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História

Vento de Bicho

História de: Telo Borges (Marcelo Wilson Fragoso Borges)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/07/2005

Sinopse

Em seu depoimento, Telo Borges, um dos mais novos da família Borges, ligada ao Clube da Esquina, conta sobre seu primeiro contato com a música e a infância no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte. A paixão pelos Beatles na infância e pelas músicas dos membros do movimento do Clube da Esquina. As viagens que fez para Mar Azul, no Rio de Janeiro, e a primeira experiência em estúdio. Sua carreira como músico acompanhando, suas apresentações no Brasil e no mundo acompanhando pessoas, como, seu irmão Lô Borges e Milton Nascimento. A criação do Museu do Clube da Esquina e a fraternidade entre os irmãos, que são companheiros uns dos outros.

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História completa

P/2 – Eu queria que você começasse nossa entrevista contando pra gente seu nome completo.

 

R – Marcelo Wilson Fragoso Borges.

 

P/2 – Data e local de nascimento.

 

R – Eu nasci dia 22/1/1958 em Belo Horizonte.

 

P/2 – Você podia contar pra gente como que foi o seu primeiro contato com a música, infância.

 

R – O meu primeiro contato com a música aconteceu através dos meus irmãos que já eram profissionais. Tipo o Marilton, principalmente Marilton. O Lô se profissionalizou depois. Então, tinha sempre um instrumento em casa, assim, dando sopa e quando eu não tava na rua jogando bola, eu tava em casa mexendo, brincando lá nos instrumentos, no piano, no violão e tal. Então foi naturalmente que eu comecei a mexer com música.

 

P/1 – Além da música, o que vocês faziam? Como vocês brincavam? Como era o seu bairro, a rua que você morava? Descreve um pouquinho a sua infância, nesse momento.

 

R – A minha infância, assim, foi bem aproveitada. Eu era bem capetinha mesmo. Ficava na rua o dia inteiro, praticamente. Quando eu não estava na escola, já estava na rua. A minha principal diversão era, e é ainda, o futebol. Ficava sempre jogando bola e também atormentando os vizinhos, né? Batendo campainha, fazendo lata de... (RISOS)  Vou fazer esse depoimento aqui agora e é capaz de um vizinho de 30 anos atrás vir atrás de mim. Fazia umas latas de mijo e botava no muro... (RISOS) Pode cortar se quiser... Botava no muro, aí a pessoa passava sem ver o fio. Na hora que passava o fio, caía a lata em cima e eu escondido em algum ponto morrendo de rir. Tinha também um pau de bosta, que a gente enfiava o pau na bosta e arrumava uma briga: “Não, porque você está encarando porque você está com a vassoura.” “Que isso! Segura aqui pra você ver!” Aí o cara pegava, tinha sempre um curioso pra tentar apartar ou então incendiar a briga, né? Aí na hora que segurava, puxava, e ficava aquela rodela. Quer dizer, foi por isso que acabou minha mãe me internando, querendo me internar. Ela [me] colocou no “cemitério”. Porque eu era assim, na rua em Divinópolis eu era considerado um dos mais enfezados. Então foi assim, uma infância que eu considero bem aproveitada mesmo. Aprontei demais, fiz muita arte mesmo. 

 

P/1 – E como é que era Belo Horizonte nos anos 60, quando você era criança?

 

R – Minha referência, assim, de memória, que eu tenho dessa época. Porque a gente morou no centro, né, no edifício Levy. Eu tenho pouca coisa. Eu me lembro assim, que a gente ficava mais em casa mesmo. Ou da casa pra escola, da escola... Ou então no clube. Mas no centro, eu não transitava muito. Eu lembro que eu tinha um problema de hérnia, então isso me vem na memória: meu pai me levando às vezes pro médico, eu na cacunda dele. É uma vaga lembrança que eu tenho, assim, do centro. E algumas vezes, também, aprontando, no edifício mesmo, né? O edifício de 17 andares... A gente ia a cada andar, batia a campainha e BRAF! (onomatopeia), saía correndo pela escada e tal. Aprontação de menino mesmo. Então, minha referência dessa época, é isso, assim. E outra coisa que eu lembro também da minha infância, foi exatamente o dia do assassinato do John Kennedy. Eu lembro exatamente o local que eu estava, passando ali naquele viaduto da Floresta, indo do centro para a Santa Tereza, e no rádio, alguém ficou sabendo da notícia e foi uma comoção dentro do ônibus na hora. Imagina isso lá nos Estados Unidos, que o mundo inteiro ficou boquiaberto com aquilo. E dentro do ônibus... Eu era menino, lembro daquilo: gente chorando dentro do ônibus. E eu falei assim: “Mas o que que aconteceu?” Aí depois é que eu fui ligar os fatos, saber que tinha sido assassinado o presidente de um outro país. Mas que teve uma repercussão até dentro do ônibus que eu estava, em Belo Horizonte, né? Um coisa assim. É uma referência que eu lembro mais da minha infância, além das molecagens todas que eu fazia. 

P/2 – Telo, você falou que começou a brincar com os instrumentos que tinha em casa. Chegou uma certa hora que você passou a estudar mais seriamente? Ou teve algum professor que te ensinou?

 

R – Minha mãe viu que eu estava muito insistente com aquele negócio de ficar sempre brincando. Tem até uma citação que o Marcinho faz nos “Sonhos não Envelhecem”, do livro, que é a história que eu pegava o violão, e o violão era muito maior do que eu. Pegava o violão, botava no colo e TUM! Dava uma pestana, um golpe de karatê no meio dele. Aí tocava uma música do Dorival Caimmy: “Olha o mar, meu amor. Olha a brisa que beija...” E sempre brincando no piano, no violão. Mamãe falou assim: “Poxa, vou botar esse menino pra estudar, né?” E me colocou numa professora lá em Sta. Tereza, como é que era o nome da professora?! Ah, não vou me lembrar. Só sei que era lá perto de casa e a aula não evoluía pelo seguinte... Eu chegava pra ter aula, e ela falava assim: “Toca aí um pouco o que você sabe que eu quero ver.” Aí eu começava a tocar as músicas que eu estava começando a fazer e não sei o quê. E aí passava a aula inteira, a professora ficava assim: “Olha, que gracinha, que beleza.” Aí eu falei um dia com a mamãe: “Mãe, a aula não está acontecendo nada, eu fico só tocando e a professora ouvindo.” “Ah, mas então eu vou te tirar dessa aula.” E aí foi a única vez que eu entrei numa aula assim, né? Depois até estudei e tal, mas tudo sozinho, né? E eu peguei alguns métodos e tal e comecei a me auto-instruir nos instrumentos.

 

P/2 – E você tinha que idade nessa época da aula que você já compunha?

 

R – Ah, isso aí era 13 pra 14 anos, por aí. 

 

P/1 – E pra além da música? Como era o cotidiano na sua casa? Quando moravam todos os irmãos. O dia a dia. Como era?

 

R – O dia a dia era, assim, uma deliciosa confusão. Porque uma casa com 11 irmãos, e cada um com seu horário, com a sua escola, sua namorada. Então eu lembro lá de casa sempre com muita bagunça, e que me agradava, me confortava muito, de estar sempre no meio de muita gente, de muita confusão, de muita briga. Era tudo muito. A paz era muita, a confusão era muita. Então lá em casa, eu lembro disso, de ficar acompanhando meus irmãos crescendo, minha mãe. A luta da minha mãe diária. O meu pai também, que eu pouco via, que saía de manhã [e] voltava à noite. E era isso. Com o negócio da música também chegando, minhas molecagens na rua, meu futebol... Eu ficava o dia inteiro jogando bola, aí quando eu entrava dentro de casa, levava a bola pra dentro do quarto, ainda por cima. Minha mãe falava assim: “Poxa, mas não é possível, você já jogou bola demais e ainda está dentro do quarto dando chutinho, assim de noite.” Então assim, minha casa era uma casa muito movimentada pelo tanto de gente. E como se não bastasse o tanto de gente da própria casa, ainda tinha os outros, os amigos que chegavam. Então era sempre confusão. Pra você ter uma ideia, durante muitos anos, eu dormi junto com o Nico, que é meu irmão mais novo, que é abaixo de mim. Eu deitado pra cima e ele pra baixo, porque, assim, era impossível caber todo mundo numa casa daquela. Então a gente chegou a dormir junto muitos anos ainda. Basicamente isso. 

 

P/1 – O que você ouvia? O que você gostava de ouvir na sua infância, pré-adolescência? Que tipo de música?

 

R - Olha, a música que marca, assim, a minha história, que sempre foi uma coisa super ouvida lá em casa é, sem dúvida nenhuma, os Beatles. Que foi aquilo que mudou a vida de todo mundo lá em casa e a minha também. Mesmo sendo uma criança, era a referência musical que eu lembro. Eu não me lembro de outra música, assim, que me chamasse a atenção naquela época que não fosse dos Beatles. Sempre alguma coisa relacionada aos Beatles. Então assim, foi onde todo mundo bebeu mesmo lá naquela casa. Foram os Beatles. Eu, na minha concepção... De repente, o Marilton, o Marcinho, que são os mais experientes, eles tenham outras referências. Agora a minha, é puramente Beatles. Aí depois da chegada do Milton com as músicas dele, geniais também. E isso começou também a interferir diretamente dentro da nossa casa. Mas pra mim, eu acho que do Lô pra baixo, lá em casa, todo mundo é negócio de Beatles. Não tinha outra referência, não tinha. Talvez um pouco de bossa nova, de João Gilberto, de Tom Jobim, mas no geral, a maioria era Beatles.

 

P/2 – Telo, e o Marcinho, sempre citou isso no livro bastante... É o fato de o Milton ser um 12º irmão na casa. Então você era pequeno ainda quando ele foi pra lá? Como é que era isso? 

 

R - Exato. Olha, o Bituca eu lembro dele a primeira vez, assim, os primeiros momentos da minha memória, era ainda lá no centro, no edifício Levy. Eles tinham um conjunto com o Marilton que ensaiava lá, eles ficavam ensaiando. E aí numa determinada época ele começou a, além de ensaiar, dormir lá em casa também. Disso aí, ele começou a morar lá em casa. Aí ele foi pra São Paulo, foi pro Rio, e sempre voltava. Aí a gente se mudou pra Santa Tereza e ele continuou. Toda vez que ele vinha aqui pra Belo Horizonte, ele ficava lá em Santa Tereza, né? Aí virou tipo irmão mesmo. A minha mãe tinha a maior confiança. Meu pai deixava a gente, eu e o Nico, ir passar férias com o Bituca no Rio. Aí o Bituca até falava quando a gente chegava no rio, o Cristo tava lá, né? Aí ele falava que quando chegava eu e o Nico no rio, o Cristo fazia assim (põe as duas mãos na cabeça) na hora que ele via que tava chegando aqueles dois capetinhas. Então o Bituca, aí virou irmão mesmo, assim, com a maior confiança. A gente ia, mamãe liberava. Falava: “Vai, vai com o Bituca.” Aí a gente ficava no Rio com ele, eu e o Nico. Era super legal. 

 

P/1 – E você estudou? O que você estudou?

 

R – Olha, eu... Assim, minha formação colegial, eu fiz até o segundo grau. Mesmo assim, confesso que eu ainda devo umas duas, assim, sabe? Uma biologia, uma química, uma coisa assim que eu ainda devo. Mas eu estudei pouco, né? Parei de estudar cedo pra começar a fazer música. Eu acho até quem nem precisaria de ter chegado nesse ponto, eu podia ter feito música, começar a compor e tal, e continuar a estudar. Mas eu não gostava muito de estudar. Eu tinha uma coisa assim que, eu era até bom aluno, tinha inteligência, compreendia as coisas, tinha boas notas, mas disciplinarmente, me levava pro buraco, todo lugar que eu ia, eu tinha problema. Todos os colégios que eu frequentei, eu tinha problema de disciplina mesmo. Nunca gostei muito de ser mandado, gostava de tripudiar em cima de quem tava comandando. Sempre essa tendência, assim, de ficar meio querendo sacanear quem estava me mandando. Não gostava de ser mandado, e isso não deu certo. Aí eu falei assim: “Quer saber? Não vou estudar mais.” Parei de estudar. Coisa até que me arrependo, gostaria de ter estudado um pouco mais. 

 

P/1 – E música propriamente dita, você estudou?

 

R – Não. Aí a música, a minha formação, ela é toda autodidata mesmo. Eu fiquei só ouvindo muita coisa, né?  A partir de depois dos Beatles eu comecei a ouvir John Maclof, Emerson, Lake & Palmer. Pô, Yes, Gênesis. Aí eu comecei a ouvir o Milton também demais. Então eu nunca estudei assim não. A não ser sozinho, de comprar alguns métodos e tentar fazer algumas coisas mais acadêmicas. 

 

P/1 – E por que você optou por compor? Como que foi o seu caminho pra composição, pro piano? Você escolheu esse instrumento ou esse instrumento te escolheu? Como é que foi isso?

 

R – Não, porque eu tinha a mesma intimidade que eu tinha com o violão e o piano. Era a mesma coisa, não tinha muita diferença. Mas aí aconteceu que a primeira composição, ela veio no piano. E foi uma história legal que parece até um conto de fadas, assim. Eu tô com 47 anos e isso foi acho que de uns 13 pra 14 anos, aquela idade mesmo que eu fiz o Voa Bicho, a minha primeira música; Teve uma luz que passou em cima dessa nossa Terra, gente, que foi uma coisa, um escândalo, que eu lembro que teve uma repercussão muito grande, saiu em todos os jornais, saiu na televisão. Em 60 e pouco, passou uma luz em cima da Terra, assim, que todo mundo falou assim, que era um OVNI, não sei o quê. E eu lembro de ter dado em rádio, em televisão, em jornal. E exatamente nessa hora que passou essa luz, eu tava sentado na porta de casa depois de ter passado um dia inteiro jogando bola e molecando. Eu sentado assim na porta de casa, aí eu vi o corredor da casa em frente à nossa. Já tava escuro, à noite. De repente, esse corredor ficou iluminado, assim, mas um facho de luz rápido (SHUF!) e aquilo me desorientou. Fiquei assim, contei e ninguém acreditava. Eu falei assim: “Gente, vocês não viram?” E ninguém viu. E eu fui pra dentro de casa esse dia, essa noite, e sentei no piano e fiquei lá: (cantando) “Disco voador, disco voador.” Eu lembro do Marilton passando e falando assim: “Esse aí, esse está louco mesmo. Vocês podem levar porque... Recolhe porque está louco.” E eu impressionado com aquilo. Aí no dia seguinte, que teve a repercussão no mundo inteiro daquela luz, então a partir daí que me despertou... Eu queria chegar nesse ponto. Ali no negócio do “disco voador, disco voador” que eu comecei a fazer o Voa Bicho, que foi a minha primeira música. Aí eu animei, mostrei pro Marcinho e fiquei animado com o negócio de fazer música e ter ficado bonitinho, organizadinho. O pessoal falava assim: “Olha, que menino danado, que bonitinha a sua música e tal.” Aí eu falava assim: “Pô, pai.” (orgulhoso) Foi um incentivo pra mim. 

 

P/1 – Mas você escreveu? Como que era o seu processo de registro? Nessa época você já escrevia partitura? Como você registrou isso?

 

R – Não, era tudo gravado na memória mesmo, na cabeça. Aí ela foi amadurecendo, essa primeira música, e eu fiquei tocando-a muitos dias. Ela ficou gravada dentro de mim. Aí teve um festival do colegial, do colégio Pio XII, que tinha uma amiga que aí ela já conhecia a música. Aí ela falou assim: “Olha, eu quero entrar com a sua música no festival da minha escola, pode?” Eu falei assim: “Pode.” “Mas ninguém vai ficar sabendo, ela vai ficar como se fosse minha, tudo bem?” Eu falei assim: “Tudo bem, pode ser.” E aí a música ganhou o festival da escola. E eu tocando, e ela no palco, assim, o bairro inteiro, tinha muita gente de Santa. Tereza. Então eu coloquei o Marcinho pra fazer essa letra. Chamei o Marcinho, mostrei pra ele. Ele fez e ficou gravado. O meu processo de criação nessa época era todo na mente mesmo, não tinha aquela de...depois eu peguei, né? Nas minhas futuras composições eu pegava um gravadorzinho e registrava ali. Mas aquela época não, aquela época era tudo na cachola mesmo, cachola fresca.  

 

P/1 – E aí como é que foi? Ela disse que a música era dela, e como é que terminou?

 

R – Terminou que aí ela ganhou o festival e anos depois, 2 ou 3 anos depois, descobriram que a música não era dela. Diz que tentaram caçar o prêmio dela, tirar a medalha dela. Aí eu nem sei como é que ficou isso, o desenrolar dessa história. Eu sei que ela foi desmascarada com algum tempo. “Nego” entregou, falou assim: “Essa música não é dela. É de um cara lá de Santa Tereza, um menino lá que faz umas músicas e tal.” Mas essa referência é legal, do começo das minhas músicas. 

 

P/2 – Mas a música era o Voa Bicho?

 

R – Era, o Voa Bicho. Exatamente.   

 

P/1 – Pois é, você falou que foi o Marcinho que fez a letra. Como é que começou então, os irmãos incentivarem a sua composição e você continuar compondo?

 

R - É, porque aí, depois que eu fiz o Voa Bicho, eu dei uma parada, assim. Eu continuei tocando, mas não compus mais. E aí, eu fiquei lá pros 17 anos, assim... Isso foi aos 14, que eu fiz o Voa Bicho. Lá pelos 17, eu ainda tava tocando muito Voa Bicho, pra ficar gravado. Era a única música que eu tinha, eu mostrava pra todo mundo e tudo. E aí, lá pelos 17 anos, eu me apaixonei. Fiquei apaixonado. Depois eu me casei com ela. E aí, ela foi uma fonte inspiradora. Eu comecei a fazer mais, pra ela, fiz um monte. Fiz o Vento de Maio, que aí o Lô foi gravar o “Via Láctea”, né? Em 78? Isso. (pensando alto). E o Lô conhecia, porque era na verdade várias partes. Eu sempre compunha, assim, uns pedaços. Aí o Lô, que teve a idéia de falar assim: “Não, essa parte aqui combina com essa. Vamos juntar as duas, que eu vou gravar isso.” Aí virou o Vento de Maio, que o Marcinho pôs a letra. O Vento de Maio na verdade, ela teve uma versão assim: a primeira versão dela é uma letra, uma coisa, que vocês não acreditam que foi o Lúcio, o primo do Toninho Horta, o Lúcio Borracha que fez pra um show que a gente fez em Belo Horizonte. Nessa época mesmo que, eu tinha 17, 18 anos. E, a partir daí, com o Voa Bicho e com o Vento de Maio, aí eu fiquei, assim, mais chique ainda. Eu falei assim: “Não, agora eu sei fazer.” Então assim, pedia até tempo. Falava assim: “Vamos não sei onde...” Eu falava assim: “Não, agora espera aí, que agora eu estou compondo. Eu estou mexendo.” Aí eu fiquei profissional. Pra mim eu fiquei, assim, super chique. Eu falava assim: “Eu sei fazer músicas bonitas, legais, e tal.” Então isso me incentivou a continuar, dar força pra tudo, quase tudo que eu tava tocando, que tava vindo na minha cabeça, eu começava a organizar, achar um sentido, achar uma letra, achar uma forma de aquilo virar uma música. 

 

P/1 – Mas você estava falando da primeira letra feita pelo Lúcio Borracha?

 

R – Isso, do Vento de Maio.

 

P/1 – O que ela tinha de diferente ou de especial?

 

R – Não, a letra é o seguinte. Era: “Dentro do copo, um sujeito amarelo me olha de “esguela”.” Olha só, de “esguela”! (exclamando) “Dentro do copo, um sujeito amarelo me olha de “esguela”. Eu bebo por ela, eu sonho com ela, e vejo um sujeito com cara de bebum. E entorno a dose de rum com o tal sujeito por lá. E eu só lhe quis falar: ai, ai, meu Deus do céu.” Aí fica: (cantando) “Ai, ai , ai...” O refrão era todo ai, ai, ai, ai, ai. Mas a letra, nossa Senhora. Eu mostrei para o Marcinho, ele quase me bateu. Falou assim: “Mas como é que você deixa o cara...” (RISOS)

 

P/1 – Que bom que o Marcinho fez outra. 

 

R – É, ele fez outra porque a primeira...sentido que você vai procurar, não existe nenhum. Na verdade, ele quis dizer o seguinte: que o cara tava estava tomando um rum e o cara se embebedou, e ficava pensando na mulher e a via dentro do copo, e começava a gritar, a pedir pra Deus pra dar certo; Uma coisa assim, sem sentido. (RISOS)

 

P/1 – Graças a Deus que existe o Marcinho, porque a letra é linda, né? A Vento de Maio é maravilhosa. Essa história...

 

P/2 – Mas nesse intervalo, Telo; Você chegou a tocar profissionalmente ou tocar com o Marilton ou trabalhar com música sem ser composição?

 

R – Sim. Aí teve um negócio que o Marilton tinha uma casa, era...tinha uma sociedade com um outro amigo. E eles tinham uma casa ali na Bernardo Monteiro, 890; E a casa chamava 890. Então, o Marilton era a atração da casa, tocava toda noite. O Marilton vendo que eu estava meio atiradinho, nas harmonias que ele me ensinava e tal, os acordes. E eu frequentava lá mesmo sem poder, porque eu era menor ainda na época. Aí o Marilton começou a chegar um pouco atrasado, falava assim: “Não, hoje eu vou atrasar. Abre pra mim.” Querendo me lançar, me lançou mesmo, sabe? Pra mim. E aí eu tocava, às vezes, meia hora, uma hora, antes do Marilton chegar na casa pra pegar. E, muitas vezes, eu estava no palco, chegava alguém assim: (batendo palmas) “Ou, ou, rápido, sai daí rápido, que o cara está aí na porta.” Era Juizado de Menores. Aí eu tinha que ir pra cozinha, eles me colocavam dentro da cozinha e ficava aquela coisa sem harmonia. O piano vazio, ficava aquela coisa estranha. O Marilton não tava, não tinha ninguém tocando piano, a mulher cantando, quem está acompanhando? O Juizado de Menores não entendia bem o que que era aquilo, deixava rolar. Mas o Marilton é que deu essa força, assim né, esse empurrão; Tipo assim, eu morria de vergonha, falava assim: “Nossa, será que eu vou conseguir? O bar cheio de gente olhando, eu tocando.” [Marilton:] “Ah, todo mundo olha pra você. Você toca bem, não vai ter problema.” Então, teve isso; Profissionalmente, eu comecei a tocar com o Marilton. E aí, logo na sequência, depois que o Lô gravou o Vento de Maio, no “Via Láctea”, a gente já saiu pro Projeto Pixinguinha, que foi super legal. Eu fiquei, nós ficamos um mês viajando o Brasil inteiro, no Nordeste. E ali mesmo que foi meu batizado, assim, de grandes públicos, de uma responsabilidade maior. Porque bar é uma coisa, né? Agora, pra teatro mesmo, pra gente olhando... Então, a mesma pergunta que eu fiz pro Marilton, eu fiz pro Lô. Falei assim: “Lô, será que eu vou dar conta? Será que eu não vou ficar nervoso?” E o Lô: “Pô, tranquilo. Pode ir que eu estou do seu lado.” E eu lembro que os primeiros shows do Projeto Pixinguinha, eu enchia o bolso de bala soft, aquelas balinhas, pra eu ter o que fazer, assim, pra distrair. Eu ficava o show inteiro fazendo (mastigando), chupando bala e tocando. Não conseguia olhar pra lado nenhum, só pro que eu estava fazendo, de nervo, né? Eu era muito novo, né? Aí depois fui ficando mais tranquilo, assim, pra subir em palco. Mas foi essa coisa de lançamento, primeiro do Marilton e depois o Lô, que me levou para o Projeto Pixinguinha. 

 

P/1 – Como você disse, era bastante novo né. O que seus pais achavam da sua escolha profissional? 

 

R – Olha, assim, eles nunca comentaram comigo. Eu não me lembro de nenhum comentário, assim, de falar assim: “Oh, meu filho, faça isso mesmo, que é isso mesmo”, “Está certo” ou “Deixa de fazer isso, porque esse caminho não vai dar certo”. Foi uma coisa natural, eles viram que eu estava de alma naquilo, né? E de coração, com apoio dos irmãos. Então eles, assim, de alguma maneira, mesmo sem falar, eles apoiavam, né? Porque se eles não apoiassem, eles iriam chegar pra mim e falar assim: “Olha, não faça isso.” Ele ficaram na deles, deixaram a coisa seguir naturalmente. 

P/1 – Telo, quem mais participou desse Projeto Pixinguinha? Quem estava viajando com vocês, esse um mês?

 

R – Olha, a banda era...foi a mesma banda que gravou o “Via Láctea”. A banda era eu no teclado, o Paulinho Carvalho no baixo, o Fernando Oli na guitarra. Tinha o Laércio Vilar na bateria. E esse Projeto Pixinguinha era um show do Lô, do Wagner Tiso e uma cantora chamada Rosali. Que até o Wagner, de vez em quando, ele se confundia na hora de apresentar. Ficava parecendo que ele apresentava uma porção de arroz: “Agora, com vocês a Rosali (arroz ali).” Aí o pessoal pensava que ia entrar um garçom, com uma bandeja. “Arroz ali”, e a mulher chama Rosali. E o Wagner, nessa época, ele gostava, né? Aí foi essa banda. Paulinho, Fernando Oli, Laércio Vilar, Joarez Moreira, na guitarra. Aí foi uma viagem maravilhosa, inesquecível. 

 

P/2 – Logo depois veio a gravação dos Borges?

 

R – Isso. Aí na sequência, chegamos. Aí teve os Borges, né? Minha família, que foi um projeto da ex-mulher do Márcio, né? Da Duca Leal, que levou pra Odeon e tal, de juntar todos aqueles irmãos malucos, que faziam música. Colocar tudo dentro do estúdio, pegar duas músicas de cada um, e vamos fazer um grande disco. A ideia dela acabou vingando, porque foi um disco maravilhoso mesmo. Chamamos as participações, né? Cada um...eu convidei o Guilherme Arantes, pra fazer os arranjos das minhas músicas como o disco é hoje, eu tava ouvindo assim, é uma coisa muito bonita, que na época até a gente não tinha muito, assim, a saber a dimensão, né? Dessa obra que a gente fez, mas é uma coisa que eu me orgulho muito de ter feito, foi esse disco dos Borges. 

 

P/1 – Só voltando um pouquinho na sua experiência, antes de ser músico mesmo, profissional, de tocar em bar. Você chegou a tocar nos bares, você frequentava os bares do Edifício Maletta? O encontro dos músicos?

 

R – Não, não. Eu sou posterior a isso. Eu já peguei a época mesmo do...eu toquei no 890 e subi no palco, minha coisa foi essa. Eu toquei pouquíssimo em bar. A minha experiência em bar foi essa como o Marilton, no 890. A partir dali, era show. Então ficou aquele negócio, eu virei um cara de palco. Eu não era cara de bar, entendeu? Desde novo. 

 

P/2 – Aí durante essa gravação do disco dos Borges, a Elis resolve gravar sua música, né? E como é que foi? 

 

R – Isso. E aí foi a...teve isso, né? Que a gente estava gravando no estúdio 2, os Borges, que era um estúdio um pouco menor. E a Elis estava gravando no 1, que era um estúdio grandão, lá do Odeon, em Botafogo, na rua Mina Barreto. E aí, uma bela tarde, a gente no estúdio, eu não estava sabendo de nada, eu não sabia de nada; E aí o Marcinho, parece que já sabia, só que ele não tinha me falado; E aí o que é que aconteceu? Entra o Marcinho e a Elis dentro do estúdio, e eu já tinha, sabe? Conhecia a Elis, né? Assim de vista, e falei assim: “É ela.” Aí ela entrou, e eu lá quietinho lá sentado no meu canto lá, bem sossegado. E aí vem o Marcinho, parou, e ela veio. Ela veio andando assim, passou e veio na minha direção. E eu falei assim: “Nossa, é ela. Está vindo, está vindo! É ela, é ela!” (RISOS) Aí chega a Elis, chega pra mim: “Você que é o Telo?” Eu falei assim: “Sou eu mesmo.” E ela falou assim: “Vem cá que eu vou te mostrar uma coisa.” E eu falei assim: “Meu Deus, o que será que está acontecendo?” Aí ela me pegou pela mão, eu já fui meio tremendo, assim. Aí nós entramos no outro estúdio dela, ela falou assim: “Solta, maestro.” Tava gravado já. Aí ela mostrou Vento de Maio e eu fui assim: “Ahhh.” Caindo assim, quase...Aí fiquei a maior emoção. Chorei, fiquei na maior alegria, né? É aquela gravação dela do Vento de Maio, que é uma das coisas mais lindas que eu já vi. Então foi dessa forma assim. Fui pego de surpresa numa tarde, gravando uma outra coisa e ela veio, me pegou pela mão e a partir daí, a gente ficou super amigo; E aí eu mandava carta, ela me respondia (as cartas). A gente ficou super amigo uma época. Saía com ela, com o César, ia jantar, não sei quê. Foi ótimo assim. Aí teve aquela tragédia, que foi a passagem dela pro andar de cima. Que eu estava assim, todo esperançoso, que ela estava, inclusive, com o projeto de gravar o próximo disco dela. Ela falou assim: “Nossa, vou gravar agora. Eu gravei uma, adorei. Agora vou gravar é 3 músicas suas!” Então tinha mandado umas 10, assim, pra ela, sabe? E de repente, a notícia, que pegou todo mundo de surpresa, e eu fiquei super traumatizado, fiquei chocado. Eu lembro que minha primeira reação foi no supermercado. Eles queriam comprar uma garrafa de uísque, olha só, eu devia ter 22 anos, 23. Eu fiz isso. Me contaram, eu tomei aquele choque [e] falei assim: “Ah não, mas não é possível, porque, como?” “Ah, foi assim, assado..” Eu falei assim: “Ah, então vou ali na esquina.” Aí fui lá e comprei uma garrafa de uísque e fiquei assim: três dias ouvindo o Vento de Maio, chorando e tomando uísque. Só chorava e bebia, chorava e bebia. Então uma reação que eu tive de, sei lá né? Uma coisa infantil minha assim, pra tentar confortar essa dor.

 

P/1 – Antes que a gente avance mais as suas parcerias, eu queria voltar um pouquinho ao Clube da Esquina. Quais foram as suas ligações com o Clube da Esquina, com a esquina mesmo? O que você se lembra daquele momento? 

 

R – Olha, o que eu me lembro, daquela época é que eu quase recebi a carteirinha de sapo, (RISOS) do Clube da Esquina. Porque o pessoal era um pouco mais velho do que eu, e eu estava sempre interessado nas coisas deles, né?  Nos movimentos, nas esquinas, aonde que eles iam, o que eles estavam fazendo. E muitas vezes eu era convidado a me retirar. Falavam assim: “Olha, menino. Agora, até agora tudo bem, mas a partir daí você dá licença, porque agora aqui esse assunto não é pra você e tal.” E eu estava sempre, toda hora...passavam 2 e eu já começava a ir atrás deles. “Não, agora você não vem não. Agora você espera.” Então era super sapo. Eu era um menino que ficava sapeando tudo isso. Via o pessoal tocando. Ia muito pela música e muito pela companhia, assim, dos papos adultos. Eu gostava de vê-los conversando a respeito de música, a respeito das outras coisas. Então era essa a minha referência assim, de ser muitas vezes convidado a não participar, tipo assim: “Você está menino demais, agora não, você já ficou muito tempo. Agora você vai pra casa que nós vamos fazer não sei quê.” 

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Ah, essa época do Clube, era mais ou menos aquela época que foi gravado o Clube 1, tem 33 anos, não é isso? Eu tenho 47. A gente faz a conta, vai dar 14 anos. Que tem na capa do Clube, tem na contra capa, tem eu descendo a rua em Divinópolis, do lado do Bituca, ele com o (monte?). Eu sou aquele que está à direita dele, assim, aquele pirralhinho. Era pequeno ainda. Era aquilo ali, cara, eu ficava ou jogando bola ou andando atrás dos adultos ou fazendo, só fazendo arte, o tempo inteiro. 

 

P/1 – E nesse momento que você ficava junto com eles, tem alguma cena específica que você se lembra?

 

R – Não, específica não. Eu lembro só desse negócio do violão, que era uma constante, né? Sempre que tinha um ou mais reunidos naquela esquina, sempre tinha um violão envolvido, muitas vezes uma fogueirinha que a gente fazia pra assar uma batata doce, uma coisa. Ficava aquele clima de roça mesmo. Belo Horizonte 30 anos atrás era bem roça mesmo, né? A rua [com] calçamento de pedra...

 

P/1 – Então, você estava contando que Belo Horizonte tinha um clima de roça.

 

R - Era um clima de roça mesmo. Então o que eu lembro desse povo encontrando era uns ensaios lá em casa, do Marilton com a banda dele no (Edifício) Levy. E lá em Santa Tereza, esse piano, lá na sala sempre. E o violão, que era uma constante na Esquina. A gente sentado...a gente não, né? Os adultos sentados tomando uma, tocando violão e tal, com as meninas, namorando; E eu sapeando. Então minha referência era essa: eu sempre gostaria de estar no lugar deles. Falava assim: “Porra, eu ainda vou ser grande. Ainda vou ser adulto, vou sentar na esquina e vou tocar meu violão. Sem ninguém me mandar embora pra casa!” 

 

P/1 – E você chegou a frequentar a garagem dos irmãos Venturini?

 

R – Algumas vezes eu cheguei a frequentar. Foi a época até, né, que teve o negócio...tinha o Fio da Navalha, né, aqui em Belo Horizonte. Então essa época, assim, eu já estava praticamente perseguindo o Lô, né? Onde o Lô ia, eu ficava querendo saber onde que eram os ensaios, tudo, porque eu ia ir. Às vezes, ia com ele, ele mesmo me levava. Falava assim: “Ah, não tem jeito de eu...de você não ir, né? Porque senão você vai ficar aí e tal, me perguntando.” Aí eu já aparecia sem ele me chamar mesmo, então era...gostava muito de frequentar esses ensaios lá na casa do Flávio, né? E foi a época que eu e o Cláudio Venturini começamos a ficar amigos assim, também né? Que ele também não tocava nessa época, ele operava o som. Então quando o pessoal saía pro café, ele pegava a guitarra e eu ia pro piano lá do Flávio, e tal. A gente ficava curtindo, né? O pessoal chegava, falava assim: “Opa, agora são eles.” Era só mesmo dando canja assim, né? Mas eu cheguei a frequentar algumas vezes esses ensaios lá na casa do Flávio. 

 

P/2 – E a chegada do disco Clube 1 dentro da sua casa? Você lembra como é que foi? Quando vocês ouviram o disco pronto?

 

R – Foi a hora que parou de tocar Beatles lá em casa, foi quando chegou o Clube 1. Que aí era direto, aí o pessoal falou assim: “Nossa!” Mas aí ficou todo mundo no maior orgulho, né, de ter visto aquilo acontecer. E de ter virado um sucesso no Brasil inteiro, né? E a gente conhecia todas as músicas, todas as letras, né? Então era uma coisa assim, diária, né? Botava o disco, furava a agulha, botava o dia inteiro durante anos, né? Foi muito legal isso, e todo mundo lá em casa...eu lembro das minhas irmãs, da minha mãe, do meu pai, todo mundo sabia tudo do disco. A ordem que vinha, as letras. Então assim, virou uma, tipo um livro mesmo pra gente estudar, né? Um livro de música pra gente estudar, né? 

 

P/1 – Você estava naquela primeira audição que teve no disco? O Márcio que conta. Parece que a primeira audição com todos foi feito lá na casa da sua mãe, você se lembra?

 

R – Ah, lá em Santa Tereza. Com certeza. Eu não me lembro não, assim, precisamente desse momento. Mas com certeza, interessado do jeito que eu era nas coisas dos adultos...eu tava lá presente num cantinho lá, ouvindo, com certeza, e adorando, porque foi uma coisa muito importante pra formação da gente, musical. 

 

P/1 – E a casa do mar azul, lá? O momento que eles ficaram no mar azul, no Rio? Você chegou a frequentar aquela casa?

 

R – Eu fui lá algumas vezes, né, de férias, assim. Cheguei a ir lá algumas vezes. Inclusive, eu testemunhei um fato, assim, absolutamente inédito. Ninguém acredita quando eu digo. Eu vi o Milton Nascimento jogando futebol, naquela época. Era assim, um flagelo da natureza, né? Uma coisa completamente descompensada. Acho que só se equipara ao Beto Guedes jogando bola. Era uma coisa sem o menor sentido, ele, a bola, era uma coisa que não tinha...você olhava assim, nossa, você não acreditava. Ele caía sem a bola vir, ele via a bola, ele tropeçava. Só de ver a bola, ele tonteava, assim. Era muito engraçado. E eu via, o pessoal falava assim: “Não, o Bituca nunca jogou bola.” Até ele falava assim: “Eu joguei?” Eu falei assim: “Jogou, eu já vi você jogando bola.” Aí essa época do mar azul, eu lembro dessas peladas na praia que era aquele tanto de gente jogando. Nessa época o pessoal gostava muito, né, de tomar uma. Então quando chegava nesse ponto do Bituca jogar bola, você imagina o estado alcoólico que não estava esse povo todo, né? Aí ficava aquela...nossa, era bom demais mais da conta. Eu adorava aquela casa lá em Piratininga, né? Teve até um negócio de um carneiro, também, a história de um prato lá que eles fizeram e que ninguém teve a coragem de comer porque o bicho estava feio demais. A mulher fez um jantar pra nós lá em Mar Azul. Essa vez, essa noite, tava não só eu como minha família inteira. Eu lembro da minha mãe, meu pai, estavam todos lá, nessa casa. E aí fomos fazer o jantar, e na hora que chegou assim, todo mundo entrou na sala de jantar; Tava o carneiro lá assim, mas estava feio demais, ninguém teve coragem. Ficou aquele clima, assim, as pessoas com medo: “Será que nós vamos comer isso, e tal?” Ficou um clima muito estranho. Eu não esqueço disso. Lá em Mar Azul eu lembro das peladas, né, na praia, das bagunças na praia, e desse carneiro lá, que eu nunca entendi o que que era aquilo. Se alguém comeu aquilo? Eu acho que não. (RISOS) 

 

P/1 – E, assim, mais do momento que o pessoal estava lá meio no processo criativo, você não chegou a frequentar?

 

R – Não, porque ali tinha a praia, né? Ali eu conseguia me distrair, me desgrudar deles um pouco. Pra mim a atração maior era o mar, né? Era apaixonado com o mar, né? Então ali eu dava um pouco mais de sossego pra eles e via que também, àquela altura, a coisa já estava mais profissional, não era uma coisa tão assim de esquina, de rua, não. Era uma coisa que eles sentavam pra trabalhar. E aí meu interesse, eu falava assim: “Trabalho também eu não estou querendo tanto assim não, quero mais é ficar ali na praia, né, curtindo o mar ali.”

 

P/1 – E você tinha, as pessoas... Enfim, você tinha uma ideia, tinha uma dimensão do que seria esse disco?

R – Eu não fazia a menor ideia. Sinceramente, não. Eu não...na minha mente, assim, juvenil, né, quase infantil, eu não fazia...não tinha concepção do que é que viria se tornar isso. Pra mim era uma coisa de muito bom gosto, né? Uma música muito gostosa de ouvir, as letras fáceis, de compreensão assim. Eu entendia tudo, mas não fazia nenhum juízo daquilo, do que é que poderia acontecer. 

 

P/2 – Você é o primeiro que fala que foi fácil... (RISOS)

 

R – Da compreensão? (RISOS). É, porque eu também estava muito...Eu estava mergulhado demais naquilo, né? Então eu percebia até o que as pessoas estavam sentindo, né? Por exemplo o caso do Marcinho, né: eu percebia, assim, praticamente tudo que ele estava querendo dizer. Não tudo, às vezes, por causa que eu era muito novo, mas eu entendia, a intenção eu sacava que era uma intenção de luz, de coisa boa, de romantismo. Eu sacava que era uma coisa focada mais pra essa coisa boa, assim, não era uma coisa triste, não era uma coisa de saudade, não era nada disso. Era uma coisa de: “Vamos, gente, tal. Olha aqui, tem a nossa música...” Eu percebia esse movimento. Agora, as nuances assim das palavras, às vezes, muitas vezes eu passava batido também, mas a intenção eu percebia.

 

P/1 – Vários musicólogos, estudiólogos já consideram, já escreveram, inclusive, assumindo que é um movimento, que o Clube da Esquina passou a ser um movimento musical. Você concorda? O que você acha dessa afirmação?

 

R – Eu acho que sim, eu acho que como foi um trabalho, desse primeiro disco, que teve uma repercussão muito grande e levou muita gente junto, muita gente querendo ser do Clube da Esquina, querendo fazer uma coisa parecida com o Clube da Esquina. Eu acho que aí sim se encaixa nessa conotação de movimento. É um movimento, movimentou muita gente. Quem não conhecia, gostou e quis participar. Quis ser da nossa turma, entendeu? Então eu acho que aí é uma coisa de movimento.

 

P/2 – Você ainda muito novinho participou dos “Milagre dos Peixes” também, não é Telo? Conta aí pra gente.

 

R – Ah, é. Tem essa passagem. Essa foi anterior à [minha] primeira composição, né? Anterior ao Voa Bicho. Isso ali, pô, 10 anos, 11, 12 anos. Numa dessas férias que eu fui passar com o Milton, com o Bituca, eu e o Nico... Aí teve um belo dia lá que no meio dos sorvetes e da praia, não sei o quê, falaram assim: “Hoje nós temos que trabalhar.” Eu falei assim: “Eu?” Falaram “É, hoje você vai cantar no estúdio.” Eu falei assim: “Mas que beleza, é mesmo?” Aí o Bituca levou, eu nem sabia disso, né, estava acompanhando. Só sabia que tinha, além dos passeios, o zoológico, o Corcovado, o Pão de Açúcar, tinha uma hora que nós íamos pro estúdio gravar, cantar. Eu falei assim: “Nossa, tá lindo.” Aí participamos do “Milagre dos Peixes”, né? O Nico cantou o Pablo e eu cante o Cadê, que a letra foi censurada, né, a letra do Rui Guerra. E a gente cantou junto com a Clementina de Jesus. Eu, Bituca, o Nico, a Clementina e mais alguém? Acho que não, acho que foi só a gente mesmo. Aí foi a maior beleza. Depois ouvia, né? Gravava e a gente ficava lá dentro ouvindo. Vê se eu ouvia a minha voz e eu não ouvia, porque tinha muita gente cantando. (RISOS) Mas, assim, foi uma experiência legal, né, de entrar no estúdio a primeira vez com o Milton e com a Clementina. Cara, eu menino. Eu não me esqueço disso.

 

P/1 – E você gostava de cantar também? Você já cantava naturalmente?

 

R – Ah, gostava. Adorava, né? Cantar, tocar, esse movimento musical sempre, né. Depois dos Beatles, que eu conheci as primeiras músicas dos Beatles, né? De ir no cinema ver “Os Reis do Iê, Iê, Iê”, “Help”, não sei o quê. Eu fiquei super ligado em música e interessado em cantar, em tocar, em tudo. Ficava sonhando com isso, falava assim: “Ah, ainda quero virar um cantor, virar um...” Aliás, tinha outros sonhos também, né? Eu tinha um sonho de ser jogador de futebol, né? Que o pessoal falava que eu era muito bom, na época, que tinha...parava gente na rua, assim. Teve uma época que, sem brincadeira, não é porque eu estou na minha presença não, (RISOS) mas teve uma época... Era essa época mesmo do Clube, 12 anos. Eu era assim, eu driblava todo mundo, não tinha gente que eu não driblasse. E aí eu lembro disso, de gente parando na rua pra ver. Eu era, assim, considerado no bairro. Falavam assim: “É o menino que mais dribla.” Eu era muito bom. Aí eu alimentei esse sonho também, falei assim: “Quero ser jogador de futebol.” E dos bons, né? Só que aí, eu tive até oportunidade, fui convidado pra treinar no Vila, me parece, e aí eu tinha que estar lá 6h da manhã, não fui não. (RISOS) Não consegui chegar na hora, não. Aí eu desisti. Resolvi jogar na rua mesmo.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho ao disco, ao “Clube da Esquina 1”. O que é que, hoje em dia, o que representa esse disco pra você? Como pessoa, como irmão, como músico?

 

R – Olha, pra mim, assim, representa a bíblia musical. Pra mim é onde que estão os ensinos, assim, básicos, de uma música brasileira e de qualidade, né?  Eu acho que está ali, pra mim, resumido naquele disco. Eu considero, pra mim, uma coisa básica na minha formação. Foi ali, decorando aquelas músicas, aquele álbum de 20 e tantas músicas, aquelas 20 e tantas letras. Foi decorando e estudando exaustivamente aquilo que me formou musicalmente. Assim, praticamente, né? Claro que não é só isso, como eu falei, os Beatles eram uma coisa parecida também, apesar de ser em inglês e eu não entender nada, de ser uma coisa mais musical, né? O lance dos Beatles. Mas pra mim é isso, Clube da Esquina pra mim é uma bíblia musical, assim, referência. 

 

P/1 – E que estilos, que linguagens, que conceitos que você encontra nesse disco? Por que ele se tornou tão inovador? Por que foi considerado, como muitos dizem, um divisor de águas entre o que era a música popular brasileira e o que passou a ser depois do disco?

 

R – Sei. Eu acho, sabe por quê? Porque eu acho que aquelas músicas ali, contidas naquele disco, naquele álbum duplo, elas resumiam o que de melhor tinha na música mundial na época, ou seja, tinha uma coisa do rock, dos Beatles, da bossa nova, tinha... Era um assim, era uma coisa que resumia todas as coisas de bom gosto da música, do Jazz. Estavam todas ali, naquelas músicas. Então eu acho que é por isso que pegou todo mundo pelo pé, que era uma coisa completa. Era uma coisa pra quem gostava de poesia, de bossa nova, de rock, de música boa. Então eu acho que é por isso é que pegou muita gente pelo pé, assim, de falar assim: “Uai, que isso, que coisa completa.”

 

P/1 – E inclusive, pega até hoje, né? 

 

R – Exatamente, pega até hoje.  

 

P/1 – O que você diz dessa nova geração que está vindo a reboque do Clube da Esquina? Nova geração de músicos?

 

R - Sei, aí que acho que é... Eu vejo assim, com bons olhos. Eu acho que está...o pessoal que tem essa formação, né, do Clube da Esquina tá bem encaminhado pra poder fazer música legal também, né? Que vem, como eu disse, né? Com todos os ingredientes de uma boa música. Então acho que é uma boa formação pra qualquer músico, né? Principalmente para os novos aí, que aí já têm outras referências também, né? Mas o Clube da Esquina, em si, é uma coisa, uma referência forte pra quem tá começando. Eu aconselharia, né? Tá começando? Vai ouvir, vai estudar o Clube da Esquina, que ali você vai pegar muita coisa boa. Com certeza.

 

P/2 – Pegando assim de novo o fim da meada da sua trajetória profissional, começada tão cedo. Aí você acompanhava o Lô, nos ensaios, em tudo. Você conheceu o Beto, na mesma época?

 

R – Isso. Aí um pouco depois que eu estava viajando com o Lô, a gente foi fazer o lançamento, acho que foi do “Via Láctea” aqui mesmo em Belo Horizonte. Então a gente estava ensaiando lá no Sion, na casa do Mário Castelo; E aí, um belo dia, o Beto foi nesse ensaio do Lô. E ficou lá, eu lembro exatamente, o Beto de chinelo havaiana, super simples, tomando um cafezinho, fumando um cigarrinho, que era pra ver o ensaio. E aí eu, eu não tinha nada, assim, eu era amigo do Beto, pô, o Beto. Eu achava até meio chato que ele tinha isolado uma bola minha uma vez. Ele chutou, porque o Beto era ruim de bola, chutou com a bota, assim, minha bola prendeu numa, ficou presa no galho da árvore, assim, furou e ficou presa. Eu traumatizei com o Beto depois daquilo. Que mexer com bola minha era uma coisa que mexia comigo. Então, assim, era irmão. O Beto era tipo irmão também. Então não tinha nem um pouco, assim, impressionado: “Oh, o Beto Guedes está no ensaio!” Nada disso. Até porque ele também não tinha o nome que ele tem hoje. E aí ele, no intervalo do ensaio, ele chegou pra mim e falou: “Você topa tocar comigo? Estou lançando um disco aí e quero fazer um show. Você topa?” Aí eu falei assim: “Nossa, Beto, claro. Agora eu já estou tocando com o Lô, cara. Vamos embora, vamos fazer sim.” E aí foi nisso, foi num ensaio do Lô, lá no Sion, que o Beto me chamou. E aí eu fiquei emocionado, assim, né, de ter dado esse passo profissional. De falar assim: “Porra, já tocou com o Lô. Agora vem o Beto e me chama pra tocar com ele.” E aí nós fizemos, eu lembro da estreia minha com o Beto, aqui em Belo Horizonte, no Ginástico, ali no alto da Afonso Penna. Mas foi uma coisa assim, maravilhosa, porque estava lotado, super lotado, o Ginástico inteiro. E teve uma música, esse lance foi demais, teve uma música “O Medo de Amar”: (cantarolando) “O medo de amar é o medo de ser, nã, nã, nã...” E aí no final da música, era pra todo mundo acabar. Tinha um final que a gente convencionou e ensaiou durante muito tempo que acabava todo mundo. Só que na hora, na intuição, na luz, veio uma coisa que eu continuei. A música acabou, todo mundo acabou, e eu continuei fazendo um piano elétrico com flanger. E o Beto chegou perto do piano, no palco, assim, e veio com a guitarra e ficou. A banda parou e ficou só o piano assim, molhado, dando umas notinhas, e ele fazendo um solinho de guitarra. A gente ficou, assim, uns 2 minutos, sabe? E o povo: “Uaaa!” E eu todo arrepiado, assim, uma coisa que pintou na hora. E aí, tava batizado, e ali eu fui batizado. Tipo, o Beto falou assim: “Eu não vou abrir mão desse cara mais, né?” Que ali foi a minha estreia. E teve esse momento, assim, maravilhoso só de uma coisa que não tava combinada, de a gente fazer junto um pedaço assim. Aí HUAM! acabou! O Ginástico veio abaixo: “Uaaaa!” O Beto apontou pra mim, assim, eu levantei, nossa, aí fiquei 12 anos com o Beto depois disso.

 

P/2 – Qual foi o primeiro disco que vocês _______, desse show?  

 

R – Esse show foi Sol de Primavera. Foi maravilhoso. Saudade...



P/2 – E você continuou compondo, mesmo tocando esses 12 anos com o Beto? Você continuou fazendo suas músicas?

 

R – Isso. Aí foi que eu, além de viajar com esse povo, né, de estar na estrada... Era uma coisa que eu fazia muito, era compor. Aí começou a ficar assim, uma coisa...eu não conseguia não compor. Sempre que eu sentava num instrumento, começava a vir coisa, começava a vir ideia e tal. Aí virou uma coisa minha, até hoje eu sou meio assim. Eu não posso ficar muito tempo tocando que daí a pouco eu começo a querer organizar, juntar, combinar, botar letra. É coisa de compositor mesmo. Aí ficou comigo isso, eu sempre tive muito isso. Aí hoje, por exemplo, eu tenho 150 músicas. Eu devo ter umas 20 e poucas gravadas. Quer dizer, não é nem...20% da minha obra é inédita, assim, tem coisas demais por causa disso, porque eu estou sempre compondo, sempre fazendo muita coisa.

P/1 – E como que é o seu processo criativo? De onde que vem essa vontade de organizar as harmonias, as melodias? Conta um pouquinho.

 

R – Pois é, cara. Essa é uma pergunta que eu gostaria, é uma pergunta que não quer calar, né? Eu gostaria de saber também o que é que é. É uma inspiração, é uma inspiração da minha pessoa mesmo, do meu ser. Eu não defino assim, não é uma coisa técnica, prática, tipo assim: “Eu vou fazer.” Não, ela vem naturalmente, eu estou sentado e ela vem. Acontece.

 

[PAUSA]

 

P/2 – Telo, você podia contar um pouquinho como que é sua parceria com o Marcinho, de ele fazer suas letras.

 

R – O Marcinho, ele é o...é considerado o poeta da família, né? É o cara das letras, o cara que escreve e tal. Então eu tenho muito, assim, muito orgulho, muito prazer do Márcio ser o meu parceiro mais constante, né? Acredito que das minhas músicas com letra, ele seja o autor, assim, de 70% das minhas músicas, é com o Marcinho. Então é, pô, estou super bem entregue, encaminhado, né bicho? Um cara que escreve bem igual o Marcinho, então é, pra mim é um prazer muito grande de ter ele como principal parceiro.

 

P/1 – Tem algum evento, alguma história que você se lembre dessa parceria de vocês que você acha interessante? Algum momento que vocês viveram nessa parceria?

 

R – Sei. Olha, tem dois momentos assim... Aliás, não, tem mais, tem três. Tem o primeiro, que é a primeira música que eu fiz, que foi a letra dele, que foi o Voa Bicho, de ter ganho de cara esse festival. Primeira coisa que saiu de mim pra uma coisa, para os outros ouvirem, de ter ganho esse festival lá no Pio XII. Tem a outra que é o Alma de Borracha, que a gente fez duas músicas, duas Almas de Borracha. E o Beto gravou a Alma de Borracha dois, que deu o nome até ao disco dele. Então isso foi super legal também, a gente fazer uma música, o Beto escolher e virar nome do disco. Então achei isso uma estrela minha e do Marcinho também, da nossa parceria. E a outra é o Vento de Maio, pelo fato de ser a minha música mais conhecida, né, a mais gravada também. E da Elis ter feito aquela gravação maravilhosa, e de ele ter entrado com a Elis no estúdio. Então, assim, são três momentos assim, da nossa parceria, que eu considero bacanas.  

 

P/2 – E depois de 12 anos com o Beto, né? Como você mesmo falou. Como é que veio a integrar a banda do Bituca? Como é que chegou isso?

 

R – Olha, o Bituca é o seguinte, eu lancei em 98 o meu primeiro CD, que foi o Vento de Maio. E aí fiz um show no Teatro Alterosa, super legal, e esse show, depois do show, teve um coquetel do lançamento, e a gente foi lá na Savassi, num lugar lá no coquetel do lançamento do meu disco. E aí, tocando, né, todo mundo tomando uma e tocando o CD. Aí uma hora eu passei perto do Beto, o Guedes, e ele chegou perto de mim e falou assim: “Ô véio, essa música é bonita demais, sô.” Que a música no Vento de Maio ela está... No Vento de Maio tem uma trilha, era a última música, uma trilha só instrumental. E o Beto falou assim: “Pô, mas isso é bonito, rapaz. Eu adorei! A música que eu mais gostei do seu disco é essa. Quero gravar isso, como é que faz pra gravar isso? Porque não tem letra...” Eu falei assim: “Ô Beto, eu não sei. Não tem letra, como é que você vai..” Ele falou assim: “Olha, pra mexer nisso, pra entrar nessa música, tem que ser uma pessoa do nível do... Tem que ser o Bituca pra cima, não pode ser...tem que ser o Bituca.” Ele falou assim: “Tem que ser o Bituca. Se o Bituca fizer uma letra aí, alguma coisa, eu gravo isso no meu próximo disco.” O Beto falou. Eu falei assim: “Uai, então vou ligar para o Bituca.” Aí ligo para o Bituca, falei assim: “Ô, Bituca! O Beto adorou uma coisa minha aqui, e falou que tem que ser você porque ele quer gravar.” O Bituca falou assim: “Pô, claro. Adoro também.” O Bituca já tinha o disco. “Gosto também.” E aí fui pro Rio. O Bituca marcou, eu fui lá pro Rio. E aí ele todo sério, né, o Bituca de óculos, assim, com a prancheta: “Toque mais uma vez.” Eu toquei, toquei: “Mais uma.” (RISOS) Aí o Bituca fez a melodia, pegou o violão, fez a melodia. E aí falou assim: “Agora, deixa comigo que eu depois vou fazer a letra.” E aí nasceu Tristesse, que é a música nossa, minha e do Milton. E nisso, o Bituca, o Beto gravou realmente com a Paula Toller, né, o Dias de Paz, né, aquele disco dele. E aí o Bituca adorou também, falou comigo. Falou assim: “Não, eu vou gravar isso. No próximo disco, eu vou colocar essa música nossa.” Eu falei assim: “Ótimo.” Aí eu estava em Brasília, fazendo um trabalho político lá em Brasília. Aí o Bituca me liga: “Olha, tá na hora. Vamos gravar? Só que é o seguinte, eu quero gravar, vou gravar o Tristesse e quero gravar o Voa Bicho também.” Aí até o Marcinho estava do meu lado, eu falei assim: “Pô, mas que beleza! O Marcinho vai adorar que você vai gravar o Voa Bicho também, fala com ele aqui um pouco.” Aí o Marcinho falou assim: “Ô, Bituca! O bicho já estava empalhado e você está botando ele pra voar de novo?” (RISOS) Voa Bicho, né? Aí teve a história do sertão, como é que é mesmo? Essa peça, ponto de partida... E aí eu fiz uma música, eu mostrei pro Bituca e ele fez a letra, quer dizer, ele gravou três músicas minhas, no último CD dele, no Pietá. E aí, eu fiquei todo feliz, né cara, de gravar com o Bituca e tal. E aí fiquei na minha. Estava até fazendo um show aqui em Belo Horizonte no dia, e aí liga o Bituca pra mim, falou assim: “Olha, eu queria te convidar, pra você fazer a turnê do Pietá com a gente, você topa?” Aí eu falei assim: “Pô, Bituca! Se topo!” Aí fiquei na maior alegria, e tal. Aí isso já são quase três anos. E aí o que é que aconteceu? O disco do Milton foi lançado, nós fizemos a turnê, e a música ganhou um Grammy Latino, a Tristesse, essa minha primeira parceria, minha com o Milton, que já veio carimbada também, né? É igual eu e Marcinho, né? Primeira coisa que a gente fez deu super certo, né? Então aí, cara, fizemos. Aí viajamos. Já fomos três vezes pra Europa, vamos amanhã pela quarta vez, ficar um mês viajando pela Europa. Estivemos no Japão, estivemos na África e tal. Aí começou. E todos os lugares a mesma coisa. Vai tocar o Tristesse, seja qual língua, ele fala da nossa parceria com o maior carinho e me apresenta em separado, assim. E aí a gente faz o Tristesse, o pessoal ama e tal. A Marina canta pra caramba, a Marina Machado, né? Então essa história aí tem três anos já que eu estou com o Milton. Aí está em um momento de muita alegria mesmo. Porque o Bituca é, pra mim um né, é a minha referência musical também muito forte, né? E ele, a gente tem uma coisa, uma intimidade assim de família, né? De anos juntos e tal. Então é... Tô super em casa, adoro subir no palco como Bituca, é uma lição a cada show.  

 

P/1 – E quais as lições que você vem tirando da sua carreira? Lições de vida, mesmo.

 

R – Lição de vida é o seguinte. É...muita calma, humildade, né? A lição que eu tenho da minha música, que é uma intuição que Deus me deu, então eu agradeço isso a Ele, a Deus, por ter me dado essa intuição. E de ter me dado essas oportunidade que eu tenho tido, de poder viajar o mundo inteiro, de poder estar mostrando o meu trabalho. Então o que eu acho que fica de lição pra mim, nessa história, é de saber que a gente tem dono, a gente não tá por acaso aqui nesse mundo, nem fazendo música [por acaso] . A gente tem a missão da gente. E que a gente deve sempre muito agradecer a Deus pelo que a gente tem, seja muito ou pouco.

 

P/1 – Só pra terminar, Telo, queria saber o que você acha dessa iniciativa do Museu do Clube da Esquina? O que você acha de ter dado o seu depoimento, contribuído pra que a memória continue?

 

R – Sei. É, eu acho que a importância maior da história do Museu é exatamente abrir mais o leque, esse livro dessa história da música do Clube da Esquina para o mundo inteiro. De oficializar isso, dessa coisa ficar mais prática, mais acessível, né? Então acho isso assim, principalmente para as gerações futuras, né? Para os novos aí, isso é fundamental, né? Você poder conhecer essa história do Clube da Esquina já com um projeto super bem elaborado, com uma coisa super definida. Então acho que a importância é essa, é de ser uma coisa aberta e bem feita, pra qualquer um que chegar vai ter o conhecimento de quem já está lá há muito tempo.

 

P/1 – Tá bom. Obrigada. 

 

R – Falou, valeu.

 

[FIM DO DEPOIMENTO]

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