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História

Velho é o meu passado

História de: Durval Antônio da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Durval, mais conhecido como Mestre Durval do Côco, é pernambucano, nascido em Garanhuns, município rural. Cresceu na roça com a família, e retrata um cenário de pobreza extrema na infância. Passou muita fome, e com catorze anos decidiu fugir de casa. Foi trabalhar em uma fazenda em troca de roupa, moradia e alimentação. Com dezesseis anos envolveu-se com uma menina, que acabou engravidando. Com medo do pai de sua namorada, fugiu para Recife. É nessa cidade que conheceu sua primeira esposa, com quem tem três filhos. Porém, ela acaba descobrindo que Durval tinha uma outra namorada, e ele muda-se para São Paulo com essa amante, que torna-se sua segunda esposa, e tem mais uma filha. Depois de anos trabalhando em diversas firmas como ajudante geral, torna-se Mestre de Coco, já em idade adulta. Porém, como afirma o Mestre, ele não se considera velho para isso, velho é seu passado. 

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História completa

P/1 – Mestre, primeiro eu queria dizer muito obrigada do senhor ter vindo aqui, muito legal para gente poder ouvir a sua história, é um prazer enorme poder ter esse registro da história que o senhor vai contar para gente. Aí queria que o senhor dissesse o seu nome, onde o senhor nasceu e a data do seu nascimento.

 

R – Bem, eu sou pernambucano, nasci na cidade de Garanhuns, Pernambuco, data de nascimento 17 de março de 1937 e minha vida na minha infância foi um pouquinho precária, mas graças a Deus meus pais muito humildes, muito em uma situação financeira difícil, não só de meus familiares, mas de muita gente na época. E chegou ao ponto de eu crescer, na roça não, porque na roça eu não conheço nada, saí da roça, fui para capital ainda molecão e lá terminei de me criar, casei com vinte e quatro anos de idade, vivi um bom tempo, depois a esposa faleceu, passou um tempo casei novamente, agora vai fazer um ano, dia 27 desse mês que fiquei viúvo pela segunda vez. E minha vida sempre foi um pouquinho difícil, porque não tive oportunidade, por falta de vontade, né, de estudar, e é isso o que eu quero dizer para vocês. Tem algumas perguntas ainda independentes, tô aqui disponível para responder.

 

P/1 – Queria voltar um pouquinho ainda para infância, falar um pouquinho ainda de quando o senhor era novinho.

 

R – Sim.

 

P/2 – Mestre, fala para gente o nome completo do senhor.

 

R – Durval Antônio da Silva.

 

P/2 – E o nome dos seus pais, o senhor lembra?

 

R – Meus pais, eu sei que era Antônio José da Silva e minha mãe Maria Marcolina Leite, mas meu pai no tempo, naquele tempo que não era casado no civil, então o nome não ia pro registro do filho porque não era casado no civil, só era na igreja, então existe isso.

 

P/1 – O senhor lembra dos seus pais?

 

R – Lembro, eu quando fui, quando eu fugi de casa, vou começar com você perguntando, quando eu fugi de casa, com onze anos de idade, porque a situação financeira era muito difícil, eu tive vontade de usar uma calça comprida como hoje uso. E a calça era uma calça feito essas bermudas de hoje, que o menino usava, não podia chamar de moleque, podia ser branco, preto, tinha que ser menino mesmo. E o menino tinha que usar aquela calça curta, que hoje é a bermuda. Eu tive vontade de usar uma calça comprida com onze anos de idade, meu pai não tinha condições ou não queria dar uma calça comprida, eu queria cortar o meu cabelo ao meu estilo, cortar o cabelo mais ou menos altinho aqui e aqui baixinho como é o corte de cabelo do homem que tem compreensão e o resultado que era cortado tudo na tesoura, meu pai era o próprio cabeleireiro, né, como chamava, era o barbeiro, era o barbeiro mesmo, cortava meu cabelo na tesoura, ficavam altos e baixos e tinha que ser a cabeça pelada e eu não gostava daquilo, eu não tinha condições de dizer assim: “Pai, eu quero que corte o meu cabelo do jeito de cá”. Eu ia sofrer consequências. Primeiro ia apanhar porque pedi uma coisa que ele não queria que fizesse, cortar o cabelo do jeito de uma pessoa adulta, aí eu o que fiz? Apareceu um rapaz falando comigo que tinha uma fazenda de um conhecido dele que tava procurando um menino que gostasse de trabalhar e eu, se eu quisesse trabalhar, ele ia me apresentar essa pessoa e pelo jeito que ele me conhecia, eu sempre um menino ativo, alegre… Aí eu não pensei duas vezes para dizer: “Eu quero, mas como que nós vamos lá? Que meu pai não pode saber”, eu falei para ele, ele disse: “Tudo bem, mas seu pai não pode saber disso?” “Não”, ele disse: “Então vamos marcar um dia e você vai comigo até essa casa, eu acredito que ele vai gostar de você”, que faço eu? Marquei o dia, que eu não sei se foi, não to lembrando se foi com um dia ou dois depois do que ele conversou comigo, o rapaz, e ali ele foi, naquele dia que tava marcado. Quando eu cheguei em casa eu tinha tanta roupa, para não dizer o contrário, que eu tirei aquela roupa que eu estava, fui lá, peguei uma vasilha, botei um pouco d’água, lavei sem sabão, desculpem, porque era pobreza mesmo, sem sabão, só foi com água, tirei metade da poeira ou da sujeira que tinha e espremi e pus no varal para secar, enquanto o rapaz não chegava, porque quando ele chegasse, tivesse molhada eu ia vestir e vesti lá uma roupa praticamente que não valia nada, já um mulambo mesmo que os outros usavam. Quando foi com uma certa hora ele chegou, meu pai tinha saído para ir trabalhar, procurar na roça o que ele ia fazer, minha mãe também, apanhar algodão ou apanhar fava, não deles, mas sim do patrão deles que eles chamavam de cumpadi, todo mundo era cumpadi na época, para trazer aquela migalha para eu comer e os outros irmãos. E o resultado: eu peguei aquela roupa quando o rapaz chegou, vesti, ainda tava um pouco úmida, montei na garupa do cavalo dele, se arrancamos para esse lugar, pertinho, segundo ele tinha dezoito quilômetros dali da onde nós estávamos para esse lugar que a gente foi. Chegou lá ele me apresentou e eu nem sabia que era um cunhado dele que precisava daquele menino, era uma fazenda de gado. Aí o homem começou conversando comigo e perguntou se eu gostava de trabalhar, eu disse: “Ô, é o meu sonho trabalhar, ué, eu gosto de trabalhar”, aí ele disse: “Você sabe cortar capim pros animais?”, eu disse: “Bem, eu nunca cortei, mas se eu for cortar eu acredito que eu aprenda, eu sei fazer” “Dar banho num cavalo?”, eu disse: “Também” “Tirar leite de uma vaca?”, eu disse: “Devagar eu chego lá” e para encurtar a história ele disse: “Quer dizer que você quer trabalhar mesmo e faz tudo?” “Faço” “E aqui você sabe qual é o salário que vai receber?”, eu disse: “Não senhor” “Eu posso falar?” “Tenho o maior prazer de ouvir” “Aqui o seu salário vai ser a roupa e a comida e o calçado, dinheiro não tem”, eu olhei para ele, eu disse: “Ótimo, porque tudo o que o senhor falou que eu vou ter em casa não tenho, eu não tenho uma roupa, eu visto roupa remendada, eu não tenho um calçado, ando descalço e a comida falta diariamente, é só comendo migalha muitas e muitas vezes”. No lugar de um almoço ou de uma janta comer um punhadinho de farinha de mandioca com uma pedrinha de sal, não é nem, naquele tempo sal de pedra, que era o que mais a gente usava, uma pedrinha de sal com farinha, muitas vezes não tinha um café para comer e outras vezes tinha aquele feijãozinho cheio d’água, sem tempero, sem nada, carne, meu Deus, só Deus sabe quando é que aparecia, de oito em oito dias, nem toda semana tinha. Eu andava seis, oito, dez quilômetros para ir até a feira com aquela migalha que ele ganhava na diária trabalhando na roça lá pros patrão dele, para trazer aquele coisinho de carne pendurado no dedo para minha mãe fazer lá ao estilo dela, né, e a minha vida foi essa, situação financeira difícil.

 

P/1 – Aonde foi que aconteceu?

 

P/1 – Mestre, essa história que o senhor contou, onde que aconteceu, onde era o lugar?

 

R – O lugar que aconteceu, bem próximo à cidade de Garanhuns, um lugar por nome Neves.

 

P/1 – Fica aonde?

 

R – Garanhuns, Pernambuco. Pernambuco, onde hoje eu tenho até medo de dizer por causa desse elemento que está aparecendo por lá comendo carne de gente, carne humana, né? Mas foi lá na época, num pequeno povoado, vilarejo como o povo chama, que hoje ta uma cidade grande, chamado Neves, que fica entre Garanhuns e Jupi, né, isso tudo aconteceu nesse lugarzinho que era tudo sítio.

 

P/1 – E o senhor morava com a sua mãe, com seu pai?

 

R – Com a minha mãe e com o meu pai.

 

P/1 – O senhor tinha irmãos?

 

R – Tinha sim, eu tinha quatro, cinco irmãos, quatro homens e uma mulher.

 

P/1 – E morava todo mundo junto?

 

R – Todo mundo junto.

 

P/1 – E como que era a casa de vocês?

 

R – Toda a situação nesse estilo que eu tô contando, a casa era uma casa de taipa, quer dizer, uma casa tapada de barro, né, coberta de palha, palha de côco. O chão, o assoalho era terra, barro, nada de cimento, nada de azulejo, nada disso. E como eu disse, banheiro era ir até o mato que se aproximava que o gabinete sanitário era para lá. 

 

P/1 – Era grande ou era pequenininha?

 

R – A casa?

 

P/1 – A casa.

 

R – A casa pequena, a casa só tinha a sala, dois cômodos, eram dois cômodos, três, era a sala, cozinha e um quarto. E a dormida era de fazer dó, a cama do meu pai graças a Deus era uma cama boa, a cama do meu pai era um giral de vara e o colchão era uma esteira e cobrindo aquele colchão era uma roupa velha da minha mãe. E os filhos, que éramos eu e os outros, dormindo num palhas dobradas no chão, nem uma rede tinha, quando nascia um menino, a rede minha mãe fazia de um saco de farinha de trigo, ela amarrava de um lado e do outro, fazia uma rede para aquela criança dormir ali, mas eu mesmo e os meus irmão mais velhos do que eu nunca tivemos o direito de dormir num berço, não é porque meu pai era ruim, não é que a minha mãe era ruim, jamais, nunca joguei pedra neles e nem jogo, era a situação difícil. Não era só o meu pai, mas tô contando a vida que eu tive em casa com os meus pais. Uma outra coisa, antes disso, que uma moça perguntou no princípio, a minha, o começo da minha vida, eu mais ou menos com oito anos, eu tinha uma irmã chamada Edite e o Nerso, que era encostado a mim, a Edite depois dele e um mais novinho, João. Minha mãe foi trabalhar, aonde eu não sei, foi trabalhar como sempre diziam que iam trabalhar, eles começaram em casa uma certa hora, não sei a hora, a chorar, fome, que faço eu? Eu via falar que tinha uma mandioca, que chama mandioca, lá a gente chamava de macaxeira, né, no Rio é aipim, cada lugar chama do jeito que quer. Que ela tinha o olho branco, a macaxeira tinha o olho branco e eu vi aqueles meninos chorando, com fome, eu não tinha o que fazer, e eu era o mais velho, né, eu entrei assim dentro da roça, o rancho que meu pai morava, que nós morávamos, era dentro daquela roça que era do patrão dele, não era nem dele. Eu entrei assim, saí olhando, olhando, vê se eu encontrava um daqueles pés de mandioca que tinha o olho branco porque é macaxeira, para arrancar pros meninos comerem. Eu saí assim e lá no meio do mandiocal eu achei um pé que mais ou menos parecido com o que eu ouvia, ai puxei, arranquei um pé só, cheguei em casa, descasquei e lavei, pus lá umas madeirinha debaixo do fogão, né, naquele tempo era… o fogão era uma pedra aqui, outra ali e a panela no meio e colocava a madeira embaixo para pegar fogo, cozinhar. Coloquei para cozinhar, coloquei o sal e depois que eu fui provar já achando que tava pronto, tava amargando e muito, amargando e muito, eu o que faço? Disse: “Meninos, nós não vamos comer a macaxeira, não, tá amargando e todo mundo vai morrer bêbado, eu não vou dar isso para vocês”, o meu irmão que era encostado a mim: “Não, tá boa, a macaxeira tá boa”, a Edite, que era encostada a ele, começou a chorar: “Não, não tá amargando, não, tá boa” e o outro menor nem chorava, fazia, dizia que queria. E o resultado, eu vi aquele chororô, eu disse: “Não, vou jogar fora”, mas tive dó e disse: “Vamos comer, nós vamos comer que tá muito boa”, mas não tava, tava amargando mesmo, eu disse: “Será o que Deus quiser, mas vocês vão comer, infelizmente se escapar é sorte, porque eu não vou comer, mas para não ver vocês chorando, eu com a comida na mão, vocês chorando para comer e eu jogar fora, mas eu não vou comer”. Resultado: comeram, comeram ali aquela mandioca como que fosse comer uma comida saborosa e logo após que eles terminaram de comer eu peguei uma vasilha, não sei se sabe o que, é um pote d’água, um pote de barro e saí, botei nas costas e saí com eles todos, fui buscar água num poço, a distância de uns trezentos metros da onde a gente morava. Quando chego lá, o meu irmão que era encostado a mim já ia com olho de cabra morta de quem tá bêbado e a irmã chorando, chorando e babando e o outro ficou, caiu mesmo, ficou arrastando os pés, que faço eu? Peguei a menina, trouxe ela pegada na mão e o outro eu trouxe no braço, o que já andava, mas trouxe no braço e o pote eu fui buscar depois. E o que era encostado a mim ainda chegou em casa, eu corri na casa de uma tia minha e pedi para ver se sabia onde é que tava a minha mãe, aí foram, correram até onde ela tava, talvez não fosse longe, né, e eu peguei o pote d’água, levei para casa. Todos os três morrem ou não morrem, mas o que mora em Jaguaré, porque esse mora em Jaguaré hoje, tava pior do que todos, tava em coma, que era o mais novo de todos, e a Edite babando e chorando e o outro tava, só Deus sabe como é que ele tava. Graças a Deus não morreu ninguém, encontraram a minha mãe e ela veio com uma vasilha de leite tirado na hora,  leite da vaca e deu para eles, nenhum morreu, mas chegou ao ponto crítico, não morreram pelo milagre, se não tivessem encontrado a minha mãe, se não fossem procurar, eu fosse procurar, que eu não sabia onde ela tava, não dava tempo. Mas na casa da minha tia uma pessoa foi procurar e sabia onde ela tava, escaparam todos os três, o Nerso, a Edite e o João. O Nerso hoje é falecido, a Edite também e o João ainda mora em Jaguaré, agora ele tá até em Recife, que eu acho que ele foi ontem ou anteontem para Recife.

 

P/1 – E a sua mãe, mestre, o senhor lembra dela?

 

R – Minha mãe era uma excelente mãe, como mãe eu não tenho o que falar. Era brava, o estilo dela, mas brava assim: se ela falasse com a gente e a gente não obedecesse logo na primeira palavra que ela desse, já sabia que não tinha outra coisa a aprender senão ir para a madeira, já tinha lá uma cinta pendurada, quando não era isso ia cortar um galho de mato daquele que não quebrava fácil para dar a lapada. Mas era o estilo, e fora disso era brava porque chamava muito nome que, nome assim, “diabo”, mas com o filho ela não chamava, “satanás”, essas coisas, chamava não. Agora com o meu pai ela chamava quando eles estavam, meu pai ia para uma festa lá qualquer, quando ele voltava, dois passos para frente, três para trás, do goró que ele tomava, né, aí ela dizia assim pro meus dois irmãos mais velhos: “Teu pai já vem ali com seiscentos mil e o diabo do corpo, um diabo só não deve ser bom”, era o jeito dela, mas dizer assim que eles brigavam, jogar tapa, empurrão, isso aí graças a Deus nunca vi, nem ela rogar uma praga a ele também não, ou ele dar um empurrão nela. Viveu, minha mãe era uma mulher muito batalhadora, desse jeito que tô dizendo: trabalhando, ajudando na roça assim, apanhando algodão, mamona, qualquer coisa ia fazer na casa de farinha, ia trabalhar com, para trazer aquela migalhinha para os filhos, ela junto com o meu pai, então o que eles podiam fazer, faziam. Agora, não deram uma educação de escola, que eles também não sabiam nem o que era escola, eu acho que eles não sabiam. Era isso o que eu queria dizer sobre a minha mãe. Independente disso, após uns certos anos, o meu pai veio para São Paulo, ainda veio ainda em carroceria de caminhão, que disseram que aqui em São Paulo na época existia muito serviço, nos anos 1950, e depois que tava aqui em São Paulo, com cinco meses ela recebeu a primeira carta que ele mandou, e essa carta foi quinhentos mil réis, mil réis? É, acho que era mil réis, não era cruzeiro ainda, era mil réis, aqueles quinhentos mil réis ela deve ter feito uma feirinha para ela, que eu já tinha caído fora, né, e fez lá o que ela podia e foi a primeira e a última carta que ele mandou, não apareceu mais ninguém. Quando foi com um certo tempo, alguns anos, apareceu uma pessoa que chegou a vista dela e ela se interessou, né, meu pai não aparecia mais mesmo, como até hoje não apareceu, 1950 até hoje, vê quantos anos faz, sessenta e dois anos, né, e ela, uma mulher jovem ainda, não ia ficar esperando por ele esse tempo todo sem ele mandar notícia nenhuma. A turma já tudo, os irmãos, “cumpadi”, tudo caiu contra ela, tudo, porque aquilo não era, mulher casada, era uma mulher bem casada, o marido não merecia, mas não sabiam o que ela tava passando e ele onde estava ninguém sabia. A essas alturas eu não tinha ainda o que fazer, solteiro, passei, procurei ver, sai de Recife para Garanhuns para descobrir onde é que estava a minha mãe e ninguém sabia, desapareceu. Aí eu voltei para Recife, passei alguns dias por lá procurando, trabalhei na casa de farinha, que eu nunca tinha trabalhado, para arrumar dinheiro para pegar o ônibus para voltar para Recife, a faixa de, não sei, talvez não seja trezentos quilômetros de Garanhuns a Recife. E o resultado, quando foi com um certo tempo me casei, ai voltei a Garanhuns para conhecer a família da minha esposa que eu não conhecia e já tava correndo a notícia que ela tinha arrumado um homem casado, que era eu, ai que faço eu? Peguei, acertando casamento, comprei a passagem dela e mandei: “Vá visitar sua família, daqui a quinze dias eu vou lhe buscar para mostrar para eles lá que você não está amigada com homem casado”. Porque essa notícia que estava correndo lá era muito ridícula na época. Ela foi para Bom Conselho, é uma cidade após Garanhuns e com oito dias, que eu tinha dito que ia com quinze dias, com oito dias para fazer surpresa eu fui a Bom Conselho, que eu não conhecia essa cidade ainda, fui para ver se a família realmente ia me conhecer a cara do homem casado que eles tinham lá como algumas pessoa falaram. Antes de eu chegar em Bom Conselho desci na cidadezinha onde eu nasci, perto de Garanhuns, no Neves, e lá, entregar a carta na mão de uma madrinha minha que morava na beira da estrada, ela disse: “Sabe quem está na terra?”, eu disse: “Não”. “Tua mãe”. Eu fiquei parado e o ônibus estava me esperando, aí o ônibus buzinou, ela disse: “Ela já volta hoje para onde ela ta morando”. A cidade, bem distante, eu disse: “Diga a ela pelo amor de Deus não volte hoje não que amanhã de manhã eu to aqui”. Mas ela não saiu, resultado: peguei o ônibus novamente, fui embora, ainda tinha sessenta? É, ainda tinham sessenta quilômetros pela frente para eu andar de ônibus, aí cheguei na cidade onde ela estava e chegando lá, com aquela notícia que eu recebi, a alegria que eu tive de saber que a minha mãe tinha aparecido, não comi, sai de casa três horas da manhã, peguei o primeiro ônibus, quando eu soube dessa notícia eram mais ou menos onze horas do dia, dez e meia, onze horas. Sem café, cheguei lá aonde eu fui, não tinha vontade de comer, eu tomei um copo de leite, uma bolachinha assim, no dia seguinte eu comi três bolachas e um copo de leite com café. Vamos voltar para Recife, nós temos que descer lá no Neves, eu ia passar lá o resto dos oito dias, mas não passei, peguei o ônibus, a mulher já tava com um barrigão. Resultado: quando chegou lá que eu desci do ônibus nessa dita casa, que era a casa de uma madrinha minha, minha mãe já estava lá na janela esperando, ela veio, quando eu desci do ônibus, que a mulher desceu também, ela veio de lá me receber, quem foi que disse que eu falei? Não falei, a lágrima descia, mas aqui tava tudo tampado e ela também, abraçado com ela e tal, a minha esposa também abraçou com ela e o ônibus foi embora, né, porque, ali eu fiquei, dormi naquele dia, dormi na casa da minha madrinha novamente, no dia seguinte fui para Recife mostrar pros meus irmão que era tudo “rrrrrr”, todos ficaram bravos com o que ela tinha feito e eu não fiquei, eu dizia: “Não, não, minha mãe não errou nada, minha mãe tava certa, ela sabe o que foi que fez”. Ai eu levei ela para Recife, quando chegou em Recife eu fiquei na minha casa, já era uma casinha mais ou menos, era de aluguel, mas não era mais aquela casa de quando eu era menino, graças a Deus. Aí fui, mandei recado para um irmão meu que morava noutra rua, que era o mais bravo, aparentemente, né, aí: “Diga a ele para vir aqui que eu quero falar com ele”. Quando ele recebeu o recado, disse: “Durval, Durval foi para Garanhuns anteontem, já hoje tá aqui, o que que está acontecendo?” “Não sei”, não falei nada, né, disse: “Alguma coisa aconteceu, rapidinho vou na casa dele, Durval é cabeça meia quente”, ele falou. Quando ele chegou disse: “Durval, o que está acontecendo? Você ia passar oito dias por lá, chegou, dois dias você chegou, o que está acontecendo, você atirou em alguém?” “Não, jamais, Deus me livre”. Aí veio pegar minha camisa, olhar se eu tava, né, naquele tempo eu gostava de um queimante, né, aí disse: “Mas, homem, o que foi que aconteceu?” “Nada, é que eu precisei de voltar que eu tinha um negócio para resolver e não podia demorar, eu lembrei depois que tava lá”. Minha mãe estava no quarto e esse irmão meu era o que, quando descobriu que minha mãe estava com namorado, dizem, eu não sei, que botou até tocaia no namorado dela, disse que ficou lá dias, horas, noites, porque se ele passasse eles iam medir forças, né, será o que Deus quiser, mas graças a Deus não aconteceu e eu fui diferente. Resultado: quando eu disse: “Ô, Dona Severina”, minha mãe não tem nada com Severina, mas para enganar ele, estava a cortina dividindo a sala do meio com um quarto, eu disse: “Dona Severina, por favor, chegue aqui para ver se a senhora conhece esse rapaz”, quando minha mãe puxou a cortina, ela sabia, né, ela sabia em que se tratava, mas ele não, quando minha mãe puxou a cortina, que chegou, cadê que o homem, cadê a valentia dele? Ficou do mesmo jeito que eu, a lágrima descendo e palavra que é bom, não saía. Ficou abraçado com ela e aquela coisa, eu abracei também, chorei novamente, aí ficou aquela alegria, aí fui reunindo mais outros irmãos, no dia seguinte chamando outros irmãos que estavam em outros bairros mais afastados e fizemos a união, graças a Deus, a união de todos os irmãos, meu pai não, porque hoje eu não sei do meu pai, se é vivo, se é morto, acho que não, porque ela já é falecida, que ela é mais nova do que ele, eu acredito que ele também. Quando veio para São Paulo deve ter ido para esses lugares de quebrar milho. Não sei se já ouviram falar, quebra de milho, que tinha aí para o lado do Paraná, que aparecia o povo, chamava para quebrar milho, chegava lá não era quebra milho, era matar gente, entrar para ganhar um dinheiro bom, o cabra não sabia. “Quebra milho”, mas dava um rifle na mão da pessoa. Eu fui convidado para isso quando eu cheguei há quase quarenta anos atrás, mas eu não fui não porque eu tava certo para ir, uma pessoa me chamou em particular e falou: “Não, não é milho”, não é minha praia essa não, eu gosto de trabalhar, mas esse tipo de trabalho é outro, eu disse que sabia quebrar milho, mas primeiro é quebrar, pegar a espiga de milho, quebrar do pé, mas não era, era diferente.

 

P/1 – Seu Durval, vamos voltar um pouco lá atrás, a gente foi lá para frente, como era na tua infância, vocês brincavam, como eram os jogos que você fazia com os seus irmãos?

 

P/2 – O senhor brincava, mestre, quando era criança, quando o senhor morava lá no vilarejo, tinha brinquedo?

 

R – Brincar, a brincadeira que nós brincávamos, eu com os meus irmãos, era brincadeira de, pião, soltar pião, pipa, se fosse pegar com pipa, que a gente chamava de papagaio, ia para a madeira, apoiava, um estilingue, lá a gente chamava de peteca, para atirar no passarinho e se jogasse em um caju que tava lá no pé de cajueiro do vizinho, que meu pai não tinha, já sabia que ia apanhar, porque não tinha pé de caju para estar derrubando caju dos outros, brincadeira. À noite juntavam-se aquelas mulheres mesmo com as crianças, criança já grande, no claro da lua, energia, que é bom, jamais, no claro da lua, no terreiro grande do varrido, tal, aí iam cantar, a mulherada cantar aquilo que elas sabiam e dançar, pegavam na mão do outro, dançar, espécie de uma ciranda hoje, mas era bem mais inferior do que a ciranda de hoje, né? Quando não era isso pegava um balaio para ir pescar no poço, pegar aqueles cascudos, aqueles… fora disso não tinha brincadeira. E quando aconteceu, eu achei que foi brincadeira, mas não foi brincadeira, não. Tem lá um vizinho que me chamou para cortar um capim pro cavalo do pai dele, eu montei no cavalo, ele dizendo que o cavalo era manso, não era, eu montei e o cavalo deu um pulo ou dois, eu não me lembro bem, eu caí, quebrei esse braço, desconjuntou essa junta aqui, soltou e ainda apanhei, porque fui fazer uma coisa que não devia ter feito, montar no cavalo dos outros. E além do mais o rapaz que me chamou, o pai dele não se dava com o meu tio e o meu tio era que estava comigo nesse dia e apanhei dele, as brincadeiras eram essas, não tive brincadeira de outras coisas além disso, nada mais.

 

P/1 – E quando o senhor era pequeno o senhor pensava, assim, o que que o senhor ia fazer quando ficasse grande, o senhor pensava como é que ia ser a vida do senhor?

 

R – Sim, eu sempre pensei, mas nunca pensei, nunca sonhei muito alto, eu vim sonhar um pouquinho mais alto de pois de já madurão, já quase perto de secar, né, mas eu pensava assim: “Eu quando eu ficar homem”, vê só que ilusão: “Eu vou me casar, muito, quero ter muitos filhos”, que ilusão triste, né: “Muitos filhos e eu ter uma casa bonita”. Até hoje nunca tive uma casa bonita, e comer daquele trabalho que eu conseguisse, porque eu não conhecia cidades, evolução, não tinha conhecimento, era só aquilo mesmo que eu via os outros fazerem, aí depois que eu cheguei ao ponto de sair de casa que eu… Como eu falei, até essa fazenda que comecei trabalhando pelo, o salário era a roupa, a comida e o calçado, comecei a vida por ali e dali eu não tive mais, como é que diz? Outra saída a não ser fazer aquilo. E quando eu saí dali, né, que fugi, fugi não, fui para a capital, que eu arrumei uma namorada, o pai dela não queria, comecei a vida trabalhando, trabalhei em açougue, é, trabalhei em açougue, mercearia, que era do mesmo dono, entregando as compras lá mesmo da própria mercearia lá na casa do cliente que comprava e foi isso que eu fiz.

 

P/1 – Nessa fazenda o senhor morou quanto tempo, nessa que o senhor fugiu com onze anos?

 

R – Olha, para dizer o tempo certo eu não posso dizer que eu tenho certeza, mas trabalhei na faixa de uns três anos.

 

P/1 – E aí com catorze o senhor foi embora?

 

R – Com catorze anos, catorze, quinze anos, que é a faixa, eu não estava na coisa certa. Eu arrumei uma namorada e acontece que essa namorada, nós avançamos o sinal, né, e o pai dela, eu fui falar com ele para conversar com ela, ele tinha conhecimento de que eu gostava da filha dele e ele mandou que não tinha uma filha para casar com um pé de poeira como eu. E eu tão burro, fui olhar para ver se os meus pés estavam sujos: “Eu não tenho uma filha para casar com um pé de poeira que nem você” e eu fui olhar pros meus pés, ver se estavam sujos, ele disse: “Desapareça da minha frente porque você está diminuindo na minha frente” e olhou assim para um rifle que tinha no pé da parede, no jardim do terraço da casa do pai dessa menina, eu vi ele olhar assim e a minha natureza pediu para eu ir embora. Dali eu saí porque ele olhou para aquele rifle, não era nada fácil, arma de fogo pesada, me chamou de pé de grude, né, pé de poeira primeiro, de grude, mas depois não era aquilo que ele falou, ai eu fui embora, sai devagarzinho, tal, pisando em falso, as costas chegam a fazer assim com medo dele atirar pelas minhas costas. Cheguei lá onde eu trabalhava, nessa fazenda, comecei pensando e uma tristeza porque não podia mais conversar com aquela moça, né, o pai dela não quis de jeito nenhum. Quando foi com três dias ela me procurou, ai procurou e disse: “Durval”, “Ô, bichinha”, ainda sai falar um pouco do estilo: “Ô, bichinha” “Tu não quer mais namorar comigo não, Donato?”, eu disse: “Olha, não é que eu não quero, querer eu até quero, mas você não viu o que foi que seu pai falou, me chamou de pé de grude, pé sujo, mandou eu sumir da frente dele, olhou para aquela arma de fogo lá, mandou eu sumir que eu tava diminuindo na vista dele”, ela disse: “Não, meu pai não lhe chamou de pé de grude não”, eu disse: “Não chamou?” “Não” “Ele me chamou de pé de poeira”, ela disse: “Pé de poeira porque você é pobre, quer dizer que você é um pobre, é um pé de poeira, não é que ele lhe chamou de pé de grude”, eu disse: “Meu Deus, mas pé de grude, poeira para mim é sujo, é grude, o resultado é que não quer de jeito nenhum, mandou eu desaparecer da frente dele, como é que eu posso namorar com você desse jeito”, ela disse: “Mas tu não quer mais não, Donato?”, disse: “Querer eu quero, mas não pode, né”, ela disse: “Mas tem um jeito que ele aceita”, eu disse: “Como, como que é esse jeito?”, ela disse: “Nós arrumarmos um filho”. Não fui eu que convidei, não fui eu que convidei, eu suspirei fundo, dois moleques, porque ela era da minha idade também, ia fazer dezesseis anos, ela também, aí foi quando começou a vida dentro da roça.

 

P/1 – Essa foi a sua primeira namorada, mestre?

 

R – Primeira namorada.

 

P/1 – E o senhor lembra o que dela?

 

R – Até hoje ainda recordo… Resultado: fiquei trabalhando, tal, quando começou, aí não teve mais jeito mesmo, né, todo dia a gente se encontrava, até mais de uma vez e o resultado que a menina engravidou e eu mesmo não sabia, eu não sei se ela sabia também, dois mané. A mãe dela desconfiou, desconfiou e perguntou a ela, algumas coisas que viu dela assim, perguntou a ela, ela disse: “Não”, “Quando faz tempo que você assim, assim”, disse: “Mãe, eu não me lembro mais não”, não sei o que: “Mas quando?”, “Não”, “E aquele namorado que você tinha, você não tem namorado”, “Tenho não”, “Aquele que veio aqui, que seu pai botou para correr”, eu que fui corrido, né? Aí: “Você não tem, mas eu quero saber de você porque tanto tempo que você não vê isso ai” “É, eu me encontro com ele lá no pé de cajueiro, de baixo do pé de pitomba, de baixo do pé de jaca, lá dentro da roça” “Quanto tempo faz?” “Uns quatro, cinco meses”, disse: “Eu quero falar com ele, você diz a ele que eu quero falar com ele”. A mulher do homem, quando foi logo no dia seguinte ela me procurou, quando ela me falou, meu Deus do céu, digo: “Hora triste, meu Deus”, me lembrei de tudo que o pai dela tinha falado, mas quem queria falar comigo já não era ele, era a mãe dela, aí eu fui, quando chegou lá ela disse: “Durval, você tem se encontrado com a Marlene?”. Ô meu Deus, lembrei do nome da mulher! Disse: “Tenho” “Como vocês se encontraram?” “Nós se encontrou e…” “Mas, peraí, se encontrou como?”, eu disse: “Ela me procurou, ela foi me procurar lá, eu fui dar banho numas vaca lá do outro lado, levar pro outro cercado e ela me encontrou e me procurou, perguntou se eu não queria namorar com ela mais, eu disse que querer eu queria, mas o pai dela não queria, que ele me chamou de pé de grude: ‘Não, não chamou de pé de grude, chamou de pé de poeira’, eu disse: ‘Que quer dizer pé de poeira?’, ela disse: ‘Não, pé de poeira é pobre porque você é pobre’, eu disse: ‘Tudo bem, tudo bem’”. E a mãe dela disse: “E daí, ela foi lhe procurar para quê?”. “Ela disse que se eu quisesse namorar com ela o problema tava nisso aí, porque só tinha um jeito que o pai dela ia aceitar, ai eu perguntei como, ela: ‘um filho’”. Ela disse: “E daí”, eu disse: “Aí a gente ficou por de trás das mandioca esse tempo todo, muitas vezes, esse tempo todo tem vez, duas vezes, uma vez, diariamente”, aí ela disse lá a expressão dela, vocês querem eu fale o jeito que ela falou?

 

TROCA DE FITA

 

P/1 – Qual foi a expressão que ela disse?

 

R – Ela disse: “Quantas vezes vocês se encontram?” “Olha, não sei calcular não, duas vezes por dia, uma vez, faz um bocado de tempo, não sei quantos meses faz não”. A expressão que ela falou: “Você sabe que a Marlene tá prenha?”, eu disse: “Não sei não”, disse: “Tá, e é seu”, eu disse: “Mas como?”, ela disse: “Eu não sei como não, mas sabe que João vai saber?”, eu disse: “É, se é que tá, eu não posso dar jeito não, ele vai saber, tudo bem”, disse: “Eu vou falar para ele, você vai encontrar com ele, ele vai lhe mandar lhe chamar”, eu disse: “Tudo bem”, ela não me ofendeu em nada, em nada, em nada, ai eu fui embora, ela me deu logo um copo de leite, né, que ela viu que eu tava completamente desnutrido quando ela falou que o João ia saber, que era o marido dela, o pai da moça. Aí foi quando tomei aquele copo de leite para o sangue voltar novamente e fui embora. No outro dia chega um funcionário me chamando, que o João tava me chamando, eu fui, mas chegou lá foi do mesmo jeito, perguntou as mesmas, mandou eu entrar com todo carinho, não foi nada ignorante, não, só foi ignorante no jeito de falar o jeito que a filha tava, que ele falou do jeito que a esposa dele: “Você sabe que ela tá prenha?”, eu disse: “Não sei não”, ele disse: “Fui eu que andei agarrado com ela por lá por dentro das mandioca? Por debaixo dos pés de caju, de pitomba, foi eu?”, eu disse: “Eu não sei”, ele disse: “Foi eu ou foi você?”, eu disse: “Bem, eu sei que eu andei”, eu não tinha mais saída, ele disse: “É, sabe que vai casar?”, eu disse: “Não sei não, senhor” “Vai casar, tem quinze dias para casar”, eu disse: “Como é que eu vou casar? Eu não tenho um pau para dar num gato, essa roupa que eu to com ela peguei emprestada do meu irmão, que a minha não prestava para eu vir, para eu falar com o senhor, como é que eu...?”, ele disse: “Não to procurando saber o que o senhor tem, você vai casar dentro de quinze dias, eu vou, a casa lá de Lagoa, Lagoa Grande, na casa da fazenda lá, você vai morar, botar um gado para lá, a casa dos moradores e você vai tomar conta do gado e trabalhar, vai viver a vida, durante um ano dá para você fazer a vida e não quero saber de roupa, só que o que você fez vai casar”, “Tá bom”. Me tratou de uma maneira, chamou para conversar com ele na mesa, fui lá com cuidado mesmo, mas ele não me tratou mal nem nada, aí disse: “Amanhã dá para você vir ai ajeitar uma cerca com...” ...esqueci o nome do funcionário dele. Guilherme! “Guilherme, dá para você vir ajeitar uma cerca com o Guilherme, cerca de arame farpado, você sabe cavar?”, eu disse: “Serviço braçal eu não sei qual é o que eu não sei fazer”. Não sabia fazer era quase nada, ai uma boa parte eu sabia. Resultado: no dia seguinte quando eu saí dali, uma beleza. Durante aquele pedaço de dia que eu conversei com ele, no meio do caminho eu pensei assim: “Se eu voltar, morar numa casa dele lá na fazenda, para amanhã ele dizer que eu tenho uma roupa, tenho uma casa, tenho um cavalo, tenho uma vaca às custas dele, que eu era um pé de grude, volto não”. Dentro de mim eu falei, aí cheguei, cheguei lá no serviço, minha maleta foi um saco, o cadeado foi um nó, as roupinha que eu tinha joguei dentro e me arranquei, sumi, fui para a beira da rodagem, lá onde passava os carros, peguei um caminhão e fui até Recife. Com três dias que eu não cheguei no dia seguinte, né, ele mandou me procurar, segundo o que o povo falava, mandou me procurar e quem foi me procurar disseram: “Ah, não, ele já ta com uns três dias que ele não aparece, as roupas dele ele levou todas, levou tudo”. Aí dizem que o patrão lá disse: “Quando eu encontrar ele eu quero uma orelha dele”. Graças a deus tão todas as duas completas: “Nem que seja uma orelha dele eu quero, mas que ele tem de aparecer”, eu ia fazer dezesseis anos, to com setenta e alguma coisa e to aqui. E ele, graças a Deus, chegou o tempo dele morrer também, morreu, né? Porque e depois, já depois de eu casado, depois de muito tempo, eu já com três filhos, aí recebi uma carta de uma pessoa que era amigo meu quando eu era menino, que tinha uma pessoa que queria me conhecer. Lá de Recife para voltar pro Neves, é perto de Garanhuns, né, por sinal essa pessoa esteve aqui em São Paulo na minha casa, esse que era amigo meu, quando eu morava em Jaguaré. Aí mandou a carta para mim dizendo que eu fosse lá, que uma pessoa queria me conhecer, a necessidade que eu fosse até a casa dele, eu peguei o ônibus lá de Recife a Garanhuns, fui a casa desse amigo, me recebeu muito bem, nós éramos moleques ainda quando nós se conhecemos, rapazes assim, dez anos, por ai, ai ele disse: “Durval, você conhece todo mundo aqui ainda?”, eu disse: “Não conheço ninguém, apenas conheço você porque nós éramos moleques que vivíamos correndo aí, brincando com estilingue, né, e assim por diante”. Aí usou lá de um café para me enganar, né, café, eu, ele, a esposa dele, tinha duas filhinhas. Aí mandou chamar a moça lá, quando ela chegou, tava na mesa tomando café, ela entrou, a porta desse lado, ela entrou, aí eu chamei para tomar café, ele chamou também, aí ele foi, falou assim: “Seu Pedro”, que eu não tenho nada com Pedro, mas para tirar, disfarçar, ele disse: “Seu Pedro, você conhece essa senhora?”, eu olhei assim para ela, disse: “Olha, eu não conheço não, posso até já ter visto num ônibus, numa feira, mas eu não sei, não conheço não”, ele foi, perguntou para ela: “Dona Luiza”, que o nome dela também não era Luiza, Marlene o nome dela: “Dona Luiza, esse você conhece, o seu Pedro aí, já viu ele em algum lugar?”, ela olhou assim para ele, disse: “Não” “Nunca viu?”, ela disse: “Não e se vi, assim como ele falou que podia ter me visto num ônibus, numa feira, pode ser”, ela olhou assim, ela disse: “Eu acho que eu já vi agora em algum lugar, mas não me lembro onde foi”, ela falou, ai eu fiz uma de riso, não sei porque eu fiz uma de riso, ela disse: “Não vá dizer que é Durval”, eu disse: “Sou eu mesmo”, ela pulou de lá no meu pescoço, quase que volta tudo de novo e aquela agonia, eu com medo, eu não sabia que era ela, ela agarrada comigo e agarrou e agarrou, eu com medo mesmo. Não é dizer que, eu segurei ela, mas só para apoiar a mão, porque eu tava com medo, não tava no gibi, a mulher agarrada comigo, me apertando e eu disse: “Vai me matar”, com medo. Foi quando ela disse: “Mas Durval, é você mesmo?” “Sou eu mesmo” e até aí a ficha não tinha caído, ela disse: “Você não me reconheceu, Marlene”, eu disse: “Pelo amor de Deus, há tantos anos, meu Deus do céu”, ela disse: “E você não me reconhecia?”, eu disse: “Não”, ela disse: “Eu também não ia te conhecer não”. Foi e mandou um recado para casa, ela mandou o recado pela filha da casa, garotinha assim, uma garotinha, mandou chamar a moça que tinha em casa, aí foi quando a moça chegou, ela disse: “É, você falou, anda falando ai que não quer mais estudar, vai fugir de casa porque disseram para você que o seu pai não era, aquele seu pai não é seu pai, você anda com essa conversa aí, todo mundo sabe disso, que você anda dizendo que vai fugir de casa enquanto não descobrir qual é o seu pai biológico, que disseram que aquele não é seu pai”, ela disse: “Não, eu não devia não, eu não ia não, eu vou fugir e vou parar de estudar, mas não vou enquanto não disserem quem é o meu pai. Porque eu soube que o meu pai era um homem pobre, né, e o outro meu pai que eu conhecia como pai, que era o meu avô, não quis que ele casasse com a senhora porque ele era um pé de poeira, era não sei o quê e então eu não conhecia o meu pai e ela já tava grávida de mim, foi quando depois casou com o meu pai que é o meu pai mesmo e eu soube agora há pouco que o meu pai não é ele, ele é o meu pai sim”, ela disse: “É um mau pai?”, ela perguntou, a própria mãe para filha: “É um mau pai?”, disse: “Não, é ótimo pai, mas eu quero conhecer o meu pai, o meu pai legítimo, o meu pai biológico, o pé de poeira, eu queria conhecer, mas já que vocês não vão dizer, eu não vou dizer qual é o dia, mas qualquer hora dessas eu fujo de casa e estudar jamais”, ela disse: “Se você ia fugir de casa e parar de estudar você não vai fugir mais de casa e nem parar de estudar porque se você queria ver, conhecer o seu pai, seu pai é esse aqui”. Ela olhou assim, disse: “É esse aí?”, ela fez a mesma coisa da mãe, pulou e a mãe também e o próprio meu amigo, a mulher dele, aí todo mundo chorou, todo mundo chorou, ela disse: “Agora tá certo”. Aí saíram aquelas conversas que eu nem lembrava mais, não sei quem foi que contou para ela, que eu era o pé de grude, que eu chamei, eu que disse mesmo, pé de poeira não sabia, pé de grude, pé de poeira é uma coisa só e ela disse que soube que o pai dela não queria que casasse com a mãe dela porque eu era um pé de poeira, não sei o que, depois com o tempo ela casou com aquele rapaz e já tinha a menina já grande, grande não, assim com mais de ano, tal e a vida foi assim. Eu conheci a filha que eu nem sequer conhecia, eu já tinha três filhos já do meu primeiro casamento, ela disse: “Hoje se eu morrer tô salva porque conheci o meu pai”. Aí foi, falou para mim se eu precisasse, caso eu precisasse dela podia procurar ela, que ela tava a me ajudar no que fosse possível, só que graças a Deus não procurei, mas disse a mesma coisa com ela, se ela precisasse de me visitar, eu era casado, eu já tinha três filhos de uma mulher e alguns de outras, né, mas eu era casado, tinha de mostrar os filhos que eram da minha esposa, né, ela disse: “Ah, então o senhor tem muitos filhos”, disse: “Não, tenho três filhos, que esses são registrados, meus, e os outros, que nem você, até agora eu nem tava lembrado, mas foi bom porque apareceu quem lhe dissesse, não foi sua mãe que disse e hoje você está conhecendo o pé de grude”, ela disse: “Jamais, o senhor, de jeito nenhum, o senhor é um homem todo bonito, tão bem vestido que o senhor tá”, eu tava de terno e meu pai, eu disse: “Não, naquela época eu era um coitado como até hoje ainda sou, mas não era pé de grude que eu lavava sempre os pés” e a minha vida foi essa.

 

P/1 – Mestre, o senhor falou uma hora que tinha, à noite tinha umas festas, umas cirandas, aonde o senhor morava, como que eram essas festas?

 

R – Essas daí, essas daí, a festa que eu digo ciranda, essa era em Recife mesmo, essa aí eu já era rapazinho e essa que é feito uma ciranda, que é, cantava assim, hoje, que é feito a ciranda, mulherada cantava, eu ainda era muito criança, né, de baixo assim, na frente da casa, não tinha pé de árvore nem nada, na frente da casa, no claro da lua, o claro da lua e das estrelas, porque não tinha nada de energia. Ali a mulherada, vamos supor a minha mãe, outras vizinhas que vinham ali, não sei nem quem eram as mulheres, tinha duma casa para outra um quilômetro, mas se aproximava todo mundo para cantar ali, cantar uma coisa, outra e fazia feito uma ciranda e as modas que elas cantavam até hoje eu não sei como que era isso, o jeito de uma ciranda. E aquilo ali era o que eu via, era diversão, era uma festa, qualquer coisa que fosse era uma festa. Parque de diversão, quando eu era criança nunca tive direito, nunca fui a um parque de diversão, às vezes, algumas vezes eu acompanhei grupinhos de meninos que acompanhavam, ia ter um circo naquele pequeno povoado e ele chegava, não sei se era com giz, e marcava na testa dos menino que saísse gritando, ai umas coisas ainda lembro: “Hoje tem espetáculo”, a gente gritava: “Tem sim, senhor” “Às oito horas da noite?” “Tem sim, senhor”, muito, porque entrava sem pagar para assistir aquele circo, ele: “As crianças são dez tons e os velhos são dois mil réis, grita!” e a gente gritava: “Eeeee”, aquelas, no meio da rua, para lá e para cá e quando era de noite a gente entrava no circo sem pagar nada porque estava marcado e era isso, um, isso não era muitas vezes não, só uma vez ou outra.

 

P/1 – Como que era esse circo, mestre?

 

R – O circo?

 

P/1 – É, como que era?

 

R – Olha, o circo era uma empanada mesmo assim, como esses circos de hoje, mas bem menores, né? E tinha aquele pessoal que faz, que pula, pendura na corda, mas não era tão aperfeiçoado como é hoje. Tinha o palhaço, que era aquele que passava durante aquela tarde gritando com a molecada para presenciar e ajudar o povo a ver que ia ter circo naquele povoado… E a moça que fazia aquela coisa, quebrava, pegava uma pedra, como eu já vi até na televisão, uma pedra de cem quilos, colocava em cima do estômago dela deitada e outro vinha com uma marreta, que eu não sei se aquilo era verdade, e quebrava aquela pedra, dava duas, três marretadas com uma pedra em cima, depois empurrava a pedra para lá e ela já estava quebrada… Isso era o circo e não tinha nada de, quer dizer, para gente tinha na época, hoje é muito mudado, hoje o circo tem cavalo, carrossel, tem várias coisas.

 

P/2 – Mestre, o senhor tinha falado que o seu pai foi para São Paulo trabalhar, como é que ele foi para São Paulo, ele foi conhecendo alguém aqui, como é que foi essa história?

 

R – Olha, em 1950 o meu pai, apareceram pessoas que vinham trazer outras para São Paulo, que quisessem trabalhar, não tinha lugar certo ainda para trabalhar, mas chegavam aqui em São Paulo, sempre o lugar desse pessoal que chegava lá do nordeste era o Brás, o posto central era sempre no Brás, segundo o que o povo fala. E meu pai veio num caminhão, passou parece que oito dias de viagem, hoje enquanto o ônibus passa dois dias e pouco, o caminhão passou oito dias para chegar em São Paulo, no lastro de uma carroceria de um caminhão coberto com uma lona e bancos de madeira de um lado para eles virem sentados. Dormia eu não sei como é que era não, que eu não estava mais, ele e várias pessoas vieram e chegavam no Brás e já tinham pessoas esperando por aqueles nordestinos para levar para as fazendas, para os lugares, para trabalhar e o meu pai veio numa viagem dessa. Quando ele escreveu pela primeira vez e última vez, ele trabalhava em uma pedreira, meu pai era muito trabalhador, não tinha, foi serviço braçal, não tinha negócio para ele dizer não. E ele, quando ele escreveu para minha mãe, que mandou aqueles quinhentos mil réis, que eu não sei nem quanto era, ele trabalhava numa pedreira, mas minha mãe não guardou a carta, não sei qual era o bairro, eu não sei coisa nenhuma e aquela foi a primeira e a última, nunca mais escreveu, né, depois de cinco meses que ele tinha vindo e após de uns anos foi, não foi com um ano nem com dois, mas foi depois de quatro anos que minha mãe, quatro anos, talvez mais de quatro anos, minha mãe arrumou esse namorado que eu falei e se deu muito bem.

 

P/1 – Quando o seu pai veio para São Paulo você ainda estava na cidade ou já tinha ido morar em Recife?

 

R – Já tava em Recife, já tava em Recife.

 

P/1 – E os teus irmãos também estavam todos em Recife?

 

R – Não, meu pai quando veio para São Paulo, os meus irmãos, só tinha eu em Recife e o meu irmão mais velho de todos, agora lá nesse povoado estava o Agimiro, que hoje mora em Recife, os outros dois que faleceram e esse que mora aqui Jaguaré. E o pequenininho que ele deixou, que está em Recife também ainda, que hoje ta com sessenta anos mais ou menos.

 

P/1 – Quando a tua mãe casou de novo seus irmãos estavam morando com ela, foram morar com o novo marido ou foi todo mundo...?

 

R – Não, minha mãe graças a Deus teve uma vida maravilhosa com esse novo marido, porque enquanto eu trouxe, como eu falei que levei ela para Recife para os meus irmãos verem que eu tinha encontrado minha mãe e queria fazer a união dos familiares, ai em três dias, dois dias, um dos meus irmãos foi levar ela, que se ninguém fosse levar ela lá na casa, porque ela não sabia, coitadinha, e o marido lá tava esperando, daquele povo bem grosso, que tinha de chegar naquele dia, ela já tinha passado do dia. Foi levar e ficou lá, depois eu fui visitar ela e eu perguntei: “Mãe, a senhora é casada com o meu pai na igreja, não sei se o meu pai é vivo ou se é morto, o José é viúvo, porque a senhora não casa com ele? Eu sou de acordo que a senhora case”. Aí ela disse: “Meu filho”, eu disse: “Se a senhora quiser eu vou correr atrás, vou pagar o seu casamento, mas eu quero ver a senhora casada porque graças a Deus a senhora, com um pobre, mas está tendo uma vida maravilhosa e os meus irmãos, a maior alegria que eu tenho, eu acho que a senhora também tem, é de eu ter feito a união com os meus irmãos, que não queriam nem saber desse homem e que a senhora hoje mora com ele”, ela disse: “Tá bom, meu filho, vamos marcar”. Aí conversei com ele, ele concordou, quando foi com poucos dias, não foram meses, muito meses não, que eu procurei ele, ela novamente para botar os papéis para dentro, ela: “Já tô casada”, já tinha casado sem precisar de um centavo de nenhum dos filhos, casou no civil e tudo, casinha dela. E viveu uma vida que não teve com o meu pai, que a situação financeira dela com esse outro, com o tempo, né, foi bem melhor. Eu estive na casa dela, casinha simples, mas não faltava o que comer, só de feijão, porque foi na roça, uma cidade chamada Pesqueiro, lá em Pernambuco, do solo ao teto de feijão, não, ainda na base lá, feijão seco para bater, para descaroçar, do solo ao teto, fora a sacaria que tinha, uns três, quatro sacos de fava de feijão de corda, casa de abelha, assim, que o homem criava também, né, que chamavam de cortiço, tinha uns três ou quatro, galinha eu não sei nem contar, o que a minha mãe tava, a vida que a minha mãe tava, que eu vi minha mãe, era um céu para vida que eu vi quando eu era criança na companhia do meu pai. Então eu ia querer ela achar que ela tava mal? O que eu pudesse ajudar ela para ela ter mais, que diz, alegria na vida, casar para dizer assim: “Sou casada – como o povo chamava – não sou amancebada”. E casou sem mim, quando eu pensei que ia pagar os papéis eles casaram sem precisar nada de mim, mas também ele morreu depois, o esposo dela morreu, mas não ficou nenhuma mal querência dos meus irmãos, da parte dos meus irmãos, mal querência com ele de jeito nenhum… E depois chamaram ela para dentro de casa para Recife, trouxeram ela do sitiozinho onde era dela lá, venderam, até ligaram para mim, queriam que eu assinasse, eu disse: “Pode vender, faça o que quiser, não quero nada, nada, nada, quero que cuide dela como filho”. Né, e o dinheiro que venderam lá a casinha dela e o terrenozinho, fica para o enterro dela, a mãe, não importa quando, para depois não ser preciso estar fazendo vaquinha para enterrar a minha mãe, que nem muitos foram feitos e até hoje ainda, até mesmo aqui em São Paulo fazem isso. E o resultado que não sei se guardaram o dinheiro, eu sei que venderam lá, não quis nem saber por quanto, eu mesmo, eu disse que eu não queria não e depois com muito tempo ela ficou na casa do meu irmão lá em Recife, do mais velho, que morreu agora, fez um ano também, o mais velho de todos e ela quando enterrou, enterrou como uma pessoa simples, mas o dinheiro dela tava guardado para fazer o enterro dela e o meu pai até hoje, Deus tenha ele lá onde ele tiver, com vida ou com morte, não sei. Às vezes eu passo, assim, um lugar, lugares, assim, bem simples onde tem pessoas jogadas, dormindo na rua, eu passo olhando assim: “Será que o meu pai está numa dessas?”. Eu penso, né, eu penso, mas se eu ver eu não reconheço, não é possível que não tenha uma coisa assim que toque em mim para eu ir conversar com essa pessoa, quando to assim num lugar, numa festa: “Será que o meu pai, no meio desse pessoal velho não está o meu pai?”. Mas tudo é só ilusão porque não é possível, meu pai era mais velho do que minha mãe dois anos, minha mãe morreu faltando vinte e nove dias para completar cem anos, vinte e nove dias, meu pai já devia ta com cento e dois anos, por aí, então por isso que eu acho que ele não é vivo. E ele era uma pessoa, eu tenho desconfiança, não tenho certeza, que dessa, como eu falei, sobre quebra de milho, o pessoal chamava, talvez alguém tenha ido convidar ele para trabalhar e ganhar um bom salário, eu sou que penso, nunca ninguém me falou isso e pode ter ainda nessa pedreira mesmo onde ele trabalhava no início, pode ter morrido, só que notícia nenhuma e a vida foi essa.

 

P/1 – Mestre, quando o senhor saiu lá da fazenda, que o senhor deixou a Marlene e o senhor foi embora, o senhor foi para onde?

 

R – Para Recife.

 

P/1 – E aí o que aconteceu lá, como é que foi, o que o senhor fez lá?

 

R – Lá em Recife?

 

P/1 – É.

 

R – Quando eu cheguei foi uma vida um pouquinho sofrida, fui trabalhar numa vacaria, vacaria você sabe o que é?

 

P/1 – Não.

 

R – Bem, uma vacaria, vamos supor que seja uma chácara, vacaria, uma cocheira do gado, né, ali debaixo fica coberto, tem o cocho feito de cimento para cortar a ração para o gado comer e para dar banho naquelas vacas todos os dias de manhã. Levantava quatro horas da manhã, tirava leite, né, aprendi a tirar o leite, tinha o banquinho para sentar e tirar o leite, naquela lata de manteiga que era de dez quilos; depois passava a ração para aquelas vacas, que eles davam o pó, a ração, o capim, e eu misturava tudo para aquele gado comer. Depois que terminava ali tudo ia dar banho nas vacas de leite, todas aquelas vacas que estavam naquele cocho comendo, assim, por volta, vamos supor, nove horas, nove e meia, que era a hora que terminava tudo. Dava banho naquelas vacas, que já tava lá o, nós tínhamos uns baldes grandes de madeira cheios d’água para dar banho naquelas vacas com uma escova, sabão e dar banho, tirar todos, limpar o casco e soltar lá dentro do curral mesmo para ficar, foi isso a minha vida. Depois que saí dali, com pouco tempo também, aí fui trabalhar em uma mercearia e açougue, nessas alturas eu já estava crescendo, já foi quando eu arrumei uma namorada, casei, quer dizer, a segunda, né.

 

P/1 – Como o senhor conheceu essa sua primeira esposa lá de Recife, como foi que o senhor conheceu ela?

 

R – Menina, foi muito bom, eu trabalhando nessa mercearia que eu falei, que era mercearia e açougue tudo junto num só, um irmão meu já trabalhava lá e eu entrei lá para trabalhar com ele e tinha uma moça que ia lá todos os dias comprar algumas coisinhas lá naquela mercearia. Tinha três portas a mercearia, uma, duas, três. E às vezes eu estava no balcão aqui do lado de dentro e ela entrava naquela porta de frente comigo, passava, nunca comprava a mim, passava às vezes naquele que tava no meio, fosse o dono ou a dona, ia comprar lá do outro, às vezes comprar com aquele, mas comigo nunca ela comprava, toda daquele jeito meio orgulhosa, assim, aparentemente bem orgulhosa. Mas ela era uma bonitona assim, bem escurinha, não muito escurinha, cabelo meio crespo, mas não andava muito bem vestida, não abria o dente para ninguém, eu comecei olhando para aquela menina, eu digo, cá comigo eu disse: “Eu vou quebrar o orgulho dessa escurinha”. Isso que eu pensei, não falei para ninguém. Tinha uma moça amiga dela que já conversava comigo, uma moça chamada Guiomar, eu falei: “Guiomar, aquela moça, sua amiga, vem aqui, ela nunca faz uma compra a mim, só faz compra ao seu Tião ou ao meu irmão que está do outro lado do balcão, não fala com ninguém, é toda orgulhosa, tal, e às vezes eu sou quem vou, faço as compras, ponho num caixote e às vezes eu sou que ponho nas costas, vou levar lá na casa onde ela trabalha, né, e para comprar a mim ela não compra”, ela disse: “Não, ela é assim mesmo, ela é fechada”, eu disse: “Eu sou doido por aquela moça”, eu não era, não vou dizer que eu era, eu admirava assim o corpo dela, mas era muito fechada. Aí eu disse: “Será que ela não quer falar comigo, conversar comigo?”. E a Guiomar disse: “Eu não sei não, vou falar com ela”, falou com ela lá, eu não sei o jeito que a Guiomar falou, aí veio, a Guiomar falou para mim no dia seguinte, disse: “Durval, não quer conversar contigo não, que tu és casado”, eu disse: “Eu sou casado?” “Ela disse que tu tem cara de casado”, eu disse: “Eu que sou solteirinho da silva, tô aqui, ela passa por mim, não compra a mim ou compra a seu Tião ou meu irmão do outro lado que é casado, ela vai e compra a ele e a mim ela nunca chega, não abre os dentes para ninguém, não sei não, meu Deus. Essa menina não ta girando bem porque eu admiro, só vejo terreno onde ela pisa e ela nem me vê, nem de longe”, mas não era nada daquilo, é que eu queria ver se eu quebrava aquele jeito dela, aquele jeito fechado, muito, ai depois eu perguntei novamente, ela começava a vir, a Guiomar disse: “Durval, a Zefinha, ela disse que olhou para tu hoje duas vezes, baixou a cabeça, ela disse que não sai da mente que tu és casado”. “Tudo bem, diga a ela que eu quero falar com ela mesmo sem ela interessar falar comigo, mas eu quero dar uma palavrinha com ela para mostrar para ela que eu não sou casado”, ela disse: “Ta bom”, ai ela deu lá o recado, uns três dias ela disse que ia falar comigo, que ia falar comigo, ai eu fiquei pulando num pé só, né? Aí na volta, seis horas, assim, ela chegou, disse: “Você quer falar comigo?”, “Eu quero”... Não, ela disse: “Você queria falar comigo?”, eu disse: “Não, não queria falar com você, eu quero falar com você”, “Qual é o assunto que quer falar comigo?”, eu disse: “Porque eu lhe admiro tanto”, que não era nada daquilo que eu tava dizendo: “Eu lhe admiro tanto, você é uma moça bonita, muito simpática mesmo, bem feita, olha, eu não sei o que falta em você, acho que nada, tá completa. E eu olho para você, eu fico que eu não sei nem pisar no chão, se eu não namorar com você eu não sei se eu morrendo tenha salvação”, ela disse: “Você, namorar comigo?”, bem isso, não abriu o dente para nada: “Namorar comigo? Você tem a cara de casado, você é casado até na China”, eu disse: “Nem na China, nem aqui no Brasil, sou brasileiro, vivo, o jeito de falar, até o meu português é ruim, casado é meu irmão, aquele que você lá do outro lado do balcão vai comprar todo dia quando você vem, compra a ele, compra a Seu Tião, compra a Dona Querubina, a dona do comércio, quando o seu Tião não tá e eu só vou lá levar as compras, às vezes eu chego lá você recebe as compras e nem sequer olha para mim. E quando olha, abaixa a cabeça”, ela disse: “Mas é o meu jeito de ser, é assim mesmo”. Aí eu perguntei: “Você quer dizer que namorar comigo jamais porque sou casado para você?”, ela disse: “É, eu não vou lhe dar o sim, não vou lhe dar o sim agora, depois eu lhe dou essa resposta, sim ou não, mas por enquanto não vou”, bom, eu fiquei pulando num pé só quando ela foi, também não conversou mais, foi embora. No outro dia a amiga dela que chegou e perguntou a mim: “Conversou com ela?”, digo: “Rapaz, mas foi muito pouco, ela não deu chance de eu conversar nada não”, ela disse: “Ela falou comigo que tu queria namorar com ela, mas ela disse que tu é casado”, eu disse: “Não, eu falei para ela que não era”, mas ela disse: “Depois vai falar contigo, vai marcar um dia”. No outro dia ela mandou dizer que queria falar comigo, vinha conversar comigo, veio. Quando ela chegou eu já tava pronto, parecia nem sei o que, ai ela disse: “Hoje eu vim para conversar com você, dar a resposta do sim ou o não”, eu perguntei do sim ou o não”, ela disse: “Olha, para dizer sim ou não primeiro eu vou fazer uma pergunta para você”. Aí eu fiquei com o coração tum tum tum, eu disse: “Pode fazer, se eu souber eu respondo”, ela disse: “Quer namorar comigo?”, eu disse: “Quero, meu prazer”, ela disse: “Eu sou órfã de pai e mãe, o pai que eu conheço é um avô que me criou, veja a minha pele, veja meu cabelo crespo, minha profissão, sou motorista de fogão da casa do branco, órfã de pai e mãe, eu hoje dou um sim para você, amanhã aparece um loura de olhos azuis e você simpatiza por ela e ela vai perguntar: ‘E uma outra que você tá ela?, ‘Não, aquela é uma negra, uma negra, uma empregada de cozinha, doméstica’... Você pense antes para não fazer isso depois, só vou lhe dar o sim depois que ver a resposta do que eu to dizendo, sou tudo isso que você tá vendo, não tenho pai, não tenho mãe, o pai que eu conheço é um avô que me criou, que mora numa cidade do interior, sou motorista de branco, sou motorista de fogão da casa do branco, cabelo crespo, pele negra, a minha profissão é essa”. Eu disse: “Para mim você tem tudo de bom, pele, cabelo e profissão, para mim não interessa, interessa a personalidade e essa eu vi que você tem, garanto a você que eu namorar com você, você aceitar namorar comigo, você vai ter um namorado que não vai lhe decepcionar deste estilo que você falou para mim, de aparecer uma loira, uma loira de olhos azuis e eu dizer que não quero a outra porque é uma negra e o rebolado daquela loira”, ela disse: “Tudo bem, só que é desse jeito que eu to dizendo, não sou de me agarrar com o namorado”. Aí explicou tudo, foi bem diferente da primeira, ta bom, conversamos ali um pouquinho, no outro dia a gente conversou e a vida foi passando, o tempo, né. Foi pegando um pouco mais de intimidade, chegamos a um ponto de ter uma intimidade mais aproximada, nada de mais, ai eu pensei assim: “Essa moça já perdeu muito tempo comigo, eu acho que eu to fazendo ela perder tempo, aparece um outro rapaz que quer casar com ela e ela não vai querer casar por causa de mim porque eu to atrapalhando a vida dela, então vou casar com ela, vou casar com ela porque eu acho que ela perdeu muito tempo comigo”. Confiou na minha palavra de bagunceiro, né, porque eu não era nada daquilo que eu tava falando, mas quando ela disse, a pele, cabelo e a profissão, órfã de pai e mãe, olhasse hoje para o amanhã não passar na cara dela eu com uma loira e dizer que namorava comigo, para mim ela tinha toda a personalidade, veio na minha mente isso, eu vou casar com ela e sabe quantos anos já fazia? Três anos de namoro sem nada de intimidade mais íntima, não dava liberdade, ela já não trabalhava mais na mesma casa, trabalhava já em uma outra. Aí eu disse: “Vamos casar?”, chamei ela: “Nós vamos casar”, ela disse: “Vamos, você quer casar mesmo?”, eu disse: “Quero, eu quero casar porque eu acho que nós já passamos muito tempo”, ela disse: “Durval, eu ainda não tenho nada para me casar”, eu disse: “Não, se arrume que eu vou me arrumar”. Ela foi, rapidinha ela, em poucos dias, não foram meses não, ela disse: “Tô pronta”, eu não tinha um lenço, quando ela disse: “Eu to pronta” eu não tinha um lenço para casamento não, aí eu fui lá e, trabalhava, né, arrumei lá, ajeitei, me aprontei e fui. E aí a patroa dela queria levar ela para Portugal, que era português, passar seis meses lá, com seis meses voltava e eles faziam o casamento, a própria patroa dela fazia o casamento, ela perguntou a mim: “Durval, eu vou?”, eu disse: “Não é que eu vou dizer que você não vai, sabe bem o que está fazendo, não vou lhe prometer que vou lhe esperar, isso é uma coisa, essa cá para mim eu dizer, não vou lhe prometer que você vai esses seis meses ou um ano, como sua patroa falou e você voltar e eu to lhe esperando, porque você pode ir, nesse meio tempo aparecer uma outra porque você ta fora e eu me namorar, não to dizendo que você não vá não, quer ir, não vou atrapalhar sua vida”, ela disse: “Não vou”, eu disse: “Não to dizendo que você não vai”, ela desistiu e não foi. Desapareceu, roubaram na casa da patroa, que eu acho que foi, só pode ter sido a patroa, todo o enxoval dela, não tinha como roubarem na casa da patroa, casa toda murada, não entrou ninguém e aí desapareceu, disseram que foi roubado, ela se afastou, foi até onde eu trabalhava, que era um bairro meio distante, ai falou, chorando, eu disse: “Não, não, por isso não, saia de lá, venha para casa da minha prima, já falei com a minha prima, que você fica na casa dela, que é perto do cartório, pode pedir a conta lá e ver”. Nada de carteira assinada, não tinha nada na época de doméstica, hoje já tem, né, e ela saiu só com a roupa que tinha, mas o enxoval todo destruiu, eu comprei outras roupas para ela, não foi aquele enxoval que ela tinha e ela foi no cartório, eu mesmo falei: “Vai lá e bota os papéis para frente e a gente casa”. Casamos, graças a Deus, casamos na casa da minha prima, foi a festinha, festa de pobre, né, que era bem perto do cartório mesmo, no Arruda, lá no Arruda, perto do Arrudão, onde o povo fala tanto, casamos e nunca decepcionei, a não ser escondido, né?

 

P/1 – E quando o senhor casou com ela onde vocês foram morar?

 

P/1 – Onde você foram morar, mestre, vocês casaram...?

 

R – Casamos.

 

P/1 – E aí?

 

R – Ela tava na casa dessa prima minha, eu dormia na firma onde eu trabalhava já, já estava trabalhando numa firma de produtos químicos, mas antes de eu casar, próximo do casamento eu aluguei dois cômodos, comprei uns moveizinhos já usados, guarda roupa, a cama foi que eu comprei, mas guarda roupa e cadeira foi tudo de segunda mão e casei e logo no dia seguinte fui morar nesses dois cômodos onde eu aluguei e lá começamos a vida. Mas uma outra coisa ficou no meio do caminho, na véspera do meu casamento, na casa da minha prima, que nós íamos casar no dia seguinte, estava tudo lá direitinho, comidas e tal, tal, então tudo arrumadinho lá e algumas pessoas lá, uma festa, eu fiz um convite a ela e ela me disse: “Não, só casando porque minha avó, segundo ela, a moça que não casa virgem é uma...”, aí foi e disse o nome: “E eu só caso, casamento se acaba até, segundo ela, minha vó dizia que casamento se acabava até na porta da igreja, eu ainda não casei, então não vamos ter esse direito de ter essa intimidade tão íntima”. Fiquei com a cara no chão, mas tive de engolir porque ela tava certa, né? Para mim ela tinha toda a personalidade, desde o cabelo, a cor e a profissão, né, e ali, no dia seguinte casamos, participamos da festa ali pela metade depois fomos embora lá pro nosso aconchego, namorei um ano e quatro meses, com um ano e quatro meses ela foi ganhar neném, primeiro filho, e eu doido para ver o primeiro filho, né, primeiro filho do casal, que eu também não tinha visto o outro também, foi quando pedi ao meu chefe, ao meu chefe não, ao engenheiro químico da firma que eu trabalhava, que ele era o bom do comando, eu disse: “Doutor Galba, eu vou visitar a mulher na maternidade, eu vou ver o meu filho”, ele disse: “Ah, não pode, hoje não pode não porque tem muito serviço e não sei o que”, eu disse: “Doutor Galba, eu vou visitar o meu filho, não posso ir?”, ele disse: “Não pode”. Aí nós, não sei qual foi o problema, nós nos desentendemos, desentendemos sério e chegou um ponto que eu falei para ele, que o pai dele era danadão lá em Alagoas, em Maceió, na Petrobrás, quando ele tinha raiva de um mandava dar uma surra ou matar, falei pro doutor: “Doutor Galba, o seu pai lá em Alagoas é um danadão da Petrobrás e quando ele tem raiva de um funcionário, qualquer coisa, ou manda matar ou dar uma surra. Eu não tenho nada disso, se eu precisar eu mesmo faço, eu mesmo vou, mas o meu filho eu vou visitar”. Ele levantou assim, eu pensei que ele ia partir para cima de mim, me chamou de afoito, levantou-se, né, tinha umas cadeirinhas um pouco pesadas, né, aquelas cadeiras Gerdau, eu rapidinho meti os pés, peguei a cadeira e parti para cima dele, dentro do escritório, tinha um escritório lá na firma mesmo e tinha o escritório central no centro da cidade, ele correu, né, eu corri atrás dele, passei assim atrás do primeiro birô, me enganchei no fio de telefone, saí caindo com cadeira, com tudo, foi a minha benção, né, a minha sorte, ele passou e tudo, entrou dentro do laboratório, desceu a calçada e foi embora, eu passei, cheguei no laboratório ele não tava, já tinha pulado a calçada. Eu fiquei tremendo, voltei, botei a cadeira no lugar, aí eu voltei lá dentro, fui fazer o serviço que eu estava, junto com os meus companheiro de serviço. Quando é pouco lá vem o dito doutor Galba e o patrão, passaram assim atrás de mim, eu tava assim de cócoras lavando umas peças, com a mão suja de tinta, ele passou assim por trás de mim e logo em seguida passou o patrão, fez assim no meu ombro, eu olhei, ele fez assim para eu acompanhar ele. Eu dei um tempo, falei pro pessoal que tava trabalhando ali, que eles não viram o que tava se passando, que eles não sabiam que eu já tinha tido um desentendimento com o bom da boca lá no escritório, lá fora também, aí passaram uns três, quatro minutos, eu levantei e fui lá, cheguei lá eles estavam conversando e eu ouvi bem quando eu fui entrando, o doutor Galba tava dizendo pro doutor Élcio, que era o patrão: “É, doutor Élcio, o Durval pelo o que ele fez ele tem direito de ser mandado por justa causa”. Na hora que eu fui entrando, eu disse: “Opa, beleza, doutor Galba, pode me mandar por justa causa, não tem problema nenhum, pode mandar por justa causa, tá aqui a chave do portão de entrada, escritório, laboratório e fabricação, tá tudo no meu bolso, aqui eu durmo aqui, eu vivo aqui, eu moro aqui, né, vivi aqui por muito tempo e conheço tudo aqui, no máximo, no máximo dez segundos para voar tudo no ar no fogo, que até gasolina de avião aqui embaixo tem, debaixo aqui do solo, fora esses tanques todos que estão por aqui”, disse: “Pode mandar”, ai foi quando o doutor disse: “Peraí, doutor Galba é funcionário como você é, eu não falei que você ia ser mandado justa causa”, eu disse: “É, doutor Élcio, mas ele falou”, ai o doutor Galba levantou e saiu, deixou somente nós dois conversando, eu e o patrão, e entrou lá pro laboratório, ele disse: “Durval, eu não foi que falei, foi o doutor Galba que falou, ele não é patrão, patrão sou eu e Ilton”. Que eram os dois irmãos que eram sócios: “Ele é empregado como você, eu não falei”, eu disse: “É, doutor Élcio, mas ele falou com que se ele fosse o patrão e se ele quiser ele pode mandar”, ele disse: “Durval, já não é o primeiro desentendimento que você tem com o doutor Galba, já é o segundo, não é?”, eu disse: “Não, senhor, não é não, talvez seja o terceiro ou o quarto”, ai ele disse: “Desse jeito, Durval, não dá mais para você trabalhar junto com o doutor Galba, né?”, eu disse: “Não dá mesmo, doutor, eu acho que se nós continuarmos trabalhando junto, ele aqui todo dia, tá arriscado um problema, não sei o que, porque ele aprendeu comigo, ele é engenheiro, ele quando veio para aqui veio fazer estágio, nada aqui ele conhecia, comigo, com o Olegário e com o Paulo, nós três éramos os mais antigos, nós conhecíamos toda a mercadoria por código e ele perguntava à gente o que era aquilo, depois que ele tá enraizado quer chutar a mim? De maneira nenhuma eu aceito”, ele disse: “Mas você deu uma cadeirada no doutor Galba, não foi?”, eu disse: “Não senhor, é mentira dele”, eu disse: “Ele tá ouvindo ai no outro lado, o laboratório, só tem a cortina aí fechando, eu vou lá buscar ele”, disse: “Não, não, não, pode sentar, não vai buscar, eu disse: “É mentira dele, tá ouvindo eu chamar ele de mentiroso, manda ele vir cá, já que o senhor não quer que eu vá lá”, disse: “Não, não, não precisa não”, porque ele não tinha hematoma, né, eu não bati com a cadeira nele porque ele correu e eu me enganchei no fio de telefone, foi a minha sorte, graças a Deus. Aí ele disse: “Então amanhã você vai pro escritório central, sabe onde é?”, eu disse: “Sei” “Quarta lá”, nunca esqueci: “Na sala 414, Edifício Sorocaba”, eu disse: “É” “Lá você vai levar os documentos, fala com o seu Plasto”, que é o seu Plasto que era o chefe do escritório, eu: “Ta bom”, me liberou, voltei lá para onde eu tava trabalhando, terminei de trabalhar o resto normalmente, como se nada tivesse acontecido. No outro dia, nove horas da manhã peguei ônibus, fui até o centro da cidade, cheguei lá, fui ao escritório, peguei o elevador e subi, quando cheguei lá outra encrenca, quando cheguei lá, que eu cheguei no balcão, encostei assim e saiu uma moça lá, disse: “Ah, você, o seu nome?”, eu disse: “Durval” “Ah, você foi o… Com o Doutor Galba, cadeirada”, eu: “Moça, peraí, não vim contar particular para senhora, eu vim falar com  dono dos porcos, não foi com você, vim falar com o chefe do escritório, não é com a senhora”. Rapidinho ele saiu de lá, entrou onde tava um gabinete lá com uma cortina na frente, ele saiu de lá, veio até onde eu tava, mandou ela recuar até a mesa dela lá, voltou e chegou lá, falou comigo, pegou os meus documentos, levou à mesa dela, lá ela fez o que tinha que fazer, depois foi levar na mesa dele lá e ele fez lá o que tinha que fazer, assinar, voltou e me entregou o cheque que eu tinha de receber, meus documentos e ela nem cá, né, para dizer a mim que eu era feio, ela não veio, só veio para entregar e eu fui lá e, para encurtar a história, voltei, peguei aquela mixaria lá na época, né, comprei uma casinha em um terreno lá que não era documentado ainda e dali para cá até hoje e nunca mais eu morei de aluguel.

 

P/1 – E o primeiro filho, mestre, como é que foi, o senhor foi lá ver ele, deu para ir nesse dia?

 

R – Esse, por causa da briga, que eu queria ver?

 

P/1 – Isso.

 

R – Esse mora aqui em Jandira.

 

P/1 – Mas o senhor conseguiu ver naquele dia?

 

R – Ah, sim, porque se eu não visse ia ter problema, eu fui, eu fui ver porque quando o doutor Élcio mandou que eu podia voltar lá para a sessão onde eu estava trabalhando e ele mandou uma pessoa me levar de carro lá, o próprio patrão mandou uma pessoa me levar de carro lá na maternidade para ver a mulher, conversar e me esperou e ainda trouxe de carro, fui e voltei, que era uma liberdade que funcionário não tinha, quem tinha o olho na testa eram eles e eu tive essa liberdade de ir de carro, voltar, ainda me esperou lá uns quarenta minutos e o doutor Galba, se hoje for vivo ainda, ele nunca vai esquecer disso, mas não levou a cadeirada não, não levou, não conseguiu não, não teve a sorte porque eu me enganchei no fio de telefone, mas foi bom, né?

 

P/1 – Seu Durval, como é o nome dos seus filhos?

 

R – O nome do meu primeiro filho Everaldo, segunda filha Eliane, terceiro filho Ernando, esses são os filhos do primeiro casamento e desse segundo casamento Edilene, o primeiro Everaldo Durval da Silva, Eliane Maria da Silva e Ernando Durval da Silva, do primeiro casamento, segundo Edilene Aparecida de Oliveira, porque tinha o nome da mãe, Silva, né?

 

P/1 – Que ano que aconteceu isso, mestre, que o senhor trabalhava na fábrica e nasceu o primeiro filho, que ano que era, o senhor lembra mais ou menos?

 

R – Olha, ai ta ruim para eu lembrar, não to bem lembrado não, mas eu vou lembrar, vocês vão saber porque meu filho, ele ta com cinquenta e um anos, por ai, o meu filho deve ta com cinquenta e um.

 

P/1 – Sessenta e um, 1961?

 

R – Mais ou menos isso, né, e porque eu não, às vezes eu procuro, assim, saber a idade dele mesmo, se eu não procurar lá no papel que eu tenho em casa eu não acho, não sei.

 

P/1 – Sessenta e um e aí o senhor foi morar nessa casa que o senhor comprou com o dinheirinho… E começou a trabalhar de outra coisa lá em Recife mesmo?

 

R – Ah, sim, lá em Recife mesmo, eu passei, essa é mais triste do que qualquer outra, né, eu passei fome porque fiquei desempregado, filho recém nascido, aquela mixariazinha que eu peguei, comprei aquele casebre, casebrezinho de taipa como eu falei, taipa de barro, mas coberta de telha, né, mas o terrenozinho, eu fui ampliando, que era um pouco de, né, barranco, eu fiz lá, plantei um pé de côco, eu comprei na época, comprei por dezessete mil, né, dezessete mil cruzeiros. Depois com o tempo a chuva veio, devorou a metade, fiquei só dois cômodos, eram três, ficaram só dois, né, mas com o tempo eu vendi aquele, comprei um outro, quando a chuva vinha lá fora que já tava pingando, passei algum tempo, um certo melhoramento, aí veio uma saída, aí eu fui, vendi, comprei um terreno, só o terreno mesmo, comprei o terreno, fiquei pagando e fui lá ver aquela comparação de casa, casa de madeira coberta de telha e ali eu fui vivendo até quando fui desapropriado, que recebi um certo dinheiro, que comprei uma casa, tudo legalizado, direitinho, com documento, com tudo. Depois que a primeira esposa morreu, eu deixei lá em Recife na casa, na mão dos outros, o pessoal morando naquela casa só para pagar água, luz e os impostos anuais, pensei que estavam pagando, quando eu fui tomar conhecimento, meu Deus! O que eu estava devendo para a prefeitura era mais do que o valor da casa, eu procurei ver quem era que comprava, apareceu uma pessoa que se interessou pela casa, eu vendi, fomos na prefeitura, o senhor pagou tudo, que eu devia oito mil na época, há poucos anos atrás, não são muitos anos atrás não, paguei oito mil e pouco, já em reais, oito mil e pouco reais de débito que devia na prefeitura, né? Fiquei com uma mixaria mesmo que me sobrou daquele dinheiro. Para encurtar a história, recebi treze mil livres porque os outros foram só para pagar de imposto, aí peguei aqueles treze mil, paguei alguma coisinha que eu tinha gastado com documento, minha passagem daqui para Recife, de Recife para cá, peguei, fiquei com nove mil reais, dei três mil para cada filho, para o de Jandira, três mil para Eliane, que essa que morava em São Remo e três mil pro Ernando, que mora em São Remo também. E o resto eu gastei com passagem, fiquei sem nada, eu digo, aí disseram: “Não, mas o senhor tem direito a metade”, eu disse: “Não quero”, eu sou assim, eu disse: “Não quero, eu tenho jeito para eu conseguir pela frente” e os meus filhos, apesar de eu já ter dado a cada um um barraco para morar, isso aí era para eles remodelarem a casinha, o barraco que eles tinham e eu dei três para um, três para outro, três. Aí peguei aquela filha que eu tenho do segundo casamento, vê só, que tava em pé assim, eu disse: “Olha, Everaldo, Eliane e Ernando, é irmã de vocês, não botei o nome dela na lista porque a mãe dela já é um outro casamento, né, não tá o nome dela, se vocês acharem que devem dar alguma coisa para ela, na mão dela, vocês, eu não, do que vocês tem na mão, se achar que não merece nada, nada vocês dão”, ai o meu filho, esse que mora em Jandira, pegou, deu duzentos, duzentos reais, né, Eliane deu duzentos, o Ernando deu duzentos, seiscentos reais ela ganhou e eles ficaram cada um com dois mil e oitocentos. Beleza, passou, depois eu dei um barraco para ela, ela vendeu por três mil e quinhentos, já deu para completar três mil e pouco, ou quatro mil e pouco, mas os outros cada um já tinha um barraco, eu tinha dado, né? E eu fiquei a Deus dará, sem dinheiro, sem nada, não fiquei nem com mil reais, eu mesmo não fiquei nem com mil reais, mas eu trabalhando, para mim não importa, importa que eu tô vivo e deixar para o pessoal. Hoje eu vivo naquele bairro ali onde você foi me buscar, quatro, cinco anos, deve ser mais um pouco, moro em área livre ainda, né, área livre, ainda moro. Ponta da praia, é conhecido como, no lugar que eu estou, conhecido como área livre, né, para não dizer favela, o povo: “Diga favela”, mas é área livre, então vamos ser área livre, apesar de não ser um barraco de madeira, mas não faz vergonha ninguém entrar, porque quanta gente vai na minha casa, mestre Alcides mesmo já foi, pessoal lá da TV Brasil, alguns já foram, o Panso, o Soneca, todos vieram, almoçaram comigo, não faz vergonha como pobre, mas é, nunca neguei o que eu sou. Muita gente de Recife quando eu vou lá: “Você não mora em favela?”, “Moro”, “Ah, você está mentindo”, “Então continuem vocês achando que eu to mentindo, vão na minha casa para ver, não é porque aqui eu tinha uma casa, um terreno próprio, pagando os meus direitos, lá em São Paulo eu não posso ter isso que o que eu ganho não dá para eu ter uma casa, e se eu pagar aluguel vou passar fome”. Eu sou uma pessoa muito positiva, não gosto de conversar, eu digo aquilo que é verdade e um dia um amigo meu veio me visitar, pensava que era mentira minha, veio, eu morava em Jaguaré ainda na época, só o amigo acreditou quando entrou no meu barraco, nesse tempo eu ainda morava em barraco de madeira, aí o bichinho começa, não sei o que: “Agora eu acreditei”. Ainda veio com uma amiga dele, não foi nem a esposa dele, uma amiga que ele gostava, mas foi bem recebido e ele lá é dono de frigorífico, muito bem, mas sempre quando eu ia lá ele nunca acreditou onde eu morava e me fez uma surpresa sem eu esperar. E se eu dissesse que morava numa casa? Se eu dissesse que morava em um apartamento e eles viessem me fazer essa surpresa, que vergonha eu ia passar? Mas tem gente que faz isso, eu não faço, eu conto aquilo que sou, a pessoa diz assim: “Mas, Durval, você diz assim, você é analfabeto? Você diz que você é analfabeto?”, eu disse: “Eu me considero analfabeto”, muito mal sei assinar, eu assino duas, três vezes, quando daqui a pouco eu começo a me bater o sistema nervoso, começo suando e depois não tô mais nem vendo o que, então não adianta, né? Não fui para a escola, escola que eu tentei ir, eu era muito moleque, não moleque, já era rapazinho e a namorada que eu achava que era namorada minha era a professora e ia me ensinar o quê? Nada. E é isso que eu tenho para falar para vocês, se tem mais alguma coisa que eu possa contar, vontade não, porque eu não tenho vontade.

 

P/1 – Mestre, eu queria perguntar duas coisas.

 

R – Eu sabendo respondo.

 

P/1 – Como foi a sua vinda para São Paulo? Que você falou que você veio, mas eu queria saber como o senhor chegou, como é que foi essa viagem, essa decisão de vir morar aqui.

 

R – Quer dar uma massagem no meu coração? Brincadeira, brincadeira, vou te explicar, a gente pensa que vai ficar só naquilo, né? Acontece, eu casado, bem casado com aquela que eu falei que disse pele escura.

 

P/1 – A primeira mulher ainda?

 

R – Primeira mulher, mas já tinha outra, pensava que nunca era descoberto, mas você sabe, o diabo é sujo, ele encobre, encobre, um dia ele descobre tudo, por isso ou por aquilo eu fui descoberto pela minha esposa, que eu tinha uma outra companheira e ela, algumas pessoas diziam para ela, assim por cima ela perguntava a mim: “Durval, é verdade que você tem uma mulher assim, assim, assim, que sempre, sempre ta conversando com você, é agarrada com você e tal e tal, já me disseram”, eu dizia: “Não é verdade”. Eu sempre dizia que era mentira, sempre dizia que era mentira, ai depois aparecia novamente, com o tempo aparecia novamente aquela conversa, ela vinha lentamente, porque ela não era de nada de mal criação: “Durval, a mulher que eu soube que você tá parece que é a mesma que me falaram outro dia, viram você em tal canto assim, assim, assim e mora em tal lugar”, eu disse: “Olha, Zefinha, essa pessoa que tá trazendo esse assunto desagradável para aqui para casa é que quer destruir o nosso casamento, a nossa boa convivência, se for uma mulher ela ta afim de mim e eu to jogando ela para escanteio, se for homem tá afim de você, você não ta querendo ele, ele ta jogando essa para ver se você se interessa nele, esquecer de mim, ta jogando isso contra mim”, mas era verdade. E o resultado, quando foi um dia, eu cheguei em casa, fui chegando em casa e tava aquele corre-corre, aquele corre-corre, tal, eu cheguei na esquina assim,uma moça perguntou: “Seu Durval,  o senhor tá chegando agora?”, eu disse: “Tô chegando agora”, “O senhor não tá sabendo o que ta acontecendo não?”, digo: “Vi o pessoal correndo nessa rua”, “Lá a Dona Zefinha tentou suicídio”, eu disse: “Zefinha?”, disse: “É”. Aí eu corri para casa, quando cheguei em casa a minha filha, essa que mora aí no São Remo: “Papai, mamãe levaram pro hospital, foi socorrida que ela se enforcou, nós tiramos ela do laço, levaram pro hospital”. Eu fui calçar o sapato e não sabia onde tava o sapato, não sabia onde tava a meia e naquela, aí achei, calcei uma meia, quando eu to calçando o outro sapato, veio uma zoada de carro na porta, eu disse: “Eliane, corra para ver quem tá chegando aí de carro”, ela disse: “Papai, é a mamãe que tá chegando num táxi”, eu corri para a porta, um pé calçado, o outro descalço, fui receber ela no táxi, cambaleando do remédio, sedada do medicamento, trouxe ela para dentro, a pessoa que trouxe o táxi pagou o táxi e ele foi embora e eu fiquei, ai levei ela para dentro, já estava praticamente dormindo, foi dormir e ali passei a noite, eu não dormi, ali ela já chegou, dormiu, praticamente. Eu fui lá, eu tinha uma ferramenta lá de fazer cadáver, né, fui lá, tirei de cima de dentro do guarda-roupa onde eu guardava, tirei tudo e joguei lá no… Porque eu disse: “Do jeito que ela está, se ela acordar e vai pegar esse revólver, não sei o que que ela faz”, que ela não era de violência, mas eu não sei, né? E o resultado, quando foi no outro dia, eu não dormi nada, nada, nada, quando foi no outro dia por volta de oito horas da manhã eu chamei ela, chamei, ela acordou assim meia, ai eu perguntei: “Ta bem, ta bem?”, ela: “Tô bem”. Aí comecei conversando com ela e procurando ver se ela despertava um pouco. Ela levantou, viemos para a sala, aí sentamos numa cadeira, eu numa cadeira, ela na outra, disse: “Meu velho”, veja só: “Meu velho, eu sempre lhe perguntei se você tinha uma mulher fora, você sempre dizia que não e eu sempre acreditei em você, você sempre dizia que a pessoa que trazia essa má notícia para aqui para casa era para destruir o nosso casamento, a nossa convivência ou era uma pessoa assim, se era um homem porque tava interessado a mim, eu não tava querendo ele, se era uma mulher tava se jogando para você e você tava jogando ela para escanteio e ela para conseguir isso tava trazendo essa conversa, você sempre dizia e me ganhava no papo e eu acreditava, você dizia que mulher não era cabra, que amarrava de manhã no mato e ia buscar de tarde, mulher gostava era de dinheiro e que o dinheiro que você ganhava eu sabia quanto era. E eu muitas vezes, quando você tava viajando a mandado da firma eu ia pegar o seu salário, nunca veio um centavo a menos, sempre vinha um pouco mais das horas extras que você fazia, então não podia ter uma mulher fora, você falava isso, eu acreditava, mas agora eu descobri que a mulher que você tem, a namorada que você tem, ela já esteve aqui em casa, eu falei na hora que ela saiu que desconfiei daquela mulher, há não sei quanto tempos atrás e a mulher é aquela, ela já esteve aqui em casa quando você estava com uma perna quebrada, ela trabalha tal lugar assim, assim, todos os dias antes de você vir aqui passa na casa dela para poder vir para casa, o nome dela é tal, mora em tal lugar, atrás daquele colégio assim, assim, assim”, falou tudo certinho, disse: “Zefinha, eu desmenti meio mundo, meio mundo, eu dizia que era mentira, mas eu nunca lhe chamei de mentirosa, você não merece que eu diga que você é mentirosa, que você é feia, que você é isso ou aquilo, eu chamei os outros, mas você não, eu nunca ia abrir a boca e dizer para você: ‘Eu tenho uma namorada’, que eu achava que isso aí era uma desfeita de mim para com você, desfazer muito de você e você não merece isso, jamais eu ia fazer isso e nem faço, mas já que você saiu dos seus cuidados para ir ver onde é que eu tinha uma namorada e ainda dizer qual era, mostrou e disse o nome, disse tudo, como é que eu posso dizer que você é mentirosa? Eu dizia que os outros eram mentirosos, mas agora que foi que você viu, então eu não posso nunca dizer que você é mentirosa, é verdade”. “Quanto tempo faz?”, eu disse: “Nem me lembro”, “Tem filho com ela?”, “Não, apareceu algum, mas foi, como elas dizem lá, destruído através da injeção e agora não tem nenhum filho”, disse: “Não”, ela disse: “Nós somos casados há dezessete anos, nós nunca nos desentendemos tanto assim, nem vamos desentender, nunca, de tamanho nenhum nós nunca nos desentendemos”. Aí começou a vida dela, de quando tinha o cabelo, quando mostrou foto, tudo lembrou, parece que ela tinha um computador na mente: “Até o ponto que chegou aquela loira e que ficou do seu lado, eu de uma lado, ela de outro, fui casada com você, eu era de menor, você disse que para casar de menor tinha que casar com separação de bens, você pediu para eu aumentar minha idade para não casar com separação de bens, porque nós não tínhamos nada, mas no amanhã podia ter e não queria casar com separação de bens, então aumentou a minha idade, nós casamos, estamos casado há dezessete anos, mas sabemos, ainda era menina, casei com você, mas sabendo que se, eu casada com você, sabendo que você tem uma outra mulher você escolhe uma das duas”. Foi a coisa pior do mundo que eu achei: “Você escolhe das duas qual é que você vai ficar, a sua amiga lá ou eu, você vai escolher, é você que vai escolher qual é das duas, porque eu sabendo que você tem outra nós não vamos permanecer juntos, ou eu ou ela”. Eu disse, ela me deu lá um prazo que eu não sei para eu dar a resposta, mas quando ela fechou a boca eu disse: “Eu já marquei”, ela disse: “Qual é?”, eu disse: “Só me servem as duas, só me servem as duas, porque se você não me quer porque eu tenho ela ou ela não me quer porque eu tenho você, lá embaixo tem três que tão doidas que desocupe o lugar para elas ocuparem o lugar de duas, têm três lá embaixo me esperando”. Ela desmaiou, ela desmaiou sem conversar, sem me xingar, sem haver desentendimento de tamanho nenhum. Ali eu fiquei com ela louca de guerra, agora que é a minha vez de ir para cadeia, né, aí fui lá e mexi para um lado, mexi para outro, chamei minha vizinha e corre e isso daqui dela tudo roxo, nada mais, gelou, ai corre lá, aí pegaram no nariz, deram uma, ai veio uma senhora lá com um negócio, não sei o que foi, prendeu assim no nariz dela, com poucos minutos ela respirou, graças a Deus não morreu, graças a Deus não morreu, já tinha até mandado buscar um carro para levar para o hospital, mas eu disse: “Vai levar defunto?”, mas já tinha mandado buscar, quando o carro chegou eu mandei voltar que ela já tinha tornado. Isso daí foi com que fez eu pedir a conta, faltando poucos dias para completar quinze anos na firma onde eu trabalhava, no Curtume Santa Maria S.A., porque eu não aguentava sufoco, meu irmão chegava, pisava no meu calo, meu amigo pisava no meu calo, meu parente, porque: “Mas rapaz, você é um homem bem casado, cara, uma vida maravilhosa, não há quem diga, parece um casal de namorados, começou a namorar ontem e agora aparece uma outra mulher no seu caminho”. Aí aqueles maiores amigos meu, quando chegava aquilo para mim era o mesmo que me bater, eu não tinha saída, eu dizia: “É, vocês estão certos”, nunca dizia que ninguém estava errado. Quando eu não aguentei mais sufoco, dentro de poucos dias eu disse: “Eu já sei o que é que vou fazer”. Mas antes terminar o que eu ia falar sobre a mulher, ela foi em casa, né, e eu pensei, eu tentei, até pensei em suicídio, eu pensei, nunca falei, tô falando isso hoje, mas naquela hora eu pensei, porque pela amizade que eu tinha com a população e o que estavam fazendo comigo, conversando, era o intento me matar, não era com grito, com, não, era pressão mesmo, né. Ai eu cheguei: “Tá bom, eu sei o que vocês, o que vocês querem eu vou fazer”, todo mundo com aquela agonia: “Durval, vai fazer”, “Não, não, vocês depois sabem”, ela estava em casa, eu disse: “Eu sei o que é que eu vou fazer”, “Mas o quê?”, “Ninguém sabe, só eu que sei”, não fui mais trabalhar, não, cheguei na firma, pedi para me mandar embora, pedi para me mandar embora, disseram que não mandavam, pedi para fazer acordo, disseram que não faziam, que a firma não estava em condições de fazer acordo, ai eu: “Ta bom, então já que ninguém faz acordo, não querem mandar embora nem quer fazer acordo, tá aqui minha carteira, dê-lhe baixa que eu não quero um centavo da firma, eu só quero uma carta de referência mostrando a minha conduta, mais nada”. Vai o doutor, para falar com ele foi um trabalho danado, os outros todos diziam que não, quando foi falar com ele, que eu falei assim, ai ele disse: “Durval, você, porque é que você quer ir embora?”, eu fui e falei para ele tudo a verdade: “Ta acontecendo isso, isso e eu não aguento mais, eu tenho uma namorada ai, minha mulher descobriu e todo mundo tá contra mim e eles tão todos certos, o errado sou eu e o errado é quem deve resolver o seu problema, eu que tô resolvendo, é ir me embora”, “Isso vai resolver o seu problema?”, eu disse: “Vai, que eu deixo do pessoal fazer aquela frequência em cima de mim de que eu to errado, minha família bem, minha família toda unida e tal”. Aí ele disse: “Durval, quantos anos você tem aqui no Curtume Santa Maria?”, eu disse: “Não sei, mais de dez eu sei que eu tenho”, ele vai, liga lá para dentro pro escritório, isso eu no gabinete do patrão, lá dentro, ai ligou, falou lá com o Brivaldo, até, eu nem lembro o nome dele agora, Brivaldo, quando é com pouco o Brivaldo chegou com aquele montoeira de papel, disse: “Brivaldo, quantos anos o Durval tem aqui no Santa Maria?”, foi lá,olhou, disse: “Doutor Fernando, ele ta na faixa de quinze anos, ainda não completou, mas vai completar, dentro de poucos meses ele vai completar quinze anos”. Aí ele olhou assim para mim, fez assim: “Durval, você desde esses quinze anos que começou a trabalhar aqui no Santa Maria, começou com o papai, depois ficou comigo e Geraldo, papai morreu e nós ficamos, você não tem uma reclamação de ninguém, você conhece quase o Brasil todo a mandado do Santa Maria, você vai fazer serviço do Santa Maria, nós não temos motivo para mandar você embora mesmo você pedindo a conta, você não tem motivo”. Eu disse: “Doutor Fernando, se é difícil pegar a caneta para dar baixa no meu documento é problema, eu não to querendo um centavo da firma, eu vou no Ministério do Trabalho e peço e eles dão baixa, e eu digo porque e nada mais vai ser do que o que eu to falando aqui pro senhor, não tenho mais condições de ficar aqui, porque se eu ficar aqui eu vou cometer um ato desagradável comigo mesmo”, ai ele disse: “Você ta pedindo a conta?”, eu disse: “Estou” “Está pedindo a conta?”, três vezes ele me perguntou, eu disse: “Tô”. “A única pessoa que serve como testemunha que você ta pedindo a conta é a sua esposa”, eu cá: “Meu Deus do céu, eu tudo, tudo, tudo já por causa desse problema, doutor Fernando, eu vou ao Ministério e o Ministério da baixa, não precisa ela vir assinar como testemunha nem coisa nenhuma, não precisa dela vir aqui, não precisa do senhor está se preocupando comigo, só quero uma coisa, essa eu exijo, uma carta de referência para mostrar minha conduta aonde eu chegar”. Ele foi, mandou fazer os cálculos lá, não sei de que foi, fizeram uns cálculos que me deram um dinheiro, deu para eu fazer a viagem para São Paulo. Pedi as contas sem a minha mulher saber, quando foi em casa, eu cheguei, falei para ela que eu ia cortar o cabelo, ia cortar o cabelo, saí para cortar o cabelo, quando eu voltei um sol quente, que Recife faz muito calor, ela tava lá lavando roupa, essas coisas, cobertas. Aí eu disse: “Zefinha, eu tô querendo, eu tô com fome”, fazia dias que eu não comia, só fazia comparação e ela também: “Vamos comer?”, ela disse: “Vamos”, foi lá, botou a comida, mastigando, fazendo força para comer sem ela saber do que tava acontecendo, ai comi ali metade daquela besteirinha, ela também comeu uma besteirinha que ela não vinha comendo nada. “Zefinha, porque você está lavando roupa num sol tão quente desse, um calor desse você lavando roupa no sol”, ela disse: “É que você outro dia tava falando que qualquer hora dessa você ia viajar, ia viajar, não sabia para onde era, mas você ia viajar, você quando fala uma coisa, que a gente procura saber, você já tá é viajando”, eu disse: “Será por isso, para eu levar essas roupas?”, ela disse: “É, porque quando você disser: ‘Vou viajar’ não ter nada para aprontar, já fica tudo pronto”, eu disse: “Então deixe tudo do jeito que tá que eu viajo hoje”, outro aperreio, meu Deus, quase que a mulher morre, e aquela agonia, aquela agonia, né. E o resultado que eu, chegou uma moça que ia muito na minha casa e perguntou: “Durval, desgraçado, tu quer matar a Zefinha?”. E era uma gente grande, né, a secretária do governo que ia muito na minha casa, que minha mulher era espírita e recebia muita gente que ia lá e: “Seu desgraçado, se Zefinha morrer vou te processar, ninguém te tira da cadeia”, “Não tem problema não”, mas felizmente ela voltou ao normal. Pegamos um carro, levei para a rodoviária, já estava quase na hora, quando eu cheguei lá o ônibus, eu cheguei atrasado, o ônibus já tava dando ré para sair da bandeira, aí ele voltou e encostou, minha mala lá e encostei lá, despedi da esposa, da secretária do governo na época, todos eles, me despedi dela e do meu filho, desse filho caçula que é o Ernando, peguei o ônibus e a outra já tava me esperando em um posto que tinha mais para frente.

 

P/1 – Mas que história, hein, mestre Durval, gente, muita coisa.

 

P/2 – O senhor já viveu três vidas numa só, hein?

 

R – Olha, olhando direitinho é triste, é vergonhoso para o homem que tem vergonha, eu não porque eu nasci assim mesmo.

 

P/1 – É muito intensa, muita coisa.

 

R – E precisa ter muita calma para ter o bom humor, que tudo isso eu, graças a Deus, nada do bem humor, com todas essas pressões que eu recebi lá na minha terrinha, nordeste, eu não recebia ninguém de mau humor, todo aquele que chegava: “Mas, Durval, você é um cara bem casado, mas Durval”, eu dizia: “Mas você sabe o que acontece? Eu sou para o que, eu sou para o que nasci e não para o que eu busco, agora se eu nasci para isso então to aqui”, ai podia me pisar, não partindo para cima de mim era beleza, eu levava na conversa, eu levava tudo na esportiva.

 

P/1 – Mestre, aí no outro dia que o senhor voltar, você conta para gente como é que é a história do côco, que você faz.

 

R – O côco que eu fiz, porque eu sou satisfeito com a idade que tenho, que quantas pessoas dizem velho e tal, velhas são as estradas, velho é meu passado, eu sou atual, eu sou jovem, minha carne pode ser velha, mas eu sou jovem, meu espírito para mim é tudo, por isso que eu digo assim: “Jesus é o meu protetor, Jesus é meu protetor, Jesus é meu protetor, Jesus é meu protetor, foi ele quem me criou, deu o que eu mereci, por isso eu me sinto feliz com a idade que eu to, Jesus é meu protetor, Jesus é meu protetor, foi ele que me criou e deu o que eu mereci, por isso eu me sinto feliz com a idade que eu tô, em todo canto que eu vou o povo fica me olhando, alguns fica perguntando se eu sou o professor, eu respondi que eu não sou, apenas eu vim de outro Estado, sou sobrinho de um deputado, neto do governador, Jesus é o meu protetor, Jesus é meu protetor, foi ele quem me ensinou, me deu o que eu mereci, por isso eu me sinto feliz com a idade que eu to”, só isso, então eu me sinto feliz.

 

P/1 – O senhor pode voltar um pouquinho atrás para contar como foi quando te levaram para rodoviária em Recife?

 

R – Sim, então aquele mesmo dia que eu fui sair de casa, minha esposa me acompanhou, a secretária do governo tava na nossa casa, me acompanhou também e o meu filho caçula, o Ernando, fomos até a rodoviária, nesse tempo a rodoviária ficava próximo ao cais, hoje não é, mas antes era próximo ao cais lá em Recife. Chegando lá, eu já cheguei um pouco atrasado, o ônibus já ia dando ré para sair da plataforma, ai eu dei com uma mão e ele voltou e encostou, ai eu entrei e abracei a mulher, o meu filho e aquela moça que era amiga e fui lá, peguei o ônibus, segui destino São Paulo, no mapa do motorista já tava que tinha uma pessoa esperando no lugar determinado onde foi feita a passagem, minha esposa ficou lá na rodoviária e eu segui viagem, quando chegou lá num, nesse lugar, o ônibus parou, ela estava e o ônibus parou, eu sempre fui na frente para explicar ela, estava ela com a mãe dela, ai ele parou, ela entrou e segui viagem. Chegando em São Paulo não foi fácil, sem inglês e sem documento, uma carta, um endereço, mas eu não conhecia a pessoa que eu ia, né, para encontrar, mas a minha companheira conhecia essa pessoa e chegando em São Paulo, a rodoviária nesse tempo era aqui perto da Estação da Luz, ali perto da Praça Princesa Isabel, a estação era ali, a rodoviária, quando eu desci não sabia nem para qual lado nascia o sol, frio que era uma coisa demais, naquele tempo era uma garoa, de tardezinha, aí eu sem dinheiro, mas eu tava com aquele endereço no papel, peguei um táxi, eu não sabia nem a distância, então foi muito sofrimento para chegar até onde eu fui no bairro de Osasco, lá em Helena Maria, gastei mais de táxi daqui do centro da cidade para Osasco do que de Recife para São Paulo, que o taxista viu que o cara é burro mesmo, né, o cara é mané, aí foi suingando em todo o canto para perguntar, chegou no bairro, parava, tomar uma cafezinho, perguntar a rua assim e tal e assim foi gastando, quando chegou na dita rua que a gente estava determinado a ir, ele disse: “Aqui eu não entro que é estrada de barro”, com aquela garoa o carro não entrava que era muita cova e era aquela rua que tava procurando, mas tinha uma quitandinha assim, eu disse: “Tá bom”. Fiquei ali e começou querendo escurecer, ai eu fui naquela quitanda, pedi para deixar minhas malas ali enquanto eu ia procurar o endereço que eu estava ali, eu não sabia e paguei o taxista, ele foi embora. Eu procurei naquela rua e vai num canto, depois no outro, não encontrava aquele número, depois que eu já tava cansado, numa distância grande, ai perguntei, o rapaz disse: “Ah, é um pernambucano alto, magro”, eu não conhecia o rapaz, ai a minha companheira disse: “É, ele é magro, branco, alto”, disse: “Vocês passaram lá na rua onde ele mora, naquela rua assim, a casa assim, assim, assim”, de lá dava para mostrar, nós estávamos no alto: “Pode chegar, ele mora por ali”. Quando nós voltamos, aquela demora, a mulher já começou a chorar, como é que a gente ia dormir na rua, dinheiro que é bom tinha pago tudo de táxi, tinha acabado tudo, né, o que tinha não dava mais, aí quando chegou naquela dita casa, que eu cheguei para olhar o número da casa, não era aquele número que tinha no papel, o número que ele morava era lá atrás, onde ele morava, a casa da frente era outro número, ele morava de aluguel num barraco lá atrás. Aí quando, assim, a mulher dele olhou e viu, conheceu, disse: “Ô, Dora, mas você por aqui”, veio lá abraçar a gente, ai vivi, né, que já tava quase caindo só de se pensar que ia dormir na rua. Aí quando cheguemos levou lá para dentro de casa, o marido dela tava lá, fomos buscar as coisas que não era longe da onde nós tínhamos deixado, fomos buscar minhas malas lá, eu e o rapaz que eu fui a procura dele, quando chegou lá pegamos as malas, trouxemos para cá pro barraco dele e lá já estava de noite, dormimos, cama maravilhosa para gente. É muito difícil acontecer o que aconteceu com aquele homem, ele, a mulher dele, eu e a minha mulher tudo numa cama só, ele disse: “Não, não vai dormir ninguém no chão, não, todo mundo aqui”, os quatro dormiram numa cama só a primeira noite, depois no outro dia eu disse: “Não, a gente não pode dormir assim”, espalhamos lá uns panos: “Mas, rapaz, não”, “A gente vai dormir aqui”, né? Aí eu sei que ele, assim, ele morava num pé de um barranco e assim, a parede por baixo tava um pouquinho quebrada, aquelas madeiras, se caísse um rato lá em cima naquele barranco lá embaixo ia entrar lá e me morder ou uma cobra, se por acaso, né, graças a Deus não aconteceu. Mas ele me recebeu muito bem e no dia seguinte era sete de setembro, não tinha trabalho, não tinha nada, passamos o dia conversando com ele, tal, almoçamos lá ao estilo dele, no outro dia a gente foi, ele falou lá na firma onde ele trabalhava, me apresentou e que eu precisava de trabalho, era um conterrâneo dele e que eu era uma pessoa trabalhadora, nem me conhecia, mas disse que eu era trabalhador, né, e através dele minha estrela acendeu, graças a Deus, comecei a trabalhar no sétimo dia, eu cheguei aqui em São Paulo no dia seis de setembro de 1976, no dia seis de setembro de 1976 eu cheguei em São Paulo, quando foi no dia treze de setembro comecei trabalhar na Usina Colombina ali na rua, na Avenida Torres de Oliveira em Jaguaré, não era nem uma firma brasileira, era israelense. Comecei trabalhando através desse amigo, me levou, me apresentou e quando chegou lá na hora de fazer aquela entrevista que mandaram eu preencher uma ficha, eu não sabia, é vergonha dizer isso, né, mas vou dizer porque eu gosto da verdade, eu disse: “Moça, é para assinar eu assino, mas preencher ficha eu nunca fiz isso”, vai o chefe da guarda, perguntou lá para madame, disse: “Como é que você me manda o homem para preencher a ficha aqui na portaria e ele não sabe preencher a ficha, só sabe assinar a ficha”. Aí vai o gerente, diz: “Você não está aí? Ele não tá com o documento dele? Tá com o documento dele, preenche a ficha dele, manda só ele assinar”, quem foi que encheu minha ficha? O chefe da guarda, mesmo mal humorado preencheu minha ficha, quando foi em poucos dias comecei a trabalhar, logo no dia treze comecei a trabalhar como ajudante de produção, fábrica de produtos químicos, ali na Usina Colombina na Avenida Torres de Oliveira. Comecei, lá vai, como ajudante de produção, salário, saí de lá de recife eu com quinze anos de firma, minha carteira: ajudante geral, nunca tive nada de melhora, salário mínimo era seiscentos e dois cruzeiros, na minha carteira tava o salário mínimo, o salário que era mínimo seiscentos e dois, eu ganhava setecentos e cinco, cento e três cruzeiros a mais do que o salário mínimo, com quinze anos de firma, na Usina Colombina comecei trabalhando aqui em São Paulo, né, como ajudante de produção com mil e cinquenta cruzeiros na carteira de cara, eu disse: “Eu vou voltar mais para onde? Esse é que é o lugar”. Trabalho quinze anos num lugar, nunca ninguém me deu valor, venho para São Paulo, praticamente no mesmo dia que eu chego para trabalhar já começo com uma frente dessa no meu salário, mil e cinquenta na carteira, comecei trabalhando, quando foi com quatro meses me passaram a encarregado de produção, eu não queria, achei que eu não tinha capacidade, porque muita gente trabalhava na seção que eu trabalhava que era mais antiga do que eu, tinha um nível bem melhor, né, sabia escrever, ler e escrever, eu não sabia, ai eu disse que eu não queria e perguntaram porque, eu fui, expliquei que os companheiros de serviço não ia se sentir bem, eles com dois anos, dois anos e oito meses, um ano e oito meses e eu com quatro meses chegar para trabalhar e passar a ser encarregado, entrei como ajudante, com quatro meses passar a ser encarregado deles, eles não iam se sentir bem, então eu não ia aceitar por causa disso. Vai o engenheiro lá, que era boliviano, a firma era israelense, mas o engenheiro era  boliviano, o Juan disse: “Porque você não quer?”, disse: “Não quero por causa disso, disso e disso”. Ele foi, falou, ai foi quando eu disse que não tinha capacidade para aquilo, vai o gerente geral que era israelense, disse: “Ô, Juan, como que você me apresenta um homem para ser encarregado e ele diz que não tem capacidade?”, o gerente falando para um engenheiro, ele disse: “Michele, se eu apresentei o homem para ser encarregado é que ele pode ser encarregado, o que ele não souber pode ir lá na minha mesa que eu passo para ele, mas um homem que não falta um dia, não falta horário, num domingo ele vai, num feriado ele vai, nunca disse que ta cansado nem nunca se negou de fazer hora extra até a hora que for, isso é que eu preciso com encarregado”. Aí ele falou comigo, o gerente falou comigo, perguntou: “E você acha que vai?”, eu disse: “Não, to dizendo que o pessoal não vai se sentir bem”, ai falei tudo para ele o porque eu não queria, por causa do pessoal que talvez não se sentisse e eu aceitava se todos eles, fizessem reunião com todos eles e eles aceitassem eu como encarregado deles. Aí eles aceitaram fazer reunião, todo mundo aceitou, eu assinei, assumi com encarregado de produção, comecei trabalhando, para encurtar a história, muita gente ia fazer entrevista até para trabalhar em outra seção e fazia comigo, que era uma coisa até duvidosa, como é que com um analfabeto chega gente para fazer entrevista para trabalhar até em outra seção e eu fiz com quanta gente e para encurtar a história, trabalhei cinco anos como encarregado, quatro meses como ajudante de produção e chegou o ponto que eu terminei a minha tarefa de serviço de complicação, comprei um barraquinho logo com poucos dias que eu cheguei, passei só um mês e dezenove dias dormindo no chão lá na casa do amigão, quando sai dali comprei um barraco na favela, eu não sabia nem o que era favela, eu não sabia o que era, eu vim para cá e tinha medo quando ouvia falar. Comecei morando e que morada é essa que trinta e seis anos já tá em São Paulo, hoje não moro mais num barraco de madeira, mas ainda é favela e to satisfeito em São Paulo, não me arrependo de nada que fiz, que tudo o que eu fiz, fiz consciente e o arrependimento que eu tive só Deus para me castigar se eu for pecador, merecer o castigo, porque arrumei uma outra companheira, que minha mulher nunca deu a direito de eu fazer isso, mas eu fiz porque nasci para isso, não foi porque ela fosse uma má companheira, fosse uma má esposa, uma má mãe, má dona de casa, nada disso, não, era uma dona de casa, uma esposa, uma mãe excelente.

 

P/1 – Mestre, essa moça que veio com o senhor, quem era?

 

R – Essa moça, que essa que faleceu agora.

 

P/1 – É a sua segunda esposa.

 

R – A minha segunda, que eu já casado já com essa, depois que a outra faleceu, mas nem por causa disso eu deixei de me corresponder com a esposa na época que tava viva, né, eu, logo que eu cheguei, comecei trabalhando, dei endereço certinho onde eu tava trabalhando, né, no primeiro pagamento eu já mandei a despesa de casa, até mais do que eu dava quando eu tava lá, que ainda tinha de comer daquilo que eu dava e ela chegou, pediu a mim, quero que Deus me castigue se eu tiver mentindo, até pelo leite que eu mamei na minha mãe, que eu voltasse para Recife, eu podia até levar a outra, não botando dentro de casa, podia botar na outra esquina que ela nunca mais procurava saber se eu tinha uma namorada e nem ia procurar saber a minha vida com ninguém porque não queria eu morando distante que tava sentindo muita falta e eu disse a ela, sempre disse a ela, nunca disse que não ia, dizia: “Brevemente eu chego, brevemente eu chego”, só que eu nunca, não fui, assim, logo em seguida, todo o mês eu mandava a despesa de casa. Quando foi com um ano e quatro meses recebi férias, minhas primeiras férias, um ano e quatro meses que eu tinha saído lá de Recife, recebi férias aqui. Aí o dinheiro não chegou lá na época que chegava, naquela data, ela foi, falou assim para essa filha minha que mora aqui: “Eliane, teu pai tá chegando por ai”, “Mamãe, por quê?”, “O dinheiro era para chegar ontem, não chegou, com certeza seu pai está chegando, o dinheiro ele vai trazer”, quando foi no outro dia, ela falou isso num dia, no outro dia eu cheguei, me recebeu como se fosse o namorado recém chegado, com o maior prazer, com o maior carinho, magrinha que tava, naquele tempo a férias não eram trinta dias, eram vinte e dois dias só, eu passei praticamente lá uns doze dias, por aí, o resto foi só com viagem, mas foi uma maravilha. E voltei para São Paulo sem encrenca, sem discussão, nunca perguntou a mim nada, nada, nada. Quando nasceu a filha, que eu passei para ela os dados, ela pediu que Deus abençoasse a mim e a filha e o resultado foi que nós vivemos uma vida, em vida nunca tivemos desentendimento, mesmo com todas essas tribulações praticadas por mim, né, porque não foi nada dela, foi de mim e eu digo a você com sinceridade, hoje posso dizer assim: as duas mulheres que eu fui casado, porque eu tive de dizer assim, que Deus abençoe elas onde elas tiverem e que me abençoe, que quando eu arrumar outra, se, que não seja diferente, a ser diferente eu quero morrer sem ninguém, pode acreditar. E a minha filha hoje, que já é paulista, né, tá com trinta e três anos, mora ali no Santa Maria, perto do Olaria, também nessa encerrou, nasceu aqui no hospital Servidor Público aqui no Ibirapuera, que minha mulher era funcionária pública. Minha mulher graças a Deus começou a trabalhar como funcionária pública, que eu tirei ela de um serviço aí que não tava dando certo, aí chamaram ela para trabalhar, fazer uma entrevista, ela trabalhou numa limpadora, fez o serviço lá para uma funcionária, numa secretaria e ela gostou do serviço, perguntou se ela não queria trabalhar no Estado, ela disse: “Eu nunca, não posso dizer que não quero, mas também não posso dizer que quero, eu já fiz tanto jeito para trabalhar no Estado, nunca consegui lá no Recife”. Conversaram naquele dia, ela fez a faxina lá no escritório, laboratório onde ela foi fazer, quando foi com uns oito dias aquela moça que conversou com ela mandou chamar para conversar com ela, chamou e perguntou se ela queria trabalhar no Estado, ela disse: “Quero”, fizeram uma entrevista lá, ela fez alguma continha lá, que ela sabia fazer, passou porque com cartucho passa em qualquer lugar, né, começou trabalhar, para encurtar a história, trabalhou vinte e trÊs anos, nunca saiu do departamento onde ela começou, lá no bloco dezessete e eu, quando ela morreu fiquei só novamente.

 

P/1 – O senhor quer...

 

P/2 – E acho que a gente para e aí retoma na próxima porque aí ele conta bem essa fase.

 

R – Eu vivo com uma neta, né, a neta e o bisneto em casa, são as três pessoas em casa.

 

P/1 – Mestre, a gente vai parar um pouquinho então e aí a gente vai marcar outro dia para gente voltar.

 

R – Bem.

 

P/1 – Tá bom?

 

R – Ta ok.

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