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História

Viagem no tempo

História de: Mercedes Frungilo
Autor: Centro de Memória de Cosmópolis
Publicado em: 26/01/2016

Sinopse

Por Amauri de Oliveira Quando pensamos em viajar, logo nossa mente nos leva para locais diferentes: praias, cidades turísticas, locais apresentados como os mais incríveis. Mas nunca pensamos em viajar no tempo. Viagem incrível e fantástica que não precisa de máquinas superavançadas e sim de atenção, interesse e respeito por aqueles que já vivenciaram e guardam na memória toda a história acontecida. Quando me dispus a entrevistar alguém que teria muito mais experiência de vida que eu, a dona Mercedes, não imaginei a riqueza de detalhes, acontecimentos e emoções que descobriria. Tempos que não existem mais, com eventos que nos influenciam até hoje. Uma visita apenas, para pesquisador, curioso ou amigo, é pouco para o tanto de vivência, experiência e informação que a entrevistada e tantos outros mestres têm. Conheçam um pouco desta história através desta leitura, e em outra oportunidade, quem sabe, conversando, escutando e interagindo com estes fantásticos guardadores de tesouros.

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História completa

Meu nome é Mercedes Frungilo. Nasci no ano de 1921. Éramos em onze irmãos na minha família, oito mulheres e três homens. Onze contando com uma que morreu. Minha irmã mais velha morreu de amor, de paixão. Parece brincadeira, mas é verdade mesmo. Nós éramos de Conchal e meu pai resolveu mudar para Limeira, onde até comprou casa. Depois disso ele voltou para Cosmópolis, porque essa minha irmã estava muito doente, teve maleita e tifo. Quando chegamos aqui, ela ainda era noiva de um dentista lá de Conchal. Logo depois ela conheceu um moço aqui da cidade, o José, da família Tavano. Ele trabalhava como telegrafista na Sorocabana e ela se apaixonou por ele. Desmanchou o noivado e começou a namorá-lo. No começo, a mãe dele fez tudo para que o namoro dos dois desse certo, mas depois ela começou a se opor, fazia-o passar de braço dado com outra moça. E minha irmã via isso. E foi indo, foi indo até que ela falou para minha mãe: “Mãe, eu estou enxergando Santa Terezinha e ela está me chamando”. Minha mãe falou: “Ah Maria, que é isso?”. “Está me chamando”, respondeu ela. Quando foi no dia seguinte ela já amanheceu acamada e morreu assim. Minha mãe chamou o médico da família, doutor Féster, que disse que ela não havia morrido de doença e sim de paixão, pois ficou uma mancha preta do lado do coração. Então a gente sempre fala que ela morreu de amor. Ela estava bem, mas foi como uma doença mesmo. Minha mãe sofreu bastante. Oito meses depois disso morreu o meu pai. Foi um acidente na oficina da Sorocabana. Ele tinha quarenta e dois anos e caiu quando estava pintando o teto. O chefe pediu para pintar o teto de vermelho e meu pai falou: “eu vou”. O chefe disse que iria contratar uma pessoa para fazer esse serviço, mas quando ele saiu meu pai subiu a escada e começou a fazer o serviço. Ele bateu as costas em toda a fiação de alta voltagem, caiu e morreu. Depois que meu pai faleceu minha mãe teve que cuidar sozinha dos dez filhos. O mais velho tinha dezoito anos. Nessa época ela já tinha a pensão. Meu irmão Alcides Frungilo, que é o pai do meu sobrinho Walter, decidiu que deveríamos nos mudar. Foi uma tristeza muito grande a perda de duas pessoas na casa. Mudamos e conforme aumentava o número de pensionistas a gente mudava novamente de casa. Quando minha mãe faleceu nós morávamos onde é o Roma agora. Era uma pensão familiar. Atendíamos oito professoras e doze moços da Sorocabana. Quando minha mãe ficou viúva ela tinha 39 anos. Criou os filhos com muito sacrifício, trabalhando e labutando. Pensão da Dona Rosa A oficina da Sorocabana tinha muitos funcionários. Só em casa moravam 12 moços. Eram muitas pessoas para almoçar. Minha mãe fazia muitas marmitas, ajudei muito nas entregas. O Dr. Moacir Costa Couto, que morava e trabalhava na Usina Ester, era o mestre de lá, chegou trazendo toda a família. E minha mãe preparava comida para todo mundo. Eram aquelas marmitas enormes. Eu gostava muito daquele movimento todo. A Sorocabana era um lugar muito gostoso para se passear. Vinha gente de Conchal para passar o dia em Campinas e voltava só no final da tarde. Tinha uma árvore, a gente chamava de “arvorão”, era oca por dentro e os namorados sentavam lá para namorar. Nossa casa vivia cheia de gente. Os quartos cheios de professoras. Tinha noite que chegavam muitos viajantes e eles não queriam ficar em outra pensão, queriam ficar em casa. Minha mãe precisava tirar o colchão da nossa cama e colocar no chão na sala. Ela mandou fazer até um biombo para acomodar todos deitados. Mesmo ela dizendo que não tinha mais vaga eles insistiam em ficar lá. Era uma pensão muito gostosa. A gente tinha amizade com todas com as professoras. Aprendemos muita coisa. Como éramos crianças, minha mãe nos dava muita educação: “Não responda, faça tudo o que você puder para as pessoas.” Nossa pensão era uma coisa maravilhosa. Era uma família mesmo. Quando era preciso minha mãe sempre chamava a atenção. Tinha os moços mais velhos, mais responsáveis, e as moças sempre pediam autorização para acompanhá-los no baile. As professoras que vinham morar na pensão chegavam acompanhadas dos pais, e eles diziam: “dona Rosa, vai ficar sob sua responsabilidade”. E minha mãe falava: “mas como?”. E eles pediam para que as filhas obedecessem a Dona Rosa. Lembro-me de um rapaz que se chamava Carmelito e trabalhava na Sorocabana como telegrafista. Minha mãe sempre falava para ele: “você vai levar as meninas no baile!”. E já avisava para em determinado horário trazer todas elas para casa. E era assim, muita amizade. Nossa casa tinha um salão enorme e me lembro quando as moças organizaram o baile da “Chita”. Fizemos muitos bailes na pensão e vinha muita gente de fora. Ninguém nunca faltou com o respeito. A Gazeta Esportiva ( jornal de Campinas) fez uma festa em nossa casa e o pessoal compareceu em peso. Tiraram fotografia da minha mãe, enfeitaram toda a casa, que era enorme, com muita decoração. Depois eles fizeram um jornalzinho falando da minha mãe. Ela apareceu nas fotos no meio de toda aquela moçada. Tínhamos tudo, com muita simplicidade. No Natal minha irmã pegava todas essas laranjinhas com cabinho, pintava tudo e pendurava. Não tínhamos bola. Não tinha dinheiro e não sobrava. Era “aquela” bonequinha de pano. Minha irmã ganhou uma boneca de papelão, feia pra valer, mas a gente acreditava em Papai Noel. Eu falei: “vamos brincar lá no quintal?” E nós não tínhamos cama para as bonecas, então pegamos uma telha e fizemos a “caminha” de telha e colocamos nossas bonecas para brincar de casinha. Aconteceu que ela esqueceu a dela no sereno. Eu peguei a minha, enrolei e guardei dentro do guarda-roupa, era uma maravilha aquela boneca. No dia seguinte peguei a minha para brincarmos novamente e ela perguntou: “e a minha, onde está?” Chegamos lá fora e a boneca estava toda enrugada, por causa do sereno. Era de papelão! Ela chorou tanto por causa da boneca. Não tinha como minha mãe comprar outra, não tinha dinheiro. Quando nós queríamos passear eu sempre carregava essa minha irmã que teve o problema em uma das pernas. Apesar de eu ter voltado a andar depois que sarei da paralisia, sempre manquitolei. Então era uma situação muito engraçada, era uma manquitola carregando outra manquitolando. Isso acontecia geralmente quando íamos à matinê do cinema. Tenho muitas saudades! Todas as minhas irmãs aprenderam um pouco de cada coisa. Só teve uma que não gostava de trabalhar em casa. Ela chamava Dinorá. Ela disse que queria trabalhar fora como empregada. E mesmo minha mãe pedindo para ela ficar, para trabalhar como copeira, ela decidiu ir trabalhar como empregada em outro lugar. Minha mãe acabou colocando outra pessoa no lugar dela, pois faltava. A minha irmã mais nova se chamava Clér. Meu pai leu esse nome em um romance. Ele lia muito romance. Mas a gente falava Zezé pra ela, por causa daquele moço que minha irmã mais velha morreu de paixão. Ele chamava José. E quando ela nasceu minha irmã falou: “vamos colocar o apelido de Zezé.” Com seis anos ela levou um tombo na calçada, bateu o joelho e ficou com a perna encolhida e até os catorze anos ela andava de muleta. Ela era bem loirinha. Muito alegre e sapeca, pegava o baralho das professoras e gostava de brincar de ler a “sorte”. Fazia muito essa brincadeira com elas. Foi muito triste quando essa minha irmã precisou cortar a perna. Minha mãe ficou muito triste. Quando ela estava com catorze anos, o médico de Campinas, doutor Heitor, falou: “dona Rosa eu vou operar a Zezé e ela vai andar. Vai ficar mais curta a perna, mas ela vai andar.” E minha mãe respondeu para ele: “doutor, o senhor vai me desculpar, eu levei ela no especialista em São Paulo e ele falou que não tem jeito mesmo.” Minha irmã colocava gesso a perna esticava, tirava o gesso encolhia. Mas ele insistiu: “eu vou operar e ela vai sarar”. E foi engano dele. Deu gangrena. Ela precisou cortar a perna. Foi onde minha mãe ficou muito triste e acabou morrendo. Minha mãe era uma mulher muito esperta. Mesmo não sabendo ler nem escrever ia para São Paulo. Quando meu pai morreu o dinheiro dele era recebido lá. Ela ia todo mês pegar os juros. Embarcava para São Paulo sem saber ler nem escrever. Sequer assinar o nome ela sabia. Depois de um tempo meus irmãos começaram a incentivá-la e ela aprendeu. Ela falava bastante, era italiana, ficava brava! As pessoas até hoje falam: “a dona Rosa era bacana!” E era mesmo! Minha mãe morreu com 54 anos. Todos meus irmãos eram muito bons, mas meu irmão Alcides, pai do meu sobrinho Walter era tudo para nós. Quando ela faleceu ele falou: “vamos vender a pensão.” Minha mãe era a responsável. Ele não podia ficar com essa responsabilidade. Todo mundo tinha medo da minha mãe. Quando precisava chamar a atenção ela chamava mesmo, fosse quem fosse. Ela sempre dizia: “quero respeito na minha pensão! Tem bastante moça.” Vendemos a pensão e fomos morar separados. Fomos em cinco morar com meu irmão Alcides. Quatro mulheres e um irmão. Ele falava: “esses vão morar comigo. Não vou abandonar um filho, uma irmã.” Minha cunhada (esposa do Alcides) era muito boa, um amor. Até hoje acho falta dela. Faz dois anos que ela faleceu. Ela concordou com tudo. É difícil concordar, né? Depois disso, uma irmã foi embora para São Paulo, a mais velha se casou, o moço também casou e fiquei só eu morando com ele. Morei 31 anos na casa dele. Todos os irmãos eram muito bons, mas como esse, era um exemplo de filho e de homem. Faz poucos dias que uma das minhas irmãs veio me visitar. Ela está com 97 anos. O nome dela é Olga. Ela era muito bonita, com lindos olhos verdes. O padre daqui ficou apaixonado por ela. Chamava padre Oscar4. Ele veio conversar com minha mãe e falou: “dona Rosa eu queria casar com a Olga, eu tiro a batina”. Minha mãe respondeu: “de jeito nenhum, o que é isso!” Minha mãe obviamente não consentiu e falou para ele mudar de pensão para evitar confusão. E relembrando tudo isso, nós rimos muito! Falei: “até o padre, Olga!”. Sofremos bastante também. Tinha dia que não tínhamos leite em casa porque era só para os pensionistas. Às vezes sobrava uma misturinha, comi muita polenta! Minha mãe fazia polenta, jogava na mesa, cobria, cortava e colocava mais café do que leite. E graças a Deus tínhamos saúde. Acho que é por existir harmonia. Minha mãe era muito boa de coração. Se aparecesse um andarilho pedindo comida para ela, ela mandava subir uma escadaria que tinha no fundo. No fundo de casa tinha uma área pequena e uma mesa. Ela colocava a toalha e dizia: “senta aí.” Servia um prato de comida pra ele, se tinha um refresco servia também e uma fruta. Eles agradeciam muito e diziam que ela seria muito feliz porque ninguém fazia assim com eles. As pessoas têm medo de colocar andarilho dentro de casa. Eles saiam agradecendo. Perdi a conta de quantos ela ajudou aqui em Cosmópolis! Correios Eu comecei a trabalhar nos Correios de repente. Eu estava em casa e eles queriam colocar essa minha irmã que tinha sofrido o problema da perna. O prefeito veio conversar com minha mãe. E por ela ser muito nova, minha mãe falou: “vamos pôr a Mercedes no lugar”. E foi onde eu fiquei trabalhando trinta e um anos. Eu não sou conhecida como Mercedes Frungilo, mas sim como Mercedes dos Correios. Tive algumas dificuldades por não ter prática e nem estudo. Consegui estudar só até a terceira série. A agência funcionava em uma sala na pensão da minha mãe. Eu trabalhava até certa hora e fechava. Nesse intervalo ajudava a servir as mesas para os pensionistas. A agência foi melhorando aos poucos. As correspondências eram guardadas em caixas, fazíamos a distribuição do jornal também, pois na época ele vinha pelo correio. Lembro do dia que conheci o dono da Usina Ester. Tinha um caixote grande que eu colocava as cordas que vinham amarradas no jornal. Ele chegou, sentou no caixote, me cumprimentou, conversou comigo, brincou e até contou que o netinho havia arrancado o bolso do paletó dele. Enquanto isso eu continuei trabalhando, chegou mais gente e o cumprimentaram. Foi então que vim saber que estava conversando com o dono da usina. A dona da Usina, dona Sonja, me mandava buquê de rosas, crisântemos, mandava jabuticaba. Eles tinham um rapaz que sempre vinha buscar a correspondência. Eu separava tudo e ele levava. E ele sempre me entregando presentes da Dona Sonja. O pessoal da cidade tinha que ir até a agência para ver se tinha carta, elas eram organizadas em ordem alfabética em uma prateleira. As cartas chegavam pela Sorocabana em uma mala enorme, tinha um senhor muito amigo meu, o seu Gothardo Abílio Brega5, que sempre vinha e me ajudava a despejar. A mala era muito pesada. Antes de distribuir eu precisava carimbar uma por uma e só depois colocava no lugar. Precisava carimbar a data da chegada para não ter reclamações de atraso. A agência era muito útil para os contratados da Petrobrás. Aos sábados eles recebiam o adiantamento do salário e no domingo passavam no correio para enviar o dinheiro aos parentes e familiares. Era um pessoal muito simples que chegava aqui na cidade para trabalhar. Naquele tempo o dinheiro era enviado pelo correio através de um envelope lacrado. A gente colocava o dinheiro dentro do envelope, lacrava e ninguém mexia mais. Todo esse processo era feito na frente da pessoa. Veio então uma ordem de São Paulo para a agência começar a fechar aos domingos e o pessoal ficou preocupado, pois só tinham o domingo para ir até a agência. Conversei com meu irmão Alcides sobre esse problema, expliquei a preocupação dos trabalhadores pelo fato de não poderem mais enviar o dinheiro para suas famílias. E ele disse que a decisão seria minha. Tive a oportunidade de folgar aos domingos, mas decidi que preferia continuar ajudando aquelas pessoas. Poderia pegar o ônibus no sábado à tarde e ir embora. Tinha parente em Araras, Limeira, Campinas. Continuei atendendo na agência aos domingos até meio-dia e folgava nas segundas-feiras. As pessoas achavam engraçado eu ter trocado meu domingo pela segunda feira, mas fiz isso por aquelas pessoas que precisavam. Além disso, tinha a entrega do jornal. Aos domingos o pessoal iria ficar sem jornal. A gente tinha amizade, valorizava as pessoas. Não é como agora, que existe muita gente egoísta. Só procura quando há interesse por parte deles. Eu pensei na necessidade daquelas pessoas e no sacrifício que faziam por suas famílias. Eu trabalhava das oito até onze horas, depois ia para casa, almoçava e retornava ao trabalho do meio dia até cinco horas. Quando chegava do trabalho, tomava um banho e ia até a estação esperar o trem passar para pegar a correspondência que o estafeta trazia. Era sempre muito corrido, quase não tinha folga. O que pude fazer de bem eu fiz, ajudava até os casais de namorados. Eu recebia as cartas dos rapazes que os pais não aceitavam e entregava para as moças sem que os pais vissem, torcendo para que aprovassem os namoros. Tinha uma professora chamada Bete, eu sempre recebia as cartas dela e guardava. Eles moravam num sítio e apesar da família dela ter um mensageiro que buscava a correspondência, as cartas dela eu sempre guardava e esperava ela buscar. Ela lia a carta e eu guardava. E ela conseguiu que o pai aceitasse o namoro. Ela casou, teve duas crianças e levou a menina para eu conhecer. Ela dizia que eu fui cupido dela! Eu fazia as coisas buscando sempre levar felicidade às pessoas. Era tudo muito simples! Quando me aposentei muita gente me pediu para voltar. Eu sei que se quisesse voltar o lugar era meu, mas decidi que já era hora de parar. Bom cartaz Eu manquitolava, sempre manquitolei, e assim mesmo, sempre tive um bom cartaz com os moços que vinham de fora. A gente dançava, brincava. Eu gostava muito de me arrumar. Nunca fui trabalhar de qualquer jeito. Tinha mania de pôr uma flor no cabelo. Eu passava no quintal da minha cunhada, da minha irmã, cortava uma rosinha enfiava no cabelo e ia embora. Eu vivia sempre bem arrumada e as outras moças tinham até inveja pelo fato de eu ter tanto cartaz. Acho que é porque eu também ria muito, tinha muita simpatia. Lembro-me do Moraes Sarmento6 que trabalhava na televisão. Ele veio em um dos bailes do Cosmopolitano Futebol Clube. Eu estava conversando com minha irmã que era viúva. Ele chegou e me convidou para dançar. Aceitei e dançamos. Eu tinha o costume de nunca falar meu nome verdadeiro. Con- versamos e quando chegou uma certa hora eu disse que precisava ir embora porque iria trabalhar no domingo. Menti dizendo que trabalhava como empregada doméstica. E foi muito engraçada a reação dele: “com esse jeito, empregada doméstica?”. Ele achou estranho porque eu tinha unhas bonitas e o cabelo todo arrumado. Em seguida ele se apresentou e disse: “eu sou Moraes Sarmento, muito prazer!”. Na saída do baile ele comentou com o presidente do clube que tinha gostado de mim. O apelido do presidente era Bube, seu nome era Willy Luiz Neumann7. Ele chegou e disse que havia gostado de mim, e falou o nome Meire (era o nome que eu tinha inventado). E o presidente disse que eu era a agente postal da cidade e que meu nome era Mercedes. O Moraes Sarmento ficou tão sem graça e me perguntou por qual razão eu havia escondido o nome verdadeiro. Então disse que estava apenas brincando. Sempre fui de brincar. Nunca tive o gênio de ficar emburrada. Carnaval O Carnaval daqui tinha muita fama. Tinha um rapaz, o Jacinto Aun, que cuidava dos desfi les. Ele fazia os esboços alegóricos, fez uma vez um jacaré com criança sentada dentro da boca, tudo de papelão. Sempre esperávamos algo, a gente sabia que o Jacinto sempre ia “aprontar alguma”. E todo ano ele aprontava mesmo! Os blocos eram muito bonitos. O bloco do Cosmopolitano Futebol Clube era verde e branco, o Flor de Liz era azul e branco e tinha o da Usina que era vermelho. O carnaval era muito bonito, vinha gente do Rio e de muitos lugares passear aqui. Na época nós tínhamos liberdade e podíamos fi car assistindo o Carnaval na rua. Era aquela turma assistindo os blocos passando. Muitos carros e aquela folia! Muitas brincadeiras, palhaços. Era muito divertido. Cosmópolis era muito alegre! Uma cidade pequena, mas muito gostosa! Cosmópolis A cidade naquela época era muito feia ainda. Mas era tranquila. A gente saia para passear à noite, subia e descia a avenida. Gostávamos de andar de braço dado. No cinema a família toda ia às terças, quintas e domingos. Quando eu ia com as amigas, o porteiro já deixava três poltronas reservadas pra gente, ele era muito gentil! Apesar de a cidade ser feia, foi um tempo muito gostoso. Tinha um coreto bem simples na praça. A praça era muito frequentada. Foi o doutor Moacir do Amaral, o prefeito na época, que fez a praça. Ele colocou arame farpado e plantou primavera em volta da praça toda. O arame farpado era para segurar as primaveras. A gente então sentava nos bancos, brincava, conhecia todo mundo. De vez em quando vinha uma banda no coreto e tocava. Não tinha esse movimento que temos hoje. Agora a avenida inteira é só de comércio
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