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História

"Vamos falar bastante que ele vai perdendo a força"

História de: Ivani Rossi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/09/2011

Sinopse

Ivani ainda conheceu uma cidade de São Paulo muito mais humana, em que a brincadeira de rua encontrava a natureza de alguns córregos e rios que cortavam os trajetos urbanos. É filha de imigrantes europeus que fugiram de uma Europa empobrecida e vieram tentar a vida no Brasil. Aqui ela foi criada, cresceu, fez faculdade de Ciências Sociais e se engajou em diversos trabalhos. Casou duas vezes, teve filhos e netos. E foi durante o segundo processo de separação que descobriu que estava com câncer. Unindo o tratamento de quimioterapia e com a antroposofia, enfrentou a doença de frente. Durante o período, descobriu novas atividades e valores para a sua vida. Escreveu sobre sua vida, relatou experiências, resignificou vivências. Sua história nos fala de uma redescoberta de si própria.

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História completa

P/1 – Ivani, vamos começar pedindo o teu nome, local e data do nascimento.

 

R – Eu me chamo Ivani Rossi; tenho 65 anos; nasci em São Paulo. Aliás, eu adoro esta cidade, apesar de a criticarem muito.

 

P/1 – Seus pais são de onde?

 

R – Meus pais são de São Paulo, filhos de imigrantes italianos, ambas as partes. Meu pai é um misto da região de Salerno e um pouco do Vesúvio, por ali. E a minha mãe é uma mistura interessante, porque minha avó era de Veneta, da região de Veneza, meu bisavô suíço e a minha bisavó casou com um calabrês. Então eu costumo dizer que eu tenho metade de uma coisa assim, mais fina, educada, séria e a outra metade totalmente mafiosa. Porque Calábria é aquela coisa de sangue, que acredita na palavra. Não precisa escrever nada, ta ok? Eu acredito muito nas pessoas. Uma coisa supergostosa é que eles vieram numa época muito difícil.

 

P/1 – Seus avós?

 

R – Meus avós. Passaram fome na Itália, foi uma época complicadíssima.

 

P/1 – Por que eles vieram para o Brasil?

 

R – Porque vieram? Porque estavam passando fome, não tinha emprego, não tinha mais nada. Todos eles. O meu bisavô suíço veio porque ele tinha uma boa formação, pra trabalhar, ele era o que chamavam na época de botânico e tinha uma especialidade que era cuidar das camélias. Ele veio pra tratar de camélias pra oferecer para os barões do café da Avenida Paulista. Ele tinha uma chácara entre a [Alameda] Santos e [Alameda] Itu e [Avenida] Brigadeiro [Luiz Antônio], que ele cultivava as camélias e vendia para estas famílias. Eu sentia desde criança que com esta vinda pro Brasil eles fizeram uma ruptura, talvez por sobrevivência, com as coisas da Itália. Menos a música e algumas atividades. Então, por exemplo, o almoço do natal era aquele almoço que se juntava um monte de mesas no quintal, sei lá, cinco, seis mesas e de repente saía uma briga enorme, porque se lembravam de fatos que um tinha inveja do outro, que outro tinha feito sei lá o quê. Mas no final tudo terminava super bem.

E os meus tios, por parte de pai, todos eles tocavam algum instrumento. Eu cresci ouvindo trecho de ópera, que eu adoro; músicas mais napolitanas. Acho que isto foi importante pra mim para que eu pudesse realmente apreciar, depois de adulta, a música clássica, a música em geral. Então acho isto uma coisa bastante positiva na minha vida. O meu pai sempre foi uma pessoa muito engraçada, aquele humor mais inteligente, aquele humor não apelativo. Acho que esta característica que eu me descobri, agora, recentemente, vem muito desta característica dele de brincar com as coisas, de rir de si mesmo.

 

P/1 – Qual era a atividade dos seus avós?

 

R – O meu avô por parte de pai era sapateiro, morreu muito novo, com quarenta e poucos anos e deixou uma penca de filhos, nove filhos. E meu avô por parte de mãe também morreu muito cedo por conta, também, ele foi operar e morreu na mesa de operação com quarenta e poucos anos. Deixou minha avó por parte de mãe esperando o quinto filho. Este meu avô era da Calábria, pobre, então o meu bisavô que tinha grana deu um terreno pra ele de casamento no que ele chamava antigamente de esmaga sapo. Sabe onde era? Na Brasil com Brigadeiro. Ali. Deu um terreno para ele esmagar sapo. Uma coisa bem assim: “Tó pra você começara a sua vida”. E meu avô tinha uma chácara, mas ele morreu. Aí a minha avó teve que pôr os filhos, a minha mãe era a mais velha, pra trabalhar. Não tinha como. Era uma época bastante complicada. Então eu cresci muito com esta percepção que você só pode gastar o que você ganha, mas não gastar tudo, você tem que guardar um pouco pro futuro porque o futuro é uma coisa um pouco complicada. Isto eu achei que foi benéfico do ponto de vista de entender um pouco que você tem que ter alguma coisa pra se precaver.

 

P/1 – Onde era a sua casa de infância?

 

R – Na Brigadeiro Luiz Antônio, ali embaixo, perto da... Deixa eu ver...Bem, bem lá embaixo, em frente quase a Rua Honduras. E o meu quintal era o Ibirapuera. Era tudo aberto porque o terreno ia da Brigadeiro até a Manoel da Nóbrega. Era tudo ali! Eu cresci, assim, tinha árvores de fruta na minha casa. Tinha, enfim, maçã, amora, não sei o quê, não sei o quê. Tinha tudo que você possa imaginar. Eu cresci sentindo... Até hoje eu passo ali e: “Ah, este pedaço me pertence”. Emocionalmente pelo menos. Eu saía pra brincar lá… onde é a Assembléia, tinha um córrego, a gente ia pescar naquele córrego. Eu me lembro que já muito pequena eu me interessava por tecnologia. Porque teve durante o centenário, não sei, teve uma exposição e aí eu queria todo dia que meu pai me levasse num stand que tinha um robô que ficava duas horas com a mão pra pegar uma coisa. Eu achava o máximo aquilo. E eu adoro tecnologia, o que a tecnologia pode facilitar a sua vida. Eu adoro estas coisas, então, desde pequena já me interessava por isto. Enfim, foi uma infância muito boa. A família morava tudo junto, os tios.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho um irmão mais velho, uma irmã e eu sou a caçula.

 

P/1 – São em três?

 

R – Somos em três, somos muito amigos, temos uma boa convivência familiar.

 

P/1 – Como era a convivência na tua casa? Quem exercia a autoridade? O teu pai ou tua mãe?

 

R – A minha mãe. Meu pai era do gênero mais: “vamos botar panos quentes, deixa pra lá”, mas a minha mãe era mais o sangue quente. Vamos dizer, era mais determinada: quando queria, queria. Enfim, ela que tinha mais desta... Com meu pai ele sempre dava um jeitinho. A gente conseguia com ele. Dava um jeitinho. Eu dizia: “Pai, hoje não vou pra aula”. Eu fiz clássico à noite, no Professor Alberto Conde, que na época você tinha que prestar vestibular. Era uma escola pública, mas era de uma qualidade tão boa que eu tive que prestar vestibular pra entrar. Eu queria fazer clássico e lá era super prestigiado. Entrei, mas às vezes eu queria matar aulas, fazer outras coisas e falava: “Pai, hoje eu vou matar aula”. Ele falava: “Então não fale pra sua mãe. Aonde você vai?”. Ah, vou a tal lugar, fazer tal coisa com fulanos. Com o grupo. Nós vamos assistir sei lá o quê, não sei onde. “Então tá bom”. Com ele tinha essa brecha e com ela não, de jeito nenhum. Era bem brava. Mas ela tinha uma característica maravilhosa que eu introduzi na educação dos meus filhos e eu vejo que eles também estão fazendo, o que tem filho também está fazendo, que é extremamente criativa: ela mandou pintar uma parede na casa – na época era tinha a óleo, não tinha estas tintas mais refinadas – e meu pai mandou fazer uma coisinha pra botar o apagador e giz e a gente podia rabiscar a parede à vontade, depois apagava e ponto. Eu fiz a mesma coisa com os meus filhos: no quarto deles era permitido rabiscar a parede. Fora não. E com os meus netos, agora eu tenho dois, a Isabel de cinco anos e o Felipe de três, quando eles vão lá em casa, no meu escritório tem uma parede que eles podem rabiscar. Eles sabem que lá eles podem rabiscar. Em outro lugar, não. Eu acho que isto é uma coisa legal porque você estimula a criatividade e mostra que tem limites.

 

P/1 – Do que vocês brincavam? Você lembra das brincadeiras da infância?

 

R – Nossa, sim, pular corda, amarelinha - que eu também estou trazendo isso pra criançada – amarelinha, pular corda, bicicleta, empinar papagaio, bolinha de gude, bafo. Era boa no bafo!

 

P/1 – Brincava muito na rua?

 

R – Muito na rua. Brincava muito na rua.

 

P/1 – Como era o entorno da tua casa? Você falou da Assembleia, que tinha um riacho.

 

R – Na verdade eram famílias todas que moravam ali. Tinha a fábrica do Calfat, que era um pouco mais pra cima, que é a Tecelagem Calfat, que era uns três quarteirões acima. De comércio tinha uma padaria longe, uma doceria chamada “Pão de Açúcar”, que depois virou este império. Mas no entorno eram casas e tinham os vizinhos, as crianças. Todo mundo brincava na rua. Brincava até umas seis da tarde, ia tomar banho, jantava. E as pessoas sentavam ou na porta de casa, ou na casa do outro, conversar. Aquela conversa de pós-jantar. A televisão era uma coisa. Meu pai era super novidadeiro. Ele foi o primeiro a comprar a televisão do bairro, então vinham as pessoas lá e põe bombril na antena e não pegava. Aquela coisa. Enfim, foi muito agradável a minha infância.

 

P/1 – Você passeava por São Paulo? Teus pais te levavam para fazer passeios na cidade?

 

R – Sim, sim. Museu do Ipiranga, ia para Santos no aquário, andar com aquele bondinho de Santos, do Monte Serrat, no zoológico, fazia piquenique. Era uma época que era possível fazer piquenique nas estradas. Então esta estrada Raposo Tavares tinha vários lugares. Então: “vamos fazer um piquenique”. E a gente ia. Então tinha, assim, foi uma coisa bem agradável. Aí meu pai comprou uma chácara em Araras, próximo de Campinas. E a gente ia pra chácara como uma atividade de férias. Então eu me lembro de uma infância muito boa, cheia de brincadeiras, enfim, de atividades, de coisas gostosas de fazer. Adorava ajudar a minha mãe na cozinha. Ela punha um banquinho; eu me sentia o máximo ajudando a lavar a louça, não sei o quê.

 

P/1 – Você teve algum tipo de formação religiosa?

 

R – É assim: fui criada na religião católica. Este meu bisavô era meio como um patrono da Igreja Imaculada Conceição ali na Brigadeiro com a São Carlos do Pinhal, se não me engano. E o padre ia lá na casa dele; jogavam baralhos. E porque a gente era parente dele éramos super bem tratadas. Todo domingo tinha que comungar. Depois pra gente tinha um lanchinho na área reservada dos padres. Mas esta obrigatoriedade de confessar todo final de semana, todo sábado, pra comungar no domingo, assim: uma vez eu não tinha feito absolutamente nada, fui lá, menti que eu tinha feito qualquer bobagem “ah, briguei com a minha mãe”, e o padre deu tanta coisa pra rezar; fiquei tão revoltada e falei “não quero mais”. Nesta mesma época, eu estudava numa escola pequena de freiras, chamada Santa Mônica, que era pegado ao Des Oiseaux – meu pai não tinha grana pra pagar o Des Oiseaux – estudava na outra escola ali. Aí ia ter uma festa e a minha mãe: “vamos fazer os vestidinhos”. Não sei o quê, não sei o quê, e fez um vestidinho sem manga. E a freira não me deixou entrar porque eu estava com um vestidinho sem manga. Então teve uns eventos religiosos que me fizeram afastar. E a minha mãe dentro desta busca por outras coisas começou a frequentar um centro kardecista, de mesa branca. Então a minha vida foi meio assim... E não exigia que a gente fosse à missa. Foi mais liberal, achando que a gente tivesse escolha, embora todo mundo tenha sido batizado, crismado, etc. então esta coisa de religião ficou mais aberta e cada um pôde seguir o que bem entendia. Hoje? Eu acredito que tem que ter alguma coisa além da terra, além deste mundo. Eu acredito. Tem que ter uma energia, o que seja, um Deus, que seja. Tem que ter. Eu acredito. Porque não é possível; é tudo muito simples a gente pensar que é tudo terreno. Mas foi uma época divertida esta. O gostoso é que depois de comungar a gente comia uns brioches deliciosos, tomava um chocolate quente. Era bom por isto. Entendeu?

 

P/1 – Com quantos anos você entrou na escola? Você falou que era perto da tua casa.

 

R – Na verdade como eu faço aniversário em maio eu tive que entrar com oito anos de idade. Porque não aceitavam. Você tinha que fazer sete anos em fevereiro. Eu sempre fui a mais velha nas classes. Eu sempre estava um ano a mais que todo mundo. Então eu fiz o primário nesta escola e depois meu pai achou que era importante eu ter uma boa formação. Fui estudar num colégio alemão, que eu odiei, chamado Colégio Benjamim Constant, que fica ali na Rua Eça de Queirós, na Vila Mariana. Eu odiei porque eu sentia um preconceito horroroso em relação a mim e algumas outras pessoas que não eram alemãs ou descendente de alemães. E a minha decisão de fazer o clássico foi que lá era o único curso que não tinha. Tinha científico, normal e eu falei: “Pai, eu quero fazer clássico”. Ele falou: “Mas minha filha...”. “É clássico que eu quero fazer, já me informei”. Tal e tal e me mandei.

 

P/1 – Mas voltando um pouquinho: que lembranças você tem da escola? Deste primário, alguma professora, que caminhos você fazia pra chegar na escola?

 

R – Na escola meu pai sempre me levou e me buscou.

 

P/1 – Seu pai trabalhava fora?

 

R – Trabalhava. Ele tinha uma oficina de encanador; ele era encanador. Ia me levar e me buscar todos os dias...Não, assim, na escola de freira eu me lembro de ter aprendido as piadas mais pornográficas durante os quatro, cinco anos do ensino primário. Era uma loucura aquilo. Às vezes eu fico pensando como isso chegou naquela criançada. Não tinha internet, não tinha quase TV. Mas se reuniam os grupinhos no banheiro para contar piada suja, de freira inclusive no primário. Uma loucura. Desta época de primário eu me lembro da rigidez que nós éramos tratadas pelas freiras. Era muito rígido. E no recreio se contava piada suja. Uma coisa maluca. Depois no ginásio era muito divertido porque fui estudar numa escola mista. Eu saí de uma escola só de meninas e fui estudar numa escola mista. Foi ótimo. Tive a minha primeira paixão lá. Aquela coisa. Fui suspensa porque o diretor viu a gente três quarteirões da escola de mãos dadas. Fui suspensa. Cheguei em casa e falei: "Pai, fui suspensa porque eu tava com o fulano de mão dadas." “Ah, minha filha, tudo bem”. Fiquei uma semana sem fazer nada com a anuência dos meus pais. Porque era verdade mesmo. Então foi uma época boa em termos de conhecer novas pessoas, etc, mas foi muito ruim do ponto de vista do preconceito que eu sentia. Então, por exemplo, tinha uma excursão pra ir pra Volkswagen, iam só os alemães. A gente não foi convidada pra ir. Umas coisas horrorosas, uma rigidez na disciplina. Mas eu tive uma professora maravilhosa de português e uma de francês, que me estimularam muito a leitura, a escrever. Não como estou escrevendo agora, mas a apreciar a leitura e a escrita. Destas eu me lembro bem: a dona Maria Inês e a dona Vilma. Guardo na memória com muito carinho. Depois no Clássico foi maravilhoso, porque era colégio público, não tinha que pagar, então sobrava uma graninha da minha mesada. E encontrei pessoas maravilhosas que se tornaram grandes amigos. Eu me casei com um deles, que é o pai dos meus filhos.

 

P/1 – No colegial, na escola alemã?

 

R – Não, no Clássico, na escola pública.

 

P/1 – E quando você teve seu primeiro namorado?

 

R – Com uns treze anos, mais ou menos.

 

P/1 – Como foi? Você lembra?

 

R – Aquela coisa ingênua daquela época, não é como hoje. Aquela coisa ingênua de pegar na mão, dar um beijinho de boca fechada. Uma ingenuidade total. Mas eu me apaixonei pelo menino. Mas como toda paixão vem e vai. E no Clássico foi uma época muito boa, muito boa. Também fiz uma grande amiga lá, que ficou por longa data. E até agora a gente vai fazer uma reunião destes ex-alunos, resgatando um pouco daquela época. Era uma época complicada, uma época política.

 

P/1 – Isto que eu ia perguntar. Você teve alguma participação, engajamento? Como foi sua juventude?

 

R – Na verdade não fui engajada porque eu morria de medo, eu via aquelas coisas… Participei até de algumas manifestações, mas a violência era tanta da polícia em cima das pessoas. E na época da faculdade teve uma colega que sumiu, nunca mais apareceu. Então isso meio que... E não entendia direito porque estava se brigando. Meio que fiquei alienada do ponto de vista desta participação mais ativa. Tem uns líderes que estão aí que eram insuportáveis já naquela época. Eu me recuso a falar o nome, que impunham a sua ideologia e queriam que todo mundo acreditasse naquilo que eles acreditavam. Foi uma coisa totalmente fora. Eu me lembro de uma passeata horrorosa ali na Maria Antônia. Eu estava. Nossa, foi horrível. Os caras desciam cacetete assim, sem piedade. Uma coisa muito violenta. E eu descobri que não gosto de violência. Eu acho que a gente tem que conseguir as coisas por outro caminho.

 

P/1 – Como você conheceu o seu marido?

 

R – Ele tinha um grupo de rock, ele tocava guitarra. Toca ainda. Não, agora ele toca piano. Eram três amigos que tinham um grupo e a gente começou a sair. Saiu, saiu, saiu e acabamos casando. Com ele tive dois filhos. Ele é uma pessoa super bacana. Não poderia ter escolhido um pai melhor para os meus filhos. Um cara muito bacana. Só que depois de uns tantos anos de casamento, um casamento meio morno e tal, eu acabei me envolvendo com outro homem, com qual fiquei vinte e cinco anos e que, enfim, teve uns eventos bem desagradáveis, acabamos nos separando. Ah… Para mim foi uma surpresa grande, eu não imaginava que tudo isto ia dar numa separação e na venda da empresa que nós tínhamos em conjunto. E aí veio o diagnóstico de um linfoma como, pra mim, eu acredito piamente nisto, consequência de tanta raiva, frustração, desrespeito que eu senti. É uma trajetória... Eu sempre fui muito impulsiva nas minhas coisas. Quando eu acho que vale, eu vou e depois eu penso. E isto não é muito bom. Por exemplo, para o pai dos meus filhos eu cheguei e falei claramente: “Eu me apaixonei por outro homem”. Assim. Entendeu? E foi horrível pra ele. Pra mim também, mas foi muito ruim pra ele. Porque quando você ta apaixonado o seu foco é lá e o outro deixa de existir. Mas foi muito ruim pra ele. Mas graças a Deus ele encontrou uma mulher maravilhosa, da qual eu sou muito amiga, nos damos muitíssimo bem hoje, depois de tantos anos. Eu acho que ele encontrou uma pessoa super bacana e está bem. E nos damos muito bem. Este ponto está resolvido.

 

P/1 – Deixa eu voltar um pouco atrás. Nesta época de Colégio, o que você fazia? Como você se divertia?

 

R – Naquela época a diversão era: tinha os bailinhos de clube, de associação de bairro, cinema e ficar conversando, conversando, conversando. Ouvir música. Depois no Clássico...

 

P/1 – O que vocês escutavam?

 

R – As músicas da época. Era Beatles e o pessoal que tocava. Tocava muito jazz, blues, estas coisas mais nesta direção. E era muito gostoso. Teve um grupo que a gente fez pra discutir filosofia. Estava todo mundo inquieto na vida. Isto foi no Clássico. Formamos um grupo para discutir Nietzsche, Freud. Não deu em nada. Porque a gente começava a discutir e havia tantas outras discussões paralelas que nunca se chegou a nada. Mas era divertido, sem grandes compromissos.

 

P/1 – E acabou o Clássico e você fez faculdade. Por que você escolheu?

 

R – Foi absolutamente sem pensar. Na verdade eu tinha uma viagem com uma amiga, ia ficar um mês na praia. Estava prestando Ciências Sociais na USP e na PUC. O resultado da PUC saiu primeiro, eu larguei a USP e fui embora.

 

P/1 – Você entrou na USP? Ah, nem prestou.

 

R – Não, não, eu prestei. Estava indo super bem. Mas o último exame eu não fiz porque queria viajar com ela. Ficar um mês em Ubatuba. Legal, na boa. Acabei entrando na PUC e foi... Foi uma boa formação, foi legal.

 

P/1 – Nas Ciências Sociais.

 

R – É.

 

P/1 – Como era o curso?

 

R – Interessante, porque nas Ciências Sociais você sai generalista. Você tem o foco em sociologia e tal, mas você tem tantas outras matérias que você sai especialista em generalidades, que eu digo. Foi bom porque eu uma boa visão de sociedade, de comportamento. Foi lá que eu comecei a me interessar por pesquisa social. Fiz uma pesquisa pro Embu, um trabalho, foi legal. Aí me formei, estava lá em casa, pensando o que eu ia fazer.

 

P/1 – Nunca tinha trabalhado?

 

R – Sempre trabalhei em alguma coisa pra ganhar dinheiro.

 

P/1 – Qual foi seu primeiro trabalho?

 

R – Olha, desde dar aulas de reforço. Depois, a minha mãe tinha uma máquina de tricô, fui fazer tricô. Na época tinha uns ponchos combinando com a meia. Fiz e ganhei muito dinheiro fazendo isto. Trabalhava muito fazendo. Tinha um monte de encomenda, porque era moda, era o poncho com a meia. Então, fazia lá. Uma loucura. Punha todo mundo lá em casa pra costurar para eu vender no dia seguinte. Depois eu comecei a fazer pesquisa como entrevistadora. Como eu tinha já uma boa formação peguei pesquisas mais qualificadas, para fazer com executivos, segmentos que não fosse dona de casa. Fiz muita pesquisa, por exemplo, com engenheiros, médicos. Esses segmentos diferentes do das donas de casa, que eles põem as pessoas menos treinadas, de menor formação. E eu estava em casa, pensando que eu tinha várias pesquisas pra fazer, quando uma minha professora, que trabalhava na Secretaria, uma secretaria municipal de bem estar, uma coisa assim, mandou um recado que queria falar comigo. E me ofereceu um trabalho de meio período para ajudar a montar uns jogos educativos para ajudar na educação sexual nas escolas da periferia. Então, montar alguns jogos que fossem lúdicos e ao mesmo tempo informativos. Adorei a experiência e tal. Aí fui fazer um curso com o Paulo Freire de alfabetização de adultos, maravilhoso. Nesta época eu já estava há mais ou menos um ano trabalhando com esta coisa de treinamento, de monitor, para dar os jogos, etc, alguém soube, nós éramos três ou quatro fazendo este trabalho, fomos convidados pra trabalhar num grupo de uma primeira dama, chamada Maria do Carmo Sodré, que tinha uma coisa bacana que chamava PIEB, Programa de Integração de Educação de Base, se não me engano. Que era um programa que visava dar alfabetização junto com a formação. Então foi uma fase maravilhosa. Por que? A alfabetização do Paulo Freire é o seguinte, você tem que trabalhar com o universo vocabular das pessoas. O pescador analfabeto tem um universo diferente do nosso pedreiro da zona urbana. Então você tinha que primeiro conviver um pouco com estas pessoas, captar as palavras chaves e a partir da palavra chave montar o processo de alfabetização. Para o pescador era rede, anzol, mar, maré. Era isto, cabana... Para o pedreiro aqui era pá, cimento, areia. Com estas palavras é que você desenvolvia o método. Aí nós fizemos um convênio com a Secretaria de Trabalho, se não me engano, que fornecia para estes grupos que a gente estava treinando. Ah, você treina o líder da comunidade porque ele tem o diálogo com o grupo. E aí dava pra esses grupos a formação. Então, de eletricista, de pedreiro, de encanador. Foi muito bacana, isso aí se perdeu. Não tenho nada. Já falei com algumas pessoas da época e ninguém tem mais nada. Foi uma coisa muito bacana. Aí surgiu o quê? O MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) e nós, com esta experiência fomos contratados para treinar os professores no Estado de São Paulo, na metodologia do Paulo Freire. Só que era uma época de extrema repressão e a coisa não foi pra frente porque entrou o interesse econômico de uma grande editora. Porque o material tem que ser material específico para cada área, para cada tipo de pessoa: para o pedreiro da região urbana, para aquele que é bananeiro. Enfim. Aí entrou o interesse econômico; fizeram uma cartilha “Vovó viu a uva” e a coisa acabou se desfazendo e virando hoje uma coisa que é uma alfabetização de adultos usando os mesmos pressupostos de uma alfabetização infantil tradicional. Porque hoje também já mudou muita coisa. Aí eu estava lá, olhando pra tudo aquilo, eu era funcionária pública, e falando: “Não quero isto. Não quero ser funcionária pública deste jeito. Ficar lendo todo dia Diário Oficial. Obrigada”. Aí um amigo da família do pai dos meus filhos me ligou e falou, ele tinha uma empresa de pesquisa de mercado, “To com um problemão aqui porque a pessoa que eu confio está muito doente e o projeto é gigantesco”. Um projeto maluco da TELESP que era assim: na época todos os fios eram subterrâneos, só que pra TELESP o quarteirão que começa na rua A, rua B, não é. O quarteirão dela subterrâneo começa neste meio daqui, vai neste e passa pro outro lado da rua. Então era um trabalho de louco. Você tinha que levantar tudo que tinha de linhas aqui e a TELESP dava pra você, você mandava aquele monte de folhas, na época, ela pegava um a um e riscava as folhas e grudava pra dizer: “o nosso quarteirão subterrâneo é assim”. Coisa insana! Fui trabalhar neste projeto... E não tinha nada da tecnologia que a gente tem hoje. Era tudo na mão, na munheca. Imagina só a chance de erro. Um horror. Mas aí acabei indo trabalhar em pesquisa e foi em pesquisa que eu conheci o meu segundo marido e a gente abriu uma empresa juntos.

 

P/1 – Como vocês se conheceram? Neste trabalho?

 

R – Não neste trabalho. Na verdade bem mais pra frente, eu já trabalhava numa agência de propaganda em pesquisa e eu fiquei o conhecendo neste momento.

 

P/1 – Você se apaixonou?

 

R – É, me apaixonei. Fui seduzida. Eu mesma me digo.

 

P/1 – E se separou do seu marido.

 

R – Me separei.

 

P/1 – Quantos anos você tinha de casada?

 

R – Nós estávamos juntos há uns dez anos mais ou menos.

 

P/1 – Já tinha os filhos?

 

R – Já, os dois meninos. Catei os meninos...

 

P/1 – Que idade?

 

R – Um tinha… Você sabe que faz tanto tempo que eu já esqueci? Um tinha sete e outro tinha nove. Por aí. Catei os meninos, peguei o carro e fui embora.

 

P/1 – Com ele.


R – Não, na verdade eu fui pra um flat. Depois eu aluguei uma casa, fui morar com os meus filhos e ele morava com as filhas dele. Este segundo marido. A gente passou um tempo longo cada um morando na sua casa com seus respectivos filhos. Depois de dez, oito anos morando assim, nós resolvemos, na verdade eu decidi, morar com ele. Construí uma casa e falei: “Vou morar com você”. Moramos dezessete anos juntos e aí veio a separação.

 

P/1 – E os meninos foram morar com você.

 

R – Foram morar comigo. Todos, as duas meninas e os dois meninos. Só que o meu filho mais novo quando tinha dezessete anos falou: “Mãe, posso ir fazer um curso de inglês nos Estados Unidos?”. “Pode”. Aí ele foi lá, viu tudo e tal, viu o que era, quais eram as opções e escolheu lá em Berkeley. Lá foi ele. Quarenta dias estudando inglês. No último dia falou: “Mãe, eu posso aplicar para uma universidade? Para um college? Falei: "Como assim? O que é isto que você está falando?”. “Não, mãe, é que eu queria fazer faculdade aqui, só que o monitor aqui do curso falou: ‘Você não precisa ir pra uma university, você pode primeiro fazer um college que os dois primeiros anos é a mesma coisa e depois você vai pra uma university’. Posso?”. “Pode, meu filho”. Dezessete anos. “Pode filhinho querido, é isto que você quer?”. “É mãe”. “Então vai”. Só que ele estava lá em São Francisco, ele foi pra Santa Mônica, prestou lá, fez a aplicação, entrou, foi aceito. Este menino que foi fazer um curso na verdade nunca mais voltou, digamos, pra morar. A gente se vê, tudo, mas morar mesmo nunca mais. E aí ele fez graduação, pós-graduação, fez doutorado.

 

P/1 – Tudo lá.

 

R – Tudo lá. E como é uma área muito, muito, muito, vamos dizer assim, de inovação, que é nanotecnologia, ele arrumou emprego lá. As empresas vão buscar na universidade os caras bacanas pra trabalhar. Então ele está lá, conheceu uma americana, a Laura, e casaram. Eu acho que este... Ele até tentou voltar, mas no Brasil esta área de tecnologia, de inovação, está muito… não é o nosso negócio. Acho que na hora que o Brasil entender que o nosso negócio é agricultura as coisas mudam. A gente fica tentando inventar. Então ele veio, fez umas entrevistas, mas viu que não dava, unós estamos muito atrasados neste ponto. Pra você ter uma ideia ele trabalha com chips do tamanho de um fio de cabelo. Trabalha sempre com microscópio, todo paramentado, como se fosse fazer uma cirurgia. E eu só consegui entender mais ou menos o que ele fazia porque é o chip do airbag do seu carro. É do tamanho de um fio de cabelo. Ele tem tantas informações dentro daquela coisa micro, nem sei direito. Eu tento imaginar, mas não sei. E o mais velho desde criança queria porque queria ser piloto. “O que você quer ganhar de presente?”. “Um livro. Eu quero avião para montar”. Só aviação. Aí quando ele estava lá com seus dezessete, dezoito anos foi tirar o brevê e tal, e foi prestar exame na PUC do Rio Grande do Sul, que era o primeiro curso de Ciências Aeronáuticas, o cara entrou. Passou em primeiro lugar. Ganhou viagem, ganhou viagem da Airbus, blá, blá, bla. Piloto. Então tá.

 

P/1 – E as meninas? Você não tem duas filhas?

 

R – As filhas uma seguiu design e a outra...

 

P/1 – A gente parou na parte que você estava falando que vocês juntaram, você e seu ex-marido, aí seus filhos foram para os Estados Unidos um.

 

R – E o outro que tinha feito Ciências Aeronáuticas em Porto Alegre, lá ele conheceu a Daniela, a esposa, e enfim, aí vieram pra São Paulo, por pouco tempo, porque ele veio trabalhar na Rio Sul que era um braço da Varig. Mas aí a gente estava vendo que a Varig não ia dar muito certo por conta das notícias todas. E  o estimulamos a fazer um MBA, já que ele era piloto, tinha Ciências Aeronáuticas, não tinha esta parte de gestão não estava muito consolidada nele. Ele é uma pessoa que precisa de muitos desafios. Então ele entrou pra ser co-piloto ele já foi rever o manual de instruções, já foi dar treinamento e se envolver em outras coisas. E aí ele foi fazer um MBA em Kellogg, em Chicago, e lá ficou. Ficou lá dez anos. Depois que terminou o MBA ele foi contratado por uma empresa de aviação. Mas no MBA ele descobriu que uma das coisas que ele adora que são da área financeira. Então teve uma carreira bem interessante, porque ele entrou como um assistente nesta empresa na área financeira, foi crescendo, virou diretor e hoje ele é vice-presidente de uma empresa de aviação aqui no Brasil. Em fevereiro voltou com a família e está trabalhando, graças a Deus, aqui no Brasil.

 

P/1 – Que empresa?

 

R – WebJet. Ele é uma pessoa muito séria, muito competente, muito dedicada. Eu fico super orgulhosa dos dois. O outro tá lá se envolvendo numas coisas super fantásticas nesta área de tecnologia e este está fazendo um trabalho muito bacana nesta área financeira. Este tem dois filhos e estão morando no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Você tem dois netinhos!

 

R – Um casal. A Isabel que é a minha paixão. E o Felipe, é outra paixão. Como não tive menina, pra mim esta menina crescendo é uma experiência deliciosa. Deliciosa. Mas eu amo os dois. Nossa! Ficaram uma semana agora comigo nas férias, nossa, foi divertidíssimo. Porque, enfim, eu tenho um lado bem criança, bem brincalhão, eu mergulho nas brincadeiras. Enfim, é bem gostoso. Porque também a gente lembra a época das avós. Eu, pelo menos, tenho uma memória deliciosa das minhas duas avós. A que falava italiano, quase não falava brasileiro, e que eu ia na casa dela. Uma casa com corredor comprido. Hoje deve ser uma bobagem, mas quando você é criança é aquele corredor comprido... E lá na sala com aqueles móveis todos cobertos de lençol, para não ter pó, cobria tudo de lençol. E lá na sala ela me deixava tocar piano, que eu adorava piano. Lá me deixava brincar no piano de uma das tias. Eu achava o máximo aquilo. Então adorava ir na casa desta minha avó porque ela sempre falava: “Va bene”. Ela falava italiano. Eu ia lá toda feliz da vida naquela sala escura, aquelas casas antigas que você sobe umas escadas e tem um corredor que tem uma varanda com estes ladrilhos hidráulicos. Nossa, uma memória maravilhosa. Aí você chegava lá era a sala lá no fundo, sala de jantar. Depois tinha os quartos lá no fundo. Aquela coisa de antigamente. E a outra avó morava do lado, também foi uma experiência super agradável com ela. Adorava mexer no cabelo. Não sei porque criança adora mexer em cabelo de avó. Ficava penteando. Tinha uma trança que enrolava. Tirava a trança. Penteava, penteava. Assim. Me deixava mexer nas coisas das minhas tias. Os sapatos, amarelo, vermelho de bolinha branca. Enfim, deixava fazer tudo o que tinha vontade. Enfim, a minha memória de avó é muito boa e eu estou tentando reproduzir. Hoje a Isabel sabe exatamente onde eu guardo meus anéis, minhas pulseiras, meus sapatos. Vai lá e mostra para todo mundo que chega em casa. Engraçado… Então estes meninos estão encaminhados. Bem, graças a Deus. E a minha pergunta sempre foi: “Você está feliz?”. Porque quando o mais novo, o Paulo, foi pros Estados Unidos todo mundo dizia: “Nossa, como você vai deixar seu filho!”. Ele está fazendo o que ele quer. Eu não posso prender. Então é tão importante você ser feliz naquilo que você faz. Você está vivendo uma vida e tem que ser feliz. Problema vai ter. Não é uma vida sem problemas, não. Tem problemas, mas eu acho que na essência você tem que estar fazendo uma coisa bacana, que você goste, que você esteja se realizando. A minha pergunta até hoje é, ele mora do outro lado do planeta, na Califórnia, “Você está feliz?”. “Estou, mãe. Estou bem, fazendo o que gosto”. “Está feliz com a Laura?”. “Tô, tô feliz com a Laura”. Então está bom. O resto é uma distância que hoje você pode resolver com skype, pega um avião e vai, enfim, não há mais os problemas que havia antigamente. Demorava séculos pra chegar uma carta; o telefone não sei o quê... Enfim, não tem mais este problema.

 

P/1 – Nesta criação deles, você estava falando lá fora que você sempre teve uma coisa muito caseira, no sentido natural. Acho que isto veio dos teus pais, teus avós. Do escalda pé, da erva. Você pode falar um pouco disto?

 

R – A minha mãe sempre buscou coisas mais alternativas. Eu me lembro que tinha um médico chileno, atrás da Catedral da Sé...

 

P/1 – João Mendes?

 

R – Ali naquele miolinho tinha uma farmácia de ervas. Até hoje a coisa que mais me encanta é este aroma de madeira, porque é uma memória de infância. Quando a gente tinha algum problema ela nos levava – ele chamava acho que doutor Toris, eu acho, não sei. Aí tinha aqueles vidros, aquela madeira escura. Ele pegava no pulso da gente. Enfim, saía com um vidrinho de alguma coisa. Eu fui criada então com Beladona, Allium Separ, escalda pé – tá com gripe? Escalda pé – gargarejo, estas coisas. Então sempre teve este lado mais alternativo na minha vida. E a minha mãe embora tivesse este lado mais alternativo com o passar do tempo ela foi ficando hipocondríaca. Eu olhava pra ela tomando aquele monte de remédio e falava: “Ah, não, não quero remédio. Não quero”. Então meio criei a uma resistência a medicamentos. E este foi um grande desafio quando eu tive que fazer a quimioterapia. Porque você tem que tomar 500 mil comprimidos nos dias que antecedem, durante. Enfim, é uma coisa. Eu estava lá me tratando. Me tratando, não, porque não tinha nada. Na verdade experiência com hospital antes do linfoma foi uma operação de apêndice e os dois partos e mais nada. Não tive essa vivência de hospital. E sempre falei que uma doença era fruto de alguns sentimentos negativos que você desenvolvia. Coisas muito ruins internas. E acabei sendo vítima desta minha verdade. Não sei se é verdade, mas pra mim é. E aí, depois, eu fiquei com este segundo marido vinte e cinco anos.

 

P/1 – O primeiro você ficou quantos?

 

R – Ah, uns dez pelo menos. Entre namoro, uns quinze. Fiquei quarenta anos vivendo com homem. Então hoje o desafio é como viver sem. Aí, vinte e cinco anos, eu fiquei com ele porque achei que era o homem da minha vida, que eu ia ficar velhinha... Mas descobri que estas verdades nem sempre são verdades pra algumas pessoas. E aí uma empresa que era super bem sucedida no mercado.

 

P/1 – Qual o nome da empresa?

 

R – Interscience. Era super bem sucedida. Era objeto de desejo dos profissionais. a gente recebia currículo todas as semanas de gente querendo trabalhar conosco. De repente ele resolveu vender, vender, vender e nesta meia história ele se envolveu com uma pessoa que frequentava a família, que não pode mais ser chamada de amiga, e acabamos nos separando.

 

P/1 – Ele resolveu vender por algum motivo?

 

R – Eu acho que é porque a empresa ficou muito grande, eram cem funcionários. Uma empresa que vive de job a job é muita coisa. Toda vez que entrava aquele monte de gente falava: “Meu Deus, tem que sair vendendo! Tem que trazer dinheiro pra dentro”. Acho que ele queria uma coisa menor, enfim. Quer dizer, coincidiu a venda da empresa, que eu não queria, estava super feliz. Porque uma empresa é como um filho. Nós começamos com três pessoas e no final tinha cem. Um filho que vai crescendo. Então pra mim a venda foi muito complicada e depois, a ruptura, foi muito mais complicada ainda. E neste contexto de como absorver tanta coisa na minha vida, estou eu lá com as minhas mágoas, as minhas raivas, os meus ódios, desejo de vingança: vejo minha perna inchada. Falei: “Opa!”. Liguei pra Clínica Tobias, que é uma clínica de antroposofia, ou seja, que cuida do indivíduo no todo, pedi o médico mais antigo de lá. Falei: “eu quero uma consulta com o médico mais antigo”. Fui achando que eu ia sair com um vidrinho e saí com um monte de pedido de exame urgente e, em síntese, entre ir e o diagnóstico, foi uma sexta-feira, depois de três horas de consulta. A consulta do médico antroposófico é um pouco diferente porque ele faz perguntas do tipo: “Como você é no trânsito? Como você é no trabalho? Como você dorme? Como você come? O que você não gosta?”. Ele vai fazendo um quadro geral teu antes de começar a tirar a temperatura da perna, bater com martelinho. Então é uma consulta realmente muito cheia de detalhes para que ele possa ter um composto ali da história. E foi engraçado porque ele falou: “Muito bem, dona Ivani, o que a senhora me conta?”. Começou assim a consulta e eu tinha emagrecido dez quilos em quinze dias, desde o momento da separação. Eu estava assim... Só chorava. Aí depois desta consulta um monte de exames urgente, me liga numa sexta-feira e fala: “Vem aqui”. “Ah, não, doutor, não posso. Estou trabalhando”. “Venha já aqui”. Lá fui eu. “Olha, o seu caso não é simples; nós não podemos tratar aqui na clínica, eu marquei com um oncologista para a senhora no hospital. Amanhã, sábado, às nove horas você tem consulta”. “Como doutor? Amanhã? Sábado?”. “Sim. Tem consulta”. Lá fui eu fazer a consulta e descobri que o médico que ele indicou era um dos ótimos médicos do hospital e filho dele que é antroposófico. Muito bem, em dez dias, depois desta consulta, eu já estava fazendo a quimio. No dia, no sábado, ele falou: “Você tem um linfoma que numa escala de um a cinco é quatro. É gravíssimo. Mas nós precisamos saber que tipo que é. Enfim, este negócio que nem me interessa saber. Ok. “O que tem que fazer doutor?”. “Tem que fazer a biópsia”. “E como?”. “A senhora decide”. “Pode fazer já?”. “Pode, a senhora quer já?”. “Já”. Então eu fui e acabei no dia fazendo a biópsia e quatro dias depois implantando pra tomar a quimio.

 

P/1 – Como era esta...?

 

R – Era um de quatro centímetros, por isso que minha perna estava inchada. E um monte aqui no corpo. Estava tudo “empestiada”.

 

P/1 – Você tinha mais de um.

 

R – Mais. Vários. Vários, por todo o corpo aqui, por todo o tórax. Muito bem. Aí vamos fazer a fisioterapia.

 

P/1 – Aí você contou pra sua família?

 

R – Imediatamente contei. Um deles veio, o mais velho pode vir, veio. O outro também falando o tempo todo. Falando: “Isto aqui vai ser diferente, eu vou encarar, vou me cuidar e vou me curar”.

 

P/1 – Na hora você já teve esta...

 

R – Já, já, porque diante da história anterior recente eu tinha duas saídas: ou ir pra minha casa chorar, “Por que eu? Por que eu?”. Ou falar: “Vamos resolver”. E foi o que eu fiz: vamos resolver. Só que na época os dois estavam morando fora e falaram: “Mãe, você vai ter que nos passar um e-mail de manhã pra dizer como você passou a noite e a noite, pra dizer como passou o dia”. E aí eu comecei a escrever um negócio que eu chamei de Ivanews, que é um blog interno, não é público e tem pessoas que foram entrando à medida que eu fui falando. Então a Luciana do Oncoguia está, meu advogado, os amigos, os amigos que eu fui redescobrindo, que eu fui me aproximando, minha família. Está todo mundo neste grupo. E eu resolvi encarar de uma maneira muito, muito leve e rindo de mim mesma. Então, por exemplo, na primeira quimio, trinta dias depois cai todo o cabelo, o que aliás é um ponto que até hoje me incomoda, o cabelo, o resto não. Então começou a cair o cabelo eu falei: e agora? Vou ficar careca? Quando você olha uma mulher careca de lenço você fala: “Ah, coitadinha, tem câncer”. Eu não queria isto de coitadinha. Aliás foi a primeira coisa que eu escrevi: não quero uma palavra “estou preocupada com você”. Não quero esta palavra em nenhum momento. Nem escrita, nem falada. Aí eu falei: não vou usar lenço. Vou ficar careca. Não sei se eu tenho estilo pra fazer uma careca alternativa. Não, não tenho. Não sou deste estilo. Vou por peruca. Aí fui numa loja com uma amiga minha que é fotógrafa e ela fotografou. Loira: ficou horrível loira. Nossa senhora! Uma black power, fiz todos os estilos. E eu sou muito desajeitada e em casa tentei botar um lenço. Aí peguei todas as fotos e pus pra votação. Inclusive pro médico.

 

P/1 – No Ivanews?

 

R – É, no Ivanews. Aí o médico falou: prefiro pano. “Ah, prefere pano! Você não tem a menor ideia do que significa cabelo pra uma mulher”. Aí escolhi uma peruca e a partir daí fui sempre brincando com as minhas reações. Então, o dia que você toma uma quimio é tão pesado o negócio que parece que você tem uma jamanta. Aí eu ia descrevendo como eu estava, o que tinha acontecido, etc, etc. Isto foram dois e-mails por dia durante 180 dias. Então só aí eu tenho mais de 300 e-mails. Após a terceira quimio eu fiz aquele que te fatia inteira pra ver se você tem alguma coisa ou não. Eu tinha uma nuvenzinha assim; já tinha sumido praticamente tudo, só tinha uma nuvenzinha. Fiz o resto das oito sessões. Na última não tinha mais nada. Aí eu falei: “Bom, não vou escrever todo dia, agora chega. Vou escrever cada dois, três dias”. E aí eu tenho escrito mais ou menos uma vez por semana. Até hoje. Porque quando demora um pouquinho, uma vez por semana, o pessoal: “Ah, cadê as novidades?”. Com isto eu descobri que eu gosto de escrever de um jeito mais brincalhão, rindo sempre de mim mesma, observando o comportamento das pessoas, etc, etc. Então eu fui fazer um workshop de escrita criativa, deste workshop provavelmente vai sair um pequeno livro de contos. Este Ivanews estou editando pra fazer um livro mesmo sobre esta experiência com o câncer. No sentido de que “Vamos quebrar esta história de que o câncer é definitivamente uma sentença de morte”. Não é, porque hoje tem milhares de formas de diagnosticar, diferentes tratamentos. Tem tanta coisa interessante aí à disposição. Uma coisa importante: durante o tratamento eu não deixei de fazer o acompanhamento antroposófico. Eu tomei umas injeções alemãs, da antroposofia, subcutâneas. Eu fiz acupuntura duas vezes por semana, eu fui fazer terapia. Porque tem momentos que realmente você fica muito deprimida. Estes químicos mexem muito com você. E eu não queria entrar num processo de buá, buá. Ficar chorando em vão. E, sempre que eu pude, fui andar. Eu moro ao lado do parque. Graças a Deus sou uma pessoa privilegiada, eu sempre que tinha energia ia andar no parque. Na verdade eu fiz um combinado de tratamentos.

 

P/1 – Quando que foi?

 

R – Foi em maio de 2009. De maio a outubro o tratamento. É claro o tratamento é ultra invasivo. Ele pega os seus glóbulos brancos e bota lá no pé. Eu acho que o normal é dois mil e pouco, nem gravei estes números que pra mim não interessa. Eu tinha assim: vinte, trinta, tava lá embaixo. A ponto da primeira vez o hospital me ligar e falar: “Venha imediatamente para cá”. Eu falei: “Não, imagina, estão almoçando com uns amigos, não vou não!”. “Não, venha”.  Porque a taxa estava tão baixa, tão baixa, e esta taxa baixa de glóbulos brancos te vulnerabiliza, porque você pode pegar um resfriadinho e blau blau. Então eu passei o tratamento com este problema de glóbulos brancos. Que é normal pra quem faz quimioterapia e tem que ficar tomando injeção, injeção.

 

P/1 – Onde você fez o tratamento da quimio?

 

R – No Einstein. Fiz com o doutor filho e com o doutor pai, o suporte. E enfim, então, esta experiência foi ótima. Eu sempre digo que eu agradeço ao linfoma porque eu descobri que eu gosto de escrever, eu retomei alguns contatos que estavam afastados, eu fiz novos amigos e, enfim, estou tendo uma vida que eu acho maravilhosa. Eu decidi ficar um ano numa espécie de um sabático. Não foi bem sabático porque eu fiz um ou outro projeto de pesquisa. Aí eu abri a minha consultoria de pesquisa e estou aí escrevendo. Há uns seis, sete anos comecei a fotografar. Tenho um grupo de amigos fotógrafos que não discutem técnica nem equipamento. A gente se reúne pelo prazer da fotografia. Que é coordenado por um fotógrafo profissional que traz temas pra gente desenvolver, conversar. Ele traz material, traz gente pra dar depoimentos. E tem sido muito interessante. Por exemplo, o ano passado depois daquela tragédia de São Luiz do Paraitinga nós fomos lá e fotografamos principalmente as pessoas. Colhemos alguns depoimentos e tal. E agora na Festa do Divino, nós fomos lá na Festa do Divino do ano passado – somos em dez fotógrafos – fizemos uma exposição com as pessoas, imprimimos as fotos e demos para as pessoas. E foi maravilhoso porque as pessoas sentem uma gratidão por você fazer isto. É uma coisa tão bacana. Eu fui também pra África do Sul, em Cape Town, e comecei a fotografar as pessoas que nos atendiam. Porque Cape Town é uma cidade de brancos servida por negros. Diferente de Joanesburgo que é uma cidade de negros com uns guetinhos de branco. Aí eu faço assim: toda vez que eu fotografo uma pessoa eu peço o endereço ela e mando a foto. Porque eu acho que é o mínimo de respeito que você tem pela pessoa. Como as minhas fotos não têm motivos comerciais eu nem tenho preocupação em pedir autorização porque não vou fazer nada com elas a não ser dar para as pessoas e ter no meu arquivo pessoal. E eu fiz fotos de várias pessoas. Foi tão bacana. Eu mandei e eles mandaram cada e-mail de agradecimento! São todos negros lindos, só que ainda sofrem pelo preconceito. Porque lá eles não são gerentes. O gerente do restaurante ou do hotel é branco. Quem serve é o negro. Então você sente que tem esta diferença crucial. Então os caras se sentem importantes de terem sido fotografados e receber as fotos. Foi muito legal. Uma experiência muito bacana.

 

P/1 – Você não teve que fazer nenhum tipo de cirurgia?

 

R – Não.

 

P/1 – Fez este tratamento de quimio e como são seus controles?

 

R – Cada seis meses por aí mede o sangue. Cada ano faz uma geral.

 

P/1 – Você teve medo de morrer em algum momento?

 

R – Não, nunca. Nada de nada. Eu acredito piamente que a morte pra mim vai ser uma coisa assim: um dia dormir e pronto, ir para outro nível.

 

P/1 – Você disse que logo de cara você falou alto astral. Você teve algum apoio religioso? Foi buscar alguma coisa?

 

R – Não. Em termos de religião não.

 

P/1 – Espiritualidade.

 

R – Na verdade fui tomar alguns passes num centro kardecista e eu tenho a minha própria, vamos dizer assim… Esqueci de falar de uma coisa que eu comecei a fazer e foi altamente benéfica, que foi meditar, então junto com tudo isto, foram algumas tentativas durante o tratamento porque meditar não é uma coisa simples, ela exige de você muita paciência. E eu no geral sou uma pessoa impaciente. Talvez eu tenha deixado um pouco de ser impaciente por conta da meditação. Mas ela traz um benefício! Eu não consigo explicar pra você de tão maravilhoso que é. É absolutamente fantástico. Não é que eu fique meditando horas. Não, eu medito muito pouco tempo, quinze minutos, vinte, por dia. Mas é o suficiente pra dar uma sensação muito, muito boa. Então, assim, todos os dias eu procurava realmente pensar em quão privilegiada que eu estava sendo com meus amigos, com minha família, com esta energia toda que eu tinha e que só podia agradecer sei lá, ao universo, a um ser superior que estivesse me dando força. Uma coisa engraçada que aconteceu é que antes do diagnóstico, eu estava naquela fase chorona, ódio, vingança, blá, blá, blá, estou no meu carro e para um carro importado ao meu lado, com uma senhora muito bem vestida e um senhor e ela falou assim: “Por favor, por favor”. Como eu tinha lido que tinha uma mulher de BMW que estava dando uns golpes dizendo “você tem um problema, tá aqui meu cartão”, e dava um golpe qualquer, eu olhei desconfiada. Ela falou: “Abre o vidro”. Eu falei: “Estou aqui, engato a primeira e me arranco, fujo pra uma delegacia”. Ela falou assim: “Minha filha, você tem o anjo da guarda mais lindo que eu já vi na minha vida em cima de você. Fica tranquila que ele te protege, viu?” Eu olhei pra mulher, meu coração começou a disparar, falei: “Meu Deus, o que é isto? O que é isto? Será que ela vai falar agora “Tó um cartão”?. Nada. Ela falou: “Deus te abençoe, minha filha”. Fechou a porta e foi embora. Sei lá o que é isto, não sei. Não tenho explicação pra isto, não sei. Mas de qualquer forma aquilo serviu como uma referência positiva na minha vida. Bom, eu tenho alguém aí que me protege das coisas. Agora, é claro que um tratamento com estes químicos todos provoca alguns desequilíbrios, então teve dias, sim, que eu tive vontade de chorar o dia inteirinho. Chorar ali, ficar chorando, chorando, chorando. Não tinha nem mais uma razão específica. Chorar, chorar, chorar. Aí o que eu fazia? Quando dava isto, esta coisa, eu chorava um pouquinho, eu já procurava fazer uma coisa totalmente diferente. Ligava pra uma amiga. Pegava o carro, dava uma volta. Virava a chave pra não ficar naquela coisa. Porque a gente tem uma tendência a se sentir vítima da vida, das coisas. É mais fácil ficar chorando e é mais difícil você falar “Não, eu vou sair desta”. Então sinteticamente é isto. Eu acho que tudo acontece pra um grande aprendizado na vida. De tudo você pode tirar coisas muito boas. E estou aqui, com sessenta e cinco anos cheia de energia, querendo fazer um monte de coisas. Querendo trabalhar aqui com vocês, querendo, sei lá, fazer um monte de coisas.

 

P/1 – Ivani, com quem você aprendeu a meditar? Você foi buscar aprender?

 

R – Eu fiz um curso por correspondência de uma organização chamada Self, que tem uma sede em Los Angeles, e um dia eu vi que ia ter uma palestra em São Paulo, ali no Itaim, eu fui e me inscrevi. E cada quinze dias durante três, quatro anos, eles mandavam lições que eu tinha que ler a teoria e depois fazer o exercício. Isto me deu uma base muito, muito boa. No meio desta história toda de tratamento fui fazer um pouco de ioga. Hoje eu faço pilates, que eu acho uma coisa importante para a musculação, postura e tal. Faço a meditação todos os dias, religiosamente. O dia que eu não posso fazer por algum motivo, chego muito cansada, enfim, eu fico meio mal humorada de pensar que eu não fiz. É assim. Uma vida boa. Vou ao cinema, ao teatro. Vou viajar agora, vou ficar com meu filho mais novo na Califórnia. Estou com muitas saudades dele. Quero ficar um pouquinho lá. Encher a geladeira de comida e tal. Aquelas coisas de mãe. Supermãe.

 

P/1 – Se você pudesse mudar alguma coisa na tua trajetória de vida você mudaria?

 

R – Não. Teve momentos que eu falei: “Ah, eu devia ter feito isto, devia ter feito aquilo. Eu não devia ter confiado tanto. Dado na mesma moeda”. Mas não, eu cheguei a conclusão que eu sou assim. Sou esta pessoa que acredito e confio, de cara eu confio. Sou incapaz de fazer um mal juízo: “Ah, será que ela é...?”. Não, você e você e ponto. Estou confiando. Confio nele, confio no outro. Não mudaria nada, não. Talvez, se eu tivesse um pouco de maturidade, mas aí é engenharia de obra feita, eu teria feito ou Antropologia ou Jornalismo. E não Ciências Sociais. Talvez, talvez. Mas eu tenho uma experiência de vida tão rica, tão cheia de coisas que me emocionam, que me orgulham. Não mudaria nada mesmo. Não mudaria nada.

 

P/1 – Qual o seu maior sonho?

 

R – Meu maior sonho? É poder viver o mais proximamente dos meus filhos. Eu gostaria muito que o que mora na Califórnia viesse embora. Embora eu ache que isto é praticamente impossível. Esta convivência familiar é uma coisa tão importante. Por conta deste segundo casamento eu fiquei muito concentrada no trabalho com ele e me afastei, sim, de algumas pessoas queridas da minha família que depois eu retomei. Eu acho que esta convivência familiar é uma coisa que eu quero continuar tendo, que eu acho muito boa. Mesmo naqueles almoços que eu acho que um discute com o outro. Mas no final é jeito italiano de ser. Então, assim, eu quero continuar esta coisa boa de estar com meus amigos, de poder escrever. Na verdade, hoje, os meus sonhos são sonhos pequenos, não sonhos enormes. É poder curtir as crianças, os netos. É poder viajar. É poder assistir um concerto bacana. É poder fazer alguns trabalhos voluntários. São pequenos sonhos, não tem “O” sonho. Publicar talvez um livro, o Ivanews, que talvez possa ajudar muita gente. É isto. Nada assim gigante. Entendeu? Ganhar na loto. Nada disto. Coisas pequenas, factíveis, vamos dizer assim.

 

P/1 – Você disse que desenvolve um trabalho voluntário? Como começou?

 

R – Começou por conta da indicação do doutor filho. Ele me indicou, aí eu fui fazer uma entrevista com a Luciana, numa rádio. A Luciana que é a idealizadora desta ong, que é maravilhosa, faz um trabalho fantástico. Aí ela me convidou pra fazer parte deste comitê de pacientes que visa divulgar as histórias de vida mostrando que hoje o câncer não é uma sentença de morte. Hoje o câncer é uma doença que pode, sim, ser curada. Você tem doenças, como por exemplo, diabetes, que não tem cura. Então é quebrar este preconceito que na época do meu pai, que morreu de câncer ósseo, da minha mãe, que morreu de câncer no pulmão.

 

P/1 – Então você tem já...

 

R – Tenho uma história. Era uma época que nem um médico tinha coragem de falar a palavra câncer. “Aquela doença”. E chamava filho, entendeu, pra falar do diagnóstico. Então quando veio o meu diagnóstico eu falava: “Nossa, não vai ser de jeito nenhum igual. Vai ser totalmente diferente. Vamos falar câncer. Câncer”. Falar bastante que ele vai perdendo a força. Então assim, “não pode falar, a pessoa doente não pode saber”. Não, o que é isto? Vamos saber! Vamos olhar de frente, encarar e ponto final. A Luciana é uma menina de um valor tremendo, porque tão nova está engajada numa coisa tão grande e tão, tão, bacana. Na medida do possível estou ajudando. Tem que dar uma entrevista pra falar... Vamos lá, dou a entrevista. Tal, tal, tal. Estou disponível, pode me acionar a qualquer hora que tenho o maior prazer de falar como foi a experiência, como é que eu lidei.

 

P/1 – O que você achou da experiência de estar dando teu depoimento para o Museu da Pessoa e para o projeto Doadores de Sabedoria?

 

R – Olha, eu fiquei muito, mas muito feliz de poder fazer isto. Porque veio ao encontro deste meu projeto do Ivanews, que é fazer um pequeno manual, talvez, não sei bem como vai chamar, pra mostrar. Algumas pessoas da minha própria família disseram: “Olha, com o seu comportamento eu mudei a minha perspectiva em relação ao câncer”. Então, poder fazer isto e saber que alguém vai ouvir, ou vai ler, e vai sentir que é possível achar outras alternativas e não ficar em casa chorando e se sentindo o último; perguntando “Por que eu? Por que eu? Por que eu?”. Eu acho que fiquei bastante envaidecida de poder vir aqui. Se bem que vaidade não é uma coisa bonita, mas tudo bem, no sentido de poder dividir uma experiência de vida e ficar pra alguém que vai olhar e falar: “Nossa, eu também posso olhar de frente e falar: vai ser diferente”.

 

P/1 – Nossa, que linda entrevista. Obrigada.

 

R – Eu agradeço a oportunidade. Estou encantada com o Museu. Quero trabalhar aqui. Vou deixar meu currículo. Posso?

 

P/1 – Oba, claro.

 

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