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História

Vida curiosa, gratificante, de saudades e riscos

História de: Jorge Alberto Paim Silva
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Apresentação. Ingresso na Petrobras. Mudança de cargo. Troca de local de trabalho. Da terra firme para a embarcação. Histórias vividas durante o expediente. Experiência como sindicalista. Lutas sindicais. Futuro.

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História completa

Projeto Memória Petrobrás 

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Jorge Paim

Entrevistado por Eliana Santos

Garoupa, 26 de janeiro de 2005 

Código: Petro_CAB007_UNBC

Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha

 Revisado por Igor Gabriel de Sousa Galindo

 

P – Boa tarde.


R – Boa tarde. 


P – Eu gostaria de começar pedindo que o senhor nos fale o seu nome completo, local e data de nascimento. 


R – Meu nome é Jorge Alberto Paim Silva. Nasci em Salvador, Bahia, dia 3 de julho de 1956.


P – Jorge, conta pra gente um pouquinho como foi o seu ingresso na Petrobrás e quando isso aconteceu. 


R – Bem, eu entrei na Petrobras, fiz o concurso em 1982. Entrei em 1986. Antes já trabalhava em empreiteira como eletricista. E durante o meu trabalho em empreiteira eu fiz o concurso da Petrobras. No ano de 1986 ela me chamou, no início do ano. E quando foi 4 de agosto eu entrei definitivo. Entrei como auxiliar de apoio, fiz concurso interno e passei para eletricista.


P – E quais foram, assim, os locais que o senhor trabalhou?


R – Eu trabalhei na RPBA [Região de Produção de Petróleo da Bahia], na Bahia, logo no início como auxiliar de apoio. Depois passei, na Bahia mesmo, fiz concurso interno, passei para o SEMAN, Setor de Manutenção, como eletricista também. Depois então achei uma vaga aqui. Um companheiro me deu uma ideia de vir para a Bacia de Campos, pois lá eu trabalhava no administrativo. Aí eu querendo melhorar um pouco, passei pra Bacia de Campos. Arrumei uma vaga e vim aqui. Iniciei na P22, plataforma semi-submersível. Inclusive essa plataforma hoje se acabou já, o período dela de vida acabou. Então me transferiram aqui pra Garoupa. 


P – Então o senhor veio para Bacia de Campos quando?


R – Vim em 1997. 


P – 1997. O senhor foi pra P22?


R – Direto pra P22. 


P – E depois o senhor foi transferido pra cá?


R – É. Quando a P22 começou a desmobilizar, a ser desativada, aí me transferiram pra aqui, que faço parte também do Grupo Nordeste. 


P – Conta pra gente, assim, como que é o trabalho de vocês e essa vida embarcado. Como que é a sua atividade? Hoje o senhor está em qual setor?


R – Bem, eu cheguei na Bacia de Campos como eletricista, hoje sou eletricista especializado. É uma vida gostosa, curiosa, gratificante, de saudade, de risco. Mas é um risco, como se diz, é um risco que tem uma certa proteção. A gente sabe onde pode, onde não pode mexer, onde pode e não pode fazer. Sempre estamos sendo fiscalizados para não cometer nenhuma falha. E o pior de tudo é só a saudade, porque às vezes, durante 14 dias, bate. Mas a gente sabe que, quando chega, o carinho, o amor é bem maior. 


P – E você está morando onde hoje?


R – Bahia, continuo morando na Bahia. 


P – Continua na Bahia. E aí o senhor volta pra lá. 


R – Volto todo mês. Tiro os meus 14 dias aqui, volto folgando 21 dias. Quando chega os 15 dias, 18 dias, já está na vontade de novo de voltar pra trabalhar. Acostumou, né?


P – E como que o senhor viu essa sua transferência de lá, de estar em uma unidade em terra? Como que o senhor viu esse momento de estar vindo para ser embarcado?


R – Eu, foi uma opção que eu tive pra tentar melhorar. Depois, em terra é administrativo. Lógico que a remuneração é menor. Então, eu querendo melhorar, tentar ter oportunidades, o pessoal sempre falava que na bacia estava iniciando, as oportunidades eram bem maiores. Então achei  por bem ser transferido aqui para a Bacia. E realmente eu melhorei bastante. Ainda estou realizando alguns sonhos, e tenho muitos mais sonhos aí pela frente. Consegui realizar alguns já, graças a Deus. E vim conseguir esses sonhos depois que eu fui transferido para a Bacia. 


P – Então conta pra gente assim, já que o senhor falou dos seus sonhos, qual a lembrança que o senhor tem de uma história marcante, uma história engraçada, não sei, que o senhor tenha vivido aqui na Bacia de Campos, que o senhor queira contar pra gente. 


R – Ah, vida de embarcado as histórias são muitas. 


P – Então conta aí uma pra gente. 


R – Tem histórias tristes, histórias alegres. Histórias tristes, eu já vi, por exemplo, embarcado na 22, barco de pesca naufragar. Está atracado na plataforma, naufragar. Engraçado,  nós conseguimos salvar todos os cinco, que era a tripulação do barco de pesca. À tarde já, chegando à noite, eles perderam máquina e foram encostar na plataforma, e terminou colidindo. Aí bateram na plataforma e começou a naufragar. Conseguimos, o barco sem colete e sem salva vida, as boias salva vida, sem nada. Conseguimos jogar colete, boias, com a ajuda do mestre de cabotagem, do segurança, não sei, da tripulação da plataforma. Através de escada de fuga, de guindaste, conseguimos pegar todos os náufragos e salvamos esse pessoal. Graças a Deus, hoje agradeço. De vez em quando telefonam agradecendo. Sempre lembram da gente. 


P – E é comum ter muito desses barcos _______?


R – Não. Barcos tem muito, mas pra naufragar é difícil. 


P – Mais próximo à plataforma assim, tem?


R – Já ocorreu também colidir barco de, esses barcos de carga, cargueiro que sempre trás materiais pras plataformas. Um deles, a noite, colidiu na plataforma também, uma das colunas da plataforma. Inclusive eu estava até tomando banho, ensaboado, caí sentado no banheiro sem saber o que é que estava ocorrendo. O alarme tocou. O pessoal corre. Eu só fui botar o colete, do jeito que eu estava saí do banheiro, meio que só. O pessoal: “Volta, rapaz, bota calça, bota uma toalha”. Eu só lembrei de botar o colete salva vidas e saí do banheiro correndo. Aí consegui colocar a calça. Cheguei lá embaixo eles estavam tentando, como se diz, se soltar da coluna, que ficou agarrado na coluna. E realmente foi um risco, porque se ele consegue, a trajetória dele, o comandante conseguiu tirar, a trajetória ia colidir direto  nas linhas de produção e de gás. Certamente iria afundar a plataforma e barco junto. Mas graças a Deus só fez mesmo colidir na coluna. Amassou bastante, mas ele saiu depois. 


P – Isso aconteceu na P?


R – Na 22 também. Quer dizer, foi triste pela coisa. Foi engraçado pela maneira como o pessoal, foi no horário que o pessoal está tudo dentro do banheiro tomando banho. E a maioria sair correndo sem roupa sem nada. Depois,  rapaz, já pensou cair nessa água gelada aí, sem roupa sem nada. Mas tem também a triste notícia do nosso companheiro da 36, que perdeu alguns companheiros que eu trabalhei junto na Bahia. Foi triste também. Ficamos naquela expectativa se recuperava a 36, se não recuperava. Terminou, infelizmente, não recuperando. E algumas alegres também. Voo do pessoal, achar que o helicóptero, o temporal está ruim, está perdido, e o comandante chegar em tempo, “Não, está tudo sobre controle.Vocês é que estavam nervosos. Estava tudo controlado alí em cima”. Futebol, muito bom aqui na plataforma. Algumas coisas engraçadas da gente pegar o pessoal mais idoso pra jogar bola, eles achar que ainda é jogador, aquele negócio. A gente coloca ali pra jogar, pra ver. E realmente eles não aguentam. A gente começa a encarnar um no outro. Mas é gostoso a vida aqui em cima. 


P – E aí, mudando um pouquinho de assunto, você é sindicalizado?


R – Sindicalizado. 


P – Já ocupou algum cargo ou ocupa no sindicato?


R – Já fui delegado sindical. 


P – Isso quando, Sr. Jorge?


R – Se não me falha a memória, em 1990. 


P – Conta pra gente, assim, um pouquinho desse momento que o senhor participou enquanto delegado sindical. Quais foram as conquistas que o senhor lembra desses movimentos. 


R – Nessa época de 1986, 1987, era um pouco conturbada essa época. Normalmente se lutava muito por estarmos perdendo algumas conquistas nossas de muito tempo. No passado estamos perdendo também. Continua perdendo, continuamos a perder. Nós lutávamos muito. Hoje até que caiu um pouco o movimento, mas naquela época o movimento era mais forte. Também o número de funcionários era bem maior. Se não me falha, tínhamos 60 e poucos mil funcionários. Hoje, se não me engano, não chega a 40 mil. Então o movimento era bem forte na época da Bahia. Lutávamos por nossos direitos. Cheguei até Brasília, tentar invadir o congresso na época do Fora Collor. Normalmente todo ano, em setembro, sempre havia movimento, piquetes, para tentar. Se, acho que fosse hoje, com o presidente que nós temos, acho que não precisaria nada disso. Mas, infelizmente, foi uma época meio conturbada. Eu não gosto muito de lembrar essa época porque, sei lá, ainda existe muita gente que ainda tem rixa da gente que lutava muito, principalmente dentro de Petrobras. Aliás, toda empresa estatal. 


P – E o senhor tem alguma outra recordação de algum movimento que tenha marcado pro senhor, da época desses movimentos sindicais?


R – O mais forte foi o Fora Collor, que os sindicatos se mobilizaram muito, tanto que chegamos a na época na Bahia, sair com vários ônibus com destino a Brasília. Conseguimos invadir o congresso. Ali foi como se fosse uma guerra mesmo, a gente, confronto com polícia, soltou cachorro em cima da gente, aquela agonia toda. Turma, muita gente foi parar no hospital de base. E o congresso cheio de parlamentar, mas quando você decidiu invadir chegou lá dentro não tinha mais nenhum. Sumiram tudo, ninguém sabe por onde. E também na época, teve uma época forte, uma greve de 32 dias, 30 dias se não me engano, que chegaram a botar o exército dentro das unidades da Petrobras. Também essa foi marcante. A gente às vezes saía pela porta, encontrávamos soldado com fuzil na mão. 


P – O senhor acha que a relação do sindicato com a Petrobras mudou nesse tempo que o senhor vem trabalhando na empresa?


R – Mudou, mudou muito. A Petrobras abriu mais o diálogo, negocia mais. Naquela época não existia essa conversa toda que hoje existe, de sentar, negociar, barganhar. O sindicato quer uma coisa, a Petrobras quer outra. Vai se chegando a um acordo até fechar normalmente, todo setembro, nosso acordo. Graças a Deus hoje não se precisa fazer movimentos tão radicais como naquela época. 


P – E o senhor continua participando hoje?


R – Hoje bem menos, porque também diminuiu bastante, principalmente depois do Governo Lula. A Petrobras ficou mais aberta ao diálogo, passou a negociar, passou a, como se diz assim, ser mais solidária aos funcionários. Eu creio que nos ajuda bem mais também. Não é ainda aquela Petrobras que todos nós sonhamos e que sonhávamos também na época, que, por exemplo, foi quando eu entrei também, ____. Mas tem melhorado bastante mesmo. E é sonho melhorar e chegar realmente a hoje dizer assim: “Poxa, hoje eu trabalho Petrobras”. Hoje eu digo: “Trabalho na Petrobras e tenho certeza que o meu filho, o filho do meu filho vai entrar e encontrar a maior empresa do mundo”, que é o sonho nosso também. Então a Petrobras fica ali entre as primeiras do mundo. Primeira que eu falo não é a décima, a oitava, não. Ser a primeira, a segunda ali. Tem tudo pra ser. 


P – É verdade. Seu Jorge, infelizmente a gente vai ter que acabar a entrevista. Eu queria saber o quê que o senhor acha do Projeto Memória Petrobras e o quê que o senhor acha de ter participado contribuindo com o seu depoimento.


R – O Projeto Petrobras é interessante, necessário, ficar sempre aí gravado para todo o pessoal que vai chegar pela frente sempre ter essas lembranças. Até pra nós mesmos, amanhã aposentado, sempre estarmos lembrando de nosso passado aqui dentro, de nossas lutas, nossas tristezas, nossas alegrias. E ficar aí. O pessoal novo que está entrando saber quem foi o início da Petrobras, o início da Bacia de Campos, principalmente, que hoje é a que mais produz. É isso. Fica gravado. É muito importante. 


P – Bom, obrigada. E agradeço muito pela entrevista. 


R – Eu é que agradeço a vocês também por ficar na memória aí também da Petrobrás. 


P – Obrigada. 

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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