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Vida Interrompida - Reinventando Sua História

História de: Lena (Maria Helena Gunello Delprá)
Autor: Paola Brunelli
Publicado em: 23/04/2017

Sinopse

Maria Helena Gunello Delprá nasceu em São Paulo, em 1950, no Cangaíba e tem até hoje uma forte relação com a zona leste da cidade (Belenzinho/Tapuapé). Em 2004, devido a um tumor cerebral, perdeu parte da memória e teve que reaprender a realizar uma série de funções corriqueiras, desde as mais básicas, como andar e falar, às mais delicadas, como cozinhar ou trabalhar no computador. Contou sempre com o apoio de seu marido Sérgio, quem ela descreve como o grande amor de sua vida e seu melhor amigo. Companheiros, parceiros e enamorados, ela narra a história do casal como uma longa relação de cumplicidade e respeito, coroada de bons momentos que hoje relembra com muita nostalgia, pois Sergio faleceu recentemente. Diferentemente da maioria dos aposentados, que com a idade prefere tranquilidade, mesmo depois de enfrentar todos os problemas de saúde e a perda de seu grande amor, Lena tem muitos sonhos e muita vontade de aproveitar o momento presente. Deseja viver sua vida com plenitude e faz projetos para o futuro.

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Não é possível imaginar todos os desafios que os últimos anos reservaram a esta senhora de ar refinado, só de observá-la. Maria Helena Gunello Delprá, é uma mulher miúda, de traços delicados. Bonita, se move de modo elegante, mas esta é apenas a primeira impressão de quem a vê. Apenas Maria Helena começa a falar, para a impressão se revelar superficial e imediatamente esvanecer; e então, o colosso surge. A frágil senhora dá espaço à mulher forte, decidida, de fala esclarecida, que luta a fundo pelo que quer. Nascida e criada no Canguaíba, ela se auto define como uma pessoa otimista. É falante e cheia de fé na vida. O que mais impressiona é que teve que reaprender a ser Lena, porque um tumor cerebral roubou memórias e aprendizados, levou lembranças e hábitos desse alguém que insistiu em viver, e se reinventou. Em 2004, passou por uma cirurgia muito delicada, para retirar tal tumor e depois disso tudo mudou: reaprendeu a falar, a cozinhar, a andar e a dirigir. Perdeu muita coisa, não apenas a memória pois o processo de recuperação foi tortuoso e, muitas vezes, exaustivo. Reaprender tudo é um processo lento, mas Sérgio estava lá; o tempo todo seu marido esteve com ela, assim como seus dois filhos. Segundo seu relato, sua absoluta fé em Deus nesse momento também foi fundamental para sua recuperação. Foi uma mulher que viveu um grande amor, desses de contos de fadas; não que os altos e baixos não tenham ocorrido, pois, segundo ela, houve dificuldades sim, mas tinha também muito carinho. O respeito e a cumplicidade entre Lena e Sergio superaram todos os desafios que a vida os proporcionou. Em seu depoimento, quando fala do marido que perdeu a pouco, sempre há muita comoção e um vazio saudoso transparece na descrição de cada palavra que profere sobre a rotina do casal.

 

Na infância, passou por situações difíceis, típicas de uma família de origem humilde e trabalhadora. Sua mãe, que trabalhava em uma tecelagem no bairro do Tapuapé, tinha que correr o dia todo e trabalhar muito para sustentar sua família, e sobrava pouco tempo para dar atenção às crianças. Ao falar de sua mãe, Lena descreve uma leoa, uma grande batalhadora, que ficou viúva muito cedo com três filhas para criar sozinha. Recorda-se de uma infância bastante solitária, na qual sentiu a falta das figuras paterna e materna. Estudou cerca de quatro anos no Externato São Vicente de Paula, na Penha, com a ajuda que o governo de Getúlio Vargas dava para viúvas com mais de um filho. Lena sentiu-se descriminada, pois naquela escola, só estudavam crianças de famílias abastadas; e as freiras, no momento do pagamento que era realizado na própria sala de aula, faziam questão de dizer alto para que todos escutassem, que a sua mensalidade era gratuita. Caçula de três irmãs, conta que viveu uma infância feliz, que brincava na rua, em casa; porém, naquela época, não existia o conceito de lazer atual, não teve acesso a viagens de férias nem a núcleos de cultura, esportes e lazer, como o Sesc hoje em dia representa na vida das pessoas. Descreve a mãe como uma figura bem castradora, que controlava tudo com as rédeas curtas, até mesmo porque na época a sociedade cobrava muito das mulheres e podava demais sua liberdade: rebolar ou sambar não era permitido; cruzar as pernas, também não. Quase tudo as era proibido. As ruas de terra da Penha e o barulho do ônibus são coisas que lhe vêm à memória, quando descreve o bairro de sua juventude.

 

Começou a trabalhar bem cedo, com 13 anos, e, de tão miúda, subia em um caixote para alcançar a altura do balcão da loja. Ao longo dos anos, passou por outros empregos, trabalhou em meados dos anos 70 na Prefeitura de Guarulhos, (durante o período de intervenção federal, da ditadura militar), onde conheceu seu marido. Mais tarde, colaborou com a multinacional Dupont do Brasil, que relembra como seu local de trabalho preferido, e, depois disto, ainda trabalhou no Ministério da Marinha, na área administrativa. De todas as suas experiências profissionais, Lena diz que o relacionamento com as pessoas e os amigos que fez foi o que mais a marcou.

 

Sobre sua vida amorosa, ao falar dos anos com seu marido, de como se conheceram e curtiam a vida a dois como eternos namorados, ela se emociona: a voz fica truncada pelas lágrimas. Apresentados pelas famílias, no primeiro contato ele era apenas um menino magrelo, e ela uma garotinha gorducha. Já na segunda vez, viu um belo rapaz, forte, alto, e ficou encantada pelos modos gentis dele; porém na época, Sérgio namorava com outra. O encantamento foi mútuo e Lena, desde sempre à frente de seu tempo em suas atitudes e jeito de agir, tomou a iniciativa de dizer que com ela não tinha essa: ou ela ou a outra! E Sérgio não hesitou, escolheu Maria Helena. Bom filho, bom pai, amigo, cúmplice de uma vida inteira, ela o define como a grande paixão de sua vida. Um relacionamento baseado em tolerância, compressão, respeito mútuo, e cheio de pequenos detalhes, que tanto contam. Detalhes que relata como prova de um carinho imenso entre eles... A bandeja do café da manhã na cama, o marido que fazia uma cachoeira no quintal com a mangueira, para ela se refrescar nos dias de calor, o casal que ficava até tarde conversando, que ia junto para a fila comprar ingressos de eventos. É maravilhoso o modo como ela o descreve, porque existe admiração em suas palavras, nos termos que usa para descrever sua “bondade extrema”. Ela narra ainda que seu marido era dessas pessoas que todo mundo adora, porque era um homem de coração realmente grande, generoso. Ajudava os outros, era amigo, disponível, estava sempre disposto a dar uma mão a quem precisasse. Tinha um sério problema cardíaco, aguardou anos na fila do transplante que, infelizmente, nunca aconteceu, e esse coração doente (porém imenso) acabou por levá-lo desse mundo; Lena diz que seu coração, de tão grande, não coube mais no peito. Uma metáfora delicada que esta senhora forte encontrou para contar, com elogios e honra, a morte de seu amor. A perda ainda é muito recente, apenas sete meses; portanto falar dela foi difícil, mas não pela tristeza, mas sim pela saudade que alguém tão especial deixa quando se vai. Tiveram dois filhos, um casal, e são todos muitos ligados.

 

Do que enfrentou, ficaram algumas sequelas; algumas mais profundas, de alma, dessas que mudam o modo de ver o mundo, e outras físicas, que carrega no corpo sem drama. Em uma certa época de sua vida foi até interditada, pois os problemas de saúde prejudicaram muito sua independência na vida civil. Do Sérgio, ficou um vazio imenso que Maria Helena sabe que não pode ser preenchido. Do tumor, está bem e curada, mas ainda podem ocorrer convulsões, além da perda da sensibilidade em parte do rosto; mas de tudo o que passou, do processo de cura e de sua busca por si mesma, a impressão que fica é a de que uma pessoa melhor emergiu, mais sábia sobre as questões da vida. Esta nova Lena aceita bem as dificuldades, entende que não depende dela o controle de inúmeros fatores. O Sesc, segundo ela, também teve um papel fundamental em sua escalada pela sobrevivência, porque estar em meio das pessoas é algo muito prazeroso para Lena. O contato com elas, frequentar os shows, curtir a música, fazer exercícios, se alimentar bem... o relacionamento de acolhimento e aconchego são bastante marcantes para ela. Mesmo após da morte de seu marido, cerca de 15 dias depois, Maria Helena sentiu a necessidade de visitar novamente o Belenzinho, pois lá ela se sente bem vinda, é chamada por seu nome, lá ela tem amigos. Conforme suas palavras, sente-se aconchegada porque a instituição é como uma extensão de sua casa.

 

Maria Helena Gunello Delprá é uma mulher fascinante, por tudo que passou e pela modo corajoso de como encara a vida hoje. É cheia de vida e de conhece seus direitos, gosta de ajudar as pessoas, de ver tv, principalmente novelas, para a decepção de seu genro. Adora ler livros espíritas, mas não resiste a suspenses com detetives também. Dorme até tarde, com toda a inocência de quem sabe que já madrugou muito na vida; e para ela, cozinhar é enorme prazer, quando é para sua querida família. Depois de tudo que viveu, ela mora sozinha e é auto suficiente. Para se sentir bem, ainda precisa estar com seus amigos, pois a presença das pessoas queridas a alimenta, lhe dá forças para ir adiante. Certamente, este seleto grupo de pessoas de sorte, também se sente alimentado pelo carinho e energia dessa pequena senhora; desse grande colosso apelidado de Lena.

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