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Verdades doadas

História de: Maria José da Silveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/09/2011

Sinopse

Maria José da Silveira é uma mulher muito ligada à família, apaixonada por música e por folclore. Nessa entrevista ao Museu da Pessoa, ela conta um pouco sobre sua infância em uma família tradicional, sua adolescência em Santos, a admiração que cultiva pelas suas tias, sua formação católica, sua relação com a música e seu dia-a-dia no Theatro Municipal e como professora de canto.

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História completa

P/1-  Você pode falar seu nome, o local e data de nascimento?

 

R- Posso. Eu nasci em São Paulo, Capital, aos 25 de agosto de 1942.

 

P/1-  Seus pais nasceram aqui em São Paulo?

 

R-  Meus pais nasceram em São Paulo na Capital também.

 

P/1- E seus avós?

 

R- Meus avós nasceram...a minha avó materna, paterna veio da Itália e ficou em Amparo inicialmente. Depois se casou com o meu avô e veio morar em São Paulo, Capital.

 

P/1- O seu avô é de São Paulo?

 

R- O meu avô é de Amparo, o meu avô paterno.

 

P/1- E a sua avó veio da Itália e foi pra Amparo por quê?

 

R- Veio da Itália como imigrante e se hospedou na...na Hospedaria dos imigrantes, posteriormente ela foi encaminhada para Amparo, onde conheceu o meu avô e lá se casou com ele. E depois, meu avô era funcionário do Departamento de Águas e Esgotos e eles se transferiram para São Paulo, onde nasceu meu pai.

 

P/1-  Que bairro que era?

 

R- Ele nasceu na Aclimação aos 17 de outubro de 1910.

 

P/1- E seu pai e sua mãe se conheceram como? Você sabe?

 

R- Meu pai e minha mãe se conheceram no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde ele era primeiro Secretário - isso num período conturbado que era da guerra, da Segunda Guerra, do início da Segunda Guerra - e minha mãe aluna. Aluna de uma professora chamada Francisca que é compositora -  sobre a qual já dei também algum depoimento em outras circunstâncias - e ela era compositora e professora de piano. Posteriormente foi minha professora de piano e minha madrinha também.

 

P/1- Aí eles se conheceram no conservatório e casaram?

 

R- Aí se casaram em 1941.

 

P/1-  Eles foram morar onde?

 

R- E aí foram morar no Paraíso, inicialmente e depois na Vila Mariana.

 

P/1- E você nasceu em que épo...quando?

 

R- Eu nasci aos 25 de agosto no Hospital, na Maternidade São Paulo aqui na Capital

mesmo.

 

P/1- E aí eles tavam morando aonde?

 

R- Aí, estavam morando na Vila Mariana, Avenida Lins de Vasconcelos...é...hoje seria próxima...é, próxima não, na própria Avenida Lins de Vasconcelos no Metrô. Hoje tem...hoje aquela parte é o Metrô Vila Mariana.

 

P/1- E você lembra da casa da sua infância? Como era?

 

R- A casa da minha infância existe ainda. É uma casa grande que tem seiscentos metros de quintal. Ela tem quatro salas, copa, cozinha e quatro quartos. É uma casa antiga e que foi construída por alemães. E já quando, é, o meu pai comprou, ela já tinha uma certa...é, um certo...uma certa idade de construção.

 

P/1-  Quem que morava na casa?

 

R-  Antes? Eu não sei.

 

P/1-  Naquela...não. Quando você nasceu quem morava lá quando você era criança?

 

R- Quando eu era criança só nós mesmos.

 

P/1- Nós quem?

 

R- Nós, a minha família. Eu e minha família.

 

P/1-  Mas quem que era? Seu pai sua mãe...

 

R- Ah, eu e todos os irmão que foram nascendo posteriormente.

 

P/1-  Quantos irmãos?

 

R- E... do papai, cinco. Porque minha mãe ficou viúva com trinta anos e depois, se tornou,se casou novamente.

 

P/1- Aí nessa casa morava você e cinco irmãos da mesma família.

 

R- E quatro irmãos da mesma família.

 

P/1- São mais velhos? Mais novos?

 

R- São todos mais novos porque eu sou a primeira. A primeira filha e...até meu irmão José, do teatro, nasceu nesta casa. Ele tem um carinho muito grande por essa casa. Ela existe hoje, mas toda reformada, descaracterizada já.

 

P/1- E como é que era na sua casa? Morar você e mais cinco irmãos? Como era a dinâmica lá?

 

R- A dinâmica é de uma família de costumes tradicionais. Escola de manhã, a tarde algum passeio, lições, dormir cedo...e assim, era um cotidiano aparentemente simples e que se cumpriam as obrigações.

 

P/1- Você lembra das brincadeiras?

 

R- As minhas brincadeiras eram...nós não saíamos pra brincar fora, então todos os vizinhos vinham pra brincar no meu quintal. As brincadeiras eram as mais diversas porque eu brincava de roda, de esconde-esconde, barra-manteiga… Eu gostava muito de esgrima, então eu lutava com os meus irmãos (risos), eu praticava esgrima com os meus irmãos.

 

P/1-  Mas você tinha aula de esgrima?

 

R- Não, era brincadeira só, brincadeira. Naquele...os meus irmãos ganharam uns cavalos que eram muito interessantes, enormes, feitos não sei de qual material...talvez papel machê...E eles, aí nós tínhamos um quintal grande, então, nós brincávamos de, de batalhas e de correrias, né, e todas aquelas brincadeiras que seriam comuns naquele momento, naquela época.

 

P/1- E com quantos anos você foi pra escola?

 

R- Eu fui pra escola com seis anos.

 

P/1- E que escola que era?

 

R- Eu frequentei o Colégio Maria Imaculada e depois...até o...até a quarta série. Depois eu me desliguei desse colégio.

 

P/1- Como é que você ia pra escola? À pé, de carro...

 

R- Não, de carro. Sempre de carro.

 

P/1- Quem que levava?

 

R- Quem levava era meu pai. Meu pai.

 

P/1- Levava e buscava?

 

R- Levava e buscava. Ninguém...

 

P/1- Ele tinha tempo pra isso?

 

R- Ele tinha tempo porque ele era uma...era liberal, advogado e ele não tinha assim, um horário muito fixo de trabalho, né.

 

P/1- Fala uma coisa: quem exercia a autoridade na sua casa? Seu pai ou sua mãe?

 

R- Papai. Sempre.

 

P/1- Como assim, ele era rígido?

 

R- Sempre mais voltado pra rigidez pelo fato de ele ter uma formação católica muito...muito rígida, muito rígida, muito séria. Então, ele era um homem extremamente instruído, mas de caráter assim, muito determinado e determinava também todas as atitudes dos filhos, né.

 

P/1- Você tem formação religiosa?

 

R- Eu tive a formação religiosa católica não...não folclórica. Eu digo isso porque eu sou professora de folclore. Então a prática religiosa, eu não tenho a prática religiosa; eu tenho a formação; eu acompanhava tudo, meu pai ia à missa todos os domingos; e na minha casa tinha uma particularidade: se recebia os padres, padres que transitavam por São Paulo eram hospedados na minha casa, principalmente Jesuítas porque meu pai era de formação de colégio Jesuíta, né.

 

P/1- Qual que é a lembrança marcante, assim, que você tem da escola, assim, desse primário, quando você entrou?

 

R- A mais marcante é uma coisa muito desagradável hoje pra mim. Porque eu tinha um comportamento exemplar, sempre tive, natural, não forçado. Então as freiras me escolhiam para marcar as meninas, quando elas saíam de classe, pra mim marcar o nome das meninas que conversavam; eu marcava. Então essa é uma situação muito, assim, de lembrança muito marcante pra mim porque...as meninas perguntavam: "Você está marcando?" E eu dizia: " Não". E eu estava marcando as que conversavam. É uma, uma situação, assim, pitoresca, mas hoje eu analiso de outra maneira.

 

P/1- É, sua mãe exercia influência em vocês? De que maneira?

 

R- Olha, mamãe era muito próxima de todos os filhos. Ela foi um mulher de extrema beleza, a minha mãe. Então, no meio social ela fazia muito sucesso. Ela era voltada, bem voltada pra si própria. Sempre foi muito voltada pra si própria. E o maior orgulho da mamãe era dizer o número de filhos que ela tinha. Era a primeira coisa que ela falava. Quando tinha os cinco e depois quando teve, quando teve os onze. Ele falava: "Eu sou mãe de onze filhos. Eu sou mãe..." E muito...ela foi criada no Salesiano, no Colégio Santa Inês. E juntamente com a minha madrinha também foi criada no Colégio Santa Inês. Eu vou fazer esse parêntese porque a Francisca Butler é o número um de matrícula no Santa Inês. E foi minha madrinha de batismo. E a professora de piano da mamãe e minha também. Mas a mamãe foi criada no Colégio Santa Inês e elas têm uma característica; os Salesianos têm uma característica de comportamento, você sabe muito bem. Então a mamãe era uma pessoa que mantinha aquela aparência de aluna do Colégio Santa Inês a vida inteira, mas agindo como ela queria. Era sempre voluntariosa e de vontade própria, avançada para sua época.

 

P/1- Ela trabalhava fora?

 

R- Não, não trabalhava. Não trabalhava. Não trabalhava. Ela veio dessa família que eu mencionei, a Família Decamires ...e eles também tinham alguns hábitos muito interessantes, muito interessantes.

 

P/1- Quais hábitos?

 

R- Então eu posso me reportar para, para Rua...Tenente Pena, esquina Júlio Conceição, onde existia a casa desse….do Antônio Decamires...

 

P/1- Que bairro?

 

R-  Que ba...Bom Retiro, né. Mas essa casa posteriormente ficou pra quatro filhos solteiros, é, que ele tinha. Quatro filhos, os solteiros. Essas...então, eram três mulheres e um homem. Um é o Conde Carlos João Batista Decamires que você conhece também. Então, ele foi mu...foi ex-aluno do Liceu e ele...professor de Matemática e um benemérito muito grande do Liceu Coração de Jesus, o Conde Decamires. E as três irmãs. Essas três Irmãs que se chamavam Adeli, Elvira e Margarida, são as três fadas da minha vida. Então, eu me lembro, tenho...assim, uma recordação maravilhosa delas. Elas não eram essas pessoas pra minha mãe porque elas fic...minha mãe morou com elas, mas eram pra mim. Então, a lembrança, lembrança muito interessante que eu tenho, é de sempre de chegar nessa casa que tinha uma porta que eu achava imensa, e nem era, e uma escadaria. E lá eu...talvez vivesse um sonho diferente, uma vida diferente quando eu ficava com elas. Porque minha mãe tinha um vida social intensa e quando...no começo da minha infância, eu ficava algumas horas com elas. E essa casa tinha, hã...todas as portas fechadas, muito interessante, e uma sala imensa e ao lado dessa sala tinha uma dispensa com uma, um telhado todo de vidro e aonde elas guardavam tudo que é possível de bom. Então, entrar naquela dispensa era uma...era uma aventura interessante.

 

P/1- Que que tinha de bom na dispensa?

 

R- Tudo o que elas faziam. Porque essas mulheres eram mulheres...todas da família da minha mãe. Extremamente prendadas, sabiam fazer tudo! Elas tinham uma chácara em Poá, que é aqui perto de São Paulo  e nessa chácara eles criavam o...que isso é tradição da, da ,da região deles...de onde eles vêm. Criavam porcos. Então, a partir do momento que eles matavam esses porcos, eles faziam tudo, tudo que é possível e tudo que é interessante. Eles faziam a banha, eles faziam o toucinho, ele faziam um...um doce, um doce de sangue de porco. Eu fico boba de saber que eu comia aquilo,. Que é feito com licor, com vinho e...e amêndoas, entre outras coisas. Eles faziam isso.

 

P/1- Uma receita o que...é  italiana?

 

R- É, uma receita italiana. Se chama Sanguinaccio, né. Italiana. E eu comia esse doce, era uma delícia. Hoje jamais! Hoje nem carne eu como. Mas naquele momento...Então, elas faziam, elas eram ótimas doceiras, ótimas cozinheiras e elas tinham um domínio sobre a casa muito interessante, muito forte as três, essas três fadas, que são essas três tias da minha mãe.

 

P/1-  Você falou que sua mãe tinha uma vida social intensa, por quê?

 

R- Porque eles frequentavam a sociedade. A mamãe nessa época...

 

P/1- Por causa do seu pai?

 

R- Por causa dela também, dela também. Eles tinham um bom círculo de amizades e eles...a mamãe dava muitos jantares em casa. Isso quando eu era pequena, né. Mamãe dava muitos jantares e a mamãe também era ótima...

 

P/1-  Seu pai...só voltando um pouquinho, seu pai era advogado, mas eles não se conheceram no conservatório?

 

R-  Conheceram. Eles se conheceram lá.

 

P/1- Sua mãe fazia aula e ele dava aula?

 

R- Não, ele era Primeiro Secretário do Conservatório.

 

P/1- Ah, ele era Primeiro Secretário e era advogado de profissão?

 

R- De profissão também.

 

P/1- Aí, depois ele foi saiu, foi advogar fora...

 

R- Foi...

 

P/1- ...no escritório dele?

 

R-  Foi porque no momento em que ele era é...Primeiro Secretário do Conservatório, era o período de Guerra. Então os italianos e os professores italianos foram todos presos, os professores. E o papai também foi inclusive, nesse momento, porque existia aquele repúdio ao...aos italianos que eram...é...eram partidários, assim...do Mussolini, né. E se voltaram pro lado do Hitler, Mussolini. Então os italianos foram bem mal vistos naquele momento virou um problema no conservatório e em todos os lugares.

 

P/1- E aí, eles iam para jantares...

 

R- É, os jantares que a mamãe oferecia normalmente eram para músicos. Aqueles professores do conservatório, os maestros que iam em casa e os, e as pessoas do círculo de amizade deles.

 

P/1-  Se ouvia muita música na sua casa?

 

R- Sempre, sempre, sempre. Porque o meu pai tinha uma voz maravilhosa, minha mãe também. Os dois cantavam. E um dos maestros que frequentava a minha, a...minha casa se chamava Francisco Murino. Ele foi um italiano que veio pro Brasil e dava aula de canto; um dos grandes professores de canto de São Paulo; Deixou muitos alunos importantes. Então, ele gostava muito da voz da minha mãe. Mamãe não era cantora profissional, mas tinha uma voz maravilhosa e o papai também, também.

 

P/1- E ela contava que tipo de música?

 

R- Sempre Lírica. Lírica.

 

P/1- Você lembra dela cantando?

 

R- Perfeitamente. Perfeitamente.

 

P/1- Você sabe cantar pra gente um trecho?

 

R- Não, porque eu não tenho a voz da mamãe (risos). Eu tenho a voz grave, a mamãe era uma soprano-lírico, mas ela cantava trechos das óperas que são escritas pra essa voz, para essa voz.

 

P/1- Aí depois você fez Primeira Comunhão?

 

R- Ah, Primeira...Fiz, Primeira Comunhão, nossa, fundamental.

 

P/1- Como é que foi?

 

R- O padre Jesuíta que batizou os cinco filhos da mamãe foi o que, o que fez a cerimônia da minha Primeira Comunhão...que foi, é... exclusiva, só eu e...num Colégio que tinha na Vila Mariana. Então, eu me lembro perfeitamente da Primeira Comunhão, teve festa e tudo mais. Como era naquela época; Primeira Comunhão é coisa muito séria, né. Pra Religião Católica é um, é um evento, não é coisa, é um evento muito importante na vida da criança. E era, ante...e...naquele momento, as crianças não esperavam muito pra fazer a Primeira Comunhão. Com sete, oito anos já fazia a Primeira Comunhão.

 

P/1-  Você disse que vocês eram cinco e depois viraram onze. O que que aconteceu?

 

R-  É, aí meu pai faleceu, minha mãe ficou viúva com trinta anos e tornou a se casar depois. Aí a vida é, era completamente diferente.

 

P/1- Aí ela teve seis filhos dela?

 

R- Teve seis filhos do segundo casamento. Teve...

 

P/1- Tudo dela. Não é que veio com o outro...

 

R-  Não, não. São dela.

 

P/1- Aí vocês ficaram onze na mesma casa?

 

R- Nós somos onze filhos.

 

P/1- E chegaram a morar na mesma casa os onze?

 

R- Todos! Sempre, sempre. A mamãe nunca se afastou dos filhos, nunca.

 

P/1- E como é que foi quando vocês perderam o seu pai? O que que aconteceu?

 

R- Muito dramático. Muito dramático porque nós éramos todos muito crianças...e...

 

P/1- Você tinha quantos anos?

 

R- Eu tinha onze anos e...e era a mais velha, imagine, né. Então, foi muito difícil, realmente foi difícil. Mas...

 

P/1- Ele morreu de quê?

 

R-  Ele morreu de câncer e num prazo pequeno de nove meses e...ele era uma pessoa muito atleta...um atleta, ex-atleta, um homem fortíssimo de  um metro e noventa e nove de altura e...infelizmente teve essa doença. E naquele momento os recursos não eram os mesmos de hoje, né. Não eram. Eram muito diferentes. Mas ele foi muito bem assistido, então nesse...ele ficou nesse hospital que é o Hospital Matarazzo em que a família Matarazzo e Decamires sempre tiveram um...privilégio de ter, de ocuparem instalações mais, é...as melhores que tinham lá no Hospital. Porque o avô da mamãe era doador de uma clínica pediátrica que ficava, que fica no mesmo terreno até hoje, tem um prédio.

 

P/1- E aí sua mãe se casou com quem?

 

R- Posteriormente minha mãe se casou com...uma, uma pessoa que num, num de outro, com outros padrões e...e teve esses seis filhos, né. Eu aí entro como...como segunda pessoa em questão de educação porque aí eu comecei...aí mudou, mudou completamente a minha vida, eu comecei a ajudar a mamãe a criar esses filhos. Então fui eu que...contribuí para criação desses filhos que ela teve, os últimos seis que ela teve.

 

P/1- Daí você ajudava a cuidar.

 

R- Tudo, sempre. Mas cuidar de verdade. Cuidar, assim, não ajudar, né.

 

P/1- E seu padrasto?

 

R- Meu padrasto é um homem simples, trabalhador, mas que não tinha nada a ver comigo nem com a minha família...nem com os meus irmão. Eu não tô dizendo isso no sentido pejorativo nem no sentido de...de ressentimento, mas no sentido da verdade, né.

 

P/1- Ele era diferente como? Hábitos, outra cultura?

 

R- Totalmente. Totalmente. Totalmente diferente. Mas apesar disso minha mãe é casada com ele há cinquenta e poucos anos já.

 

P/1- Aí você estudava, aí você foi pro ginásio. Você fez o ginásio onde?

 

R- Aí, lá em Santos. Em Santos porque nós...

 

P/1- Vocês mudaram pra Santos?

 

R- ...mudamos para Santos.

 

P/1- Por que que vocês mudaram pra lá?

 

R- Porque a mamãe se desfez dos imóveis que ela tinha aqui e nós fomos morar em Santos na...perto da praia, ela gostava...

 

P/1- Mas ela queria ir pra praia?

 

R- Ela gostava. Então fomos morar lá. E lá eu fiz o...o ginásio.

 

P/1- Em que lugar de Santos você morou?

 

R-  Lá no Embaré. Na Avenida Bartolomeu de Gusmão.

 

P/1- Bartolomeu de Gusmão.

 

R- (risos) Isso mesmo.

 

P/1- Perto do Jardim do Atlântico, Posto 6?

 

R- Pertíssimo do Jardim, é...pertíssimo, um pouquinho adiante. Ah! você é de lá!? Então, eu tenho três irmãos que nasceram lá.

 

P/1- Mas ela escolheu porque ela queria ficar perto da praia...

 

R- Porque ela gostava de Santos.

 

P/1-  E esse seu padrasto trabalhava lá em Santos?

 

R-  Trabalhava, trabalhava, sempre trabalhou.

 

P/1- Mas aí ele foi arrumar trabalho lá ou ele já tinha e por isso que vocês foram?

 

R-  Não, não. Ele foi arrumar lá mesmo. Ele foi arrumar. Porque ele era representante de vendas, então, ele foi, sempre foi muito bom nisso. E ele representava estruturas de móveis de aço. Então ele trabalhava pra firma nessa profissão.

 

P/1- E ele...como é que foi essa sua adolescência em Santos?

 

R- É, foi muito simples, muito simples, porque eu acredito que tivesse perdido um certo encanto pela vida e...levava...levava muito a sério essa questão de família e de educação e de ajuda pra minha mãe. Não é nem ajuda financeira, ajuda...ajuda mesmo de...moral, seria uma ajuda...ajuda de...aguentar, né, pra...pra tocar a vida. Seria isso.

 

P/1- Que lugares você lembra? Que memória você tem de Santos? Por onde você passeava?

 

R- Muito boa, muito boa. Eu frequentava aqueles cinemas que tinham na, na Conselheiro Neves, no Gonzaga e...praticava um pouco de esporte. Não era uma vida muito, muito...

 

P/1- Que esporte você fazia?

 

R- É natação mesmo que eu gostava. Natação. Então...mas era uma vida mais...muito mais restrita, muito mais restrita. Aí eu resolvi trabalhar. Fui trabalhar numa...loja; lembra a Casa Moysés? É eu fui trabalhar lá. Comecei lá.

 

P/1- Com quantos anos?

 

R- Ah, com quinze anos. Comecei a trabalhar.

 

P/1- O que que você fazia na Casa Moysés.

 

R- Não. No começo era recepcionista que hoje chamam de recepcionista, mas seria uma coisa similar. Depois eu trabalhei numa empresa...

 

P/1- Como é que você pediu? Como você conseguiu chegar lá?

 

R- Sozinha, sozinha. Sozinha.

 

P/1- Você chegou lá...

 

R- Sempre fiz tudo só.

 

P/1- Como você descobriu que tava precisando lá?

 

R- Eu acho que eu passando por lá...eu devo ter...É, o que eu me lembro é isso, eu vi uma...um anúncio. Porque eu sempre andei muito. Eu gosto muito de andar e ando até hoje. E eu tenho um olhar, assim, fui estudar música também, um olhar bem observador, né, e analítico, infelizmente. Analítico, infelizmente. Então foi isso.

 

P/1- Aí você trabalhava e estudava à noite? Como é que foi?

 

R- Aí eu trabalhava, depois deixei um pouquinho de estudar, depois eu voltei a estudar, né.

 

P/1- Você namorava nessa época?

 

R- Eu...eu era, verdadeiramente eu acho que eu teria vocação religiosa que foi desviada, é isso. Eu talvez tivesse uma vocação religiosa e essa vocação ela foi desviada no sentido de eu ficar com a família. Não, não namorava não.

 

P/1- Ia em festas, baile?

 

R- Era de costume...Não, de jeito nenhum, de jeito nenhum. Eu era aquela católica mesmo que hoje, não, já chamavam mesmo de carola naquela época.

 

P/1- Mas você tinha amigas?

 

R- Tinha poucas amigas...não, eu tinha uma amiga, mas eu sempre fui voltada para pessoas de idade e era uma senhora de quase oitenta anos; eu saía com ela. Ela gostava muito de ir pra lá, pra cá e eu ia. E...e eu sempre soube ouvir muito bem. Eu sei ouvir, então as pessoas que gostam de falar, sempre ficam perto de mim porque eu sei ouvir (riso). Então, essa senhora, eu saía muito com ela.

 

P/1- Aí você fez o ginásio, aí vocês ficaram Santos até que idade?

 

R- Até...ficamos uns cinco ou seis anos em Santos.

 

P/1- Aí vocês voltaram pra São Paulo.

 

R- Voltamos pra São Paulo...

 

P/1-  Por que que sua mãe decidiu voltar pra São Paulo?

 

R- Porque em Santos ela achou que não teria, assim...em Santos naquele momento, não tinha nem possibilidade de emprego e...enfim, a vida ficou, assim, meio estagnada. Então nós voltamos pra São Paulo.

 

P/1- Ela e os onze?

 

R- Não eram onze, mas ela e os, e os que ela tinha, né. Os dois que nasceram em...os três que nasceram em Santos. Aí já eram oito naquele momento.

 

P/1-  Aí vocês vieram pra onde aqui em São Paulo?

 

R- Aqui nós viemos morar já no Centro. Porque eu comecei a trabalhar numa empresa que era, se chamava Esnar. Não sei se você ouviu falar. Esse João Esnar, ele era muito amigo do papai, porque o papai era congregado Mariano e era amigo. E...e ele arrumou o em...o trabalho pra mim e pros meus, pros meus irmãos. Nós começamos lá a trabalhar aqui em São Paulo.

 

P/1- Aí no Centro, que lugar do Centro? Você...

 

R- Avenida São João, um mil e quatrocentos.

 

P/1- Era uma casa ou um prédio?

 

R- Não, não, lá era a empresa. E nós morávamos perto na Cintra.

 

P/1- Era uma casa ou um apartamento?

 

R- Era uma casa, era uma casa. Uma casa.

 

P/1-  Você já tava com quantos anos?

 

R- Ali eu já tava com uns dezesseis anos, dezessete, mais ou menos.

 

P/1-  Aí você foi trabalhar na Esnar?

 

R- Na Esnar.

 

P/1- Que que você fazia lá?

 

R-  Ah, eu, é, trabalhei, trabalhei na tesouraria e os meus irmãos trabalhavam na expedição. Começaram, assim, bem simplesinhos. Inclusive esse meu irmão do teatro também.

 

P/1- Aí você ficou quanto tempo na casa Esnar?

 

R- Eu fiquei pouco tempo porque eu fui chamada pelo que seria o INPS posteriormente, que era o... o IAPI. Então...

 

P/1- Você fez concurso?

 

R- Não porque eu era menor ainda, quando entrei lá. Entrei como contratada, fiquei, depois fui regularizada pela CLT e fiquei até 1973 lá.

 

P/1-   Mas quem chamou pra ir lá? Você se inscreveu?

 

R- Quem me chamou foi o superintendente médico que era a... o primo da minha mãe. Tinha vagas numa carteira de acidentes de trabalho e eu fui trabalhar lá. Então eu trabalhei; Foi muito interessante trabalhar na Previdência porque se vê muito coisa.

 

P/1-   Que que você viu? Conta os causos pra gente.

 

R- Vários, vários, vários.

 

P/1- Lembra de alguns?

 

R- A situação pior, é a situação da Previdência, é questão de que o segurado por ter direitos...então, eu trabalhava num posto de assistência médica na Rua Santo Antônio. Esse posto abria sete horas da manhã e o pessoal entrava. O que mais ocorria era extração de dente porque eles levavam o atestado e não iam trabalhar. Essa era a constância. Ou então, levar os filhos para cirurgia de garganta, para operação de amígdalas. Ai! Então era uma procissão de mães querendo que os filhos, que os filhos operassem. Isso, então, aquelas filas intermináveis. E aquelas filas...pode se dizer que três quartos daquelas pessoas não teriam necessidade nenhuma de assistência médica. Era apenas o exercício daquele direito e uma maneira de...uma fuga evidentemente do seu meio, né. Do seu próprio meio. Aquela situação... E uma outra particularidade que é do, é característica do povo de gostar de remédio. Gostar de remédio. Isso aí é uma característica extremamente marcante.

 

P/1-  Você ficou quanto tempo nesse trabalho?

 

R-  Dez...é...doze anos eu fiquei.

 

P/1- E aí por que que você saiu?

 

R- Eu saí justamente, um dia saí e não voltei mais. Saí na hora do almoço e não voltei mais.

 

P/1- O que que aconteceu?

 

R- Não, não acontece..aconteceu que eu tinha me voltado mais pra música mesmo, então, a minha intenção era...viver só da música. Mas aí foi difícil.

 

P/1- Como é que você entrou na música? Que dizer, você teve essa vivência em casa...

 

R- É a vivência em casa, depois eu frequentei o Conservatório também.

 

P/1 -  Com quantos anos?

 

R-  Aí, bem cedo. Eu comecei estudando em casa piano com a minha madrinha que era é, eu já mencionei, e depois eu fui pro Conservatório pra tirar o diploma. Mas eu me afastei do piano totalmente porque eu tinha um trauma, e tenho até hoje, do piano. E...mas depois fui estudar canto e justamente no estudo de canto eu me saí bem e eu pensei...

 

P/1- Com quem você foi estudar canto?

 

R- Inicialmente com a professora do próprio Conservatório que se chamava Zaira Bianchi? Era uma professora italiana muito interessante. Ela veio da Itália também, depois ficou no Brasil e ela dava aulas de canto. Aluna daquele que eu já mencionei que era o Francisco Murino. Posteriormente tive outros professores de canto, vários professores, né, até...mas...e como eu era formada em canto, eu fui depois trabalhar nos conservatórios dando aula. Aulas das matérias complementares da música.

 

P/1- Qual foi o primeiro conservatório que você foi dar aula?

 

R-  O primeiro se chama Instituto Normal de Música. Era no Tatuapé, tinha duas unidades. Isso foi em 1977. Depois eu dei aula no próprio Dramático dois anos. Depois eu dei aula no Conservatório de Bairro e...e valeu. Valeu muito isso, muito, muito. Eu, por mim, só daria aulas porque eu gosto de dar aula. Agora, não é possível se viver só de aulas, né. Não é possível, não é possível. Músico...

 

P/1- Mas aí você foi dar aula, depois você complementou a renda, mas você ficou na casa da sua mãe até quando?

 

R-  Aí, eu, eu sempre fiquei com a mamãe.

 

P/1- Você mora com ela até hoje?

 

R- Não, não. Hoje não. Agora, há uns...questão de uns quinze anos eu já não moro mais com ela. Mas eu morei a vida toda com a mamãe. Acompanhei toda a evolução do...e todo o crescimento e toda a educação dos filhos dela, né, que são meus irmãos. Que aliás eles têm uma consideração filial mesmo comigo, né, por tudo...

 

P/1- Todos são vivos?

 

R- São. Por enquanto...

 

P/1- Vocês se encontram, se vêem?

 

R- Por enquanto (risos). São, todos vivos. Não, nós nos encontramos sim, porque estão sempre todos próximos, né.

 

P/1-  E até...aí você ficou dando aula quanto tempo? Que você disse que não conseguia viver só de aula...

 

R- Em casa também, é , eu dava aula em casa também. E aí, é... justamente isso, era muito minguado esse rendimento de aulas. Mas como eu estava com a mamãe, aí eu prestei um concurso pro Coral do Estado. E...fiquei no Coral do Estado até, o Coral do Estado de São Paulo, que depois se dissolveu e aí eu passei pro Teatro Municipal. Isso faz dezessete anos.

 

P/1- Você era do Coral do Estado de São Paulo?

 

R-  Também.

 

P/1- Vinculado à Secretaria Estadual de Cultura?

 

R- É...é, mas naquele, não ele foi criado e mantido pelo Baneser. Quando o  Baneser fechou, quando o Baneser quebrou, o Coral, hoje o Coral é o Coral da OSESP. O Coral da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Mas naquele momento era o Coral do Estado, era uma idéia do maestro Elias de Carvalho e...que o Estado tivesse um como o Teatro Municipal. O Teatro Municipal tem o Balé, tem a Escola de Balé. O Teatro Municipal tem dois corais, tem a Orquestra Sinfônica Municipal. A Idéia do Elias de Carvalho era que o Teatro, que o Estado tivesse um Balé, uma Escola de Música também, o Coral do Estado ele até...o Coral do Estado ele atingiu, mas depois ele...

 

P/1- Mas é, eu não entendi. Você não foi pro Coral da OSESP, você foi pro Teatro Municipal.

 

R- Não, não. O Baneser, o Estado abriu concurso para a formação do Coral do Estado. O Coral Oficial do Estado...Então eu fiz esse concurso, mas esse coral era vinculado ao Baneser, né. Então depois de pouco tempo, de um ano e meio mais ou menos, ele se dissolveu...o Coral se desfez. Aí ele passou esse Coral, ele passou para a Fundação da OSESP, que a OSESP é uma Fundação, né. E eu fui para o Coral do Teatro Municipal, porque precisavam de vozes como a minha, eu como tenho mais predileção pela música lírica, eu fui para o Coral do Teatro Municipal. Saí de lá e fui pro outro Coral.

 

P/1- Você lembra qual foi a sua primeira apresentação?

 

R- Como solista?

 

P/1- É.

 

R- Eu me apresentei sempre como solista, tanto de flauta como de...

 

P/1- Você virou quando solista?

 

R- Olha, eu virei solista não como cantora, primeiro como flautista. Então eu tinha...tocava juntamente com uma colega minha, flauta e violão. Toda a...todo um repertório erudito de flauta e violão, desde o Barroco até Música Contemporânea. Depois, quando eu entrei no Teatro Municipal, eu fiz bastante apresentações é... como solista. Mas solista eu gosto muito de música de câmara e música brasileira. Eu me apresentei algumas vezes.

 

P/1- Música brasileira, qual o repertório?

 

R - Olha, erudito. O repertório da música brasileira de câmara é muito extenso e muito bonito, muito bonito, muito bonito.

 

P/1-  E como é que era o Municipal, a plateia? Como é que era aquele momento? Que década que a gente tá falando? Dos anos...

 

R- É. Eu entrei no Teatro Municipal recentemente. Eu entrei em 1994 no Teatro Municipal. Mas a pla...eu sou plateia do Teatro Municipal desde os cinco anos de idade. Eu sempre frequentei. A plateia tradicional do Teatro Municipal, ela não existe mais. Aquela plateia muito, muito chegada só à música lírica, à óperas, mas determinadas óperas, que era o padrão daqueles descendentes de italianos que frequentavam a plateia do Teatro Municipal. O Teatro Municipal depois mudou muito, evoluiu, no aspecto ópera mesmo, porque as últimas...vamos dizer, os último vinte anos,  as óperas que são apresentadas, elas têm uma conotação muitíssimo mais avançada do que os limites de anteriormente, né. Então se convida grandes diretores de teatro. O que às vezes causa problema porque o teatro, o teatro de prosa é uma coisa e o teatro de ópera é outra...Então quando um diretor de teatro chega no palco do Teatro Municipal, ele vê noventa cantores do coro, mais os solistas, mais a orquestra, mais o maestro, é lógico que dá um desespero para o diretor de teatro. É muito complexo pra ele marcar, porque ele tem que marcar de acordo com...o vocal, de acordo com a, com toda a situação vocal em primeiro lugar. Então ele formar os grupos e fazer essa marcação é complexo, é muito complexo. E...mas tem dado resultados interessantes.

 

P/1 - E você tava falando do Municipal.

 

R- É, o Municipal é muito interessante, porque é um projeto do Mário de Andrade do tempo que ele foi Secretário de Cultura. Então ele criou uma situação cultural em que o Teatro, o Teatro Municipal fundou um coral, que hoje é o Coral Paulistano. Nós temos dois corais no teatro Municipal: O lírico, que seria específico para música dramática, ópera; e o Paulistano que é um outro coro que se especializou em várias formas musicais. Esse é do Mário de Andrade que foi criado em 1936. E depois, tem o... Coral Lírico que veio posteriormente, um pouquinho depois. Esses dois corais atuam simultaneamente, cada um na sua, na sua...performance, né. Agora, é muito interessante, o trabalho é muito interessante. É preciso que o indivíduo tenha um perfil também, específico, porque n...específico porque não é fácil, é muito complexo. Você não vai cantar o que você quer ou o que seria adequado, você vai cantar o que foi determinado - e isso é muito importante - o que foi determinado por outrem. Quer dizer, a situação do...da programação anual do Teatro. Então, é...o cantor, ele próprio tem que se adaptar àquilo que é proposta, né. Seja ou não, esteja ou não de acordo, né. Então essa programação é feita pela direção artística e depois é submetida aos corpos estáveis, que são chamados o Balé, a Orquestra e os coros.



P/1- Então você virou, hoje você é funcionária do Municipal? Da prefeitura?

 

R- É, é, não sou funcionária, porque eu não entrei...nós somos prestadores de serviço, não existe mais concurso. O último concurso foi em 1977.

 

P/1-  E você ficou como prestador estável?

 

R- Prestador estável, é, mais ou menos, mais ou menos.

 

P/1- Mas vai ter aposentadoria?

 

R- Não, isso cada um busca por si próprio. Eu posso pagar por conta própria e me aposentar.

 

P/1- Você disse que você veio dar o depoimento para sua mãe. O que que você gostaria de deixar registrado?

 

R- Olha, eu vim em nome da mamãe porque a mamãe tem noventa anos. E eu gostaria, eu conto muitas histórias de família e eu, da família da mamãe que é a família Decamires, eu me interessei muito pelo percurso dessa família, pelo percurso dessa família e pela importância que eles tiveram em São Paulo, principalmente esse meu bisavô. Ele foi um homem de luta, foi um homem que conseguiu muita coisa e...então pra eu não contar toda hora para os outros, eu pensei em deixar esse depoimento, que ficasse, que deixasse algum...

 

P/1- Fala um pouco da trajetória deles.

 

R- Então, Antônio Decamires veio pra São Paulo no final do século dezenove...e aí ele começou a trabalhar no Banco Real como escriturário...

 

P/1- O Antônio Decamires é o seu avô?

 

R- É o bisavô.

 

P/1-  Bisavô, o pai do seu avô.

 

R- E ele começou e logo depois ele, ele...ele tinha muita habilidade para negócios e aí ele se aliou ao Matarazzo que eram da mesma região. E aí eles começaram a trabalhar, fundaram...ele, ele construiu e se...e ele se...aliás, antes disso ele se casou com a Maria Amélia Rodrigues Alves, né. E aí ele começou a trabalhar por conta própria e fundou esse lanifício, que é o lanifício Ítalo Paulista, fundou essa casa bancária e tinha uma cerâmica, ele gostava muito disso e... trabalhava como benemérito, trabalhava? Ele era um grande benemérito, né, um grande benemérito. Ele foi uma pessoa de muito valor, de muito valor. E...teve os, ele teve...ele teve um filho que é o Antônio Decamires Filho, que se casou com a minha avó que era prima-irmã dele. Então a minha mãe é Decamires dos dois lados, por isso que eu tenho essa... essa...afeição, porque é uma mesma, ela não, não se dividiu essa família. Esses dois primos-irmãos se casaram. Minha avó viveu pouquíssimo, morreu com trinta e sete anos e minha mãe ficou como órfã sob a tutela desses tios que eu mencionei, os solteiros.

 

P/1- E aí?

 

R- Aí ela foi...ela estudava no Colégio Santa Inês, depois foi pro conservatório e...aí teve aquela sequência que eu contei, né. O interessante é que a trajetória dela e do irmão dela que são esses dois órfãos foi diferente da, da família. Porque a família se abalou, assim, um pouco com as atitudes independentes dos dois, da minha mãe e do meu tio. Ele por se casar com uma atriz, que naquele momento, nossa! Era acabou!

 

P/1- Com que atriz ele casou?

 

R- Ele casou com a Ema Daver, esse meu tio né. Era, naquele momento, não era atriz, era vedete em São Paulo, então a situação dele ficou gravíssima. E meu pai não era aquele que elas tinham determinado, que eles tinham determinado pra minha mãe se casar. Então, a minha mãe teve que casar em sigilo porque eles iam mandar a mamãe pra Itália pra ela não se casar com o meu pai; era assim, era assim que eles agiam. E ficou muito interessante, uma história muito interessante. Ela foi avisada antes e aí ela se casou em sigilo com o meu pai.

 

P/1- Escondida?

 

R- Escondida mesmo.

 

P/1- Como é que ela fez?

 

R- Ela fez porque ela ia ser mandada pra Itália, mas uma outra tia que era casada com um tio telefonou pra ela pra, pra, com o pretexto de um visita ela saiu de casa e não voltou mais. Se não ela teria ido sim.

 

P/1- Aí ela avisou, ela comunicou que estava casando?

 

R- Depois, depois, depois eles adoravam o meu pai, depois eles se davam muito bem com o meu pai. Mas naquele momento...naquela época era muito complicado porque as famílias determinavam o casamento, né. Determinavam o casamento dos filhos com pessoas do relacionamento deles mesmos. Eles davam festas e bailes nas casas deles todos e todos se conheciam e já tratavam dessa questão de casamento. Com a camada que se frequentava. E meu pai era uma figura de fora, completamente de fora. Mas...

 

P/1- Aquele tio que você mostrou a foto pra gente...

 

R- Qual deles? O Decamires, O Antônio Neto? Esse é o casado com a Ema Daver, que é o irmão da minha mãe.

 

P/1-  Isso, que é o irmão.

 

R- Esse é o irmão da mamãe. O Antônio Decamires Neto. Que estudou no Liceu também tem a formação Salesiana também, é aquele que tá na fotografia que você viu, né. Então, ele era interno, ele só saía nas férias e a minha avó ia visitar todo, todo final-de-semana. Eles internavam os filhos nas escolas, né. Então, é isso.

 

P/1- Até quantos anos você morou com a sua mãe? Até há quinze anos atrás.

 

R- Até quinze anos, atrás.

 

P/1- E por que você resolveu sair?

 

R- Porque eu achei que deveria, por...é, sair, por. Por uma razão muito simples, não se pode...eu estaria vivendo a história que não era minha, né. Eu não tenho história particular, no sentido de que eu vivi a história de outros. Isso é um, é um fato que eu não...agora dizendo com todas as letras, né, eu sou muito realista, muito madura e posso dizer. Quer dizer que eu estou na história de outros. Eu estou na história de outros. É essa a sensação que eu tenho. Então num determinado momento eu achei que eu poderia...ficar um pouquinho, mas não fiquei, não fiquei porque eu sou tão agregada a todas essas, todas essas situações...Eu estou sempre, assim, rodeada das mesmas pessoas e...fazendo praticamente as mesmas coisas. Então eu fiquei, assim, para essa situação.

 

P/1- Como que é sua rotina de trabalho e de vida?

 

R-  De vida? Eu levanto bem cedo vou para o teatro das nove ao meio dia e meia, à tarde eu dou aulas, né. Eu também faço algumas coisas pra mim. Por exemplo, eu gosto muito de Artes  Plásticas, eu sei...eu pinto, desenho e...procuro ampliar um pouquinho meus conhecimentos, na medida do possível.

 

P/1- E você se apresenta hoje?

 

R- Eu no momento não estou me apresentando. Não estou porque eu estou voltada justamente para uma questão de fazer um levantamento de certas situações. Então eu fico voltada para esses afazeres. Eu prefiro realmente dar aula, prefiro mesmo. E eu tenho meus alunos e...também amplio um pouquinho o meu campo de atuação,vamos dizer, mais introspectivo pra eu poder fazer alguma coisa, deixar alguma coisa, deixar alguma coisa.

 

P/1- E você mora sozinha hoje?

 

R- Moro, moro. Eu gosto muito, eu moro e viajo sozinha também. Eu...aliás, eu sempre convivi com muitas pessoas, então eu sempre procurei a solidão...não a solidão, aquela solidão, mas eu sempre procurei. E também eu posso viajar...por exemplo o individualismo. O individual. Eu estou sempre comigo mesma, sempre, sempre. Posso estar no meio de uma multidão...eu estou sempre comigo mesma. Eu adquiri um eixo próprio em que eu posso transitar comigo mesma, sem a interferência, sem que uma interferência agrida a minha maneira de ser. Isso pra mim é importantíssimo, é vital, vital, vital. Aconteça o que for, o que for. Eu sou capaz de viajar daqui ao Japão sem, sem abrir a boca. Porque eu tenho, assim, uma sustentação psicológica que me dá essa condição, agora. É isso. Acho que eu falei demais.

 

P/1- Qual o seu maior sonho?

 

R- Nenhum. Eu não sou de sonho. Eu não tenho essa, eu não tenho essa visão da vida, não tenho. Não tenho porque eu acho que o momento é conturbado. A própria vida, a condição humana é extremamente conturbada e ninguém garante nada pra ninguém. Não existem garantias solidificadas, eu acredito hoje. Existe o imediatismo na sociedade, imediatismo. Além do consumismo e todos esses elementos que a gente vê, mas existe um imediatismo...que eu diria superficial, é uma opinião particular, é uma conclusão. E faltando um certa essência, não dá, é impossível. Sonho, eu acho impossível. Eu acho que cada momento se deve realizar o melhor possível a cada momento. É isso que eu penso. Considerando a situação em que se está. O melhor possível, o mais ético possível, o mais limpo possível, a cada momento. Com a verdade de cada um, evidentemente. E isso é pesado, é muito, muito pesado. Para adquirir a condição e a liberdade para se poder agir dessa forma, é muito pesado, é muito difícil, é muito difícil. Então existe um...um certo peso nisso.

 

P/1- Maria José, o que que você achou da experiência de dar esse depoimento?

 

R- Achei, da minha parte, eu achei um pouquinho de, de pretensão, um pouquinho de pedantismo meu, porque eu verdadeiramente eu não teria, assim, vontade de falar....de mim. Não teria. Teria vontade de falar de outras pessoas que foram importantes na minha vida. Mas de qualquer maneira eu fico extremamente agradecida. Muito agradecida pela receptividade...

 

P/1- Mas você pode falar você pode falar das pessoas, pode falar mais.

 

R- Não, eu sei. Mas eu fico muito agradecida com a receptividade. Gostei muito. Acho isso importantíssimo, cada ser é singular. Isso é muito importante. A singularidade de cada ser humano, que eu acho extremamente benéfico e a...o poder de manifestação, porque aqui, cada indivíduo que vem, ele tem, o poder de dizer ele próprio, e de se manifestar da maneira que ele, que ele, espontânea. Dele, dele mesmo. Sem nenhum artifício, o que é fundamental. Não tem, não há espaço para artifício nenhum, há espaço sim pra espontaneidade. E isso é difícil, é difícil. Porque a espontaneidade ela é uma...a espontaneidade verdadeira, ela é uma doação, né, uma doação. O depoimento já é uma doação.. Uma doação de verdades, né, sem, sem, usar de...uma máscara. Isso é inconcebível, nesse momento, por exemplo, principalmente a partir de um certo momento na vida, a máscara não cabe mais. Não cabe mais. Quanto mais se puder ser gente, no sentido mesmo, é... no sentido amplo da palavra, melhor, melhor. Porque é muito, é muito importante. E eu acho que aqui dentro seria uma lugar mesmo, seria não, é um lugar de verdades. Da verdade de cada um e da contribuição de cada um. O mais anônimo possível terá sempre alguma coisa a dizer. Isso eu acho importantíssimo, importantíssimo. Como registro e como prova de vida. Principalmente para nós, brasileiros. Porque o Brasil é aculturado. Ele já teria que...já teria não, já tem um perfil. Mas a desculpa da aculturação, é uma desculpa relativa porque de repente aparecem, aparece os traços, aparecem os traços daquela influência maior que se tem. Isso é muito bonito, é um colorido muito bonito. É a questão do coro. O coro do Teatro Municipal -  eu vou só dar um exemplo - é um coro de solistas. Esse coro não é um coro de uma raça só, então ele tem um colorido diferente. Não é um coro germânico que você vê de "fio á pavio" todos com as mesmas, é, com as mesmas nuances matizes tendências. Não, é um coro de brasileiros, e o brasileiro, cada um com a sua contribuição, é muito bonito isso. E se vê também em todas as situações, que estuda folclore vê em todas as situações e de vida. Da vida comum.

 

P/1- Maria, pegando um gancho, você falou que estudou folclore, que você estuda. Quando que você começou a estudar?

 

R-  Estudei. Olha, estudei. Eu tive uma certa restri...Eu fui aluna da Escola Municipal de Música também. Mas o...eu conheci o Rossini Tavares de Lima que foi um grande professor de folclore. Então com ele eu fiz um curso na Escola Municipal, também o fiz. Eu era muito, assim, restritiva com as manifesta...e me apaixonei demais. E me apaixonei pelo sincretismo religioso do Brasil. O sincretismo religioso é muito interessante. Aí eu fui por esse caminho e dei aulas de folclore também dos usos e costumes nossos, né.

 

P/1- Quando você entrou no Conservatório Musical?

 

R- Do...Dramático?

 

P/1- Do Dramático.

 

R- Aí, quando eu tinha quatorze anos. Faz tempo.

 

P/1- E o folclore?

 

R- Não, o folclore foi bem mais recente. Quando eu entrei na Escola...

 

P/1- Por que você sentiu essa necessidade?

 

R-  Do folclore? Não, o folclore era matéria que constava na Escola Municipal. Aí eu comecei a me interessar porque a professora, que é uma compositora também, a Adelaide Pereira da Silva, era muito boa professora de Folclore. E eu comecei então, a observar, a observar o entorno. Observando o entorno você já encontra muita coisa. E aí, foi, foi muito bom pra mim. Foi muito bom. E depois com os alunos...e outra coisa que o folclore dá: A valorização de cada meio. Isso é muito bom pro aluno. O aluno não sair do seu próprio meio para ir buscar outros elementos quando ele tem na própria cultura, né. É muito bom, muito bom, muito importante. Uma matéria importantíssima. O folclore é uma matéria de pós-graduação muitíssimo importante. A que se dá escola é são elementos, né, elementos da matéria, mas é muito importante.

 

P/1- Você falou mais da sua mãe, da trajetória dela. Aí você falou que queria falar de outros personagens da sua família que foram importantes pra você. Comenta um pouco.

 

R- É, essas pessoas que eu mencionei que foram os Decamires foram muito importantes pra mim. Eles enfeitaram muito a minha infância. Eles foram ponto de apoio também quando eu perdi meu pai. E são pessoas de coragem acima de tudo. As mulheres Decamires elas foram mulheres extremamente corajosas. Extremamente corajosas. Firmes, silenciosas e cheias de segredos impenetráveis. Isso que é interessante nelas. Todas, todas.

 

P/1- Tem alguma tia, tio que você quer...

 

R- É, eu queria...essas três que eu mencionei, que foram as fadas da minha infância e tem uma que é prima da mamãe e eu não mencionei. Que se chamava Irene. Essa, essa prima da mamãe, ela é filha da...de uma Decamires e o pai dela foi importante porque ele fundou o setor de radiologia em São Paulo. Era o Doutor Giovani Priori. Era o pai dessa prima da mamãe. E ela sempre foi uma figura muito interessante. Ela parecia uma artista de cinema e ela frequentava...era, assim, isolada das outras porque ela não teve filhos e ela vivia entre aqui e a Europa. Então ela teve uma vida, assim, muito interessante. E essa,é... a última pessoa que ficou com ela, justamente fui eu. Fui eu. E...então, quando esteve o...em São Paulo, o representante, o... o último rei, príncipe da Itália. Eles visitando o Hospital; eu trouxe até essa fotografia; ele...ele teve uma entrevista com o pai dessa minha prima. Aqui eles foram muito interessantes, é...o que eles fund...é o pai dela foi muito importante no setor de radiologia de São Paulo. Então, é uma figura interessante, mas que a gente via a muita distância, porque ela tinha uma postura...uma postura mesmo de...de artista. Ela era extremamente bonita também e vivia uma vida extremamente superficial, no sentido de que ela não tinha atividade nenhuma, como os outros, né. Acho que falei demais já.

 

P/1- Tá ótimo.

 

R- Falei demais. (risos)

 

P/1- Acho que podemos encerrar Abreu.

 

R- Olha, eu agradeço muitíssimo, muitíssimo, toda a receptividade e toda a atenção. Eu estou extremamente grata. E sem qualquer pretensão. (risos)

 

P/1- Obrigada.

 

R- Obrigada vocês.

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