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História de: João Câncio Póvoa Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/05/2020

Sinopse

Nasceu no Rio de Janeiro. Seu nome faz referência a um santo pouco conhecido, São João Câncio. O pai era engenheiro civil foi professor catedrático da Escola Politécnica. Os pais são goianos: mãe tataraneta de Bartolomeu Bueno, pai descendente da família de Póvoa de Portugal. Vida dedicada ao estudo. Infância: Carnavais do Rio, piqueniques, idas ao Observatório, futebol, Urca, música lírica. Veio para São Paulo para estudar engenharia na Escola Politécnica, em 1934. Fez crítica de ópera, era amigo de Mário de Andrade. Engenheiro Sanitarista. Se formou e foi trabalhar em escritório de engenharia, na parte de água e abastecimento. Fez curso de abastecimento na Universidade North Carolina (EUA). Depois foi trabalhar com saneamento no Vale do Rio Doce, controle de malária, esquistossomose, lepra. Foi para Grécia trabalhar e rodou o mundo: Inglaterra, China, entre outros. De volta ao Brasil foi trabalhar no Banco Mercantil e depois de quinze anos no banco, entrou na Votorantim, em 1983.

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História completa

P/1 – Boa tarde, doutor João. Primeira coisa que eu gostaria de saber é o seu nome completo, o local do seu nascimento e a data do seu nascimento.



R – Eu me chamo João Câncio Póvoa Filho. João Câncio é prenome, que meu pai nasceu no dia de São João Câncio. É um santo que eu custei a descobrir. É muito pouco conhecido, mas não vem ao caso. Então, o meu nome é João Câncio Póvoa Filho. Nasci no Rio de Janeiro, no dia 18 de dezembro de 1916.



P/1 – O senhor falou a origem do nome do senhor, o santo João Câncio. Ele é protetor…



R – Isso eu não sei. Eu levei praticamente, não vou dizer 80 anos, mas para descobrir. Um dia uma amiga minha me mandou uma folha da revista, de uma revista americana dizendo que em Chicago, onde eu estive, mas que não conheci, havia a igreja de São João Câncio e igreja que estava sendo encarregada de tentar a recuperação da igreja católica, que eles achavam… Achavam e acham que está sendo suplantada pelos evangélicos. Então, foi a igreja de São João Câncio em Chicago, lá é a sede dessa recuperação da igreja católica. Esse santo é um santo polonês de 1492. Engraçado, o ano que foi descoberto a América e que depois foi reconhecido pelo Vaticano bem mais tarde. Mas no Brasil é um santo, não posso dizer, sem prestígio, porque é feio (risos).



P/1 – Doutor João, qual o nome dos pais do senhor?



R – Meu pai era João Câncio Póvoa, engenheiro civil, professor catedrático da Escola Politécnica de São Paulo e enquanto o diretor da escola era o Conde Paulo Frontin, de maneira que a minha casa estava sempre cheia de professores e deputados. Isso é no tempo em que um senador era uma pessoa importante. Basta lhe dizer que naquele tempo, na Escola Politécnica, todos os professores davam aula ou de fraque, ou de sobrecasaca. Quando eu vim estudar em São Paulo, justamente que meu pai achou que eu não poderia estudar no Rio de Janeiro, tendo o mesmo nome dele, então vim estudar em São Paulo, porque corria o risco de dizer que passou porque era o filho do professor da Escola Politécnica. E um dos professores aqui, cujo nome eu não vou dizer, estava de gravata borboleta. Eu, então, disse ao meu pai: “Imagina ter um professor lá de gravata… ” “Meu filho, essa escola não pode prestar.” (Risos).



P/1 – E qual era o nome da mãe do senhor?



R – Mariana de Loyola Póvoa, da família tradicional de Goiás. Meu pai também goiano. Minha mãe é tataraneta de Bartolomeu Bueno, o Anhanguera. E meu pai é descendente da família Póvoa lá do norte de Portugal. Eram três irmãos Póvoa que vieram não sei em que ano. Um estabeleceu-se em Campos, estado do Rio, onde há muitos Póvoas que eu não conheço. Outros de Goiás, é o ramo ao qual eu pertenço; e o terceiro ramo é do Rio Grande do Sul, que eu não conheço ninguém.



P/1 – Doutor João, o senhor nasceu no Rio de Janeiro?



R – Sim.



P/1 – O senhor sabe por que a família do senhor veio para o Rio de Janeiro?



R – Sei e vou lhe contar. Minha mãe era a moça mais bonita de Goiás. Goiás Velho, não é Goiânia, não. É Goiás Velho, cidadezinha de cinco mil habitantes. Ela morava na casa da minha avó, era ao lado da casa da Cora Coralina, Goiás Velho. Muito bem. Minha mãe era a moça mais bonita de Goiás e as moças das boas famílias daquela época tinham muita dificuldade de achar com quem casar, porque os rapazes das boas famílias saíam para estudar em Ribeirão Preto, São Paulo, Rio de Janeiro. Então, as moças das boas famílias tinham que se casar com funcionariozinho do Correio, da farmácia, tal. Um belo dia, apareceu em Goiás um juiz de Direito, baiano, um homem de 35 anos. Minha mãe tinha 13. O único lugar que minha mãe ia, era… Minha avó, que era senhora extremamente braba e austera, daquelas que usava camafeu aqui. O único lugar que ela ia era no cemitério aos domingos com minha avó. E este juiz de Direito viu minha mãe no cemitério. Apaixonou-se por ela, pediu em casamento. Minha mãe fez 14 anos no dia 7 de novembro, foi casada no dia 8 com esse doutor Manoel Lopes de Carvalho Ramos. Então, com 15 anos minha mãe teve o primeiro filho. Eu tive… Então, teve cinco filhos, quatro homens e uma mulher. Acontece que depois de ter tido em Goiás quatro filhos, o doutor Carvalho Ramos ficou doente das faculdades mentais. Goiás não tinha hospitais, não tinha médico, não tinha nada. Então, minha mãe (isso era uma boa novela para Globo) veio no lombo do burro na tropa até Ribeirão Preto, revezando então, trazendo o marido doente e um dos filhos para levar para o Rio de Janeiro, onde ela tinha um senador, parente, doutor Bulhões que internou, finalmente, o primeiro marido dela no hospício. Naquele tempo era assim e até hoje é ainda um pouco. O tratamento era choque elétrico, de insulina, choque de insulina ou choque elétrico. E de tanto choque elétrico, de vez em quando ele melhorava, saía, ia para casa. Então, no Rio de Janeiro nasceu o meu quinto irmão materno. Bom, finalmente, o doutor Carvalho Ramos morreu. Minha mãe ficou viúva no Rio de Janeiro com cinco filhos. Meu pai, que já a conhecia de Goiás, também goiano, foi para o Rio de Janeiro, foi para a Escola Politécnica, nesta altura já era professor da Escola Politécnica. Encontrou a minha mãe no Liceu goiano onde eles iam ler poesias e tal. Já a conhecia, pediu ela em casamento e casou com ela, viúva com cinco filhos. Então aí, do segundo casamento, minha mãe teve dois filhos: minha irmã, Estela Regina, advogada, e eu, João Câncio. 



P/1 – E o senhor chegou a conhecer seus avós?



R – Eu conheci minha avó materna, Mariana. Uma irmã dela chamada Lalinda, que morreu no Rio de Janeiro de febre amarela, mas naquela época acharam que ela tinha morrido, ninguém sabia nada de saneamento, de febre amarela, porque tinha comprado, passavam aqueles vendedores, então ela comprou melancia quente com o calor do meio dia, comeu a melancia. Então, o diagnóstico é: “Morreu porque comeu melancia quente.” Mas ela morreu de febre amarela. Eu conheci meus avós, porque, na realidade, eu e minha irmã, Estela Regina, nunca fomos a Goiás. Eu pretendo, antes de morrer, se possível, ir a Goiás Velho, conhecer Goiás Velho. Nunca fui. Então, eu conheci os parentes goianos que vinham ao Rio de Janeiro nos visitar. De vez em quando eles vinham… Naquele tempo era viagem longa, eles vinham para fazer compras, para ir ao médico, esse eu conheci, mas não todos. E o curioso é que cada vez que eu tenho a chance de ir a Goiás, conhecer Goiás Velho, entendeu? Ainda agora, a pouco tempo, eu tive a chance de ir com uma colega da Votorantim, acontece alguma coisa que eu não posso ir. Mas eu, antes de morrer, ainda vou lá. Eu conheço Goiás Velho muito através de relatos de meus pais e através do livro de meu irmão materno, que era um grande escritor. O livro que ele escreveu chama-se Tropas e Boiadas. Foi comparado a Os Sertões, de Euclides da Cunha. Ele era um apaixonado, fanático por Goiás e o livro é sobre Goiás e a vida goiana. Então, eu conheço muito Goiás e na minha casa, naturalmente, os hábitos goianos foram muito conservados por meu pai e por minha mãe.



P/1 – Quais são esses hábitos goianos?



R – Bom, hábitos goianos de… Em que a família é uma coisa muito importante, controle da família, certas comidas goianas e as empadas goianas, a pamonha goiana, que são cinco tipos de pamonha diferente. Mangarito, que hoje em dia não se acha mais e que se fazia em casa. O que mais? Guariroba, guariroba é um palmito amargoso delicioso que se comia em Goiás e aquelas coisas que nós recebíamos de Goiás. Passa de cajuzinho, caju pequenino fazia, porque o curioso é o seguinte, isso eu não devia dizer, mas vou dizer: o goiano não era muito de agricultura, não. Era indústria extrativa. Então, essas coisas foram acabando e aqueles doces típicos também da Festa do Divino que vinham para nós e tal. E vou lhe contar uma coisa curiosa. Minha mãe quando veio de Goiás com o marido doente, no meio do caminho, não sei, porque chegava, andava-se seis léguas por dia, entendeu? Parava, aqueles animais voltavam, pegavam outros animais e pernoitava no pouso, como eles chamavam. Numa dessas noites deu acesso no marido e ele sumiu para o mato com um dos filhos. Levaram, mais ou menos, uns quinze dias para achar. Bom, mas eu estou lhe dizendo isso pelo seguinte, por outro motivo, por que estou lhe contando isso? Então… Ah, bom, já sei o porquê. Em 1949, meu irmão materno, Américo de Carvalho Ramos, eles eram Carvalho Ramos, engenheiro, um grande engenheiro, que foi dono da Ibar [?], que vendeu o Ibar para os Moraes; um dos donos, contratou um avião e levou a minha mãe à Goiás de avião. Ela foi, naquele tempo, em duas horas. E levou o pintor Marcos Campão que era muito nosso amigo, era companheiro de bridge, e a mulher do Campão também jogava bridge comigo. Em 1949, eu já era formado há muito tempo, já tinha viajado o mundo todo. Levou a Goiás e o Campão pintou aquelas casas todas, Rio Vermelho, aquelas… Que eu via tanto meu tio, irmão de minha mãe, meu pai, minha mãe, minha irmã, minha irmã materna, Armelinda, e o Campão fez uma série de quadros, dos quais nós temos alguns. Outros, esse meu irmão Américo, não é propriamente, casou, mas vamos dizer, casou com uma senhora, cujo nome eu prefiro não dizer, e esses quadros foram para a casa dela. Depois ele morreu e ficaram lá, eu não sei que fim ela deu aos quadros, mas alguns quadros estão conosco ainda de Goiás Velho do Marcos Campão.



P/1 – Bom, e como foi a infância do senhor?



R – Minha infância, pai professor da Escola Politécnica; mãe vivia estudando; minha irmã mais velha, professora; meu irmão mais velho, advogado; meu outro segundo irmão, engenheiro; o terceiro também formou-se em advocacia, porém herdou a doença. O senhor sabe que certas doenças são hereditárias. Herdou a doença do avô. Então, depois de formado aos 20 anos, suicidou-se. Suicidou-se na corda da rede porque ele tinha rede na… A rede goiana no quarto dele. E o outro irmão, já nascido no Rio de Janeiro, último, médico, mas ele… E o meu pai era um grande, um homem de uma cultura extraordinária, grande latinista, conhecia grego. Então, a minha vida inteira foi estudar. Meu pai na cabeceira, minha irmã do lado e eu do outro. No meu tempo, eu até estive comentando isso recentemente, não havia, naturalmente, não havia televisão, não havia rádio, não havia nada disso. Mas também não havia drogas, não havia violência, não havia Aids. Então, era estudar, estudar e todo mundo na minha família era fazer curso com distinção. Meu pai achava: “Não trabalha, só estuda, não é menos inteligente do que os outros”. Então, eu fiz o curso da Politécnica no Ginásio com distinção, da Escola Politécnica com distinção. Depois quando eu fui… Depois eu conto. Em 1943, para os Estados Unidos cheguei lá, na primeira prova escrita, os professores achavam que eu escrevia inglês melhor do que os americanos, que não sabiam escrever, mas isso é outra história. Mas é que, naturalmente, fazia um pouco de esporte, mas não tinha muito tempo. Era mais natação com meu irmão. Meu irmão foi campeão de… Meu irmão materno, o mais moço, de remo e de natação. Eu não me lembro se do Flamengo, eu acho que era do Fluminense e eu ia muito com ele nadar, quando tinha tempo. Era… 



P/1 – E qual é a primeira memória que o senhor tem do Rio de Janeiro? O senhor nasceu no Rio de Janeiro, o que o senhor se lembra da infância?



R – Lembro de tudo. Eu me lembro mais da infância do Rio de Janeiro do que de hoje. Me lembro, praticamente, de eu ter uma memória muito boa. Memória melhor do que a minha conheço duas: José Ermírio de Moraes Filho e Antônio Ermírio de Moraes, que esses são de tirar o chapéu. 



P/1 – Mas tem alguma que o senhor gostaria de falar para gente? Um passeio que o senhor fazia, um… 



R – Bom, passeio, nós fazíamos, de vez em quando, fazíamos piquenique na Ilha de Paquetá. Nós morávamos, nasci perto da Quinta da Boa Vista, nós íamos a Quinta da Boa Vista… Ah, tem uma coisa muito interessante: minha irmã e eu, para nós, o passeio que nós mais gostávamos, que nós fazíamos praticamente todos os domingos, meu pai era professor também de Astronomia. Então, nós íamos ao Observatório Astronômico da Escola Politécnica, que era em São Cristóvão, no Morro do Valongo. Sabe ver o que? Ver os planetas, as estrelas duplas, as estrelas triplas. Então, ver o universo. Daí, talvez, daí, talvez, o fato de até hoje eu não tenha conseguido abraçar uma religião, ser um pouco agnóstico, porque as religiões cuidam exclusivamente da Terra e nós, desde pequeninos, vimos o universo. O inexplicável universo. Estrelas duplas, estrelas triplas, o universo que se move. Naquele tempo não havia ainda robôs e essas coisas, mas havia aquela cogitação que tenha habitantes em Marte, habitantes tal… Então, o maior passeio para minha irmã e para mim, minha irmã que foi uma grande advogada no Rio de Janeiro, hoje está aposentada com 79 anos, 89 anos, digo. Ela ia ao observatório no Morro… O diretor era um colega de meu pai, cujos filhos e filhas eram e são até hoje muito nosso amigo, doutor Orosimbo do Nascimento. Era o professor titular de Astronomia.



P/1 – Doutor João, o Rio de Janeiro sempre foi uma cidade bastante festiva. O senhor chegou a participar de carnavais na infância ou… ?



R – Bom, carnaval na infância, naquele tempo o carnaval era completamente diferente do carnaval de hoje. Antes do carnaval havia as chamadas batalhas de confete que nós íamos. Cada dia era numa rua, rua do bairro, entendeu? Que nós íamos, batalhas de confete. Então, tinha confete, lança perfume e serpentina, mas não me lembro de haver esse programa de cheirar lança perfume, isso surgiu depois, talvez produto dos filmes americanos e franceses, não sei, porque naquele tempo não havia isso. Não havia droga. Bom, depois no carnaval, nós todos, a garotada se fantasiava e uma das distrações era alugar o automóvel com pessoas conhecidas, entendeu? E tudo fantasiado, mas fantasias que tornavam a pessoa praticamente desconhecida. Fantasia de lençol, de coisa… E a gente ia no automóvel, nas capotas, visitando pessoas conhecidas e que nos recebiam com bolo, com doce. Era uma distração. E a grande distração era no domingo de carnaval, o corso. Aquele tempo todos, não existia automóvel nacional. Os automóveis eram estrangeiros e de capota abaixada. Então, fazia-se o corso. Entrava na Avenida Rio Branco, fazia-se o corso na parte da tarde. E como meu pai era do Instituto de Engenharia, na terça-feira de carnaval nós íamos para o Instituto de Engenharia, que era na Avenida Rio Branco, onde havia a maior festa e passavam as sociedades, que hoje são as tradicionais escolas de samba que não existia na época. As sociedades eram: Fenianos, Democrático, Pierrô da Caverna e tinha mais uma que eu não me lembro. Eram quatro. E uma coisa curiosa: essas sociedades eram iluminadas a fogos, porque não havia luz elétrica e as mulheres dessas sociedades, não sei se devo dizer isso, eram todas recrutadas no Boulevard Dream, quer dizer, na… Porque ficavam ali e jogavam beijos e tal, mas era muito bem educadas, ninguém podia mexer. Então passava, isso era na terça-feira de carnaval. Esse era o carnaval do Rio de Janeiro. Fundamentalmente… Ah, não, na segunda-feira de carnaval, na Praça XI, Praça XI que depois sumiu com a abertura da Avenida Getúlio Vargas, desfilavam os ranchos. Os ranchos eram ranchos do subúrbio, que era uma das coisas mais tristes, mas todo mundo ia ver na Praça XI.



P/1 – Doutor João, o senhor falou um pouco do cotidiano da sua casa, de muito estudos, tem alguma imagem desse cotidiano? Por exemplo, como que era o jantar, como que eram as refeições, como eram as relações dessa casa?



R – Nós éramos sete irmãos. Então, o meu pai… Não, desses irmãos tinha uma irmã e seis, seis. Então, o meu pai alugava… Nós morávamos na Rua General Canavarro, eu estou falando de 1925, 1926. Nós morávamos, de um lado, do outro lado o meu pai alugava uma casa que era uma espécie de república, onde ficavam os Carvalho Ramos. E a comida ia tudo, minha mãe mandava para lá e eles vinham quando queriam e tal. Agora, o jantar era na nossa sala de jantar… Na mesa de sala de jantar cabia 16 pessoas, que sempre tinha um convidado, um colega dos, mais dos meus irmãos maternos do que nosso, porque a diferença entre mim e minha irmã de idade e os irmãos maternos era muito grande. Diferença de 20 anos, tal. A diferença era menor com o último, que já nasceu no Rio de Janeiro, doutor Ary de Carvalho Ramos. E havia aquele ambiente familiar muito grande à moda goiana, de controle de minha mãe, minha mãe fiscalizava, controlava. Quando cada filho saía, ela estava na porta fiscalizando se tinha tomado banho, se tinha lavado a orelha, se o botão estava em ordem. Naquele tempo, ao contrário de hoje, as moças tinham que andar impecáveis com as blusas limpas, passadas, engomadas. É ao contrário de hoje, quanto mais rasgada, mais suja, mais desbotada. Quer dizer, era uma outra época que eu vivi. Outra coisa que eu vou contar, que um dia desse até contei ao doutor Antônio Ermírio, eu fui representá-lo há um mês, mais ou menos, no Banco Nacional de Desenvolvimento no Rio de Janeiro, na Avenida Schelling. Tinha a parte da manhã e a parte da tarde. E como tinha gente do Brasil todo nesse evento, eles ofereceram uma lista com os restaurantes e lanchonetes perto, onde a pessoa pudesse almoçar e voltar. Entre esses restaurantes estava a Confeitaria Colombo, Confeitaria Colombo, que eu ia em 1924, 1925, com o meu pai. Minha mãe me punha no bonde, na rua que nós morávamos, e um bedel da Escola Politécnica, chamado Salomão, ia me esperar no ponto de bonde do Largo São Francisco. A Escola Politécnica ficava no Largo São Francisco. Aí eu ia para a Escola Politécnica, esperava até seis, seis e pouco, meu pai saía de fraque ou sobrecasaca, e eu ia com ele pela Rua do Ouvidor, para ir à Confeitaria Colombo. De vez em quando, eu vou contar isso porque hoje está acontecendo isso comigo hoje, encontrava o pessoal conhecido: “Doutor Paulo, isso, tal, tal, a meu respeito, a sua senhora, não sei o que, tal”. Quando ele ia embora: “Papai, quem é esse?” “Meu filho, não sei.” (Risos). E hoje isso me acontece muito. E nós íamos à Confeitaria Colombo. Era uma coisa alinhadíssima, uma beleza embaixo, em cima, senhora de chapéu, de luva, tal. E eu ia à Confeitaria Colombo e para mim a maior loucura era tomar sorvete de pistache com aqueles sanduichinhos e uns docinhos chamados maravilha, que era um salgadinho de camarão. Era uma festa. Eu, então, fui agora à Confeitaria Colombo. Que decepção, que desastre, que desastre. Naquele tempo, a Confeitaria Colombo pertencia a portugueses e todos os garçons eram portugueses. Depois passou, hoje em dia… Bom, é um fato curioso eu me lembrar da Confeitaria Colombo. E eu fui também, pela última vez ou penúltima que eu estive no Rio há um mês e tanto, o sobrinho, meu neto, pegou o automóvel e me levou para ver a casa em que eu nasci, que existe ainda, na Rua General Canavarro, 427. Está lá a casa em que eu nasci. Fui ver a casa que eu nasci, perto da Quinta da Boa Vista. 



P/1 – E veio muitas memórias na cabeça… 



R – Não, a casa está igualzinha. Eu me lembro de tudo. Me lembro de uma ocasião que eu caí do andar de cima, eu era sonâmbulo, caí de um andar de cima, pensava que eu tinha morrido. Não sofri nada, não tive nada. Naquele tempo não se ia ao médico, chamava-se o médico em casa. Quando eu tive, estava no Ginásio e sentia uma dor aqui, eu tinha 12 anos, fui para casa, meu pai chamou o doutor Pedro Ernesto. Ele veio em casa, uma hora eu fui operado de apendicite, entendeu? E o médico vinha: “Põe a língua, para fora, fala ‘ah’”. Eles acertavam direitinho. Hoje você vai, faz 30 exames e eles nem sempre acertam (risos).



P/1 – Doutor João, como que eram as brincadeiras?



R – Bom, brincadeiras. Nós jogávamos futebol na escola. Eu nadava, saía muito para nadar. Naquele tempo ia nadar principalmente na Urca, porque tinha cabine. Nós morávamos longe. A gente ia de bonde. Naquele tempo não tinha nem ônibus no Rio de Janeiro. Na Urca nadava. Nós, o que mais que fazíamos? Eu e minha irmã e um grupo de amigos e amigas, meninada, íamos ao circo, às vezes, no domingo. E de brincadeira, mais o que? Como lhe disse… Aí não é brincadeira, aí era paixão ir ao Observatório Nacional. O que mais que posso dizer? Eu não sei. Mais era brincadeira de criança. Música, nós éramos apaixonados. Meu pai, minha mãe eram apaixonados por música. Então, eu com 5 anos de idade e minha irmã com 6 anos e meio, estava no velho Teatro Lírico do Rio de Janeiro. Tínhamos assinatura, assistindo Amelita Galli-Curci, Cláudia Múzio e Giacomo Lauri-Volpi, Hipólito Lázaro. Então, nós íamos a todos os espetáculos líricos e minha mãe era fanática. Convidava esses artistas líricos na casa dela e tal. A Gabriella Besanzoni, desde aí ficou o meu fanatismo por músicas. Estudei dez anos de piano, minha irmã também. Depois quando eu entrei na Escola Politécnica, eu deixei, porque ou é pianeiro, ou é engenheiro e eu desisti. Mas eu fui crítico musical, levado por Mário de Andrade, que quando eu vim… Bom, isso eu conto depois. Quando eu vim para São Paulo, em 1934, estudar aqui, porque o meu pai não queria que eu estudasse no Rio, me apresentaram um cidadão, cujo escritório chamava-se Trocadero, e era onde? Era no prédio hoje da Votorantim, na Praça Ramos de Azevedo. De um lado era o Trocadero, que era um órgão da Secretaria de Cultura. E do outro lado tinha o joalheiro, que era Degoy, duas portinhas. E me apresentaram esse cidadão. Eu era meninote, não sabia, Mário de Andrade e eu vim a conversar com ele sobre música. Ia com ele ao teatro e tal. Numa ocasião fomos assistir Carmen, no Municipal com a Gabriella Besanzoni, que eu já a conhecia do Rio de Janeiro, mas ele não conhecia. E ele ainda me disse: “Joãozinho - ele me chamava de Joãozinho, só chamava de Joãozinho - esta mulher a gente tem que ouvir de joelhos.” Era o Mário de Andrade. Mário de Andrade, impressionado com meus conhecimentos de música, me levou para fazer crítica de ópera no Diário da Noite. E eu fiz crítica de ópera, quando aluno da Escola Politécnica no Diário da Noite. Depois eu fui para os Estado Unidos. Na volta, os mesquitas que eram amigos me convidaram para fazer crítica de ópera no Estado de São Paulo. Eu fui crítico de ópera no Estado de São Paulo de 1950 até 1980. Tenho essas críticas. Já pensaram, já me falaram em publicar… Hoje em dia ninguém se interessa por ópera, então… E nem eu tenho tempo para reunir isso tudo e publicar. 



P/1 – Doutor João, está sendo difícil para mim seguir, porque eu estou absolutamente emocionado com tudo que o senhor está me falando… 



R – Não… 



P/1 – Eu quero voltar um pouquinho lá atrás… 



R – Então volte.



P/1 – Quando que iniciou os seus estudos? Como que foi?



R – Que estudos?



P/1 – Os estudos… 



R – Oh, meu filho, naquele tempo era assim: naquele tempo, no meu tempo, quem dominava a casa, quem mandava, era a mãe. Minha mãe era brava, severa. Até sete anos, a mãe era em cima. Tudo que você fazia era controlado pela mãe. Não é como hoje em dia, que com três ou quatro meses põe no pré-maternal, a mãe vai julgar ou vai trabalhar… Não, era ali. Bom, só que quando eu fiz 7 anos, minha mãe disse para o meu pai: “Vamos botar na escola.” Naquele tempo chamava-se escola primária. Muito bem, mas eu já sabia ler, já sabia escrever, já sabia tudo. A única coisa que eu não sabia, que demorei para aprender foi ver horas. Bom, então entrei na escola. Minha irmã materna era professora. Eu, então, entrei na escola onde ela lecionava. Me formei na escola chamada escola pública. Escola pública, não era nada particular, não pagava nada. Bom, quando eu terminei a escola pública, entrei, hoje o que se chama segundo grau, entrei no ginásio, que era de frente do Colégio Militar. Chamava Instituto Rabello, que se estudava mesmo. Tinha o doutor Rabello que era o diretor e a mulher dele, dona Dorina, de quem eu não vou esquecer nunca. Excelentes professores e a gente estudava, estudava, estudava. Então, filho de professor, eles exigiam muito no ginásio. Muito bem, quando eu me formei no ginásio, no dia 17 de dezembro de 1933. Muito bem, no dia 18, eu fiz 16 anos, ou 17 anos. Bom, aí meu pai perguntou: “O que você quer estudar?” Eu, Medicina não queria. Direito já tinha, então Engenharia. Confesso que sem grande, porque naquele tempo não tinha opção. Era médico, engenheiro… Toda pessoa de boa família ia ser médico, engenheiro ou advogado. Quando muito aceitava-se oficial de Marinha, mas aí precisava ter pai ou avô oficial de Marinha, tal. O resto era absolutamente… Então, engenheiro. Aí meu pai disse: “Não, aqui você não estuda”. E meu irmão materno que era uma espécie de segundo pai: “Não, então vai para São Paulo.” E minha matrícula na Escola Politécnica para o vestibular foi feito pelo telefone. Muito bem, eu estava fazendo Tiro de Guerra no Rio de Janeiro. Aconteceu que o último exame do Tiro de Guerra coincidiu com o primeiro exame da Escola Politécnica. Então, perdi lá, tive que refazer aqui. Fiz aqui o Tiro Três e entrei na Escola Politécnica aqui, em 1934. Não conhecia ninguém. Senti um frio do cão, porque naquele tempo São Paulo tinha garoa, aquela coisa toda, e vim para cá. E aqui me formei na Escola Politécnica, compreendeu? Para desespero da minha família, principalmente da minha mãe, que achava que São Paulo era o fim do mundo, que o bom era o Rio de Janeiro (risos). Agora eu não sei mais o que o senhor quer saber.



P/2 – O senhor veio para cá e foi morar com alguém?



R – Fui morar absolutamente sozinho. Primeiro eu fui morar no Hotel Ternos. Depois, achando que era caro para o meu pai pagar, o meu pai me dava uma mesada, 300 mil réis. Muito bem, depois do Hotel Ternos, eu achei aquilo muito caro e por livre e espontânea vontade eu descobri um local para morar na Rua das Flores, que era atrás da Praça da Sé. Não conhecia ninguém. Fui morar lá. Muito bem, em 1936 morei lá sozinho. Só eu sei o que eu passei, sozinho com frio, não conhecia um gato. Eu conhecia o tal cidadão que me apresentaram que era com quem eu ia conversar música, era o Mário de Andrade. De vez em quando a gente ia ao teatro, não sei o que. Depois é que eu vim a saber, muito tempo depois que era o famoso Mário de Andrade. Bom, em 1936 ou 1937, o meu irmão que… Engenheiro, que já tinha, Américo de Carvalho Ramos, que já tinha trabalhado em São Paulo e era muito amigo do doutor Armando Salles de Oliveira. Então, o doutor Armando Salles nos chamou para cá para trabalhar no Departamento das Municipalidades e depois ele foi até subprefeito de Santo Amaro. Então, fomos morar juntos. Nós fomos morar na Rua Maestro Cardim. Alugamos uma casa, fomos morar na Rua Maestro Cardim. Bom, no terceiro ano da Escola Politécnica, o professor Ary Frederico Torres, que era diretor do IPT, Instituto de Pesquisas Tecnológicas, leu uma prova minha em classe, alto. Uma prova que ele achou que era excelente e me convidou para trabalhar como assistente-aluno no Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Assistente-aluno, o que quer dizer? Que as aulas não eram seguidas. Às vezes, tinha uma, duas horas livres. Então, a gente ia porque eram três prédios. Um prédio de aula, o prédio de eletrotécnica e o IPT tudo perto, na Rua Três Rios. E eu fui trabalhar no… No fim do mês, o que é que eu fiz? Escrevi para o meu pai que não precisava mais mandar mesada e nunca mais ninguém na família me deu ou mandou um tostão. Eu passei a viver à minha custa. Portanto eu trabalho há 70 anos praticamente sem férias por várias circunstâncias. Bom, então… Eu posso continuar ou vai ter outra pergunta?                       



P/1 – Pode continuar.



R – Não… Bom, trabalhei no IPT. Me formei em 1939. Aí esse meu irmão já tinha um escritório de engenharia, eu fui trabalhar no escritório de engenharia junto com o Isaac Garcês, pai do Lucas Nogueira Garcês, que era meu colega de escola. E nós fizemos serviço de água e abastecimento… Água e Tratamento de Água de Rio Preto, de Campinas, de Campos do Jordão e em vários outros. Bom, como eu fiz e vários outros… Naquela época, o Getúlio Vargas criou os institutos de aposentadoria de pensões dos industriais, do bancários, dos comerciários, transporte de carga, papapá. E esses institutos compraram áreas enormes para fazer áreas operárias e nós fizemos os projetos de arruamento, loteamento, de abastecimento de água para esses institutos. Aqui, entre parênteses, que ninguém nos ouça, mas boa parte ficou por isso mesmo, mas a culpa não era nossa. Nós fizemos os projetos e entregamos. E eu estava trabalhando nisso, quando a congregação da Escola Politécnica me deu um prêmio por eu ter feito o curso de construção, de uma viagem aos Estados Unidos, fazer um curso de engenharia sanitária, porque eu estava trabalhando com Isaac Garcês em saneamento na Universidade de North Carolina. Eu fui para a Universidade Carolina… Bom, eu esqueci de dizer que eu tinha feito sete anos de curso de inglês aqui na… Eu já digo o nome. Então, eu achava que sabia inglês a valer, não sei o que e de fato sabia. Mas saber uma língua, há coisas diferentes. Uma coisa é você falar, é fácil, mesmo que você fale errado, você fala. Outra coisa é você escrever. Não é difícil. O que é duro é você entender, de repente, o que eles falam. Então, durante a guerra, cheguei nos Estados Unidos, aquele tempo a gente levava cinco dias para ir aos Estados Unidos. O avião era um DC-3. A gente saía do Rio de Janeiro, só viajava durante o dia. Saía, 5, 6 horas da manhã, ia pingando, pingando, pingando. Primeiro dia era do Rio de Janeiro a Recife, parando em todas as capitais. Parava, parava… Recife chegava às 16 horas da tarde, saía às 6 horas da manhã. Ia para o hotel, descansava. A maioria não tomava banho, mas eu tomava. Bom, no dia seguinte saía de Recife, pinga, pinga, pinga, ia até Belém do Pará, 16 horas da tarde. No outro dia, saía, pinga, pinga, pinga, caía na, que é a capital da Guiana Francesa, Paramaribo, da Guiana Holandesa, Georgetown, Guiana Inglesa e depois parava em Port of Spain, na Ilha de Trinidad, dormia. No penúltimo dia, saía de Port of Spain, em Trinidad, ia para Puerto Rico, Santo Domingo, Haiti, Camagüey, Cuba e Miami. Levava cinco dias. Em Miami, eu fiquei onze dias esperando condução. Era guerra, era durante a guerra, coisa mais difícil, marines viajando… Finalmente, eu ficava, chamava estado de alerta permanente. Mala semi-pronta. Qualquer hora a American Express me mandava embora. Um belo dia me telefonaram: “Pode embarcar hoje de noite para… ” Me deram um trem, só que esse trem saía de Miami e tinha que descer na capital do estado de North Carolina, que se chama Raleigh. Escreve-se Raleigh, mas pronuncia-se Rawley. Eu tinha que descer em Raleigh às 4 horas da manhã, esperar um ônibus que devia de Raleigh a Durn, que é uma das cidades principais, lá trocar de ônibus e tomar um outro ônibus que ia para Chapel Hill. Chapel Hill é uma cidadezinha, que a Universidade, é só a Universidade. Olha, filha, eu chorava. E depois, para entender, na Universidade, nos Estados Unidos é assim: cada professor sabe a sua matéria. Então, nós tínhamos… Um dava saneamento de ostras, outro dava saneamento de leite, outra dava de água, outro dava... Cada um com aquele sotaque diferente. Até você habituar ao seu ouvido, porque língua é música. Até você… Olha, dava para chorar. Mas eu me lembro que na primeira prova escrita, os professores disseram que eu escrevia inglês melhor do que… Aí eu tinha feito aqui no Brasil, Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa, que naquela ocasião era na Rua Direita, professores estupendos, escola ótima. Mas em menos de 15 dias eu estava, como diziam na gíria, naquela época, in the groove. Quer dizer, no rumo. Bom, Estados Unidos, o que mais, pergunta?



P/1 – Como é que foi essa, o senhor falou da dificuldade do...



R – Bom, eu habituado no Brasil, entendeu? O Brasil, naquela época, todo mundo tinha empregada para tudo. Você chega nos Estados Unidos, a sua primeira coisa é que ninguém faz nada para ninguém. Cada um cuida de si. Então, eu escrevia para minha mãe contando que tinha que eu, o professor, o reitor, que era o famoso doutor (Newton Rosental?), que era o papa da engenharia sanitária. Então você, no seu dormitório você tem um saco de pano, em que você põe a roupa suja e no sábado você vai levar na lavanderia, compreendeu? E você tem três tipos de, a comum, a expressa e a ultra-expressa. Cada um custa um preço e você vai buscar. Quando eu contei para a minha mãe que o filhinho dela ia levar roupa na lavanderia e ir buscar, ela chorava: “Esse país não presta.” Você tem que aprender a coser meia, pregar botão. Você tem que se virar. Ninguém faz nada para ninguém. Então, a sua primeira adaptação dos Estados Unidos: primeiro a língua, diferente; depois os hábitos, completamente diferentes, completamente diferentes.



P/1 – O que o senhor mais estranhou nos americanos?



R – O que eu mais estranhei, o que eu mais gostei foi a noção de liberdade que eles têm. Você pode fazer o que você quiser, desde que você não interfira com a vida alheia, eles não tomam conhecimento. Eles não querem saber se é branco, se é preto, se é americano, se é judeu, se é coiso… É bom. Por exemplo, Nova Iorque, tudo que é melhor do mundo tem em Nova Iorque. Os maiores maestros, os melhores cozinheiros, os maiores artistas, os maiores… Eles não querem saber. Eles têm essa qualidade. Já na Europa, onde eu viajei muito posteriormente, há um preconceito enorme. O inglês, por exemplo, é o homem mais educado do mundo, mas você conversa com o inglês, você nota que ele olha para você e está dizendo: “Coitado, esse desgraçado não é inglês.” (Risos).



P/1 – Doutor João, aí o senhor ficou nos Estados Unidos...



R – Fiz o curso.



P/1 – Fez o curso nos Estados Unidos, já veio direto ao Brasil?



R – Lá eu fiz o curso de Master of Public Engineer. Nos Estados Unidos, como eu já lhe disse, trabalham junto o engenheiro sanitarista, que é o que faz a medicina preventiva, faz o controle de malária, faz diques para evitar, poços, faz rede de água, tratamento de água, faz rede de esgoto, tratamento de esgoto, faz o controle de malária, matando quer o adulto, quer a larva, faz o controle de verminoses, esquistossomose, faz… Constrói aquelas privadas, lugares que não tem abastecimento de água. Tudo isso é o sanitarista que faz. Então, nós estivemos nos Estados Unidos os cursos de malariologia, bacteriologia, epidemiologia, coisa que quando eu chegava aqui no Brasil, engenheiro: “Ca ca ca!” Era uma risada geral. Era quase ridicularizado. Então, nos Estados Unidos trabalham a equipe. O engenheiro sanitarista que controla as doenças que faz a chamada medicina preventiva. O entomologista que tem que saber tudo sobre insetos. E o médico, o que faz o médico? Cura as doenças quando pode. Dá remédio, coisa. E assim… Bom, quando eu... Essa bolsa de estudos que me foi concedida nos Estados Unidos era uma bolsa do The Institute of Interamerican Affairs, Instituto dos Assuntos Interamericanos. Muito bem, quando eu voltei para o Brasil, esse Instituto me convidou para trabalhar… Eles tinham dois grandes programas no Brasil: um no Vale do Rio Doce, saneamento; outro no Amazonas. Eles me convidaram para trabalhar como engenheiro sanitarista no Vale do Rio Doce. E eu, contra a vontade da minha família, brigaram comigo, então eu aceitei. Achei que tinha obrigação de aceitar. Então, eu fui trabalhar no Vale do Rio Doce, onde eu tenho cartas de recomendação do Marcelino Candor, do Ernani Braga, de todos os chefes. Trabalhava de bota, espora, no lombo do burro, porque não tinha luz elétrica. Nós trabalhávamos desde Vitória até Conselheiro Crispiniano, fazendo saneamento naquelas cidadezinhas pequenininhas, que não eram cidades, que eram vilas, construindo privadinhas, construindo poço com água porque não tinha água potável. Eu dava aula de saneamento, explicando. Nós tínhamos guarda sanitários que eu ensinava. Nós fazemos abastecimento de água, tratamento de água. Tratamento de água que nunca funcionou, mas fizemos. Rede de esgoto, entendeu? Que era jogado in natura no Rio Doce. Construímos vários leprosários, porque o filho do leproso, se for, é uma coisa que eu sempre achei, não pode falar: o leproso deveria ser esterilizado, que é para.. Porque o filho do leproso, se for retirado no momento do parto, 85 ou 90%, não pega a doença. Apenas fica aquele trauma. Imagina a desgraça que deve ser um rapaz ou uma moça de 18 anos, um belo dia alguém contar que o pai dele era leproso, a mãe era leprosa. Então, eu acho que devia ser… Como eu acho também, hoje em dia, compreendeu, que o aidético deveria ser esterilizado, porque há várias casas por aí, vários hospitais que eu não posso dizer onde são, de crianças aidéticas postas no mundo por pais e mães aidéticos que duram de um a cinco anos, dependendo do… Em geral, pobre. Então, deveriam esterilizar, mas se falar isso me matam.



P/1 – Doutor João, nesse período de sanitarista no Brasil, qual foi a doença com que o senhor mais conviveu?



R – No Vale do Rio Doce, fundamentalmente, era malária. Nós fazíamos controle de malária. Nós fazíamos controle de esquistossomose, que é um verme terrível que entra pelo pé nos rios, porque as lavadeiras lavavam na água do rio. Então, entra pelo rio e esse verme, a maioria dos vermes vai para o intestino. O esquistossomo vai, a menina tinha ele no olho, vai para o coração e, às vezes, mata, dá loucura. Nós fazemos controle disso, fundamentalmente lepra, esquistossomose e água. E abastecimento de água, porque com o tratamento e abastecimento de água e construção de poços, que eram poços com boa água e tudo mais, você faz o controle; porque a quantidade de moléstias transmissíveis pela água é enorme, transmissível pelo leite é enorme. Só que no Vale do Rio Doce ninguém bebe leite, porque não tem. Bebe água, compreendeu? E no Vale do Rio Doce também, ninguém pode adquirir quantidade enorme pelas verduras cruas que são regadas com água poluída. Só que no Vale do Rio Doce não planta nada, não tinha nada. Só tinha um vale, entre Colatina e Vitória que era ao longo da estrada de ferro, chamado Vale do Canaã que era uma beleza, uma coisa linda. Só tinha portugueses. Você comprava até cereja. Porque aqui entre nós, que ninguém nos ouça: brasileiro não planta, não. É uma rocinha de milho, compreendeu, uma rocinha de milho para ele, o vizinho, então não planta, não. Agora, que antigamente… Não posso falar isso, não. Estão ouvindo. Antigamente, quem plantava era o português. Depois passou a ser italiano, agora é japonês. Então, nós trabalhávamos no Vale do Rio Doce. E trabalhávamos dia e noite, intensamente. Eu tinha as melhores cartas de recomendação que nós trabalhávamos, construir sem parar e tem um álbum de fotografia e tal. E eu estava, até uma coisa curiosa, se não é contar demais. No carnaval de 1946, como eu lhe disse, espera um pouquinho, tanto no serviço de saúde pública, quanto do Vale do Rio doce, quanto do Amazonas, eram dois contratos do Institute Interamerican Affairs com o governo brasileiro. No primeiro ano era tudo americano. No segundo ano, 10% brasileiro, mas brasileiros formados nos Estados Unidos: médicos, engenheiros, entomologistas e assim foi até no décimo ano era tudo brasileiro. O que aconteceu de lá para cá eu não sei. Bom, nessa época, então, eu fui indicado pela minha Universidade de North Carolina, eu fui trabalhar lá. E estava trabalhando no Vale do Rio Doce de botas, espora, cuidando de malária, cobra tinha em quantidade, veneno de cobra, de lepra, de tudo, quando..  Isso é uma coisa curiosa, no carnaval de 1946 inventaram, os colegas: “Ah, vamos agora em Guarapari.” Guarapari era uma colônia de pescadores, onde todas as pessoas que tinham doenças de pele, porque tinha umas areias monazíticas, iam para lá e deitava, punha aquela areia por cima. Então, tudo quanto é gente doente do Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo ia para lá. Mas nós inventamos de ir e não tinha estrada. A gente ia pela praia com a maré baixa. Chegamos lá no carnaval, não tinha hotel, não tinha nada. Conseguimos por muito favor, numa pensão, um quarto para todo mundo. Nós éramos oito pessoas numa sala grande. Então, a dona da pensão disse: “Agora vocês vão comprar colchão.” E nós fomos comprar colchão. E uma das moças, que era casada, uma moça muito inteligente, Leonor Sanchez Baceles, ficou conversando, aí descobriu que na tal pensão tinha um hindu que lia a sorte. O hindu que lia a sorte era um camarada de cor com turbante, mas contratou, marcou para nós, tal. Quando foi, nós de noite, fomos ler a nossa mão, custava 100 mil réis. Cem mil réis era uma nota preta, mas em todo caso, leu a mão. Quando ele leu a minha mão, eu nunca me esqueci disso, ele disse: “O senhor, olha, não pense que é para já, nem é viagem para o Rio de Janeiro, o senhor vai fazer uma viagem, o senhor vai correr o mundo todo. Os quatro continentes o senhor vai por aqui, o senhor vai para lá, isso é logo, não sei o que… ” E nós de gargalhada: “Mas não é viagenzinha. O senhor não pensa que vai ali para o Amazonas, para…  O senhor vai viajar”. Nós voltamos para Vitória na quarta-feira de cinzas. Eu encontrei na minha mesa uma carta do reitor da minha Universidade, que tinha me indicado para engenheiro sanitarista na Grécia. Engenheiro da Organização Mundial da Saúde. Em dez dias eu estava em Washington, fiz um curso intensivo de grego porque eu tinha que viajar a Grécia inteira sozinho, fazendo o que? Controle de malária, não só do adulto, mas como das larvas com DDT [diclorodifeniltricloroetano], de avião. De lá eu fui para Grécia… 



P/1 – O senhor já tinha noção de grego nessa época, quando o senhor começou fazer esse curso intensivo?



R – Bom, eu tinha noção de grego antigo. Eu aprendi grego moderno que é completamente diferente, completamente diferente. Grego antigo, água é hidro, grego moderno é nero. Completamente diferente. E eu andava pela Grécia… Aliás, eu vou contar uma coisinha rapidinha, que ninguém ouça também. Eu só vim a falar grego no Brasil uma vez com uma pessoa, em 1951. Essa pessoa chama-se Maria Callas. Conversamos em grego no Teatro Municipal.



P/1 – O senhor conheceu Maria Callas?



R – Sim, senhor, no Municipal. Muito bem, mas então fui para Washington, fiquei em Washington dois ou três meses. Eu sei que de Washington fui para New Falkland, terra do labrador e ficamos uma semana. De lá fui para Groenlândia, porque naquele tempo era difícil também viagem. De lá, finalmente, fui para Irlanda. Da Irlanda, eu fui para onde? Da Irlanda eu fui para a França, fui para Marseille, de Marseille eu fui para Itália. No dia 10 de abril, aniversário de minha irmã, eu cheguei em Atenas e trabalhei em Atenas quase um ano. Aí na Grécia, eles queriam estender o controle de malária a toda Península Balcânica, mas tinha um raio de um país desgraçado chamado Albânia, que era o aprendiz do feiticeiro. Era no tempo de Henvel Rochel, que era um ditador, que eu conheci pessoalmente, em muitas reuniões que eu tive com ele. E eles eram mais realistas que o rei. Era o mais comunista do que o Stálin, naquele tempo era o Stálin. Então, nós na Albânia vivíamos, praticamente, presos no Dite Hotel. Aqui, baixinho, que ninguém nos ouça: a única coisa boa que tem na Albânia foi construído pelo Mussolini, pelos italianos. O resto é um desastre, naquela época pelo menos. Bom, nós estávamos no Dite Hotel, no quarto andar e os russos no quinto. Porta, tudo, tudo aberto, nós não tínhamos permissão de fechar porta, nem nada. Os russos é que mandavam, mas isso já é outra história. Bom, só que depois de seis ou sete meses na Albânia eu verifiquei que nós não podíamos fazer nada. Nós não tínhamos permissão para sair. Para nós irmos tomar banho e nós estávamos em Tirana, que fica a 30 quilômetros de Durazno, Durazno é o porto, para nós irmos tomar banho de mar em Durazno no domingo, na quarta-feira, a chefe do RH, Micimili, era uma australiana, tinha que mandar uma carta para os russos dizendo quantos veículos iam, que língua ia se falar em cada veículo, que eles punham um camarada para ouvir em cada veículo, se italiano… Em geral, é italiano ou inglês. Era uma coisa… E aí eu escrevi pedindo termination, para ir embora, que não aguentava mais aquilo. Mas eles não me deram a termination. Eu consegui que me mandassem para a Itália e eu viajei num navio russo, atravessei o Adriático numa noite, sentado num banco: “Vão me matar.” Porque parecia um local mais deserto que esse prédio aqui. Parecia aquela ópera, do Tabarro, de (Gianesky?), do fechado barco, aquela… Quando eu cheguei em Brindisi, na Itália, e que eu desci, eu acho que o Papa aprendeu comigo. Eu beijei o chão. Aí eu comecei na Itália, não sei o que, não sei o que e eles não aceitaram a minha termination. Resolveram me mandar para a China. Para eu ir para a China, eles me mandaram para Londres, que era o ponto de partida para eu comprar roupa para a China, porque eu não estava preparado. Só que eu passei um mês em Londres, uma fome de cachorro, não tinha o que comer. Londres estava uma coisa, que nós que passamos a guerra aqui, não podíamos fazer ideia o que era Londres, o que eles passaram. Em Londres comia-se um pedaço de peixe e uma batata desse tamanho cozido e mais nada. Não tinha nada. Eu estava desesperado. Tinha tickets. Cada inglês tinha 30 por semana e eu tinha 300, só que não adianta. Você não tem o que comprar. Você vai comprar um terno, eles lhe pedem oito meses. Então, um belo dia, eu encontrei um inglês conhecido, que tinha estado na Albânia, eu disse: “Mas será possível, não posso comprar um sapato?” Ele me disse: “Mr. Póvoa, essa loja que o senhor está comprando aqui na Old Bond Street, eles vendem para os lordes.” Porque era gente graúda, tal. Eles tinham três, quatro mil pares para vender por mês. Atualmente, eles têm um ou dois: “Você acha que eles vão vender para você? Não vai vender nunca.” E eu não conseguia comprar nada. Eu, depois, saí de Londres na Royal Force e levei, mais ou menos, quase dois meses parando, parando, parando. Era muito difícil logo depois da guerra. Eu fui de lá, eu fui para Córsega… Não, para Marseille, de Marseille eu fui para Córsega, de Córsega eu fui para Líbia, da Líbia eu fui para o Egito, do Egito eu fui para Basra, no Iraque. Para Basra, eu fui para Nova Déli, de Nova Déli fui para Calcutá. Sempre quatro, cinco dias em cada lugar, dependendo dos interesses do pessoal da Royal Force. De lá eu fui para Rangum, para Burman, depois fui para Cingapura, depois eu fui para Cantão, depois eu fui para Hong Kong. Finalmente cheguei em Xangai. De Xangai eu fiquei uns dois meses e daí me mandaram para trabalhar em Nanchang, que é o Centro da China, capital da província de Huangshi, onde eu fiquei um ano. Então, já está contando a China, trabalhava também em saneamento, fundamentalmente saneamento de “D-P”, displaced persons, de pessoas deslocadas de guerra porque na China, naquela época, os chineses… Falar baixinho aqui, que ninguém me ouça, que eram muitos ignorantes. Naquele tempo, 80, 85% dos chineses eram… Não sabiam ler e 95, 96% não sabiam escrever. Então, era comum na cidade, de vez em quando, em certos pontos tem um cidadão que escreve. Você chega lá e dita o que você quer mandar, dizer, paga e leva. Outra coisa curiosa é o seguinte: a China é um país grande, porém montanhas imensas e rios imensos. Então, eles têm pequenos vales para agricultura. Esses vales são adubados com excremento humano. As casas todas têm um quartinho, em que o excremento humano é guardado. E quando aquele quartinho está cheio, no fim de cada rua tem uma casinha um pouco maior que coleciona o excremento de toda rua. E de 6 horas às 8 horas da manhã passam aqueles camaradas com aquelas duas tinas, entendeu, que levam aquilo para as agriculturas. Essa foi a China que eu conheci. Também eles têm toda facilidade. Vão andando, qualquer necessidade que ela perguntou se eu ia ter, que não vou ter, faz na rua ali mesmo, não tem problema. Comem tudo… Bom, isso é a China. Então eu fiquei na China. Eles sabiam, os chineses, que estava havendo uma guerra no Norte, mas não sabiam o que era, nem o que não era. Os chineses eram tal… Os antigos templos estavam repletos de cadáveres que vinham de lá, mas já era a guerra vindo da Sibéria para tornar a China comunista. Eu estive ainda no tempo do Chiang Kai-shek. Até que no final de 1948, eles resolveram mandar o pessoal da United Nations embora e eu vim via Estados Unidos, por Caglin, Havaí, Los Angeles. Por sinal, no dia em que eu cheguei em Los Angeles, eu era muito amigo da Carmen Miranda, telefonei para ela e ela: “Vem já para cá que é o meu casamento.” Eu fui para… Ela estava se casando com o David Sebastian, casando de desespero, que a paixão dela era o Aloísio. Mas o Aloísio… Será que eu posso falar isso? Se casou com uma americana rica e ela, de desespero, casou com esse David Sebastian e foi muito infeliz, entrou no álcool, tal, finalmente morreu. Mas eu fui ao casamento da Carmen Miranda. Eu não me lembro, foi fim, se eu não me engano, de 1948. Depois eu ia ficar nos Estados Unidos. Já tinha dois contratos. Um para ficar em Texas, onde eu tinha feito Field Training Program, com o Mr. Iras, que era um famoso engenheiro, diretor do Health Department. O outro seria para ficar em Idaho e eu ia ficar em Texas. Aí começou o meu irmão: “Ah, porque perde a nacionalidade, cinco anos fora do Brasil.” E minha mãe escrevendo, está com a vela na mão. E eu fiz a burrada de vir para o Brasil. Vim, compreendeu? E o resto você sabe. Aí vim para o Brasil, aí a família tinha duas fábricas, eles me jogaram as duas fábricas nas costas, porque eles não tomavam conta. Duas fábricas, já de início, semi-falidas porque os três donos eram de certa idade e não eram casados. Eram juntados e não tinham nenhum interesse em ter filhos. Quer dizer, é o tal negócio do… É o tal negócio do “tem quem continue”, entendeu? Não tinha. E não queriam gastar um tostão em aumentar. E depois da guerra, surgiram no Brasil inúmeras fábricas, uma quantidade, foi um surto extraordinário, depois de 1945. Então, as fábricas eram antiquadas, de fornos redondos. Então, uma foi vendida para os Moraes, eles devem ter reformado e a outra fechou. Aí, então, o Garcez que era muito meu amigo: “Não, você vai voltar.”Eu fui a Genebra e eles me ofereceram… Não sei se… Eu contei para a dona Marina, República dos Camarões ou Haiti. Mas eu disse: “Não, isso não, muito obrigado, eu não quero.” Então, eu voltei para o Brasil e ia para o BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento. Tinha feito todos os exames, inclusive, já estava para aprovar, quando o Garcez me chamou e disse: “Ah, João Câncio, eu estou sobre o conselho do Banco Mercantil e o Gastão Vidigal precisa muito de uma pessoa com as suas características, que tenha penetração na sociedade, no empresariado, que fale línguas, não sei o que… Eu marquei hora com você sexta-feira, às 15 horas da tarde. É uma coisa provisória, não sei o que… ” Bom, eu fui falar com o doutor Gastão às 15 horas da tarde de uma sexta-feira e na segunda-feira seguinte, às 8 horas da manhã, comecei a trabalhar. Era para ficar 15 dias, fiquei 15 anos. Bom, quer que eu continue? Muito bem. No Banco Mercantil eu tive o prazer, a honra, a satisfação de conhecer todos os conselheiros. Eu era secretário particular do Gastão Vidigal e era secretário do conselho. E um dos conselheiros, que se tornou muito meu amigo, chamava-se José Ermírio de Moraes. Que, eu vou ter que dizer isso, de uma maneira nice, de uma maneira… Como é que eu posso dizer? Bom, e eu fiquei no Banco Mercantil 15 anos. No fim, eu não aguentava mais, porque era uma prisão de 16, 17, 18 horas por dia. O doutor Gastão era um homem doente. Um belo dia, eu disse: “Independência ou morte.” Aí eu fui a um dos médicos, porque o doutor Gastão tinha feito ponte de safena. Ele fumava cinco, seis maços de cigarro por dia, dois charutos, um no almoço, um no jantar e tinha 200 cachimbos nas outras horas e tragando permanentemente. Então, como foi a história, é longa, mas ele teve dois meses e meio no Instituto do Coração, eu com ele lá, junto. Fiquei amigo daqueles médicos todos e eu procurei um dos médicos, doutor Giovanni Bellotti e disse: “Doutor Giovanni, o que é que eu faço?” Disse: “Pelo amor de Deus, não peça demissão! Se você der a demissão na mão do Gastão vai ser um escândalo.” Não sei o que, tal. Ele disse: “Você vai para o Rio de Janeiro e você diz que você vai ficar com sua irmã de 90 anos.” Minha irmã materna. E assim eu fiz. Eu fui numa sexta-feira e de lá mandei, através do banco, o meu pedido de demissão, muito bonitinho, muito bem escrito, tal. E nesta segunda-feira seguinte, três dias depois, estava em casa no Rio, minha irmã disse: “João Câncio, João, Joãozinho, telefone para você.” Disse: “Quem é?” “Ah, é doutor José Ermírio, você conhece?” Eu disse: “Conheço.” Ela não conhecia. Mas ninguém sabia que eu estou aqui no Rio. Era doutor José Ermírio, disse: “João Câncio, eu soube hoje na reunião do conselho que foi dito que você pediu licença. Eu já sei que você não aguenta mais, que você vai sair do banco. Você pode vir falar comigo amanhã às 15 horas?” Disse: “Posso.” Eu vim falar com ele. No dia seguinte: “Você vai trabalhar comigo, vai trabalhar aqui, eu faço questão.” Não sei o quê, não sei o que. Eu fiquei sem ter o que dizer, assim. Eu tinha 65 anos. Bom, fiquei encantado, só que eu disse a ele: “O senhor vai arranjar um inimigo, que é o doutor Gastão.” Ele disse: “Ah, isso não tem importância.” Posso dizer o que ele disse? Posso dizer?



P/1 – Pode.



R – “Não tem importância. Eu sou, pelo menos, dez vezes mais rico do que ele. Não preciso dele para nada.” Muito bem. Não sei se estou falando demais. Se tiver, você corta.



P/1 – Não.



R – Bom, isso era junho. Ele disse: “Você começa trabalhar no dia 4 de julho.” Quatro ou cinco dias depois ele voltou, me telefonou. Eu estava no Rio, voltei para falar com ele. Ele disse: “Não, não vai ser assim, não. Eu conversei com o Antônio e resolvi pedir hora ao Gastão e dizer a ele que eu convidei você para trabalhar aqui.” Foi aí que eu disse a ele: “O senhor vai arranjar um inimigo.” Ele disse: “Não tem importância. Eu sou dez vezes mais rico do que ele.” E eu vim trabalhar. Uma coisa que é interessante notar, já que vocês querem saber tanta coisa, isso foi em junho… Iriam decorrer ainda uns 15 dias antes de eu vir começar a trabalhar na Votorantim e voltar para São Paulo. No dia seguinte, eu estava aqui em São Paulo, veio um emissário do Luís Eulálio Vidigal. Era presidente da Federação das Indústrias, era sobrinho do doutor Gastão: “João Câncio, eu soube que você saiu do banco, eu quero que você vá trabalhar comigo. O seu primeiro trabalho vai ser preparar a minha viagem à China. Eu vou para China.” Não sei o que, não sei o que. Eu disse: “Faz favor dizer ao doutor Luís Eulálio que eu já estou comprometido com o doutor José Ermírio de Moraes.” Então, depois o Luís Eulálio me telefonou, disse: “João Câncio, se não der certo, preciso de você.” Quatro dias depois eu estou em casa, no mesmo prédio em que eu moro, na Rua Pedroso Alvarenga, toca a campainha. Quem era? Era o senador Severo Gomes, que era também muito meu amigo, que era do conselho do banco: “João Câncio, eu soube hoje que você saiu do banco, eu vim aqui, quero que você… Você sabe, eu sou da oposição, eu lá em Brasília, mas eu mando no Rio de Janeiro, sou muito amigo do Brizola. Qualquer coisa que você tenha, estou às tuas ordens.” Eu estou contando isso porque é extremamente animador para um cidadão de 65 anos, nessa idade, ter tido três propostas de emprego. No Brasil, você quando faz 35 anos te dão um atestado de invalidez e de aposentadoria sem vencimentos. Se você pegar o caderno de empregos, se você tiver mais de 35 anos você está frito, enfarinhado, você não arranja emprego em lugar nenhum. Agora pode continuar a pergunta.



P/2 – Voltando um pouquinho, a sua vida hoje profissional, o início dela foi muito ativa, muito dinâmica, uma vida maravilhosa de conhecer várias culturas em vários lugares. Foi uma decisão pessoal difícil quando o senhor teve que parar com todo esse dinamismo e assumir… 



R – Mas eu não parei, eu nunca parei com dinamismo nenhum. Eu levanto às 6 horas da manhã, trabalho, tal, faço mil coisas. Mesmo em casa, hoje em dia, que teoricamente eu só trabalho meio dia na Votorantim, mas quando precisam de mim de tarde, de noite, eu vou representar doutor Antônio e representar doutor José, não sei o que. Eu faço traduções de inglês, francês, italiano. Eu não paro, eu não sei ficar parado.



P/2 – Não, eu digo assim, o senhor teve uma vida muito de aventura, eu acho que daria um grande filme… 



R – Não, não é aventura, não, filha. É trabalho.



P/2 – Não, em conhecer culturas diferentes, lugares diferentes… 



R – Ah, sim.



P/2 – Eu digo, essa opção.



R – Realmente você tem que se adaptar, viver. Por exemplo, na Grécia é uma coisa. É completamente diferente. Você tem que se adaptar: de 12 horas às 16 horas, para tudo. Eles dormem a sesta. Não tem bonde, não tem ônibus, não tem nada. Ou você vai dormir em casa, ou você dorme num barzinho. O jantar é depois de 22 horas da noite, vai até 2, 3 horas da manhã. Na Espanha também é assim. Você se habitua. Na China o negócio já é mais difícil. Nós tínhamos tudo separado. Agora, eu me lembro… Isso é até interessante registrar, eu vim, entrei na Votorantim no dia 4 de julho de 1983. No fim do ano, eu mandei um cartão ao doutor José Ermírio, em que ele me disse, depois me disse: “João Câncio, esse cartão eu vou guardar.” Eu dizia a ele: “Doutor José Ermírio, conhecer mais de perto o senhor, doutor Antônio e a sua família, isso faz a gente acreditar que, faz acreditar que existe um Deus”. Porque eles são… Eles são extremamente humanitários, eles são educados, eles são… É uma coisa extraordinária. Isso eu estou dizendo, é uma coisa fantástica… Não tem prosa, não tem quanto… Eles são fantásticos, extraordinários. Então, eu disse a ele: “Os senhores fazem acreditar que existe um Deus.” Como eu lhe disse, eu, por nascença, meu pai era agnóstico, minha mãe também, mas a gente fala que isso não é possível. Isso eu queria registrar. Às suas ordens, pode continuar. Mete o pau.



P/1 – Doutor João, fazendo um balanço de toda sua trajetória, trabalhos, viagens, amigos, o que o senhor falaria?



R – Eu falaria o seguinte: vamos falar primeiro da vida, o que a vida me ensinou. A vida me ensinou o seguinte, eu vou pedir licença para não citar nomes porque não seria, seria de mau tom, não seria de bom tom. Todos os grandes impérios, as grandes organizações que não tem seguidores desmoronam, acabam, terminam. Eu poderia citar, principalmente, aqui no Brasil, como também fora, na Itália, vários exemplos de grandes empresas que foram extraordinárias aqui no Brasil, tal, mas que sucumbiram, porque não têm seguidores. Isso não aconteceu com a Votorantim. O mais extraordinário da Votorantim não são os quatro irmãos que herdaram do senador Antônio Ermírio de Moraes, que são homens cultos, preparados, de inteligência, de uma visão extraordinária. Eu cito, principalmente, doutor José Ermírio, doutor Antônio porque tive muito mais contato com ele, do que com a dona Maria Helena e com o doutor Ermírio. Isso todo mundo sabe que eles são pessoas fora do comum, como cultura, como inteligência. Mas o extraordinário, o extraordinário é a terceira geração. A terceira geração está aí. Eles são… Não existe ovelha negra. Eles são todos cultos, eles são todos preparados, ele estão todos, cada um já está no seu ponto dirigindo, trabalhando. Isto é uma coisa extraordinária. Então, aquele provérbio, aquele adágio que se costuma dizer, compreendeu, de que “filho de milionário vive bem, mas neto passa fome”, com a Votorantim não funciona, porque a terceira geração está aí perfeita. São todos formados, todos inteligentes, todos preparados, cada um estudou… Isso eu acho que é o ponto mais extraordinário do Grupo Votorantim. É essa terceira geração brilhante que está aí. 



P/1 – E o senhor… De quando o senhor entrou na Votorantim, o senhor já tem uma história bastante… Eu, pelo menos, estou adorando a história do senhor, mas de quando o senhor entrou para a Votorantim, quais os valores que o senhor conquistou dentro da Votorantim?



R – Pergunta que eu não sei responder. Eu posso lhe dizer o seguinte: eu fui trabalhar, inicialmente, com o doutor Nildo Máximo Benedetti, que é um homem, um grande engenheiro, de uma cultura extraordinária, que conhece português a fundo. Eu tenho mania também de estudar português, então conversávamos sobre gramática… E conhece música a fundo e eu tenho pretensão também de eu conhecer música a fundo. Então, foi um prazer enorme de trabalhar com o Nildo no departamento técnico. Foi um prazer enorme trabalhar com doutor José Ermírio. Nós, muitas vezes, almoçávamos, jantávamos e conheci as amizades, o pessoal todo, tal. Isso foi um prazer muito grande. É uma outra vivência, entendeu, que eu não tive anteriormente. Próxima pergunta, pode fazer.



P/2 – Se fala muito na Votorantim nesses valores, que vem desde o Pereira Ignácio, passando pelo senador, de valores como perseverança, simplicidade, valorização do trabalho, que a Votorantim consegue manter isso e se perpetuar.



R – Eu, na Votorantim, inicialmente, eu tratava nesses primeiros dez anos mais com o doutor Nildo Benedetti, departamento técnico. Depois eu passei a tratar mais com o doutor José Ermírio, quando nós mudamos para lá. E, depois, agora, mais com o doutor Antônio. Dos diretores, eu conheço alguns bastante bem. Conheço, por exemplo, doutor Marcos Arruda, de quem eu tenho a honra de ser amigo, que é um homem também de uma cultura fora do comum. É uma inteligência extraordinária. E conheci outros, mas os outros eu não tive, assim, um contato mais íntimo, de maneira que eu fico cuidadoso para falar. Eu sei que a Votorantim funciona e que funciona muito bem. Quer dizer, está na mão de gente capaz, de gente correta. E, agora, então, nem se fala, porque em 1993, foi quando houve essa separação, doutor Antônio ficou na Praça Ramos com a parte de indústria pesada. Doutor José ficou com cimento, papel… Entrou, em definitivo, entrou a terceira geração. Como se diz na gíria: “cada macaco no seu galho”, mas perfeitamente funcionando em ordem, trabalhando, tal. Não se pode dizer aquela história que se costuma dizer que ninguém faz falta, não é verdade. Na minha opinião, doutor José Ermírio faz falta porque doutor José Ermírio era um homem excepcional. Então faz falta, mas a terceira geração vai indo brilhantemente. 



P/2 – O senhor lembra algum caso especial do doutor José Ermírio que simbolizasse esse carisma, essa forma de conduzir a empresa?



R – Olha, eu sei de muitos casos, tanto de doutor José, quanto doutor Antônio, de generosidade que eles fazem, de auxílio, de patrocínio, mas que eles não gostam que falem. Não gostam. Então, eu peço licença porque o que o doutor José Ermírio ajudava a humanidade, digamos assim, e o que o doutor Antônio ajuda é uma coisa fantástica. Recentemente no meu trabalho aqui com o doutor Antônio, eu tenho que falar global, não vou especificar, um grupo veio propor ao doutor Antônio ajudar criança pobre, ajudar hospitais, fazer parceria, educação e saúde pública. Eu disse: “Pelo amor de Deus, vocês querem ensinar Pai Nosso ao vigário. Isso que vocês estão pretendendo agora ele faz há 50 anos!” Compreendeu? E além disso ele usa a mídia falada, escrita e até peça de teatro ele escreve para defender os três pontos característicos que ele acha que são os pontos cruciais do Brasil, que é educação… Mas não é, não é intelectualidade, que vem um que querem levar Bertoldo Bressing, Unesco, não é isso, não. É bê-a-bá, aprender bê-a-bá, não ter analfabeto. Quer dizer, educação, é saúde pública no Brasil, que ele ajuda, meu Deus do céu. Eles, agora… E é o trabalho contra a corrupção, que é uma coisa doentia no Brasil. Então, ele foi até para o teatro, um homem que, às vezes, não tem tempo para comer, levanta 5 horas da manhã para escrever peça de teatro, por quê? Porque ele tem pretensão? Não. De ser dramaturgo? Não. É contra ao primeiro… O primeiro foi contra problema de saúde pública, o segundo… O primeiro foi corrupção, segundo, saúde pública, já está escrevendo outras entendeu? Então, isso é uma coisa que a gente não… Certas coisas não pode contar. O que eles fazem é fantástico. Basta citar, por exemplo, Fundação Dorina Nowill que eles ajudam. Trezentas coisas, Fundação Antônio Prudente, Beneficência Portuguesa e mil outras coisas. Agora, eles não querem que falem. Realmente fazem. Então, quando vem propor, vocês vão propor agora. Eles fazem isso há 50 anos. 



P/1 – Doutor João, o senhor tocou num assunto bastante interessante. Atualmente o senhor está bem próximo do doutor Antônio e o doutor Antônio, na última década, produziu… Ele escreveu três peças, o senhor acompanhou como foram sendo criados essas peças?



R – Bom, eu me lembro que a primeira peça ele me convidou para assistir a leitura na casa dele, mas a peça estava escrita, claro. Estavam escolhendo os artistas. Eu me lembro Tarcísio Meira Filho, Irene Ravache, depois houve troca. Era o Juca de Oliveira. Juca de Oliveira, tal. Eu assisti as peças, eu ajudei no problema de bilheteria, ingressos e tal, mas ele escreve isso, eu acho de madrugada. Acorda cedo porque ele não tem tempo. Esse homem trabalha 18, 20 horas por dia. Quer dizer, a minha participação foi mínima. Foi de ajudar na bilheteria, digamos assim, e distribuição de ingressos e tal, muito pequena. Eu sei que vem outra peça por aí. Não posso lhe dizer se vai ser esse ano ou não, eu não sei.



P/1 – Doutor João, de tudo que o senhor passou na sua vida, do que o senhor sente saudade que, de vez em quando, se pega pensando?



R – Olha, sinto saudade de meu pai, que era um homem excepcional, de uma cultura fora do comum e que tratava os filhos como irmãos e de minha mãe. Fundamentalmente, no mais, tudo que eu vivi, muito variado, eu me adaptei bem, eu sofri muito quando eu cheguei em São Paulo sozinho, saindo da barra da saia, morar sozinho em São Paulo. Foi logo depois da Revolução. Eu era tido como estrangeiro, que eu era carioca. Então, os próprios colegas da escola demorou muito a fazer amizade, entendeu? Aquele tempo era tal história, era paulista de 400 anos, está bom. Esse negócio de sentimentalismo exagerado, saudades e coisa, eu tenho muita de meu pai, sinto muita falta dele. Sinto muita falta de minha mãe. Eu acho que é só. Saudade, saudade… Viajei muito. Eu gostaria muito de voltar… Muitos lugares eu pagaria para não voltar. Não faço a menor questão. Não vou dizer que países que eu não faço questão de voltar, mas outros eu gostaria de voltar um dia, se pudesse, se der tempo ainda. Senão… 



P/1 – De todas as viagens que o senhor fez, qual foi que mais teve impacto estético na sua vida? Aquela que marcou o senhor, o país que teve um… 



R – Olha, Charles, o mundo é tão diferente, tão diferente. Há pessoas que vão para os Estados Unidos e diz: “Ah, não gostei disso, não gostei da comida, eu gosto é da Europa.” Não adianta você querer comparar banana com chapéu. São coisas completamente diferentes: a maneira de viver nos Estados Unidos, a maneira de ser, a comida lá da Europa. E mesmo na Europa você… É engraçado, você na Europa, é curioso. Você está, por exemplo, na Suíça, você anda um pouquinho para o Sul, você está na Itália. Você anda um pouquinho para Leste, você está na França, você anda um pouquinho, você está na Áustria. Muda tudo. Muda a arquitetura, muda a maneira de vestir, muda a língua, muda… Você tem que se adaptar, compreendeu? Então, quando você viaja muito, você aprende essa coisa difícil a se adaptar. Agora, quando você é criança, tem 16 anos e você sai da barra da saia e tem que mamãe e papai tomam conta de tudo e você vem morar sozinho numa cidade estranha, agressiva, chamada São Paulo, aí você sofre. Aí você sofre até você se adaptar. Você conseguir ficar de pé sozinho. Não sei se respondi a sua pergunta.



P/1 – Respondeu. Eu acho que foi além. Doutor João, a gente já está entrando num período de avaliação do seu depoimento. O senhor citou várias coisas: vivência com intelectuais, a vivência com pessoas de todos os quilates na sua vida. Dessas amizades o que o senhor teria a dizer?



R – Bom, eu, desde pequeno, eu adoro gente. Eu gosto de ver os outros viverem. Eu me lembro que, tanto em Paris quanto em Londres, frequentemente nós íamos ao teatro com Gastão Vidigal, não sei o que, tal e saímos 20:30. Eu descia já emperiquitado, pronto para o teatro, às 19:30, e ficava vendo o pessoal porque, então, naqueles grandes hotéis que eu ficava. Evidentemente, era o banco que pagava, não era eu, porque eu não tinha dinheiro para isso. Você vê gente passar do mundo inteiro. Então você… E você conhecendo várias pessoas, você pode fazer uma avaliação e você chega a conclusão de que a noção, como é que eu posso dizer, de bom gosto, a noção de estética, a noção de coisa é função da latitude e da longitude. Uma coisa que na França é correto, na China não é. Por exemplo, na China é comum você sentar numa mesa, entendeu? Nós éramos frequentemente os mandarins. Nos ofereciam almoço e jantares. Para começar, mulher não vem na mesa, só homem, entendeu? Mulher serve. Bom, em segundo lugar, eles cospem na mesa, cospem, fazem barulhos e tal. E depois de meia hora, entendeu, a mesa está um lixo. Quer dizer, e aquilo para eles é normal. Aliás, em países árabes também, é a mesma coisa. Alguns comem até com a mão. Então, você vai se adaptando tanto quanto possível. Em alguns países que eu estive, eu não comia. Eu comia chocolate, queijo, tal, porque… Não vou falar. Um país aí que há pouco tempo mostraram na televisão, mas mostraram um país fantasiado que não é nada daquilo. Então, é muito interessante você ver gente. Agora, você tem que aceitar as pessoas como elas são. Vocês: “Ah, porque o inglês é assim, porque o italiano… ” São completamente diferentes. Você quer ver uma coisa curiosa? Você vai a Cingapura, que é uma das cidades mais bonitas do mundo. Se você está no Oeste, você está na Europa. Se você atravessar a ponte, você está na Ásia. Muda tudo. Muda a arquitetura, muda… Entendeu? Então, você tem que aceitar… As pessoas também, é a mesma coisa. É muito comum você ouvir hoje certas pessoas: “Ah, Fulano não me fez isso, não sei o que… Eu não faria.” Você não faria, mas os outros fazem. Então, você tem que aceitar. E como dizia meu pai: “Não levar tudo a ferro e a fogo.” Entendeu? Não dar murro em faca de ponta. Não sei se respondi a sua pergunta.



P/1 – Respondeu.



R – Disse, há um tempo, ao doutor Antônio Ermírio. Eu me sinto muito feliz de sentir-me útil na minha vida e ter a honra, o prestígio de terminar os meus… O meu tempo de trabalho, eu não sei quanto tempo eu vou viver, não sei quanto tempo ainda vou ficar na Votorantim, trabalhando com um homem chamado Antônio Ermírio de Moraes.



[Pausa]



P/1 – Doutor João, o que o senhor acha desse projeto de recuperação da memória? O Grupo Votorantim aos 85 anos começar uma nova etapa na sua vida, primeiramente, recuperando a memória do Grupo, a sua história através dos seus acervos e através de depoimentos como do senhor, de pessoas que têm… 



R – Eu acho um projeto interessantíssimo, importantíssimo, porque nós todos aprendemos sempre com o passado. Então, o registro do que aconteceu é importantíssimo. Eu trabalhava com o Nildo Benedetti no departamento técnico, quando ele… Eu acho que foi ele que teve a ideia de se fazer o museu da Votorantim. Então, foi contratada uma museóloga, eu não me lembro do nome dela agora e nós começamos, principalmente eu, eu que fui o encarregado a colher dados de toda natureza: cartas, retratos da família e objetos de Votoran, para se fazer um museu da Votorantim, em Votoran. Estávamos atrás até de uma locomotiva que tinha estado lá no passado. Enfim, esses museus da Votorantim seria um museu vivo. Bom, e começamos isso, durou, talvez, um ano. Acontece que um belo dia, essa museóloga que foi para Bahia fazer um trabalho tal e teve um enfarte e morreu. Morreu e me parece que ficou o dito pelo não dito. Quer dizer, o negócio não foi para frente. O que vocês estão fazendo agora é uma coisa muito interessante, que é um museu falado. Vocês estão registrando fatos, ocorrências e opiniões de pessoas que participaram e participam da vida da Votorantim. Isto, talvez, seja muito mais verdadeiro, muito mais autêntico do que você chegar no museu e você ver lá uma peça, você ver uma locomotiva, você ver um resto de um forno que foi da primeira fábrica. Eu acho uma coisa extremamente interessante, muito bem feita e que deve ser feita, terminada e… 



P/1 – E o que o senhor achou de dar esse depoimento?



R – Bom, eu inicialmente não sabia. Quando me telefonaram a primeira vez eu não sabia que estava sendo feito esse trabalho. Depois eu recebi uma carta de dona Célia Picon, explicando tal coisa. Então, achei que, embora eu seja o zero, zero, zero, zero da Votorantim, quer dizer, um funcionariozinho de quinta categoria, mas em todo caso estou aqui há 20 anos. Tive a honra e o prazer de tratar com o doutor José, doutor Antônio principalmente, e conheço membros da família e trabalhei também em conjunto com outros diretores, de maneira que foi muito interessante. E eu disse um dia, disse ao doutor Antônio Ermírio que a maior alegria da minha vida será terminar os meus… Eu trabalho desde 1937, quer dizer, quase há 70 anos, trabalhando com um homem da envergadura de Antônio Ermírio de Moraes. Isso para mim é mais do que uma alegria, mais do que felicidade. É uma honra muito grande. Isso eu disse a ele há dias.



P/1 – Está dizendo para gente também. 



R – Estou dizendo agora para vocês.



P/1 – Você quer fazer alguma pergunta?



P/2 – Não.



R – Você é insaciável, vai perguntar mais coisas.



P/1 – Eu gostaria de agradecer muito pela presença do senhor nessa entrevista. Agradecer em nome do Grupo Votorantim, agradecer em nome do Instituto Museu da Pessoa, agradecer em nome da nossa equipe. Eu, particularmente, estou muito emocionado com a entrevista do senhor. Muito obrigado.



R – Eu é que estou muito emocionado com o fato da Votorantim estar fazendo esse registro. Isso é uma coisa que fica e me desculpe, eu peço desculpas a quem, porventura, me ouvisse, eu tive de mencionar certos assuntos desagradáveis. Nunca com a Votorantim, mas com outras empresas nas quais eu trabalhei, mas o que eu disse é, mais ou menos, o conhecimento geral. Eu não contei nenhum segredo, não fiz nenhuma indiscrição. Eu não citei, por exemplo, as empresas que... Maioria das pessoas conhece, que deixaram de existir por falta de ter quem continue, compreendeu? E como assim… Enfim, se eu disse alguma coisa, eu peço desculpas e vocês têm todo o direito. Eu peço o favor de tudo que vocês acharem que for excesso, ou desnecessário, ou… Corta, pode cortar. Está bom?



P/1 – Muito obrigado, doutor João Câncio.



R – Muito obrigado.



P/2 – Obrigada.



R – Estou às ordens para qualquer… Agora não precisa gravar, não. Qualquer coisa que vocês queiram, que eu refaça, que não está bom, não sei o que, me chama que eu venho com muito prazer.



--- FIM DA ENTREVISTA  ---                                    

 

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