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História

Vencendo o desconhecido

História de: Renata Barros Taube
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/04/2013

Sinopse

Quando Renata Barros Taube nasceu, no ano de 1987, seus pais viviam em um apartamento na rua Haddock Lobo, em São Paulo. Era ainda criança quando se mudaram para a rua Edson, de onde ela guarda memórias das brincadeiras na rua e sabores da infância. No colégio tomou gosto por competições esportivas. Depois de concluir os estudos, decidiu cursar Administração na FAAP e ingressou no Citibank como estagiária. Sua vida mudou quando foi diagnosticada com leucemia. Aos vinte e quatro anos narra sua luta contra o desconhecido.

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História completa

P/1 – Renata, você pode começar falando seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Renata de Barros Taube, eu nasci em São Paulo e minha data de nascimento é dia cinco de novembro de 1987.

 

P/1 – Seus pais são de São Paulo?

 

R – São. Meus pais são de São Paulo.

 

P/1 – E seus avós maternos e paternos?

 

R – Aí entra no mix que eu estava contando, que meus avós paternos, meu avô veio da Polônia e minha avó é descendente de russa e viveu a vida inteira em Niterói, depois veio pra São Paulo.

 

P/1 – Esses são os avós maternos?

 

R – Paternos.

 

P/1 – Paternos.

 

R – E os maternos, a minha avó é descendente de alemã, viveu no sul do país, conheceu meu avô, que era da Bahia, descendente de português e espanhol, se casaram e vieram morar em São Paulo.

 

P/1 – Como eles se conheceram? Um do sul, outro de...

 

R – O meu avô era engenheiro, pelo que eu saiba, pode ser que eu esteja falando a maior besteira do mundo, mas eu acho que foi numa obra que meu avô foi fazer no sul e aí ele acabou conhecendo a minha avó e desde então eles...

 

P/1 – E essa sua avó que morava em Niterói, como eles vieram pra São Paulo?

 

R – Você sabe que é uma boa pergunta. É feio eu não saber as raízes da minha família tão a fundo. Mas eu acho que eles vieram por condição da vida mesmo. Se eu não me engano, o meu tio-avô veio antes, veio fazer a escola militar, e depois vieram meu bisavô, minha bisavó e minha avó. 

 

P/1 – E esse seu avô fazia o quê? Um era engenheiro, o outro?

 

R – O outro era comerciante. Ele teve tecelagem, teve fábrica depois de camisa.

 

P/1 – Você chegou a conhecer? Você conviveu com eles?

 

R – Com o meu avô engenheiro não. É até uma pessoa que eu gostaria muito de conhecer, porque a minha avó por parte de mãe é uma pessoa... Era uma pessoa, é falecida, extremamente difícil. E eu queria ter conhecido o meu avô, porque ele deve ter sido uma pessoa muito bacana pra conviver tantos anos com a minha avó assim.

 

P/1 – (risos)

 

R – O meu outro avô eu conheci, sinto muita saudade dele, ele foi uma pessoa incrível, extremamente marcante na minha infância. Ele era um cara de... Quando faleceu, ele tinha oitenta e poucos anos. Ele tem vinte anos de diferença com a minha avó. Ele era uma pessoa extremamente jovem, se bobear, mais jovem, na época, do que a minha avó era, tanto é que ele brincava que não gostava de ficar com velho, ele falava: “Porque velho só reclama, não sei o quê”. Ele gostava mesmo de se misturar com gente jovem, ele era uma pessoa extremamente animada, gostava de sair pra dançar. Talvez um pouco egoísta, porque saía pra dançar sem a minha avó, sabe?

 

P/1 – (risos).

 

R – Mas uma pessoa muito bacana em muita coisa. E essa minha avó também, tudo que eu não tive, talvez, de carinho da minha outra avó... Porque a minha outra avó era aquela questão de juntar a família, era muito gostoso... Minha avó por parte de mãe. A gente tinha todas as comemorações, mas ela costumava presentear a gente mais com coisa material do que com carinho mesmo. E muitas vezes a coisa material quem tinha comprado eram as minhas tias, minha mãe junto, tinham se reunido pra comprar os presentes para os netos pra minha avó poder dar. Minha mãe disse que minha avó foi uma pessoa extremamente carinhosa na infância. E meus primos mais velhos têm muito carinho por essa minha avó. Eu não sei se é porque eu fui uma das primas quase a caçula, depois eu tive mais três primos que vieram um pouco mais tarde, mas eu não... Não sei se é aquela coisa... Que nem, minha mãe brinca: como quinta filha, ela talvez não tenha recebido tanto carinho quanto as minhas irmãs, então a minha avó deixava mais as irmãs cuidarem dela, vai, digamos assim. Talvez tenha acontecido a mesma coisa comigo como neta. Já, por parte de pai, eu sempre me senti o xodó dos meus avós. Eu brinco com a minha avó, que é até feio, ela deixa explícito, que eu e meu primo mais novo somos os queridinhos, gera um ciúme desnecessário, assim, na família. Mas essa avó foi aquela avó que fazia o bolo, é a avó que faz o bolo que eu gosto, que eu passava as férias na casa dela, que falava mil vezes que já estava subindo e demorava horas a fio pra subir, sabe? Que dei preocupação e usei e abusei como avó mesmo, ela e meu avô. Então deles eu tenho uma recordação extremamente gostosa.

 

P/1 – E seus pais, como é o nome deles?

 

R – Minha mãe se chama Leila Eleonora de Barros Taube e meu pai Hugo Taube.

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram?

 

R – A minha mãe foi noiva antes do meu pai, ela não gosta muito que conte isso. E ela tinha terminado o noivado e foi viajar com o meu tio pra Campos do Jordão. O meu pai foi um dos donos da primeira balada de Campos do Jordão, uma das primeiras, que chamava Afgan(?). Ele olhou a minha mãe, tinha uma amiga em comum, chegou pra essa amiga em comum, num primeiro momento achou que... Meu pai foi meio cara de pau, porque achou que o meu tio fosse namorado dela e foi perguntar dela mesmo assim, sabe? E no final convidou-os pra irem à balada à noite, na boate. E a partir de então eles começaram a se conhecer, só que meu pai namorava também, tinha uma namorada que era de fora de São Paulo, mas que estava em São Paulo por causa dele e não estava em Campos do Jordão. A minha mãe conta que ele... A minha mãe, eu tenho certeza que ela não deve ter dado a mínima bola, num primeiro momento, para o meu pai, sabendo que ele tinha namorada etc. e tal. Só que foi uma coisa que o meu pai meio que omitiu. E minha mãe conta que depois que eles voltaram pra São Paulo, eles começaram a se falar mais. E meu pai conta que quando ele voltou pra São Paulo, ele estava decidido a terminar e terminou o relacionamento dele pra correr atrás da minha mãe. Então, a princípio eles se conheceram assim. Eu não sei exatamente quando eles começaram a sair, quando eles começaram a namorar, isso também é uma boa pergunta pra fazer quando chegar em casa. Mas eles tiveram uma história legal. Eu sei que também tinha saído um cara da Bahia, não sei nome, não sei nem quem é, que tinha anunciado que ia buscar a noiva paulistana, que era a minha mãe, mas a minha mãe... Tipo, o cara saiu, contou isso, mas se esqueceu de avisar a noiva, que era a minha mãe. Então, quando ele chegou, a minha mãe tinha acabado de sair de um noivado de uma pessoa que eu acho que ela gostou muito. O que ela conta: que ela acabou não casando com essa pessoa, foi a questão de ver mais como amigo do que como homem, sabe? Tornou-se um vínculo tão bacana que acabou estragando o relacionamento homem-mulher, virou uma grande amizade. Acho que é isso dos meus pais.

 

P/1 – E aí eles se casaram e foram morar onde?

 

R – Casaram-se e foram morar na Rua Haddock Lobo. Foram morar num apartamento. Outra coisa que acho que é importante ressaltar: o meu pai chegou a conhecer meu avô, o engenheiro, o vovô Edgar, e ele faleceu num infarto fulminante acho que fazia, sei lá, um ano ou seis meses que meus pais se conheciam. E a minha avó era alemã, a minha avó por parte de mãe. Os meus avós por parte de pai são judeus e a minha avó era uma alemã com cabeça de alemã, então tinha aquela coisa: “Como a filha dela estava se envolvendo com um judeu?”. Então teve certo preconceito num primeiro momento, sabe? Tanto é que a minha avó não foi ao casamento dos meus pais, a minha avó não permitiu que a minha mãe colocasse o nome dela e do meu avô falecido no convite de casamento. Então teve uma série de coisas que é bacana no início da história dos meus pais, porque eles enfrentaram muita coisa pra estarem juntos. Porque eu acho que deve ser muito complicado, porque eu vejo o quanto pesa a opinião do meu pai e da minha mãe hoje na minha vida, apesar de eu ser esclarecida, ser uma pessoa que tem uma personalidade um pouco forte e tudo mais, ainda pesa, sabe? Se a minha e meu pai falam: “Não. Não é legal”, eu vou repensar, mesmo que eu venha a fazer, eu vou repensar algumas vezes. Então eu acho que deve ter sido difícil.

 

P/2 – Essa avó alemã é a que hoje tem você como xodó?

 

R – Não. Essa avó alemã é uma avó falecida. Outra coisa que acho que a minha mãe fica meio chateada de eu falar, mas eu acho...

 

P/1 – Um gênio difícil, né? Que você comentou no começo.

 

R – É. Ela fica chateada de eu falar assim da minha avó, mas é o que eu falo pra ela, eu tenho um carinho imenso pela minha avó por ela ter gerado a minha mãe, eu não consegui e fico triste, porque sou uma pessoa extremamente emotiva, de não ter conseguido criar um vínculo mais forte afetivo com essa minha avó. Mas é porque eu tive uma comparação tão brusca, uma avó tão querida e a outra tão fria, que pra mim era uma coisa discrepante, faltava aquele carinho. Eu consegui gerar algum vínculo um pouquinho maior depois que ela estava mais senhorinha e que ela estava mais dependente. Eu acho que o primeiro olhar de carinho assim, de ternura que eu senti da minha avó, que a minha mãe fala que é uma viagem minha, mas é um sentimento meu e eu respeito isso, foi o dia que eu entrei... Não contaram pra minha avó que eu estava doente. E eu entrei na casa dela estando carequinha, com um aspecto mais inchado e tudo mais, e ela já não falava mais nessa época, ela já estava bem debilitada, mas a expressão do olho dela de “o que aconteceu?”, mas um “o que aconteceu?” carinhoso, foi uma coisa que me marcou muito e foi pouco tempo antes de ela falecer. Eu sei que pra minha mãe foi muito difícil, porque ela estava com uma filha doente e uma mãe doente na mesma fase. Então querendo ou não você via que ela se sentia dividida. Ela sempre optava por ficar do meu lado, mas uma partezinha grande no coração dela estava, óbvio, o pensamento estava elevado pra mãe dela, ela gostaria talvez de estar do lado da mãe dela nessa fase. Então eu acho que isso deve ter sido também uma fase complicada pra minha mãe.

 

P/1 – Voltando ao apartamento lá da Haddock Lobo, você nasceu nesse apartamento ou eles já tinham mudado?

 

R – Não, eu nasci nesse apartamento.

 

P/1 – E você tem mais irmãos?

 

R – Eu tenho um irmão mais velho.

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Marcelo Taube.

 

P/1 – Aí o Marcelo e você nasceram lá?

 

R – Eu e meu irmão nascemos lá.

 

P/1 – O que seu pai faz? Sua mãe?

 

R – Então, meu pai é administrador, minha mãe é formada em Letras e em Ciências Sociais, mas também acabou seguindo para o ramo mais administrativo. Ela, por um período, tocou a empresa do meu avô. Na realidade, a maioria do tempo quem tocou foram meus tios. Quando a empresa já estava em baixa, minha mãe e minhas tias tentaram reerguer a empresa e infelizmente não conseguiram. Eu acho que isso deve também ter sido uma coisa que meu avô, onde quer que ele esteja, deve ter ficado chateado, porque gerou muita discussão na família da minha mãe. Eu tenho um carinho muito grande pela maioria dos meus tios, eu tenho um tio meu  com quem não me dou bem, gosto dele, mas não me dou bem, o santo não bate. Mas eu acho minha mãe, por exemplo, hoje... Ela parou de trabalhar na fase que a gente nasceu, eu acho que hoje talvez ela tenha um arrependimento. Eu falo pra ela que foi extremamente importante essa pausa que ela deu, apesar de que quando a gente chegou numa certa idade, a gente teve aquele corte de cordão umbilical e foi bater asa sozinho, mas eu acho que foi essencial ter a educação da minha mãe. Eu acho que meu pai, óbvio, ajudou a educar em muita coisa, sempre foi um pai presente, mas querendo ou não na maior parte do tempo ele estava trabalhando, apesar de ser muito presente.

 

P/1 – Ele tinha um negócio próprio ou trabalhava pra alguém?

 

R – Não, a maior parte do tempo ele teve negócio próprio. Meu pai já fez um pouquinho de tudo: já teve restaurante; quando eu era mais nova, ajudou na confecção do meu avô; sei lá, já teve um pouquinho de tudo, já importou algumas coisas como representante. Meu pai tem uma história muito bacana, porque o meu avô por parte de pai teve altos e baixos por causa de um tio-avô, que é o irmão da minha avó. Que é uma história que eu prefiro não contar, porque eu também não tenho muito embasamento, digamos assim, mas eu sei que meu tio há muito tempo teve um problema, teve um tombo e formou um coágulo no cérebro dele e foi um das cobaias, digamos assim, de bombardeamento de cobalto. E meu avô e minha avó deixaram a confecção na mão desse meu tio-avô nessa fase. E meu tio-avô passou a maior parte das coisas da confecção, dessa primeira confecção, para o nome dele, teve um desvio de dinheiro e faliu essa primeira confecção. Então na fase mais crítica, com meu tio doente etc. e tal, meus avós tiveram uma dificuldade financeira muito grande, e a questão de superar também a questão da traição, digamos assim, de ter o trauma psicológico. E meu avô se reergueu, montou uma nova confecção, começou do zero e montou uma confecção muito bacana. Então meu pai, a gente teve também fases de altos e baixos em casa, mas o que eu acho bacana do meu pai é que em momento algum ele perde o brio de estar vivo, a alegria, aquela coisa bacana, sabe? Já a vida da minha mãe já foi mais estável, então talvez nas fases que a gente teve altos e baixos foi um aprendizado maior pra ela, ela teve mais dificuldade de encarar essa oscilação. Mas sempre encarou também com uma mega força.

 

P/2 – Fala um pouquinho como foi a sua infância lá na Haddock Lobo com o irmão, os pais?

 

R – Minha infância na Haddock Lobo foi boa, mas foi curta, digamos assim, porque logo depois a gente mudou pra outro apartamento, onde eu tenho uma memória mais viva de infância. Que a gente mudou pra Rua Edson, que foi um lugar onde eu pintava a rua em época de Copa, tinha o pessoal do prédio. Lá eu tive uma infância mais viva. Agora, tanto na Rua Edson, quanto na Haddock Lobo, principalmente depois da Rua Edson, eu lembro muito bem de sair muito cedo, porque meu colégio começava muito, muito cedo, o Dante, começava seis e quarenta e cinco da manhã, então pra sair da Rua Edson e chegar lá eu lembro que em horário de verão eu acordava à noite pra ir. E aí geralmente a gente saía, minha mãe montava as malinhas, porque a gente já ia passar o resto do dia fora. Porque saía do Dante, costumava almoçar no restaurante do meu pai, que era do lado do Dante, ia para o Paulistano, que a gente era sócio lá, ou ia depois para o Alumni. E passava o dia fora assim, fazendo as atividades, fazia escola de esportes, tênis. Eu fiz um pouquinho de cada coisa em esporte, eu fiz desde ginástica olímpica, natação, beisebol, tênis, badminton, handebol, que foi o que eu mais levei a sério, patins, que eu perdi meus dentes da frente pulando uma escada. E agora estou me aventurando no skate.

 

P/1 – Onde fica a Rua Edson?

 

R – A Rua Edson fica no Campo Belo. Uma coisa que pra mim é muito marcante lá da Rua Edson são os pãezinhos de queijo da Padaria Colonial, que hoje eu voltei lá e está totalmente diferente a padaria, é uma padaria modernizada, do que era antes. Porque antes era aquela padaria, tinha... É um português que é dono da padaria. Era aquela padaria com cara de padaria, meio vendinha assim, sabe? Agora é cara de padaria da “Liga dos Pães”. Mas eu não sei, pelo menos o gosto do pão de queijo continua o mesmo, isso que foi gostoso, é um gosto de infância.

 

P/2 – E você... Vamos voltar ali para o Dante e para o Paulistano, você era muito competitiva? O que você gostava mais do esporte?

 

R – Eu sou um pouco competitiva, mas acho que mais do que competir... Eu sempre gostei mais de fazer esportes que são em equipe, isso era um grande problema pra mim no tênis, por exemplo. E no badminton eu geralmente ganhava em dupla, sozinha geralmente chegava uma parte e acabava caindo fora do campeonato, perdia. Mas eu não sei, eu acho que eu tenho dois tipos de competição, tem a competição com os outros times e tem a competição de mim comigo mesma, que também é uma competição que acho mais difícil até do que com os outros times. De querer sempre dar o meu melhor e ter uma autocrítica muito grande. E achar que sempre, por mais que todo mundo tenha achado que foi o melhor, eu sempre acho que poderia ter mudado alguma coisinha e ter feito melhor.

 

P/2 – A sua mãe é assim também?

 

R – A minha mãe é. Comparando-a com meu pai, ela é uma pessoa muito mais crítica. Eu acho que esse ponto eu puxei a minha mãe, porque ela é assim com ela também. O jeito de expressar carinho, dela e do meu pai, é muito diferente. Óbvio que quando eu estava doente eu conheci uma mãe totalmente nova e vi que dentro daquela fortaleza tinha uma menina muito medrosa e insegura, que eu nunca imaginei que eu fosse ver, e muito carinhosa, muito carinhosa e uma leoa ao mesmo tempo. Mas eu acho que o carinho, por exemplo, da minha mãe, é aquela coisa de chegar e falar assim: “Você tá descabelada, você tá não sei o quê. Renata, vamos fazer melhor isso”. Que é uma forma de carinho. E o meu pai é aquela pessoa mantegona, tipo: “Ah, eu te amo, vem aqui, não sei o quê”. E de dar milhares de apelidos bizarros, mas carinhosos, sabe? Por exemplo, um dos apelidos bizarros que eu tenho é: franguinho maracujeiro.

 

P/1 – (risos).

 

P/2 – (risos) Bem bizarro.

 

R – É. Porque eu tive uma fase que em todo lugar eu queria comer nuggets e tomar suco de maracujá com leite, então meu pai me chamava de franguinho maracujeiro. Mas ele é uma pessoa super, tipo, bacana e carinhosa. Minha mãe também é muito bacana, porque eu acho que hoje eu tenho uma noção de responsabilidade no trabalho, na minha vida pessoal, e uma noção de organização etc. e tal, que eu devo à minha mãe, que se fosse pelo meu pai eu não teria não. Que eu vejo que a minha mãe que organiza as coisas do meu pai. Ela tem essa questão de autocrítica acirrada também com ela mesma. Acho que eu puxei.

 

P/1 – E no Dante? Como foi sua entrada na escola, professoras que marcaram?

 

R – Então, no Dante, a minha entrada na escola, minha mãe disse que foi meio traumática pra ela. Porque eu tenho um irmão mais velho e sempre quis fazer tudo que meu irmão fazia. Eu fui uma criança muito pentelha nesse sentido. Pra você ter uma noção, minha mãe teve que comprar uma lancheira antes de eu entrar no colégio, porque eu queria porque queria ter uma lancheira e queria ir para o colégio, minha mãe falava: “Não, ainda não é a hora. Espera”. Quando eu fui para o colégio, meu irmão já estudava lá, então eu já tinha aquele costume de levar meu irmão para o colégio, então quando eu cheguei no primeiro dia, foi aquela coisa: “Tchau, mãe”. Minha mãe falou: “Mas como assim: ‘Tchau’”, sabe? Ela brinca que ela se sentiu abandonada. E geralmente as crianças que falam: “Não. Fica”. Minha mãe falou: “Como ‘tchau’? Você tá me dando tchau e tá bom, é isso?”. Mas o Dante pra mim foi uma fase muito marcante, boa. Muito gostosa, porque fiz grandes amigos, tive um grande incentivador do esporte, que foi o De Simone, tive professores muito bacanas, que me marcaram. Inclusive, tive um professor que quando ficou sabendo do meu problema de saúde, veio me procurar, veio saber como eu estava, foi uma pessoa extremamente presente. Tive diretores incríveis. Eu era uma pessoa que, apesar de ir muito bem no colégio, eu sempre falei muito durante as aulas e era muito excluída por causa disso, e no final chegava à diretoria, acabava conversando com o diretor. Eu me dava muito bem com os diretores, tanto é que teve um diretor uma vez que virou pra mim, falou: “Renata, eu vou ter que te suspender, eu me sinto mal por causa disso”. Que foi a única suspensão que eu levei. Ele falou: “Eu me sinto mal, você é uma pessoa extremamente educada, a gente entende, mas você está atrapalhando a aula, porque você chega ao final do semestre, você vai bem, todo mundo com quem você está conversando vai mal, ou seja, se você consegue prestar atenção, você tem que ter a noção de que os outros não conseguem prestar atenção enquanto conversam”. Eu acho que o Dante... Eu tive uma professora minha que marcou muito por causa do... Ela era uma pessoa extremamente brava, uma professora de Química, a Yazaki, mas uma senhorinha incrível. Ela até uma vez chamou meus pais ao colégio pra falar que ela gostava muito de mim, mas o problema é que eu era chefe da gangue, a pessoa que atrapalhava todo mundo. Eu não sei, acho que o meu ano mais marcante... Tive vários, sempre fui uma pessoa muito ativa, ajudei a implementar, junto com uma turma, trabalho voluntário no colégio, sempre fui muito ativa de gostar de organizar as feiras de ciências junto com os professores, gostar de fazer o festival de música, que tinha o Dante In Concert. E acho que o esporte também foi uma das coisas marcantes pra mim lá. Outra coisa que eu acho muito bacana no Dante é a questão da responsabilidade, todo mundo diz que isso é uma coisa tradicional, de ter que levantar para o professor quando ele entra, essas coisas, ele gera uma noção de respeito com os mais velhos. Tudo bem, talvez seja um pouco rígido demais em algumas coisas e eu acho que agora, voltando... Eu estou jogando um campeonato de ex-aluno lá e eu vejo que o colégio está se modernizando nesse ponto. Ele tinha umas coisas rígidas, por exemplo, meu tênis de jogar handebol era amarelo, eu tinha que levar dois tênis, um só pra jogar e outro pra estudar, como se o caso de eu estar usando tênis amarelo fosse me deixar uma aluna menos compenetrada, e não era, mas é que tinha regra que só podia usar cinza, azul ou branco. Então tinham umas regras meio sacosas no colégio, mas não sei, foi uma fase muito boa.

 

P/2 – Quando você começou a... Você planejava a sua vida? Você tinha assim, uma ideia do seu futuro: “O que eu vou ser, o que eu vou fazer?”.

 

R – Então, eu comecei a planejar, que foi a primeira vez que eu vi que já não dava certo planejar tudo muito à risca. Eu comecei a planejar a minha vida no segundo colegial, quando eu comecei a planejar um intercâmbio. E cheguei a falar com a minha host family. E era engraçado, porque a gente andava numa turma de quatro meninas e a gente deixou de fazer uma série de trabalhos no primeiro semestre, porque sabia que eles só iam ser cobrados no segundo semestre. Essas quatro meninas, eu acho que de tanto eu falar de intercâmbio, porque meu irmão tinha ido e o irmão e uma irmã de uma delas também tinham ido, então de tanto a gente ver os irmãos, a gente se animou e falou: “Vamos todo mundo fazer intercâmbio”. Então as quatro estavam programadas. Então a gente montou o grupo, deixou de fazer alguns trabalhos etc. e tal. Chegou ao início do segundo semestre, quando eu ia para o intercâmbio, eu descobri que eu não ia mais, porque minha avó estava doente, meu pai tinha tido um problema financeiro, ele falou: “Renata, eu não vou te mandar com quinze anos pra você trabalhar lá. Entendeu? Prefiro que você se mantenha aqui no colégio”. O meu irmão tinha ido, não tinha trabalhado, tinha tido a oportunidade de viajar etc. e tal. Então meu pai falou: “Você não vai”. Que eu acho que foi a minha primeira grande frustração na vida, por ter já criado uma série de expectativas, por ter conversado com a minha família lá, por já ter montado um quadrinho na minha cabeça. E também pelas minhas amigas estarem indo e eu saber que eu ia ficar, que também foi uma coisa superdifícil, que eu tive que correr atrás de todos os trabalhos que eu tinha deixado de fazer, sozinha no final. Então acho que essa foi a primeira vez que eu criei um plano, comecei a projetar uma coisa pra um futuro de curto prazo, mas um futuro, e tive uma frustração. Depois disso eu comecei a querer elaborar tudo muito bonitinho, então: “Me formo em tal ano, com tantos anos eu ingresso na faculdade, com tantos anos eu vou fazer um intercâmbio no meio da faculdade etc. e tal”. Então uma coisa muito planejada. E logo que eu me formei, a minha primeira parte do plano também já não deu certo, porque eu me formei, achei que sabia o que eu queria, prestei as faculdades, passei nas faculdades que eu queria, virei pra minha mãe, falei: “Mãe, estou tendo uma crise existencial, não sei se é isso que quero. Eu quero fazer um ano de cursinho, apesar de ter passado na faculdade”. E fui fazer um ano de cursinho, que foi um ano muito bacana.

 

P/1 – Em que faculdade você passou?

 

R – Eu fiz Administração, só que eu já tinha passado em todas as faculdades, ESPM, FAAP, PUC, Mackenzie, tudo logo que eu me formei. Eu não tinha o desejo de fazer USP assim. E aí fiz um ano de cursinho pra prestar tudo de novo em Administração, quer dizer, não consegui me definir nesse um ano e falei: “Quer saber? Eu vou ingressar na que eu acho que é mais abrangente, que era Administração, e eu vou fazer”. Esse um ano de cursinho foi essencial, eu acho que amadureci demais nesse um ano, tive aquela experiência... Porque no Dante tinha aquela coisa regradinha de ter carimbo na caderneta, sabe? No cursinho é assim, você assiste à aula se você quer, se você quer ir para o bar, você vai. E eu descobri que o Dante tinha me deixado com esse senso de responsabilidade de: “Não, eu tô aqui pra assistir a aula, então eu não vou”. Passava as tardes no cursinho estudando etc. e tal. Aí ingressei na faculdade, já comecei a pensar em intercâmbio. E no segundo semestre da faculdade já entrei no Citibank pra estagiar. Que é uma coisa... Tem uma coisa que eu me arrependo assim, talvez, que se eu voltasse no tempo eu tentaria não fazer, que é ter pressa de crescer. Porque eu sempre tive pressa, acho que por causa do meu irmão, de ter primo mais velho, de: “Ah, quero fazer dezoito anos, quero poder sair, quero ter independência”. Só que, primeiro, é uma visão meio utópica que a gente tem quando criança, porque a gente pensa em crescer, mas pensa só nas coisas boas, não pensa nas responsabilidades que vêm. Depois a gente esquece que criança pra adolescente, adolescente a gente é uma vez só na vida, adulto a gente vai ser o resto da vida. Entrou na fase adulta, você vai ser um senhorzinho, mas você vai ser adulto. Então eu acho que se eu voltasse no tempo, eu não teria tanta pressa pra ser adulta, sabe? E quando eu entrei na faculdade, eu já tinha pressa de ter minha independência financeira. E foi no segundo semestre, passei nesse estágio, fui trabalhar. Na época não tinha essa lei de seis horas, eram oito horas. E como eu estava em banco, às vezes eram dez horas de trabalho.

 

P/1 – Você entrou em qual faculdade?

 

R – Eu fiz FAAP. FAAP de Administração. Lá no banco eu aprendi um monte de coisa, mas acabei saindo do banco por causa do meu problema de saúde. Na realidade, também foi uma frustração minha essa saída do banco. Eu sei que falando assim parece que eu sou a pessoa mais frustrada do mundo, não, eu não sou, mas são coisinhas pontuais que ficaram marcadas. O banco assim, como meu primeiro estágio, tudo mais, eu dei o meu sangue, eu entrei como se estivesse numa competição. E ainda entrei na área comercial, que era lotada de meta, então me encontrei, falei: “Ok. Meta, todo mês tem uma competição, vamos lá”. E na época eu tinha um seguro saúde do banco, e falei para o meu pai parar de pagar o meu. Só que quando eu descobri que eu estava doente, o banco me demitiu, porque eu era estagiária, não era vinculada à CLT. Aí eu até cheguei a ir ao RH do banco pra conversar se tinha como manter o seguro saúde pelo menos na carteira, eu pagaria do meu bolso, eles não precisariam nem ter a despesa, mas não tiveram, então, isso pra mim foi muito complicado, porque eu entrei num período de uma doença que eu sabia que era bem difícil, que o tratamento é um tratamento muito oneroso, e sem seguro saúde. Sabendo que tinha, mas estava acabando de perder e que não ia conseguir nenhum outro que, nas condições que eu estava, me aceitasse. E também, se aceitasse, ia ter um processo de carência etc. e tal. E também foi um... Pra mim, aí no primeiro mês eu tratei com um médico particular. Esse meu primeiro médico foi um cara muito radical, ele me entregou um atestado de óbito na mão, porque foi aquela coisa: “Você vai parar de estudar, de jogar handebol, vai parar tudo na tua vida e não sei se você volta algum dia”. E aí aquela coisa, você olha, você fala assim: “Ok, você está me falando tudo isso e qual é a minha esperança pra daqui pra frente?”. Eu não sei assim, foi uma fase crítica, eu parei tudo, tudo mais, e tratei com esse cara por um período... Acho que eu até pulei uma parte importante da história, que foi a parte de como eu descobri...

 

P/2 – Quando você descobriu a sua doença?

 

R – Eu estava no aniversário de uma amiga minha, que até é importante falar, é a Tamara, que depois teve uma história, que acho que nada acontece por acaso. Eu estava no aniversário dela no dia 11 de março de 2007. Eu sei exatamente, porque o aniversário do meu pai é dia dez e meus pais tinham ido viajar pra Alemanha dia dez. Então foi aquela coisa, os pais viajando, acordei cedo, comi uma pizza, saí pra jogar handebol, não voltei mais pra casa, só voltei pra tomar banho e ir para o aniversário. Cheguei ao aniversário, eu comecei a me sentir extremamente claustrofóbica. O lugar estava cheio, mas eu sou meio arroz de festa, não é um lugar cheio que me faz ir embora de uma festa. E eu sempre gostei muito de... Eu sempre tive uma vida social muito ativa, tal, enfim. Mas comecei a ter uma sudorese, tipo, comecei a suar muito e ter uma dor de estômago horrível. Na hora eu pensei que fosse por estar com o estômago vazio. Fui a um restaurante que eu conhecia próximo, que era um rodízio japonês, comi além da conta até nesse dia e voltei pra casa. Quando eu voltei pra casa, a dor de estômago não tinha cessado, mas tinha minimizado um pouquinho, já estava tolerável, falei: “Vou descansar que amanhã eu devo acordar melhor”. No dia seguinte eu acordei com uma dor muito pontual, eu tinha a sensação de pequenas facadinhas, era uma dor aguda e constante aqui na lateral. Eu cheguei a ir ao ginecologista pra ver se de repente era algum tipo de cólica desconhecido, alguma coisa assim, porque a sensação que eu tinha, a princípio, era de uma cólica, ou de uma sensação que eu nunca tinha tido antes. A ginecologista me explicou que todos os sintomas que eu tive levavam a crer que era uma apendicite. E eu liguei pra um amigo do meu pai que é clínico geral, pedi pra ele me acompanhar pra ir ao hospital, e a gente foi lá ao Einstein fazer alguns exames. Nos exames meu hemograma já saiu totalmente desbalanceado, de fato constava que eu estava com uma apendicite, mas não tinha nada entupindo o meu apêndice. E todos os meus órgãos estavam aumentados, principalmente o meu baço, que o normal é estar embaixo da costela, o meu estava quase na altura do umbigo. E até teve uma coisa, que eu até estava te contando, quando falaram: “Ah, teu baço tá grande”. Eu falava: “Ah, porque eu faço esporte”. Total ignorante sobre o assunto na época. Depois disso chegaram a me internar pra fazer a cirurgia de apêndice, só que esse amigo do meu pai estava achando que eu não deveria fazer a cirurgia e chamou uma junta médica de hemato etc. e tal, o hematologista era a favor e o os outros dois médicos eram contra fazer essa cirurgia. No final acabei não fazendo, tratando com antibiótico, só que os médicos falaram: “Olha, vamos investigar o porquê desse desbalanceamento no hemograma e o porquê do baço tão aumentado e tal”. Uma coisa que eu fiquei chateada na época é porque ninguém me contou as possíveis suspeitas, mas contaram para o meu pai e pra minha mãe lá fora. Então isso pra mim foi meio ruim, porque eu gostaria de eu ter tido a chance de comunicar aos meus pais, sabe? Depois de uma semana eu tive o parecer, eu recebi o parecer no Oswaldo Cruz. Os meus pais não tinham voltado de viagem, porque num primeiro momento os meus pais tinham ido a trabalho e depois de quinze dias eles iam passar uma semana viajando pra comemorar os vinte e cinco anos de casado. Aí eu recebi esse parecer no Oswaldo Cruz, eu acho que até cheguei a conversar com o médico que me deu o parecer depois, porque ele foi uma pessoa... Ele é um médico incrível, um profissional incrível na parte técnica. Ele precisaria... Acho que hoje ele pode estar melhor. Espero que a minha conversa com ele tenha ajudado. Mas ele foi um médico extremamente frio pra dar uma coisa que é pesada, porque é o que eu falei pra ele, eu falei: “Se você está acostumado a ver menino de dezenove anos com leucemia, poxa, é a profissão que você escolheu. Agora, eu não estou acostumada a receber uma notícia dessa todo dia, tipo, pra mim é uma coisa marcante. Então você precisa ter o cuidado e a delicadeza de dar esse laudo pra cada paciente como se fosse a primeira pessoa que você visse com leucemia na tua vida”. E isso é uma coisa que eu sempre falo pra todos os meus amigos médicos, pra nunca perder essa delicadeza e a sutileza de ver cada ser humano, cada paciente como único, porque é um indivíduo, cada um vai reagir de uma maneira. Então, talvez ele tenha querido ser radical pra eu entender a gravidade e sabendo talvez do meu perfil de ser uma pessoa meio teimosa, e se eu não tivesse noção da gravidade, abusasse, saísse, pudesse ter uma hemorragia, pode ser. Mas às vezes eu também me questiono, porque ele também não me conhecia tão bem assim pra saber de um perfil meu de ser uma pessoa teimosa pra... Eu acho que o jeito que ele deu a notícia pra mim, ele daria pra qualquer pessoa, mesmo uma pessoa que fosse supercaxias.

 

P/2 – Você teve noção, na hora, da gravidade da coisa? Você foi ler? Você foi ao Google?

 

R – Então, no primeiro momento... É porque esse médico, ele entrou com a palavra... Ele virou pra mim e falou assim: “Você sabe o que você tem?”. Eu falei: “Não. Eu imagino que seja alguma coisa genética”, porque eu já tinha feito cariótipo em aula de Biologia e eu sabia que ele estava procurando alguma coisa dentro dos meus cromossomos. Ele virou pra mim e falou assim: “Você tem câncer”. Só que a palavra câncer vem com um estigma, entendeu? Que talvez se ele tivesse falado: “Você tem leucemia”, não teria caído minha ficha na hora. Mas o câncer tem um estigma que hoje eu vejo que não tem que ter esse estigma tão pesado, porque tem cura, tem uma série de coisas. É uma estrada às vezes árdua? É. Mas dá pra vencer. Você sai dessa estrada. Tanto é que na hora que ele falou isso, eu falei assim pra ele: “Ah, tem algum toalete aqui perto que eu possa usar?”, tal. Porque eu queria ir chorar. E ele me indicou um toalete dentro da sala dele. Aí eu entrei no toalete, olhei no espelho, falei: “Você não vai chorar”. E até nisso, sabe? Falei: “Você não vai chorar. Não vai chorar”. E eu entrei, tipo, suguei as lágrimas pra dentro, sentei à mesa dele, terminei a consulta. A hora que eu saí do “coisa”, aí eu desabei. Esse amigo do meu pai perguntou: “Tá tudo bem?”. Perguntou: “Tá tudo bem?”. Aí eu comecei a chorar. Mas eu comecei a chorar pelo medo do desconhecido também, porque eu saí com uma série de dúvidas e saí com um parecer que eu ia ter que parar a faculdade... Eu não saí chorando porque eu estava doente, num primeiro momento. Eu saí porque eu ia ter que deixar a minha turma de lado, era uma turma supergostosa, que eu ia ter que parar de jogar handebol, que era uma coisa que eu amava, que eu ia ter que parar de trabalhar, que querendo ou não era uma coisa prazerosa pra mim, que eu ia ter que passar um momento em casa, um momento sem prazo determinado. Então N fatores me fizeram chorar. E depois você vai se formar em Medicina pelo Google. Que eu brinco que tem um monte de médico do Google, que você vai, você lê tudo no Google, acha que sabe tudo, acha que sabe ler um exame e não sabe. Até, hoje, eu posso dizer que os meus exames eu até sei analisar alguma coisa por prática, não pelo início do Google. Mas também, longe de saber analisar como uma médica. E aí pra mim foi muito difícil, porque quando eu falei com os meus pais por telefone, meus pais já sabiam e... Até estou me emocionando, porque meu pai me falou uma coisa muito... Que foi uma coisa que eu levo assim até pra minha vida, que ele falou assim: “Renata, você vai ter duas formas de viver daqui pra frente: ou o teu corpo vai dominar a tua cabeça, ou a tua cabeça vai dominar teu corpo. Então ou você vai se entregar pra doença e já entrar, tipo, nessa fase com espírito derrotista, do tipo: ‘Tô doente porque não sei o quê, nã nã nã’. Com milhares de questionamentos e desistir, e ver o que vai dar, ou entrar com a tua cabeça falando: ‘Essa doença não me pertence. Eu vou vencer essa doença. Corpo, trata de trabalhar contra isso, sabe? Que por um lado foi superpositivo, por outro, eu tive uma fase de tristeza profunda de achar que eu tinha ao domínio de conseguir exterminar isso por si só com a minha cabeça, e, a cabeça, eu te digo, é grande parte do tratamento mas não é tudo, você precisa de remédio, você precisa de médico, você precisa de apoio familiar, você precisa de apoio dos amigos, etc. e tal. Mas, nessa primeira fase, acho que foi isso que foi mais marcante; a questão do meu isolamento, digamos assim, em casa, num primeiro momento você… notícia ruim espalha rápido, então meus amigos ficaram sabendo, o pessoal da faculdade foi extremamente bacana, veio todo mundo me visitar e tal. Só que uma coisa que senti que talvez, não sei se é a minha realidade ou de todo mundo, mas num primeiro momento você tem um boom, aquela preocupação de todo mundo querer saber como você está, se você mudou alguma coisa pelo simples fato de você estar doente e eu era uma pessoa que por fora estava igual, assim. A leucemia tem um quê de doença silenciosa, estética não tinha mudado nada, tinha começado uma quimioterapia via oral que não caía cabelo, então, acho que também todo mundo tem a curiosidade de ver: “Será que já está careca? Será que não sei o quê?”. E muita gente tem a curiosidade de visitar pela simples curiosidade e também pra sair com informação pra sair contando: “Ah, fui visitar…”, sabe? Tem aquelas pessoas que você sente que vão te visitar por um extremo carinho, tem aquelas pessoas que vão te visitar pra tentar se redimir de alguma discussão que você tenha tido em algum momento da vida. Tem vários tipos de visita e depois disso tem aquela fase que você quase não recebe visita, porque todo mundo volta à sua atividade normal. Você recebe muita ligação, não é que você foi esquecida, mas você quase não recebe visita. Pouquíssimas pessoas vão deixar de ir para o barzinho e não sei o quê pra ir e ficar com você na tua casa. Eu tive dois amigos incríveis nessa fase, tive outras pessoas que foram muito bacanas, mas eu tive um amigo, o Fabio, que até hoje eu sinto muito em não ter talvez mantido um contato tão próximo porque ele foi uma pessoa extremamente importante, ele diz que eu ensinei muita coisa pra ele, mas ele também me ensinou muita coisa, ele era um amigo que eu não tinha muita proximidade na faculdade, mas quando eu fiquei doente, me tornei extremamente próxima, e ele é um cara, ele mora no interior, morava aqui em São Paulo sozinho, ele veio do interior, a família toda do interior, ele era primo de uma amiga minha de infância que coincidentemente estudou comigo na faculdade, ele, né? Ele por exemplo era uma pessoa que chegava, ele morava num apartamento menor sozinho, ele pegou o videogame dele, era videogame, DVD, tudo do apartamento, ele não tinha carro e ele ia todo dia me visitar, já começa por aí, de ônibus, depois de trabalhar e estudar, depois ele pegou o videogame dele, que era o faz tudo na casa dele, que era com o que ele reunia os amigos, o instrumento de união de amigos na casa dele, levou na minha casa e eu sabia que, eu adorava jogar videogame e deixou comigo por tempo indeterminado. E ele era um cara que se predispunha, tipo: “Hoje você quer fazer o quê? Quer jogar videogame, vamos. Quer assistir filme, vamos. Quer jogar baralho, vamos. Ele foi uma pessoa incrível. E eu tive outro amigo meu que é produtor musical que viajava muito, que foi muito importante numa segunda fase, que foi a fase do hospital, que ele me teletransportava, eu brincava. A gente todo dia quase à noite entrava no Skype e me levava pra conhecer o hotel da cidade onde ele estava, tipo circular, ele ia com laptop lá bonitinho, sabe? Foi uma pessoa da banda, “Ó, dá tchau pra ela”. aÍ Todo mundo: “Aê!”. Então na minha fase de isolamento, ele me levou a continuar tendo uma vida social. Eu tinha um encontro, um momento da cerveja, apesar de não ter cerveja nenhuma, estava todo mundo tomando cerveja em volta, do outro lado da tela, da cidade, mas eu tinha esse momento. Foram duas pessoas muito marcantes pra mim. A Tamara é uma pessoa muito bacana, até foi legal você relembrar, porque a vida, olha como ela é. A Tamara me ligou várias vezes, tal, depois de dois meses ou mais, talvez um pouco mais, não lembro exatamente a data, ela me liga e fala: “Ah Rê, tô ligando pra saber como você tá”, e tal, e começa a chorar do outro lado da linha. Eu falei: “O que foi Tamara?”. “Meu irmão descobriu que está com linfoma.” O irmão dela estava morando fora, voltou e tal, e descobriu que estava com linfoma, que hoje esse irmão é o melhor amigo do meu namorado atual, que eu não conheci pela Tamara, eu conheci por outra pessoa. Olha a coincidência da vida, assim, que o meu namorado hoje logo que me conheceu começou a falar: Porque eu sou uma pessoa que preferi contar pra ele desde o começo o que eu tive, até porque faz parte da minha história, tenho que fazer minha revisão de quilometragem periódica, entendeu? E ele virou pra mim e falou: Ah, tenho um amigo que teve”. E começou a contar do amigo e eu falei pra ele: “Como é que chama teu amigo? Só pra eu saber assim de curiosidade”. “Henrique.” Aí eu falei: “Não, pera aí, calma. É muita coincidência. Eu sei que pode ter milhares de Henriques que podem ter esse tipo de problema, mas…”. Aí, coincidentemente, fazendo link a gente foi ver que era o mesmo Henrique que eu acompanhei a história, sem saber que era o Henrique, porque até então eu não sabia. Tipo, sabia que era Henrique, mas tinha visto ele uma ou duas vezes. Hoje eu vejo mais ele do que a Tamara, que é uma amiga que eu gosto muito. E a gente trocava muita informação nessa fase. Ela me ligava: “Ah, você já passou por isso? Você fez isso?” Não sei o quê, então são duas doenças diferentes mas semelhantes em algumas coisas. E tem aquela coisa também do estigma do câncer que é o câncer engloba todos os tipos, né? Então, as pessoas acabam trocando muita informação, independente de qual é o tipo, quando você conhece as pessoas no hospital, você faz a troca de informação. Porque tem aquela fase, quando eu comecei a frequentar o hospital, óbvio é bacana, você conhece um monte de gente e tal, é uma fase difícil porque você tem medo totalmente do desconhecido, você está entrando numa coisa totalmente nova. O que eu conhecia de leucemia era o que a novela Laços de Família me mostrava, então a primeira coisa que eu pensei é: “Tá, talvez eu vá passar por um transplante”. A cena que ficou marcada na minha cabeça foi Carolina Dieckmann chorando que nem uma louca. Aquilo, pode ser que pra umas pessoas pode ser um sofrimento imenso, pra mim, eu vou falar o seguinte, meu cabelo eu sabia que ia crescer, eu estava mais preocupada com a minha vida do que com meu cabelo. Se eu ficasse careca e saudável, ótimo, sabe? Qual o problema? É um cabelo e cabelo cresce. E eu acho que depois até fiquei meio irritada, acho que foi o Manuel Guedes [Carlos] que fez a novela. Eu fiquei brava com ele, eu fui reassistir a cena e falei: “Gente, não podia ser permitido mostrar um negócio desse, que isso desmotiva as pessoas”, sabe?

 

P/1  – Você teve medo?

 

R – Do quê? De morrer? Tive medo de morrer. Mas sabe, eu tive a minha fase sublimação, eu falava pra todo mundo da doença, mas parecia que eu estava contando a história de alguém. Meu medo de morrer se deu quando eu já estava internada para o transplante. Quando eu tive que tomar a decisão de fazer o transplante ou não, eu tive um pouco de medo, mas meu medo era de ficar com alguma sequela. Quando não deu certo meu primeiro transplante, eu tive medo de morrer. Ali, eu tive o medo mais profundo de morrer. Tanto é que naquela fase eu já tinha me preparado psicologicamente pra ir embora, digamos assim. Por uns dois dias eu só pensava nisso.

 

P/1 – Você imaginava que ia acontecer alguma coisa depois ou não ia?

 

R – Eu imaginava que eu ia poder estar com a minha família de uma outra maneira, que eu ia continuar acompanhando, talvez até de uma maneira infantil, mas, sabe o Gasparzinho? O Fantasminha Camarada. Eu imaginava que era isso que fosse acontecer. Eu ia fazer uma passagem, a minha matéria ia deixar de existir, mas meu recheio não ia deixar de existir. De alguma maneira eu ia estar com as pessoas que eu gosto.

 

P/1 – Por que você achava isso?

 

R – Eu acho que o amor tem uma ponte que não é tão fácil de destruir. Acho que é por causa disso. Não é uma coisa… Eu, por exemplo, tenho muito mais medo dos meus pais morrerem do que eu ir embora. Então, isso já cria uma conexão imensa.

 

P/1 – Você já foi religiosa? Sua família é religiosa? Alguém se aproximou de você tentando fazer sua cabeça pra alguma coisa? Como é que foi essa experiência?

 

R – Eu tenho uma amiga minha que ela sempre foi, não digo porra louca, ela teve uma juventude normal, cometia as coisas dela, e ela foi morar nos Estados Unidos e quando ela ficou sabendo que eu estava doente, uma amiga minha de muito tempo, ela ficou sabendo que eu fiquei doente, ela veio pra cá, e ela tinha ingressado numa igreja que se chama Bola de Neve, não conheço muito bem as crendices da Bola de Neve, assim, e o que prega, mas eu sei ela que ela disse que se eu não jurasse Jesus, por exemplo, eu não ia me curar. Ela trouxe a bíblia pra eu jurar Jesus com a mão na bíblia, tudo, e até foi uma discussão que a gente teve na época, eu falei: “Cara, não é assim que funciona”, sabe? Agora eu vou falar da minha crença, eu acredito que Deus é uma energia superior, assim, tanto é que eu tenho muita dificuldade – e isso não é por causa do judaísmo, tá? –, de ver Jesus como Deus, porque Jesus foi um homem, e eu acho que o homem tem seus defeitos, então eu acho que Deus não pode estar dentro do que a gente conhece como matéria de homem, ele é uma coisa superior, tipo uma energia que rege o universo. E é o que eu falo, independente da sua crença, você pode ir num templo budista, você pode ir numa sinagoga, você pode na igreja, você não precisa ir necessariamente nesses lugares pra Deus te escutar, entendeu. Eu tenho exemplos muito próximos de pessoas que vão – não é uma crítica à igreja, não critico nenhuma religião, acho que todas as religiões têm seu lado bom e seu lado ruim –, mas eu tenho pessoas que frequentam a igreja assiduamente, e são moralistas com todo mundo, e na hora de tomar atitudes – um moralismo –, cadê sabe? A pessoa acaba não fazendo aquilo que ela prega, não tomando atitudes que ela diz pra todo mundo que devem ser tomadas. É isso, minha parte religiosa.

P/1 – Fala de você depois do transplante que deu certo.

R – Num primeiro momento você tem aquela fase de exclusão social de novo, porque o grande difícil da leucemia, e aí é um problema pontual das doenças que hematológicas e algumas outras, e também de você ficar imunossuprimida, que isso acontece com grande partes dos tratamentos de quem tem câncer, é você ter que ter esse isolamento por um cuidado seu, porque você não pode pegar gripe, não pode pegar nada, qualquer coisa você está correndo um risco de vida, às vezes, sabe? Então, nesse primeiro momento eu fiquei morando em Jaú, lá o pessoal é mais acostumado, todo mundo circula de máscara, porque tem muita gente que vai pra lá se tratar, então o pessoal de lá já é habituado, meus transplantes eu fiz lá com uma equipe incrível de médicos. Eu, depois daquele médico que me deu a notícia de uma maneira meio ruim, eu acabei indo pra uma equipe no Hospital Brigadeiro, eu tratei então dois meses particular.

 

P/1 – Ah particular, isso que eu ia perguntar, como você fez com convênio.

 

R – Eu dois primeiros meses eu fiz particular e depois eu fui para o Hospital Brigadeiro que era um centro de referência de Hematologia, a equipe da Dulce Colassanti, da doutora Renata, que são médicos incriveis, doutora Rose, doutor Fausto, que infelizmente não estão mais lá, porque foi privatizado o Hospital Brigadeiro e virou referência do homem. E nesse período, eu comecei a tomar remédio, aí não deu certo esse primeiro remédio, aí a solução era transplante, eu não tinha ninguém compatível, já tinham feito teste na família, aí a doutora Dulce tinha sido convidada a fazer um teste, com um remédio novo pras pessoas que não tinham dado certo com um remédio que tinha de mais moderno na época, que era o Glivec na época. E eu entrei nesse teste, eram sessenta pessoas no Brasil inteiro, então fui cobaia, digamos assim, desse remédio, que foi o remédio que me ajudou muito, que segurou a doença até eu conseguir achar alguém compatível. Então, esse remédio na dose que poderia sanar o problema como um todo, ele estava danificando meu fígado e na dose mais baixa ele segurava só, ele estabilizava, mas não regredia a doença. Eu acabei tomando nessa dose mais baixa pra não ter uma complicação depois no fígado. E foi muito engraçado porque em julho, junho eu organizei junto com a Junior FAAP, porque eu fui e voltei várias vezes pra faculdade nesse período. Organizamos uma campanha de doação de medula que foi muito legal. A gente conseguiu um número, foram quinhentos novos doadores inscritos. Isso foi uma outra coisa que todo mundo tem muito medo, que que acha que vai doar na hora a medula, e não é, você se inscreve num banco, às vezes você passa a vida inteira inscrito e não encontra alguém compátivel pra doar e eu fiz essa campanha e, coincidentemente, uma semana depois que a gente tinha feito essa campanha, eu descobri que tinha um doador compatível pra mim, lá nos Estados Unidos, não sei se coincidência, o que aconteceu, mas foi muito bacana o que aconteceu porque eu tive as duas emoções, a emoção de conseguir trazer novos doadores e a emoção de receber a notícia que eu tinha encontrado um doar pra mim. E aí eu fui pra Jaú, porque o tipo de transplante que tinha que ser feito, o transplante não aparentado, teria que ser feito lá, porque o Brigadeiro não tinha especialidade nisso e não teria nenhum outro hospital com tanta experiência. Então poderia ter sido feito lá ou Curitiba, mas por questão de proximidade de São Paulo, etc. e tal, me encaminharam para lá, e também porque Curitiba na época estava acho que com uma superlotação. E pra mim, graças a Deus, me encaminharam pra lá, porque eu encontrei pessoas incríveis lá, depois dos meus médicos incríveis que que eu encontrei em São Paulo, por isso que eu falo, hoje mais do que nunca eu posso falar que o meu primeiro médico precisa ter aulinha de como tratar ser humano, porque eu tive depois exemplos de médicos que acreditam no paciente, que tratam o paciente como indivíduo, que respeitam o tempo do paciente, sabe? Eu tive essa equipe, e também a equipe de enfermagem do Jaú, do Hospital Amaral Carvalho. E foi uma experiência muito louca, porque o Hospital Amaral Carvalho recebe gente do Brasil inteiro, então você vê, às vezes, um índio, entrando em isolamento e você vai ter que ensinar o índio a ter todas as noções de higiene, é muito bacana isso, é muito legal. E no hospital você tem várias experiências, é muito legal, uma vez em Jaú eu me deparei com um cara que tinha acabado de transplantar, e estava superrevoltado, eu ainda estava com cabelo, ainda estava magrinha, estava tudo mais e esse cara falou assim: “Você tem o cabelo bonito, né, vai ficar careca. Você tá magrinha, vai ficar gorda”, não sei o quê. Aí você olha e fala assim: “Meu…”. Tanto é que o grande conselho que eu dou pra todo mundo que está começando é ter um filtro enorme no ouvido e ser meio inimputável nessas horas: “Amigo, você dá uma licença que eu vou ali que estão me chamando”. Não ficar com vergonha, porque assim, eu sempre fui uma pessoa, eu me sentia mal de falar assim: “Ah não, licença que estão me chamando”. Mas ao mesmo tempo aquilo estava  me fazendo mal, e eu queria escutar porque eu achava que pra ele era importante falar, talvez eu aprendi também a ver o limite de até onde está fazendo bem para o outro e não está interferindo em mim.

P/1 – Renata, você quando pensava que podia morrer, você ficava revendo a sua vida, imaginando, fazendo julgamentos, e depois que você saiu do hospital já com aquela firmeza “estou viva, permanecerei viva”, você comparava “quem sou eu, como eu sou hoje, quem eu era ontem. Você acorda diferente de quando você acordava antes de saber que estava doente. Existem diferenças? Você pensa nisso?

 

R – Existem. Acho que a grande questão é que eu tive um tempo... um ócio pensativo, que me fez refletir naturalmente, mesmo antes daquele impacto de quando não deu certo meu transplante. Uma coisa que eu acho importante ressaltar, eu encontrei muita gente no hospital, muita gente reflete, acha que: “Ai, eu tô doente porque eu fiz tal coisa”. Tipo, um castigo, e eu sempre tentava conversar com essas pessoas e falava: “Gente, eu não acho que é um castigo que eu recebi”. Eu posso estar doente porque eu preciso aprender tal coisa, mas eu não recebi isso porque eu fiz tal coisa. Realmente, eu analisando minha vida, eu acho que é óbvio, eu frustrei alguém algum dia, eu falei alguma coisa pra alguém algum dia que a pessoa não gostava, não tenha gostado. Eu nunca fiz um mal intencional de falar: “Vou ser má com essa pessoa”. Não, não fiz. Então não achava que aquilo era um castigo e não acho que a doença seja um castigo, porque você olha um bebê de três meses, por que o neném ficou doente? O que ele fez? Ele chorou mais alto? E agrediu os ouvidos da mãe? Não, entendeu? Então, isso é a primeira coisa. Eu comecei a refletir  e o que poderia ter gerado em mim, ter desencadeado porque eu acredito mesmo, eu tenho essa teoria, eu gostaria de ter um médico junto, gostaria de defender essa teoria que todo mundo pode ter ou não a propensão a ter o câncer, de uma maneira geral. Mas o que desencadeia, o que dá o start up na coisa é fundo emocional, consciente ou inconscientemente. É óbvio, que, inconscientemente, ninguém vai ficar pensando e trazendo uma coisa, ninguém quer ficar doente. Mas, conversando com as pessoas no hospital, você vê que ou as pessoas passaram por alguma frustração, ou que não souberam digerir, não souberam relevar, ou por uma tristeza profunda, ou por uma dor, alguma coisa psicológica extrema, mesmo que, inconscientemente, de uma maneira geral, as pessoas têm assim. Isso é uma teoria que eu gostaria de defender. Óbvio, tem suas exceções? Tem, mas são raras. Então, eu fiquei refletindo muito sobre isso. Eu refleti sobre a minha vida, o que eu poderia melhorar, eu refleti como não dá pra programar a vida 

P/1 – Por que não dá pra fazer?

R – Porque você não tem controles sobre todas as variáveis da tua vida. Eu acho legal você programar as variáveis que você tem controle, mas você tem que ter na tua cabeça que pode ser que apareça uma variável, não estou dizendo uma doença, mas estou dizendo alguma outra coisa. Até, às vezes, coisa boa. Você está programado de ir viajar amanhã e hoje você encontra a mulher da tua vida, o amor à primeira vista, você vai repensar sobre a tua viagem, de repente, você decide não ir. Eu estou dando um exemplo bobo, mas é isso, tem muitas variáveis. Cada dia, cada minuto que a gente vive, muita coisa acontece, interna e externamente, o que pode mudar todo o rumo. Então, eu estou com essa dificuldade e que é uma dificuldade que eu adquiri quando eu estava doente, que é a dificuldade de pensar a longo prazo, e é importante a longo prazo, porque o longo prazo te dá um rumo pra você trilhar aquilo que você almeja, quando você não sabe o que você quer, é muito mais difícil, porque você fica muito mais perdida. Eu acho que essa foi a maior dificuldade do antes e depois, eu era uma pessoa que eu tinha muito mais focado o que eu queria, mesmo que aquilo não me desse tanto prazer, eu ia fazer, hoje, eu não sou uma pessoa egoísta e faço só o que me dá prazer, não, eu faço coisas que não gosto também, mas procuro trazer o que tem de mais gostoso mesmo nas coisas que não gosto, acho que sempre tem uma coisa bacana pra você extrair, mesmo que seja o aprendizado que você não gosta daquilo mesmo. Tento evitar aquilo que eu já tenho certo que eu não gosto. Eu acho que eu fiquei mais paciente pra algumas coisas e mais impaciente pra outras coisas. Eu fiquei uma pessoa mais racional depois, continuo um caldeirão de emoções internas, mas antes eu acho que eu era mais emoção do que razão e agora eu estou conseguindo tentando entrar num equilíbrio.

P/1 – Você acha que você foi uma pessoa mimada?

R – Depende. Eu acho que eu recebi sempre muito carinho, mas eu nunca deixei de receber as minhas broncas quando eu precisei. No quesito carinho eu acho que até hoje eu sou mimada, assim, mas é um mimado que não estraga a pessoa.    

 

P/1 – Renata, mudou alguma coisa na sua cabeça? Você acorda de manhã, se olha no espelho, escova os dentes e “vou fazer isso, isso e isso igualzinho”. Como é que é? Eu estou curioso.

 

R – É. Mudou. Mudou a questão de eu viver um dia após o outro. Também... Acho que tirando as questões que eu já tinha falado. Eu acho que você acordar todo dia e viver o dia. O dia tem vinte e quatro horas, é coisa pra caramba, sabe? E quando eu estava doente tinha aquela coisa de: “Eu acordei”, sabe? “Que bom!”. Porque toda vez que eu ia dormir quando eu estava no período de isolamento do transplante... Essa, pra mim, foi a fase mais marcante, assim. Porque foi a fase que eu mais senti a doença. Porque, de fato, eu estava isolada, aí eu já estava carequinha, aí eu já estava fazendo quimio, estava com cateter, sabe? Então, acho que foi a fase... E aí era isolado assim, era um isolado de: minha mãe ficar no quarto comigo. Minha mãe ficou durante sessenta dias comigo no quarto. Meu pai ficou comigo os outros trinta. E eu antes de entrar no isolamento tinha ficado quinze em São Paulo. Então a minha mãe ficou setenta e cinco dias, digamos assim, comigo no quarto. Só que o primeiro quarto em que eu fiquei em São Paulo antes de ir pra Jaú podia revezar entre meu pai e minha mãe, entendeu? No outro não, entrou é isolamento, é janela lacrada, é ar condicionado no talo e é falar com o pai pelo Nextel. Tanto é que, quando não deu certo meu primeiro transplante, eu cheguei para o médico e falei: “Olha”... Que eram uns médicos incríveis que eu falei. Eu falei: “Olha, vocês estão fazendo uma parte do tratamento ótima, mas vocês estão esquecendo de uma parte importantíssima”. Aí eles: “O quê?”. Falei: “Meu psicológico. Sabe por quê? Porque eu estou isolada há sessenta dias e eu preciso ver meu pai, entendeu?”. Tanto é que eles liberaram. Meu pai passava por uma higienização total, geral. É... Eles liberaram meu pai, que fazia visitas noturnas curtas, de máscara, sabe, com todas as proteções, tudo mais. Mas liberaram. Aí depois até minha mãe trocou com meu pai porque pra ela não era sadio ficar tanto tempo num ambiente neutro, assim, de bactérias e vírus, essas coisas. Até a pressão do quarto era negativa, tipo, você abria a porta, tinha uma pressão diferente dentro do quarto que o ar que estava fora não entrava, o ar que estava dentro saía.

P/1 – Nossa.

R – É. E... Mas eu acho que nessa fase, só voltando um pouquinho ao que você tinha me perguntado, eu vivi muito um dia após o outro, assim, sabe? Então... E também tive aquela questão, por exemplo, eu estava isolada, ok, mas o enfermeiro podia entrar e eu fiquei com o videogame, de novo, o videogame, eu sou meio viciada em videogame. E aí, tipo, era assim: “Ah, você precisa fazer uma parte do tratamento”, já tinha um enfermeiro que todo dia ia no meu quarto, ficou comigo quase o tratamento inteiro. E o engraçado é que, quando não deu certo meu transplante, não sei porque mudaram e ele deixou de ser, tipo, quase o enfermeiro principal, e aí depois eu fiquei sabendo que... ele tinha, tipo, se envolvido emocionalmente, não estou dizendo como homem e mulher, não é isso, é como paciente e enfermeiro. Ele ficou com medo de perder também a paciente dele, sabe? E eu imagino que deva ser difícil. E eu imagino que é por isso que eles tentam criar uma camada fria, entendeu? E talvez por isso que meu médico tenha dado a notícia do jeito que deu, porque talvez ele no começo tivesse a sensibilidade, ele começou a perder algumas pessoas que, pra ele, ele criou um vínculo afetivo e foi muito difícil. É difícil você encarar como médico também que você é limitado. Entendeu?

P/1 – O que é que você acha, quando você chama de condicionamento, que você se percebe, à vezes, assim, agindo ou pensando de uma forma que...?

R – Eu acho que muitas mudanças positivas que aconteceram comigo, muitas coisas que eu aprendi, jeitos mais... um jeito mais leve de viver a vida e tudo mais, e de não se pegar com picuinha e ter mais paciência, muitas vezes eu me pego, me peguei com picuinha e perdendo a paciência com coisa besta, sabe, que você fala: “Isso não é um problema, gente, pelo amor de Deus”. Algumas vezes, graças a Deus, eu consigo fazer um negócio bonitinho, do jeito que eu aprendi... Mas eu acho que eu tive um condicionamento durante anos antes de ficar doente que eu estou tentando modificar um comportamento. Então, eu identifico aquilo que eu estou fazendo, mas muitas vezes me pego fazendo. Sabe aquele “tarde demais, já fiz”? É... Eu acho que isso... Eu brinco que é triste, o ser humano tem memória curta, porque a gente aprende uma coisa impressionante, muito boa, que vai agregar muito, só que aí a gente volta pra vida normal, volta pro mundo do jeito que é, volta para os mesmos comportamentos externos e volta para o mesmo comportamento interno, entendeu? Quando na realidade você sabe que aquilo não deveria ter voltado porque você aprendeu o quê que é uma coisa melhor. Por que você vai fazer o pior se você sabe o melhor, né? Mas é uma coisa meio natural.

P/1 – Você acha que você amadureceu mais do que os seus amigos e amigas da tua turma que não passaram por isso ou você acha que não?

R – Eu acho que... Não é que eu amadureci mais ou menos, eu amadureci de uma forma diferente. Uma coisa que eu aprendi no meu problema de saúde é que todo problema é um problema pra pessoa que está vivenciando. Então eu tinha amiga minha que estava vivenciando a dúvida de qual balada ir. E aquilo era um problema pra ela, mesmo enquanto eu estava doente. Mas eu nunca diminuí o problema dela, porque é o problema dela, é o problema que ela tem que vivenciar na hora, se ela quer achar isso um problema, é um problema, entendeu? Então... Que ela vai achar a solução e acabou. Eu acho que cada ser humano tem essa questão da individualidade, de achar o que é um problema, como achar a solução, e que é isso que faz você crescer, sabe? Eu acredito muito que a gente não está aqui pra mera passagem na Terra, a gente está aqui pra evoluir de alguma maneira, sabe, evoluir aquilo a que a gente está condicionado, mudar, entendeu, pra uma coisa melhor...

P/1 – O que é o melhor? O que seria o melhor?

R – O melhor é aquilo que te faz se sentir melhor.

P/1 – E o que é que te faz sentir melhor?

R – O que me faz me sentir melhor? Ah, eu acho que tem... Nas minhas críticas pessoais teriam várias coisas que me fariam me sentir melhor, mas se eu parar pra refletir dentro de um todo eu deveria estar mais satisfeita do que eu estou, sabe, comigo mesmo. São ajustes. Mas hoje, por exemplo, uma coisa que me incomoda é a falta de paciência às vezes com coisas que eu já deveria ter aprendido que eu tenho que ter paciência, entendeu?

P/1 – Por exemplo?

R – Por exemplo, às vezes você está fazendo milhares de coisas, aí você está incomodado com uma outra coisa e você transferir o teu incômodo dessa outra coisa pra uma pessoa que não tem nada a ver. E geralmente você faz isso com as pessoas que você tem intimidade. Porque você nunca vai ser grosso, ou grossa, ou ser implosiva, ou intempestiva, com uma pessoa com quem você não tem muita intimidade. Por isso eu falo, desculpa falar assim, intimidade é uma merda às vezes, com a pessoa com quem você tem intimidade você fala: “Pô, não sei o quê”, aí tá passando: “Opa, tudo bom?”, a pessoa que você não tem intimidade. Deveria ser o contrário, se você parar pra pensar. Tudo bem, teoricamente, você não deveria falar ríspido, nem grosso, nem nada, com ninguém. Mas se fosse com uma pessoa que não convive com você no dia a dia, que não, sabe, que não se doa pra você, que não está o tempo todo do seu lado, não é? Essa pessoa deveria merecer todo respeito do universo. E aí a gente faz o contrário. Pega, pra pessoa que está lá dias às vezes: “Quê que é? O quê que você quer?” E não sei o quê. E pra pessoa que a gente acabou de conhecer: “Me fala. Pode me falar. O que você precisa? Eu te ajudo”. Entendeu?

P/1 – Você é danada. Você deve ser danada, hein? Olha eu vou te fazer mais três perguntinhas rápidas. O que é um sonho pra você? Qual é o seu sonho?

P/2 – Você fez sua viagem de intercâmbio?

R – Não. Isso é uma coisa que eu estou tendo uma crise extrema, se vou ou não vou, se fico, se... Sabe? Se vou perder a boiada de “tem que fazer o processo de trainee agora”, aquela coisa. Tenho medo. E outra coisa que tem, tenho medo de ir e voltar e estar desempregada, sabe? Esse é um dos meus primeiros medos. O meu segundo medo: eu tenho tido uma pressão forte do namorado, sabe? “Já passou a época, não sei o quê”. Só que, por exemplo, essa história que eu contei hoje aqui, talvez ele não tenha noção de... Ele sabe que eu tentei uma vez, que eu tentei ir outra, mas não sabe quanta expectativa foi gerada, etc. e tal. E eu tenho aquela questão de ainda achar que eu ainda tenho que ter meu momento. Tanto é que a gente discute, que eu falo: “Você quer ter uma mulher frustrada do seu lado? Isso é uma frustração que eu carrego há anos, sabe, que eu preciso ir, eu preciso resolver. Você vai ter uma mulher muito mais bem resolvida, olha que bom”. Ele: “É, mas provavelmente não vou mais ter mulher a hora que você voltar”. Entendeu? E é o receio que ele tem, de eu voltar e, sabe, o tempo ter passado ou ele ter conhecido uma outra pessoa. Mas eu acredito muito que algumas coisas estão marcadas, o que é do homem o bicho não come, sabe? Se é pra pessoa ficar junto, não vai ser uma viagem que a pessoa vai fazer que não vai ficar. O meu pai fez um intercâmbio não programado, que ele foi fazer uma viagem de uma semana, chegou lá precisava fazer muito mais coisa pra um negócio dar certo, que também foi pra Alemanha, ele ficou seis meses. Imagina, então não existiria mais casamento entre meu pai e minha mãe. Entendeu? Por exemplo. Isso porque ele nem avisou minha mãe que ia fazer intercâmbio, sabe? Porque ninguém sabia, e nem ele sabia. Foi uma coisa que precisou.

P/1 – Mas você pode... Ele quer casar, seu namorado?

R – Meu namorado quer, porque ele é um pouco mais velho que eu. Ele tem trinta e seis.

P/1 – Vocês podem casar e ter uma experiência de viver fora do Brasil. É a mesma coisa.

R – Então, mas aí é que tá, eu vou falar um negócio, eu preciso ter a minha experiência. 

P/2 – Que está guardada faz tempo.

R – Entendeu? E não é egoísmo. Ele fala isso. Só que eu não quero ter uma experiência a dois, a experiência a dois vai ser diferente de uma experiência sozinha. Eu preciso ter o corte, o segundo corte do cordão umbilical. “Eu cheguei e eu estou sozinha, eu tenho que me virar sozinha, não tem o namorado, não tem…” Entendeu? Não é questão... E não é que eu vou lá... Eu não estou procurando um novo amor. Eu estou satisfeita com o que eu tenho hoje, muito satisfeita, só que a grande questão é: eu preciso viver novas experiências e até sentir saudade do que eu tenho hoje. É que as pessoas não entendem: “Ah, por que você quer sentir saudade? Você tem aí do lado. Pra que sofrer?”. Mas eu tenho essa necessidade, assim, não sei. Acho que esse é um dos sonhos. Eu tenho medo de não conseguir realizar, mas não sei se é a hora certa. Eu fico toda confusa. É a crise existencial do momento. Você pegou num ponto chave.

Agora, outro sonho que eu tenho é constituir uma família, é poder passar um pouco da minha dificuldade como pessoa pra um filho. Eu ainda não sei se eu vou poder ter filho por causa do meu tratamento. Se eu não tiver, eu gostaria muito de adotar, assim, porque eu acho que filho não é aquele... Tem um monte de mãe que pariu e não é mãe, entendeu? Do mesmo jeito que tem um monte de mãe que adotou e é muito mais mãe do que a que pariu. E a minha necessidade não é... Assim: “Gostaria de sentir o bebezinho mexer na barriga?”, “Gostaria”, mas se não poder ter também, ok, que venha uma criança bagunçar minha casa, entendeu? Pra eu chamar de minha filha, meu filho, o que seja, sabe? Então, tenho esse desejo.

Tenho desejo de conseguir auxiliar, isso também é um sonho, de uma maneira maior, de uma maneira grandiosa, quem esteja começando ou no meio de um caminho que eu já passei, que é esse caminho da doença, assim. Por isso também eu sempre busco fazer tudo aquilo que eu acho que vai agregar pra alguém de uma maneira positiva. Não sei se agrega. Mas na minha cabeça eu espero que agregue, sabe?

É... Sonho em fazer novas campanhas de doação de medula que, vergonhosamente, está parado, eu preciso retomar.

P/1 – Você pensou na pessoa, como é que é a pessoa? Você sabe quem é a pessoa? Não sabe?

R – Não.

P/1 – Você imaginou? Você sabe se é homem, mulher?

R – Sabe o lance de Deus? Preferir não humanizar? Foi o que eu fiz na minha cabeça. Foi o anjinho da guarda, assim. Porque eu já tentei criar milhares de caras pra... Eu sei que é um homem. Entendeu? Que mora em Nova Iorque. Mas olha a quantidade de homem que mora em Nova Iorque. Inclusive, foi muito bacana porque eu fui pra... Eu tinha muita vontade de ir pra Nova Iorque e fui pra Nova Iorque com minha mãe e com meu irmão em janeiro e aí às vezes eu me pegava olhando assim quando passava um homem. Os caras deviam achar: “Quem é essa maluca que está me olhando”. Mas eu parava, eu estava olhando pra pessoa falando assim: “Essa pessoa pode ser meu doador”. Você já pensou nisso? Né? E eu até virei pra minha mãe e falei: “Mãe, já pensou que a gente pode ter passado várias vezes pelo meu doador e nem se ligar que ele é meu doador? E nem ter passado e ter falado obrigada?”. Sabe? Então isso é uma coisa meio louca. Só que ao mesmo tempo já me perguntaram se eu quero conhecer.

P/1 – Você pode conhecer se quiser?

R – Falam que tem um jeito de você conhecer, que você entra com uma carta, você manda uma carta e o banco de doação vai mandar para o doador e aí esse doador vai responder se quer ou não, e aí... Entendeu? Só que eu não sei se eu quero conhecer. Ou eu não sei se eu quero deixar ele permanente na minha reza de toda noite, pedindo pra que Deus faça uma coisa boa pra essa pessoa que tanto me ajudou.

P/1 – Eu acho que ele ia gostar muito de conhecer você.

R – Sabe?

P/1 – Ia ficar muito feliz. Não me entenda... Nada disso. Estou falando do coração.

R – Obrigada. Eu gostaria de conhecer. É óbvio que eu não teria julgamento nenhum. Já várias vezes me questionaram várias vezes: "Ah, e se o cara...? O cara for um estuprador e te doou”.

P/1 – Não deve.

R – Entendeu? “E se o cara era um estuprador de criancinhas e te doou”. Eu ia ficar, talvez, um pouco frustrada. Entendeu? Mas não ia desmerecer o ato que ele fez. Ele pode ter feito coisa ruim, mas alguma vez na vida ele fez uma coisa boa, porque hoje eu só estou aqui conversando com você por causa dele.

P/2 – Tem alguma coisa dele dentro de você.

R – Tem muito mais coisa dele do que você imagina dentro de mim. 

P/1 – É verdade. É verdade.

R - Assim, hoje... Óbvio que eu não penso nisso, né? Mas, se eu cometesse um crime e deixasse uma gotinha de sangue, hoje não sabem falar se meu DNA é puramente do meu doador, se é uma mistura do meu e do dele, entendeu? Então é muito louco, tipo, isso. O DNA do sangue só, porque meu cabelo, se eu deixar um cabelo e um sangue vai ter a prova que fui eu, entendeu? Então é muito louco. E é louco você pensar que... Porque a medula é uma coisa muito diferente de um órgão. Tipo, chega um rim, você vê um rim, não é? A leucemia já é uma doença meio fantasma, porque a imunidade você não vê. Não tem um spray que você pega e fala: “Olha, eu vejo a minha proteção imune, da minha imunidade e tal”. Depois, é... A medula nada mais é do que uma doação de sangue, digamos assim, porque a hora que chega, é uma bolsa de sangue que chega, lotada de células tronco. Não é por uma cirurgia que você passa, você passa por uma cirurgia pra colocar o cateter, mas...

P/1 – Direto na coluna?

R – Não. O cateter, ele fica aqui ó. 

P/1 – É por aqui?

R – Aqui, ó. Está vendo uma marquinha aqui? O transplante de medula, ele é feito, o que a maioria das pessoas não sabe, ele é feito por esse cateter que fica no... colocam numa aorta, numa veia, sei lá, numa artéria do coração, e essas células-tronco vão entrar, vão ser bombardeadas para o sangue, só que elas estão imaturas, então elas vão fazer um processo chamado processo de roaming, que nada mais é do que migrar pra casa delas pra amadurecer e começar a se multiplicar. E o meu primeiro transplante, que não teve a pega, não sabem o que aconteceu que as células-tronco que entraram não fizeram esse processo de roaming. Tanto é que durante um mês eu vivi artificialmente porque a minha medula tinha sido exterminada. A medula nada mais é do que a fabriquinha de célula. Minha medula tinha sido exterminada por causa da quimio, pra poder entrar com a medula nova, só que a medula nova se perdeu no meio do caminho, entendeu, e não chegou na casinha. Aí eu precisei... Olha que incrível. Esse doador doou duas vezes pra mim em questão de dois meses. Entendeu? Então você pensa numa doação, o cara se mobilizou, talvez tenha perdido um dia de trabalho. Entendeu? A segunda doação ele fez... Porque tem dois tipos de doação de medula: tem a doação através da crista ilíaca, que é o ossinho da bacia, que faz um furinho e tal e tira de lá; e tem um outro tipo de doação que você toma um remédio subcutâneo durante cinco dias, você vai estimular a tua medula a produzir além do que ela deveria, não vai ser uma coisa prejudicial, só que, assim, é como se enchesse um copo, ela vai estar produzindo além do que ela deve, ela enche o copo, o copo transborda, então as células imaturas vão pro sangue e você tira o sangue. Entendeu? E o meu doador doou das duas maneiras. É... Essa doação através do sangue é uma doação que, pra quem recebe, a pega é mais rápida, só que quanto mais rápido pega, segundo os médicos, a chance de você ter uma rejeição é maior. Porque uma pega talvez mais lenta, ela seja mais favorável porque o corpo vai entendendo o que está acontecendo. Não é uma coisa tão impactante pro corpo, sabe? Mas é incrível, você pensar, o cara doou duas vezes, não foi uma, sabe? É... Poxa, eu devo minha vida pro cara, assim. E é um cara, o que eu acho mais incrível, um cara que não sabe se eu era uma estupradora de criancinhas. Sabe? Porque todo mundo pensa no julgamento do meu doador, mas ele também não sabe se eu fui uma pessoa boa ou se eu fui uma pessoa má, se eu dei carinho pra idosos ou se eu batia em senhorzinhos, sabe? Eles não sabem. É o valor só de fazer um ato bom. Saber que você vai estar doando uma vida nova pra uma pessoa. É fazer o bem sem ver a quem, sabe? É incrível isso. E eu acho que... Você vê, de muitos amigos meus eu escutei: “Ah, eu doaria se fosse pra você, pra outra pessoa não...”. Eu falo: “Você acha que a outra pessoa merece menos que eu? Você acha que a outra pessoa precisa menos que eu?”. 

E outra coisa que eu lembrei, que eu aprendi muito, é que o tempo é muito relativo, né? Assim, porque, quando você está doente, o tempo muda, deixa de ser o tempo de relógio, sabe? O que são os segundos? Pra uma pessoa que está saudável, nada. Pra uma pessoa que está com falta de ar, tudo, pode ser a diferença entre a vida e a morte. O que são dias pra uma pessoa que está aplasiada, muito, pra uma pessoa que está saudável. E a gente começa a ter essa noção de tempo. Vou fazer uma comparação chula: o que são os seus dias nos seus dias normais? Nada. O que são os seus dias nos seus dias de férias? Não muda o tempo? É isso.

P/1 – Você está vivendo mais nos dias de férias ou os dias normais?

R – Eu tento viver nos dias de férias. E a dificuldade é que os dias de férias são mais longos, então você pensa mais durante eles, mas você não tenta pensar tanto no dia de amanhã pra não acabar o dia de hoje. Entendeu? É isso. Então...

P/1 – Está contente? Quer falar mais?

R – Eu estou contente.

P/1 – A gente pode ouvir você mais.

R – Tem mais alguma coisa que...

P/1 – Muitas, mas é...

R – Pode perguntar. Numa boa.

P/1 – Você sempre foi assim madurinha?

R – Não. Eu me achava madurinha. Hoje eu descobri que eu não sou madura. Também outra coisa que... Boa pergunta, porque outra coisa que eu aprendi. Antes eu me achava madura, supermadura. Hoje, eu estou mais madura do que antes, mas me acho muito mais imatura do que me achava antes. Eu acho que quanto mais a gente aprende, mais a gente vê que tem que aprender, sabe? O aprendizado tem que ser uma coisa constante. Não estou dizendo o aprendizado do colégio. O estudar é importante. É muito gostoso. É gostoso, né? Tudo bem. Mas também tem uma coisa, uma outra coisa que eu lembrei que é bacana de falar, eu em alguns momentos preferia não ter sido letrada, preferia não estudar, não ter ido no Google, não ter... Em alguns momentos eu acho que ignorância é uma dádiva. Por que eu falo isso? Porque eu conheci pessoas do Brasil inteiro, de todas as classes sociais, e aí às vezes você chega pra uma pessoa e fala: “Ah, o que você tem?”. E a pessoa: “Ah, um tal de câncer”. Aí você fala: “Ah, tá. Mas qual?”. “Ah, não sei, não”. “Ah, você está preocupada”, “Não sei, não. Não tô, não. O médico já deu uns remédios aí, tal e não sei o quê”. Tá bom. A pessoa não tem noção da gravidade, então ela não vai se preocupar e talvez aquilo seja muito vantajoso. Porque quando você tem noção da gravidade, a tua cabeça, ela cria algumas paranoias naturais, e você não tendo a noção da gravidade daquilo que você está vivenciando, você não cria nada. Entendeu? Você não cria expectativa. Você não cria... Você vai viver. E algumas vezes, em algumas horas da vida... É muito boa a música do Zeca Pagodinho do Deixa a vida me levar, porque você não precisa pensar o tempo todo, sabe? É gostoso ter um momento leve que você não está pensando em nada, você só está vivendo. Sabe? É bom.

P/1 – Muito bom.

P/2 – O que você achou de dar esse depoimento aqui no Museu?

R – Eu acho interessante. É o que eu estava conversando até... Eu acho que vai ser muito legal, não só, talvez, tem coisas que você fala e você tem a constante mudança. Talvez eu olhe o vídeo daqui algumas horas e fale: “Ah”, óbvio, né, com a minha autocrítica, “Devia ter falado isso. Talvez podia ter falado isso de uma maneira diferente”. Tal. Mas eu acho que mais interessante vai ser ver daqui a alguns anos. E eu espero, que isso foi porque eu me propus a vir aqui, que a minha história, de alguma maneira, ajude alguém a repensar alguma coisa, assim. Eu, hoje, o meu intuito foi esse, poder deixar registrado pra alguém que esteja afim de assistir e que gere alguma mudança na pessoa. Sabe? Que gere alguma coisa positiva ou, não sei, algum sentimento interno. O mínimo que for já vai ser bom, sabe, pra mim, assim. Até porque, é aquela coisa, quando eu falo “gera mudança”, eu não consegui mudar depois de um monte de coisa, sabe? Estou num processo de, acho que a mudança não acontece tipo: dormi, acordei, “Oh, hoje estou diferente”. Pode estar diferente em um ponto, mas você não pode dizer que teve uma mudança geral, sabe? Pra mudança geral é pontinho, por pontinho por pontinho, aí você vai...

P/1 – Você continua sempre sendo uma jovem de vinte e quatro anos, né?

R – Continuo.

P/1 – Claro. Que bom.

R –Continuo. 

P/1 – Que bom.

R – É. E você sabe que eu brinco que eu não sou nem uma jovem de vinte e quatro anos. A sensação que eu tenho é que eu tenho menos. Sabe? É como se eu tivesse parado no tempo: “Agora eu vou assistir esse filme”. Aí assisti ao filme: “Bom, acabou a sessão? Tá bom”. Saí, eu saí, e foi um filme que demorou um pouco mais. Tanto é que a sensação que eu tenho contando a história, às vezes é até a sensação que eu estou contando a história de uma outra pessoa, que eu presenciei tudo nos mínimos detalhes. Mas, às vezes, eu não tenho a sensação de como se eu tivesse vivido na pele, sabe? É estranho isso, pra mim. Não é uma coisa supernormal, que eu falo: “Nossa!”. Mas é uma sensação real. Às vezes eu tenho a sensação que eu peguei, pus uma cadeirinha: “Aonde você vai? Vai para o hospital Amaral Carvalho agora? Então, tá. Estou indo com você.” Sabe? como se fosse tipo corpo e pessoa diferente.

P/1 – Você teve algum sonho, assim, que se repetia? Você sonhou com água, com mar? Porque as pessoas muitas vezes... Eu tenho lido livros sobre pessoas que passaram por esse tipo de vivência e elas sonham sonhos muito fortes.

R – Não. Eu tenho um sonho desde criança, que desde que eu fiquei doente eu parei de sonhar. Que é um sonho... Parece um papo meio de louco, assim. Mas eu acho que ele... Interpretando esse sonho, ele diz várias coisas: uma, de eu morrer de medo de perder meus pais e meu irmão, e parte do que eu vivenciei. Porque é assim, esse sonho eu tenho desde criança, desde que eu moro na Rua Edson. Ele misturou partes... Eu morei depois da Rua Edson, eu morei em mais três apartamentos diferentes. Então morei em cinco lugares diferentes na minha vida. Esse sonho misturada antes de eu morar no apartamento, partes do apartamento já. Entendeu? Ele é como se fosse um misturadão de todos os apartamentos em que eu vivi, mas eu sonhava com esses apartamentos antes de morar neles. Então tinha a salinha de TV de um, a cozinha de outro. Sabe? Ele era um apartamento montado. E eu estava nesse apartamento sozinha, era noite... E eu desde pequena quando meus pais saiam à noite eu tinha de acontecer alguma coisa, assim, tipo, eu tenho um quê de mãe com meus pais, o que é ruim, até minha mãe fala: “Dá licença. Quem é mãe sou eu”, sabe?, “Para de querer ser minha mãe”. E aí eu estava neste apartamento, eu sei que entra um cara. Que a única... Eu saberia... Se eu soubesse desenhar bem, eu saberia desenhar o cara, porque eu tenho a imagem dele muito gravada na minha cabeça. Por sinal ele é careca. Mas ele é muito... Ele é grande, sabe? E eu não... Aí eu vi que ele entrou, eu sei que tem mais uma pessoa, essa pessoa eu não consigo reconhecer quem é, dentro do apartamento, eu saio correndo e me escondo atrás do sofá. Eu sei que quando esse cara está passando, eu tenho a impressão que meus pais estão chegando pela porta e eu tenho medo que eles se encontrem e esse cara faça alguma maldade com meus pais e eu pulo em cima do cara, tipo tentando enforcar o cara e não consigo, o cara tipo me joga no chão e me dá uns tiros. Eu sinto a dor do tiro quando eu estou, sabe, sonhando. E ele me arrasta até o hall de entrada e vai embora. Só que eu fico do lado do meu... Por isso que eu falei que é muito estranho, porque é a sensação que eu tenho do Gasparzinho, porque eu fico, eu vejo meu corpo baleado, eu fico do lado do meu corpo como um espírito mesmo, só que fora do corpo. E eu vejo meus pais chegando, eu vejo a reação deles me vendo morrer, sabe?

P/1 – Várias vezes você teve esse sonho?

R – Várias vezes.

P/1 – E parou?

R – E parei. Então é um sonho meio doido, que eu tive a mesma sensação na vida real, assim. Eu tive a sensação de ver a aflição dos meus pais, óbvio, numa cena totalmente diferente, num outro contexto, mas eu tive a sensação dos meus pais sentirem o medo da perda e... E o que é engraçado é que meus pais falavam muito pouco disso, sabe? Não sei nem se eles falavam entre si. Ou se é uma coisa que eles ainda precisam pôr pra fora. Sabe? Porque eu acho que pra pai e mãe... Eu te digo, eu sofri dor física. Dor física, assim, de picada, disso, daquilo, do tratamento, mas acho que o psicológico pra eles foi muito mais difícil do que pra mim. Porque eu sou sementinha. Sabe? Eu sou... Eu ia quebrar também a coisa natural. Que é o que o meu pai sempre falou. Ele falou: “Não é justo um pai enterrar um filho. Um filho enterrar um pai, por mais doloroso que seja, é o natural”. Entendeu? “Agora, não é justo uma pessoa nova, sabe, mais nova do que eu, que eu vi crescer e tudo mais, eu tenho que dar o ponto final”. Entendeu? Então eu acho que pra eles deve ter sido tipo um pancadão, assim, sabe, pra segurar, uma coisa bem pesada.

P/1 – Que bom que passou.

R – Passou. Muito bom.

P/1 – Obrigadaço, Renata.

R – Imagina.

P/1 – Poxa, muito legal.

R – Obrigada.

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