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VIAJE COM AQUARELAS: o Pantanal é lindo!!!

História de: Jacky Castilho
Autor: Jacky Castilho
Publicado em: 22/04/2020

Sinopse

Sempre tive curiosidade de conhecer a História e a Geografia, que nos foi ensinada na escola, de fato. E junto com a predileção por lugares com natureza, surgiu a vontade de conhecer os Parques Nacionais Brasileiros. Viagens que fazem parte do projeto de uma vida. Senão todos, pelo menos alguns que estão de acordo com nossos recursos. Desde o final da década de 1990, tivemos o prazer de conhecer: Abrolhos, Pantanal, Monte Pascoal, Canastra, Caparaó e Araguaia, até o momento. Mas conhecer os parques, viajando sozinha ou compartilhando a aventura com a minha família e com amigos, ainda é muito pouco. Embora apresentem belezas naturais exuberantes, necessitam de tantos recursos para sua continuidade e preservação, que dar visibilidade a eles por meio de aventuras postadas aqui no Museu da Pessoa, podem contribuir com sua proteção. As aquarelas surgiram da tentativa de captar a magia que vem com a água local e que nenhuma máquina fotográfica ou celular conseguem exprimir. Assim o projeto de vida "Viaje com as Aquarelas pelos Parques Nacionais Brasileiros" tornaram-se mais que excursões, transformaram-se em viagens de autoconhecimento.

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História completa

Era um velho sonho, desses de vídeos e globos repórteres... A oportunidade apareceu e lá fomos nós! A excursão familiar ocorreu entre os dias 2 e 6 de julho de 1997. Partimos de Ribeirão Preto (SP) e após dois dias de viagem vimos no percurso pela Transpantaneira, aguapés, jacarés camuflados e tuiuiús, símbolo da região ...Qual o espanto pelo seu tamanho e envergadura das asas, que na minha ignorância acreditava que não voassem! Sem contar os biguás, os maguaris, as emas e os bandos de capivaras.Fiquei imaginando como seria aquela estrada à noite, fagocitada por buracos e pelo desolo, já que não havia muitos pontos de parada, e pelo longo vargedo de viva alma. O cenário poderia fazer parte de um roteiro de filme de terror; mas, era dia. O céu apresentava-se com um azul maravilhoso,não havia uma nuvem sequer, e a cidade de Corumbá aproximava-se.Um município do Estado do Mato Grosso do Sul, fronteira com a Bolívia, e ao seu lado: água, água e mais água. As águas do Pantanal da porção brasileira. E mesmo neste cenário urbano, o mais espantoso é que jacarés e pescadores convivem nos aguapés da cidade.Chegando à marina, procuramos o barco Cabote, casa + bote, e depois das apresentações e permissão para embarcar, no final da tarde começamos a subir lenta e tranquilamente o Rio São Lourenço, embalados pelas histórias de mestre Sadi, o capitão.

 

Primeiro dia embarcado

Sinuoso como uma serpente, no rio, os pontos geográficos norte, sul, leste e oeste “zigzagueiam” em nossa percepção; desconstruindo a orientação espaço-tempo urbana, desorientando-nos. Sua profundidade varia de doze a vinte metros; assim como seu leito, que obedece as estações: chuvosa e seca, época de nosso passeio. De água marrom, turva, rica em matéria orgânica, rente às margens do rio proliferam aguapés, que desgarrados juntam-se formando ilhas flutuantes de vegetação, chamadas popularmente de camalotes. Para um leigo não existe muita diferença entre o aguapé que tem raízes na terra e o camalote que flutua ao sabor do São Lourenço. Isso também nos parece uma informação menos importante, mas é justamente a percepção desse filigrama, que faz os piloteiros deduzirem onde é água e é possível navegar e onde é “terra”. É ingenuidade achar que não existem piranhas por toda a extensão do Pantanal. Em alguns locais do rio existem mais do que em outros. Piranhas gostam de águas paradas, com preferência por baías e lagoas. Ao contrário do que os "cines trash" nos assombram, piranhas são peixes de até 30 cm, com dentes afiados cuja mordedura é capaz de fazer um belo estrago no que quer que seja. Se um exemplar é assim, imagine um cardume! Para turistas desavisados, filhotes de pacu confundem-se com as piranhas, por serem muito parecidos, diferenciando-se pelos dentes. Piranhas tem um excelente olfato e sensibilidade para movimentos superficiais, em especial os produzidos por quem estiver ferido.É possível dar umas braçadas, refrescar-se e logo sair da água. É sensato. E ainda mais sensato evitar nadar na época da seca, quando há maior concentração de animais em menor espaço. 

 

Segundo dia

Nesse dia permanecemos embarcados no Cabote, que lentamente navegou rio acima. Estávamos ansiosos pelo passeio com as voadeiras à divisa com a Bolívia para os lados da baía de Mandioré, para conhecer novas paisagens, as quais não seriam possíveis apenas ficando embarcados. Loucos para refrescarmos nas águas do São Lourenço, logo o piloteiro nos deixou em uma prainha com árvores, cipós de arraia, pedras muito brancas e outras rosas. Desembarcamos. Na areia havia pegadas de onça, uma grande e outra de um filhotinho, como explicou o piloteiro. Eram recentes por estarem bem desenhadas na areia. E é claro, que andamos exatamente no sentido contrário. “Ponto turístico” visto, a excursão terminou. Subimos na voadeira a procura de nova prainha, queríamos nadar. Novo desembarque, o lugar prometia. Mas eis que de repente... tchibum! Mas... o que era aquilo? Uma prancha de surf com som de barrigada?...Não, um enorme jacaré! Começamos a apitar para a voadeira, sinalizando que queríamos procurar outro lugar. Mais um pouquinho e chegamos em outra praia de areia, não tão bonita quanto a anterior, mas, sem tantos tocos e árvores dentro d’água e nem um sinal de jacarés. Estava escurecendo, o piloteiro “recolheu”, nós os “tolos” banhistas, e partiu navegando no labirinto de camalotes. Duas horas “batendo” na voadeira. Durante o percurso, mais uma vez ficamos admirados pelo seu senso de orientação. Em um determinado momento, o piloteiro resolveu fazer uma curva, que para nós era sem sentido, entrando pelo meio dos camalotes e aguapés. Contudo sem demora a beleza do desvio apresentou-se, tivemos direito a conhecer vitórias régias, que acreditava só existirem na Amazônia. Em minha imaginação, eram pequenas do tamanho de um prato de comida, delicadas e singelas. Mas como tudo no Pantanal ....é enorme... Vitórias Régias parecem grandes discos de pizzas, com diâmetro de aproximadamente um metro e de grande flutuabilidade. À sua volta, farpas enormes e uma raiz principal emaranhada num tufo de outras pequenas raízes e grandes espinhos; que de delicados e singelos não tem nada!

 

Terceiro dia

A estação do IBAMA era o destino do terceiro dia embarcado. Lá, conhecemos o Sr. Benjamim, responsável pelo Parque Nacional do Pantanal. Já estávamos no Mato Grosso, local em que o São Lourenço torna-se Rio Cuiabá. No parque existe uma baía preservada onde é possível observar um viveiro natural da diversidade de pássaros da região, além de jacarés, em tão grande número e tão próximos às voadeiras, que até poderíamos tocá-los. Outra ideia tola! Anoitecia e voltamos para o Cabote.

 

Quarto dia

Ficamos sabendo que havia um problema no motor do Cabote, no quarto dia que estávamos embarcados e que uma das voadeiras estava estragada. Com estes imprevistos, a melhor decisão era começar a voltar. Depois de muitas horas, chegamos a uma fazenda, com um morro que se destacava na paisagem, era o Amolar. Enquanto o Cabote e a voadeira iam sendo reparados, nadamos, esquiamos e a noite, aproveitamos para observar as estrelas. Como a tecnologia ainda não capta a energia do Pantanal... Tentei algumas pinceladas...

 

Quinto dia

Este foi dedicado a aqueles do barco que gostavam de pescar. Os outros, como eu, fomos apenas observar. Para ser sincera, mais se perderam iscas e anzóis do que foram pescados peixes. Aliás, os peixes do pantanal são selvagens, brigam realmente e não se dão por vencidos, quando menos se espera eles arrebentam a linha, principalmente as piranhas.

 

Sexto dia

Navegando à noite, estávamos próximos ao fim da nossa jornada e o sexto dia foi dedicado às despedidas do Pantanal, e no meu caso a finalização das aquarelas. Chegamos ao ponto inicial, Corumbá, às quatro horas da tarde; trazendo em nossa bagagem, imagens fantásticas capturadas pelas câmeras e filmadoras, um diário de viagem e cenas de emoção indescritíveis retidas em nossas memórias. O Pantanal é lindo!!!!

 

Excursões na natureza e incursões na alma

Ainda em 2020, a aquarela “Camalotes” me transporta a viagem ao Pantanal. Lembro-me de pintá-la com as águas do Rio São Lourenço, na mesa de uma cozinha impermanente para atender nossas famílias, durante os dias de embarcado. Era cozinha, era sala, era dormitório, era abrigo. Outras aquarelas também nasceram naquela mesa: o espetacular voo do tuiuiú, a incrível noite de lua nova avistada no planetário improvisado em cima do Cabote, e a placidez e lentidão do São Lourenço registrado em uma aquarela, na qual o rio mais parece um caminho. E é. O Rio São Lourenço é uma espécie de continuidade da transpantaneira, representa uma via de transporte e de comunicação pelo Pantanal e é tão sinalizado quanto uma rodovia. Passados tantos anos, continuo achando o Pantanal, lindo! Na época, aprendi como lições da viagem que: entender o ciclo de suas águas é também entender o Pantanal. Na época das cheias a vida é exuberante e na da seca, um grande e maravilhoso observatório. Enfim, em qualquer das estações, o Pantanal é belo e nos recarrega de energias! Também a convivência, de certa forma “cúmplice”, foi algo que me marcou. Tanto a existente entre os pirangueiros, jacarés, piranhas, cobras e outros “perigos” e a beleza do lugar; como a camaradagem do povo pantaneiro, que revela desde questões ligadas à sobrevivência, como a de receptividade ao turismo. Esse conviver com o diverso e com o perigo é um aprendizado de uma vida.

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