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História

Vencendo as dificuldades

História de: Maria de Lourdes Moraes Carvalho
Autor: Ana Paula
Publicado em: 15/06/2021

Sinopse

Dona Maria de Lourdes conta a sua história, principalmente de sua vida em Iguape, São Paulo. Narra como era a cidade e ela é no momento da entrevista. Das suas dificuldades pessoais e familiares para se tornar a mulher madura que é no momento em que foi entrevistada.

História completa

Projeto Cabine - Museu em Rede Realização Instituto Peabirus, Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo Entrevista de Maria de Lourdes Moraes Carvalho Entrevistado por Fernanda Peregrina e Isaac Patrese Iguape, 26 de Fevereiro de 2011 Código: MRI_CB04 Transcrito por Luana Lorena Revisado por Marconi de Albuquerque Urquiza P/1 - Bom dia, Dona Maria. R - Bom dia. P/1 - Obrigada por estar aqui conosco, para contar um pouco da sua história. Qual é o nome completo da senhora, local e data de nascimento? R - Maria de Lourdes Moraes Carvalho. Data de nascimento? P/1 - É, e local. R - 25 de Setembro de 1930, Eldorado Paulista. P/1 - Dona Maria, a senhora não nasceu aqui em Iguape, né? R - Não. P/1 - Com quantos anos a senhora veio para cá. R - Vim com seis anos, já me considero iguapense [risos]. P/1 - E qual é a origem da sua família? R - Moraes Cardoso. P/1 - Mas a sua família sempre morou nesta região? Do Vale do Ribeira? R - Sempre. P/1 - Sempre? R - Sempre. Lá do lado de Eldorado mesmo. P/2 - Moraes Carvalho é... R - Não, Moraes Carvalho é do meu marido [risos]. É Cardoso Moraes [risos]. P/2 - Cardoso Moraes é português? R - Português. P/2 - Eles nasceram aqui no Brasil, seus pais? R - Nasceram aqui no Brasil. P/2 - Seus avós vieram de Portugal? R - Eu acho que sim [risos], não sei. P/1 - E nas... A senhora lembra como foi a sua infância ainda em Eldorado? R - Não, porque eu vim muito pequena de lá, né? P/1 - Seis anos... R - É... Eu não lembro. Lembro daqui de Iguape, que aí já estava maiorzinha. P/1 - Então conta um pouquinho como foi a sua infância aqui na cidade de Iguape. R - Ah, foi infância... Aquele tempo Iguape era outra cidade, não tinha carro, a gente podia brincar na rua à vontade, né? Brincar de... Brincava muito de roda, brincadeira de criança. Depois, depois... Sete, oito anos, aí já... Morava em uma chácara, aí vim morar aqui na cidade, que hoje a chácara já é tudo cidade, não é mais como era, né? P/1 - E como era a casa da senhora? R - Não tinha casa própria, morava em casa alugada. Eu morei em tantas casas... Mas eu tenho recordação daqui da Rua XV. P/1 - Então conta um pouquinho sobre como era morar lá. R - [Risos] Ah, aqui era muito bom! Perto da praça, qualquer festa a gente corria na esquina pra ver... Era muito bom aqui, morei muitos anos aqui nessa rua. P/1 - E a senhora falou que brincava bastante, né? R - Hum. P/1 - Com quem a senhora brincava? R - Tinha a vizinhança, as meninas das vizinhanças, a gente se reunia, era uma vizinhança muito unida, as crianças não tinham briga, não tinha as coisas, então se unia muito e brincava na rua. P/1 - E como que... A senhora lembra da sua primeira escola? R - Primeiro ano? Eu estudei no grupo do Vaz Caminha, que aliás era o único que tinha em Iguape, né? Fiz até a quarta série lá. Mas como tinha só o quarto ano, a minha mãe me fez repetir o terceiro e o quarto ano que era para eu não sair muito criança da escola, se não ia sair com 10 anos da escola e depois esquecia tudo. Então ela me fez repetir o terceiro e o quarto ano pra... [faz gesto conclusivo com as mãos e a cabeça]. P/1 - E como foi fazer duas vezes o... R - Ai... Que chato [risos], eu sabia tudo! [Risos]. P/1 - Teve algum professor que marcou mais a senhora? R - Professor não, professora. Naquele tempo era professora, mulher era pra mulher e homem era pra homem. Tinha classe de menino e classe de menina, né? Quem marcou foi a professora Etelvina, morava em Campinas, uma professora muito boa. Isso marcou muito a minha vida. P/1 - E teve algum momento especial na escola, que a senhora ainda lembra, que foi importante? R - Lembro... Do que? Ah, uma prova! Não, não foi prova, naquele tempo não era prova era... O que é que é? Quem tirasse a nota mais alta na matéria ia carregar a bandeira [risos], nós tínhamos ensaio da bandeira todo fim de tarde, todo final de semana. E eu tirei a nota mais alta, mas fiquei muito decepcionada porque quem levou a bandeira foi a mais riquinha da classe, e isso me marcou [risos]. P/1 - E a senhora estudou além da quarta série, né? R - Estudei, mas muitos anos depois, já tinha uns 16, 17 anos. Aí fiz um curso no Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial], que teve em Iguape [tosse]. P/1 - E o que é que a senhora estudou no Senac? R - No Senac tinha curso de comércio, né? Linguagem escrita, português, técnica de venda... Essas coisas. Por sinal que me ajudou muito, porque depois eu trabalhei no comércio, me ajudou muito... P/2 - Conte um pouquinho como foi essa fase da senhora trabalhando no comércio. Como era? R - No bar, meu marido tinha um bar, bar e restaurante Zé Juca [risos]. E eu trabalhava na caixa. No começo eu trabalhava em tudo! Era balcão, era... Mas depois já melhorou e já trabalhava só na caixa. E era muito bom, trabalhava dia, noite, época de carnaval, não se dormia... P/2 - Conte um pouquinho como era o carnaval, muita gente? R - Carnaval era muita gente, nossa! No bar era um movimento que... Porque no começo era só o nosso bar que tinha, não tinha esse monte de bar que tem agora. O primeiro... A primeira coisa de misto quente quem trouxe fomos nós [risos], não tinha em Iguape. Ah muito movimento, o carnaval era tudo ali na praça, né? Mas não era esse carnaval de agora, não sei se vocês sabem, terça-feira de carnaval terminava meia noite! Meia noite fechava tudo, acabava todo o movimento, ninguém abria a boca pra cantar, era a quaresma, era respeitada a quaresma naquela época, né? Que agora não respeitam mais nada. Mas era carnaval bom, não tinha briga, carnaval em paz, é isso aí. P/1 - E tendo o único bar da cidade vocês deviam conhecer bastante gente aqui, né? Em Iguape. R - Nossa! Meu marido era muito conhecido. P/1 - E como é que era a relação? Como que... Os fregueses... Como era ter um bar em uma cidade pequena? Ser o único bar... R - Não, os fregueses eram muito respeitadores... Tinha alguns bêbados, algumas coisas, mas a gente relevava, né? Tinha muita paciência [risos]. P/1 - E como que a senhora conheceu o seu marido? R - Eee... Conheci desde mocinha nova mas não namorava com ele não [risos], ele era apenas amigo, depois mais tarde ficamos namorados. P/1 - E como era antigamente namorar na cidade? R - Namorava na janela... Dia de semana não saía de casa, mamãe não deixava... Só sábado e domingo a gente podia dar umas voltinhas até às 21:00hrs, 21:30hrs... Porque 22:00hrs, 22:30hrs dava o apito de apagar a luz, apagava 23:00hrs, não se podia ficar, não deixavam nós ficarmos mais do que 21:00hrs na rua. Mas... P/2 - E como era? Vocês ficavam na praça? R - É, rodeando a praça, né? Os moços ficavam na virada e a gente passeava, as moças passeavam, só de olhar [risos]. Era bom aquele tempo... P/1 - E a senhora tem algum momento mais marcante aqui na cidade? Um carnaval que tenha sido... Que a senhora lembra... R - Carnaval na minha mocidade... Uma que minha mãe era muito exigente, ela não deixava a gente sair, só quando minha tia ia ao baile ela deixava eu ir com ela. Mas que eu lembre, saí em um bloco, o bloco do Jockey. Cordão, né? Que se fazia primeiro. Cordão Jockey. É a única lembrança que tenho, não tenho... Vinha cedo para a casa, não aproveitava muito o carnaval não. P/2 - Por que chamava Cordão do Jockey Dona Maria? R - Não tinha nome, era Jockey [risos]. P/2 - Joca? R - Jockey, Jockey Clube. Era tudo de bonezinho, de vestido de Jockey [risos]. P/2 - E tinham outros cordões? R - Tinham, tinham vários, vários clubes, né? Tinha Primavera, XXV, Liberdade... Tinham vários cordões e blocos que saíam na rua, porque não tinha fanfarra, essas coisas. Era um bloco que saía na rua. P/1 - E Dona Maria, como que... Na sua juventude, era difícil estudar? Aqui na cidade de Iguape, né? R - Era difícil. P/1 - Como que a senhora buscou continuar estudando? Teve que esperar o curso do Senac, é isso? R - É, o dia que apareceu a gente fez. Não tinha aqui na cidade, também foi só esse curso e foram embora, não teve mais. Naquele tempo era difícil. P/1 - E o seu marido, estudou? R - Não, fez a mesma coisa que eu. Quarta série, ele fez só a quarta série. P/1 - E sempre trabalharam juntos no comércio? R - No comércio sempre trabalhei junto com ele, no bar, no clube... Clube Alvorada, trabalhei muito lá. P/1 - E como era esse clube? R - Clube bom, sociedade... Meu marido fazia bailes bons lá, tinha o Conjunto Tropicalista, que era dele, muito falado no Vale do Ribeira, Conjunto Tropicalista... Era um clube bom. Até hoje é um dos melhores aqui da cidade. P/1 - A senhora lembra de alguma festa que a senhora achou mais interessante? R - Era tudo igual, era tudo alegre [risos]. P/1 - E como era? A senhora falou que trabalhou lá, né? A senhora também trabalhou com bar? R - Não, lá era na caixa. P/1 - Caixa? R - Na caixa do bar do clube. P/1 - Caixa do bar... P/2 - Dona Maria, voltando um pouquinho. A senhora falou que brincava de roda na infância. Tinham outras brincadeiras? R - Tinha! minha mãe minha mãe[risos], esconde esconde [risos]... P/2 - Conte um pouquinho dessas brincadeira pra gente. R - Minha mãe minha mãe... Eu nem lembro mais! Eu sei que corriam atrás, pegava, era mãe aquele que pegava, era outra... Tinham muitas brincadeiras de roda. P/2 - E brincavam todos juntos? Os meninos e as meninas? R - Não, menina com menina, não se brincava com menino. Interessante, né? [risos]. Eu quando era menos, mamãe gostava muito de... Aqui em Iguape não tinha diversão nenhuma, né? Não tinha televisão, rádio, não tinha nada. E então a gente brincava de teatro em casa, então minha mãe ensinava as poesias pra gente. Brincava de teatro, cineminha em casa... Todas essas brincadeiras, para passar o tempo, né? P/1 - E esse teatro, como que vocês faziam? R - Em casa mesmo, brincadeira em casa. Subia em umas caixas, punha uns panos, forrava, fazia palco e dizia poesias em cima [risos]. P/1 - E chamava os amigos também? R - É, tinha os amigos também, que visitavam. A gente se divertia, né? Porque agora é só em frente a televisão, não se faz mais nada, não se decora uma poesia, não se lê um livro... Eu gostava muito de ler. P/1 - E onde a senhora pegou o hábito de ler? R - Não, não é propriamente pegar o hábito, é que não tinha o que fazer! Ou a gente escrevia ou lia! A não ser o serviço de casa, né? Que a gente trabalhava muito, costurava, fazia muita coisa. Minha mãe era costureira, eu também ajudava muito ela. Era isso a vida da gente. Não tem muita coisa importante pra contar. P/2 - Atualmente a senhora faz o que Dona Maria? R - Atualmente? Sou pensionista, não faço nada [risos]! Faço servicinho de casa. No inverno faço crochê, faço tricô... Porque agora no verão não dá, né? No inverno ainda faço crochê, faço tricô, mas no verão só palavra cruzada. P/1 - E a senhora faz o crochê em casa sozinha? R - Sozinha. P/1 - Mas tem alguma atividade que a senhora faz aqui na cidade? R - Não. P/2 - Dona Maria, tem alguma história marcante que a senhora passou na cidade que a senhora lembra? O que aconteceu aqui em Iguape? R - História marcante que eu lembro? P/2 - Algum fato, algum causo, que a senhora lembra. Alguma história, alguma lenda de Iguape... R - Ah, eu lembro quando caiu um avião Catalina no Valo lá. Iguape fez uma festa, foi todo mundo ver esse avião [risos], que caiu no Valo Grande aí. Eu era pequena, nós corremos pra ver, foi uma novidade na cidade. P/2 - Parou a cidade. R - Parou a cidade pra ver o avião [risos], novidade, né? P/2 - Como foi pra senhora contar um pouquinho da sua história pra gente? R - Olha, pena que eu não recordo de muita coisa assim pra falar, mas é uma satisfação estar aqui com vocês. P/2 - A senhora tem algum sonho, não realizado? R - Não, meus sonhos... O que é que eu sonhava? Casar, ter filhos... Já tenho filhos, tenho netos, bisnetos. P/2 - Os filhos são daqui de Iguape também? R - Tenho cinco que moram em Iguape, e dois que moram fora. P/2 - Eles trabalham aqui? R - Trabalham. Os filhos estudaram. Era outra época, né? Graças a Deus estudaram, se formaram todos. E trabalham aqui mesmo. Os netos também... Vão estudar pra fora, né? Porque aqui você tem que sair pra fora pra estudar. Os netos também já se formaram... É isso aí. P/2 - A senhora vê muita mudança na cidade de como era antigamente e hoje em dia? R - Ah sim! Primeiro era só areia, essa praça aqui era só areia. Quando dava aquele vento cobria até a Igreja, a areia [risos]. Não tinha... A luz apagava cedo, não tinha televisão, não tinha nada, porque não tinha luz de dia, né? Quer dizer que não tinha... Era tudo manual, não tinha essa folga que a moçada tem agora e que ainda dizem que estão cansados, né? Era um tempo difícil, quer dizer, a gente até que não achava porque estava acostumada. P/2 - E comércio, tinham poucas lojas? R - Tinham poucas lojas. P/2 - E como fazia? A compra do mês, tecido... R - Não, tinha... A loja era "secos e molhados" que diziam, então se comprava. Tinham as lojas, não tinha tanto como tem agora, mas tinha bastante loja. Os bares mesmo logo foram surgindo. P/2 - Na época que a senhora tinha o bar tem alguma história marcante que a senhora lembra que passou no bar? R - Eu não lembro de ter. P/1 - E como era trazer, para manter o bar... Trazer a mercadoria, as coisas? R - Não, mas nesse tempo já tinha carro na cidade. Já vinha, já tinha estrada. Aí já era 1968, 1970, por aí... Aí a cidade já estava movimentada, tinha até luz, tudo já. P/1 - Aí vocês saíam de Iguape pra comprar e traziam? R - Não, os carros que trazem. Os fornecedores é que trazem... Traziam. Eu morei cinco, seis anos em Paranaguá também, fiquei fora de Iguape. Depois voltamos a morar pra cá, aí que meu marido abriu o bar. P/1 - E como foi sair de Iguape para morar em uma outra cidade? R - Ah... Nem diga... [risos]. Sem conhecer ninguém, só eu, meu marido e os três filhos, né? Porque a gente tinha três filhos. Foi duro, mas depois me acostumei, não queria voltar, mas meu marido, a paixão dele era Iguape. Aí voltamos e aqui ficamos. P/1 - E nesse período que a senhora passou longe da cidade teve alguma... A senhora percebeu alguma diferença? R - Mudou muito, mudou... Iguape evoluiu. Quando eu voltei já tinha luz elétrica de dia, já tinha calçamento na cidade, tinha evoluído bastante. P/1 - Dona Maria, obrigada por dar o seu depoimento pra gente. R - Desculpa se eu não falei mais alguma coisa [risos]. P/1 - Imagina! Foi ótimo. ----- FIM DA ENTREVISTA -----
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