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Vida e militância

História de: Lula Ramirez (Luiz Ramires Neto)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/10/2007

Sinopse

Lula Ramirez evoca no seu depoimento a questão da tolerância à homossexualidade. Depois de sua infância ligada à família e ao bairro, explica o impacto que a universidade exerceu na sua vida, inclusive na luta política e na descoberta de sua sexualidade. Este tema torna-se o cerne do depoimento, ao explicar o seu envolvimento na militância partidária, a sua luta contra o preconceito e o trabalho desenvolvido no Grupo Corsa, junto do qual em 1997, é um dos principais idealizadores e realizadores da Primeira Parada LGBT do Brasil.

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História completa

R – Precisa olhar pra alguém? Precisa olhar pra câmera?

 

P/1 – Seja o mais natural possível. Bom, boa tarde, Lula.

 

R – Boa tarde, Maurício.

 

P/1 – Bom, vamos começar a nossa entrevista primeiramente perguntando o seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R – Então, o nome completo é Luiz Ramirez Neto, eu nasci em São Paulo no dia primeiro de maio de 1960.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais e dos seus avós?

 

R – O meu pai chama João Ramirez, minha mãe chama Lourdes Maria Rizzo Ramirez. Eu tenho o nome do meu avô que chamava Luiz Ramirez, minha, por parte de pai, e minha avó chamava Petronília Ramirez. Aí, por parte de mãe, o meu avô chamava Pedro Rizzo, e minha avó chamava Maria Emília Secomandi Rizzo.

 

P/1 – E qual era a atividade profissional deles? Qual é ou qual era a atividade dos seus pais?

 

R – Bom, o meu pai, o meu avô é um imigrante espanhol, ele e a minha avó vieram pro Brasil ainda jovens, né, assim adolescentes praticamente, e eles trabalhavam na lavoura e eles foram um grupo de espanhóis que se estabeleceu na região de Sorocaba. Então o meu avô e a minha avó se conheceram, né, dessa maneira e casaram, né, ainda em Sorocaba e quando o meu pai tinha seis anos eles mudaram pra São Paulo. Então meu pai que hoje está com 82 anos, na verdade embora não tenha nascido em São Paulo ele é um paulistano porque ele veio pra cá muito garoto. E o meu avô, então, começou a trabalhar no comércio com, ele era agricultor de cereais, né, basicamente de cebola, e ele tinha negócio no mercado de Pinheiros que era o bairro onde eles moravam, e aí o meu pai seguiu a trajetória junto com dois irmãos, né, eles abriram um negócio no Largo da Batata, que há 40 anos atrás era um lugar que se você quisesse comprar cebola em São Paulo esse era o lugar onde você vinha, os supermercados, né, os grandes compradores vinham nessa região comprar. Então o meu pai trabalhou a maior parte da vida dele tendo um armazém onde ele comprava e revendia cebola.

 

P/1 – Tá. E a sua mãe?

 

R – A minha mãe nasceu no interior do Espírito Santo numa colônia italiana, né? A minha avó nasceu no Brasil, mas ela foi alfabetizada em italiano, era uma comunidade um pouco fechada, a gente poderia dizer, que num determinado momento, por dificuldades de falta de recursos daquela região também migrou para São Paulo, né? O meu avô era pedreiro, né, e ele morreu com 70 anos, eu tinha na época 10, 12 anos então eu não conheci muito esse avô, assim, as lembranças que eu tenho dele são muito afetivas, né? Mas eu sei que a casa onde eles moraram foi ele que construiu com as próprias mãos. E a minha avó teve um restaurante de comida típica da região do Espírito Santo, né, comida capixaba que se chamava Bar Vitória, que foi um bar muito famoso no Largo da Batata, né? Então foi, se você ver a origem do meu pai, da minha mãe, de repente eles se... O meu pai descendente de espanhóis, a minha mãe de italianos, mas eles, né, se encontram nessa região e aí casaram. A minha mãe nunca trabalhou e o meu pai, junto com dois irmãos, tinha um armazém no Largo da Batata.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Então, nós somos em sete, né? Então são quatro mulheres e três homens. São três mulheres, três homens e uma mulher e eu sou o homem do meio, né, então tenho três irmãs mais velhas, um irmão mais velho, um irmão mais novo e uma irmã mais nova. Que faz cada um deles, quer? Posso falar.

 

P/1 – Não, não. Lula, descreva um pouco a sua infância, como é que foi o período da sua infância ou o bairro em que você morava.

 

R – Então a gente, a minha vida tá muito vinculada ao bairro de Pinheiros, né, que foi o bairro onde eu nasci, não fisicamente porque eu nasci na Maternidade São Paulo, mas aonde a minha família morava. Quando os meus pais se casaram eles moravam numa rua, chama Ferreira de Araújo, e aí quando eu tinha dois anos eles mudaram pra casa onde eles moram até hoje que é uma das travessas do Largo de Pinheiros, né? Então é um sobrado, né, com quintal, uma casa bastante ampla, né, mas a gente em sete filhos, então por mais ampla que seja uma casa, né, a briga pelo espaço é uma coisa interessante. E o fato de eu ter muitos irmãos, né, uma coisa que às vezes eu paro pra pensar assim, a coisa de dividir pra mim, assim, vamos dividir uma torta, um bolo em X pedaços é uma coisa que vem da minha infância, né? Embora eu tenha morado numa época sozinho, que então tudo é seu, né, a minha matriz, né, de infância é essa coisa da divisão. A rua onde a gente morava é uma rua sem saída, embora ela seja numa região movimentada, né, que é do Largo de Pinheiros, como a rua é sem saída na minha infância a gente andava de bicicleta na rua, brincava de amarelinha, de esconde-esconde essas coisas. Era uma rua de, mais ou menos, uns 200 metros que tinha um grande número de crianças, então foi desse jeito. E assim, à medida que eu fui crescendo a gente ia muito ao cinema juntos, né, tinha bailinho na casa de um, na casa de outro quando tinha aniversário, então era uma coisa assim tinha uma coisa de rua e de comunidade que hoje em São Paulo, na região central é impossível, talvez você encontre isso nos bairros mais afastados que não tem trânsito, que as crianças ainda brinquem na rua, né?

 

P/1 – E como era o cotidiano na sua casa? O relacionamento com a família, os irmãos, os pais?

 

R – O meu pai trabalhava, né, tinha esse armazém e sustentava a família. A minha mãe cuidava da casa e dos filhos, né? A minha mãe é uma excelente cozinheira, assim, uma das coisas mais difíceis da minha vida foi, por volta de 17, 18 anos, quando eu entrei na faculdade que eu comecei a viver, sair pro mundo era assim: cada vez que eu tinha que comer fora de casa era uma tristeza assim, eu estranhava o tempero, o cheiro da comida, era uma coisa assim de às vezes, sabe, eu beliscava a comida pra não ser mal educado e não comer, mas era um horror! Então, essa é uma coisa que marcou muito a vida da minha família porque a gente, todo santo dia, almoçava e jantava os nove, os sete filhos, meu pai e minha mãe e eventualmente tinha também uma empregada. Então quer dizer, era esse ambiente de dez pessoas, né, que povoava a casa. Então, durante a minha infância, a gente ia pra escola de manhã, voltava pra casa, fazia a lição e saía pra brincar na rua. À medida que a gente foi crescendo, principalmente as minhas irmãs mais velhas, então tem essa coisa de sair, né? São as primeiras pessoas que vão abrir o mundo pra mim,  assim, de falar de cinema, de teatro, de eventos culturais, né? E é uma coisa, cinema foi uma coisa sempre muito importante na minha família, assim, tanto que eu tenho o hábito de ir ao cinema até hoje. E na minha rua tinha essa coisa de vamos ao cinema, a gente ia muito ao cinema às vezes de 15 pessoas, entrava no ônibus e lotava, né, era a turma da rua que gostava de cinema e assistia muito, né? A minha avó e a minha mãe sempre foram também muito religiosas, né, assim de católicas fervorosas, então a minha infância e a minha adolescência também é marcada por ir à igreja, ir à missa todos os domingos, né? E eu especialmente trabalhei, fui catequista, trabalhei com grupo de crianças e de jovens na paróquia. Então a minha vida até mais ou menos os 17 anos ela tá muito, ela tá na minha casa, na minha rua, tá na escola que eu ia a pé que era a, mais ou menos, talvez um quilômetro de distância da minha casa, e a igreja no domingo e o cinema que era no bairro, então eu vivia, né, no bairro de Pinheiros que se a gente comparar com a situação de São Paulo hoje, o que hoje é um bairro residencial mais afastado, talvez Pinheiros fosse, porque Pinheiros não tava na região da Paulista, ou na região Central, então ele não tinha uma coisa assim de uma vida noturna, né, ou coisas muito extravagantes, era extremamente, tinha comércio durante o dia, fechava a noite e famílias que moravam lá.

 

P/1 – E Lula, poderia descrever a escola, os estudos?

 

R – A escola, o primário eu estudei numa escola chamada: Escola de Demonstração do Centro de Pesquisas Educacionais Professor Queiroz Filho, é a escola que hoje é a Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP. Essa era uma escola experimental ligada a um Centro de Estudos que era, naquela época inclusive, federal esse Centro de Estudos de Pesquisas Educacionais era do governo federal. Essa escola, quando ela abriu, ela era na Cidade Universitária que se hoje já é complicado ir pra lá você imagina há 40 anos atrás, né? Essa escola de quando ela abriu não tinha alunos, então, os professores que eram, além de professores pesquisadores, eles saíram batendo de porta em porta nas casas, né, da região do Butantã, de Pinheiros, da Lapa pedindo pra que as famílias matriculassem os filhos. E essa era uma escola completamente diferente das outras porque na época em que eu estudei essa escola não tinha muros, não tinha grades, ela era, a USP era um terreno, um grande terreno baldio, então assim eu me lembro de assim, às vezes, no recreio a gente saía e andar e era uma vastidão, né, muito grande. E é interessante porque todos... A não ser a minha irmã mais velha que não estudou nessa escola porque ela não tava aberta ainda, todo os outros estudaram, né? Quando a minha irmã mais nova foi se matricular aí a escola já tinha se tornado uma escola de referência, não sei o quê pá pá pá, e aí tinha vagas muito limitadas e sorteio e ela, a minha irmã não foi sorteada. E aí o meu pai procurou a direção da escola pra dizer: “Olha, quando essa escola abriu vocês vieram implorar pra eu colocar os meus filhos, agora que é a última, né?” E aí no fim eles, né, uma pessoa desistiu e eles conseguiram acomodar e aí a minha irmã também. Então, tirando a mais velha que não poderia ter estudado porque ela tava um ano, uns dois anos adiantado, todo mundo estudou nessa escola, né? E aí é uma coisa muito engraçada porque o meu pai não podia ir buscar porque eram sete filhos, então imagina. Mas às vezes a gente ia de ônibus, ele ia buscar, ou ele ia levar e a gente [voltava]. E assim eu com sete, oito anos eu andava de ônibus, ia pra escola porque não era muito longe, mas era uma viagem, né? E essa escola é assim a gente tinha aula de teatro, de artes, de iniciação musical, coisas que você em outras escolas públicas, mesmo públicas que fossem de qualidade não existiam ainda nessa época, né? Então foi uma escola muito de que talvez tenha feito a diferença, pra minha família, pra mim  e pros meus irmãos, no sentido de desenvolver um gosto pela leitura, pela arte, coisas que depois, enfim, que você não vai ver em escolas públicas hoje, né, com todos os problemas que a educação tem. E que aí eu fico pensando um pouco em termos de trajetória da minha família porque, enfim, os meus avós eram imigrantes, né, que o meu avô começou um negócio de vender num mercado que virou um armazém, então o meu pai, que fez até o segundo grau, não era uma pessoa que tivesse posses pra dizer: “Então vai dar uma vida maravilhosa pra todo mundo!” Mas eu acho que a insistência dos meus pais pra que a gente estudasse, e a sorte da gente ter ido parar nessa escola específica eu acho que fez muita diferença e que um pouco define o perfil da minha família, né?

 

P/1 – Qual o fato mais marcante, assim, no seu período de estudante na escola?

 

R – Ah, é complicado eu te dizer um fato marcante porque, assim, eu estudei, eu fiz. Antes de fazer, de entrar na escola regular eu já tinha feito um ano de, como chama? Jardim da infância que foi uma coisa super, super bacana, né, era no clube, era maravilhoso! Aí eu passo, tenho todos esses anos nessa escola que é uma escola da qual eu tenho ótimas recordações, né? A gente tinha uma coisa que em nenhuma outra escola tinha, que era num dia da semana a gente tinha período integral, a gente ficava o dia inteiro na escola. Almoçava, tinha o bandejão, tinha as aulas de arte e tudo mais. A minha, no meu ginásio eu estudei numa escola de Pinheiros e essa escola era uma escola muito rigorosa, mas também uma escola pública, considerada uma escola de qualidade, né? Eu me lembro de quando eu tava no ginásio de eu ter amigos que o chofer ia levar, então imagina um chofer levar alguém numa escola pública hoje. Impensável, né? Mas essa era uma escola muito boa, né? E que eu tive professores que também super marcaram a minha trajetória. Aí talvez o período de menos empatia minha com a escola é no colegial, que eu fiz na mesma escola, mas a noite, e era uma escola técnica, né? Que assim, a qualidade, eu gostava eu sempre gostei muito de matemática e física e o meu sonho era ser engenheiro porque eu falava: “Ah, eu tenho facilidade com matemática e física”. Então essa escola assim de, enfim, eu passei por ela, né? Tanto que eu entrei em Engenharia, mas eu só entrei porque eu fiz um ano de cursinho, porque aquela escola não teria me dado base pra entrar na faculdade. E aí entrei na faculdade. Então o que eu tô tentando te mostrar é que assim, eu vivi a minha vida inteira na escola, aí depois quando eu tava fazendo Engenharia eu tive uma grande crise existencial e eu larguei, né, daqui a pouco você vai perguntar sobre isso e eu te falo. E de Engenharia eu fui fazer Filosofia. E aí eu fiz algumas outras coisas e num determinado momento, que eu tava assim com 20 e poucos anos: “O que eu vou fazer da vida?” Eu comecei a dar aula. Então quer dizer, eu passei a vida inteira na escola como aluno e de repente eu me vi como professor. Então a minha vida sempre teve ligada a escola, então você fala assim: “Me fala um fato marcante” eu vou falar: “Eu vou ficar devendo porque, sabe?” O fato marcante da minha vida é que ela tá ligada à escola e à educação.

 

P/1 – Então, o senhor começou a fazer Engenharia, né? Quantos anos o senhor fez a Engenharia?

 

R – Então, eu entrei em Engenharia com 17 anos. Então assim de super precoce, né, na época nem era tanto assim, era comum alguém terminar o colegial com 16 pra 17, foi o que aconteceu comigo e eu entrei em Engenharia na Poli, né, que era super concorrido, ainda é até hoje. E eu tive uma grande decepção com o curso de Engenharia porque, talvez eu tivesse feito um cursinho que tinha me viciado muito a me dar as coisas muito mastigadas, por causa do vestibular, e de repente eu tava diante de professores que vomitavam uma teoria no quadro e você que se virasse pra estudar. Como eu tinha vivido essa vida muito no bairro a universidade foi uma coisa assim: o mundo se abriu! Então eu fui fazer parte do grupo de teatro, do cineclube, eu era da equipe que fazia o Jornal Mural, né? Teve um encontro em Ouro Preto, de Encontro Nacional de Estudantes de Engenharia foi a primeira vez que eu viajei, que eu saí de casa assim, fiquei vários dias sem a família, então, isso descortinou muitas coisas. Então pra mim a universidade era assim: o que é a universidade, mas o curso de Engenharia eu não me identificava com ele. E por que eu não me identificava? Primeiro tinha essa coisa do saber, “que coisa esquisita tá acontecendo aqui, não sei o que é”. Tinha outra coisa que era: eu tava descobrindo a minha sexualidade e descobrindo a minha homossexualidade. Então eu vivia num ambiente que era extremamente homofóbico, porque os meus colegas de engenharia qual era o assunto? Carro, futebol e mulher. Carro eu não tinha, né? Futebol eu não jogava e não gostava. E mulher não era o meu interesse imediato. Então eu, assim de, fui criando um sentimento de afastamento, de alienação do curso. E como eu tinha essa trajetória, e isso eu tinha, eu entrei com 17 anos, né, então era muito ligado a igreja, pra mim assim, a minha sexualidade extremamente reprimida, eu resolvi que então eu iria largar o curso de Engenharia e eu ia ser padre, né? Porque era um caminho que pra minha família era aceitável, era inclusive natural. E essa foi a minha decisão, foi por isso que aí eu largo o curso de Engenharia, disputadíssimo, pra fazer Filosofia que era um curso que sobravam vagas, ninguém entendeu nada: “Nossa, como que tá acontecendo?” E na verdade foi a melhor coisa que podia acontecer na minha vida, por quê? Porque eu fui fazer Filosofia na USP, então eu tinha professores que eram extremamente críticos da ideologia dominante, tive aula com a Marilena Chauí, sabe assim. Então de repente em dois anos eu não só, sabe, me esqueci que meu projeto de vida era ser padre, que eu era ligado a igreja, e eu comecei a participar do Centro Acadêmico, da política do movimento estudantil, né? E isso mudou completamente a minha vida até porque eu entrei em Filosofia em 80 que é o ano em que o PT [Partido dos Trabalhadores] foi fundado. Então em 1982 eu me filio ao PT, depois em 83 eu vou ser presidente do diretório do núcleo, do diretório do Bairro de Pinheiros que era onde eu morava. Então assim sabe, é uma coisa assim que aconteceu em dois anos, né, assim de tipo: “Não, não é nada disso”. Aí eu começo a ter uma visão, inclusive, extremamente crítica e ácida da hierarquia da Igreja Católica, dizer: “Não, não é nada disso que eu quero!” E aí, né? E com isso, na época que eu estava fazendo Filosofia eu fiz um curso que era da área de Antropologia que era sobre Cultura Popular e a gente fez uma pesquisa de campo sobre violência no Centro da cidade. E com isso eu comecei a ler sobre Antropologia e eu fui fazer mestrado em Antropologia no Rio. Então aí eu termino a faculdade e vou pro Rio. Aí eu mudo de cidade, eu vou fazer um outro curso parará e a vida continua.

 

P/1 – Como é que foi o impacto dentro da sua família essa questão de mudança pra Filosofia, essa contestação à Igreja Católica?

 

R – Então, é porque na verdade foi uma coisa assim pra mim. Pros meus pais, né, de eu ir fazer Filosofia com a coisa implícita da religião, de ser padre, era uma coisa que tava legitimada, era meio, né, de causar uma certa perplexidade do tipo: “Ué, ele era tão inteligente a ponto de entrar em Engenharia, que ele tá fazendo Filosofia?” Que era um curso considerado ‘espera marido, né? Eu tinha uma amiga que dizia que Filosofia sem datilografia você não faz nada na vida, né? Eu posso beber água?

 

P/1 – Pode, fica à vontade.

 

R – PAUSA. Então pros meus pais essa mudança não foi nada. Pros meus irmãos, que eram pessoas extremamente liberais, também era assim: “Ah, se ele quer fazer...” Não foi uma coisa que a família interferiu, sabe? Achou exótico, mas, né? A passagem de ir se afastando da igreja, que ainda as minhas irmãs mais velhas, o meu irmão nunca foram muito ligados à igreja, então também não tinha, se afastar da igreja pra eles também era uma espécie de caminho natural, né? E aí as minhas, com as minhas irmãs era com quem de vez em quando eu ia ao cinema, ou ia ao teatro. Então era isso, 17 anos foi quando eu entrei na universidade, né, foi em 77, era o auge da Ditadura Militar, então, fazer coisas culturais e participar de coisas que tinham um caráter contestatório era uma coisa que, pra mim, e pros meus irmãos sempre era uma coisa que borbulhava em casa, né? Não que... O meu pai, por exemplo, a grande decepção política dele é a renúncia do Jânio no começo dos anos 60 e assim, depois que... Porque o meu pai acreditou muito no Jânio. Aí de quando o Jânio renuncia daquela maneira super populista ele, o meu pai, sabe, não quer mais saber disso. Passam-se os anos, tem essa coisa da Ditadura e a gente tem o ex-marido de uma tia minha, né, irmã da minha mãe, ele era da Polícia, da Guarda Civil, né, que era uma espécie de Guarda Metropolitana, que depois virou Polícia Militar, ele era ligado ao Partido Comunista e ele foi preso, foi torturado, assim, diz que sofreu barbaridades e o meu pai foi uma das pessoas que ajudou mesmo sem nenhuma motivação política mas de achar isso um absurdo. Então esse ambiente rolava muito na minha casa, né? E aí então esse caldo, né, de coisa de: “Pó, repressão é uma coisa ruim!” “A Ditadura não sei o que”. E o com o surgimento do PT eu sou um dos que, na minha família nenhum dos meus irmãos teve qualquer tipo de vida pública, digamos assim, a não ser eu e a minha irmã mais nova que também foi filiada ao PT, né? Mas ela é hoje professora universitária e faz, não lida diretamente com isso. Mas a gente tem essa trajetória assim de um partido que era uma grande esperança de transformação e de renovação e tudo o mais. Pra mim continua sendo, né? Não vamos fazer essa discussão política aqui, mas eu continuo, apesar com todos os problemas do governo Lula, do PT, eu continuo acreditando, continuo filiado, continuo participando. Mas eu sou o que vai chegar em casa em 82, que é a primeira campanha eleitoral do PT, né, que é quando o Lula se candidata a governador pelo Estado de São Paulo, eu vou chegar com estrelinha, com camiseta, né, optei de: “Queremos o poder! O poder pra todos!” A estrelinha, não sei o quê. E isso é engraçado porque o meu pai que não tinha ideologia, ou um histórico de participação política ele começa a dialogar muito comigo e com a minha irmã no sentido de dizer: “Ah, em quem vocês vão votar?” Então assim, nunca foi uma coisa assim de eu falar: “Não, o senhor tem que votar assim.” “Olha, pai, eu vou votar em fulano, em ciclano, em beltrano por causa disso, disso e disso. Porque eles defendem isso, isso e isso, né?” E a minha mãe que é uma pessoa extremamente conservadora do ponto de vista moral e que não entende nada de política teve cenas assim de tipo no dia da eleição, a minha irmã me conta sempre essa história, no dia de uma eleição ela acorda às oito horas da manhã pra ir votar, a minha irmã tinha ido beber, tinha ido dormir às cinco da manhã, provavelmente, “Qual que é número do Lula mesmo pra eu votar?” Aí ela acorda e vem contar pra gente, assim, é um motivo de celebração pelo que aquilo significa, né, pra cabeça da minha mãe, não pelo voto em si, e por que aquilo significa de posicionamento da minha mãe com as amigas da rua que são mais reacionárias ainda do que ela. Então a gente olhava e falava: “Nossa, que engraçado! Porque sem fazer campanha dentro de casa o fato de a gente fazer e acreditar naquilo que a gente tá fazendo tem um efeito, né, super grande.” Mas isso, o resto dos meus irmãos, assim, são politicamente muito apartados, tanto que de vez em quando um ou outro manda uns e-mails assim de tirando sarro do Lula, não sei o que. Aí a minha irmã me responde, só pra mim, me dizendo: “Tem horas que é melhor não discutir política com essa família, né?”.

 

P/1 – Você entrando pra política e tal, qual foi o seu nível de engajamento, em que área da política o senhor começou a atuar, a defender?

 

R – Eu entrei... Na verdade no segundo grau eu fui do grêmio da escola, né, que na verdade até chamava Centro Cívico, então foi a primeira vez que eu participei de alguma coisa. Em 77, né, quando eu tava fazendo cursinho. Aliás, falei errado, eu entrei na universidade em 78, né? Em 77 que eu fazia cursinho tinha um movimento que era, uma parte do movimento estudantil, que lutava pelo aumento das vagas nas universidades públicas, né? E eu fui em algumas reuniões, eu recebi um abaixo-assinado que eu passei entre os meus amigos e as pessoas, assim, ficavam absolutamente apavoradas porque isso é o auge da Ditadura e às vezes as pessoas sumiam da noite pro dia por fazer esse tipo de atividade, né? E eu achava tão louco, falar tem que ter mais vagas, a gente tem que se mobilizar. E eu não tava seguindo exemplo de ninguém, era a minha consciência, eu achava que tinha que fazer isso, né? Então isso em 77, 78 eu entrei na universidade e comecei a participar talvez até mais de coisas culturais do movimento estudantil do que do movimento propriamente dito. E aí, mas com o movimento estudantil fui me politizando, eu não tinha uma coisa assim da política de assim: “Eu quero me candidatar pra alguma coisa assim de...” Aliás, em geral, não era uma coisa assim de que eu reivindicava, mas que alguém me indicava e falava: “Ah, eu acho que você, vai você, assume você esse cargo, né?” E isso diversas vezes na minha vida vai acontecer. Então no movimento estudantil, depois quando eu tava no PT, pra mim foi uma surpresa, quando a gente tava discutindo a composição do diretório, as pessoas virarem e falarem assim: “Ah, eu acho que você devia ser o presidente”. Eu tinha 23 anos na época, a gente vinha de uma história de dois partidos, ARENA E MDB, então o PT tinha três anos de existência e eu era... Não, tudo bem que também você ser presidente do diretório zonal do PT em Pinheiros, e ser um extra-terrestre era quase a mesma coisa porque assim, as pessoas, eu tenho essa sensação muito forte na minha memória de que as pessoas, quando me viam com a estrela do PT, com a camiseta, eu era um ET assim de “como?” Mas era uma coisa que eu acreditava naquela época, e continuo acreditando, de achar que a sociedade só vai mudar quando ela se democratizar e isso significa que todo mundo tem que participar. Então a democracia, que é uma coisa muito bonita, também é um saco porque significa que você tem que perder tempo de ir nas reuniões, discutir, você construir consenso que é uma coisa que, né? Então é muito mais fácil se estiver nós quatro aqui e a gente tiver que tomar uma decisão e eu falar assim: “Ó Sara, então você toma a decisão, o que você decidir a gente vai atrás”, né? É muito mais fácil do que a gente: “Não, vamos sentar, o que cada um de nós pensa e de qual é o terreno comum que a gente tá pisando”, você vai perder muito mais tempo. Então nesse aspecto de um governo autoritário, uma ditadura, sabe, uma coisa, né de, é sempre muito mais prático porque é alguém que manda, o resto obedece e dane-se. Então essa coisa, essa experiência da democracia que é uma coisa muito cansativa, né? Então na minha história como militante tem hora que se você falasse assim: “Ai, chega, não, cansei! Não, eu vou cuidar da minha vida. Eu vou, sabe?” Eu tinha uma amiga, a gente brincava dizendo assim: “Não, vamos ser pescador, sabe, ter uma casinha a beira da praia e dana-se, né?” Mas eu acho que é uma coisa que depois que você é picado pelo mosquito da política de dizer assim: “Se você não falar, ninguém vai falar por você”. Ou até alguém vai falar em seu nome e sem a sua autorização, não tem jeito a não ser você se posicionar. Então é extremamente cansativo, né, e eu tenho hoje um companheiro que é completamente despolitizado que eu olho pra ele e falo assim: “Eu não sei como é que você se apaixonou por mim porque você tinha tudo pra me odiar, né?” E eu tinha tudo pra olhar pra ele e... Na verdade, talvez a gente alcance um equilíbrio porque como ele é completamente avesso a política, então, quando a gente tá junto não são os nossos assuntos favoritos, digamos assim.

 

P/1 – Bom, você fez mestrado, né, e quais foram as suas atividades desde então?

 

R – Então, eu na verdade eu comecei o mestrado, eu fiz os créditos, né, em Antropologia no Rio. Então mudar pro Rio foi uma coisa muito interessante pra mim porque eu saí de casa, já era um ganho, eu mudei de Filosofia pra Antropologia que era um exercício intelectual. Eu mudei de círculo de amigos, eu mudei de cidade, né? Quer dizer, essa mudança que aconteceu em 85 ela foi muito grande, muito forte na minha vida. E em 85, quando eu mudei pro Rio, eu descobri a comunidade gay, então foi uma coisa assim de. Tanto que aí, a partir desse momento, eu me coloquei como tema de pesquisa os homossexuais, então eu fiz monografias no curso e a minha dissertação, que eu acabei não terminando, era sobre sociabilidade urbana homossexual e eu não terminei. Então, aí num determinado momento por problemas financeiros eu acabei voltando do Rio pra São Paulo, a morar com a minha família, e aí eu comecei a dar aula de Filosofia porque eu era formado, né? E aí isso coincidiu com a época do Plano Collor que foi, além de ser uma péssima notícia pro país inteiro, pra mim, pessoalmente, um dia antes do Plano Collor eu tinha um carro e eu tinha uma moto e aí eu troquei o meu carro por uma outra moto porque eu ia vender as duas e comprar um carro maior ou uma moto maior. E aí a minha moto, a que eu tinha mesmo que era minha, foi roubada e a moto que eu tinha trocado, o carro que eu tinha trocado por uma moto veio o Plano Collor que congelou todas as contas. Então o cara pra quem eu tinha vendido a moto tinha me dado um cheque no valor dela, mas eu só podia depositar esse cheque na conta do Banco Central que ia ficar congelado por vários anos. Então, dois dias antes eu tinha um carro, uma moto que eu vendi, né, e tinha duas motos, dois dias depois eu não tinha nada: uma moto roubada que não estava no seguro, e um cheque que eu não podia usar. Então assim, sabe, quando você perde o chão, assim de. A minha sensação de que o Plano, o governo Collor, a época do Collor é um pesadelo que se eu pudesse ter passado dormindo, não tivesse acordado seria perfeito. E aí, em função disso, eu decido ir pra Londres, né? Eu decido fazer uma viagem pela Europa. Que aí eu era, bem ou mal, tinha estudado inglês dos 14 aos 19, com 20 eu comecei a dar aula de inglês. Por parte de família de pai e de mãe eu tinha origem espanhola e italiana, e eu tinha estudado um pouco essas duas línguas. Tinha feito Filosofia na USP onde você não consegue terminar o curso se você não ler um pouco de francês. E como optativa eu tinha feito alemão. Então eu gostava muito de línguas e eu tinha um certo domínio, né, então pra todas as pessoas que eu falava: “Ah, eu tô querendo ir pra Europa” “Ah, você nem vai voltar porque com todas essas línguas!” Eu fui, em julho de 1990, né, eu saí da escola onde eu tava trabalhando, juntei uma grana e eu fiquei 40 dias viajando de trem até eu chegar em Londres, onde tinha uma amiga que eu tinha conhecido aqui no Brasil, inglesa, e lá eu acabei arrumando um emprego de lavar prato, depois de garçom, não sei o que parará, eu acabei ficando um ano em Londres, né? Que foi uma super, depois de ter morado no Rio que tinha essa mudança cultural, você tá numa cidade grande vai pra uma outra cidade grande que funciona de maneira diferente, mas você ainda tá dentro da mesma cultura, né, falando a mesma língua, no mesmo país, com as mesmas regras, né? E de repente você muda de país, né, então vai pra uma outra língua onde você é estrangeiro, onde tudo é novo e em Londres eu vou conhecer, pela primeira vez na minha vida, o movimento gay organizado: “Ah, nossa! Olha, tem grupos, tem jornais, tem eventos, tem manifestações, né?” Isso vai ser super importante pra mim, né? Tanto que quando eu volto pro Brasil um ano depois é o que vou assim: “Não é possível que não exista vida gay inteligente numa cidade como São Paulo. Onde estão essas pessoas, né?” E curiosamente eu vou encontrar essas pessoas dez anos depois no PT, em 93, e aí eu vou entrar pro grupo de gays e lésbicas do PT, isso vai me levar pra militância do movimento GLBT. Qual foi a sua pergunta mesmo? (RISOS)

 

P/1 – As suas atividades desde...

 

R – Ah, então. Eu não completei o mestrado e acabei voltando pra São Paulo. Eu dei aula de Filosofia durante um ano e meio aí eu fui pra Londres, né? Em Londres eu trabalhei lavando prato, né, e depois fui promovido pra recepcionista, e depois pra garçom. Trabalhar como garçom em Londres é uma coisa, assim, fantástica porque você ganha, o salário fixo é muito pequeno, mas você ganha muita gorjeta, né? Então assim de, eu tinha uma poupança que você ia, né, todo dinheiro que eu recebia eu ia depositando toda semana que depois me possibilitou viajar, eu fui pra Amsterdã, Paris, pra outras cidades da Inglaterra e tudo o mais. Aí quando eu voltei pro Brasil de, por má sorte, eu voltei em abril então era muito tarde pra eu dar aula naquele ano porque as aulas já tinham começado, então, não tinha mais vagas pra professor. E por uma coincidência de que o namorado de um amigo meu trabalhava numa empresa de tradução e ele falou assim: “Ah, você voltou de Londres, né, você deve falar bem inglês, você não quer fazer um teste?” E aí eu fui e eu comecei a fazer. E eu dei sorte porque, como eu tinha feito Filosofia, eu tinha uma redação muito boa, bastante, né, de boa qualidade, falava inglês fluentemente, porque eu já dava aula de inglês antes de ir pra Londres e morei um ano em Londres, então eu tinha fluência inclusive oral, né? E aí eu descobri que, assim, que eu passava um dia inteiro em casa e eu traduzia 20, 25 páginas por dia. Então era um ritmo alucinado, então, eu traduzi diversos manuais de coisas técnicas que eu não entendia absolutamente nada, que não eram da minha formação, por exemplo, trabalhei durante uns cinco anos com telefonia celular, assim de central de comutação, torre de transmissão não sei quê. Eu conhecia os termos e sabia traduzir, como funcionava, assim, enfim de... Eu nem precisava disso porque era só traduzir. E isso, então eu fiz isso na minha volta e foi trabalhando com isso que eu consegui dar entrada e comprar o apartamento que é o apartamento onde eu moro até hoje. E, num determinado momento, esse mercado de tradução ele entrou em crise, então eu tinha sempre trabalho me esperando, tava fazendo uma coisa e tinha um outro trabalho já me esperando e, num determinado momento, não tinha mais nada. E aí como eu tinha feito um curso de Jornalismo em Londres eu um dia, num lugar pra onde eu fazia algumas traduções de vídeo game, o cara era um escritório de editoração eletrônica e eles faziam algumas revistas: “Ah, você não quer trabalhar aqui, fazer a revisão dos textos?” Aí nisso eu conheci uma garota que escrevia os textos, que era jornalista, fiquei muito amigo dela e eu trabalhei durante uns dois, três anos escrevendo textos, revisando ou escrevendo, fazendo matérias, né, na área de jornalismo. No fim das contas, se você pegar. Olha, antes de eu ir de mudar pro Rio, na minha época de faculdade eu dei aula de inglês no Yázigi que é um instituto de idiomas e eu tinha carteira assinada. Depois, aí eu tive uma bolsa de estudos da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], aí eu fui pro Rio e eu trabalhei numa ONG, né, em pesquisa na área de Antropologia e dei aula em duas faculdades e eu tenho registro em carteira dessas duas faculdades. Depois disso eu nunca mais tive emprego fixo, eu não sei o que é isso, e a bem da verdade eu vou dizer nem quero mais saber, eu não consigo me imaginar de ter um emprego que eu vou entrar todo dia às oito horas da manhã, vou parar meio dia, uma hora pra almoçar e vou sair. A minha vida nunca mais se encaixou nesse padrão. Tanto que no começo desse ano eu comprei uma moto que eu falei assim: “Gente”, que eu tive moto quando eu morei no Rio, né, e logo depois que eu voltei que são aquelas duas: a que foi roubada, e a que o cheque eu não pude receber. E eu olhei e falei assim: “O quê que eu fiz esse tempo todo sem moto?” Porque eu ganho tanto tempo assim pro estilo de vida que eu tenho que é: tô aqui, daqui eu vou pra outro lugar e eu vou fazer várias coisas, né, ao longo do dia, a moto é muito prática pra mim. Ela se encaixa perfeitamente no meu estilo de vida que é esse estilo: de não depender de uma única fonte de renda, assim “Você é meu patrão, você paga e eu tô aqui, né?” A minha renda foi sempre muito pulverizada. E na época que eu trabalhei com tradução dependia muito da minha produção, então alguns meses eu trabalhava mais, trabalhava menos e isso às vezes você trabalha muito, às vezes tinha menos trabalho pra fazer, então você tem uma renda menor. E isso me ensinou na prática como controlar os meus recursos, né, no sentido de o mês passado eu ganhei X, nesse mês eu estou ganhando um terço de X, então se eu não guardar dinheiro na época em que eu recebo mais eu vou passar dificuldade no mês que eu tenho menos, né? Então eu sou uma pessoa extremamente controlada com dinheiro assim de, é muito difícil eu falar: “Ah, vou comprar!” “Ah que bacana aquela roupa vou comprar” assim que eu tô sempre pensando: “Olha, e daqui dois meses, né, como eu é que eu vou pagar as minhas contas, condomínio, conta de luz, né, telefone, essas coisas todas” entendeu?

 

P/1 – Você poderia contar um pouco da sua militância no movimento gay?

 

R – Vamos lá. Então falei que quem me mostrou uma coisa que eu não conhecia, né, eu conhecia a militância do movimento estudantil e a militância partidária por causa do PT. O movimento homossexual era uma coisa que se existia no Brasil eu nunca tinha tido contato com ele. Em Londres eu comecei a frequentar os bares, porque antes de eu ser um militante da causa homossexual, eu fui uma pessoa que frequentou muito a noite, que ia muito em balada, né, que ia enfim, de chegar em casa cinco, seis horas da manhã, que gostava muito da noite, né? Acho que até gosto um pouco hoje, mas não tenho paciência, o meu ritmo de vida não me permite mais fazer esse tipo de coisa, né? Aí também depois você entra numa relação estável aí você, né, acaba. E tem uma coisa também que acho que a internet quando ela aparece, ela vai, o espaço que você tem de paquera, de ir na balada, de conhecer gente não sei o que, acaba muita coisa, na minha vida, acabou sendo transferida pra internet, né? Então eu tinha essa vivência desse mundo, né, do Rio de conhecer os bares, de ir às boates e sair toda noite. Já minha primeira moto eu tive no Rio, então era essa coisa assim de coisa mais deliciosa do mundo numa noite de verão, aquele calor insuportável, você tá em cima de uma moto no riso: “Que ar fresco, que delícia, né?” Era ótimo! Então eu tenho essa vivência da comunidade, mas é ao mesmo tempo esse universo de, que a gente poderia chamar de GLS, que é um mercado que são os bares, as boates, ele é muito de classe média branca, né, mais ou menos escolarizada, então ele é um universo muito elitista. Algumas coisas que me incomodavam profundamente que eu tinha nisso: que eram gays que eram racistas, sabe? Ou que tinham preconceito com nordestinos, com os pobres, né? E isso me incomodava profundamente porque eu tinha passado pelo movimento estudantil e eu era de um partido de esquerda assim de, falava: “Não é possível, né?” Então em Londres eu era gay, qualquer, você rapidamente você chega nos lugares aonde estão os bares. Depois de um certo tempo de qualquer gay um pouquinho mais descolado se você me mandar pra China eu vou descobrir onde tem um bar, uma boate, uma praça onde os gays se encontram. Então em Londres eu aprendi onde estavam as coisas e de repente chegava num bar e recebia um jornal que era distribuído gratuitamente, né, chamado The Pink Paper, né, por exemplo. E aí com matérias falando do que tava sendo votado pelo Parlamento, pelas questões políticas, não sei quê, eu falava: “Nossa, que legal!” E aí tinha a listagem dos grupos e eu frequentei durante um tempo um que chamava Gay and Glondon, que era um grupo de jovens e que tinha muita gente que era de fora de Londres que frequentava. Eu não só era de fora de Londres como era de fora da Inglaterra, era um estrangeiro, então pra mim aquele grupo que me acolheu, que a gente conversava, não sei que, foi decisivo na minha vida e mudou o panorama de ser um forasteiro dentro da cidade. Então quando eu voltei pro Brasil minha preocupação era essa de ter pessoas que lutassem por uma causa, mas, ao mesmo tempo, que tivessem essa sensibilidade de pensar: “Poxa, chegou uma pessoa no grupo quê que ele tá vivendo nos termos da família, da escola?” Assim do lado existencial, sabe, da experiência dos homossexuais. E foi por isso que eu participava do núcleo do PT e eu descobri esse grupo que chamava Corsa [Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor]. E assim, o que é o Corsa? É uma ONG. O Corsa é um grupo gay que nasceu de pessoas que faziam terapia com o mesmo psicólogo, num determinado momento, ele organizou um seminário que era pra discutir sexualidade lá que era uma clínica que era também um instituto de pesquisa, né? E desse seminário, dessa discussão algumas pessoas se conheceram, se aglutinaram e ele dizia pra elas: “Olha, não tem nada de errado com a sexualidade de vocês, o problema está no preconceito da sociedade. E [por que] vocês não se juntam e começam a lutar contra esse preconceito?” Então esse grupo ele nasce dessa experiência de terapia de grupo, que a gente poderia chamar de autoajuda, mas com uma perspectiva de transformação da sociedade. Então o Corsa ele tem essa cara até hoje, de ser um lugar de acolhimento, dizer: “O que você tá passando eu já passei, eu te entendo, eu sei como é que é. Relaxa, calma, vamos ver, vamos acionar um advogado, vamos fazer um boletim de ocorrência na polícia, não sei que.” Mas, né, ou algumas coisas que às vezes são impossíveis na questão da família, né, um pai que coloca o filho homossexual pra fora você não vai pegá-lo: “Vamos fazer um B.O. contra o seu pai!” Que é uma coisa extremamente delicada, não do ponto de vista jurídico, mas do ponto de vista das relações, né? Então o Corsa foi, pra mim um lugar que eu: “Nossa, que isso, que bacana, né, que legal!” E aí eu mergulho de cabeça no Corsa e trago junto toda a minha experiência anterior de militante do movimento estudantil, de esquerda do partido, da experiência que eu tinha tido em Londres, não sei o quê. Então eu fui durante muito tempo o presidente do Corsa, aí há dois anos a gente resolveu que era mais legal a gente ter uma direção colegiada, então a gente tem um conjunto de seis coordenadores, é uma coordenação e eu sou um dos coordenadores, né? Então, que é uma experiência bacana, né? E aí dentro do Corsa, a gente sempre discutindo o quê que tá acontecendo na mídia, o quê que tá acontecendo nas relações de trabalho, na política, né? Então o deputado que fez tal declaração “Ah, vamos processar, não sei o quê”. A gente tá, essas coisas todas sendo discutidas até, que num determinado momento, eu me dou conta que dentro do Corsa tinham pessoas como eu que tinha uma formação como professor e que ou atuavam, ou já tinham atuado, como educadores, né? Aí eu falei: “Olha gente”, de um determinado momento eu falei assim: “Por que a gente não começa a trabalhar com isso?” Porque se a gente pensar as pessoas mais velhas elas não vão mudar a cabeça em relação à homossexualidade porque acha que é pecado, elas foram criadas desse jeito, mas se a gente conseguir interferir nas novas gerações talvez a gente consiga visualizar um mundo melhor, né? E a partir daí a gente constrói o primeiro projeto que é um projeto financiado, não por qualquer órgão da educação, mas pelo Ministério da Justiça, que era uma formação que a gente ia dar para professores em Direitos Humanos dos Homossexuais. Então esse é o primeiro projeto, minha primeira experiência dentro de uma ONG, que era uma coisa que eu não tinha, não sabia escrever um projeto, não sabia o quê que era, manipular os recursos, né, e tudo o mais. E essa é uma experiência que de repente. Ela foi idealizada para ser um piloto com 25 professores, no final do ano, depois que a gente trabalhou com esse grupo piloto, a gente é chamado pra dar oficinas na rede municipal, e nos dois anos seguintes a gente faz oficina pra cinco mil professores. Então assim de oficina, né, que eu hoje inclusive tenho uma visão muito crítica disso, assim de, você vai numa escola, fala durante três horas sobre relações de gênero, sobre o masculino, o feminino, sobre o machismo, a homofobia, como isso tem a ver com o racismo porque são formas parecidas de preconceito e discriminação. Você muda a cabeça de alguém em três horas? A pessoa pode sair muito: “Ai que bacana, né, vou repensar”, mas repensar as suas atitudes e a sua prática didática é uma coisa que exige muito mais tempo, né? Mas a gente conseguiu bem ou mal fazer e ganhar um nome com isso: “Pô, o Grupo Corsa, nossa eles estão trabalhando com a prefeitura de São Paulo, é legal, não sei o quê”. E nesse momento, assim, nesse calor de fazer essas oficinas é que eu entro pra Ashoka, que a Ashoka, por algum motivo que eu desconheço, naquele momento estava procurando alguém da comunidade GLBT e a pessoa que fazia a pesquisa recebeu várias indicações de outras pessoas dizendo: “Olha, você tem que falar com o Lula” “O Lula é o cara que tem esse perfil que é uma pessoa que põe a mão na massa, que tá fazendo uma coisa que é sistemática, que tem vontade de ampliar e tudo o mais, né?” Então, num determinado momento, a Ashoka consegue meu e-mail, consegue meu telefone: “Não você tem que vir”. E pra você entrar na Ashoka você tem escrever uma proposta, eu nunca fiz isso porque um dia eles me chamaram pra uma entrevista, me falaram assim: “Ah, uma entrevista que vai durar uma hora, umas duas horas no máximo” e eu fiquei quase cinco horas, né, um pouco contando essa história da minha militância, não sei o que, e em cima desse depoimento eles redigem a proposta, eles não de não sei o que... Então, tanto que quando alguém fala hoje: “Eu quero entrar para Ashoka, como eu faço?” Eu falo: “Eu não sou a pessoa mais indicada porque eu não escrevi a minha proposta foram...” Na verdade é uma coisa que me dá muita satisfação pensar que foi a Ashoka que foi atrás de mim pra dizer “esse cara tá fazendo um trabalho legal!” É claro que depois quando você entra na Ashoka, que você vê outros trabalhos maravilhosos você fala: “Ai, o meu não é nada, né?” Tem uma pessoa que entrou no mesmo ano que eu que fundou uma associação dos catadores de lixo de Belo Horizonte, que é a Dona Geralda, não sei se vocês conhecem, fica aí a dica de um dia vocês entrevistarem essa mulher porque ela é tudo de bom. Que você assim, sabe, sem nenhum, pra um termo da sociologia, né, sem nada de capital cultural mexe, se envolve com as pessoas de tal maneira que produz uma ação muito legal, né? No meu caso eu acho que, quer dizer, não dá pra você falar: “Ai, o Lula foi um menino pobre que passou fome na infância, teve uma infância difícil, família desestruturada, mas ele deu a volta por cima de tudo e foi organizar a comunidade GLBT”. Eu não tenho essa história trágica, eu tenho, o que eu posso dizer que tem de trágico na minha vida são os conflitos, as dores que eu tive por me ver como homossexual e de repente tá ligado a igreja pra dizer: “Isso não vai dar certo”. E rapidamente, sabe, de resolver isso e dizer: “Não, vamos embora e vamos fazer outras coisas, né?” Mas então eu tenho essa coisa que minha família tinha me dado que era um investimento em educação: “Você tem que estudar! Se você quer fazer alguma coisa, quer ser alguém nessa vida, estude!” Então de repente eu vejo a minha vida muito ligada à educação e vejo que o meu trabalho no combate ao preconceito passa pela educação porque é onde eu tô mais a vontade, eu tô mais, para usar uma expressão do meu pai, é um peixe que tá na água, sabe, do tipo eu tô em casa quando eu falo com professores, quando circulo dentro de uma escola porque aquele mundo é o meu mundo. Então essa, o meu envolvimento com uma ONG acabou com que eu dentro dessa ONG fosse buscar coisas em educação, né? Mas eu também participo de outras coisas em sentido de que, enfim, tem projetos de lei que estão no Congresso e que a comunidade GLBT precisa me mobilizar pra aprovar, né? Tem uma coisa que você, ó vê de fazendo essa retrospectiva eu acabei nem falando, em 97 fazia menos de um ano que eu tinha entrado no Corsa, eu tinha tido um  encontro chamado EBGLT chamado Encontro Brasileiro de Gays Lésbicas e Travestis que ocorria uma vez a cada dois anos. Esse encontro ele terminou com uma manifestação na rua, então mais ou menos uns 200 participantes saíram com faixas do hotel onde foi o encontro até a Praça Roosevelt lá no centro, né? Aí quando terminou essa manifestação e eu fui pro Corsa na reunião seguinte eu falei: “Nossa, essa manifestação foi tão bacana! E eu acho, eu fico pensando de as Paradas que são feitas em Nova Iorque, em São Francisco a gente também tinha que fazer uma coisa parecida, né?” E todo mundo fala: “Pô, é mesmo, é isso mesmo!” E aí dentro do grupo do Corsa nasce uma comissão que vai procurar outras pessoas, outros grupos e vai nascer a primeira Parada em 97. Então é até engraçado porque algumas pessoas, eu como andei falando isso que a ideia de fazer a Parada, é do Corsa, ou a iniciativa e dentro do Corsa, né, fui eu que sugeri, então eu sempre digo assim: essa Parada que existe, existe porque alguém tomou a iniciativa e essa pessoa fui eu. Não quer dizer que ela existe do jeito que ela existe, do tamanho que ela existe exclusivamente devido a mim, mas alguém tinha que “Vamos fazer”, né, e essa pessoa fui eu. Talvez tivesse na cabeça de muita gente, né, de alguma porque se conhecia a Parada de Nova Iorque que é super grande, a de São Francisco, mas assim, quem sabe, marcou: “Então vamos fazer a comissão, quem vai? Fulano, fulano, fulano. Então sábado que vem às duas horas a gente senta pra conversar, né?” Então essa pessoa fui eu, e eu tenho consciência disso. Então toda a vez que eu vou pra Parada, a cada ano que eu vejo aquela multidão eu me emociono de pensar assim: alguém tinha que tomar a iniciativa e naquele momento fui eu, podia, pode ser que um mês depois, seis meses depois uma outra pessoa tivesse tido a mesma ideia, mas essa Parada que existe, é a Parada do meu grupo, das pessoas com as quais eu conversei na data, no dia que a gente combinou que foi no dia 28 de junho de 97 e aí o resto é história. Aí a multidão... Foi muito difícil fazer essa primeira Parada porque as casas noturnas não deixavam a gente entrar, a gente fazia xerox de um panfletinho dizia: Primeira Parada Gay de São Paulo apareçam, não sei o que. As pessoas assim eram extremamente... Esse mercado, né, esse mundo GLS branco de classe média, elitizado, nossa! Nem queria ouvir falar, “Imagina, bobagem, eu sair na rua levantar uma bandeira, não sei o quê, parará”. Momento difícil. Então quem vai na Parada hoje fala: “Ai, que legal, que coisa óbvia!” Ela nem sempre foi tão óbvia, né? Ao contrário, muita gente resistiu e ridicularizou. E os donos das casas noturnas que eram pessoas que ganhavam dinheiro à custa dos gays, não necessariamente eram gays, eram pessoas sem nenhum compromisso com a cidadania, com os direitos, com nada disso. Então a gente ficava na porta esperando as pessoas saírem, e mesmo assim com toda essa dificuldade, em 97, a Parada começou com duas mil pessoas e aí foi no ano seguinte oito mil pessoas, aí no ano seguinte 35 mil pessoas, 100 mil pessoas. Ela foi, na verdade, praticamente, triplicando a cada ano até chegar nos três milhões onde ela tá hoje. Eu falo, né, Maurício?

 

P/1 – Ainda bem.

 

P/2 – Posso perguntar? Você tem alguma história pra contar do impacto de algum trabalho que você fez que você acha bacana compartilhar assim?

 

R – De um trabalho? Define melhor aí.

 

P/2 – É, de algum trabalho no seu, na sua tentativa de mudança aí no movimento gay...

 

FIM DO PRIMEIRO CD

 

R – O que eu acho que, quando eu ouço a tua pergunta assim se eu tenho alguma história pra contar, de alguma coisa que teve impacto. A questão é: o que a gente define como impacto, né? O quê que de fato muda alguma coisa, a realidade, a ponto de você dizer: aqui tem um impacto ou aqui teve um impacto? É sempre um olhar retrospectivo, né, não é uma decisão que você tomou, acabou de tomar e dizer: “Nossa, isso vai ter o maior impacto!” Até porque em geral, quando você toma, você tem uma ideia e você tem, dá uma sugestão, propõe alguma coisa pra mim isso sempre foi um pulo no escuro, sabe? Eu fico imaginando os trapezistas assim na total escuridão, assim dizendo: “Ó, segura na mão do outro e vamos dar o pulo que de repente vai modificar tudo, né?” Então por causa disso, por ter essa concepção eu sempre, na verdade, o impacto é aquilo que eu olho pra trás e olha: isso teve impacto. Algumas coisas teve, algumas coisas aconteceram, outras não. Em algumas iniciativas, né, ou propostas que você teve elas foram extremamente bem sucedidas e reconhecidas e outras não, né? É difícil você fala assim: “Ah, então eu vou escolher uma, né?” Até porque são coisas, é meio como você cuidar de uma planta, sabe, tipo quando você vê a primeira folhinha e diz: “Ai, que legal!” Mas que se você não tiver paciência ela não vai acontecer. Uma das coisas que talvez até você diga assim: “Ah, nossa, você acha que isso foi impactante?” Quando a gente era um grupo de militância, o Corsa, a gente vira uma ONG, então tira CNPJ, o registro, todos os documentos em cartórios e que a gente começa a executar projetos, né, que são fundamentalmente projetos financiados pelo governo, pelo Estado, a gente começa a trabalhar com prevenção de DST e AIDS. Até aquele momento, e isso eu tô te falando final dos anos 90 começo dos anos 2000, quem fazia trabalho de prevenção de DST-AIDS, em São Paulo, junto à comunidade homossexual, basicamente, fazia uns panfletinhos muito bonitinhos, né, com umas fotos bacanas e ia distribuir preservativos em porta de boate. E eu olhava e falava: “Eu tô fora, pra fazer isso eu tô fora, sabe, que é um trabalho de formiguinha, uma cidade que tem 100 milhões de habitantes, não é por aí, né?” E aí, num determinado momento, abre um edital de seleção de projetos de prevenção em DST-AIDS. E aí eu olho e falo assim: “O que a gente vai fazer? Já que a gente não quer fazer essas coisas que já estão batidas e que não dão em nada, o que a gente pode fazer de diferente?” Aí eu tinha sempre essa preocupação de olhar pro Centro da cidade e ver que ele tem uma população branca, classe média, escolarizada, né, frequentando as boates e eu pensava: “E se você é gay e tá na periferia, né? O quê que você faz? Às vezes você não tem nem dinheiro pra ir até o Centro, a gente tomar um ônibus, pra tomar uma cerveja e voltar pra casa. Então o quê que você faz, né?” E aí eu tive a ideia, nesse momento a Secretaria Municipal de Saúde tinha uma proposta de fazer parcerias com ONGs pra fazer trabalhos comuns, né? E aí eu fiquei conhecendo o pessoal de um CTA, que é o Centro de Testagem e Aconselhamento, que naquela época existiam cinco em São Paulo, um deles era em Santo Amaro, mais ou menos perto da minha casa, né? Então esse Centro é um lugar aonde você vai, tem uma palestra sobre sexo seguro e onde você faz o teste do HIV. Então é um Centro de Prevenção, e aí eu pensava assim: bom, se a gente quer pensar a prevenção pra essa população que nem chega lá no Centro da cidade, e que na região de Santo Amaro, por exemplo, não tem um bar, não tem uma boate gay que as pessoas possam ir. Onde estão essas pessoas, né? Então porque a gente não faz alguma coisa aqui dentro do Centro que é um espaço da prefeitura, que então que a gente vá chamar as pessoas e vai começar a conversar sobre isso. Então elas não precisam ir pro Centro da cidade se submeter a esse padrão de classe média que vai dizer: “Nossa, com essa roupa! Essas músicas que você escuta?” Que vai impor, que vai dizer: eu sou gay, sou assumido e você, sabe, é um – como a gente diz na gíria gay – você é uma bichinha qua qua, assim de afetada, né? E que na verdade é uma imposição de valores, na verdade uma forma de dominação social, né, uma coisa que me é extremamente cara como militante de esquerda, como alguém com leitura na área de sociologia, né? Então vamos fazer alguma coisa junto com o CTA? Vamos. E aí a gente propôs esse grupo de, esse espaço de convivência, um grupo de convivência. E aí a gente sentou com duas psicólogas que são as técnicas que cuidam desse trabalho de prevenção nesse CTA e aí então vamos fazer. E então a gente fez um cartaz, né, uns folhetos, não sei o quê. Aí marcamos a primeira reunião, aparece uma pessoa. Então a gente tinha comprado lanche, biscoito, suco, não sei o que pra umas dez pessoas e aparece uma, né? “Putz, acho que não vai rolar!” Aí na semana seguinte aparecem duas, e o que veio na primeira não veio na segunda. “Esse negócio tá esquisito!” Mas de repente a gente começa a ver que começa a surgir um boca a boca, assim em questão de seis meses esse grupo tem 50 pessoas participando, todas elas morando na região no extremo da Zona Sul de São Paulo, né, com uma enorme necessidade de falar de si mesmo, das suas questões, do que tá acontecendo na vida delas lá no bairro, na escola, no trabalho. E a gente, nós do Corsa que estamos lá coordenando nesse trabalho são as pessoas que são  militantes com experiência, acostumadas a enfrentar a polícia, a ir na delegacia se precisar registrar uma queixa, não sei o quê. E que você começa, essas pessoas começam uma relação de admiração e de confiança, dizer: “Pô, eu posso contar!” E esse trabalho, talvez se você pense do ponto de vista numérico, a região de Santo Amaro, Grajaú, Interlagos, Parelheiros, parará, tem mais de dois milhões de habitantes, o que são 50 pessoas? Nada. Mas pra uma região que não tinha absolutamente nada a gente ter conseguido esse grupo, pra mim, foi assim uma das coisas mais gratificantes da minha vida, né? E saber que ainda hoje, que aí o projeto acabou, mas o grupo continuou, esse grupo agora em 2007 fez cinco anos, se reúne toda a segurança. Eu já, várias vezes assim de, ainda mais depois que eu entrei pra Ashoka que vinha alguém: “Ah, eu queria conhecer um pouquinho a realidade dos gays de São Paulo”. Aí eu falo: “Você quer os gays da classe média que estão no Centro nas boates, ou você quer uma coisa da periferia, né?” “Ah, eu queria ver uma coisa da periferia” Então leva. Então várias vezes levei pessoas, né, estrangeiras que nem falavam português pra elas verem: “Olha, esse é um grupo que se reúne”. Então por isso que eu falei, fiz aquela reflexão sobre impacto assim, talvez isso do ponto de vista numérico não seja impacto muito grande. Eu fui falar da formação desse grupo em Cuba, em diversas outras cidades pra dizer o quê que a gente fez concretamente, “Olha, foi assim, assim, assim. A gente começou assim, teve essas dificuldades. Teve a parceria de uma ONG com um serviço público, isso é fundamental. A gente como ONG sozinho não conseguiria, o serviço público sem a ajuda, sem a linguagem de pares, de alguém que vai conseguir chegar concretamente na população, o serviço não conseguiria. Então é uma, né?” E é interessante porque do lado de algumas pessoas eu sou considerado, eu tenho discurso “chapa branca” porque eu trabalho, eu não fico atirando pedra no serviço público pra dizer: “Ah, é pago pela população, não sei o que, parará, então tem que fazer”. Não vai fazer se você não fizer junto até porque nem sabe como fazer, então você tem que inventar e tentar levar junto, né? Então você acaba traçando um caminho que depois outras pessoas vão seguir e isso pra mim, não sei se eu respondo a tua pergunta, mas sei lá, é isso.

 

P/1 – Lula, conta um pouco da, qual a reação da sua família diante da sua homossexualidade, como é que foi isso?

 

R – Olha. Essa é uma coisa interessante. Como eu já sou uma bicha relativamente velha, né, tenho 47 anos. Eu tenho uma perspectiva, eu vivi uma época que é muito diferente de alguém que hoje tenha 20, 20 e poucos anos e seja homossexual e conta isso pra família, né? Então no meu caso foi uma coisa assim de. Eu, em nenhum momento, eu juntei a família, sabe, tipo desliga a televisão vou dar uma notícia bombástica, né? A minha família foi se dando conta aos poucos, até porque eu fui me tornando militante da causa GBLT, mas eu tinha um histórico de militância genérica, né, de esquerda. Então eu tinha, eu tava muito acostumado o telefone tocava muito na minha casa, assim, as pessoas me ligando pra chamar pra uma reunião, ou às vezes alguém da imprensa querendo que eu falasse alguma coisa da época que eu era do PT, né? Então no momento que eu comecei a aparecer na mídia falando do movimento GLBT, da Parada, porque nos primeiros anos da Parada eu era uma das pessoas, eu era do Grupo Dirigente da Parada. Então de a imprensa querer saber de quem é, quem são, o que vocês fazem, o que vocês pensam, quanto custa a Parada, como se a gente tivesse nadando em rios de dinheiro e a gente, naquela época, não tinha um tostão furado, bancava com o dinheiro da gente como militante, né? Então a minha família foi meio que, tipo, sabendo a conta gotas, muito devagarzinho. E aí aconteceu uma coisa muito interessante que acho que em 98, que é a segunda Parada que teve oito mil pessoas, então já você botar oito mil pessoas na rua já merece uma manchete na Folha de São Paulo, por exemplo. Aí então, nesse momento, a gente fez a primeira com muita dificuldade, no ano seguinte que a gente pôs oito mil pessoas aí a gente virou sujeitos políticos, né, então a gente ganha visibilidade. E aí eu fui falar num programa da TV Câmara, da Câmara Municipal, que é aqueles canais que tem na TV a cabo que quem assiste? Fala, você assiste?

 

P/1 – Eu assisto.

 

R – Ninguém assiste, né? E isso eu estou falando de 98, a TV a cabo tinha, nessa época, dois, três anos no máximo. Então assim de pouca gente via e pouca gente tinha TV a cabo naquele momento, né? E foi um programa de uma hora que foi eu mais duas pessoas falar sobre a realidade que estava acontecendo, esse novo cenário, a Parada, as reivindicações, não sei o que, parará. Foi uma entrevista muito boa, muito série, né, e passou na televisão. E eu, inclusive, uma das pessoas que eu avisaria pra ver seria a minha irmã mais nova que é super minha amiga e que pensa muito parecido comigo, né? Mas ela não tinha TV a cabo então não adiantava, então nem lembrei, né? E essas coisas também você acaba acostumando você dar entrevistas e as pessoas falarem: “Eu vou te mandar uma cópia” e ninguém nunca manda, né? Então tudo bem. Uma tia daquelas bem carola, bem não sei o que, devia tá zapiando e me viu e ligou imediatamente pra casa dos meus pais pra dizer: “Ah, ele tá na televisão, né? Liga lá no canal tal”. E o meu pai viu. Olha a cena, isso aconteceu, eu nem fiquei sabendo, uma semana, uns dez dias depois a minha irmã me liga por conta de alguma outra história, e ela virou e falou assim: “Você apareceu na televisão?” Eu falei: “Apareci, mas na TV Câmara, Di, eu não falei nada porque você não ia ver” ela falou assim: “É porque a tia fulana de tal te viu e ligou pro pai”. Eu falei: “Ah, tudo bem, né?” Aí alguns dias depois eu fui almoçar na casa dos meus pais, e eu tinha comprado um rodo num supermercado que com duas semanas de uso ele desmontou, e eu tava puto e o meu pai adora fazer trabalhos manuais e eu levei lá e eu falei: “Vê se o senhor consegue por um prego aqui”. Aí o meu pai batendo: “Eu vi você na televisão”.  E não era uma coisa pra você dizer assim: “Ah, não é nada disso que o senhor está pensando”, porque é num programa de uma hora. Aí eu falei assim: “Ah, e o que o senhor achou?” Ele falou: “Olha, achei que foi muito bom, que você fez colocações muito importantes, né?” Eu fiquei até assustado assim de falar “Uau, ele não fez nenhum comentário!” E aí eu virei. Aí nisso a minha mãe chamou a gente pra almoçar e ele mudou de assunto e assim não falou mais, né? E aí você fica assim de, “E agora, falo de novo? Eu espero ele falar?” Então meio que ficou nesse silêncio, sabe, respeitoso. Os americanos chamam isso de política de “don’t ask, don’t tell”, né? Você não pergunta nada, e eu não falo nada. Você sabe que eu sou, mas, né, a gente, né? É a política que vigora, por exemplo, nas Forças Armadas dos Estados Unidos. Então o soldado não diz que ele é gay, o oficial não pergunta, ninguém tem nada a ver com isso e fica por isso mesmo, né? Então que tem lá os seus prós e os seus contras, mas o meu caso, assim, a coisa ficou acomodada. Então eu a partir desse momento eu falei assim: “Ah, não vou ficar, se eu tiver...” Hoje, por exemplo, eu almocei na casa dos meus pais, né? Então tô com a camiseta do Corsa, e assim eles sabem que é uma entidade gay, que é lá que atuo, mas: “Ah então, você viu o filme tal na televisão?” E a gente vai conversar de outras coisas, entendeu? E aí, agora que eu tenho companheiro que a gente tá morando junto, faz quatro meses, toda vez que tem algum evento familiar, almoço, aniversário de alguém ele vai junto comigo e ele é tratado. Porque aí dentro da minha família alguns, pela cabeça, você sabe que se você for puxar a língua talvez falem alguns comentários homofóbicos, né? Mas de uma maneira geral tá acomodada e eu fico pensando: eu não vou gastar a minha energia, sabe, me contraponto ou fazendo discurso com a minha família sendo que eu tenho, né, uma militância maior, pra fazer no resto do mundo. Então, respondi? Sem problema?

 

P/1 – Respondeu.

 

R – Então, a minha irmã mais nova é a primeira pessoa da minha família que eu conto, e eu tinha 23, ela tinha 17 anos, que foi assim: eu tinha me apaixonado, não sei o que, parará, e que foi sempre a pessoa que me deu muita força, que sabe de mim, que vai inclusive na Parada, que não é uma militante da causa mas que é uma ativa simpatizante.

 

P/1 – E você gostaria de comentar se houve algum preconceito que o senhor tenha sofrido, assim, pessoalmente?

 

R – Engraçado isso, né? Porque eu acho que de novo, Maurício, você não precisa que as palavras ou os atos sejam direcionados diretamente a você pra você se sentir vítima do preconceito ou da discriminação, né? Eu honestamente na minha vida eu não me lembro de situações em que alguém me disse: “Você não vai entrar aqui!” “Eu não vou contratar você” Ou tenha me prejudicado de alguma maneira pelo fato de eu ser gay, né? É muito possível que alguma coisa aconteceu que eu não tenha sido, que alguém ficou de entrar em contato e não entrou, de algum emprego que não rolou, alguma coisa assim é bem possível que essa pessoa não me perguntou, achou que eu era gay e, né, eu não tenho. A minha única, é até curioso contar isso, a minha única, e que me fez muito entender a coisa como funciona a discriminação, como você se sente nessa hora. Quando eu morava em Londres eu gostava muito de ir num bar que tinha perto da minha casa, e um belo dia eu chego lá numa terça-feira, tinha combinado com um amigo, né, que era brasileiro também de a gente se encontrar lá. Aí quando eu chego na porta do bar a garota que tá na porta vira pra mim e fala assim: “Você tá com alguma amiga lésbica?” Eu falei: “Não, tô sozinho”. Ela falou: “Ah, então você não pode entrar porque hoje é noite das lésbicas e só pode entrar lésbicas, ou você só pode entrar se você tiver acompanhando uma lésbica”. E eu assim, “Ó, como assim, né?” Então foi a primeira vez de na minha vida que eu deixei de entrar num lugar porque eu não era mulher, porque eu era homem, né? Porque eu podia ser um heterossexual também não entraria do mesmo jeito. E aí assim de “Ai, você...” Não, tudo bem é a noite só das lésbicas porque se você não fizer isso o bar vai encher de gays e não vai ter espaço, as lésbicas vão ficar marginalizadas, não sei o que. Racionalmente você vai, você consegue explicar: “Não, tudo bem, é bacana que o bar faça isso”. Mas alguém está dizendo pra você “Você não vai entrar nesse bar porque você não é mulher, porque você é gay. Porque você não é uma mulher lésbica.” Então assim de, é muito. Isso não me foi falado de uma maneira agressiva assim do tipo: “Você é gay querendo entrar aqui? Você tá louco?” Não foi isso, foi uma coisa assim super polida, super tranquila, mas que você fala: “Puxa vida, né? Quantas outras pessoas, em tantas outras situações deixam de ter acesso ou de usufruir um serviço, alguma coisa, né, por causa de alguma característica que pode ser a cor da pele, orientação sexual, a identidade de gênero, o sotaque, a origem nacional, regional dessa pessoa. Quanto, né?” Isso foi uma das coisas tem um super impacto na minha vida assim de pensar “Uau! Eu não posso entrar aqui, será que eu faria algum estrago aqui? O que tá acontecendo?”  Isso produziu em mim muita reflexão. Então eu te diria que assim: o que eu mais sofri de discriminação por ser gay é mais de ouvir, de ver coisas que não estão sendo ditas pra mim, mas que tá numa matéria de jornal ou alguém dizendo isso na televisão. Pra te dar um exemplo, teve um programa há muitos anos atrás com o Afanásio, né, o deputado estadual, o radialista que era sobre homossexuais e chamaram, né, naquela época nem tinham muitos militantes pra serem chamados, chamaram homossexuais aí, pessoas assumidas, e chamaram ele e ficou uma coisa que a televisão adora fazer que é aqueles bate-bocas, né, ridículos de agressões múltiplas. Então tá lá, eles colocaram as pessoas mais estereotipadas possíveis, caricaturais mesmo do mundo homossexual, então tinha umas travestis e o Afanásio Jazadji e ele vira no final da entrevista e fala assim: “Porque eu acho, sabe, que os homossexuais eles deviam, sabe, queimar, sabe, mas queimar totalmente pra não ficar nem a faísca no chão.” Isso foi uma coisa assim de levar um tapa na minha cara assim, porque alguém tá te dizendo que você não pode existir, que você não merece existir, que você não quero nem que as suas cinzas, sabe, permanecem porque até a cinza de alguém que é homossexual e morreu vai me incomodar. Então um grau de intolerância que é uma das coisas mais impressionantes que vi na minha vida. A gente ia tentar mover um processo contra ele por falta de decoro parlamentar, não sei o quê, mas aí tem imunidade não sei o quê. E a gente acabou achando que ia dar mais cartaz pra ele, que era o que ele queria, do que conseguir cassar o mandato dele que é o que seria justo, né? Então, isso aconteceu, eu assistindo televisão na minha casa, então não é uma coisa assim de “vivi uma situação de discriminação face a face”, né, que acho que era esse o sentido da sua pergunta. Mas assim de quando você, talvez a questão seja essa assim de alguém pessoalmente não me incomoda tanto, mas alguém que discursa e tem esse poder devastador, me machuca, me incomoda muito mais e produz em mim uma revolta, uma indignação que me mobiliza assim de: eu tenho que me mexer, eu tenho que fazer alguma coisa de concreto em relação a isso.

 

P/1 – Sara, você quer fazer alguma pergunta?

 

P/2 – Não.

 

P/1 – O que você sente de ter dado essa entrevista aqui pro Museu da Pessoa? Qual a sua sensação?

 

R – É muito interessante porque assim: tem várias coisas que vocês perguntaram que eu já disse em outras ocasiões, mas o que sempre me impressiona é que a maneira como a cada vez de, eu concateno as ideias de uma maneira diferente, né? Não sei, por ser hoje, por já ter refletido sobre várias coisas no passado dá sempre a sensação de que hoje parece que eu fui mais claro, sabe, de que as coisas estão mais concisas, mais ordenadas dentro da minha cabeça, né? Não sei, talvez um dia a gente possa pegar outros depoimentos e analisar. Mas eu acho que é muito, é uma experiência muito boa, acho que é uma. Eu queria muito cumprimentar vocês e o Museu da Pessoa porque eu acho que a gente falar da própria história é sempre uma oportunidade ímpar de refletir, de repensar, de retomar rumos, sabe? De corrigir a rota, sabe? E continuar vivendo, continuar lutando e fazendo as coisas que a gente faz.

 

P/1 – Você gostaria de dizer mais alguma coisa que não foi dito?

 

R – Não, muito obrigado pela paciência de vocês de ouvir e colher esse depoimento.

 

P/1 – Bom, então em nome do Museu da Pessoa agradecemos aqui o seu depoimento, a sua visita.

 

R – Eu que agradeço.

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