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Vida na comunidade

História de: Leonice da Silva Agapeto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Infância em uma favela do Rio. Ajuda no sustento da família. Histórias sobre o trabalho do pai dentro do Morro dos Prazeres. Escolas onde estudou.Trabalho em creche, cuidando de crianças. Filhas. Melhorias nas condições de vida das crianças do Morro.

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História completa

P/1- Bom dia Leonice. Você pode me dizer o seu nome completo, o seu local e data de nascimento?


R – Leonice da Silva Agapeto, 28 de outubro de 1958.


P/1- Você nasceu onde?


R - Aqui no Rio de Janeiro. 


P/1- E sua família morava onde quando você nasceu?


R – Também aqui. 


P/1- Mas já moravam aqui no Morro dos Prazeres?


R – Já. 


P/1 – Qual é a origem de seus pais? Você sabe? De onde eles são, em que cidade eles nasceram?


R – Não. Eu não sei, porque meu pai era de família de Paraíba e minha mãe era lá do morro do mineiro. Então eu sou parte de Paraíba, carioca e nascida de mineiro [risos].


P/1- Você tem sotaque mineiro. Um pouquinho. Você sabe dizer quando os seus pais vieram morar aqui no Morro dos Prazeres?


R – Meu pai, ele veio pra cá, pro Morro dos Prazeres, quando tinha 12 anos. 


P/1- Ele contava como era aqui quando ele chegou? Alguma coisa assim pra vocês?


R – Não. Ele falava que saiu da casa da mãe dele porque o pai tinha falecido e a mãe foi arrumar um padrasto e ele pegou abandonou a família e veio pro Rio. E aqui ele continuou trabalhando. 


P/1- Como era o trabalho do seu pai? Qual era a profissão?


R – Ele trabalhava justamente vendendo peixe ou senão siri, subindo esse morro aí. 


P/1- E como é que era? Conta um pouquinho essa história. Você sabe onde ele comprava peixe?


R – Ele ia em Niterói comprar.


P/1- E ele subia o morro como? Era balaio? Como é que era?


R – Era balaio. 


P/1 - Era todo dia que ele vendia ou não?


R – Mais dia de sábado e domingo. 


P/1- E como é que ele era conhecido aqui na comunidade?


R - Siri.

 

P/1- [risos] E como é que ele anunciava o peixe? Como é que era Leonice?


R – Era mais o siri, que, conforme ele subia com a lata ou senão até mesmo com balaio de siri, ele cantava (entrevistado canta) "Oi, vai levar o siri; siri cozido, siri assado; siri com molho ou sem temperar."

[risos] O pessoal conheceu ele assim. Aí é que ele ficou com esse apelido de Siri. 


P/1 – Siri. E durante a semana, ele tinha outro trabalho, outra profissão?


R – Ele trabalhava na tendinha. Eu também trabalhava com ele na tendinha. Ele vendia pão e leite. 


P/1- Uma tendinha aqui no morro?


R – Aqui no morro.


P/1 – Onde é que era? 


R – Aqui em baixo, na Gomes Lopes. Vendia pão e leite e dia de semana quando tinha feira, principalmente dia de segunda-feira, ele ia na feira, comprava e ficava vendendo, dentro da tendinha mesmo. E sábado e domingo ele trabalhava com essas coisas que eu falei. 


P/1- E tinha nome essa tendinha de vocês?O pessoal conhecia como a tendinha lá do seu Siri?


R – É. A tendinha do Siri. 


P/1- E esse leite, como é que era? Leite de garrafa ainda?


R – Não. Era leite em saco. Comprava na padaria. Eu descia cedo, ficava na tendinha, porque eu fazia café com ele, pra mim e pra ele na tendinha. E ele descia as cinco horas da manhã, ia na padaria e comprava o pão e o leite. E quando era dia de ir na feira, eu ficava e ele saia pra ir na feira. Pra comprar verdura e vender. 


P/1- Conta um pouquinho da tua infância aqui. Vocês brincavam? Como é que foi a tua infância aqui? Foi difícil?


R – Não. Não foi difícil não.  Agora está melhor ainda.


P/1- Por que?


R – Porque agora tem mais atividade pras crianças. Tem muita coisa que mudou. Coisa que na minha infância não tinha. Eu também não tive tempo. E agora é mais fácil pras crianças. 


P/1- Quantos irmãos vocês são?


R – Agora é só um, eu perdi outro. Entrou nessa vida aí. Acho que ele pensou que essa vida era melhor, aí entrou e entrou pra morrer. Eu fiquei só com um irmão. 


P/1- E a sua mãe? Ela é viva? Falecida? 


R – Não. A minha mãe é falecida. 


P/1- E qual o seu trabalho hoje? Você está trabalhando?


R – Não. Agora eu sou doméstica. Estou em casa.


P/1- Mas você trabalhava na creche?


R – Trabalhava na creche, com o Flavio, que eu acho que você conhece. Não tenho nada a dizer dele. É uma ótima pessoa, ótimo patrão. Também não tenho nada a dizer das meninas que eu trabalhava junto. Gosto muito de trabalhar com criança e eu espero um dia retornar. Se ele me desse o prazer de um dia retornar, aí eu retornaria com eles também.


P/1 - Você tem filhos?


R – Tenho. Duas filhas.


P/1- Como é o nome delas?


R –Aline que é a mais velha, tem 20 anos e Alice, que é essa que tem oito anos. 


P/1- Leonice, você por acaso conhece a história do porque este morro tem esse nome, Morro dos Prazeres? Você sabe por que?


R – Não sei não. 


P/1 - Por que você acha que tem esse nome?


R - Não sei não. Não é por ser morro não? Deve ser, de repente, por ser morro.  Aí fala Morro dos Prazeres. 


P/1- A gente está pesquisando sobre a história do nome. Estamos tentando procurar saber porque esse morro é dos Prazeres. Nome bacana, não? E sobre o Casarão? Quando vocês eram pequenos, vocês viram o Casarão? Você tem alguma memória sobre o Casarão?


R – Quando ele era assim, todo de tábua, aquele casarão antigo. Eu participei bastante desse Casarão. Eu estudei nesse Casarão. Porque aqui teve escolinha pra gente. Aí eu estudei nesse Casarão. Tinha uma senhora também que ficava aí nesse Casarão bastante tempo. Acho que ela veio a falecer.


P/1 - O que você lembra do Casarão? Como é que era? Você fala tábua o que? O chão todo era de tábua? Como era? 


R – Ele era todo de tábua. Ele agora é um, como é que se diz... Modificou porque do jeito que ele era, ele agora mudou muito. Ele era todo de tábua mesmo. 


P/1- Do lado de fora?


R – Também.  Era todo ____ Bastante _____ A gente achava que não tinha mais jeito. Agora é a mudança. 


P/1- Você conseguiria recuperar o ano que você estudou aqui? Que ano era esse?


R –Ah. Já tem tempo. 


P/1 – Foi o que? O ginásio? Que escola você fez aqui? Que grau que foi? Você lembra? Quantos anos você tinha? 


R - Eu agora estou com 42. Eu tinha o que? Tinha uns 15 pra 16 anos.


P/1- Era escola comum?


R - Era escola comum. Era assim um tipo Mobral, que a gente estudava. E a gente vinha aqui pra fora e ficava aqui mesmo. Assim, no caso fosse fazer uma pesquisa ou qualquer coisa, a gente ficava aqui fora.  Foi muito bom. Uma época muito boa que eu peguei. 


P/1 – E depois, o que aconteceu com o Casarão? Depois que ele deixou de ser essa escola?


R – Ele ficou abandonado. Aí a gente vinha pra cá, ficava aqui, esquentando, tomando sol. Ele não ficou totalmente abandonado, porque tinha uma senhora que tomava conta, mas ela era uma senhora de idade e era sozinha. E depois ela veio a ficar doente, veio a falecer e aí ficou abandonado. Até que chegou um que levantou. Do estado que estava, melhorou bem mesmo. 


P/1- Tem muita diferença?


R – Poxa. Com tem. Melhorou a beça. 


P/1 - Você lembra que dizem que tinha uma piscina aqui? Era isso mesmo? Você lembra de uma história de uma piscina aqui atrás, ou não?


R – Tinha sim. 


P/1- Onde era?


R – Atrás do Casarão. Agora onde está essa obra aí. 


P/1- Era uma piscina grande? 


R – Ali era uma piscina. 


P/1 Tinha mesmo [risos]. Vocês tomavam banho ali? Você lembra?


R - Era a função. A gente vinha tudo pra cá e tomava banho aí. Aqui mesmo esquentava, tomava sol e aqui mesmo secava, que o sol secava a gente.  Foi muito bom. 


P/1- Quer dizer que a comunidade aproveitava um pouco aqui. Espaço para brincar, tomavam um pouco de sol... Você acha que essa escola que tinha aqui foi... Vocês estudavam lá no Júlia Lopes, não é isso?Você chegou a estudar no Júlia Lopes?


R – Estudei. 


P/1 - Foi antes ou depois de você estudar no Júlia Lopes que você estudou aqui?


R – Foi depois. Depois que eu vim de lá. Aí é que a gente veio estudar aqui. 


P/1 - Está bom, eu te agradeço e queria te fazer uma pergunta: O que você acha desse projeto da gente, de estar tentando recuperar a história das famílias antigas da comunidade?


R – Eu acho ótimo, não tenho nada contra. Aqui é um lugar legal, super bom. Não tenho nada contra. 


P/1- Então super obrigada. 


R – Nada. 


--- FIM DA ENTREVISTA ---

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