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História

Vendendo beleza

História de: Cecília Apollônio Motta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Infância no bairro do Cambuci e estudos no Dante Alighieri. Seu casamento. A necessidade de trabalhar e a vinda da Avon para o Brasil. Seu desempenho como revendedora de produtos de beleza. O procedimento da venda a domicílio. As formas de pagamento. O convite para ser promotora de vendas e a montagem da equipe. As campanhas de vendas e o incentivo às revendedoras. Os principais produtos da Avon e suas embalagens. Saída da Avon e dia-a-dia atual.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Cecília Apollônio Motta (de casada). Eu nasci aqui em São Paulo, na capital, no dia 4 de novembro de 1928. Meu pai era Domingos Apollônio e nasceu na Itália, na Calábria. Minha mãe era Elvira Campilongo Apollônio e nasceu em Nazaré Paulista, em São Paulo. Mas é filha de italianos.

 

INFÂNCIA Eu praticamente morei sempre no Cambuci. Passamos uma temporada na Vila Mariana, onde meus avós paternos moravam, mas por pouco tempo. A maior parte foi no Cambuci.

 

SÃO PAULO ANTIGA – CAMBUCI O bairro do Cambuci era uma beleza. Um lugar onde as crianças podiam brincar na rua à vontade. As ruas não eram calçadas. Eu morava na Rua Antônio Tavares. Era uma rua que dava perfeitamente pra criançada brincar, não tinha calçamento nenhum. A criançada brincava até tarde na rua. Quando passava um carro por ali, saía gritando "Um automóvel!", ficava tudo entusiasmado. Hoje tem um movimento tremendo, passa até ônibus elétrico e automóveis a todo o momento. Mas naquela época era realmente uma rua muito tranquila. Não só a rua, todo o bairro era tranquilo. Um número muito grande de italianos morava naquelas imediações.

 

INFÂNCIA Antes de entrar na escola, só brincava. Naturalmente era de manhã: levantava, brincava na rua, depois almoçava e ficava à tarde também brincando. Depois, quando fui pra escola já mudou um pouquinho: a gente só brincava um pouquinho na parte da manhã, à tarde já tinha a escola e depois tinha a lição. Naquele tempo não tinha a televisão, era o rádio só. Então, a gente se distraía ouvindo um pouquinho do rádio ou então com outras brincadeiras. No rádio tinha um programa que se chamava "Nhô Totico" onde ele fazia vários personagens com a voz dele mesmo. Era uma escolinha, então ele imitava crianças e imitava pessoas mais idosas que frequentavam a escolinha. Era um programa que atraía muito a criançada. Faz um bocado de tempo.

 

EDUCAÇÃO Naquela época a escola era bem melhor. Eu estudei o primário no Grupo Escolar Oscar Thompson, que ficava no Largo do Cambuci, praticamente na Luis Gama com Cambuci. Depois eu estudei o ginásio no Dante Alighieri, que até hoje existe ali na Alameda Jaú. Lá a direção toda era italiana. O diretor, inclusive, falava bem mal o português. O italiano era uma língua obrigatória lá, era importantíssimo. Nós não tínhamos o inglês: tínhamos o francês, o latim e o italiano. Uns anos antes de eu entrar eles faziam com os alunos umas excursões pra Itália. Até um irmão meu chegou a ir numa dessas excursões, ainda no tempo do Mussolini. Ele chegou a conhecer o Mussolini, cumprimentou e tudo mais. Mas eu entrei mais ou menos no ano da guerra, aí foram suspensas as excursões e eu não tive essa oportunidade de passear na Itália como aluna do Dante Alighieri. Só fiz o ginásio, não cheguei a fazer faculdade nenhuma. Naquele tempo era um pouco complicado: a moça chegava a fazer o ginásio, depois ia fazer corte e costura. E eu fiz. Fiz um curso de costura e fiz um curso de bordado. Estava me preparando pra ser dona de casa.

 

CASAMENTO E FILHOS Com 14 anos eu conheci meu marido. Namoramos seis anos e com vinte eu me casei. Aí eu fui morar com os pais dele, no Jabaquara, onde hoje é o final da linha do metrô. A nossa casa ficava exatamente ali. Ficamos Jabaquara alguns anos e então meu marido foi gerenciar um posto de gasolina na Lapa e fomos morar lá, onde nasceu o meu segundo filho, o Licínio (o primeiro eu perdi, infelizmente, então eu considero Licínio o mais velho). Moramos lá mais uns tempo e fiquei grávida dos meus filhos Leandro e Léo, que vieram gêmeos sem eu esperar. Então nos mudamos outra vez para o Jabaquara. Sete anos depois nasceu o quarto filho, o Laércio, que é o mais novo e hoje tá com 34 anos. Então a família completou aí.

 

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – AVON Comecei a trabalhar numa situação assim quase que obrigada. Eu estava com os meus quatro filhos estudando, meu marido tendo a responsabilidade de cuidar dos pais porque meu sogro ficou cego. Então, a situação financeira ficou meio difícil e eu achei que eu poderia ajudar de alguma maneira. Nessa ocasião, em 1959, nós soubemos que uma empresa americana estava lançando um produto no Brasil que até então a gente não sabia o que era. Na televisão aparecia um anúncio dizendo: "Avon chama". A gente não sabia o que é que era Avon. Mas logo depois eu fiquei sabendo, através de amigos que foram na inauguração, que era realmente uma empresa americana de cosméticos, de higiene e tal. Uma dessas pessoas me indicou. Ela disse: "Olha, por que você não fala com eles pra ver se você consegue um trabalho em que você não precisa deixar sua casa?" Naquela época a gente poderia trabalhar somente nas horas disponíveis. Aí eu telefonei pra Avon e eles mandaram uma promotora em minha casa. E essa promotora, então, me nomeou como representante, como revendedora de Avon. Eu era revendedora e fazia o seguinte trabalho: trabalhava nas horas disponíveis, três ou quatro horas por dia, fazia as vendas, marcava a data do prazo pra entrega pras clientes. E quando ia entregar o produto, aí recebia o dinheiro de onde já saía a minha comissão. Nessa ocasião davam vinte por cento de comissão para as revendedoras. E o Avon começou muito interessante. Inaugurou em julho e em agosto eu já estava começando a trabalhar como revendedora. Nas primeiras casas que eu bati, eu me apresentava (a gente tinha que se apresentar) e quando eu falava “Avon chama. Eu sou representante da Avon" a pessoa dizia: "Mas o que é Avon? É algum sabão pra lavar roupa? O que é que é?". Eu pedia licença. Mas como nós tínhamos um treinamento de um dia ou dois só aprender como chegar na casa da cliente, tínhamos sempre uma amostrazinha de batom ou um sachezinho em pó pra oferecer. Então, a primeira coisa era: "Avon chama. Olha, eu tenho aqui pra senhora um batonzinho, um sachezinho. A senhora me permite que eu entre pra poder lhe mostrar?" Aí, normalmente elas deixavam. Naquela época o pessoal não tinha muito medo de deixar entrar um desconhecido em casa porque não existia esse problema que existe hoje. Então a gente entrava e aí começava a mostrar. Nós tínhamos um catálogo muito bonito, onde apareciam todos os produtos, inclusive as ofertas daquela semana. A gente mostrava e contava sobre cada produto, pra que é que servia, etc. E eu, felizmente, tive sorte e comecei a vender muito bem e peguei uma clientela muito boa. No estágio de revendedora, eu então atendia minhas clientes, mandava o pedido, recebia a mercadoria, entregava de casa em casa e então recebia delas. Do que elas pagavam, parte ia pra Avon, que me mandava a fatura já descontado a minha comissão de revendedora.

 

FORMAS DE PAGAMENTO As clientes pagavam, normalmente, com dinheiro. Muito pouca gente trabalhava com cheque. Geralmente era em dinheiro. E éramos nós que fazíamos o depósito. As revendedoras tinham que pagar a caixa e a gente podia pagar com cheque pra Avon.

 

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – AVON Eu trabalhei durante um ano como revendedora. Aí, lá na Avon mesmo a gente tinha alguns contatos e então eu soube que eles iam ampliar o número de promotoras. Então me convidaram para uma entrevista e eu fui entrevistada pelo gerente geral da Avon aqui no Brasil. Eles até chamavam presidente da Avon aqui no Brasil. Eu expliquei por que eu precisava trabalhar, que estávamos com quatro filhos em idade escolar, com meu sogro cego sem receber nem aposentadoria (demorou um tempão pra receber), com minha sogra também dependente do meu marido... Enfim, que eu precisava realmente ajudar na renda familiar. Fiquei uma hora e meia na entrevista e ele me disse: "Olha, a senhora tem grande chance de ser aceita." Depois de dois dias eles me ligaram e eu já poderia começar o treinamento. Nós ficamos 21 dias em treinamento na sala onde era o escritório da Avon, na Avenida Ipiranga. E pudemos aprender tudo: como se apresentar, como fazer uma equipe de venda, como ensinar, como me motivar. Aprendemos tudo isso e também como contava a história da Avon. Para isso nós tínhamos um livro que a gente chamava “o livro Azul” que contava como começou a Avon. Depois de 21 dias a gente já ia pro campo trabalhar. Cada promotora tinha um território com mais ou menos 250 casas pra atender. Então a gente percorria essas 250 casas em três semanas para fechar os pedidos, que a gente mandava semanalmente. O meu território pegava a região da Aclimação, Cambuci, parte da Liberdade, Vila Monumento, Jardim da Glória, um pedacinho do Ipiranga e o Centro, que era muito difícil. Como eram mais escritórios ali no Centro, era uma dificuldade danada pra uma revendedora conseguir entrar nos prédios. Naquela época eles já barravam, não deixavam. Então eu tinha que cobrir todo esse setor. Para isso, teria que ter umas 140 revendedoras. Mas quando entrei, o setor estava muito ruim, estava muito baixo, estava com mais ou menos 70 revendedoras. E eu lutei bastante pra conseguir dar cobertura total. Já nesse tempo, tinha alguns territórios que a gente já chamava de território livre, como era o território de Praça da Sé, rua São Bento, aquele pedaço central. Não podíamos dizer: "Vai só uma vender lá”. Primeiro porque era a dificuldade de entrar. Então eu procurava avisar as minhas revendedoras “Olha, vocês procurem ter algum conhecimento ali dentro, alguma pessoa que trabalhe numa repartição pública pra você poder entrar". E assim elas entravam. Ou então eu nomeava uma esposa de zelador de prédio e aí ela mesma conseguia vender ali. Então, não era muito fácil vender no Centro. Ele era um território livre, quer dizer, quem conhece algum numa repartição ou tem alguma amiga que trabalha lá, vai e vende. Era a única exceção que a gente fazia nas partes onde era mais difícil a revendedora penetrar. Mas no resto, cada uma seguia o seu território. Nos outros territórios fui trabalhando a “Procura Criativa”, que eles chamavam. Você batia na porta: "A senhora está interessada em ser revendedora de nossos produtos, assim e assim?". E dessa forma a gente conseguia porque tinha gente que aceitava. Como promotoras, nós dávamos aulas sobre como ela devia se apresentar na casa onde ela ia oferecer o produto, como é que ela devia fazer o talão de pedido, como é que ela devia mandar pro Avon. Num dia a gente ensinava só pra aprender como é que ela ia se apresentar. Depois, na semana seguinte, nós voltávamos apresentando como é que ela devia preencher os talões. Depois, como ela devia preencher o pedido pra mandar pra Avon. Em três semanas a gente deixava a menina preparada pra começar seu trabalho. Algumas desenvolviam rapidamente, outras demoravam mais. A gente precisava dar explicações de tudo. Com esse trabalho, consegui, felizmente, dar uma cobertura total ao território. Foi em setembro mais ou menos, que é a “campanha do presidente”, como eles chamam. É uma campanha muito importante, do presidente da Avon dos Estados Unidos. E isso já vinha de muitos anos. Eles faziam as homenagens ao presidente da Avon em setembro ou outubro, não me lembro bem. Nessa campanha, o setor que desse cobertura total de número de revendedoras e número de pedidos, receberia a taça do presidente. E eu felizmente lutei bastante, trabalhei muito, consegui dar cobertura total no meu território, no meu setor e também em todos os pedidos. Então, ganhamos a taça, por sinal, muito bonita. Eu recebi um almoço com todas revendedoras que trabalhavam comigo, todas elas participaram. Foi uma alegria muito grande porque, em poucos meses que eu estava na Avon, já recebi este prêmio que não era tão fácil de conquistar. Dali pra frente eu fui cada vez mais me desenvolvendo e conseguindo manter sempre meu setor com um número bom de revendedoras e vendendo bem. Trabalhei durante dez anos na Avon, saí em 1969. Era uma empresa que realmente dava gosto trabalhar. Pessoal maravilhoso, que motivava muito a gente. E eu não sei como, mas ainda hoje a política da Avon ainda é aquela mesmo, do serviço de ir de porta em porta e da garantia Avon, que é incondicional: eles não querem nenhum tipo de probleminha com a pessoa. Se não gostou da cor ou achou que o produto não fez muito bem, eles trocam. É incondicional mesmo a garantia deles. E a história da Avon também é uma história interessante.

 

HISTÓRIA DA AVON Começou com um rapaz que gostava muito de lidar com perfume, mas não via futuro naquilo. Ele achava que aquilo não ia levar ele pra frente e então ele vendia livros. Batia de porta em porta pra vender livros. Mas as pessoas não se interessavam muito pelo livro: "Ah não, livro não!" Então ele começou a levar uma amostrazinha do perfume que ele fazia. Então ele chegava, batia na porta e dizia: "Olha eu gostaria de oferecer esse perfumezinho pra senhora!". A pessoa se interessava. Ele queria mostrar o livro, mas percebia que as pessoas se interessavam muito mais pelo perfuminho. Então ele começou a ter uma idéia de vender perfume de porta em porta Ele tinha quatro fragrâncias e começou a pôr cada uma numa embalagem mais ou menos bonitinha. E nomeou uma vizinha dele, se não me engano era Mary Stuart, dizendo: "Olha, nas suas horas de folga, quando você já terminou o seu serviço de casa, você não quer me ajudar a ir vender?”. E ela aceitou. E assim começaram, com ela vendendo de porta em porta. E aquilo foi crescendo, crescendo, e hoje é a potência que é a Avon. Algo que começou de uma maneira muito simples, sem muita pretensão, e no fim ficou essa potência que é. Contar essa história fazia parte do treinamento.

 

TREINAMENTO DAS REVENDEDORAS Para a revendedora eu tinha que ensinar, primeiramente, como se apresentar. A gente tinha que se apresentar mais ou menos bem vestida porque bater numa porta mal vestida, despenteada, causaria má impressão. Então ela tinha que se apresentar bem arrumadinha, chegar, pedir licença e oferecer, quando ela batia na porta: "Olha eu tenho aqui um batonzinho, um sachezinho pra oferecer pra senhora, a senhora me dá licença de entrar?” Aí, quando ela entrava, dizia: "Vamos aproveitar, quero apresentar os produtos, escolhe." Daí ela fazia a primeira cliente experimentar, escolher uma amostrazinha de batom, um sachezinho e então dizia: "Agora a senhora me dá licença que eu vou mostrar os nossos produtos", aí ia mostrando. Ela já tinha um relativo treinamento pra poder explicar o tipo de creme conforme a pele da pessoa, o tipo de cor, mais ou menos de batom que ficava bem, então ela tinha que ter um treinamento mesmo, não um treinamento profundo, mas já dava pra ajudar uma pessoa. Aqui no Brasil ninguém estava acostumado com essa venda domiciliar de cosméticos. Então, muita gente não entendia: "Que cor que fica bem pra mim de pó ou de batom?”, então ela tinha que ter uma idéia mais ou menos pra poder orientar a cliente. Então a cliente fazia o pedido, elas anotavam num talãozinho de pedido e diziam: "Olha, o produto será entregue daqui a duas semanas e a senhora só vai pagar na hora de receber o produto". Elas também tinham que aprender a usar os produtos. Ela pagava uma pequena taxa e a gente levava um portfólio com todos os produtos, com todas as explicações, com folhetos e tudo. Então ali a gente já fazia alguma demonstração com alguns produtos de pele, de beleza. A gente fazia demonstração na própria revendedora pra ela poder transmitir aquele conhecimento pra sua cliente. Então ela já tinha aquele portfólio com todo esse material.

 

PRODUTOS MAIS VENDIDOS As colônias saiam muito. Produtos assim de higiene, como desodorantes, talcos e sabonetes saiam bastante também. Agora as cores, como as cores de batom, por exemplo, eram muito diferentes. Porque americano é mais claro, então as cores de batom eram muito fortes e a brasileira não se adaptava muito. Isso dificultava um pouco mais a venda. Mas o que mais saia na época, o que mais vendi realmente foram as colônias. Além delas serem muito boas, que fixavam mesmo, elas tinham uma embalagem muito bonita. As embalagens da Avon eram lindíssimas. Era uma coisa assim que a gente não via aqui. Então só pela embalagem já impressionava. E também porque eram umas fragrâncias novas. A gente já estava acostumado aqui com algumas fragrâncias, então chegaram umas fragrâncias da Avon que fixavam bem, com produtos de matéria-prima toda importada.

 

CONTROLE DE QUALIDADE No começo os produtos vinham todos de lá, mas depois a fábrica aqui começou a funcionar e começaram a ser feitos aqui. Mas a matéria prima era importada. E uma coisa muito importante: todo lote de produto que saia, antes da venda ia para os Estados Unidos, pra eles verem a qualidade do produto. Tinha um controle de qualidade para verificar se estava realmente em condições de vender. Quando aprovado lá, então começavam as vendas aqui.

 

EMBALAGENS Eram caixas, todas elas. Caixas muito bonitas. Tinha uma colônia que se chamava "Toque de Amor" que era também muito gostosa e todo mundo comprava. Ela tinha em dois tipos: uma num frasco comum de vidro e outra que era com aerossol, toda revestida de um material azul que parecia plástico. Mas era linda. E depois o Toque de Amor escrito em branco. Essa era uma das colônias que pediam muito. "Rosa Silvestre" era outra e os vidros eram muito bonitos, eram lindos. As pessoas só de olharem já não sabiam se a colônia era boa ou não, mas as revendedoras tinham todas as fragrâncias pra pessoa experimentar e sentir qual era a sua preferência. As caixas de talco era uma coisinha, eram lindíssimas, era pra enfeitar mesmo. Elas tinham uma cor cada uma, de acordo com a fragrância. Então, por exemplo, essa "Toque de Amor" era toda em azul e muito enfeitada em cima com dourado. Tinha outra que era toda em vermelho, a outra era cor-de-rosa, enfim, as cores eram lindas e todas acompanhavam desde a colônia até o talco, sabonete... Tudo na mesma cor. As primeiras embalagens vinham de lá, depois começaram a serem feitas aqui. Mas sempre iguaizinhas às de lá dos Estados Unidos. Os produtos chegavam pras revendedoras com uma caixa muito bonita. Geralmente caixa, a caixa do talco e depois uma caixa de papelão. Tudo muito bonito, muito enfeitada e as revendedoras entregavam dentro de um saquinho de papel na cor branca, onde vinha o nome “Avon Cosméticos’ escrito em verde. A clientela recebia na própria caixa que vinham os produtos. Ela já recebia de acordo com o número de produtos que ela tinha pra entregar os saquinhos. Hoje já não é como era no meu tempo. Tenho a impressão, do pouco que tenho visto da Avon, que a embalagens não são nem a metade do que eram quando eu comecei.

 

CAMPANHAS DE NATAL As campanhas de Natal funcionavam assim: as promotoras eram convidadas para uma convenção sempre fora de São Paulo. Eu participei de várias delas no Grande Hotel de Serra Negra. Então iam todas as promotoras, gerentes, diretores e eles faziam, além das inovações que iam sair naquela campanha de Natal, a demonstração de produtos. Então era uma coisa linda porque cada produto a gente ficava embevecida: "Que coisa maravilhosa, mas que coisa linda!" Então a própria promotora já se motivava tanto que passava esse entusiasmo tão grande quando ia fazer o treinamento com as revendedoras. A gente ficava normalmente uma semana na convenção e aí, no último dia, era apresentada a campanha de Natal, como eles chamavam. Apresentavam todos os produtos que iam ser lançados nesta campanha e eram produtos muito lindos, muito caprichados, pra ser um presente de Natal fino, bonito. Eu me lembro de numa ocasião que eles apresentaram, na reunião pras promotoras, um canhão que era muito grande e bonito. E era uma colônia pra homem. E na hora fizeram um efeito especial e saiu uma fumaça do canhão. Eu fiquei encantada e pensando lá na frente, quando fosse fazer uma reunião para as nossas revendedoras apresentando os produtos. Eu até falei: "Meu Deus, eu tenho que bolar um negócio assim na minha reunião!". Daí falei com esse meu filho, o Léo, que na ocasião tinha uns 12 anos mais ou menos e era muito criativo (tanto que hoje ele é um publicitário muito criativo): "Léo, eu tenho que bolar um negócio pra nós podermos fazer esse efeito especial na hora que eu for apresentar pras minhas revendedoras, eu vou apresentar esse canhão, tem que fazer um negócio assim como eu vi lá, na apresentação para as promotoras” “Não mãe, deixa que eu vou bolar um negócio!" Aí ele pegou uma dessas chaves de espelho de luz, pegou um pouco de Bombril, fez uma ligação com o fio e não sei o quê. Ele ligava e, quando ele fechava a chave, o bombril pegava fogo e saia fumaça. Eu achei ótimo! Então ele fez uma porção de vezes e eu esperei. O canhão eu já tinha recebido – todas as promotoras recebiam todos os produtos para a apresentação de Natal para as revendedoras. Eu tinha um quintal muito grande, comprido. Então esse meu filho, o Léo, pôs o fio para experimentar até que ponto podia sair a fumaça, até que altura, e ficou falando para o irmão: "Olha, não liga agora que eu tô aqui, quando eu avisar pra você ligar você liga". Mas o outro, não sei se querendo brincar com ele, quando ele estava bem assim, providenciando pra acertar tudo, o irmão liga lá. Aquilo queimou, queimou os cílios dele e tudo. Foi uma coisa que na hora eu fiquei brava, mas depois eu achei até graça. Mas no dia seguinte ele estava comigo. Ele foi, fez essa apresentação do canhão com efeito especial e foi um sucesso. Todo mundo: "Uhhhh" quando saiu aquela fumaça. Então foi muito bonito. Então era uma coisa muito agradável de trabalhar, muito gostoso. A gente ficava muito entusiasmado porque eles também motivavam muito. E a gente então, quando ia pra nossa reunião com as revendedoras, a gente transmitia todo aquele entusiasmo, aquela vontade de sair correndo e vender. Parece que isso realmente ajudava e a gente trabalhava com muita satisfação. Era muito gostoso trabalhar na Avon naquela época que trabalhei. Não sei como é hoje, eu não posso dizer, mas no tempo que eu trabalhei era realmente muito bom.

 

MOTIVAÇÃO DA EQUIPE Meu marido tinha muita noção de promoção porque ele trabalhava como diretor de uma grande empresa e eles faziam muitas promoções pros vendedores. Tinha muitos vendedores então ele me ajudava. E eu passei a instituir isso dentro da minha equipe. Eu fazia assim, por exemplo: as revendedoras, todas elas, procuravam vender bastante e a que se destacava recebia uma miniatura de uma taça. E era uma luta tremenda pra chegar em primeiro lugar. Então a taça era o primeiro lugar, depois tinha outros brindezinhos pras que eram os segundos, terceiros e quarto lugar. Então era uma luta, todo mundo procurava ser, e tinha uma que quase sempre era ela quem ganhava. Inclusive depois, na Avon, um dos meus gerentes que foi assistir uma reunião achou interessantíssimo: "Pô, mas que coisa formidável, a gente vê o entusiasmo das revendedoras quando a senhora fala sobre a taça, né? Vamos ver quem vai ganhar a taça e não sei o quê...". Ele achou a ideia muito interessante, achou que valia a pena esse trabalho, e então outras promotoras foram instituindo outros tipos de prêmios e de promoções para suas revendedoras. Posso dizer que isso partiu do meu marido porque foi ele quem me deu a ideia de fazer isso. Ele me ajudou muito nisso, nesse negócio de promoções, de promover prêmios e tudo. Ele tinha muita ideia, ele trabalhava muito com isso, embora ele seja administrador de empresas.

 

PROFISSÃO DO MARIDO Ele trabalhava como administrador de empresas, mas sentia o que podia motivar um vendedor a vender mais. Às vezes até um carro virara um prêmio para um vendedor que se destacasse. Tinha carro, tinha televisores... Então ele tinha muita facilidade pra sentir o que ia ajudar pra aumentar uma venda. E com isso ele me ajudou muito nessa parte do meu trabalho com a Avon.

 

AUMENTO DE PORTFÓLIO Havia muito lançamento durante o período que eu fiquei na Avon. Comecei como revendedora e depois como promotora. Quando lançaram aqui, quando inauguram no Brasil, tinha uma linha razoável. Mas a cada mês eles iam lançando mais produtos que já existiam nos Estados Unidos e aqui ainda não. Então durante praticamente todo período que eu trabalhei na Avon, sempre havia novos lançamentos, de produtos, de colônias, de produtos de limpeza, de produtos pra criança, de coisas assim muito bonitinhas, shampoo, escovinha de dente, talco, e naquelas embalagens bonitinhas de bichinhos, que deixava a criançada encantada. Foi crescendo muito a quantidade de itens que depois ficaram um colosso. Então quando eu saí de lá já tinha uma quantidade bem maior do que quando comecei.

 

PUBLICIDADE Antes da inauguração da fábrica só aparecia "Avon chama" e ninguém sabia o que era. Quando inaugurou a fábrica e começou a aparecer o que era a Avon, aparecia no comercial uma revendedora muito bonitinha, muito arrumadinha, que batia na porta e tinha aquela campainha "blém-blóm", que ficou famosa. Então dizia: "Avon chama". Aí aparecia ela entrando já na casa da cliente, mostrando todos os produtos e tal. Esse comercial ficou durante um bom tempo, talvez um ano e pouco. Depois começou a propaganda de boca a boca, quando o pessoal começou a conhecer a Avon e um dizer pro outro: "Aquele tal produto é ótimo". Aí parou o comercial. E não teve por muito tempo.

 

OUTRAS CAMPANHAS Existiam as campanhas do dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados e dia das crianças. Era uma campanha tão bem feita, tão bonita, com folhetos e lustrações lindas, que todo mundo queria comprar e Avon. E eles compravam mesmo. Nestas épocas de campanha vendia-se muito. As crianças ficavam encantadas com os produtos porque era tudo na base de bichinhos e coisinhas que estavam muito na moda, como as figuras do Walt Disney. Então, quando era dia das crianças, eles procuravam lançar todas essas campanhas com produtos que atraiam bastante a criançada. Ou no dia dos namorados, dos pais ou das mães, colocavam um preço especial. E a pessoa comprava mesmo porque, além da beleza e tudo o mais que atraía, o preço reduzia bastante. E eram aqueles produtos em promoção que o pessoal comprava.

 

EMBALAGENS No dia dos pais, por exemplo, eles tinham muitos produtos que as embalagens era aquele canhão que eu falei. Tinha um outro perfume que parecia um taco de golfe, um outro vidro que formava um xadrez, um outro em formato de cachimbo. Eram embalagens lindíssimas e tudo relacionado com as coisas de homens. Pras mães, muitas vezes era um tipo de talco com coração ou um perfume também em formato de coração. Pras crianças eram os bichinhos como já citei e, pros namorados também eram coisas todas especiais, como dois produtos que se uniam. Era muito bonito mesmo.

 

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL - ENCERRAMENTO Eu trabalhei por uma necessidade de ajudar na renda familiar. Depois, felizmente meu marido começou a crescer na profissão dele. Ele se tornou diretor-presidente de uma grande empresa e as coisas começaram a equilibrar. Então ele achou que eu já tinha ajudado bastante e que era então hora de parar. Mas quando cheguei na Avon e disse: "Olha, eu vou sair porque eu acho que agora vou me dedicar um pouquinho mais pros meus filhos e a minha casa.", eles não queriam que eu saísse. E isso foi uma coisa inédita na Avon. Porque quando uma promotora pedia uma demissão, eles acertavam na hora, pagavam os direitos dela e tal. Agora, comigo, foi uma exceção que aconteceu. Eles mesmos disseram que nunca tinha acontecido na Avon. Então eles me pediram pra ficar mais seis meses para treinar uma outra pessoa pra poder ficar no meu lugar. Como o meu setor era um setor que estava indo muito bem, eles tinham o receio de uma troca imediata, porque realmente as revendedoras se apegavam muito às promotoras, então isso era muito importante. Elas obedeciam cegamente o que a promotora dizia. E o receio deles era que, como eu tinha um relacionamento muito bom com as minhas revendedoras, se trocasse de promotora era capaz de a venda cair. Então, era pra mim ir preparando as minhas revendedoras. Eu fiquei realmente mais seis meses e quando foi nos últimos dois meses, já haviam escolhido uma outra promotora, que por sinal era minha prima. Então ela saía comigo e eu comecei já a avisar as minhas revendedoras que eu ia deixar de trabalhar e que minha prima ia ficar no meu lugar e elas iam gostar muito. E isso foi mais suave, mais fácil, então o setor não teve uma queda como eles tinham medo, realmente continuou bem.

 

APOSENTADORIA É o dia a dia de toda dona de casa: cuidar da casa. E agora eu já tenho cinco netos. Tem dia que um neto vem comigo e tem uns que já estão grandinhos e já não vêm tanto porque têm os seus afazeres de escola, estudam inglês, etc. Mas a menorzinha tem estado mais comigo. Então o dia-a-dia é isso: cuidar da casa ou cuidar de neto quando estão em casa. Meu marido detesta dirigir em São Paulo porque, aliás, o movimento é uma coisa que deixa ele num estado de nervo. Então sou eu que faço todo o serviço de rua: ir no banco, mandar consertar o carro... Eu dirijo muito mais aqui em São Paulo do que ele. Minha vida agora é uma vida assim mesmo, de dona de casa. Pra me distrair eu gosto de pescar. Quando eu tenho uma oportunidade de um lugar onde tem peixinhos, ah, eu sou capaz de passar o dia inteiro e não tenho nem vontade de comer! Pescar é o que mais gosto de fazer e geralmente vou com meus filhos. Eles são craques em pescaria. Eu tinha uma sobrinha, infelizmente ela faleceu agora há pouco tempo, que era uma grande amiga minha. Ela tinha um sítio muito bonito em Capivari, onde tinha uma represa e lá dava muito Lambari. Então nós pescávamos lá. E quando tenho a oportunidade de sair com meus filhos pro mar. Mas eu não gosto muito de barcos, eu pesco mais é na praia. Ah, eu gosto muito de pescar. O meu hobby principal é esse. Depois disso eu gosto de um bom papo, gosto de fazer visitas, enfim uma série de coisas. Hoje eu já não sinto tanta falta do comércio, mas no princípio eu senti muita falta. Quando eu saí, os primeiros 15 dias eu tive a sensação de que eu estava em férias. Mas depois, quando começou a passar e eu continuei em casa, sem ter mais aquele contato, eu senti muito, senti mesmo. Até hoje eu tenho saudades do meu tempo em que eu estava na ativa. Era um trabalho realmente cansativo porque eu dirigia o dia inteiro, eu tinha que visitar no mínimo 15 revendedoras por dia pra ver se como é que elas estavam indo, pra ver como é que elas estavam vendendo e quais dúvidas que elas tinham. Passei por períodos engraçados, até pitorescos. Eu pegava um setor ali da baixada Glicério, e ali quando chove muito dá enchente. E numa das vezes que eu precisava visitar umas revendedoras que moravam naqueles prédios, eu cheguei lá com uma chuva danada. E eu não tive dúvida: os bombeiros estavam com o barco, atravessando as pessoas, eu subi no barco do bombeiro e fui visitar a minha revendedora. Até no fim teve um jornalzinho da Avon que saiu dizendo: "Dona Cecília vai até de barco trabalhar." E a outra vez foi até um negócio meio preocupante. Eu fui visitar uma das revendedoras e aquele trecho lá já era meio barra pesada naquele tempo. Quando eu bati na porta, no nono andar, se eu não me engano, ela disse: "Quem é?" "É a promotora da Avon." "Ah, espera um pouquinho, espera, espera!" Ela disse com uma voz muito aflita. Então ela abriu a porta: "Entra, entra", fechou depressa e disse: "Ai, eu pensei que fosse o meu amante. Olha, olha o que ele me fez! Ele me furou!" Ela estava toda furada de faca. Eu falei: "Meu Deus e eu agora?" "E ele disse que vai voltar, ele vai voltar pra me matar", eu falei: "Bom, eu estou bem arrumada, agora eu sou capaz de entrar nessa também." E nisso bateram na porta, ela começou a gritar: "É ele, é ele agora ele vai me matar." Eu falei: "Meu Deus, como é que eu vou fazer?". Aí quando ela disse: "Quem é?", era o tintureiro. Ela abriu a porta pra pegar a roupa e eu ó, corri. Deus me livre! Já pensou? Então aquela eu fiquei meio no sufoco sabe, mas escapei. Daí eu conversei com um dos gerentes da Avon e ele me disse: "Dona Cecília, a senhora não precisa mais fazer visitas pra essas revendedoras que moram nesses lugares assim. A senhora conversa com elas no dia de reunião. Por que a senhora vai correr o risco de passar um vexame ou até de uma coisa desagradável?”. De fato, naquele trecho todo eu já não ia mais visitar as revendedoras. Eu conversava com elas no dia de reunião. Aí foi mais tranquilo.

 

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Eu achei muito agradável. Pensei que eu fosse ficar um pouco tensa, meio sem saber o que falar, mas vocês sabem dirigir tão bem, vocês sabem conversar tão francamente! Deixam a gente muito à vontade e isso é muito bom porque a gente vai falando e, sem perceber, já falou uma porção de coisa. Achei ótimo, achei muito bom.

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