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História

Vida de químico

História de: José Leme de Macedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2020

Sinopse

Emprego na Nitro Química. Área laboratorial e detalhes da produção química. Convocação para a Segunda Guerra Mundial. Curiosidades da fábrica. Família. Clube da Nitro Química.

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História completa

P1 - Cláudia Fonseca

P2 - Gisele Ellen

R - José Leme de Macedo



P1 - Então, senhor José, pode começar falando para a gente o teu nome completo e quando nasceu.

 

R - Bom, o meu nome completo é José Leme de Macedo. Nasci no dia 2 de março de 1921.

 

P1 - E em que cidade o senhor nasceu?

 

R - Nasci em Mogi das Cruzes, estado de São Paulo.

 

P1 - E qual é o nome dos seus pais?

 

R - José Leme de Macedo.

 

P1 - E o que eles faziam? E a sua mãe?

 

R - Benedita Rogues de Almeida.

 

P1 - E o que é que eles faziam?

 

R - Olha, o meu pai era um tipo de administrador, naquele tempo de, certo? Que tomava conta lá, do patrão, o negócio de criação de gado, essas coisas. A minha mãe, não. Era doméstica, né?

 

P1 - Quer dizer que o senhor nasceu o quê? Em uma fazenda?

 

R - Não, eu não nasci na fazenda não. Nasci em Mogi das Cruzes em uma casa.

 

P1 - Uma casa?

 

R - É, normal.

 

P1 - E como é que foi a sua infância lá em Mogi das Cruzes?

 

R - A minha infância foi boa, viu? Sempre trabalhando.

 

P1 - O senhor começou a trabalhar cedo?

 

R - Sempre trabalhando. Porque, naquele tempo... Você vê, em 1921. Não 21, 21 eu era pequeno. Mas até 1930 e pouco, eu fazia uma dureza naquele tempo de _____________, correspondia ao ginásio, né? 

 

P1 - Então o senhor estudava e trabalhava?

 

R - Mas naquele tempo eu não queria ser, eu nunca pensei em trabalhar em parte (química?). Eu sempre, eu queria ser a parte de telégrafo de estação, né? Eu gostava daquilo lá.

 

P1 - E por que o senhor gostava?

 

R - Eu não sei, porque eu achava bonito. Tinha um amigo que trabalhava com aquilo lá e nós estudávamos junto nessa parte aí que tinha que ter mais os menos um preparo, né? Depois, quando _____________ surgiu essa companhia, que era NitroQuímica, todo mundo disse que ia para São Miguel e eu vim junto. Eu tinha 14 anos.

 

P1 - Mas até então o senhor ficou em Mogi e estudou lá?

 

R - Estudei lá.

 

P1 - E como é que era Mogi nessa época da sua adolescência?

 

R - Ah, Mogi é uma cidadezinha bem pequena, né? Uma cidade bonita, né, onde eu jogava futebol... Quer dizer, eu tinha essa vida.

 

P1 - E aí o senhor veio com 14 anos para São Miguel?

 

R - Vim para São Miguel não, eu vim trabalhar em São Miguel.

 

P1 - Mas morava lá, em Mogi?

 

R - Morava lá. Agora, depois eu mudei para - hoje é ____________, antes era Santo Angelo. E naquele tempo não tinha trem na ____________. Tinha o tronco, que seria ______________, né? E tinha a (variante?). A (variante?) só tinha um trem de manhã que partia de lá, mais ou menos, 4:40 da manhã, né? Era um sacrifício para uma pessoa de 14 anos, né? Depois acabou esse trem. __________ parado e _________ e fazia uma baldeação. Esperava ontem que vinha do tronco para pegar aquele trem para chegar no lugar e em casa.

 

P1 - O senhor tem mais irmãos, senhor José?

 

R - Hein?

 

P1 - O senhor tem irmãos?

 

R - Agora não tenho mais nenhum, viu?

 

P1 - Mas quando era criança?

 

R - Eu tinha um irmão.

 

P1 - E a sua mãe não achava ruim o senhor fazer isso com 14 anos?

 

R - ______________ ________________ _______________. Não, mas eu queria trabalhar. Não interessava a minha mãe, porque naquele tempo não tinha esse negócio de dizer que criança não podia trabalhar. Era preferível trabalhar do que hoje que tem essas criançadas que não trabalham e vocês veem como é que está a vida, né?

 

P1 - E como é que o senhor chegou nesse emprego?

 

R - Como é que eu cheguei? 

 

P1 - É.

 

R - Eu já falei para você, que eu cheguei e vi um bloco de pessoas que diziam que vinham para São Miguel - estava começando uma fábrica muito grande. Então eu vim para cá.

 

P1 - E o senhor veio sozinho ou veio com algum amigo?

 

R - Eu vim com aquela turma. 

 

P1 - Com a turma toda. O senhor não conhecia ninguém?

 

R - Hein?

 

P1 - Não conhecia ninguém, não?

 

R - Não conhecia ninguém, não. Eu sabia que tinha lá, então fui junto com essa turma aí.

 

P1 - E aí como é que foi? Tinha alguém fazendo ficha?

 

R - Ah, tinha. Eu me lembro que tinha um portuguesinho chamado Gomes, entende? E foi ele que, de cara, ele me olhou e falou: "_________ vem para cá". Eu era o que estava mais bem vestidinho, né? Sempre, naquele tempo, né? 

 

P1 - E aí ele falou o que o senhor ia fazer?

 

R - Ele falou: "Olha, você vai ficar. Bom, fica aí parado, espera um pouco aí. Você vai ser um tipo de... Um contínuo". E eu falei: "Está bom". E nisso, passou o Doutor Leonel, perguntou: "Você sabe escrever?", "Sei". Então o Dr. Leonel veio e eu fui junto fazer __________, um contínuo. Doutor Leonel, que era um engenheiro civil da Lindemberg & Assumpção. Naquele tempo, o escritório era de madeira, né, porque estava começando tudo. Eu vi começar até a terraplanagem da fábrica. Porque você vê, dia 4 de novembro de 35... A fábrica começou assim em setembro de 35, não sei se é 13 ou se é... É um dia decisivo, né? Depois, dali, e começou __________ eram americanos e brasileiros, entende? O Dr. Sabino é um diretor técnico. E o Dr. Artur José da Nova - eu não sei se é Artur José da Nova ou se é José Artur da Nova. Hoje ainda tem a rua lá, e acho que nem ia ter o nome dele, né? E eu fiquei nessa parte aí. Então eu fazia todo o serviço. Inclusive, naquele tempo, onde é que ele mandava fazer, eu ia fazer. Estava ganhando. Eu não tinha escolha. Às vezes, porque não tinha lá água potável. Naquele tempo, tinha muita nascente lá. E aí, a gente ia buscar água também. Ia buscar, mas ia buscar o reto também. Vou e levo um recordo, bilhete, e a... Chamar as pessoas. 

 

P1 - E tinha muito americana então, senhor José?

 

R - Tinha. O, começou com todos eles. Cada departamento tinha um americano se civilizando, não ___________ ____________ uma coisa assim, entendeu?

 

P1 - E como é que eles eram? Eles eram bacanas assim, legais para chuchu?

 

R - Ah, legais para chuchu. Legais, 100%! 

 

P1 - E daí o senhor ficou um tempinho, então, nesse trabalho de contínuo pela _________________.

 

R - Deixa eu ver, até 30... Mais ou menos, uns três meses depois disso aí, este mesmo Mr. Julio e o Mr. Ranio me levaram para o laboratório. "_____________". Porque tinha uma pessoas que trabalhava no departamento onde é que fazia a planta da fábrica, então eu ajudava a tirar as cópias também. Eu tirava até com dicromato de potássio, né? Tem umas plantas que saem azul com lista...

 

P1 - Isso. Conta para a gente como é que é era esse processo de copiar a planta?

 

R - Estou falando e vocês estão gravando o negócio. No fim, dá uma confusão danada.

 

P1 - Por quê? Não dá não. Como é que era, senhor José, que fazia essa cópia da planta?

 

R - Fazia o seguinte. Naquele tempo, era o seguinte: era um disco, assim, de vidro e tinha em cima um tipo de carvão; aquilo, aquele papel vegetal de desenho, que fazia a planta, era enrolado em volta desse vidro; e esse, descia aquilo lá, encostava aquilo lá e ia tirando, então passava o risco naquele papel que já estava lá. Dali, tinha uma que colocava em um gás, onde é que tem gás amônia sai um branco com as ___________ meio vermelhas. E esse, o outro com dicromato saia azul com os riscos todos brancos, e é ali que ficava. Então, para mim, eu gostava disso aí. Eu não tinha escolha do negócio, para mim tudo era novidade. E quando a pessoa tem novidade, tem interesse, eu acho que vai em frente. Pior aquele que não tem novidade e que não... Como é o negócio? Aí me passaram para o laboratório _________ Serrana.

 

P1 - Aí chegaram para o senhor e falaram: "O senhor vai para o laboratório"?

 

R - Não, não chegaram assim não. Me chamou e falou: "José, você é um menino esperto e nós vamos pôr você no laboratório ___________ Serrana. Você vai lá ajudar". Estava começando tudo, inclusive. Eu sei que eles trouxeram até (linter?), até um saquinho de (linter?) eles trouxeram para fazer experiência de laboratório para fazer o cozimento do linter, entende? E hoje _________ fazer também aqueles cozimentos. O primeiro cozimento dentro do laboratório por produção - foi feito dentro do laboratório, porque tinha ___________ ___________ pequeno e fazia isso aí.

 

P1 - O que é que é o Linter, senhor José?

 

R - Hein?

 

P1 - O que é que é linter?

 

R - Linter é algodão. Não tem a _____________ algodão, depois tira do caroço e sai o algodão, sai o linter. 

 

P1 - E tem um ponto certo de fazer esse cozimento?

 

R - Tem ponto certo. Como é que não? Se ele entra com soda mais ou menos, se não em engano, soda, assim, de cor...?

 

P1 - Não, não precisa ser exato.

 

R - É de, mais ou menos, uma soda de 20 a 30 gramas por litro, entende? E colocava-se um pouco de sabão que é para (juzir?). Porque, geralmente, algodão sempre tem um pouco de óleo, né? Certo? Então justamente para saponificar a soda, para saponificar aquele óleo que existia. E o sabão ajudava a penetrar, entende? Depois dali, então, daqueles cozimentos, e cada hora certa tirava aquele _________ devagar, né? E jogava um __________ grande com água, lavava muito bem. Tirava depois aquela massa cozida já e aí passava o hipoclorito de cálcio para alvejar. Alvejava aquela massa, tinham as peneirinhas eu colocava, né? Fazia _____________-. Então era o linter que se fazia, para depois nitrar, entende? Depois daquela purificada, o que seria o algodão purificado. Era seco e depois fazia já a nitração com uma mistura de suco nítrico, certo? Mais ou menos uma proporção de um para três de aço nítrico, para ácido sulfúrico. 

 

P1 - Fica que nem uma massa de bolo assim, uma coisa... Não?

 

R - Não, não é como massa de bolo não.

 

P1 - Como é que fica? Parecido com o que é que fica esse estágio?

 

R - Parecida assim com essa aqui. 

 

P1 - Já durinho e branquinho?

 

R - É. Durinho, não. Fica __________ __________ ____________, ele ficava meio ____________, entende? Depois é que entrava em uma mistura de suco nítrico, ele endurecia mais porque ele formava a nitrocelulose. A nitrocelulose então fazia a estabilização da nitrocelulose. Senão ficava explosivo, tá entendendo? Então a nitrocelulose, daí é que dissolvia seco, determinava a acidez da nitrocelulose e depois entrava com álcool e éter - essa mistura que fazia o colódio. Esse foi o primeiro, a primeira seda artificial que foi feita na NitroQuímica. Então, depois, aí entrou na fábrica. Esse aí é o começo, mas começou em grande escala dentro da parte da indústria, né? Aí já não eram mais. Eram tonelada, certo? E os ___________, naquele tempo, eram os tubos de vidro assim com uns furinhos de mililitro, entende? Milímetro, mais ou menos 0,05 milímetros. Esse eu tenho certeza, porque eu marcava. __________ eu marcava, né?

 

P1 - Então, voltando, aí eles falaram: "Ah, você é um garoto esperto". E aí eles perguntaram se o senhor queria ir para o laboratório?

 

R - Ah, perguntaram.

 

P1 - E aí o senhor disse que queria?

 

R - É claro que eu queria. Eu queria uma novidade, né? Porque eu não podia ser contínuo sempre, está certo? Então, esse químico... Isso era muito bom. Então eu ajudei a montar o laboratório, onde é que estava tirando. E trouxeram tudo, né? Eles acharam que o Brasil, naquele tempo, não tinha nada talvez, então trouxeram até leite - que trouxeram reagente.

 

P1 - E tinha, senhor José, no Brasil?

 

R - Devia ter, né?  Não daquele jeito. Muitos tipos de reagentes não tinham, né?

 

P1 - Então eles trouxeram tudo. 

 

R - Trouxeram tudo. Então a gente tirava tudo aqueles, o copo, mureta, proveta e tudo isso aí, né? _________ e toda essa parte toda. A gente tirava toda essa parte aí e ia arrumando _____________ como ___________ fazer análise depois, né? 

 

P1 - E aí eles começaram a ensinar o senhor?

 

R - Ah, ensinavam. Ensinavam porque onde é que eu ia, inclusive, fazia até - eu não vou falar isso aí porque eu estou, fui gravando... Muito cheiro de amoníaco, eu tomei, né? Porque eu não sabia, aquele negócio é fogo. 

 

P1 - O senhor foi estudar depois?

 

R - Estudei. Fazia: “Ah, vou começar”. NitroQuímica dava aula de química. Tinha o engenheiro químico que dava aula fora, no tempo do Getúlio Vargas Filho, ele dava aula de química fora da NitroQuímica. 

 

P1 - E aí o senhor foi estudar com ele?

 

R - É, fazia química com ele.

 

P1 - Ele dava para quem quisesse?

 

R - Não, só para o pessoal do laboratório.

 

P1 - E tinha bastante gente no laboratório?

 

R - Tinha, uma média, mais ou menos, de umas 20 a 30 pessoas. 

 

P1 - Entre americanos e brasileiros?

 

R - Não, não. Brasileiro ainda ____________, só brasileiro.

 

P1 - Agora já só brasileiros. O senhor lembra o nome desse engenheiro que dava aula?

 

R - Olha...

 

P1 - Se não lembrar, não tem problema.

 

R - O nome é duro. Eu sei que um chamava Mr. ______________, que eu tinha mais contato com ele. Depois tinha [o] Mr. ___________, que eu não sei se era americano ou francês. Tinha o Dr. Boris também, um americano grande. E tem até uma piada do Dr. ___________ de Oliveira, que ele perguntou o quanto eu ganhava. Eu estava fazendo o café, isso antes do negócio, né? _____________ o café e ele falou: "Quanto você ganha, José?". Eu falei: "Eu ganho 700 réis por hora", naquele tempo, né? E eu perguntei: "E o senhor, quanto ganha?". Quer dizer, então, foi uma ____________, entende esse negócio? E o Dr. Sabio pôs no relatório dele, eu sei que ele pôs isso aí. _____________ depois foi contar isso que _____________ deu risada da _____________, entende? Mas eu perguntei aquilo espontaneamente, não é?

 

P1 - E era bom esse salário de 700 réis por hora?

 

R - Olha, naquele tempo era bom. Olha, em 1936, era dinheiro, viu? Não era que nem hoje. E o meu custo de vida também era outra coisa, não era que nem hoje, né?

 

P1 - Quer dizer que o seu cotidiano era assim, o senhor ia para Mogi, ou melhor, vinha de Mogi, trabalhava o dia todo.

 

R - Voltava.

 

P1 - Voltava também de trem.

 

R - Isso. E eu comecei, eu vou te contar, vou _____________, depois que eu passei para o laboratório, já com o Mr. _________. Eu tinha ordem para, eu acho que trabalhava com 16 ou 17 anos, bem, 17 anos à noite sozinho dentro do laboratório.

 

P1 - Nossa senhora José!

 

R - Então, naquele tempo, você fazia, aquilo era por grupo... O processo da nitrocelulose, [se] fazia o cozimento e não era, começou, era começo da coisa e não começava com aquela fabricação todinha. Então vinha uma amostra de algodão, amostra de solução, e então a gente analisava. Eu analisava aquilo ali e fazia até o nitrogênio, né, para ver quanto de nitrogênio tinha na nitrocelulose. Tem uma média, mais ou menos, de 11% e 70%, 11% e 80% de nitrogênio. Inclusive, tinha até um chuveirinho porque se estourasse, você entrava debaixo daquilo lá, entende?

 

P1 - O que é que acontecia se estourasse? Ele explodia mesmo?

 

R - Eu vou lhe contar o __________ ______________. Se pegava uma grama daquela nitrocelulose, dissolvia no ácido sulfúrico, mais ou menos, a 95%, passava para um tubo o mercúrio, um tubo cheinho com mercúrio; e tinha como se fosse uma, não sei como eu posso dirigir essa parte aí, era com um tipo de _____________. Era uma bola que você ____________ o mercúrio, ele enchia aquele bulbo, certo? Se estabelecia e depois colocava a nitrocelulose já dissolvida em ácido sulfúrico. Aí é que você jogava dentro daquele bulbo, sem entrar ar, entende? Quando você terminava, fechava aquilo ali e aí batia. Não tinha problema nenhum, aí você batia. Tinha uma torneira embaixo porque era muito perigoso. Se fechasse, então, explodia. Porque quando se dissolvia, o nitrogênio, o gás abaixava aquele mercúrio. Entendeu aquele negócio? E se não estivesse fechada, ele explodia o tubo. Está entendendo como é o negócio? Então era essa parte aí, fazia esse nitrogênio. Então fazia essa _____________, uma ou duas. Mas eu tinha ordem até para dormir, entende? Porque era tão pouco serviço à noite. Mas eu trabalhava, com 16 anos eu estava trabalhando à noite. Assim, eu entrava 6 horas e para mim não tinha problema nenhum, né? E sai às 6 horas do dia seguinte. 

 

P1 - E senhor José, aconteceu algum acidente de algum outro operador no laboratório não fazer direito essa mistura? O senhor lembra se teve algum?

 

R - Aconteceu justamente nesse negócio do projeto, sabe? Estourou. Eu ia entrar de férias quando o meu encarregado - eu já era responsável pelo laboratório - ia ficar. E, naquele dia, ______________ muito cuidado, e é um aparelho chamado nitrômetro. Justamente, estourou e quando estourou, eu estava dentro da sala separada. E eu corri com ele e pus água. E tinha água porque ___________ __________ com ácido tem que jogar água, bastante, né? E aí ele foi para o hospital e ___________ tudo, _________ mas não teve problema nenhum.

 

P1 - Para que é que serve a nitrocelulose, senhor José?

 

R - Hein?

 

P1 - Para que serve a nitrocelulose?

 

R - Bom, naquele tempo, servia para fazer a seda artificial, certo? Hoje serve para fazer resina, fazer esmalte, entende? E muitas outras coisas que usa, né? 

 

P1 - Essa seda artificial para fazer roupa, né? Tecido.

 

R - É, para tecido, a seda artificial. Tem a seda natural que seria casulo, não é isso? E tem a seda artificial que seria dessa forma. O primeiro processo da NitroQuímica foi com essa aí. Mas tinha uma fábrica de ____________, fabricação de _____________, certo? Fazia esse ácido nítrico dentro, tinha um setor que se baseasse de nitro, entende? Com nitrato de sódio [e] mais ácido sulfúrico, liberava o HNO3 que seria ácido nítrico e depois ficava o bisulfato de sódio, não é? 

 

P1 - Porque todos esses eram usados nesse processo.

 

R - Hein?

 

P1 - Porque o éter e o ácido nítrico eram usados no processo. 

 

R - Eram usados no processo porque você precisava do ácido nítrico, do ácido ______________ para fazer a nitração. Porque a nitração __________ _____________, do linter. Fazer a nitração com ácido com essa mistura sulfídrica. 

 

P1 - Então, o que era bom então [de] a NitroQuímica ter essa produção? Ele era independente?

 

R - Era independente, mas eu estou falando que isso aí é um processo que teve para fazer a seda artificial primeiro, o primeiro processo da NitroQuímica, que era com _________________. Depois veio o rayon [ou raiom], entende? O rayon já não fazia mais do algodão purificado assim, passava por um moinho e fazia a folha da celulose. Então as folhas de celulose, que nem isso aqui... Então ia para o setor da soda, que talvez o Nelson ______________ falou isso. Colocava em um filtro, prensa e colocava em uma soda a 18%. Ficava, mais ou menos, a uma hora e meia, duas horas ali para absorver aquela soda na celulose, e aí fazia a prensa. Já era calculado sobre a prensa. Então vinha aquela ____________, saía a celulose, saía toda a soda para tirar a (M?) celulose, entende? Que são as celuloses de fibras muito pequenas, que não era interessante para fazer a viscose. Tirava essa soda. Essa celulose já prensada que era calculada, mais ou menos, para ter uma determinada porcentagem de soda caia por gravidade onde é que se fazia alta celulose. E de lá faziam a trituração. Ficava ____________ aquilo lá, entende, umedecida com soda. Dali, ia para um outro tubo, um outro canto, que entrava com dissulfeto de carbono e fazia o chantato [da reação]. Como entrava para uma soda mais alta, o que é que acontecia? Eu tinha ali um chantato com soda alta [e] então a soda mais fraca, [de] 4%, está entendendo? Depois ali, então, que tinha o processo de maturação da viscose, punha sobre o vácuo para tirar todo o ar da viscose para não ter, interferir no fio, da fiação. Fazia, depois da maturação ficava fazendo __________ de ___________ em _____________ até chegar em um ponto certo de coagulação. Quando chegava naquele ponto, vamos supor, oito e meia, nove, era o ponto certo. Ele mandava aquele ponto ali de depois da soda, depois dessa viscose, já sem ar, sem nada, ______________ já maturada e a fiação. Na fiação, era recebida por baixo, a entrada sob pressão, o espinareto. O espinareto que era de ___________ e ouro, tá? Porque ali tinha o H2S, tinha o ácido sulfúrico, né? E tinha a soda. E ali então ocasionou a geração da celulose, que estava e sia a ____________ da celulose que aí o (piandeiro?) piava e fazia a torta, está entendendo? Fazia aquelas tortas que estão apagando. E ali era fechado às vezes, porque desprendia ______________ de CS2, que era veneno. H2S, SO2, entende? Então, toda essa parte aí. Porque ____________ tinha uma reação, entrava em um banho onde ____________ um ____________ de, mais ou menos, 10%. Eu não vou dizer que é 10,5; 9,5 - também faz tanto tempo. Mas entrava nisso aí com o zinco, mais ou menos, a 1% o sulfato de zinco, para que o zinco ajudasse não o ácido a interferir no fio, está entendendo? E tinha o sulfato de sódio além de formar o sulfato de sódio porque o chantato ia com o sódio. Com o ácido sulfúrico dava uma reação que ______________ o sulfato de sódio, certo? Aí ele fiava aquilo ali. Os gases eram puxados a vácuo, né? Tinha a __________ e era puxado a vácuo. Os gases e gases venenosos. Mas, de vez em quando, saíam uns gases ali que eram prejudiciais. Você vê, cheirar H2S, cheirar CS2 e esse negócio é venenoso, então era puxado para cima. 

 

P1 - O que é o chantato, senhor José?

 

R - O chantato é a mistura que eu falei para você. É a mistura da celulose com a soda, certo? E de sulfeto de carbono, entende, que é CS2. 

 

P1 - E o senhor estava dizendo que primeiro era no laboratório e depois começou uma produção grande. Era grande a produção assim?

 

R - Poxa vida, se era. Nossa senhora, era grande.

 

P1 - E esse processo era 24 horas?

 

R - Não parava. 

 

P1 - Não parava.

 

R - Não tinha esse negócio de domingo não. E vou dizer uma coisa para você: O Dr José Ermírio de Morais, que é __________ senador, esse homem trabalhava que nem um danado. Até aos domingos ele estava dentro da fábrica. 

 

P1 - Estava sempre ali com vocês, acompanhando? 

 

R - Estava ali e rigidamente. Porque, veja bem, a fábrica, para montar uma fábrica daquela ali - daqueles tempos não era assim, não era qualquer coisa. O negócio tinha que, não podia perder tempo. Você vê, começou com 35 e quando foi 37 e pouco, mais ou menos, eu acho que começo de 37 ou começo 38 já começou a fabricar o fio. E foi montagem. Os departamentos não são pequenos e as quantidades de ferramentas que tinham, as bolas, os vidros, esse negócio todo, a montagem era bastante. Então...

 

P1 - Você trabalhou com o filho do Getúlio Vargas?

 

R - Trabalhei. Ele trabalhava na sala 25 e eu na sala 34.

 

P1 - O que é que ele fazia lá?

 

R - Olha, era um cara tão bom, um cara humilde, que não diziam que ele era filho do Getúlio, do presidente da república. Portanto que fizeram um busto lá e eu não sei onde é que foi parar esse busto dele. Quando morreu - eu sei que eu tenho, eu acho que eu tenho até uma gravata dele porque distribuíram a roupa dele, né? E ele morreu, mais ou menos, não posso _____________ direitinho. Eu só sei que em 42 ele estava lá porque eu fui, quando eu fui convocado para a guerra... 

 

P1 - E o senhor foi?

 

R - Fui convocado para a guerra. Calma! E eu consegui pegar uma carta da companhia, está entendendo? E, naquele tempo, a NitroQuímica tinha trotil, que causou o TNT. Então ___________ em explosivo, que seria a nitrocelulose também. Tinha também (genetal?) ali dentro da NitroQuímica. Eu fui ____________ de Caçapava, fiquei, mais ou menos, acho que uns 15 a 20 dias lá. E o meu batalhão ia seguir. Eu saí em um segunda, foi _________, em uma segunda-feira, né? Da indústria de guerra, como _____________ velho. E meu batalhão ________________ foi direto para a Itália. E muitos amigos nunca voltaram, ficaram lá mesmo. Foi o primeiro escalão, o ante castelo. E dali, eu saí. Aí eu casei, em 43. Veja bem.

 

P1 - Mas aí o senhor já era o chefe do laboratório?

 

R - É. Eu casei em 43.

 

P1 - Como é que o senhor ficou? Então, mas quando é que o senhor ficou o chefe do laboratório? Porque o senhor disse para mim que o senhor foi de Viscose e depois foi o chefe do laboratório central. 

 

R - É. Eu primeiro comecei trabalhando no central. ___________ _____________ no central. O ___________ vem depois, entende?

 

P1 - O senhor se embora em que ano que o senhor ficou como chefe?

 

R - Me lembro. Eu acho que foi em 1900... Eu era encarregado de turma, porque nós trabalhávamos às vezes em turma, entende? Até... Esse já morreu, foi depois. Primeiro, foi diretor da fábrica, o Edgar Maria, né? Lembra? Então eu era encarregado de turma. Como tinha um técnico que, chamado Palhuso, não sei __________ ___________ acho que é ____________, um espanhol que também eu acho que já faleceu. Ele saiu de dia. Aí o Dr. ____________ me passou para durante o dia como responsável pelo laboratório. Você sabe que encontra uma porção de problema, certo? É a mesma coisa, você está em uma turma toda direitinha, toda amiga, mas se você passar você lá em cima, tem muitos querendo derrubar você. Então, só que eu tenho um apoio grande, né? Esse Dr. ________ ____________, que já faleceu, na Alemanha. Esse me segurou um pouco, me segurou e...

 

P1 - Essa turma do laboratório, tinham quantas pessoas? O senhor disse por turmas, quantos funcionário?

 

R - Porque eram três horários. 

 

P1 - Três horários. Mas quantos funcionários tinham em cada horário?

 

R - Cada horário, mais ou menos, uma média de 8 a 10, entende? Tinha, mais ou menos, uma média de 25. Para eu dizer para você direito, para mim é dureza, você entende? Porque no laboratório, só na parte de ácidos, eles eram quatro analistas. Que era a análise mais difícil que existia. Que era a análise ________________, que era justamente para fazer a nitração da celulose, né? Aí eu passei ele para durante o dia como encarregado geral, que seria um sub-chefe. E em 60, quando o Dr. Morais, o Ermírio de Moraes que estava lá, que saiu o Dr. Marciel de ___________ __________, o Dr. Ermírio esteve na fábrica. Ficou na fábrica. E tinha o Dr. Fábio _______________ que era o engenheiro químico. Ficaram os dois lá e eu sei que depois o Dr. Ermírio deixou o engenheiro _____________ como diretor, certo? E ele voltou para nitro, para a Votorantim aqui.

 

P1 - Eu queria voltar um pouquinho nessa questão da guerra. O senhor disse que tinha general lá. Porque a nitro, uma indústria química realmente com esse material. Quando o Brasil estava em guerra, quer dizer, tinha uma preocupação do governo com a NitroQuímica?

 

R - É claro porque eu quero fazer, a nitro fazia, olha. Aí vocês é que não citaram Trotil. Não sei se citaram a Trotil. Trotil foi um departamento que fazia o TNT (Trinitrotolueno). E quem montava ________________ foi montar o laboratório lá fui eu que fiz o laboratório.

 

P1 - Por que é que montaram esse laboratório do Trinitrotolueno?

 

R - Porque lá, tinha a pessoa que tinha que analisar essas análises aí também. 

 

P1 - Mas ele era necessário para o processo da NitroQuímica? Porque me parece que era um fábrica totalmente diferente, né?

 

R - É diferente. Veja bem. Não, veja bem. A NitroQuímica ficava aqui. A Trotil ficava atrás do Rio Tietê, entendeu? O local era atrás do Tietê, do Rio Tietê.

 

P1 - Mas ela não chegou a funcionar, chegou?

 

R - Chegou a funcionar, chegou. E ____________ recebia o ______________ fazia análise do _____________ para fazer a nitração com a (trimistura?).

 

P1 - E esse TNT ia para onde? Quem comprava esse TNT?

 

R - Quem comprava, eu acho que era o governo.

 

P1 - O próprio governo. 

 

R - Eu acho que sim, deve ser o governo. Mas eu não sei quem é que comprava. Eu sei que fazia o TNT (Trinitrotolueno). 

 

P1 - Porque ela foi montada bem depois, né, senhor José?

 

R - Foi. foi bem depois.

 

P1 - O que, uns 10? Perto da guerra já, né? Mais de 10 anos, não foi, senhor José? Um pouco antes de 10 anos. Porque foi na época da guerra, não foi?

 

R - É, mais ou menos. Antes da guerra. Antes, já funcionava isso daí também. E aí foi. 

 

P1 - E aí eles puseram os generais por lá para ficar de olho.

 

R - Aí depois parou, né? Teve uns processos, teve uns desarranjos deles na ______________. Porque __________ __________ __________ e aí vai me comprometer e não vão gostar, está certo? Aí começaram novamente com a fábrica. E depois fecharam de uma vez.

 

P1 - Desmontou essa fábrica?

 

R - Desmontou. E aí começou a fazer. Tinha um Dr. Shirman __________, um químico alemão. Tinha 60 anos de química orgânica. E ficava sozinho. Fazia ____________, fazia os pigmentos, fazia tudo. Depois começou a fazer, mais ou menos, ou acertando óleo para automóvel. Acertando óleo por viscosidade e aí analisava. Poder (calorídrico?) e assim, a análise toda, entendeu? Então, depois parou também isso aí, porque eu acho que não interessava mais.

 

[Pausa]

 

P1 - Então, na época da guerra, o senhor foi, [mas] não embarcou?

 

R - Não, não fui. Voltei para a Nitro. 

 

P1 - Voltou direto para a Nitro?

 

R - Para a Nitro, voltei.

 

P1 E aí, o senhor casou?

 

R - Eu casei em 43 e no dia do casamento, eu recebi uma nova reconvocação.

 

P1 - De novo?

 

R - Tá? No dia do meu casamento. 

 

P1 - Que dia foi?

 

R - Dia 6 de março de 1943. Vê se pode? De 42, 17 de outubro de 42, eu fui para Caçapava, tá? E eu acabei casando em 43.

 

P1 - E onde o senhor conheceu a sua esposa?

 

R - Eu conheci lá mesmo.

 

P1 - Em Caçapava?

 

R - Não, não. Eu conheci ela aqui.

 

P1 - Aqui na Nitro? Ela trabalhava lá ou não?

 

R - Não, a senhora nunca trabalhou. 

 

P1 - E onde foi que o senhor conheceu? Conta, senhor José.

 

R - Onde eu conheci quem?

 

P1 - A sua esposa. Em que lugar, assim, um baile, no cinema?

 

R - Eu a conheci, eu conhecido... Eu conheci em Santo Angelo, e hoje o nome é Jundiapeba, né? Porque eu também me exibia em Santo Angelo também. 

 

P1 - Aí casou, recebeu a convocação e começou tudo de novo? Teve quer ir lá, falar com a...

 

R - É, aí eu peguei nova carta. Para mim deu uma confusão danada porque, veja bem, eu não tomava muito conhecimento do documento. Carteira profissional, para mim, o cara que fez, ele é que me colocou na carteira reservista que eu fiz ____________ de guerra, José _______ de Almeida. Ele pegou o sobrenome da minha mãe - [ela se] chamava Benedita Rodrigues de Almeida. Eu cheguei e disse: "Olha, e como é que você me deu o negócio aqui?". Eu falei com o tenente. E ele falou: "Então o senhor vai para Caçapava e vai acertar lá". E eu não fui mais para Caçapava. 

 

P1 - O senhor não foi, senhor José?

 

R - Eu não fui. Aí ela, é, quando mandaram a carta da fábrica... É isso aí. E eu tenho uma história gozada pra chuchu, viu? Foi eu mandando uma carta, eu mandei uma carta com meu nome __________ da NitroQuímica, né? José Leme de Macedo. Eu cheguei, entreguei - eu me lembro que era um coronel, não sei o que Toscano, entende? E ele olhou a carta: "Mas você não é, caramba". Aqui está ____________ sou eu, olha aqui". É a conclusão da minha mãe. E aí tinha um tenente, e o tenente também se abriu: "O meu nome também está trocado". O próprio tenente, entende? E ele me deixou assim. Volta. Mas eu tinha que voltar novamente. Eu estava no comércio e indústria aqui de São Paulo aqui e tinha um italiano que, se não me engano, esse camarada era casado. Naquele tempo, se não em engano, o interventor era o Fernando Costa. Você conhece?

 

P1 - Sei, sei.

 

R - Ele era casado, se não me engano, parece que com uma cunhada dele, uma cunhada da mulher dele. Era um químico. E eu estou parado lá, né? Estou lá esperando porque eu queria falar com esse coronel, coronel do exército. Ele passa, o _____________ já tinha saído. E ele passa e quando ele volta: "Mas ______ você está aqui rapaz?". Eu digo: "Estou". "Mas o que é que você está fazendo?". Eu estou em uma confusão danada. Eu casei e agora vou para a guerra. E ele falou: "Ah, então vem aqui". E tinha um laboratório deles. Eu me lembro como se fosse hoje. Ele falou: "Olha, e essa pedra aí?". Era um químico meio condutório, né? "E essa pedra aí, é níquel? É pedra de níquel?". E é fácil, né? E eu falei: "Olha, se for níquel dissolve isso aí, põe ________ e dá __________ como níquel vermelho, né? Se não for, não dá. "E se for amônia?", "Joga soda. Vai liberar o NH3 e é justamente o NH3...", "Está certo". E ele falou: "Aguarda aí". E essa é uma história que se eu contar, a turma diz: "Esse camarada está falando besteira". Mas tudo aconteceu comigo, está entendendo? Meu nome trocado, uma puta de uma confusão. O cara pegou a carta e jogou a carta _____________, entende? Porque naquele tempo não tinha essa _____________. Essa ___________ era a ______________, né? E eu tinha que sair de cabeça baixa. Aí ele falou: "____________ não, vem cá. Vamos lá". E ele tinha acesso lá, falou para o coronel - contou a história, contei a história para ele. Ele telefonou [para] o quartel general, se não me engano, era aqui perto daquele Cine - tinha um Cine ali, perto da Av. São João, lá, certo? Eu me lembro como se fosse hoje. O capitão Luque, né? Me telefonou: "Olha, via uma pessoa aí, aguarda aí _____________ aí e manda passar um rádio ___________ lá para Caçapava dispensando esse ___________". Olha, eu vim correndo para a Av. São João, entende? Aí falei e já tinha o, entrei, conversei com ele. Pegou os meus dados tudo direitinho e falou: "Pode ficar descansado". E nunca mais aconteceu isso.

 

P1 - Senhor José, o senhor ficou 15 dias em Caçapava, no batalhão?

 

R - Olha, se eu disser para você que eu fiquei 15 dias, eu não sei. Porque naquele tempo você dormia até no jardim, sabe por quê? Porque era tanto voluntário.

 

P1 - Era isso que eu queria que o senhor contasse.

 

R - Era tanto voluntário que eu tinha, dá vontade de pegar em um sargento pelo pescoço e amassar o bicho, entende? Cinco horas da manhã e ele fazia, a gente não tinha, não dava a roupa, não tinha ______________, está entendendo? Tinha uma turma que saiu para Ubatuba __________ _______________. Para exercício. E nós íamos para o Vale do Paraíba e tinha aquele negócio de granada, tinha que ter inchada e tudo meio molhado e o sargento ia lá e metia pé nas costas dele e fazia ele encostar na ________________. 

 

P1 - Sem farda sem nada, Senhor José?

 

R - Sem farda. Não tinha farda.

 

P1 - E um monte de gente assim?

 

R - A comida, minha filha, era assim: _____________ dava comida mas era pouco. Ou então a gente ficava mais na praça, está entendendo? Naquela praça de Caçapava. 

 

P1 - Naquela praça em frente ao _____________? 

 

R - Você conhece?

 

P1 - Conheço Caçapava. 

 

R - Do lado. Tem um jardim, não tem um jardim? Ali, a gente ficava ali. 

 

P1 - Nossa, senhor José.

 

R - Porque era muita gente. Se ficava lá dentro, ficava um ou dois _________ _________ e o outro ficava acordado. Porque senão você levantava e não tinha sapato, não tinha mais nada. Está entendendo? Está entendendo ______________? Porque toda a região, né? Se concentrava lá no ____________ _____________.

 

P1 - E tinha gente de tudo quanto era lugar?

 

R - Ah tinha. Tinha. Já na chegada - eu estou contando isso aí e eu sei que está sendo gravado, né? E vai ser até uma história. Quando saiu, saiu todo mundo. Aquela choradeira desgraçada, viu? Todo mundo chorando, aquele pessoal, aquelas mulheres todas chorando e tal. E quando eu saí, corri, peguei o trem rápido. Não vi ninguém. Eu vou embora, eu vou embora. ____________ __________ _________ e caí fora, tá? ___________ chegou ___________ _____________. Naquele tempo o trem tinha um negócio de ar comprimido, está entendendo? E os caras puxaram aquele negócio e o trem parou. O trem parou e comunicaram Caçapava. Quando nós chegamos lá, já estava uma turma lá de soldados esperando com fuzil. Aí ___________ em fila. Cada noite nós dormíamos em _____________. Entramos direto pra o quartel. 

 

P1 - Porque dali eles foram. Como é que era senhor José? Pegava um trem ali em Caçapava e ia para onde? Para São Paulo ou ia para o Rio?

 

R - Olha, dali ______________. Primeiro eles foram para a Lins. Isso foi uma nova, né? De lá passava direto para o Rio de Janeiro. 

 

P1 - Do Rio de Janeiro embarcaram?

 

R - Lá foi o primeiro escalão que foi.

 

P1 - E o senhor nisso voltou para São Paulo?

 

R - Eu já estava em São Paulo já, né? 

 

P1 - Ah, já tinha voltado. Bom, aí o senhor então se livrou dessa segunda convocação, aí o senhor casou e continuou. Nessa época o senhor estava ainda no laboratório central?

 

R - Estava no laboratório central.

 

P1 - Quando é que o senhor passou para Viscose? O laboratório de Viscose?

 

R - Eu assumi tanto, eu assumi. Está na carteira profissional, que eu trouxe um histórico de ____________ porque senão eu vou para lá e não, o senhor não falou. Mas estava registrado que a companhia foi quem me registrou, né? E foi uma outra, eu tinha umas três carteiras profissionais tudo cheia, né? E tem uma outra que está marcado: "Em 1960, eu passei a chefe do laboratório químico central". 

 

P1 - Já quando o engenheiro Fábio (Ravalho?) era o diretor.

 

R - Já era diretor. Não era bem diretor, viu? Não tenho bem certeza. Eu acho que já era porque era no tempo do Dr. Ermírio de Moraes.

 

P1 - O senhor trabalhou com o engenheiro Fábio (Ravalho?)?

 

R - Trabalhei. Trabalhei até pouco tempo.

 

P1 - O senhor se aposentou em 84, né? 

 

R - Em setembro de 84. Porque o negócio é o seguinte: nós fizemos um acordo, porque tinha muita gente velha. Tem uns velhos que seguem a norma direito e tem outros velhos que abusam do poder, está certo? Porque, naquele tempo, tinha a lei da estabilidade. Passava 10 anos, a pessoa não podia ser mandada embora. Se mandasse embora, tinha que ser por justa causa e assim pagava um _____________ salário da pessoa, um ______________ salário. Então foi feito um acordo, nós fizemos um acordo em _____________, ____________ não sei bem. E fizemos ______________. Quer dizer, nós já éramos funcionários novos.

 

P1 - Tinha mulheres na fábrica, senhor José?

 

R - Hein?

 

P1 - Tinha mulheres na fábrica?

 

R - Ô se tinha. 

 

P1 - Tinha bastante?

 

R - Bastante. Na época do ____________ era tudo mulher. 

 

P1 - Então, mas só nessa parte.

 

R - Não, tinha também... Tinha mulher no laboratório também. O laboratório físico, químico tinha mais ou menos, que eu me recorde, umas quatro ou cinco mulheres. Porque elas não podiam fazer  o horário noturno, né, tinha isso aí. Na central, também tinha umas três. 

 

P1 - E elas trabalhavam bem, como os homens.

 

R - Trabalhavam. Tinha que trabalhar, né? Tinha que fazer. Cada uma tinha o seu setor. Cada uma tinha que fazer. Uma era só fazer análise de _________________. Porque naquele tempo a gente fazia vários produtos, né? Então um fazia só tratamento só de análise da águas das caldeiras, vamos supor. O outro fazia análise dó de sulfato de alumínio, outro fazia análise só do algodão nitrado [e] outro fazia análise do algodão purificado. Outras soluções, o outro ácido, a mistura sulfídrica. Era a análise que era mais carinhosa de se fazer. Porque dependia dali da nitração, né? Conforme se desse errado aquilo aí, se fazia, vamos supor. Você pesava, mais ou menos, 8 ou 10 amostras para combinar 3 ou 4 com ________________ e _______________. A diferença, em logaritmo, seria 40 - nós trabalhávamos com logaritmo.

 

P1 - E o senador estava sempre por lá então. O senador gostava da NitroQuímica, né?

 

R - Quem?

 

P1 - O senador José Ermírio.

 

R - Ele gostava, não saía de lá. No começo, puxa, o que ele trabalhou. Olha, até aos domingos ele estava lá.

 

P1 - E ele ia lá no laboratório? Ficava lá com o senhor?

 

R - Na fábrica toda, porque ele era interessado mais na fábrica.

 

P1 - Mas ele...

 

R - Ele só levou uma vez lá no laboratório, os três filhos dele. E foi justamente na hora onde é que eu estava fazendo o nitro, determinando o nitrogênio. Era tudo novinho, né? Acho que foi, acho q o Dr. Ermírio, o Dr. Antônio e o Dr. José. 

 

P1 - E aí o senhor explicou para eles?

 

R - Não, eles ficaram só olhando, né? Só olhando.

 

P1 - Os meninos gostam do laboratório, né?

 

R - Hein?

 

P1 - Meninos gostam de laboratório, né? 

 

R - Gostam. Só que justamente ali não dá muito para mostrar, porque eles gostam muito de ver a coloração, né? A titulação com indicador então muda as cores e [é] isso aí, né? E, naquele tempo, análise química era diferente, né, eram separações de grupo. Analisar cálcio, magnésio, zinco, alumínio, ferro, entende? Então tinha a análise volumétrica, a análise colorimétrica.

 

P1 - O senhor chegou a pegar alguma coisa já de computador, né? Senhor José?

 

R - Pegou o quê?

 

P1 - Já essa modernização, essa informatização, os computadores. O senhor pegou?

 

R - Eu peguei a absorção atômica. Eu fiz esse curso aqui no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e esse aparelho chama, um aparelho para absorção atômica. Então se tem um padrão de 100%. Tem que ter o padrão de 100%, viu? Você põe uma solução igual àquela que você vai analisar, certo? Depois, então, você vê o comprimento de onda daquele produto, que cada metal tem um lâmpada. Você quer terminar o chumbo, tem uma lâmpada para o chumbo. Você quer determinar o cálcio, o cobre, tem uma lâmpada para cada um deles, entende? tem o comprimento de onde você aplica ______________ com o gás, vai a fogo. Há uma suga [sucção], né? Aspira aquele negócio, quer dizer, ele vai queimando e vai dando aquilo ali, certo? Vamos supor, por exemplo, análise 100%. Vamos _____________ lá, vamos supor um tipo de negócio. Deu 90. Então eu sei que aquele produto é 100% dando 90. E quando eu analisar ele tem que passar ____________ os 100%, vai dar 90%. Se ele der 50 é sinal de que ele está _____________ ______________. Essas são as determinações. 

 

P1 - Mas essa análise já?

 

R - Mas tem também os traços de análises, pequenas quantidades que vão para esse aparelho. E, às vezes, vai por colorimetria também, né? 

 

P1 - Aí já fazia no computador?

 

R - Bom, não era no computador. Você faz na absorção atômica ou colorimetria.

 

P1 - O senhor não pegou nada de computador?

 

R - Não, eu não peguei.

 

P1 - Mas mudou muito desde que o senhor começou, de 30...?

 

R - Eu passei lá o ano passado, fiquei um dia lá. Não tem mais, quer dizer, o que eu vi, está tudo, só armação. O resto foi tirado tudo das máquinas, tudo isso aí. E tem só a nitrocelulose. Onde é que [fica] o laboratório central, onde é que eu passei, porque o laboratório central fica junto com o escritório. E eu passei esse laboratório central lá onde que era a fábrica. Então, aproveitando o laboratório da fábrica, (tinta?) para o laboratório central. Embaixo fazia-se a solução, fazia-se a análise de solução e da viscosidade, para ver a viscosidade da celulose. E tinha um poder certo, né? E a parte de cima, então, fazia parte analítica, a análise matéria-prima. E tem a parte que fazia a parte de absorção atômica. Mas muitos não podiam colocar. Muitos tinha que fazer na parte de colorimetria mesmo.

 

P1 - O senhor trabalhou 48 anos?

 

R - 48 anos na NitroQuímica.

 

P1 - Na NitroQuímica.

 

R - O que é que mudou de quando o senhor entrou até quando o senhor saiu? O que mais mudou?

 

R - Bom, para começar mudou dois terços da fábrica, Tá. Então quando é que não tem o laboratório químico acabou. Não tem mais. Só tem o ______________. Laboratório físico acabou. Porque tinha laboratório físico também e acabou. Onde é que fazia a parte da __________, do fio, entende? A umidade. ____________ tudo aquela parte de análise que o fio necessitava. Daí, então, acabou aquilo ali. A fiação, que tinha todas aquelas máquinas, né? Não tem mais nada daquilo lá. Está tudo o teto e o chão, entende. Onde é que tinha _____________, onde é que fazia os cones para _____________, também acabou. A tinturaria tinha tinturaria e também acabou a tinturaria. Mas _____________ acabou antes de, ainda funcionava ainda mas já tinha acabado já a tinturaria., Entende? E onde é que era o ____________ _____________ também acabou. Não tem mais nada. Então hoje o tratamento de água tem que existir. Mas em pequena quantidade porque o consumo de água é pouco . Os amolecedores, amolecedores da água, para você reter cálcio e magnésio ainda existe. Porque usam para caldeira. Antigamente usavam para tratamento da água para _____________ a lavagem da ______________. Não podia ter cálcio nem magnésio porque ficava duro. 

 

P1 - Pois é, nós não falamos no Rayon, falamos?

 

R - Hein? 

 

P1 - O Rayon também tinha produção lá, né?

 

R - A produção tinha. Só que tem uma coisa. No final, ficava mais caro produzir na nitro do que importar. 

 

P1 - Ah, por isso é que acabou então?

 

R - Eu acho que sim porque o mercado acabou. Porque a nitro tinha bastante, mandava muito para a americana, né? Onde é que tem assim, bastantes coisas, tecelagem têxtil, né? Eu fazia o tipo de massa, o tipo de massa da viscose já saía completamente colorido, não precisava tingir. Está entendendo? Então colocava o pigmento na própria viscose. 

 

P1 - Que baca. Não interferia na a qualidade do fio, então?

 

R - Não, o fio. Mas tinha a cor definida, né? Azul saía o azul, vermelho saía o vermelho, amarelo... E já saía o fio, o __________ em massa que se deu o nome.

 

P1 - Porque o Rayon foi a primeira coisa que parou de fabricar, né, senhor José? Fabricou um tempinho e depois logo parou, né?

 

R - É. Parando o Rayon, para quase tudo, né? Porque o Rayon depende do quê? Da celulose. A soda era comprada e ___________ ____________. Existia uma fábrica de soda, que foi parada, né? Entende? Parou. O que mais parou? A celulose fazia em folha. As máquinas que existiam para fazer as folhas da celulose, também eliminaram tudo. Já venderam aquilo lá, né?

 

P1 - Senhor José, e o meio ambiente, não se preocupava, né? Antigamente, no começo da fábrica, ninguém se preocupava com meio ambiente. Ou já se preocupava?

 

R - Se preocupava.

 

P1 - Já, desde o começo?

 

R - Se preocupava. Eu mesmo, posso dizer para você uma coisa, que tudo o que era tipo de ___________ __________, eu é que ia fazer análise.

 

P1 - Eu estou lhe provocando porque eu sei que o senhor cuidou do tratamento de água no NitroQuímica.

 

R - Eu fui responsável pelo tratamento de água. A água e a água dos amolecedor. Porque nessa água passava o amolecedor e o (espermotite?), entende? Eu fui o responsável químico pelo tratamento da água.

 

P1 - Então, a Nitro, antes de todo mundo falar nisso, ela já fazia, né? Já tinha esse cuidado com o meio ambiente.

 

R - Ah, cuidava. Inclusive, a mesma coisa quando fazia o cozimento de celulose, né, do linter. Porque, às vezes, colocavam um sabão com alta pressão e o que é que forma? Alta pressão no nitrogênio forma HNO3, NH3, que seria amônia. Então sai, na hora que saía, aquele cheiro de sabão, né? Amoníacado, que virava ____________ ______________. Onde é que __________? Eu mesmo, neste caso, não descobri essa parte aí. Fui com um aparelho de ____________ para puxar lá e ver quanto tinha e aconselhei um __________ a fazer aquilo lá, né? O ___________ era o químico _____________ o ____________. E aí desapareceu. Foi quando fizeram uma equipe para combater a poluição.

 

P1 - Que legal. Em que época isso? O senhor lembra, senhor José, em que época? Já estava o engenheiro Fábio _________?

 

R - Hein?

 

P1 - Já estava o engenheiro Fábio ____________?

 

R - Já estava.

 

P1 - Está bom. É só para a gente localizar.

 

R - O Fábio __________ não estava no tempo da soda - eu acho que no tempo da soda, ele não estava. Mas a fabricação de soda não foi plena.

 

P1 - Então o senhor cuidou disso, do tratamento de água. O que mais que o senhor cuidou?

 

R - Eu falei para vocês. O laboratório central.

 

P1 - Central de viscose?

 

R - Não, central e laboratório de viscose. São duas coisas. Tratamento de água.

 

P1 - De água, essa questão que o senhor falou da emissão de gases.

 

R - Não, aí já não é processo, é uma coisa que desprendeu.

 

P1 - Mas que o senhor é que tomou conta disso, o senhor foi responsável.

 

R - Não, eu fazia essas análises e comunicava. Eu não fui, não é feito. Onde é que se fazia, vamos supor, no tratamento de água, os amolecedores trocam, faziam as trocas dos cátions. E isso a gente sabia pelo sódio, entende? Então isso aí, você ia analisando porque ali eliminava a dureza, que é o carbonato que eu falei para _________, o cálcio e o magnésio. Tem um processo barato, em vez de __________ fazia com sabão, solução padrão de sabão. Se você pegasse 50 centímetros daquilo ali, agitava, certo? Agitava até formar espuma. Se, na bureta, gastasse mais de seis, de 0,6 centímetros, é sinal de que a água já estava dura. Está entendendo? Às vezes passava até um e então dava dura. E o que fazia? Parava aquele filtro, porque ela tinha três filtros - ela tinha dois ou três filtros. Fazia ____________ ali com os cloretos de sódio, mais ou menos 300 gramas por litro, entende? E nisso eu _________ e fazia a contra lavagem para não perder também a resina. Porque a resina que ________, era cara. Então saía. E depois que você lavava tudo aquilo ali, tornava a fazer o mesmo teste de análise. E fazia, quer dizer, é que nem a (lavadeira?), né? A lavadeira, quando a água está muito dura, que não espuma muito. “Puxa vida, esse sabão não presta.” Mas não é não. É que, às vezes, a água tem muito cálcio, e consome muito sabão, certo? Então é mais ou menos nesse tipo aí. Então aquilo ali é isso aí. Então fazia aquela análise ali, ____________ ensinar o operador, o operador fazia direitinho, entende? Não precisa ser _____________. Tinha operador dia e noite. Eles ___________ fazer aquilo lá, ia lá de meia em meia hora, fazia aquela análise com o vidrinho fechadinho. E tinha que esperar até aquela espuma. Se arrebentasse em menos de cinco minutos, é sinal de que o negócio está meio duro, entende?

 

P1 - Teve algum momento assim de crise, senhor José? 

 

R - Como assim crise?

 

P1 - Um momento de crise, que todo mundo ficou meio nervoso, alguma coisa assim ou não. 

 

R - Sempre teve um negócio quando começou o sindicato, né? É, aquelas greves, esse negócio, isso aí é normal. Mas logo normalizava tudo.

 

P1 - Está certo. Senhor José, e o senhor, tem filhos?

 

R - Tenho.

 

P1 - Quantos filhos tem?

 

R - Tenho dois filhos e uma filha.

 

P1 - E o que é que eles fazem?

 

R - O mais velho, formado pela São Francisco, na USP, hoje ele é conselheiro da OAB do Estado de São Paulo e subsecretário geral da OAB. E também faz parte da ética do partido PPS. 

 

P1 - Olha só.

 

R - E ele é formado na São Francisco.

 

P1 - Que legal senhor José.

 

R - E meus netos, só uma é que fez educação física na Universidade lá. O resto é tudo advogado, entende?

 

P1 - Nenhum foi químico?

 

R - Nenhum. Até que eu guardei bastante coisa, bastante, tenho uma caixa de métodos de análise, tudo isso aí. E eu fico, quando tiver uma pessoa eu vou dar, né? Porque quem sabe, né? Aí nenhum deles. A minha neta, que é filha desse aí, também é formada na São Francisco. Formou ano retrasado. Minha filha é advogada, fez um mestrado na PUC, né, e é casada. Eu tenho seis netos.

 

P1 - São grande então?

 

R - Ah, são. O meu filho, sabe quantos anos o meu filho tem? O meu filho mais velho? 61 anos. Ele nasceu em 44 [e] eu casei em 43, está entendendo?

 

P1 - E a sua esposa, como é que ela chama?

 

R - Albertina de Macedo.

 

P1 - E ela está viva?

 

R - Está viva.

 

P1 - Que bom. Então vocês estão casados a muitos anos.

 

R - Já passei dos 60, 61 anos. É duro, hein?

 

P1 - É. Qual é o segredo? 

 

R - O segredo não sei. Você vai levando e não vai fazendo conta de nada. Se fizer conta, você está roubado, né?

 

P1 - Senhor José e, assim, a Votorantim? O senhor acompanhou esse crescimento do Grupo Votorantim? 

 

R - Olha, não é que eu acompanhei. O Grupo Votorantim, eu fui em quase todas as fábricas, entende? Fui na CIBE, fazer análise [de] soda ou de alumínio lá. Sendo que a ___________ construiu até uma vila de casas, eu me lembro disso aí. Foi na Votocel, se não me engano, na [parte da] Votorantim que faz papel celofane. E está fazendo também uma parte para fazer aquela parte de cigarros, né? 

 

P1 - Do celofane, né?

 

R - Além disso, eu fui onde é que fazia o (filco?), né? Levava no (filco?) na firma e levava isso aí, né?

 

P1 - Que grande lição o senhor tirou nesse período de trabalho na ___________?

 

R - A grande lição foi que quanto mais você mexer com a cabeça, mais você vive. Entende?

 

P1 - Com certeza.

 

R - E outra coisa, fazer aquilo com amor e carinho. Não adianta nada você fazer uma coisa que não tem amor aquilo ali. Então não sai nada perfeito, né? Esse é o segredo da ____________. Eu estou com 84 anos, quer dizer, eu vou indo e vamos ver até onde vai chegar. Está entendendo? Mas eu pratiquei muito esporte, né?

 

P1 - Jogou futebol, é isso?

 

R - Joguei futebol.

 

P1 - Profissional?

 

R - Joguei futebol, corrida. Fazia corrida dentro do ___________. A primeira corrida que saiu, de _________ ________ _________, eu sei que não está registrado no clube, eu era, isso foi, faz muito anos. Eu peguei em terceiro lugar na _________. Em terceiro lugar na corrida. Mas eu fui presidente e diretor do clube durante, mais ou menos, mais de 20 anos.

 

P1 - Do clube na Nitro?

 

R - Do clube da Nitro. Como __________ da NitroQuímica. Nós fomos campeões amadores do Estado de São Paulo.

 

P1 - Como é que era o clube? Era bacana? Tinha bastante coisa?

 

R - Olha, tudo o que está lá, que já está lá passou pela minha mão. Nós temos a arquibancada, onde é que nós jogamos com o Corinthians, como Santos, porque o Pelé não tinha ido ainda para a coisa. ____________ marcou sete gols. Porque nós estávamos muito convencidos, nós éramos campeões amadores do Estado e nós ganhamos do Jabaquara. Naquele tempo, era o Jabaquara, certo? E hoje é o cozinheiro (santita?).

 

P1 - Não, ainda é Jabaquara. Ainda tem.

 

R - Tem? Então, nós ganhamos do Jabaquara, qualquer tempo, de quatro a três. Então nós ficamos importantes, entusiasmados com o negócio, né? Ganhamos do Corinthians por dois a um, tá? E nós fomos buscar ____________ 80 mil cruzeiros. Eu não sei mais esse negócio de ______________. E veio o Pelé no meio, entrou no segundo tempo. Nós aguentamos até o primeiro tempo, depois foi de 10 a três - uma coisa de louco, entende?

 

P1 - Esse jogo foi contra o Santos, é isso?

 

R - Contra o Santos. Nós fomos buscar o Santos agora. Nós tínhamos ônibus para o clube, arrumamos um ônibus para o clube. Eu fiz um balneário, onde que ____________ a fotografia, está o Dr. Ermírio de Moraes. Ele foi na inauguração do balneário. No balneário, nós tínhamos piscina semiolímpica, né, e também processo de natação onde que ainda tinha __________ saltos ornamentais. E tinha a piscina média, e a piscina pequena para as crianças. E aí eu fiz um balneário partindo de 60 centímetros de fundura até 1,60 metro. No meio, fechada, né? Fazia isso e fechava assim. Eu pus uma corda porque ali ____________, 1 metro de altura para a turma não passar lá.

 

P1 - E tinha bastante festa o clube, né? Senhor José?

 

R - Olha, festa tinha todo domingo... No clube, entravam, mais ou menos, mais de 2000 pessoas. Porque a praça de esportes era um salão de madeira onde é que tinha aquelas mulheres cantando, tocando, né? Ali a firma entrava, né? O governo pagava - a gente não pagava. Porque era para chamar ________ os homens, né? E eles construíram. Aliás, tinha muita modalidade. No futebol, nós tínhamos o dente de leite, o Júnio. O público, nós colocamos refletores para jogar à noite [e] tem arquibancada, nós temos arquibancada até hoje.

 

P1 - Isso era só com os funcionários ou a empresa também ajudava?

 

R - A Nitro ajudou muito, viu? O balneário não, o balneário esse tenho certeza porque esse aqui eu fiz com o dinheiro do clube, o balneário. Mas ela conhecia a água, né, sempre deu esse apoio. Mas nós tínhamos modalidades: voleibol feminino, vôlei masculino, basquetebol, futebol de salão, bocha, malha, entende? Natação, eu tenho tudo isso aí. Mas ela __________ aqui passando pela primeira divisão de atletismo. 

 

P1 - Tinham, assim, tipo, escolinhas dessas modalidades? Tinham professores, técnicos?

 

R - Tinha. Tinha técnico.

 

P1 - Gisele, mais alguma coisa? Não? Senhor José, o que é que o senhor acha desse projeto Memória Votorantim?

 

R - Para mim, eu acho que é uma boa. Para a companhia, para os netos dos netos dos netos deles saberem o que é que a Votorantim fez, né? Eu acho que é bom.

 

P1 - E o que é que o senhor achou de ter dado a entrevista?

 

R - Eu estou achando bom, não tem problema nenhum. Eu estou contando uma história, não estou contando tudo o que eu sei.

 

P1 - Pois é, né? Deveria contar.

 

R - Eu não conto porque tem muita coisa que eu não posso contar. Não quero pôr esse negócio aí porque eu sei que os outros também não contaram. E então eu não vou pôr. 

 

P1 - Tá bom, senhor José. Faltou perguntar alguma coisa que o senhor queira falar?

 

R - Não, eu não quero falar nada. Eu estou à disposição de vocês. Tudo o que você quiser fazer, que só aviso o seguinte. (Amico?) começou fabricando primeiro a seda artificial, partindo do _________ que seria álcool dissolvido em álcool e éter. Quando eu tive na _________, isso aí não interessa muito esse negócio aí, porque era para __________. Era viscose era feita com a celulose em folha já. Não era nitrada, né? A primeira era nitrada. Fazia análise de ____________ nítrico, né? Fazia a mistura de suco nítrico e nitrada. Essa não, essa pegava a folha. O próprio linter que fazia a mesma coisa. Fazia também para nitrocelulose. Uma parte fazia para nitrocelulose. O que veio depois em um processo que fizeram agora, que a celulose está vindo, se não me engano do Canadá. Eu não tenho nem certeza, viu? Ouviu falar que uma celulose do Canadá. Uma celulose bem branquinha e ______________. E eu sei que está, diz que está dando muito lucro essa nitrocelulose. Porque só tem ela, né? A __________ não faz isso aí, a ___________- faz algodão pólvora. Antes fazia também o algodão pólvora. E fazia também o algodão colorido, que o fator de nitrogênio era 11%, né?

 

P1 - Obrigada senhor José pela entrevista.

 

R – E a fotografia, está bonita ou não?

 

[Fim do depoimento]

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