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História

Vencendo a timidez

História de: Thais Cristina Bispo de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/10/2014

Sinopse

Taís é uma simpática jovem que venceu a timidez fazendo cursos no Projeto Arrastão. Moradora do bairro do Campo Limpo, Taís conta em seu depoimento passagens de sua infância no bairro do Itaim Paulista, na capital. Fala sobre a separação dos pais e as dificuldades que a família depois desse período. Lembra o concurso que participou no Sesc Itaquera, onde seu grupo da escola foi premiado. Recorda do curso de gastronomia que fez no Projeto Arrastão e da escolha do curso de graduação. Por fim fala dos empregos que teve, com destaque para a área de telemarketing e sobre o Projeto Criança Esperança. 

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História completa

Meu nome completo é Taís Cristina Bispo de Lima, eu nasci no dia 1º de setembro de 1993, em São Paulo. O nome do meu pai completo é Antomar de Lima, o nome da minha mãe é Edilene Aparecida Bispo, os dois nasceram em São Paulo. Minha mãe nasceu no dia 23 de setembro de 1973, e meu pai nasceu no dia 16 de maio. O meu pai tem uma empresa e, assim, o que você precisar ele vende, vende tudo um pouco. E ele é técnico de raio X também. A minha mãe é cabeleireira, ela faz alongamento. Meu pai é superengraçado, ele se dá bem com todo mundo, ele sabe falar, sabe se portar com qualquer tipo de pessoa, ele é muito extrovertido. A minha mãe também conversa. Porque ela é cabeleireira, então ela tem que saber lidar com as clientes, tem que saber escutar, mas ela é um pouco mais brava porque é mãe. Mulher é um pouco mais brava. Mas também é um amor de pessoa. O nome da minha irmã é Carolina Bispo de Lima e do meu irmão é João Vitor Bispo de Lima. O João tem 13 anos e a Carol tem 18. O bairro de infância era bem tranquilo, era uma rua sem saída, tinha bastante criança, então eu costumava viver o dia inteiro na rua brincando. E minha casa era uma das casas maiores do bairro, porque era um bairro bem simples. Não que a gente fosse melhor de vida, mas a gente era um pouquinho melhor do que as outras crianças. Então a nossa casa era maior, a gente tinha bicicleta, tinha ursinho, tinha boneca, e a gente dividia com as crianças da rua e era bem gostoso, porque era gostoso poder compartilhar com uma pessoa que não tinha brinquedo e tudo mais. Era no Itaim Paulista. Era Encosta Norte, o nome do bairro.  

Eu sempre fui pra escola, creche. Não sei, pré. O prezinho, eu tinha uma melhor amiga, a Luciana, e a nossa sala foi selecionada pra participar de um concurso, uma coisa que eu lembro, no Sesc Itaquera, e nós ganhamos a peça. A gente encenou um teatro lá e nós ganhamos. Foi uma peça sobre a escravidão. Tinha um centro comunitário perto da escola e nós ensaiamos lá. O professor de capoeira ensinou a gente a fazer algumas coisas. E nós apresentamos no Sesc Itaquera e nós ganhamos o concurso, e nós tivemos um dia inteiro lá pra usar a piscina, usar tudo que tinha lá. Depois, na primeira série eu tive que ir pra casa dos meus avós, porque meus pais estavam construindo a minha casa, e a gente ficou um ano morando com o meu avô e minha avó por parte de pai. Quando acabou, nós voltamos pra nossa casa. Quando eu fiz 11 anos, meus pais se separaram, então eu mudei muito de escola. Meus pais se separaram e minha mãe teve que manter eu, minha irmã e meu irmão sozinha, porque meu pai infelizmente não ajudou muito. Eles venderam a casa que nós morávamos, nós fomos morar na Penha, eu tive que cuidar dos meus irmãos. Eu dou graças a Deus pela saúde da minha mãe, que todo esse tempo, dez anos, ela nunca ficou doente e sempre batalhou pela gente. E a única coisa que me entristece é a distância do meu pai. Minha mãe nunca pediu pra ele: “Olha, dá um dinheiro. Eu quero dinheiro”. Não, ela falou: “Lima, vai lá, sai com as crianças, leva na pracinha, só conversa com eles”. E não, ele não fazia isso. E agora ele fica triste porque a gente não vai a casa dele, mas é que assim, não teve esse convívio, então a gente não sente vontade de ir. Ele fala: “Vai lá, visita a sua avó”. Mas, sabe, aniversário, Natal, não liga. Nunca ligou pra falar “parabéns”.

Eu fiquei muito chateada com a separação. Eu me revoltei, eu não me arrumava, não queria saber de ninguém. Eu era muito mal humorada e não fazia nada, só ia pra escola. Não queria saber de nada. Depois que eu mudei pra zona sul, eu melhorei. Eu conheci novas pessoas, novos amigos, mas antes eu não saía. Na Penha, assim, eu tinha minhas primas, que elas são netas da irmã da minha avó, da minha tia-avó, então eu fui melhorando. A Sílvia, a Elisa, tem o André, o Vi, o Gui, então eles eram um pouco mais velhos do que eu, então eles saíam, às vezes eles ficavam brincando, conversando na rua. Eu acho que fui esquecendo, melhorando, deixando a vida levar a gente. E depois disso que virou costume, eu não saio até hoje. Comecei a participar mais da igreja, comecei a fazer amigos, depois fui pra ONG, depois pra faculdade.

A gente mudou bastante de escola. Nós mudamos de casa, de escola, várias vezes. Na Penha, nós moramos em três casas, depois nós fomos... Depois minha mãe não aguentou mais o aluguel, conversou com a minha avó, perguntou se a gente não podia construir a casa no quintal dela, minha avó autorizou. Nós fomos pra lá e estamos lá até hoje. Mas nós fomos pra lá em 2009, ou 2008. Nós mudamos pra cá, meus irmãos entraram numa ONG, numa organização, que é o Meninos do Morumbi, e eu não pude entrar, porque eu não tinha idade. Eu era mais velha, eu tinha acho que 16, ou 15, alguma coisa assim. E a moça falou assim: “Não, não pode, você é muito velha”. E só meus irmãos puderam entrar. Nossa, eu fiquei muito triste. Eu: “Ai, mãe, mas eu queria entrar, não sei o quê”. E minha tia: “Ah, vai para o Arrastão”. Eu falei: “Arrastão?”. Ela falou assim: “É. Lá tem um monte de coisa, tem um monte de cursos, você vai aprender, vai ter oportunidade de emprego”. Eu falei assim: “Ah, está bom”. Eu fui. Inclusive, a minha tia falou pra eu ir lá porque ela trabalha lá. Mas ela estava de licença, porque ela tinha quebrado a perna, daí eu tive que ir lá sozinha, ir lá tentar. Eu entrei no curso, fiz curso de Marketing Pessoal, depois eu fiz curso esse de Gastronomia. Eu fiz muitos cursos profissionalizantes, me ajudou bastante como se portar numa entrevista, empreendedorismo. Nunca tinha ido a teatro, conheci a Globo, conheci os restaurantes da Globo. Nossa, eu conheci muita coisa, conheci muitos lugares que eu nem imaginava ir, nem sabia que existia, mas nunca pensei em ir. Então o Arrastão foi uma porta muito grande, que acho que, sei lá, Deus. Foi muito bom eu ter conhecido, porque através do Arrastão eu conheci outras pessoas, comecei a entender que eu tinha que estudar. Porque, meu, eu sabia que tinha que estudar, mas eu não tinha... Sabe? “Ah, tem que estudar. Pra quê, eu não sei.” Então assim, todo mundo: “Ah, você está estudando? Você vai fazer qual faculdade?” “Nossa, faculdade?”. E eu fui me inteirando das coisas, fui conhecendo novas pessoas. Achei que foi uma das melhores coisas que aconteceu, foi ter participado do Arrastão.

Eu fiz um ano e meio de Administração, porque minha mãe queria e também porque eu não sabia... Eu sabia o que eu queria, mas não tinha condições. E se passaram três anos e eu tinha que fazer a faculdade, que eu estava desesperada. E minha mãe: “Taís, você tem que fazer a faculdade, faz Administração, já vai à faculdade. Eu pago”. Eu falei: “Não. Não quero fazer”. Eu pensei, falei: “Ah, já fiz Gastronomia, não quero ser chef”. Falei: “Ah, vou fazer Nutrição, que é mais ou menos relacionado”. Então eu falei: “Ah, tá bom”. Eu comecei o curso, odiei. Não gostei. Já queria parar, minha mãe: “Ah, você começa e não termina”. E agora eu estou gostando muito, eu estou fazendo o curso de Massoterapia também. Eu estou no segundo semestre.

A minha tia trabalha há muitos anos lá, no Arrastão, então ela já foi bibliotecária, professora, assim, várias funções. Então cada vez que eu vou lá, ela está fazendo uma coisa. Mas no que precisar, ela ajuda lá. Ela trabalha acho que há 13 ou 15. O curso que eu mais gostei foi o de Marketing Pessoal, porque eu sou tímida, mas eu era muito, muito tímida. Porque antes eu não conseguia conversar com as pessoas. Então ele me abriu, fez com que eu conseguisse expressar o que estava pensando. Não parece que eu sou tímida porque agora eu falo pra caramba, mas eu sou. E assim, a professora era uma aluna do Arrastão, a Daiane, e dentro do Arrastão ela fez uma prova pra entrar na Unilever e ela conseguiu entrar. E, nossa, eu fiquei super feliz quando ela me contou. Eu falei: “Nossa, mas você era aluna daqui?”. Ela: “Eu era”. E ela: “Não, estuda”. Ela me emprestou os livros dela: “Não, estuda isso, estuda aquilo. Olha, vai cair no vestibular”. E ela fazia vários exercícios de entrevista, como eu já tinha dito, então eu acho que isso foi muito importante pra mim, porque sempre que eu vou fazer uma entrevista, uma coisa assim, eu passo. Eu fiquei muito feliz, porque isso foi graças ao Arrastão e graças a Daí também. Eu acho que foi uma das professoras que mais me marcou. Assim, na Gastronomia, o que mais me marcou foi o Val, porque eu não esperava nada, na verdade. Eu entrei porque eu falei: “Ah, Gastronomia é legal, eu vou comer”. Só isso. Mas, assim, foi diferente, ele ensinou, ele explicou como surgiu a gastronomia, a diferença da gastronomia nos países e tal. Ensinou técnicas, como media, como chamava os instrumentos, como lia uma receita, como fazia uma receita. É uma coisa básica, mas, sei lá, eu nunca me interessei. E eu achei que foi super legal, porque ele foi no bê-á-bá.

Nessa época, eu só estudava. Eu estava fazendo o primeiro e o segundo ano. E também eu ganhava 60 reais por mês se eu não faltasse. E, nossa, ajudava bastante, eu até saía com o dinheiro. E depois de lá eles até indicava para as empresas, tal, mas eu comecei a trabalhar com o meu pai, depois trabalhei com a minha mãe. Depois trabalhei num restaurante também, que eu tive que sair. Não, me mandaram embora do restaurante, porque não estavam rodando os clientes e mandaram algumas pessoas embora, as que estavam em experiência. Como eu tava na experiência, me mandaram embora. Mas esse último emprego que eu saí foi porque eu estava com dificuldade em anatomia, e eu falei: “Mãe, e agora? Eu acho que eu vou reprovar”. Ela: “Não, então sai do emprego e fica estudando”. Eu saí, mas agora já estou procurando outro.  Eu era auxiliar administrativo. Eu postava as coisas na internet, tirava foto dos produtos, postava na internet, atendia telefone, fazia ficha fiscal. Depois disso eu fiquei desempregada de novo, porque eu falei: “Ah, mãe, eu quero sair, eu quero um trabalho que ninguém me conheça, eu quero conhecer coisa nova, não sei o quê”. Eu saí. Meu primo falou que tinha uma pessoa precisando de hostess num restaurante, ele levou minha foto, ela falou assim: “Ah, pode trazê-la”. Eu fui, passei, fiquei morrendo de medo, falei: “Nossa, o que é isso?”. Eu comecei a trabalhar como hostess, mas ficou muito cansativo, porque eu tinha começado a faculdade, eu acordava cinco horas, chegava a minha casa uma hora, muito tarde.  E eu procurei, procurei, falei: “E agora?”. Falei: “Ah, mãe, já sei, vou trabalhar de telemarketing”. Ela: “Você está louca, telemarketing, não sei o quê”. Eu falei: “Ah, vou trabalhar de telemarketing. “Mãe, pelo amor de Deus, eu preciso sair”. Ela falou: “Está bom, Taís, então você vai só pra faculdade. Você não vai sair, não vai fazer nada, só vai pra faculdade”. Eu falei: “Ah, está bom”. Eu saí. Faz um mês e pouco ou menos de um mês que eu saí.

O Arrastão, ele foi uma porta abençoada pra mim. Foi uma porta que abriu minha mente, meu horizonte. Mostrou-me que não é porque eu nasci num lugar pobre que eu tenho que ser pobre para o resto da vida. Eu não conheço o Criança Esperança, eu assisto na TV, sei que foi o que ajudou o curso de Gastronomia no Arrastão pela Unesco, tinha até um símbolo lá na parede da cozinha. E eu sei que ajuda muitas crianças, muitas ONGs, instituições. Eu acho isso. Eu sei que eles arrecadam dinheiro pra ajudar as pessoas que participam dessas instituições. Mas assim, afundo mesmo, eu não sei. Tanto de dinheiro que eles arrecadam, eu acho até que é pouco pelo tanto de instituições que eles ajudam. A cozinha onde eu fazia meu curso era excelente, tinha tudo do bom e do melhor, não faltava nada. E eles realmente ajudaram, não só a mim, tantas outras pessoas. Meus amigos, eu vejo no Face, alguns não estão trabalhando especificamente na área de gastronomia, mas estão trabalhando e eu acho que isso foi muito importante, porque são pessoas que não tinham estrutura pra estarem onde estão. Assim, acho que se não fosse o Criança Esperança, se não fosse o Arrastão, acho que a gente, sei lá, ia ficar na mesma, não ia sair do lugar. Então eu acho muito importante essa coisa deles ajudarem, de ajudarem as instituições, porque realmente existem pessoas que não têm condições, não sabem porque tem que estudar, porque nós temos que crescer, porque nós temos que ajudar o próximo pra que a nossa sociedade cresça, pra que todo mundo fique bem.

 

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