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VIAJE COM AQUARELAS: Memórias de mergulho em Abrolhos, Bahia

História de: Jacky Castilho
Autor: Jacky Castilho
Publicado em: 09/03/2020

Sinopse

Sempre tive curiosidade de conhecer a História e a Geografia, que nos foi ensinada na escola, de fato. E junto com a predileção por lugares com natureza, surgiu a vontade de conhecer os Parques Nacionais Brasileiros. Viagens que fazem parte do projeto de uma vida. Senão todos, pelo menos alguns que estão de acordo com nossos recursos. Desde o final da década de 1990, tivemos o prazer de conhecer: Abrolhos, Pantanal, Monte Pascoal, Canastra, Caparaó e Araguaia, até o momento. Mas conhecer os parques, viajando sozinha ou compartilhando a aventura com a minha família e com amigos, ainda é muito pouco. Embora apresentem belezas naturais exuberantes, necessitam de tantos recursos para sua continuidade e preservação, que dar visibilidade a eles por meio de aventuras postadas aqui no Museu da Pessoa, podem contribuir com sua proteção. As aquarelas surgiram da tentativa de captar a magia que vem com a água local e que nenhuma máquina fotográfica ou celular conseguem exprimir. Assim o projeto de vida "Viaje com as Aquarelas pelos Parques Nacionais Brasileiros" tornaram-se mais que excursões, transformaram-se em viagens de autoconhecimento.

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História completa

Tudo começou quando tinha treze anos, durante as férias escolares de Julho, a professora de Português passou uma tarefa maçante: ler um livro de interesse e fazer uma interpretação sobre a obra, com análise do que chamou mais atenção na leitura; para quando retornássemos às aulas pudéssemos discutir em grupo. Foi aí que acabei conhecendo o escritor e aventureiro Bernard Gorsky e suas obras: “A FANTÁSTICA BARREIRA DE CORAL AUSTRALIANA” e “EXPEDIÇÃO MOANA”. Fiquei completamente apaixonada, pelas histórias, fotos, lugares e animais marinhos. E como Gorsky, que também foi inspirado pelo biólogo americano Willian Beebe, a propósito dos fundos submarinos tropicais – jurei solenemente para mim mesma que: “antes de morrer, arranjarei para construir, emprestar ou fazer voar um aparelho qualquer, que (me) permita descobrir este mundo novo...” – palavras de Beebe.

 

Mas sonhos, um por um céleres voam... As escolhas, os caminhos e as descobertas cada uma à seu próprio tempo, acabam levando os sonhos às vezes para um futuro incerto...(Fig. 1).

 

Passaram-se 19 anos. Era janeiro de 1997 e minha família e eu estávamos viajando pelo Sul da Bahia, inclusive para Alcobaça, e quem sabe Abrolhos... Abrolhos, desde 1983, é o primeiro Parque Nacional Marinho do Brasil, berçário de inúmeras espécies aquáticas e aéreas tipicamente brasileiras. Composto por cinco ilhas vulcânicas nomeadas de: Redonda, Siriba, Sueste, Guarita e Santa Bárbara, e por parcéis de coral, intitulados Chapeirões. As quatro primeiras ilhas são protegidas pelo IBAMA, e a quinta pela Marinha, onde existe uma guarnição. Além de ser ponto estratégico de segurança territorial brasileira, em Abrolhos existem os corais. Por conta deles, desde 1861, funciona um farol, construído durante o governo de D. Pedro II, garantindo a segurança de navegação. Apesar da abundância aquática, as ilhas são basicamente de pedras, com vegetação rasteira e grama e não existem fontes de água como conhecemos. A água é proveniente das chuvas, captada através de calhas nos telhados das casas da Marinha e acumuladas em cacimbas no subsolo. Quando a chuva é escassa, e a coisa aperta, a Marinha socorre os habitantes das ilhas. Todavia, o mais interessante e importante é que durante os meses de Julho à Novembro, por milhares de anos, as baleias Jubarte, conhecidas como baleias cantoras, corcundas ou pretas migram do Polo sul – Antártida para Abrolhos, procurando as águas quentes e acolhedoras para sua procriação. Com temperamento dócil, acrobacias como saltos, exposição das nadadeiras e canto, a dança das Jubartes é um show a parte. Todas as atividades que remetem à aproximação de baleias ou ao mergulho dentro do Parque são monitoradas pelo IBAMA. O desembarque para visita somente é permitido em uma ilha definida, pois existe um processo de controle ambiental que estuda o impacto do homem naquele habitat.

Era primeiro de fevereiro de 1997, saímos do Porto de Alcobaça por volta das 10:00 da manhã e às 15:00 avistávamos a ilha de Santa Bárbara, pertencente a Marinha.

 

O primeiro mergulho a gente nunca esquece...

Às 16:52 foi iniciado o primeiro mergulho, no qual o objetivo era descer acompanhando a corrente da âncora, à 4 e 6 metros de profundidade, nos corais próximos a ilha. Não posso negar que estava meio com medo e ansiosa, mas dentro de mim tinha a certeza, que se acontecesse qualquer coisa estaria feliz, pois era o começo da realização do meu sonho de adolescente; aliás, me sentia como uma. Neste primeiro mergulho, meu ouvido deu um pouco de trabalho por causa da pressão que a água exerce. Uma coisa é o treinamento em piscinas, o outro é no mar... mas o instrutor Truba, como amigavelmente nós o chamávamos, deu algumas dicas para melhorar a equalização. A sensação é próxima àquela que sentimos quando estamos dentro de um avião, porém na água a dor é muito mais forte. Descemos bem devagar, e me senti como que dentro de um grande aquário. Havia corais de fogo vermelhos, corais cérebros, tartarugas-caretas, raias, moréias, peixes-papagaios, budiões azuis, cavalas, ciliares, olhetes, peruás, olhos de boi, olhos de cão, guaiúbas, dentões, cofrinhos, salemas, canterines, badejos, peixes-borboletas, azulões e uma variedade de algas, enfim distrações para todos os lados, além dos esbarrões do “meu dupla de mergulho”, Bernardo. Em um primeiro mergulho, as roupas, as nadadeiras, o cilindro, a visão limítrofe da máscara, a ausência de domínio da flutuação e o medo e a ansiedade transformam-nos em seres estranhos e um tanto estabanados. Eram tantos peixes e esbarrões, que acabei também, tocando em algo que supunha ser o Bernardo; quando de repente... um peixe assustado, do tamanho de um prato redondo de bolo de aniversário surge do nada azul (Figs. 2 e 3). Susto maior o meu, que ao invés do Bernardo, havia esbarrado num peixe-frade mansinho, tão bonito quanto dócil, que mesmo depois dos esbarrões, acabou por nos acompanhar durante todo aquele primeiro mergulho. Na volta à superfície, despedi-me do meu amigo do fundo do mar. Eram 17:23. Todos ríamos à toa, havia sido muito emocionante! (Figs. 4 e 5).

 

O primeiro noturno

Dia 02 de fevereiro do mesmo ano, já havíamos feito outros mergulhos neste dia. Relevante apontar os horários com precisão, pois são eles que determinam quando será ou não, o próximo mergulho. A contagem correta dos minutos relaciona-se com o tempo de descanso necessário para uma nova incursão. Nossa turma resumia-se agora apenas aos entusiastas: Bernardo e eu.

Eram 19:49, noite fechada, tudo preto. Cada um ganhou uma lanterna, pois íamos fazer um discover... Saímos do barco num inflável, caímos na água e vestimos os coletes do jeito que podíamos, na mais completa escuridão. O mais engraçado é que não estava com medo. Na minha ignorância achava que só poderia acender a lanterna numa emergência: teria que mergulhar com a lanterna apagada. Mas incomodado, Bernardo, submerso como eu, tomou minha lanterna, acendeu-a e devolveu-me. Meu cinto com lastros não estava apropriado para a roupa, de modo que não conseguia afundar. Truba colocou mais peso em meus bolsos e com um puxão, fui para baixo e consegui ficar neutra. Todas as lanternas finalmente foram acessas e um mundo de cores e formas apareceu ao nosso redor. Muitos peixes estavam imóveis, como os papagaios, outros dormindo quase desfalecidos, e outros de hábitos noturnos como os peixes-morcegos planavam quando incomodados pelas luzes ou por nossos movimentos. Delicados tunicados abriam seus leques em busca de zooplâncton; camarões parecendo aranhas eram da turma da manutenção do fundo do mar e faziam uma faxina noturna na areia; peixinhos mínimos beliscavam nossas mãos, atraídos pelas luzes das lanternas, como pequeninos pernilongos aquáticos.

De repente, Bernardo me puxa para ver uma tartaruga dormindo, e eu por conta do lastro vou de encontro à superfície, como “uma coisa” desgovernada. De volta à superfície e mais apropriada do meu descontrole aquático; conforme o combinado, sinalizo para eles, que sobem e novamente me ajudam a descer. Continuamos mergulhando: as cores do coral fogo, que de dia são pálidas e esmaecidas ficam vibrantes à noite. O coral que de dia é um vermelho stone washed, à noite se veste com a cor de uma Ferrari. E, fora do faixo de luz, cruzando limiar luz e escuridão, uma coisa prateada, uma coisa grande prateada...(bem maior do que nós)...nada próximo. Só no dia seguinte, Truba nos revela ser uma barracuda.

Ao chegarmos próximos à escuna nadando, tomamos um fôlego. Voltamos boiando tranquilamente sobre os cilindros vazios, olhando no escuro a imensidão.... Nesse momento, Bernardo sai com a pérola: - O céu de Abrolhos é uma farofa de estrelas!

 

Naufrágio

O mergulho em naufrágio é um curso de especialidade da Padi (Instituição mundial que forma mergulhadores), ou seja, é uma continuidade para quem já fez curso básico e avançado. Os barcos de naufrágios possuem frestas e escotilhas que nos convidam a entrar. Entretanto, fazer um naufrágio sem conhecer as técnicas de penetração é se colocar em uma situação extremamente arriscada. Você pode perder sua direção; pode haver desmoronamento; pode ficar sem ar por algum problema e terá que sair do barco antes de subir para a superfície. Também pode ficar entalado em passagens estreitas; podem cair objetos atrás de você ou o mergulhador a sua frente pode turvar a água ao bater com um pouco mais de vigor as pernas, o que compromete a visibilidade que já é precária, tanto pela suspensão de sólidos no interior do barco como a ocasionada por alguma revolução no fundo de areia. Além disso, como o naufrágio atrai peixes, também se torna ponto de pesca, nem sempre com arpão, mas com redes. Essas podem causar o emalhamento nos mergulhadores, que siginifica ficar preso em fios, cabos, nylons partidos, redes velhas, sem possibilidade de retorno a superfície. Um naufrágio é loca para moréias, entre outros animais agressivos; além de que, formam-se correntes de água entre as passagens estreitas (por exemplo, escotilhas) ou mesmo pelos corredores do barco submerso, podendo o mergulhador ser sugado ou expelido. Ter consciência dos riscos nesse tipo de mergulho e saber como proceder frente ao perigo é fundamental.

De 1997 a Janeiro de 1999, muitas águas rolaram. Para mim a possibilidade de mergulhar dentro de um naufrágio foi num primeiro momento aterrorizante. Somente em pensar no meu corpo passando pelos ferros oxidados de uma câmera para outra, levantando um tanto de matéria orgânica do fundo com risco de tétano e tifo, passando por estruturas instáveis, correndo o risco de bater a cabeça seriamente num dos canos enferrujados, já que a minha flutuabilidade não é muito controlada; causava-me calafrios. Além do mais, havia o risco de se perder lá dentro!

Mas esse pessimismo todo evaporou como mágica, assim que entramos na água, com um cação grandinho e tudo. “Mergulhar em Abrolhos e não visitar o naufrágio do Rosalina é como ir a Roma e não ver o Papa”. Carregado de vinhos e sacos de cimento, atualmente endurecidos pelo tempo; o Rosalina é um cargueiro de 70 metros de comprimento de origem italiana, que naufragou em 1939, nas águas de Abrolhos. Para o motivo do naufrágio, muitas lendas são contadas. Uns acreditam que o Rosalina faz parte da lista de vários barcos torpedeados pelos alemães durante a Segunda Grande Guerra, outros contam que foram os próprios americanos que bombardearam a navegação para que o Brasil também entrasse na guerra, e uma outra versão é de que o Rosalina foi à pique ao chocar-se contra os Chapeirões – recifes gigantescos de corais comuns naquelas águas, partindo-se ao meio. O Mergulho em Naufrágio é muito excitante. Pelo excesso de adrenalina e ausência de treino, muitos mergulhadores, que visitam os naufrágios acabam por acelerar violentamente o processo de decomposição natural da embarcação. Um naufrágio, não é um apenas um acidente com vítimas, mas um desastre que a natureza conseguiu reciclar na forma de vida (Fig. 6).

 

Excursões na natureza e incursões na alma

Ano de 2020, embora façam mais de vinte anos, essas memórias estão vívidas no meu consciente. Os mergulhos, a companhia de Bernardo, as sensações que foram despertadas pelo esporte, mesmo que recreacional, tornaram-me uma pessoa diferente. Quando entro na água, é como se estivesse no meu ambiente, e não importa se essa água é de rio, lagoa, mar ou mesmo da piscina. Sinto-me pertencente. Minhas fotografias tiradas nos momentos de mergulho e as aquarelas produzidas de memória, algumas delas logo após as aventuras e muitas vezes com a água do mar, são capazes de remeter a muito mais do que saudades de um tempo bom.

Nesse sentido, embora tenha ido mergulhar em outros lugares, nenhum deles se comparou a essas primeiras incursões. A força, a coragem, a determinação, a disciplina, o companheirismo, o silêncio interior, o controle da respiração, do medo, são forjados pelo prazer de mergulhar, e isso é algo que se impregna em nossa alma e possibilita que nos conheçamos profundamente em situações de extremo.

Considero esta minha primeira aventura pelos Parques Nacionais Brasileiros, as outras... ah! Estas serão contadas aos poucos....

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