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História

Vida e samba no Morro dos Prazeres

História de: Rosemary Pinto dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Infância no colégio interno. Insubordinação na escola. Primeiros contatos com o samba. Recebendo a bandeira do bloco. Lembranças de sambas e desfiles. Lembranças do casarão. O filho. Expectativa para o futuro.

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História completa

P1 – Rosemary me diga, por favor, o seu nome completo e a data do seu nascimento.

R – Rosemary Pinto dos Santos, 25 de junho de 1965 que eu nasci.

P1 – Rosemary você nasceu aqui no Morro dos Prazeres?

R – Nasci.

P1 – E seus pais?

R – Também.

P1 – Me diga o nome de seus pais?

R – Julio Alves dos Santos Filho e Irene Pinto dos Santos.

P1 – Quais são as suas memórias de infância?

R – Bom, eu fui criada em colégio interno, sofri muito porque aprontava, apanhava pra caramba porque eu era terrível, mas foi legal, na época foi legal. E quando eu vinha pra casa, eu brincava de pique, balanço, soltava pipa, brigava com os garotos, saía na mão, esses negócios.

P1 – E você participou do bloco aqui dos Prazeres, Acadêmicos dos Prazeres?

R – Participei, fui porta bandeira durante 2 anos.

P1 – Quando foi isso, em que ano?

R – Não me lembro, o ano não me lembro.

P1 – Foi depois da dona Zilda?

R – Foi, foi ela que me entregou a bandeira, foi emocionante. Eu estava brincando lá de porta bandeira, aí precisavam de uma porta-bandeira nova, na época eu era mais nova, aí fui escolhida, teve ensaio, essas coisas, e eu fui escolhida pra ser porta bandeira, foi emocionante.

P1 – Você foi porta bandeira quantos anos?

R – Eu tinha acho 20, não me lembro com quantos anos não.

P1 – Não você...

R – Fui 2 anos.

P1 – E saía em outra escola? Em outro bloco?

R – Eu desfilava na Tijuca, desfilei na Portela, só em escola de samba.

P1 – E não tem outras coisas do Morro dos Prazeres que você possa contar?

R – O quê, por exemplo?

P1 – Você lembra do samba?

R – Lembro, era muito bom, era demais. Começou com latinha de leite ninho foi aumentando, mas naquela época era bem melhor, antigamente era bem melhor, porque a gente se divertia, mas não tinha muita violência, essas coisas, era mais pobre, entendeu, mas era mais divertido, quando menos esperava o dia estava clareando.

P1 – Você sabe cantar algum samba daquela época?

R – Sei, espera aí, deixa eu me lembrar (entrevistada canta) “Oba, oba, kaô meu pai, kaô meu pai”. Assim, eu não tô me lembrando direito.

P1 – E aquele do Dercinho, acho que foi o Dercinho que ganhou, o começo eu esqueço (entrevistada canta) “Trabalhavam noite e dia, felicidade não existia, então pulava de alegria”.

R – Não estava nessa época.

P1 – Não estava nessa época não?

R – Acho que não, eu estava quando o Davi...

P1 – Aí você não lembra.

R – Não lembro, eu lembro dos sambas que o Davi cantava.

P1 – O Davi era o quê do bloco?

R – Pode cantar? Aquela da... Ah Neide, tem bastante palavrão (entrevistada canta) “ Dona Maria ______ a camisinha e manda ela pra tudo que é lugar, mas a vizinha é osso duro de roer chamavam ela Maria vai com as outras, dona Maria começou a imaginar um apelido que lhe fosse popular, mas a Maria enche a cara de Pitú, quando ela passa é o Mário sururu. Pega ela peru, pega ela peru”. Eu falei que era pesada. E tem também a da lata (entrevistada canta) “ A lata tá de _______ e vai de olho”. Assim, mais ou menos.

P2 – Como era a sua roupa?

R – Era bem rodada, uma vez eu fui desfilar, né, num bairro aí, eu estava me vestindo e eu estava esperando a hora da gente entrar, aí entrou uma barata aqui atrás, sério eu me vi doida, eu desfilando assim aquela barata [risos], mas nesse dia eu até ganhei nota boa, porque...

P1 – Evolui muito. [risos]

R – Fiquei querendo me coçar.

P2 – O que significava essa participação? Lutar pra ter nota boa?

R – É muito emocionante, aplausos, todo mundo gritando: “Rosinha, Rosinha, já ganhou” e eu fazendo assim - jogando beijos- , é muito emocionante.

P1 – E quando passa perto da comissão julgadora como é que vocês ficam?

R – Nervosos, ficava com as minhas pernas tremendo parecia que ia voar assim, acho que era a emoção, sei lá, era muito bom, adorava. E se voltar o bloco de novo eu quero ser porta bandeira de novo e vou trabalhar pra eles.

P1 – Você gostou?

R – Gostei, adorei, foi a minha melhor fase lembra, Neide?

P1 – Você não tem uma história engraçada que aconteceu aqui no Morro dos Prazeres?

R – Já, o meu sapato arrebentou, mas eu continuei desfilando, eu estava com um machucado no dedo do pé e inflamou, né, e inflamou, aí eu tive que desfilar de salto alto, aí eu fiz a maior coisa no meu pé, fiz um buraco no sapato pro dedo ficar do lado de fora pra não apertar, pra não inflamar, aí foi muito engraçado aquela época, foi muito bom aquele dia, nunca me esqueço.

P1 – E do casarão, tem alguma história do casarão?

R – Eu tinha medo naquela época.

P1 – Como era o casarão naquela época? Descreve ele pra gente.

R – Era uma casa velha, antiga. Mas era espantosa, quando éramos criança, assim, mais nova as pessoas diziam: “Ali é mal assombrada” e a gente acredita, né, aí eu vinha da escola Júlia Lopes de Almeida, aí falavam assim: “ Ih, não passa por lá porque tem uma bruxa”, mas sempre eu via assim um garfo, não sei se era imaginação minha, acho que era o medo, eu ficava: “ Ah, não vamos passar por aí não”, com o maior medo. Aqui na frente, embaixo, né, tinha uma telhazinha, lembra Neide? Passeávamos, mas dava medo, tinha um casal de velhos que morava aqui, dava medo aquele casal.

P1 – Como era o nome deles?

R – Esqueci.

P1 – Seu Vantoil?

R – É, seu Vantoil. A moça eu não me lembro do nome dela. Sei que eram muito feinhos, espantosos eu tinha medo deles.

P1 – Ficava muita gente aqui à noite?

R – Namorando à noite. Nossa, pegava cada coisa aqui.

P2 – Fora ou dentro?

R – Fora e dentro. Muitas criancinhas foram feitas aqui.

P1 – Querida, o que significa o Morro dos Prazeres pra você?

R – Significa tudo.

P1 – Segunda porta bandeira do Acadêmico.

R – Pra mim significa tudo. Foi a melhor coisa, eu não tenho vontade de me mudar daqui. Às vezes, tem momentos difíceis, né, de brigas, de guerras, mas isso aí a gente supera. É só você saber viver, se dar bem com as pessoas que qualquer lugar que você mora que você se dá bem, não é? É só você andar na sua, ficar na sua.

P1 – Você é casada?

R – Não, tenho só um filhinho.

P1 – Qual é o nome do seu filho?

R – João Vitor, tudo pra mim ele.

P1 – Quantos anos ele tem?

R – 3.

P1 – 3 aninhos.

P2 – Foi feito no casarão?

R – Não. Foi feito na escada, mas não no casarão.

P1 – Rosemary, o que você acha de ter dado essa colaboração para essa entrevista pro Museu da Pessoa?

R – O que eu acho o quê?

P1 – O que você acha? Você gostou de ter dado essa entrevista?

R – Gostei, fiquei um pouquinho nervosa.

P1 – É você tava muito nervosa no começo, depois se soltou.

R – Fiquei com medo de falar algumas coisinhas assim básicas, mas adorei.

P1 – O que você acha da manutenção da memória do casarão, do Morro dos Prazeres?

R – Eu acho a melhor coisa que fizeram foram as atividades: teatro, balé. Eu faço aula de alongamento aqui, tá ótimo, tô perdendo até minha barriguinha.

P1 – Seu filho estuda aqui também?

R – Não, ele faz atividades, né, teatrinho, coisinhas básicas, foi a melhor coisa.

P1 – Obrigada pela sua entrevista Rosemary. (41:40)

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