvendo o meu trabalho de tese.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho ainda aos primeiros plantios, e que eu acho que devem estar um pouco ligados à figura do Senhor Lorentzen. Lembra da primeira vez que o viu?

 

R – Se eu lembro?

 

P/1 – É.

 

R – Eu lembro sim.

 

P/1 – Então como é que foi?

 

R – Lembro, eu conheci o Seu Lorentzen em 1974, acho, 1973, 1973 eu viajava muito, foi em 1974 que eu conheci, aí normalmente ele vinha muito no final do ano passar o Réveillon lá na casa de hóspedes. E ele vinha com a família, vinha com a princesa, vinha com os seus três filhos, é, aí a gente sempre mostrava o laboratório, tudo, né, o que a gente desenvolvia e, a primeira vez, eu confesso que eu fiquei muito nervosa mesmo, porque eu falei: “Nossa, vem a princesa aqui, né?”. Eu falei: “Ai, ai”. Aí a gente caprichava na apresentação lá no laboratório deixava impecável, tudo, mas ele sempre foi uma pessoa muito simples, muito assim, deixava a gente à vontade, né, muito à vontade.

 

P/1 – Você chefiava a equipe de melhoramento florestal, e as obras da fábrica estavam se desenvolvendo, você lembra disso, como é que era o canteiro de obras, como é que era esse movimento.

 

R – Sinceramente falando, eu era da Aracruz Florestal, e você tinha uma outra empresa chamada Aracruz Celulose, por exemplo, na pedra fundamental, é, nós fomos, entende, é quando iniciaram as obras também, de vez em quando a gente passava ali, olhava, mas a gente nunca, nunca foi de ficar ali sabe, acompanhando muito não, porque a gente tinha uma, a gente trabalhava para uma outra empresa, né, teoricamente falando, sabe. Apesar de ser tudo no mesmo grupo, era uma outra empresa, então a gente não tinha muito contato com o grupo, era uma outra empresa, a gente não tinha muito contato com a fábrica.

 

P/1 – Eu vou antecipar uma pergunta só para ter uma noção um pouco mais espacial. Hoje a sua base é onde? 

 

R – A minha base? Onde eu fico, você quer dizer. Eu fico, atualmente eu estou na Aracruz Celulose, na Aracruz Celulose.

 

P/1 – Nessa época, você estava na Aracruz Florestal.

 

R – Isso.

 

P/1 – E quando é que você passou para a Aracruz Celulose?

 

R – Foi quando teve a fusão e a extinção da Aracruz Florestal. Foi, acho que em 1991 se não me engano, 1990, 1991, por aí.

 

P/1 – Bom, mas agora vamos voltar a essa sua especialização, a essas suas pesquisas e ao doutorado. Você estava então na Aracruz Florestal desenvolvendo as pesquisas para o melhoramento dos cultivos e achou necessário ter uma especialização mais acadêmica, foi assim?

 

R – Foi mais ou menos assim. Na verdade, eu acredito que a empresa, ela quis me dar tipo um prêmio, me dando esse estudo, entende, eu sempre acreditei nisso. É porque eu ia em muitos congressos, eu viajava demais, congressos internacionais, visitas às indústrias florestais, e tudo mais, e é muito comum por exemplo, principalmente nos Estados Unidos, qualquer técnico tem doutorado, e eu não tinha, não tinha mestrado nem doutorado. Então, quando eu falava que não tinha mestrado, o pessoal ficava assim, sabe, não entendia por que que eu não tinha estudado, por que que, né, era nova e tinha muito conhecimento e não tinha mestrado e doutorado. Mas é porque, sei lá, né, não tinha, então acho que é por isso que a Aracruz, não é que a Aracruz sentiu que eu precisasse mesmo, né, de um, para me desenvolver um pouco mais, lógico, eu cresci, cresci muito, aprendi muita coisa, muita coisa nova. Eu acho que eu me aprimorei muito também com os estudos, mas, mas eu acho que pelo lado da Aracruz, ela viu como um prêmio, realmente, ela queria dar alguma coisa para mim, mas...

 

P/1 – E você fez o mestrado em Oxford?

 

R – Eu fiz o mestrado e doutorado.

 

P/1 – Como é que foi? Foi difícil essa mudança do Brasil para a Inglaterra?

 

R – Não, porque eu tinha muitos amigos brasileiros lá também na Inglaterra, lá no Instituto onde eu ficava, Instituto Florestal, né, vamos falar assim, é, além de duas amigas minhas ficaram mais três rapazes do Brasil, então, e tinha a comunidade lá em Oxford, a comunidade brasileira, que era constituído de mais de duzentas pessoas, então, nossa, estava no Brasil lá, tinha carnaval, tinha festa Réveillon, tinha tudo lá, muito bom.

 

P/1 – Você ficou quanto tempo lá?

 

R – Entre idas e vindas fiquei seis anos.

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho agora sobre a cidade de Aracruz. Que diferenças você vê entre aquela cidade que você conheceu quando você chegou e a que existe hoje?

 

R – Ah, é marcante, mas eu sinto saudade daquela cidade que eu cheguei, porque aquela imagem que ficou na minha cabeça, sabe, de cowboy, filme de cowboy assim, eu entrando em cima de um cavalo, assim, sabe, mas hoje ela está muito bonita, a cidade de Aracruz.

 

P/1 – Cresceu muito?

 

R – Cresceu demais. É, está toda asfaltada, ah, é uma cidade tão boa como Linhares, Cachoeiro, né, ou melhor ainda, né?

 

P/1 – E sobre os cultivos de eucalipto, você desenvolveu estudos que eu entendo que são estudos absolutamente originais, você chegou inclusive a ganhar prêmios.

 

R – Ganhei sim.

 

P/1 – Então, fale um pouco sobre essa originalidade, o que é novo na sua pesquisa e fale sobre os prêmios.

 

R – Bom, é como eu falei, nós tivemos muitos problemas por causa do campo, né, causada por um fungo, uma doença de casca, e isso realmente, quando a infecção é meio intensa, ela chega até a matar uma árvore, principalmente quando a árvore é nova, tem seis, seis meses a um ano mais ou menos, né? Então você perde realmente produtividade, tudo, então nós tínhamos uma floresta já estabelecida, mas, em torno de quarenta mil hectares, e eu sei que, mas dentro dessa floresta muito cheia de problema, cheia de, floresta muito heterogênea em termos, a gente conseguia observar árvores individuais altamente produtivas, não sabíamos que híbrido que é, mas só sabíamos que eram excelentes, completamente reta sem galho, alto volume e tudo mais. Então foi a partir daí que nós começamos selecionar essas árvores e clonar; a clonagem, vocês sabem, não é original e não foi nada original do eucalipto, né? Então, a clonagem, a gente faz clonagem em videira, noutras plantas agrícolas, né, não tem nada de original, mas então é a adaptação da clonagem para o eucalipto e ir plantar massivamente através da clonagem, aí é que está a originalidade desse processo de estaquia do eucalipto.

 

P/1 – Exatamente como você definiria clonagem?

 

R – É, clonagem é você, é multiplicar aqueles indivíduos superiores que te interessa. Aí tem, você conseguir, é multiplicar o genótipo, entende, logicamente, esse genótipo em diferentes ambientes, ele vai, pode te dar um fenótipo que é aparência diferente, então você tem a interação genótipo e ambiente que vai te dar um fenótipo.

 

P/1 – Vocês já não estavam mais utilizando sementes, vocês estavam utilizando outras técnicas.

 

R – É, outras técnicas, essa foi a grande virada da Aracruz, entende, mas nós continuamos tanto com o programa de melhoramento sexuado que é o tradicional,  e o assexuado que é via clonagem, é a via estaquia, está certo.

 

P/1 – Estaquia, o que é isso?

 

R – Estaquia é um processo, porque na verdade o, que você pega uma parte do vegetal da árvore que você quer clonar ou quer multiplicar, você pega, você produz uma estaca e dali você enraíza essa estaca, então geneticamente elas são idênticas, estaca daquela árvore que você [quer] multiplicar, entendeu.

 

P/1 – Em que medida isso aumenta a produtividade?

 

R – Olha, para você ter uma ideia, com a floresta antiga a gente precisava para produzir uma tonelada de celulose 4,8 a 5 metros cúbicos sólidos de madeira, depois da clonagem,  feita toda seleção, entende, inclusive para qualidade da madeira nós chegamos a um ponto de precisar só 3,8 metros cúbicos, então foi um ganho, é, maravilhoso, estupendo mesmo. Fora isso, a clonagem proporciona tolerância ao campo, entende, não temos mais florestas com doença, nós temos alta produtividade, homogeneidade, toras retas que facilitam muito o transporte sem galho lateral, entende, energia e se concentra toda no tronco da árvore mesmo, então ganhos tanto do ponto de vista florestal, de produtividade, de formação de biomassa, quanto do ponto de vista industrial quanto à qualidade da madeira. Esse foi o nosso pulo realmente.

 

P/2 – Foi a partir de qual plantio que você já começou, foi do segundo plantio?

 

R – Não, não, foi do primeiro, foi do primeiro, nós começamos selecionar, você lembra que eu falei que dentro dessa floresta ruim destacava alguns indivíduos, para você ter ideia, em um plantio de quarenta mil hectares nós selecionamos cinco mil árvores superiores lá dentro, e depois de todas essas análises para qualidade da madeira também, que não adianta ser só bonito e não dar celulose, né? Então nós fizemos as análises tecnológicas da madeira e chegamos a conclusão que seiscentas dessas cinco mil eram apropriadas para a produção de polpa do eucalipto e, das seiscentas, nós selecionamos cem, as cem melhores para realmente continuar o processo de propagação mesmo, né, porque é difícil, viu, você tem que ter muito material para você ter possibilidade de seleção, para você ter ganho grande sobre eles.

 

P/1 – Foi esse salto que você mencionou em termos de cultivo que fez com que você ganhasse os prêmios?

 

R – Eu não, foi o grupo de pessoas, é, e eu tive o privilégio de ser uma delas, na verdade, não fui eu só, foi o diretor florestal,  diretor de operações, o Edgard Campinhos, que é o chefe do departamento que trabalhava diretamente na clonagem, né. 

 

P/1 – E isso foi quando, Yara?

 

R – Foi em 1984, se não me engano, 1984.

 

P/1 – E como é que foi receber esse prêmio?

 

R – Ah, foi muito engraçado porque a gente não sabia de nada, né, e esse prêmio, ele é conferido para pesquisadores, técnicos que tem algum ganho extraordinário, algum, sabe, alguma utilização extraordinária dessa, de alguma tecnologia. Todo ano, a Fundação Max Wallenberg confere esse prêmio à indústria florestal que eles chamam. Então tem os candidatos que não somos nós, nós não podemos nos candidatar, quem cita o nosso nome é uma pessoa, uma outra pessoa que avalia seu trabalho e tal, e a partir dali a fundação tem um, eles convidam um grupo de professores do mundo inteiro para vir na instituição que você trabalha e para uma prova, uma avaliação para ver se você sabe realmente se está dando aquela produtividade que você falou que dá e tal, não sei o quê. Aí eles vieram, mas a gente não fica sabendo, acho que o seu Lorentzen estava sabendo, mas nós, os técnicos, não estávamos sabendo. E eu sei que eles começaram a perguntar muita coisa, muita coisa que normalmente a gente não pode falar, né? Às vezes, é o pulo do gato que você não pode passar, né, porque bem ou mal foi gasto naquela pesquisa e você tem que ter esse segredo que é tecnológico, né, que você desenvolveu e tal. E eu sei que eles começaram pegar, ir cada vez mais fundo, aí meu chefe Campinhos, ele ficou muito bravo porque ele não sabia, né? “Poxa, esses caras aí, eles querem saber demais, que tem”, falando para mim, me cutucando. “Ó, Campinho, eu não sei.” Aí é porque a gente tinha recebido orientação do diretor que era para responder, não tinha restrição não, é sem restrição, mas eles estavam perguntando demais, entende, demais da conta, aí ficou, e a gente ficou sem saber. Isso nós ficamos sabendo depois que, não sei o quê, aí que eles vieram contar para gente que eles não podiam falar nada mesmo, então foi muito engraçado mesmo, ficamos muito bravos aquela vez.  

 

P/1 – E você foi à Suécia?

 

R – Nós fomos, foi uma comitiva grande aqui do Brasil, uma festa maravilhosa, uma festa melhor que a outra, foi a semana inteira de festa, o ruim, que eu achei, que a gente tinha que fazer uma apresentação, responder perguntas e tal, e essa apresentação no último dia, gente, eu não aproveitei muito a festa, porque o primeiro dia era recepção com o rei e a rainha da Suécia, não sei o quê, cada dia tinha um evento, entende, mas uma festa inesquecível. Eu nunca fui numa festa tão organizada na minha vida, em toda a minha vida, nunca fui, e divertida também, sabe.

 

P/1 – E da equipe, você se lembra quem foi?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Então diga, por favor.

 

R – Foi Leopoldo Brandão, que era diretor florestal, é Edgard Campinhos, Leopoldo e a esposa, né, Edgard Campinhos e a esposa, e o Doutor Nei não, ele não foi porque a festa foi em setembro, a entrega do prêmio foi em setembro e ele faleceu no começo do ano, daquele ano, então a esposa não quis ir, então quem recebia o prêmio no lugar dele foi o embaixador brasileiro da Suécia, né, na Suécia.

 

P/1 – E o prêmio Liceu de Tecnologia?

 

R – Ah, também, esse prêmio pouca gente conhece, eu acho,  mas ele é conferido pelo governo brasileiro, a gente vai receber no Planalto, no Palácio, e quem conferiu esse prêmio, quem entregou esse prêmio foi Fernando Collor de Melo.

 

P/1 – E você recebeu.

 

R – Foi, eu fui também uma das participantes, mas foi um grupo de pessoas que recebeu da Aracruz.

 

P/1 – E ele foi conferido à Aracruz também por melhoramento nos cultivos?

 

R – É, melhoramento nos cultivos de uma maneira geral, num âmbito mais geral, incluindo meio ambiente e tudo mais. 

 

P/1 – E o prêmio A lavoura?

 

R – A lavoura também, é um prêmio também pouco conhecido, mas eu dou muito valor a ele porque ele, no meio agrícola, é um reconhecimento assim bastante destacado aqui no Brasil, entende, aí eu recebi também, apesar de trabalhar em florestas, e eu como engenheira agrônoma, eles conferiram o prêmio a mim naquele ano, não lembro o ano direito.

 

P/1 – 1992.

 

R – É, foi no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Quem conferiu esse prêmio?

 

R – Ah, é da Secretaria de Agricultura do Governo do Rio de Janeiro, acho que foi isso. Era muito disputado esse prêmio naquela época, hoje eu pouco ouço falar, a verdade é essa.

 

P/1 – E como é que você se sente assim fazendo parte de uma equipe tão premiada?

 

R – Poxa, para mim acho que é um privilégio, né, grande mesmo, trabalhar com as pessoas, os técnicos da Aracruz, porque eu tenho certeza que o nível do pessoal da Aracruz é outro, é outro, completamente outro, começar pela diretoria, são pessoas altamente capacitadas, competentes, honestíssimas, entende, é muito bom, ambiente excelente, né, dentro da empresa, excelente. Então acho que eu tive esse privilégio de fazer parte desse grupo, né, sozinho a gente não faz nada, na verdade, né?

 

P/1 – E na organização da empresa, eu percebo que há uma mudança do termo Melhoramento Florestal para Biotecnologia Florestal, isso significa, essa mudança significou uma mudança na própria estrutura da tua área ou não?

 

R – Não, não necessariamente, porque hoje voltou outra vez também, chama, também tem uma área de melhoramento florestal mesmo, que engloba não só Genética, não só a Biotecnologia, mas a Ciência dos Solos, de Fisiologia integra toda essa área de Melhoramento Florestal, de melhoria florestal mesmo, aí só houve modificação do termo, só isso, não foi nada na época não. 

 

P/1 – Vocês têm parceiros em termos de pesquisa no Brasil, estou pensando por exemplo na Embrapa.

 

R – Nós temos, temos parceiros sim, no Brasil e no exterior também. É, e quem,  bom, eu não sou muito, não sou a pessoa mais indicada para responder sobre as parcerias que estão em andamento hoje na Aracruz, mas eu sei que são, são, pesquisa de altíssimo nível que estão sendo desenvolvidas em convênio com universidades e instituições internacionais e nacionais, várias, e não são poucas não, são muitas.

 

P/2 – Você, hoje, está na sua atividade atual, você diz que é especialista em produtos sólidos de madeira, fale um pouco disso.

 

R – Porque em 1995, é, a empresa, ela resolveu começar a estudar diversificação das atividades, entende, mas alguma atividade que relacionasse à floresta de eucalipto, então Carlos Gilberto Max, ele foi convidado para gerenciar essa área e eu trabalhava num centro de pesquisa até então, aí ele me convidou para ver se eu não queria aceitar esse novo desafio, né, que seria a parte de estudar novos negócios, aí eu gostei da ideia e fui para lá, então, e eu estou lá até hoje com ele.

 

P/2 – O que que você faz lá, que que faz assim sua especialidade agora?

 

R – Bom, nós começamos estudando quais seriam as oportunidades de negócio que seriam interessantes e adequadas para o Grupo Aracruz, e a Aracruz chegou à conclusão que seria serraria. Você pode fazer outras coisas, OSB, MDF, né, tem várias outras fábricas de compensado, laminado, né, esse tipo de produtos aqui, né. Mas aí a Aracruz resolveu investir em serraria, então o que que nós fizemos, nós tivemos que também começar redirecionar nossa floresta que era destinada à produção de polpa de celulose para produtos só de madeira porque, no caso de serraria, a gente, pelo processo, ela requer mesmo toras de maiores diâmetros, né? E então você precisa fazer um manejo florestal adequado para que haja em desenvolvimento em diâmetro dessas árvores, e foi aí que nós começamos a trabalhar nessa área de manejo chamada manejo florestal, é, e também na parte de processo, dentro da serraria mesmo, que eucalipto, hoje, a gente domina muito bem a tecnologia e processamento primário do eucalipto, mas é uma madeira muito difícil de trabalhar mesmo assim. 

 

P/2 – Por quê?

 

R – Porque ela é chamada no meio de árvore, madeira nervosa, então, se você não souber cortar ela, porque ele tem tensões internas de crescimento, você corta erradamente na serra de fita e tal, ela torce mesmo, ela torce. Você tem que saber exatamente serrar de tal maneira que você vai tirando as tensões internas da árvore, processando ela adequadamente na secagem, também você tem que tabicar perfeitamente, secar ela adequadamente porque, se você deixar ao tempo sem tabicar, sem nada, ela vai empenar, rachar, ela faz de tudo.

 

P/2 – O que é tabicar?

 

R – Tabicar é você ter umas ripinhas e separar uma tábua da outra, assim, para haver uma secagem adequada e tudo mais, né, e você seca em estufa, você também tem que ter um controle muito rigoroso na estufa, porque também é muito difícil.

 

P/2 – Precisa ter um espaço, né?

 

R – É, mas hoje, ah, eu tenho certeza que a Aracruz produz madeira, está produzindo a melhor matéria-prima para indústria moveleira.

 

P/2 – Yara, e você esteve no processo de criação do Lyptus?

 

R – Eu estive, eu estive. Tive esse privilégio também, a vantagem de ficar muitos anos na empresa é essa, né, você participa de vários acontecimentos, bons ou maus, ou excelentes, você está lá no meio, né? A verdade é essa.

 

P/1 – Como é que é, como é que foi essa, digamos assim, criação do Lyptus?

 

R – Ah, do Lyptus, começou com esses estudos, em 1995, e a partir daí nós começamos, fizemos primeiro uma associação com um grupo americano, com a Gutchess, e depois a Gutchess saiu e a Aracruz comprou a parte dela e ficou cem por cento Aracruz. Aí aprendemos muita coisa com os americanos, bem, entende,  porque toda a tecnologia de processo, de equipamentos, basicamente vieram dos Estados Unidos, né, então eram equipamentos altamente tecnificados para esse segmento, entende?

 

P/1 – E a Lyptus, o mercado dela é o mercado brasileiro e estrangeiro?

 

R – É, exatamente. É principalmente norte-americano. Acho que atualmente, se não me engano, estamos produzindo e exportando mais ou menos em torno de quarenta por cento da produção. Essa era a meta pelo menos. É porque eu me afastei um pouquinho lá da ADM também, e agora já estou saindo da Aracruz, né, então, mas a meta era quarenta por cento, sessenta por cento do mercado nacional. Deve estar mais ou menos nessa faixa.

 

P/1 – Na tua área de pesquisa, quais são os desafios próximos?

 

R – Próximos? Meus? Bom, o que eu quero fazer, o que eu gostaria de fazer é o seguinte: eu queria comprar uma propriedade para mim e desenvolver mais algumas coisas, porque eu preciso desses resultados porque eu não consegui fazer ainda na Aracruz, entende, mas é, mas também não é uma espécie ou variedade que a Aracruz se interessa, então, quer dizer, eu tenho que fazer por fora mesmo, que eu tenho dois projetos, que eu gostaria muito de desenvolver: o nim, que é uma árvore indiana e o urucum também que eu acho que é, acho que tem um potencial muito grande aqui para o estado do Espírito Santo.

 

P/1 – Fala mais sobre isso, fala sobre o nim.

 

R – O nim, o nim é uma árvore, ela é nativa na Índia, Paquistão, acho que naquela região mesmo, Índia, Paquistão, Sri Lanka, acho que na Malásia também tem um pouco dele, mas ela é considerada planta sagrada lá na Índia. Ela foi plantada, quer dizer, ela é de, é uma planta que tem, ela desenvolveu em vários locais, assim, em regiões bastante secas, em regiões bastante úmidas, né, então tem, e no deserto também, em região bem árida, ela tem lá onde eles falam até que é considerada uma árvore sagrada porque ela auxilia os peregrinos que vêm de longa distância para Índia, né, para capital para participar dos cultos religiosos e tal, seria os pontos que ela dava para esses peregrinos para poder descansar, para proteger do sol e tudo mais em regiões bastante áridas. Eu acho uma planta, fora isso, ela é uma planta que você produz inseticida, fungicida, a madeira é altamente durável, entende, ela é bastante resistente ao ataque de cupins e outros insetos, para e uma árvore fantástica, o crescimento dela não é tanto em altura, mas parece que não, mais em diâmetro. Eu já consegui algum material genético e eu quero ver para, eu quero plantar para ver mesmo o resultado.

 

P/1 – E o urucum?

 

R – O urucum, eu já estudei há um tempo atrás, né, e eu acho que também para regiões assim mais secas aqui do estado do Espírito Santo ela pode dar um bom resultado, entende? Porque você tem uma diversidade de espécies, acho, são híbridos que têm um potencial muito grande para a região, então eu estou selecionando esse material principalmente na região de Aracruz e próximo dali e estou propagando esse material. Aí eu quero testar, ah, mas aí tenho que ver também o teor de bixina, né. Que é o corante, tem que ter uma certa porcentagem acima para você também fazer um programa de clonagem em cima dele.

 

P/1 – Certo, agora fala um pouquinho, já que falou um pouco da nim e do urucum, agora fala um pouquinho mais do eucalipto, que esteve a vida inteira, você e o eucalipto têm uma relação muito próxima

 

R – Ah, o eucalipto, também eu vou querer continuar com ele, entende, que tem um projeto meu que eu não estou querendo falar dele, que é um projeto, entende que eu não sei se vai dar certo, mas eu vou fazer lá na minha propriedade. Eu acho que vai dar certo, mas eu não sei se vai, entende. Eu estou querendo plantar para ver.   

 

P/1 – Mas existem mitos em torno do eucalipto. Fale um pouco disso assim, o eucalipto como uma planta, como uma árvore, fale um pouco mais do eucalipto

 

R – Ah, bom, ele ocorre na Austrália, em Timor, um pouco em Papua-Nova Guiné, então são em torno de mais de seiscentas espécies, em torno de seiscentos e cinquenta espécies. Então ele pega vários ambientes, assim muito seco, árido e semiárido, a tropical, subtropical, então tem uma variedade e para cada finalidade tem a espécie mais adequada e também, para cada clima também você tem, por exemplo, o eucalipto grandis ele a gente utiliza aqui na Aracruz. É o grandis e seus híbridos, né, mas por exemplo, para a produção de polpa de celulose. E em Portugal, na Espanha eles usam os glóbulos, porque lá o clima é mediterrâneo e o eucalipto grandis não vai bem lá. Outra espécie para aquelas condições para a finalidade que eles oferecem que é a celulose também, mas nem todos se prestam ao mesmo fim, logicamente tem uns que são mais usados para apicultura, tem outros que são usados mais para serraria, tem outros que são mais para lenha, cada um tem a sua finalidade.

 

P/1 – Certo, Yara, eu vou começar a encaminhar as questões do bloco final. E uma dessas questões é a seguinte: ao longo da sua carreira na empresa, quais foram os momentos mais marcantes que você teve na Aracruz Celulose e na Aracruz Florestal?

 

R – Marcantes que eu acho que sem dúvida me deixou mesmo assim, foi um reconhecimento máximo, foi o prêmio Max Wallenberg que é considerado o prêmio Nobel da floresta, esse não tem dúvida, não tem, eu acho que o momento, assim, foi único, né, eu espero que meus colegas, meus companheiros aí um dia tenham essa possibilidade também de conseguir um prêmio, o prêmio Max Wallenberg, nossa, vai ser a glória para a Aracruz, mesmo, nossa, torço por isso.

 

P/1 – E o que significa para você estar trabalhando na Aracruz?

 

R – Estar trabalhando na Aracruz, ah tem muitas vezes assim que você se aborrece, mesmo na família tem momentos de alegria e de tristeza e de raiva e de ódio, algumas vezes eu pensei em sair da Aracruz porque não é normal a gente ficar a vida toda numa empresa porque a gente aprende muito quando você faz um PDGA, um PDG, alguma coisa assim, que um bom administrador empresário, ele não fica mais do que sete anos num local, se ele quiser realmente se desenvolver nesse nível gerencial, né? Então eu achava meio estranho, mas como eu sou meio estranha mesmo, então eu fui ficando. Quer dizer, eu tenho nível gerencial, mas me considero mais uma técnica, entende? Eu trabalho por mim, acho que o meu valor está em mim, nos meus conhecimentos e isso não, para gerenciar pessoas, eu não sou muito boa. Primeiro, porque eu tenho preguiça de falar, entende? Eu só falo uma vez, a segunda já estou descartando o sujeito, então quer dizer, não dá mesmo, então acho que o pessoal que tem esse lado de gerenciar pessoas tem que ter esse outro perfil.

 

P/1 – E se você fosse definir a Aracruz com poucas palavras, que palavras você usaria?

 

R – Aracruz, eu acho que é a melhor empresa do mundo, só isso. A melhor empresa do mundo, para mim não existe outra.

 

P/1 – Eu entendi você falar a alguns momentos atrás que você está saindo? Você está se aposentando?

 

R – Exatamente, estou saindo agora, eu podia me aposentar semana passada, mas a empresa achou por bem que eu ficasse até o final do ano aí, janeiro, eu vou acertar minhas coisas, vou embora. Ah, eu vou fazer meus projetos que eu quero entender, aí o pessoal fala: “Que que você vai fazer? Vai ser consultora, não sei o quê?”. Não sei, é a última coisa que eu quero fazer. Às vezes, eu vou ter que fazer, não sei, mas nesse momento eu não penso em ser consultora não, eu quero ter resposta para umas perguntas que eu tenho ainda comigo. E eu posso fazer só se tiver em uma propriedade, é isso que eu quero fazer.

 

P/1 – Qual é o seu maior sonho hoje?

 

R – Meu maior sonho? Ah, eu acho que é ter essa propriedade mesmo. (riso)

 

P/1 – Se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, você mudaria? E o que que você mudaria?

 

R – O que que eu mudaria? Ah, eu podia ter me preparado para essas perguntas, né? Não me preparei. Mas eu acho que eu poderia ter aproveitado mais a minha vida, entende? Eu acho que eu tenho condições de aproveitar mais a vida pessoal, mas eu gosto tanto da minha vida profissional que eu acho que ela é um prazer, tão prazerosa que eu acho que os meus colegas de trabalho, os diretores, você vê um diretor como o Carlos Aguiar dando uma entrevista, uma palestra, você vê que trabalha com prazer, é mais por prazer que outra coisa, então eu acho que é isso, eu mudaria muito pouco.

 

P/1 – Yara, para você, qual a importância de um trabalho como esse que a gente está fazendo de registrar a memória da Aracruz?

 

R – Eu achei muito interessante, como eu te falei, eu não sou muito de falar não, de contar muita coisa não, mas é, eu vim com a convicção, com o intuito de falar o máximo possível, porque eu já sofri um pouco no passado por causa disso, de, por exemplo, a pessoal: “Ah, Yara, me arranja uma foto não sei de onde”, né, daqueles tempos lá dos eucaliptos não sei o quê, entende? Saio procurando, nunca tem nada, sabe, é tudo assim disperso. Para mim então, ele vem com uma foto para mim e fala “o que que é isso”, não tem uma coisa estruturada, então se tiver uma coisa estruturada e que você vai colocando no seu arquivo dia a dia, sai um, ou tem uma foto nova, já arquiva, já deixa no lugar certo. Nossa, facilita a vida de todo mundo, não é mesmo? A Aracruz vem tentando fazer isso, eu sei que ela vem, mas eu acho que ainda está muito aquém do desejado. Eu falo isso por mim, entendeu? Não sei, posso estar muito enganada, o pessoal do Cedoc pode se sentir ofendido, não é isso, que eles estão organizando realmente, você vai no Cedoc, já começa a encontrar as fotos, tal, mas muitas das fotos ali eles não sabem do que se trata, né? Eles estão ali há pouco tempo e tal. E fica difícil, né, um trabalho desse só vem a contribuir mesmo. Para você ver a história, porque toda pessoa, a empresa deve ter uma história, né? Tem que ter um começo, tem os momentos de glória, momentos de derrota, saber o que aconteceu, quando aconteceu. Tudo tem que deixar registrado, acho que é muito interessante, muito importante para a gente não cometer os mesmos erros.

 

P/1 – Agora a última pergunta. O que que você achou de ter dado a entrevista?

 

R – O que que eu achei?

 

P/1 – É.

 

R – É como eu falei, eu fico muito nervosa, eu começo, disparo a falar, falo errado, misturo as coisas, mas eu acho que eu devia vir mais assim, sabe, falar do jeito como eu faço as pesquisas, passo a passo, direitinho, mas eu vou atropelando mesmo, não tem jeito.

 

P/1 – Obrigada Yara pela excelente entrevista que você deu para o projeto Aracruz memória.

 

R – Obrigada você pela oportunidade.


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