Busca avançada



Criar

História

"Vários pedacinhos de dentro"

História de: Elisa Maria Loureiro da Silva Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/12/2020

Sinopse

Nasceu em Belo Horizonte em 1951. Família unida e festeira. Estudou no Colégio Sion e formou-se na PUC Rio. Começou a trabalhar no Pueri Domus em 1992, como coordenadora pedagógica. Hoje é diretora da unidade do Verbo Divino. Gosto pelo trabalho, importância da educação na sociedade. 

Tags

História completa

P1 – Boa tarde, Elisa.

 

R – Boa tarde.

 

P1 – Gostaria que você falasse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Sou Elisa Maria Loureiro da Silva Pereira, nasci em Belo Horizonte, no dia 15 de abril de 1951.

 

P1 – E qual a sua atividade ou função aqui no Pueri?

 

R – Eu sou Diretora da Unidade Verbo Divino.

 

P1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Milton Ribeiro Loureiro e Rosalvi Costa Loureiro.

 

P1 – E qual a origem da sua família?

 

R – Minha mãe é do Piauí, de Teresina. Meu pai é de Varginha, Minas Gerais. Eu nasci em Belo Horizonte. Meu pai é engenheiro, foi fazer uma obra em Teresina, conheceu minha mãe, casaram e vieram morar em Belo Horizonte. 

 

P1 – E como era a casa onde você morava na infância?

 

R – Eu morei até os cinco anos de idade numa casa ao lado da casa da minha avó paterna. Uma casa muito gostosa, que eu tenho lembrança de um quintal super gostoso, com mangueira, pitangueira. E uma garagem que ia até o fundo, onde a gente fazia casinha de boneca. Agora esse quintal é menor do que minha lembrança guarda. Depois eu voltei lá e ele não era tão grande como ele está no meu coração. Aos cinco para seis anos de idade, eu me mudei para uma casa perto da escola onde eu fui matriculada quando eu nasci, que era o Colégio Sion. Eu morei até me casar. E essa casa era uma casa mais moderna, que meu pai que fez a planta. Então ela foi feita especialmente para a minha família. Eu tenho muito boas lembranças dessa casa.

 

P1 – Mas vamos voltar um pouquinho ainda àquela sua primeira casa. Como era o local, a vizinhança, a rua?

 

R – O local, era na rua Nunes Vieira, no bairro Santo Antônio em Belo Horizonte. Tinha vizinhos que são meus amigos até hoje, né? Morava a minha avó, ao lado da minha casa. Tinha uma professora de francês que depois me deu aula, chamada Belita, que era uma pessoa muito especial, muito exótica, adorava gatos, falava francês super bem. Depois que eu fiquei mocinha, eu fui ter aula de francês com ela. Numa outra casa em frente morava uma família, cuja avó era uma portuguesa, Dona Maria, que meio que cuidou da gente até eu me casar. Depois eles também se mudaram para o bairro que eu me mudei, que era o Sion. Que mais que tinha?

 

P1 – E na sua casa, com quem que vocês moravam?

 

R – Na minha casa, meu pai, minha mãe, uma empregada maravilhosa, que se chamava Anita, aliás, se chama. Anita foi, morou conosco durante dez anos. E uma babá chamada Geralda. Nós éramos quatro filhos, eu a mais velha, mas acho que nós quatro nascemos em seis anos. (risos) Então, era uma escadinha e a gente brincava muito junto. Meu pai sempre gostou muito de cozinhar e calculava durante a noite, então ele fazia umas comidas meio de madrugada, acordava todo mundo. Então a gente tem uma história, assim, muito mineira, muito de ir para a cozinha a noite. Com isso, eu gosto também muito de cozinhar e tenho essas lembranças dessa primeira fase muito gostosas, né? Domingo era dia de assistir Tom e Jerry. Então eu e minha irmã, que é depois de mim, a Rosinha, meu pai nos levava para assistir Tom e Jerry, que era às dez da manhã, no Cine Tupi, que depois virou Cine Jacques. Os dois pequenos ainda não podiam ir assistir Tom e Jerry. Então era o programa do domingo, nessa faixa etária.

 

P1 – E as brincadeiras? Você lembra do que vocês brincavam?

 

R – Lembro. A gente tinha vizinhos na rua, o João Marcos, a Etelvirinha, a Patrícia, que era um pouquinho mais velha do que eu, mas meio que comandava as brincadeiras. Então, a gente brincava muito de casinha, de bonecas, de montar a casinha com móveis. Brincávamos de barra manteiga, queimada. Na garagem tinha um espaço grande, onde a gente brincava de queimada. Tinha uma tartaruga grande - acho que era um Jabuti, que era enorme - na minha casa e no final do dia, varria o quintal e às vezes punha fogo nas folhas. E sempre essa tartaruga estava no meio das coisas que iam queimar. (risos) Então, tinha, pelo menos uma vez por semana, tinha um salvamento da tartaruga. E aí, os vizinhos, as crianças todas iam lá para casa. Então, essas coisas você está me fazendo tirar do baú agora. (risos) Há muito tempo eu não andava por esse departamento. Que mais?

 

P1 – E das brincadeiras, você lembra de alguma que você gostava mais?

 

R – Olha, eu gostava muito de brincar de casinha, de escolinha e gostava... Eu fui para a escola só com sete anos, então eu tinha uma coisa em mim, um desejo muito grande da escola. A minha mãe comprou caderno e lápis e a gente montava uma escolinha. Então, escolinha, casinha, fazer comidinha, essas coisas eu gostava muito. E ouvir história, né, toda noite minha mãe contava história para a gente. Então, são lembranças assim. As brincadeiras andavam um pouco por aí. Ouvir música, meu pai gostava muito de música, música clássica. Então, ele ficava calculando sempre com um Beethoven, Chopin rolando lá, numa vitrola enorme. Um móvel enorme que fazia lá o papel do toca-disco de hoje, hoje não, que já é o cd-player, o ipod. Mas ele tinha muitos discos, bons discos. Então, a gente vivia um pouco nesse mundo.

 

P1 – E as brincadeiras eram mais em casa?

 

R – Em casa, no quintal.

 

P1 – Rua, clube?

 

R – Pouco na rua. O clube foi entrar na minha vida a partir dos cinco anos, quando a gente mudou dessa casa. Aí é que a gente passou a frequentar clube e o programa do fim de semana mudou um pouco. Mas até os cinco anos, era mais em volta dessa casa e da casa da minha avó, que a gente ficava muito indo e voltando. Às vezes, “vem lanchar”, “já lanchei na avó”. Então, a gente dividia bastante essa vida. E a minha tia, que era moça na época, cuidava muito da gente. Eu sou a neta mais velha, a minha irmã em seguida, éramos só nós duas de netos. Então essa minha tia, que é minha madrinha, Tia Nena, cuidava muito, fazia muitas coisas gostosas. A gente acordava de manhã e sempre tinha uma bandejinha no quarto dela de alguma coisa boa, né? As brincadeiras misturavam um pouco criança e adulto. A gente vivia muito no meio dos adultos.

 

P1 – E as comemorações, festas?

 

R – Olha, a minha família era muito festeira. Então qualquer coisa a gente comemora, né, e depois casei com uma pessoa muito especial também, que fala o tempo inteiro que a gente tem que comemorar a vida. E a gente tinha comemorações de dia dos pais, dia das mães, dia de reis, que minha família tem uma cerimônia que a gente aprendeu com a Dona Maria, essa portuguesa. Então a gente faz uma homenagem pros três reis magos, come romã e toma vinho. E natal, sempre foi muito também, tinha um ritual muito grande. Eu só fui quebrar esse ritual com dez para onze anos, porque até aí eu acreditava em papai Noel. Então, a gente ia para casa da minha avó, dormia lá e à meia-noite meu pai acordava a gente e tal, e papai Noel tinha chegado. Então, assim, tudo girava em torno da família e dos amigos. Dia de reis era um dia que a casa ficava muito cheia. A dos meus avós, depois a dos meus pais e hoje a minha, né, porque os amigos sabem que dia de reis é dia de tomar vinho com romã e todo mundo chega. É só chegar que a gente comemora.

 

P1 – Tem algum fato marcante da sua infância que você lembra?

 

R – Acho que essas coisas que te falei, né, que estão muito fortes agora com a gente conversando sobre isso. Tem uma vez, minha tia tinha acabado de casar, voltado da lua-de-mel e estava arrumando a casa dela. Ou ia se casar. Aliás, dois acontecimentos que você me fez ir lá... Foi antes do casamento, não tinha pensado. Foi com o marido, e eu e minha irmã nos escondemos no carro atrás. E fomos para casa escondidas. Só que naquela época, telefone era super difícil, ela não tinha telefone na casa nova dela. E minha mãe ficou desesperada, porque ela passou umas três horas arrumando a casa, num bairro longe, era na Barroca, e a gente lá, achando o máximo essa história. Quando voltamos foi uma bronca grande, né, minha mãe já falava de responsabilidade. Mas a gente deu boas risadas, eu e a minha irmã, com essa história. No dia do casamento a gente foi dama de honra, tudo muito lindo, a minha tia se casou no Palácio do Bispo e depois a festa foi na casa da minha avó e do meu avô. E com aquela história de garçom passarem sempre com a bandeja muito no alto, né, e nós pequenas... Então, quando eles entraram na despensa para pegar coisas, nós trancamos dois garçons, eu e a minha irmã. E eles ficaram trancados. E até que dessem conta dessa história, foi assim. Foram duas coisas que a gente lembra até hoje e dá risada, mas que criou um tumulto na festa. (risos)

 

P1 – Qual foi sua primeira escola?

 

R – Foi o Colégio Sion. Era uma expectativa muito grande da minha família e cada uma que nascia, meu pai ia matricular. Então, eu tinha uma expectativa muito grande quanto à escola.

 

P2 – Só uma pergunta: seu pai matriculava quando nascia?

 

R – Era. 

 

P2 – Por causa de vaga isso?

 

R – Por causa de vaga. A escola, não era uma escola muito grande. Ela tinha uma classe de cada série, né, uma classe grande. A minha classe de primeira série eram 45 alunos, uma classe bem grande. E tinha essa expectativa. Ele comprou um terreno perto do colégio e a gente foi morar lá. Então, foi no Colégio Sion. Quando eu estava na quarta série, o colégio foi vendido para as Irmãs Dorotéias. E eu continuei na escola. Fiz até a quarta séria. Minha irmã, a segunda, até a segunda série e aí a terceira já não foi no Sion, foi direto pro Dorotéia. Meu irmão, pro Colégio Marista.

 

P1 – Isso em Belo Horizonte?

 

R – Em Belo Horizonte. 

 

P1 – E como você ia para escola?

 

R – Eu ia a pé, era pertinho, né? No começo, minha mãe me levava, ou minha mãe ou a empregada, quer dizer, no primeiro dia foi minha mãe, meu pai, todo mundo. (risos) E elas tinham uma concepção de que preferiam que as crianças não fizessem jardim. Então, o único que fez jardim na minha casa foi meu irmão. No primeiro dia de aula, dia três de março de 1958, eu estava com seis anos, fazia sete em abril. Foi um dia muito especial e eu fiquei muito feliz com tudo. No segundo dia, já bateu uma angústia, né, e eu ameacei de chorar, assim: “ai, eu vou ficar aqui”. Ai no terceiro engrenou e eu tenho muitas lembranças boas dessa fase.

 

P1 – Conta para nós alguma lembrança boa.

 

R – Bem, assim, eu sempre fui a menorzinha da escola até o terceiro ano do magistério, que na época chamava normal. Então, era a primeira da fila, meio que fui mimada também na escola, né, a professora. E a professora tinha um nome enorme. No primeiro dia a gente recebia a ficha e a ficha não cabia no caderno, porque era Dona Ana Augusta Resende de Souza Melo. E, “nossa, vou ter que saber escrever esse nome inteiro?”. Mas ela era muito carinhosa, muito bonita, muito perfumada. Então, essa lembrança da primeira professora é a melhor, né? Aprender a ler, eu já tinha muita curiosidade. Então foi muito mágico, muito rápido, não tive sofrimento para isso. E na escola, até a quarta série, enquanto era Colégio Sion, a gente aprendia francês, desde a primeira série. Então a primeira série tinha umas assembléias no final de cada mês, onde a gente recebia uma medalha, recebia um fitão e no final do ano recebia uma medalha pela sua competência anual. Ou de ouro, ou de prata, ou menção honrosa. E nessas comemorações sempre tinha uma peça de teatro. A minha primeira peça de teatro foi fazer o Pequeno Príncipe em francês. Então, era um desafio decorar aquilo em francês e eu com esse cabelo preto, que era preto na época, hoje é culturalmente castanho, eles tingiram meu cabelo com uma purpurina dourada. Isso eu me lembro muito, dessa situação, da peça e do carinho das pessoas, me ajudando a enfrentar isso aí. Outra passagem da primeira série, na primeira e segunda séries eram as crianças, uma escola só de meninas. Então a gente era convidada a ser madrinha de formatura das formandas do normal. E nesse meu primeiro ano, não eram todas, eu tive o privilégio e alegria de ser convidada por uma moça, que era a Eliana Ferreti, que ela ficava o dia inteiro “ai, que linda. Olha os olhos dela”. E eu ficava achando aquilo muito bom. (risos) Então, no final do ano a gente participava dessa cerimônia em uniforme de gala, levava uma coroinha de flores. Era o ritual de formatura que as pequenas compartilhavam com as formandas.

 

P1 – E como que era nessa época? Era uniforme, roupa?

 

R – Era uniforme. Uniforme. A gente tinha um uniforme de uso diário, que era um uniforme azul marinho, de alças, uma blusinha branca toda plissadinha na manga, plissadinha na gola, sapato preto – tinha determinado sapato, tinha que comprar numa loja chamada Clark – e meia branca. Tinha o uniforme de gala, que era um vestidinho de fustão, usava uma meia fina três quartos, sapato de verniz, chapeuzinho branco com uma fita azul marinho e luvas brancas. E a gente tinha um avental, xadrezinho de azul e branco, que a gente usava durante o dia no colégio e tirava na hora de ir embora. Penteava o cabelo, tirava o uniforme, dobrava, para sair arrumadinha. (risos) Então, tinha esse ritual também. E tinha o uniforme de ginástica, que a gente vestia antes da aula de ginástica, que era uma sainha branca, botões vermelhos, de fustão também. Outro tipo de fustão, fustão listradinho, cavadinho com golinha e um calção assim fofoca, bem fofo e tênis. (risos) Então, tinha essa troca toda, durante a semana, de roupa na escola.

 

P1 – E os materiais? Você lembra como eram livros, canetas?

 

R – Lembro. A gente aprendia a ler numa cartilha chamada Lili, que eu me lembro de todas as lições de cor. Aí em agosto, a gente recebia um livro, o segundo livro que não era mais uma cartilha, que era Pedro, Pedrinho, Pedroca. Era um livro de capa verde, com Pedrinho, que era um garotinho todo feliz, correndo para escola com os livros. E no fundo da minha classe não tinha muitos materiais, brinquedos, não, na escola. A escola eram as carteiras e no fundo da sala da primeira série tinha como se fosse uma salinha com banquinhos, uma mesinha, uma biblioteca e muitos livrinhos. Então, a gente terminava a lição ou a atividade que estava fazendo e podia pegar um livro lá atrás. Isso era o máximo, poder sentar lá atrás nos banquinhos, né? Os materiais eram: caderno, livro, estojo de madeira, lápis, um apontador. Então tinha aquilo que mais ou menos a professora sempre verificava a organização disso. Essa questão da organização, como não era muita coisa, não tinha muito apelo como a gente tem hoje, era fácil de organizar. Então eram estojo, cadernos, encapados por cor da classe, primeira série era vermelho, e isso valia para tudo. Desde o cinto, a gente tinha um cinto que punha quando chegava na escola e uma cruz, que era um tecido parecido uma lãzinha. Então, primeira série era vermelho, segunda era grená, terceira era laranja, quarta era verde. Depois tinha o ginásio e o curso normal, que acabou o Colégio Sion, não cheguei nessa parte. Mas achava muito lindo, porque as cores já se misturavam. E a oitava série, que na época era quarto ano ginasial, eram todas as cores. Então, era aquele cinto colorido que todo mundo queria chegar lá. (risos)

 

P1 – E as disciplinas, né, as antigas matérias? Qual você mais gostava nessa época?

 

R – Olha, eu gostava muito de matemática, que depois não veio ser o meu forte, e sempre gostei muito de língua portuguesa. Sempre gostei muito de ler e ouvir história. E como minha mãe tinha esse hábito de contar história, foi uma coisa que... Então, ela gostava muito de ler Alexandre Dumas, tem umas coisas que acabaram me puxando para essa área. E matemática, na época, porque eu via o papai calculando, coisas de matemática, e eu tinha muita afinidade com meu pai. Então, um pouco era para ele, isso. Geografia, era Geografia, História, Língua Portuguesa, ou Língua Pátria, Matemática, Francês. Acho que eram essas as matérias todas. Ah, Ciências. Ciências, eu gostava.

 

P1 – E o tempo na escola, como era organizado?

 

R – Olha, o tempo, a gente entrava às onze e quinze, que até hoje não consigo entender esse horário. Eu acho que almoçava dez pras onze, porque eu morava perto. Mas quem morava longe e que ia de ônibus, a escola tinha um ônibus, eu não entendo que hora era esse almoço, porque a escola começava às onze e quinze. Então, a gente entrava às onze e quinze, fazia uma fila e ia com a professora. A primeira coisa que acontecia na classe era a lição de casa para correção. Corrigia a lição de casa, isso dava mais ou menos quarenta minutos, meia hora. Aí, tocava o sinal do meio dia, que era a hora do Ângelo. Então, a gente rezava ao meio dia, né, uma Ave Maria. Aí, o dia transcorria e a aula terminava às quatro e quinze. O que também era cedo. A maioria das mães não trabalhavam. Da minha classe, que eram 45, eu me lembro de duas mães trabalharem, que eram absolutamente diferentes do todo, do grupo. Então, acho que tinha a disponibilidade para esse horário maluco, que eu não entendo, de onze e quinze às quatro e quinze. Quatro e quinze batia o sinal, tinha um recreio no meio, gostoso, que a gente brincava muito de barra manteiga, queimada, bola, gostava muito de bola. Depois mais velha jogava vôlei. Mas eu aprontava algumas também na escola. Às vezes, eu recolhia relógio de todo mundo, depois para devolver era uma confusão. Pegava todas as lancheiras e punha num bolo. Mas, ao mesmo tempo que eu fazia essas traquinagens, era tudo tão querido, sabe, que eu não me lembro de uma bronca, até a quarta série. Depois eu me lembro.

 

P1 – E leitura, o que vocês liam?

 

R – A gente lia Monteiro Lobato, acho que tudo de Monteiro Lobato, que me acompanhou durante esses quatro anos. Muito Monteiro Lobato e muitos contos de fada. Aqueles contos terríveis, né, que a bruxa quando falava saia cobras da boca, onde a questão do mal era o mal, o bem era o bem. Então, muitos contos de fadas e das minhas leituras, me lembro muito de Monteiro Lobato.

 

P1 – E biblioteca, tinha na escola, vocês levavam? Como era?

 

R – Tinha. Tinha essa biblioteca na primeira e segunda séries no fundo da classe e tinha uma biblioteca grande que eu fui depois uma assídua frequentadora à partir da quinta série. Eu li toda coleção de teatro da escola, que tinha uma coleção muito boa. E tinha uma bibliotecária muito especial também. Ela era muito jovem e tudo que saía, ela “olha, tenho uma coisa boa”. Isso acabava incentivando.

 

P1 – E você lembra de histórias que você lia, ouvia?

 

R – Lembro. Lembro muito do Jeca Tatu, lembro do Monteiro Lobato, lembro das Reinações de Narizinho, muito. A Chave do Tamanho, alguns me marcaram muito.

 

P1 – E tecnologia, existia alguma tecnologia aplicada no ensino?

 

R – Olha, tecnologia, tinha slide, deixe me ver, não tinha muito, senão teria me lembrado. A escola tinha uma coisa bem arrojada. Até a quarta série, esse mundo era mais restrito, as freiras também, a Madre Superiora era francesa. Isso restringia um pouco a comunicação com os pais, mas depois que as Dorotéias chegaram, italianas bem decididas, a escola deu uma mudada nessa questão de tecnologia e tal. Que até então, o que tinha? Era slide, retroprojetor, cinema. A gente usava muito cinema na escola, trechos de filmes. E aos sábados tinha uma sessão de cinema, que a gente ia. Era Super 8, ou 16 milímetros, a gente ficava na arquibancada do salão que tinha. Mas era absolutamente divina essa sessão de cinema. (risos) Mas de tecnologia mesmo, na questão educacional, muito pouco. Era retroprojetor e slide.

 

P1 – Cinema era uma atividade extracurricular?

 

R – Tinha do final de semana, uma vez por semana, essa sessão de cinema e alguns filmes que os professores levavam. Então, às vezes a gente assistia e tinha debates sobre isso.

 

P1 – E o material para avaliação era mimeógrafo? Você lembra?

 

R – Era mimeógrafo. Primeiro não era mimeógrafo, era papel almaço e as questões eram passadas na lousa e a gente copiava a questão e respondia a prova. Era prova, né, e alguns exercícios para nota. Mas também nesse sistema de folha de papel almaço. Depois, mais tarde, bem mais tarde, acho que eu já estava na quinta série, aí o mimeógrafo chegou com tudo. Então, bastante folhinha mimeografada.

 

P1 – Novidade.

 

R – Novidade. (risos) Alta tecnologia. Aí, a gente usou bastante e quando cheguei no meu curso normal, e foi também uma ida e uma volta, porque na oitava série eu resolvi que queria fazer científico, queria fazer medicina. Eu lia toneladas de livros de psiquiatria, da mente, dessas coisas. Aí para sair desse colégio Santa Dorotéia e ir pro Colégio Loyola, que corresponde ao São Luís em São Paulo, eu tive que estudar muito. Do final de agosto a dezembro, eu e uma colega, Maria Inês Boechat, que foi fazer medicina mesmo, a gente se empenhou. E era o primeiro ano que o Colégio Loyola abria para meninas, porque era um colégio só masculino. Sete foram aprovadas e eu fui uma delas. Eu fiquei muito feliz e os padres maravilhosos que queriam que a gente entrasse num entrosamento legal na escola, então eles falavam: “como vocês querem o uniforme?”, “Onde vocês querem que ponha o espelho no banheiro?”. Então, assim, foi um movimento muito legal na minha vida, nessa escolha. Aí, com três meses, passou março, abril e maio, eu resolvi visitar a minha antiga escola, a Santa Dorotéia. Aí, me encontrei com o meu grupo, que tinha sido o mesmo desde a primeira série e elas estavam fazendo um curso, que eles chamavam curso de formação, que era o curso normal, magistério. Eu me encantei com o que elas estavam fazendo. Cheguei em casa e falei pro meu pai e para minha mãe: “acho que eu quero voltar pro colégio”. Meu pai falou: “não entendo, você teve tanto esforço, tanto empenho para entrar nisso. Você não está gostando?” “Estou, mas é que eu quero trabalhar com a escola, quero dar aula”. Aí, voltei na escola e fui procurar a Madre Superiora. Aí falei: “quero voltar, quero voltar”. “Você vai voltar”. Voltei pro Loyola, conversar com o padre: “olha, acho que eu quero voltar para minha escola, tal”. Ele tentou me convencer que eu estava começando, mas eu já estava decidida, já estava até no grupo que eu ia fazer o trabalho, que o estágio era numa favela, trabalhar com as crianças carentes. E aí, eu me empolguei. Terminei junho e em agosto eu voltei e comecei o curso normal no segundo semestre. E aí eu me encontrei, quer dizer, eu queria muito trabalhar com gente, e esse universo era o que eu queria. E andei rápido. (risos)

 

P1 – Vamos voltar um pouco, ao recreio. Eu queria saber como era o recreio naquela época?

 

R – Tinha uma freira que tomava conta do recreio. E volta e meia a gente ficava em volta dela conversando, ela contava as histórias dela. Porque eu tinha uma curiosidade enorme, eu e minhas colegas, o que era aquela vida de freira, né? Tinha cabelo, não tinha cabelo, às vezes tinha um fio puxado no cabelo de alguma delas, a outra não, aparecia um pouquinho da careca. Então, a gente tinha um mistério para desvendar. Por outro lado, aquela roupa, elas tinham uma roupa preta e no verão uma roupa branca. Então, às vezes, a gente brincava, às vezes a gente ficava em volta dessa freira que tomava conta do recreio. As professoras eram leigas e uma freira dava aula de religião, e às vezes de matemática. As outras matérias ficavam com professoras leigas. Então a gente sempre tinha uma professora e uma freira. E no recreio era esse ti-ti-ti. E a parte da clausura delas, tinha uma escadinha vermelha no último andar da escola, onde era proibido subir. Às vezes, a gente subia dois degraus e voltava: “subi dois degraus!”. (risos) Então, tinha todo esse clima, esse mistério dessa vida religiosa delas. Isso também me influenciou muito, né, quer dizer, a minha família é católica, minha mãe sempre foi muito religiosa. Então, conviver com isso também teve uma influência muito grande na minha vida. Hoje eu sou um pouco de tudo, mas sou mais católica, né? Nessa coisa um pouquinho pro Budismo, mas essa época de colégio de freira teve um peso grande. Então, a gente tinha toda sexta-feira, porque estava garantido o céu. Algumas coisas que hoje a gente consegue ver até um pouco de folclore em tudo isso. Mas isso foi importante na minha formação. Fiz primeira comunhão no colégio, como todo mundo. Depois eu, meu primeiro, fui noiva antes desse casamento com meu atual marido, que tem 32 anos. Então meu noivado, esse noivado teve uma bênção no colégio. Então, sempre tive laços grandes com o colégio, até hoje. Depois, minha mãe trabalhava na obra social da escola, então, tinha um papel importante dentro desse movimento social da escola. Então, a gente sempre compartilhou muito essa questão da religião e da responsabilidade social, que hoje se fala tanto. Isso sempre foi muito presente na minha vida de infância e na escola.

 

P1 – Uma curiosidade, vocês chegaram a passar dos dois degraus, ou não?

 

R – Até o três.

 

P1 – Até o terceiro? (risos)

 

R – Para cima a gente não foi. Era uma escadinha vermelha muito... E hoje, quando a gente se encontra, volta e meia com algumas do grupo, a gente lembra disso: “puxa vida, custava ter subido mais um pouco?”. Mas a gente respeitava.

 

P1 – E as pessoas mais marcantes da sua vida escolar?

 

R – Olha, eu tive uma professora da primeira série, que eu escrevi cartas de agradecimento para ela acho que até a quarta. Algumas chegaram e ela me respondeu, muito querida. Então, ela foi uma pessoa super bacana. Eu me emociono quando lembro. Depois eu tive uma professora, já no curso normal, Sônia, lecionava português e que também foi muito determinante, assim, na minha vida profissional e toda essa minha viagem na literatura, a Sônia foi muito determinante. Eu tive também uma professora na terceira série que também foi muito especial, Dona Elianes. No começo, eu não gostava muito dela, era muito magrinha, muito brava. Um dia eu cheguei em casa muito chateada, não sei porquê. Eu sei que despejei um caminhão em cima da minha mãe. E minha mãe foi na escola, eu não sabia, conversou com a freira, conversou com ela. Mas minha mãe não falou para mim, porque a escola tinha razão em tudo. Essa é a grande diferença. A escola tinha razão, eu estava no melhor colégio de Belo Horizonte e o que acontecesse lá era tudo de bom na minha vida. Mas, no dia seguinte, a freira na aula falou algumas coisas, de às vezes o trabalho que a professora tinha e que como a gente não conseguia ver isso. Tudo que ela foi falando no todo era para mim. Eu pensava: “será que ela estava na minha casa, ontem à noite?” Aí, acabou a aula, fui para casa e falei: “mãe, você foi na escola?”. “Não”. Daí no outro dia, essa professora falou: “você pode ficar um pouquinho mais hoje à tarde, até umas cinco, cinco e meia e me ajudar a corrigir uns cadernos?” Fiquei tão orgulhosa: “claro que eu posso”. Então na hora que a empregada foi me buscar, eu falei que a professora tinha pedido e ela voltou. Eu fiquei até cinco e meia ajudando a corrigir os cadernos da minha classe. E aí a gente foi criando um vínculo super bacana. E eu fui me apaixonando por ela, chegava em casa toda animada: “Ai, hoje aconteceu isso, aconteceu aquilo”. E minha mãe ficou grávida, eram gêmeos, mas perdeu os bebês. E ela me deu muito apoio. Ela foi no meu aniversário, porque não ia ter festa, meio que foi aquilo... E minha mãe queria que tivesse, porque já estava tudo, já tinha sido dolorido. E ela foi uma professora muito especial. Só depois eu fui saber que minha mãe tinha ido e que ela resgatou isso de um jeito super bacana.

 

P1 – E a relação entre os alunos e os professores?

 

R – Olha, era muito respeitosa, muito gostosa. Agora tinha um grupo, quatro meninas que eu me lembro que me acompanharam, que eram, assim, levadas, ousadas, né? E isso, como eu era uma leva mais comportada, eu às vezes olhava com admiração para elas. E aí, já no ginásio, tinha uma que tinha tomado uma bomba pelo caminho, então era a mais velha do grupo. E era ousadíssima, levava gravador, punha na mesa da professora, a professora: “tira isso daqui”, “não tiro”. Então, tinha uma relação muito boa no grupo, eu me lembro assim de que não tinha nada pesado, nem de rejeição, nem de briga. Agora tinha sim esse grupinho ousado, que enfrentava e que eu olhava com uma certa admiração essa coragem.

 

P1 – E outras atividades da escola? Você falou de teatro, e coral, fanfarra?

 

R – Tinha coral, teatro, fanfarra não tinha. Tinha uma educação física que era muito gostosa, porque a gente trabalhava muito com garrafas, bambolês, arcos. Então a gente tinha umas apresentações, a gente tinha uma feira de livros que era muito gostosa, aquele evento era muito bom, grupo de leitura, que mudava toda semana quem era o chefe do grupo de leitura. Então tomava leitura dos outros e montava uma certa atividade. A gente tinha muita parte esportiva de educação física, era muito bacana, porque a gente tinha jogos com outros colégios. E aí, os meninos iam, masculinos também iam para torcer. Depois na oitava série, curso normal, a gente teve uma diretora bastante ativa, despojada, bacana, Madre Porto. E aí ela fazia algumas festas, que a gente organizava junto com algum colégio masculino, ou Loyola ou com Santo Antônio, de Padre, obviamente. Mas que a gente tinha essas atividades muito legais. Um dia na escola, que se não me engano final de junho, começo de julho, tinha um encontro de ex-alunos. Então a gente que era aluno ia e iam os ex-alunos. Tinha um almoço oferecido pela escola, que era muito gostoso. Tinha um padre que era capelão da escola, que dava aula para gente de religião. E também era sempre ou um Dominicano, padres mais arrojados, e que também marcaram muito minha vida. Foram padres que, na morte do meu irmão, foram quem celebrou conosco essa dor. Então, tudo isso de atividades paralelas, corriam por esse âmbito.

 

P1 – E a juventude, como que era grupo de amigos? Como que eram os locais que vocês frequentavam?

 

R – Olha, depois que eu me mudei para essa casa, cinco para seis anos, no Sion, a gente fez um grupo muito gostoso, que são amigos até hoje. Todo mundo mais ou menos da mesma idade. E na minha casa tinha um jardim e tinha um murinho. Do lado de fora era alto, mas do lado de dentro era baixo, dava para sentar, porque já era gramado. Então, chamava a turma do murinho, que era na minha casa. A gente estando lá, a reunião era lá. Então, a gente tinha muito essa coisa de rua, né, de rua e de casa, porque a gente fazia festas, às vezes na minha casa, às vezes na casa da Ana Amélia, às vezes na casa do Renato, outras vezes na casa da Ana Carmem. A gente era a rua inteira de jovens e as transversais. A maioria estudava no Sion, duas ou três exceções e os meninos estudavam no Dom Silvério, Marista, ou no Loyola ou no Santo Antônio. Então, a gente tinha esse movimento de rua e de casa. Na minha casa, casa mineira, sempre tinha lanche. Era uma festa, porque eles sabiam que tinha lanche à tarde, (risos) então podia saber, quatro e meia cinco horas aquele monte lá. Tinha que ter sanduíche, pão de queijo. E a gente ficava até umas nove e meia, dez horas da noite. Eu fazia Cultura Francesa, aliança francesa chamada Cultura Francesa e fazia Ibeu em dias alternados. Quando eu chegava da aula, quem já tinha chegado da sua já estava no murinho. Então meio que ali era da minha casa, mas era murinho da rua. E a gente teve uma juventude assim... Aí sim, quando eu tinha uns seis, sete anos, quando eu mudei para essa casa, a gente passou a ter uma vida de clube nos finais de semana e a gente sempre ia com amigos, levava amigos. Final de semana tinha a hora dançante, que são os bailinhos. Mas sempre ia com uma das mães, e tinha hora de voltar. Isso era diferente. Começamos os namoros. Eu comecei a namorar com 15 anos e namorei até 22, fiquei noiva e aí falei: “opa, não é isso”. Então mais ou menos todas namoraram, namoro também, algumas se casaram com esses namorados e eu quando resolvi que não era isso, terminei e um ano depois me casei com o meu atual marido. Mas, mais ou menos esse grupo do colégio, a maioria se casou com esses primeiro namorados. Algumas se separaram, outras estão casadas até hoje.

 

P1 – E atividade social nessa época de juventude? Vocês tinham algum trabalho com a comunidade?

 

R – Então, a gente tinha esse trabalho que era ligado à escola, a favela que chamava Morro do Papagaio, que existe até hoje.

 

P1 – Como era esse trabalho?

 

R – Na escola, era uma escola pública, mas o nosso estágio acontecia lá. Então, a gente acabava fazendo um trabalho maior com essas famílias e tal. E a obra social da escola atendia a esse movimento toda das famílias do Morro do Papagaio, que era essa obra social que minha mãe trabalhou durante muitos anos, até ela falecer. Eu dava aula num grupo escolar, Jacó? Agora me fugiu. Eu dava aula lá, à noite, para empregadas domésticas, alguns porteiros, porque naquela época era um bairro estritamente de casas, né, tinham dois prédios pequenos. Aí, eu trabalhei um bom tempo dando aula.

 

P1 – Era aula de alfabetização?

 

R – Alfabetização. E era muito bom e elas muito agradecidas, porque eu era muito menina, tinha 16, 17, 18 anos, mais ou menos. Girava um pouco em torno disso.E volta e meia a gente tinha uma iniciativa, assim, vamos cuidar agora da Santa Casa. Mas não durava muito, a gente ia uma ou duas vezes, não durava muito. Mas no grupo da escola a gente fez esse trabalho e no Morro do Papagaio aquele outro.

 

P1 – E na família tinha alguma expectativa em relação com a sua carreira profissional?

 

R – Não. Os meus pais sempre foram muito de conversar. Meu pai falava que a gente tem que ser feliz e fazer bem aquilo que escolhesse. Então, eu tive muita liberdade nessa escolha. Quando eu quis ser professora, vou ser professora. Não tive nenhuma cobrança, mesmo porque naquela época, mulher ia casar e cuidar dos filhos. Eu fugi um pouco disso. Para a minha mãe foi muito difícil essa minha vida corrida, sempre trabalhando, né. Eu peguei uma carta que eu mandei para ela, porque eu também sou de recolher as coisas da família. Peguei todas as caixinhas dela, depois que ela faleceu, tinha uma carta minha tentando explicar isso para ela, que eu era feliz nessa minha vida. Era uma opção.

 

P1 – E pro que você optou em trabalhar na área de educação?

 

R – E que meu marido Leopoldo me apoia muito nessa minha busca da realização profissional. E os meus filhos também. Quando eu me mudei para São Paulo, fiquei um ano sem trabalhar. E minha filha chegou da escola muito aflita: “Mãe, me perguntaram se você trabalhava, eu falei que sim, porque você não está trabalhando agora, mas você vai trabalhar”. (risos) Então, eles também tinham essa expectativa. Até o mais novo ter quatro anos, eu realmente fiz muitos cursos, fiquei um pouco mais por perto, mas depois eu engrenei nessa vida de trabalho. E educação, eu volto lá quando você me pergunta das minhas brincadeiras preferidas, era casinha e escola. Então, eu acho que tenho uma vocação muito grande para mãe, gosto muito de ser mãe e me realizo, me realizei muito nisso. E como educadora. Eu acho que tenho uma missão como educadora, com meus professores, meus alunos, comunidade de pais e isso foi uma coisa que foi num crescendo. Esse convite para vir pro Pueri, foi uma coisa assim: “nossa, desse tamanho, quanta gente vou ter por perto”. E educação, acho que quem é mordido por essa vocação, vai. Hoje meu filho, que é advogado, também é professor da GV e adora dar aula. Minha filha que é atriz, trabalha em teatro e mora em Londres, também adora dar aula. Então, a vocação é ter uma escola de teatro. Por enquanto só o André, que é o mais novo, escapou disso.

 

P1 – E o seu curso, você fez magistério?

 

R – Fiz magistério.

 

P1 – E depois o seu curso superior?

 

R – Então, meu curso superior eu demorei um tempinho. Não terminei o magistério e comecei. Eu terminei o magistério, trabalhei um tempinho, tinha essa perspectiva desse casamento com esse namorado que me queria em casa, dando aula ali mesmo e estudando francês, era o máximo que... E aí, então, quando eu terminei essa relação, eu fiz vestibular. Comecei uma faculdade em Belo Horizonte, PUC, fazendo educação. No ano seguinte, não, acho que no mesmo ano, eu me casei em julho. Fui transferida para o Rio, mas tive que trancar esse semestre, porque não consegui. Aí ficou um pouco truncada minha faculdade. Minha faculdade eu devo ao meu marido. Chegava uma hora, com as crianças pequenas, eu tive três filhos nesse intervalo aí, cursando, fomos para Inglaterra uma temporadinha, por conta do trabalho dele, então trancava, voltava, trancava, engravidava. Ia para escola com um bebê, outro. Mas eu tive também muito apoio na PUC do Rio. O reitor, que foi também meu professor, Padre Viveiros de Castro, foi uma pessoa assim especial na minha vida. Faltava ainda um semestre para eu me formar, um ano, porque eu tinha no meio dessa loucura de três filhos e empregada que não dava, ia embora, não dava. Foi batizado do meu terceiro filho e no batizado ele falou: “Elisa, está se formando em julho?” “Não dá. Eu tranquei estatística, tranquei não sei o quê”. Ele falou: “Você vai. Amanhã esteja aqui às oito horas”. Foi, reabriu o que eu tinha trancado naquele semestre, aí eu peguei firme, o Leopoldo me ajudou muito e eu terminei a faculdade. Foi muito bom, tudo que eu fiz, fiz com muito empenho. Fui uma boa aluna, dedicada, mas teve um custo isso. Não consegui fazer tudo arrumadinho, termina aqui faz seus quatro anos de faculdade. Não. Tive idas e vindas, mudanças, foi assim.

 

P1 – E professor? Teve algum professor importante durante o curso?

 

R – O Viveiros de Castro foi muito importante. Ele me estimulava muito. Eu entendia muito de Montessori, porque eu trabalhava com isso, estudei muito. Então ele meio que me dava um presente: “Olha, você vai cuidar disso com a turma”. Ele foi uma pessoa muito, muito importante. A Ester Voiler, que foi minha professora de psicomotricidade, supervisora, foi uma pessoa importante, bacana, que ainda está aí atuando. Eu volta e meia busco palavras que foram deles. (risos)

 

P1 – E a trajetória profissional, como que foi? Seu primeiro trabalho?

 

R – Meu primeiro trabalho foi numa escola de educação infantil em Belo Horizonte, chamada Instituto Criança Feliz, que a fundadora era uma pessoa muito iluminada que tinha uma filha com problemas, teve paralisia cerebral. Alguém que investiu nessa escola muito amor e tinha uma supervisão de uma professora do Rio, professora Talita Bandeira de Melo, que simultaneamente, veja como esse mundo é pequeno e como as histórias se cruzam, ela dava assessoria aqui pro Pueri Domus, que a Beth estava se iniciando também aqui a escola. E depois a gente foi se encontrar num outro caminho. Então eu comecei lá, numa substituição da Ângela Grego, que era professora das classes. Foi assim um encantamento, de preparar a aula, de cuidar. As crianças eram pequenininhas e eu me envolvi muito, muito. Eu falei: “era isso mesmo que eu queria para minha vida”. Depois de lá, me casei, fui para o Rio, a Talita me ligou: “soube que você está aqui, a Olguinha me ligou e eu queria você aqui na escola”. E aí eu fui para Construtosul (?) que era a mesma linha da escola, Montessoriana, trabalhei lá até que veio esse convite pro Leopoldo ir para Manchester, na Inglaterra. Aí eu tive que parar, já estava grávida do meu primeiro filho, início da gravidez. Aí, quando voltei, já não retornei, só retornei à faculdade. Passei uma temporada fazendo cursos, envolvida com a escola, envolvida com outras escolas, fazendo cursos e sempre ligada nisso. Voltei a trabalhar quando o André tinha quatro anos, foi em 1983, no Centro Educacional da Lagoa.

 

P1 – Eu queria perguntar uma coisa sobre esse método Montessoriano. Na época, como que foi a sua, você se identificou com ele? Conta um pouco melhor isso.

 

T - Na época, quando a Olguinha me chamou para fazer esse estágio, para essa futura substituição, talvez, ela precisava me conhecer, ela falou do Montessori. Eu tinha lido duas páginas no curso normal, muito pouco. E a escola proporcionava um curso no fim de semana, começava cedo e ia até de noite, mas muito interessante. Eu fui me aprofundando nisso. Era uma proposta muito nova, na época, para o Brasil, né, porque ela era uma italiana. Então fui. E o que tem nessa proposta de muito interessante? Um respeito pelo desenvolvimento da criança, a faixa etária e um respeito enorme pelo ambiente em que ela cresce, pelos materiais, tem um material muito rico e a gente aprendeu muito sobre esses materiais. Então, era muito lúdico esse curso, porque você tinha que brincar com aquilo para você ver o que esperar dos seus alunos. Então, ao mesmo tempo que você aprendia para ensinar, aprendia para você. Foi uma viagem profissional desse aprendizado, mas muito pessoal também. De você poder estabelecer contato com aquilo que era muito novo. E isso estava acontecendo aqui em São Paulo, desde 1966, com a Beth fundando o Pueri Domus.

 

P1 – E no seu trabalho, as atividades que você desenvolveu?

 

R – Olha, eu até trouxe dois caderninhos meus, que foi uma delícia encontrá-los no meio das caixas. Então eu preparava um plano de aula em que cada momento do dia, eu sempre tinha uma preocupação de preparar mais coisas, porque eu preferia que sobrassem coisas preparadas do que o “e agora?”, nesse começo. Depois, quando você vai ficando mais tarimbada, você sabe o que fazer. (risos) Mas, nesse começo eu tinha a preparação do plano de aula, né, objetivo e depois que terminava a aula eu sentava e fazia o relato do grupo do dia e de cada um. Isso me acompanhou até a última classe em que eu dei aula, que foi aqui na Casinha Pequenina. Esse tipo de registro e de preocupação de ter registrado até para conversas com os pais e com a supervisão. Depois quando eu passei a fazer a supervisão na Casinha, as professoras faziam isso e eu dava um feedback, mas lá eu estava falando de seis, oito professoras. Quando eu vim pro Pueri, eu me deparei com 90 professoras para esse trabalho com a rede. Então, a primeira reunião de junho, eu vi todo mundo de uniforme, todo mundo parecia muito igual. Eu falei: “eu nunca vou saber o nome de todas elas e é fundamental eu saber o nome de cada uma”. Então eu pedi para que no dia seguinte viessem de roupa, para pelo menos eu fazer uma ligação, porque o uniforme igualava muito. Aí, a gente começou um trabalho e eu falei do caderno de registro que era fundamental pro nosso trabalho. E loucamente levava dois engradados para casa, no final de semana, lia, fazia registros e tal. E outro dia a gente conversando sobre isso, nesse resgate, algumas têm esses cadernos. Então, mandava um bilhetinho na pauta questionando algumas coisas, elogiando algumas coisas que eu achava bacana. E depois um bilhetão a respeito do trabalho, sempre focado no trabalho. E era muito lindo quando punha os cadernos sobre a mesa, elas voavam no bilhete, né? Esse vínculo foi se fazendo nesse trabalho, no desenvolvimento do curso, através deste caderno.

 

P1 – Isso foi uma metodologia desenvolvida por você?

 

R – Não, eu acho que não foi por mim, porque na primeira classe a gente tinha esse trabalho. A escola falava faça os seus relatos e eu fui fazendo assim. O que tinha de bacana, meu marido falava: “isso é uma loucura. Não pode ser artesanal assim”. Mas educação é artesanal, né? Não dá para ter uma linha de produção para leitura de caderno de registro. (risos) Ou eu leio e dou o feedback, ou não tem como. Mas, assim, foi muito bom, muito bom. Foi muito rico para mim e eu aprendi muito nesse universo enorme, mas algumas coisas eu ainda sei fazer daquele jeito, um a um. Porque nas relações, cada um é 100%. Não dá para falar no grupo de 90, eu tenho uma leitura do grupo de 90, mas cada uma tem uma história de trabalho. Você não chega para reestruturar sem levar em conta essa história de vida de cada uma que foi um sucesso. Ninguém começa uma escola com quinze, estava com 6000 acho que na época. Isso é um sucesso. Então você só pode falar de transformação se você tem conservação do que é bom, das suas histórias, suas identidades. A gente criou o vínculo por esse caminho e foi muito, muito gratificante.

 

P1 – E quando você veio trabalhar no Pueri, você veio ocupar o cargo de coordenação?

 

R – Coordenação pedagógica infantil.

 

P1 – E como foi sua promoção pro cargo de diretoria?

 

R – Eu trabalhei um ano e meio nessa função, a gente começou um trabalho de reestruturação, modificação de materiais, mas sempre com essa questão muito respeitosa por essa história, com o grupo. No final de um ano e meio, final de 1993, 1994, a Bete me pediu para assumir a direção da Verbo Divino desse segmento. Que naquela ocasião existia um diretor para cada segmento na Verbo Divino e um diretor da unidade, que era a Beth, naquele momento. E aí, sim. A Beth é uma pessoa por quem eu tenho um carinho e uma admiração muito grande, porque ela foi me dando um espaço para esse trabalho. Eu acho que você precisa de liberdade e alegria para trabalhar, para realizar. Mas eu preciso ter isso, eu preciso que as outras pessoas tenham isso. E mesmo assim foi dolorido você transformar práticas, né? Algumas pessoas saíram, outras foram correndo estudar, fazer faculdade nesse início. E aí a promoção saiu um pouco de fruto desse trabalho e de um reconhecimento muito carinhoso desse grupo. Essa construção não era minha, era nossa. Eles foram se apropriando disso de uma forma bastante gratificante também para elas, no sentido de nossas descobertas e do nosso caminhar. Mais acho que dois anos a Beth me convidou para assumir também essa coordenação de primeira à quarta. A gente tinha então uma outra, outro desafio aí, que foi fazer essa construção e essa junção com o que tinha acontecido na educação infantil. Eu fui muito bem recebida, bem acolhida, né? Hoje pegando as avaliações daquele tempo delas, a queixa era sempre “você podia ficar um pouquinho mais com a gente”. Essa questão do tempo, eu também adoraria ficar um pouco mais com todas, entrar um pouco na sala, assistir uma aula, que é uma hora boa para depois ter uma troca rica, bacana, e isso às vezes o tempo não permite, como me permitiu naquele início. Eu estava focada nesse trabalho só pedagógico, com os professores, então eu tinha oportunidade de andar nas unidades, para fazer isso na rede e a gente trocar um pouco e fazer uma coisa só, um Pueri só nessa transformação. Foi muito prazeroso, eu tive um espaço de trabalho impagável, esse espaço de criação de troca, de pesquisa. Muita coisa não sabia, fui aprender junto. E aí a gente foi crescendo. Eu me lembro na época, como educação infantil parece mais fácil, é um por classe, a tua relação é diferente, né, quando você chega de quinta para cima, você tem 10 professores por classe, o encontro já é mais complicado, tudo. Me lembro que a Beth falava: “põe a Elisa no colegial para você ver. Não sobra nem o sapatinho”. Eu continuo pequenininha. E aí com meu amadurecimento profissional, minha relação com essa instituição, eu fui parar de quinta à oitava série.

 

P1 – Você sentiu o impacto dessa mudança?

 

R – Eu senti, porque o primeiro ano que eu peguei foi o ano mais difícil na minha vida profissional. Eu tinha um vínculo com essas famílias, porque eles tinham passado por mim da primeira à quarta, isso facilitou muito. Eu tinha um vínculo com eles, porque embora a gente tivesse se distanciado um pouco por alguns anos, eles sabiam quem eu era. Então, essas duas coisas me deram um pouquinho de chão. Mas a diferença é muito grande. Começamos um trabalho e eu fui fazer a coordenação da rede também. Então foi um caminhar um pouco diferente desse primeiro momento da educação infantil da primeira à quarta, mas construímos um grupo, uma equipe de trabalho. Foi muito bom. Hoje eu falo: “ai, que bom que eu tive essa competência até aqui”. Outra reestruturação que a escola passou, eu peguei a direção então da unidade Verbo Divino e aí, gente, não sei, mas acho que eu sou vira-lata, porque eu estou absolutamente apaixonada pelo ensino médio. Eu achava que minha praia eram os pequenos, que eu realmente adoro. Eu às vezes estava com muita coisa, então venho aqui e sento um pouco no chão, ganho uns beijos, umas babas aqui no maternal e te dá uma revigorada. E vai no ensino médio, é altamente desafiador, você não pode perder uma linha das falas deles. É de igual para igual, aqueles argumentos, aqueles questionamentos que te deixam vivíssima. Então, tem esse lado do adolescente, do adolescente, do jovem que é instigante, que é... Tudo o que a gente queria desses jovens que era, não é, posicionados, questionadores, deu certo. Agora, dá trabalho. Dá mais trabalho, porque a gente plantou aqui e quando chega lá, você vê que aquilo. Então é muito bom colher esses frutos. É trabalhoso, é muito trabalhoso, a gente tem dedicação intensa com a escola, não pode ser diferente. Mas é extremamente gratificante.

 

P1 – E mudanças que você implantou, presenciou?

 

R – Então, foram essas no sentido de todo material novo, toda uma concepção nova, esse cuidado de que o que existia não é nem melhor, nem pior, é só diferente. E construir isso. Hoje eu vejo que a gente é uma escola de ponta, uma escola com... muito contemporânea, né, com a proposta que é a proposta original da Bete, do respeito humano, desse espaço de desenvolvimento do ser humano. Fazer parte dessa história é muito bom.

 

P1 – Você pegou essa parte toda da reestruturação? Foi quando você entrou que começou a ocorrer?

 

R – Foi, foi. Essa última foi, porque eu acho que a escola até passou por momentos anteriores de reestruturação. Agora essa que eu iniciei em 2002 com a educação infantil e logo após as outras séries, em seguida, essa que nós estamos vivendo até hoje, eu acho que tive um papel importante nessa organização. Um respaldo muito grande da direção, da Beth, das meninas – que a gente carinhosamente chama de meninas - mas Fernanda, Roberta, Patrícia que assumiram, acho que foram muito bem preparadas para isso. É muito bom trabalhar com elas. Existe aqui na escola de transparência de afetividade que é o que te dá um espaço diferenciado de trabalho.

 

P1 – Só voltando um pouquinho. Nós falamos da reestruturação infantil quando você entrou. E aí tinham acontecido umas coisas nos anos 1990, não tinha? Nesse segmento da educação infantil, não tinha? Foi isso que puxou essa reestruturação infantil?

 

R – Não, eu acho que já vinha, né, o mundo já estava no movimento todo de uma alfabetização já diferente, que é o que a gente praticava hoje, isso já vinha. Quer dizer, a escola ainda se mantinha dentro de um modelo que algumas escolas até hoje estão, mas já vinha um movimento de mundo grande a respeito disso. Os estudos de Piaget, da Emilia Ferreiro, toda uma proposta mais voltada para construção interna e não externa do conhecimento. Então, esse movimento já vinha, a escola, o Pueri Domus já fazia parte disso, mas ainda dentro daqueles moldes embora Montessorianos, não tão Montessorianos já, mas ainda silábicos e tudo mais. E se você pegar tem escolas que ainda trabalham assim. Mas foi uma opção corajosa da Bete, reestruturar aqui para esse olhar. E aí, sim, eu visitei muitas escolas grandes, trouxe muita gente para falar, a gente teve um trabalho de capacitação dos professores intenso, de ouvir, de ler, de buscar antes de mexer. Então, a mudança foi quase que uma necessidade do grupo e a gente foi cuidadosa nesse sentido de mudar o material de a para z. O material passou por um momento um tanto híbrido, respeitando esse tempo de maturação do grupo em relação a esse novo olhar, a esse conhecimento novo. Mas tivemos um movimento intenso de capacitação, de estudo, de grupo de estudo. As pessoas se mobilizaram de um jeito muito positivo para isso. E uma ou outra que realmente “não quero isso”, teve o direito, a escolha de sair. Mas eu acho que, se você falar, foi 99% bom. 

 

P1 – Sobre a mobilização dos alunos durante o período da Feitec. Como funciona?

 

R – Olha, a Feitec é, não é só uma feira de livros. E a gente fez sempre em cima das idéias da Feitec. Já estamos cheia de idéias novas, tudo o que eu te falar, chega o ano que vem vai ser tudo diferente, será diferente. Então, eles vêm com a classe inteira, com professor de português geralmente. A gente tenta montar um horário. Da quarta para baixo com o professor da classe. Então eles vão, visitam a feira, mexem um pouco, lêem um pouco. Eu acho que livro, eu falava isso desde que era só da educação infantil, livro é para pegar, os pequenininhos têm que cheirar, entendeu? Porque é mais do que isso, ler é mais que decodificar. Então, a Feitec é um pouco para isso. Uma convivência com autores, eventualmente eles estão lendo algum livro que eu tenha possibilidade do autor vir. Então, a Feitec é uma grande mobilização, por quê? Porque, nessa unidade, a escola é grande e todo mundo ter que passar por esse espaço, precisam se organizar, depois eles vão, voltam, escolhem os livros, deixam separadinhos. Vêem em casa, “olha são esses que eu quero, posso mesmo?”. Enfim, é um incentivo. Não que a Feitec, essa feira, supera isso. Hoje a gente tem livrarias lindas, poderosas, mega onde tudo acontece ali, de evento cultural a uma cadeira ultraconfortável para você ficar passeando pelos livros. Então a gente quer falar que “olha esse é legal, mas você tem um mundo aí fora de boas livrarias”. Eu gostaria que eles fossem ratos de livrarias.

 

P1 – E desafios? Os desafios maiores que você aceitou no Pueri? Você já aceitou o desafio de ir da educação infantil para o ensino médio, né?

 

R – Isso. Eu acho que, assim, eu sou uma ariana, super agitada, vocês já notaram. E pela minha vida de história pessoal, eu me mudei muito. Eu sempre fiquei dois, três anos em algum lugar pelo movimento da vida, de mudanças e tudo mais. E eu estou a 14 anos no Pueri. Quando eu entrei no Pueri, nesse ano de 1992, em dezembro tinha a festa do olho, que é esse olho que a gente ganha. Com 10, com 15, vai pondo coisas nesse olho, né? E eu tenho muito orgulho, porque nesse primeiro ano, que eu vi a festa, ganhando olho de 10, olho de 15, de 20, eu falei com as minhas colegas, algumas também entraram naquele ano na coordenação: “gente, pelo amor de Deus. Se eu ficar 10 anos num lugar, me cutuca, porque eu morri e não sei”. (risos) Foi esse o comentário que todo mundo sabia dessa história. O grande desafio do Pueri Domus é que nenhum ano é igual ao outro. (risos) Tem desafio que não acaba mais, proposta e alinhamentos de caminhos, buscas, estudos. Então, assim, são 14 anos de um movimento de desafios e de buscas e de crescimento, que até meu fogo de ariana, ó... Eu já vou fazer 15, ano que vem, ganhei olho e o pessoal que me acompanha fala: “olha, tá vendo”. Por isso acho que a escola tem esse movimento que é uma característica da Beth, esse movimento de investimento, sabe, no novo, nos outros, nas pessoas. Isso te mobiliza e você não fica naquela sensação que me parecia em 1992, de “Imagina, ficar dez anos no mesmo lugar. Deve ser tudo igual”. Não é. Não é.

 

P1 – E dificuldades?

 

R – Dificuldades. Trabalhar com gente é um desafio a cada momento e a gente trabalha com um universo muito grande e durante muito tempo. Uma família entra aqui e vai passar 14 anos convivendo pelo menos 200 dias no ano. Então, dificuldades, elas vêm, elas te atravessam. E eu acho que a grande busca do ser humano e minha, que eu bato muito com o grupo, muito, é buscar o equilíbrio, né, buscar o ponto do meio nas questões, que muitas vezes escapa para um lado ou pro outro. Esse acho que é o grande desafio e a grande dificuldade de toda hora estar voltando pro seu ponto do meio e poder analisar as coisas com um olhar de zoom e falar isso é isso e você poder contribuir pras pessoas de um modo efetivo no sentido de que não é você que vai mudar. O máximo que você pode fazer é mostrar algumas coisas e abrir espaço para essa conversa. Quer aluno, quer professor, quer pais. Essa é a grande dificuldade dessas relações intensas, porque lidar com filho dos outros, que é a coisa mais preciosa que alguém pode ter, você tem que ter isso o tempo todo na cabeça, que cada um é 100%. Acho que essa ao mesmo tempo que é a dificuldade, acho que é o grande mistério de você querer estar nisso.

 

P1 – E as alegrias?

 

R – São muitas. São muitas. Eu estava numa reunião, e as alegrias são pequenas, eu estava fazendo uma reunião de pais no início desse ano e aí quando eu sai a mãe estava com uma filhinha, ela tem três meninas, ela falou: “Elisa, a fulana disse que quando crescer quer ser igual a você”. Ai eu tinha que ser igual a Dona Ana Augusta. Então, são essas coisas pequenas que acontecem a toda hora. Vem uma criança do nada te dar um beijo, vem um adolescente que já não quer nem te ver e de repente senta e diz: “hoje briguei com minha mãe” e eu sou depositária dessa confiança. Essas são as alegrias que acontecem o dia inteiro. Às vezes eu dou uma passada aqui na educação infantil, eles estão vendo uma formiguinha que passou. É uma alegria ver aquela curiosidade. (risos) Um que está aprendendo a ler e que vai na minha sala e leva um bilhete. Isso... Ai, gente, eu ia passar a vida aqui falando das alegrias que são essas.

 

P1 – E realização? Sua principal realização nessa suas trajetória profissional aqui no Pueri?

 

R – Olha, eu acho que realização é tudo, um pouquinho de cada coisa dessas que eu contei para vocês, é fazer parte desse momento, desse resgate, dessa história, que confesso me pegou de surpresa. Eu estava muito na história com o Pueri Domus e que me pegou assim nesse pedacinho da minha vida pessoal. E que mistura. Então, acho que a grande realização é ser feliz aqui dentro, porque eu passo aqui 10, 12, às vezes 14 horas no dia que tem reunião que eu chego às sete e saio às 10. É muito bom. Imagina você ficar num trabalho onde você não é feliz. Acho que a grande realização é eu poder juntar minha vida pessoal, que é riquíssima, no sentido de que eu não tenho só trabalho, embora eu fale com esse entusiasmo, porque é um pedaço importante da minha vida. Mas, a minha família é muito importante, não abro mão da minha viagem uma vez por ano. Meu marido é muito importante, me apóia muito, curte as alegrias do meu trabalho. Acho que a grande realização é poder chegar a 55 anos me sentindo jovem, louca para fazer mais coisas, querer compartilhar com os pequenos, médios e com os grandes. E descobrir que eu não gosto só de pequeno, eu gosto de gente.

 

P1 – E tem algum caso pitoresco, que você gostaria de contar?

 

R – Olha gente, eu aqui tenho milhões de histórias pitorescas, porque eu sou sabe... Eu esqueço as coisas, aí todo mundo me manda... Tinha um diretor que tudo que achava aqui, mandava um bilhete: “Elisa, só pode ser sua”. Mas ao mesmo tempo sou super ligada na vida, nas histórias dos pais, dos alunos. Eu sou um pouco essa coisa contraditória. (risos) Eu tenho casos engraçados. Eu sou proibida de falar de dinheiro aqui dentro por um episódio do tapete. Precisava de um tapete aqui para uma sala. Aí, me ensinaram, tem que faturar, tem que fazer isso, tem que pedir desconto… Tudo bem. Eu vivi todos os planos, cruzeiro, cruzado, então tem essa dificuldade mesmo. Aí, o moço foi lá. Mediu, ta-ra-rá e quando ele sentou, falou: “pois não, Dona Elisa, fica 250 reais”. E eu: “o metro quadrado?”. A Regina que estava do lado: “Elisa, nem tapete persa custa 250 reais o metro quadrado”. Aí o moço riu e falou: “você estava tão preparada”. (risos) Então, tem algumas coisas que acabam virando, as histórias de cada um, que são engraçadas. Claro que agora aprendi, nunca mais falo de dinheiro. Viu? E existe meu jeito assim, eu corro muito, ando pela escola o dia inteiro, quero dar um apoio para todo mundo. Sempre em avaliações sentem falta de que eu podia estar mais um pouquinho, mas infelizmente o dia é curto para tanta gente. Mas eu procuro estar próxima, poder ouvir quando as pessoas precisam. Relendo meus registros, meus escritos, né, eu brinquei com a Fernanda hoje: “eu acho que eu era melhor do que sou hoje”, porque no cargo da direção, dessa direção, você tem algumas decisões que tem que tomar. E que algumas vezes envolve você ter que preterir algumas coisas. Então, acho que isso também é um aprendizado, um amadurecimento profissional, pessoal. Eu brinco que depois de trabalhar aqui, você pode trabalhar na ONU, porque a gente aqui _____ (risos) e dá conta. Não sei se daria conta do conflito no Líbano, mas que a gente vai se preparando porque esse espaço permite isso. E permite de uma forma muito prazerosa.

 

P1 – Elisa, como você faria uma comparação entre a escola que você estudou, a escola que você trabalhou, a anterior ao Pueri e a escola Pueri Domus?

 

R – Olha, acho que algumas coisas são comuns. A paixão de um educador, aqui no Pueri hoje, ou lá no Sion, na primeira série, eu sinto que é a mesma. Agora, eu acho que o Pueri é grande, tem uma dimensão internacional, então eu acho que isso te abre algumas portas e te dá uma responsabilidade maior, no sentido de que você está num universo maior, né? Agora, se eu te falar da seriedade, dessa paixão que eu acho que faz parte da escolha do educador, do profissionalismo com que você tem que juntar paixão, competência, conhecimento. Você fazer uma mistura disso, eu acho que o Pueri te empurra mais para você ter esse equilíbrio dessa mistura.

 

P1 – E o que você acha que mudou na educação, desde a sua infância até hoje?

 

R – Acho que valores. Embora você volte, os básicos estão lá. Quando você vem e volta, a falta de paradigmas que as famílias hoje ficam buscando. Que grande mudança é essa nesses valores. Porque o que podia para mim, e o que não podia para mim, também não podia para minha vizinha, não podia para minha prima, isso dava um certo conforto pras famílias e pras escolas. Hoje, você tem uma diversidade muito grande. Às vezes, você tem aqui duas irmãs, que tem os filhos e que pensam completamente diferente a respeito da formação dos filhos. Então, acho que a grande mudança é toda essa revolução tecnológica, que eu acho que veio para contribuir, isso é bom. Acho que viver o tempo de hoje é um privilégio, né? Você poder compartilhar de todos esses avanços, de todas essas descobertas, de todo esse potencial do ser humano. Então, acho que a escola tem um grande desafio que é lidar com o que está fora dela. Outra grande diferença é que as coisas estavam dentro da escola e hoje estão fora. Você precisa administrar isso, como esse espaço privilegiado desse convívio. E a convivência está mais difícil. Quando você me perguntou lá, como era a convivência, eu tentei buscar coisas difíceis e as coisas eram mais parecidas. Hoje a gente tem muitos conflitos entre eles, pelo gosto, pela diversidade de ofertas que eles têm no mundo, de tudo. Então, eu acho que viver hoje tem esse privilégio de andar a mil, mas tem essas dificuldades de lidar com essa convivência, com esse respeito, com essas diferenças. Como eu celebro as diferenças? De uma forma educativa e que contribua para cada um.

 

P1 – E tem alguma mudança mais significativa que a escola sofreu nos últimos anos? Não a educação como um todo, mas a escola?

 

R – O Pueri?

 

P1 – É.

 

R – Sim, eu acho que a saída da Beth foi um marco, no sentido de ela ser uma pessoa muito forte, muito importante para escola. Ao mesmo momento, foi um momento muito bonito das meninas assumirem, das três que eu acho que a Beth passou a vida inteira preparando para assumirem mesmo. E eu entendo que talvez por ela ser uma pessoa muito forte, talvez não tivesse esse espaço, as meninas também são muito fortes, e talvez não tivesse espaço junto para elas terem essa oportunidade. Ela cedeu esse espaço, a Fernanda assumiu o controle com muita responsabilidade, com muita dignidade, com muito empenho em acertar. A Roberta também ajuda muito. Esse acho que foi um marco grande.

 

P1 – E como você vê a relação dos pais com a escola?

 

R – Isso eu acho que é uma grande diferença, né? Eu comentei com vocês, eu falei que era lei o que acontecia na escola, meus pais falavam: “olha, você está na melhor escola”. Não tinha discussão. Hoje é muito diferente. Os pais, claro com honrosas exceções, e são muitas, não são poucas, acham que é um prestador de serviço e pára um pouco por aí. E vem numa cobrança assim. Isso numa mão. Na outra, vem com uma cobrança de que “meu filho é especial”. É difícil, eu entendo para um pai que tem uma dinâmica de trabalho de correr, de posição da vida, dar conta disso tudo. Eu acho que hoje as famílias esperam que a escola dê conta de coisas que a escola não vai dar. Nem essa e nem nenhuma em tempo algum, porque não é papel da escola. Então, às vezes, eles delegam coisas que são da família e vão estar lá sempre. Daí saem algumas dificuldades, nessa relação.

 

P1 – Mas você acha que a escola anterior correspondia à expectativa dos pais e fazia esse papel?

 

R – Não, não. Os pais sabiam mais os seus papéis, até porque a vida era diferente. A mãe ficava em casa, ou um tempo maior em casa. O pai tinha uma jornada diferente de trabalho. Meu pai toda a vida almoçou em casa conosco. E às seis e meia da tarde estava em casa, e a gente jantava às sete. Hoje pela minha própria vida com meus filhos, o mais novo tem 27 anos, o Leopoldo nunca almoçou em casa, pelo próprio ritmo de trabalho, de vida, de São Paulo, Rio onde a gente morava. Diferente daquele momento em Belo Horizonte, onde eu acredito que hoje os pais também não almocem com seus filhos mais. Então, não é que a escola fazia mais, acho que até fazia menos. Mas a escola fazia o papel dela que é ensinar, complementando a família. Isso ficava muito claro. Hoje, às vezes, você até bate na contra-mão em alguma questão de valor com o pai. Você escolheu essa escola no discurso, mas eventualmente acontece alguma questão e ai você vai se confrontar de fato com a questão desses valores. E eu acho que está pela exigência dessa vida moderna mesmo, contemporânea. Todo mundo tem dupla jornada, quiçá tripla, quer dar conta dos filhos bem, porque qual pai que não quer? Todo pai quer acertar e se vê diante desse turbilhão de exigências do mundo, do trabalho, dos filhos. Filho hoje... Gente, eu vi uma propaganda no rádio da Net, que o diálogo é assim: “pai, você tem que assinar tal coisa ou então você muda de família, porque aqui ninguém mais consegue viver sem”. Quer dizer, é pesado isso. E um pouco isso permeia o tempo todo tanta exigência, né, e tem a exigência do tênis, da viagem, do não sei o quê. Então, eu acho que não está fácil para os pais hoje, eles precisam sim dessa parceria com a escola, mas eu acho que a gente não vai dar conta de todo esse papel de educar. Família é o ponto, a referência principal. 

 

P1 – E a relação com a comunidade? Da escola com a comunidade, como ela se dá?

 

R – Olha, eu acho que a gente pode fazer mais. E é o nosso grande empenho nesse momento, é toda essa questão da responsabilidade social, da gente abrir os nossos portões para um trabalho maior nesse sentido. A gente faz algumas ações pontuadas, mas não com um volume que represente. A gente tem um movimento aqui na Verbo Divino do projeto social que esse ano a gente mudou um pouco. Estamos centrados bem para dentro, no sentido de primeiro a gente pegar os nossos funcionários, numa questão de alfabetização, a gente tem um grupo terceirizado, na inclusão digital, né, e depois ir abrindo isso. O trabalho agora com voluntariado, eu acho que vai ter um marco importante. Esse desejo grande da instituição de se colocar mais próximo da comunidade. Esse é o desafio desse movimento que a gente vê. Mas eu acho que pode ser maior e a gente pode fazer isso melhor.

 

P1 – Como é esse trabalho do voluntariado?

 

R – Então, cada cinco anos, a gente, além da festa da escola, agora dos 40, a gente elege uma instituição como foco de um trabalho solidário. Esse ano é o hospital Darci Vargas, na parte de Oncologia Infantil. Então, a gente faz esse movimento e como o trabalho lá, a gente está ligado ao grupo de voluntárias, a idéia é que a gente trabalhe esse trabalho cresça no sentido de preparação de voluntários.

 

P1 – Alunos ou profissionais da escola?

 

R – Olha, profissionais, pais, alunos. Vamos ver como a gente caminha por aí.

 

P1 – Elisa, você como educadora, na sua opinião, o que a educação brasileira mais precisa?

 

R – Olha, de respeito aos professores, que não é o nosso caso de escola particular, privilegiada. E que os governos falam muito, eu acho que esse é um ponto. Olhar pras nossas crianças, né, a gente trabalha num universo bastante privilegiado. Mas basta olhar. Você vai na rua, no primeiro sinal, as nossas crianças (choro) precisam de escola, não é para estar na rua. É para estar na escola. 

 

P1 – E você acha que melhorar a educação brasileira é apenas uma questão de recursos financeiros?

 

R – Não. É uma questão de vontade. De atitude. Eu acho que quando você quer, você faz as coisas. Eu acho que prioridade um, dois e três, educação. Acho que aí muitas coisas vão mudar, vão melhorar. É decorrência disso. Não dá para a gente ter um número de crianças, jovens na rua, o número de prisões lotadas, não dá. Ou o Brasil para de verdade para olhar essa questão social, ou a gente...

 

P1 – E o que você acha que seria necessário para dar um salto nesse setor de educação?

 

R – Eu acho que governo, eu acho que a gente precisa ter menos cesta básica, menos doação e mais incentivo a aprender a fazer as coisas, aprender a ir atrás. Eu lembro que há muitos anos atrás tinha uma história de um leite no Rio de Janeiro. Eu falava: “gente, eu odeio leite. Não queria ganhar leite. Queria ter o dinheiro para comprar suco, ou sei lá”. Mudar um pouco essa postura muito paternalista e abrir espaços de verdade. Isso precisa de atitude. Não é só do governo. A iniciativa privada precisa estar junto. Eu acho que nós precisamos estar fazendo um pedacinho, porque se cada um fizer um pedacinho isso muda.

 

P1 – E a formação dos professores? Sobre a formação?

 

R – Olha, eu comecei falando, mas acho que a primeira coisa são os professores. Os professores precisam ser valorizados, precisam ter esse espaço de capacitação de estudo, de possibilidade. E isso de um modo geral. Estou falando isso aqui, sentada nessa escola maravilhosa, com um corpo docente maravilhoso, com a possibilidade que a escola abre quinzenalmente de estudo de trabalho. Mas isso é um pedacinho desse Brasil. Precisa, mas tem muita iniciativa bacana também. Às vezes eu abro um site, ou, e algumas coisas pequenininhas que está acontecendo que você fala: “meu Deus”. Lá no interior do Acre, o pessoal está fazendo. Então tem coisas acontecendo, mas que nós estamos na divisa entre crescer e explodir, nós estamos.

 

P1 – E você que é uma educadora, que vem lá da época do mimeógrafo, (risos) como você vê a introdução das novas tecnologias na sala de aula?

 

R – Fundamentais. Eu acho que essa meninada já nasce com um DNA diferente. Eu sou da geração que “não aperta o botão que estraga” e eles são, já está no sanguinho, eles vão lá, mexem, mexem e acontece. Bem pequenininhos, né? Então eu acho que isso já está na vida deles, vai fazer cada vez mais. Acho que a tendência é as coisas se simplificarem nesse sentido, porque cada dia você tem uma descoberta nova. Tem que estar na sala de aula, porque é o mundo deles e é onde eles vão atuar.

 

P1 – Eu tenho uma questão aqui que é: qual a função que a escola deveria ter hoje? Mas eu gostaria de fazer um paralelo com a sua colocação de que os pais vêem a escola hoje como prestadores de serviço. Como você faria esse paralelo, dessa postura dos paiscom a expectativa das escolas, com a função hoje da escola. 

 

R – Eu acho que a função da escola, primeiro assim, tentar - porque a gente tenta o tempo inteiro - clarear essa função que ela deve ter na sociedade, que muitas vezes se mistura nesse desejo e nessa necessidade do pai, né? Escola período integral, porque é uma necessidade. Escola com todos as questões dentro dela, porque facilita a vida. Mesmo porque a gente tem uma questão de segurança, uma questão de um trânsito, que São Paulo propicia isso. Mas, de um modo geral, eu acho que a função é formar alunos competentes para essa vida. E o que é ser competente? A Beth quando fundou a escola falava que queria uma escola para as crianças serem felizes. E ser feliz hoje é muito complexo. Ser feliz hoje, você precisa ter uma competência, ter um equilíbrio emocional, saber compartilhar com os outros, porque você vai trabalhar em equipe o tempo todo. Você precisa olhar para esse aluno e ver que mundo é esse. É um mundo onde ele vai estar inventando ou descobrindo o tempo todo. Então você precisa semear isso nele, instigar essa curiosidade para essa descoberta, para essas relações. Então é o respeito, respeitar o outro, as diferenças e as opiniões. E tentar ser agregadora. Quem procura essa escola vem por uma filosofia, por uma missão que ela tem. Então quanto mais a gente puder clarear isso pras famílias, a gente afina essa relação. “Olha, lembra quando você veio? Você veio buscar isso”. Com isso, a gente está oferecendo isso. Porque muitas vezes vem a questão assim: “trabalho em grupo, meu filho não vai ficar nesse grupo”, “Vai”. Não é porque eu queira que seja mais difícil, é porque será assim. Ele vai ter que conviver com pessoas diferentes, não só com amigos. Então, cada coisa que acontece dentro da escola tem um porquê. Um porquê que tem a ver com essa missão e com essa filosofia. Então se a gente puder clarear isso o tempo todo pras famílias que nos procuram, porque vem, porque compartilham disso, eu acho que a gente vai cumprir essa função. De ser um espaço de educação, de formação, de construção de conhecimentos, de abertura a todos os possíveis. Quem falava isso era o Cláudio e o Lauro de Oliveira Lima. O Cláudio ______, né. É a abertura para todos os possíveis, gente. A gente não sabe o que é.

 

P1 – E o que você acha do Pueri Domus comemorar seus quarenta anos de vida, por meio de um projeto de memória que envolva a comunidade escolar, os professores, as histórias de vida?

 

R – Eu acho lindo. Acho de um respeito com a história. A gente não pode nunca esquecer nossas histórias, porque a gente é o que é por causa delas. Essa iniciativa foi um presente, eu acho, para nós funcionários, para São Paulo, porque vai ganhar, pro Brasil, porque a gente espera que isso ande pelas escolas associadas. É um presente. Um presente que a instituição vai dar para todos nós, educadores principalmente.

 

P1 – E de você ter participado?

 

R – Nossa, gente! É a glória. Essa surpresa de misturar a minha história, que eu falava “não, é de 40 anos que a gente está falando. Então é daqui para cá”. Foi uma surpresa agradável, feliz e que eu vou guardar com carinho, carinho, carinho para sempre.

 

P1 – E tem alguma coisa que nós não perguntamos e que você gostaria de falar?

 

R – Eu acho que você perguntaram tudo, foi uma viagem. Muito gratificante, muito mágica, porque eu andei por vários pedacinhos de dentro. E eu estou super emocionada. (choro)

 

P1 – Então, em nome do Pueri Domus e do Museu da Pessoa, nós agradecemos a sua entrevista. Obrigada.

 

R – Obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+